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More or less

por Pedro Correia, em 27.03.17

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A falta de cultura exibida como flor na botoeira é uma das características dominantes nestes dias em que quase tudo se nivela forçosamente por baixo. O sábio e o burro vivem irmanados à mercê de um clique digital. Razão tem o pai da Internet, Tim Berners-Lee, em mostrar-se  preocupado com a desinformação galopante, potenciada pelo seu invento.

Lembrei-me disto ao ouvir há dias num canal televisivo o jovem curador da "primeira exposição-manifesto” no novíssimo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa, intitulada Utopia/Distopia. Dizia ele que este evento se destina a "celebrar os 500 anos da Utopia de Thomas "Moore" (pronunciando "Múa"). E adulterou duas vezes o apelido de sir Thomas More para que ninguém ousasse duvidar da sua falta de conhecimentos na matéria.

"Estamos mais desinformados que nunca", reconhecia amargamente Berners-Lee na sua carta publicada há dias no blogue da Fundação World Wide Web. Tem motivos de sobra para concluir isto, quando a Utopia de More é atribuída por alguém com supostas responsabilidades culturais a um tal Moore. Presumivelmente da família do ex-007. Moore, Roger Moore.

São sinais dos tempos: verdade ou mentira, rigor ou imprecisão, More or less. Tanto faz. E siga a banda.

 

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O declínio do pensamento

por Pedro Correia, em 09.02.17

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“Fui professor e garanto-lhe que os meus primeiros alunos podiam agora ser catedráticos. Saber pensar e raciocinar está em declínio.” Palavras do escritor espanhol Félix de Azúa, em recente entrevista ao jornal El Mundo. Palavras certeiras, que ilustram a erosão cultural a que vamos assistindo nos mais variados domínios. Erosão que começa no vocabulário, cada vez mais comprimido: a cada década que passa, milhares de palavras vão morrendo por falta de utilizadores. A capacidade de decifração de textos escritos há meio século, para não recuar mais no tempo, vai-se reduzindo. Vocabulário exíguo gera pensamento estreito e dicotómico, que pretende expurgar toda a complexidade e só busca respostas simplistas, potenciadas pelo maniqueísmo da chamada democracia digital, pronta a colocar o ignorante no pedestal antes reservado ao sábio.

O erudito está hoje condenado ao ostracismo pela ululante multidão de “utilizadores” das chamadas redes sociais, dispostos a substituir o pensamento racional por emoções avulsas, inflamadas com muitos likes.

 

Voltei a reflectir em tudo isto ao ver ontem uma cena de uma série televisiva, aliás excelente, rodada em Paris por alturas do Natal. Um americano encontra-se com uma francesa numa brasserie e ela pede ao empregado: “Mon ami voudrait bien un verre de vin.” Tradução, na legendagem: “O meu amigo gostaria de um vinho verde.”

O copo de vinho [verre de vin] transforma-se num inverosímil vinho verde [sem tradução, mas que à letra seria vin vert]­, por obra e graça sabe-se lá de quê, transportando a frescura das adegas de Penafiel ou Mondim de Basto para o aconchego natalício de uma brasserie parisiense.

O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa tanto como a carpintaria da língua quando se traduz seja o que for. Mas raciocinar é uma velharia em declínio. Para quê desgastar os neurónios se não tarda muito teremos um qualquer robot multilingue a desempenhar tão cansativa função por nós?

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 A fotografia acima foi retirada de um post no LinkedIn. A legenda conta a história:

«Wolf pack & strategy: The first 3 are the older or sick & they set the pace of the group. If it was on the contrary, they would be left behind and lost contact with the pack. In ambush case they would be sacrificed. The following are the 5 strongest. In the center follow the remaining members of the pack, & at the end of the group the other 5 stronger. Last, alone, follows the alpha wolf. It controls everything from the rear. That position can control the whole group, decide the direction to follow & anticipate the attacks of opponents. The pack follows the rhythm of the elders & the head of command that imposes the spirit of mutual help not leaving anyone behind.»

 

Infelizmente a história é falsa e completamente inventada. A fotografia foi tirada por outro fotógrafo (Chadden Hunter) que não o citado (Cesare Brai) e faz parte da série de David Attenborough Frozen Planet. Não vou explicar muito sobre a foto e a história em si. Para tal, mais detalhes aqui.

 

A foto pareceu-me desde o início excessivamente limpa, clara e perfeita para a explicação. Por isso investiguei se seria verdadeira. Depois de explicar a realidade no post, fui atacado por não perceber o valor simbólico da metáfora e foi-me dito, incrivelmente, que a exactidão da história não era importante.

 

Isto é para mim difícil de entender: como é possível que a exactidão, a veracidade de um relato não seja importante? Se queremos histórias inspiradoras e didácticas podemos refugiar-nos em parábolas ou fábulas. São criadas para tal e, apesar da falta de fotografias que se partlhem na net, estão habitualmente muito melhor escritas.

 

A minha dificuldade é que, perante a falta de compreensão da fotografia, e mesmo aceitando a descrição como real, eu poderia virar a história ao contrário: os mais velhos existem para ser sacrificados, o/a alfa (figura que na realidade não existe) merece que se morra por ele/a e pode e deve controlar tudo. Interpretando a história falsa de outra forma pintamos uma imagem bastante desagradável. Especialmente quando a realidade basta: o líder segue na frente, usando a sua força para abrir um caminho que os restantes - que não são subordinados - seguem.

 

A net é uma fonte de informação mas a maioria usa-a como fonte de desinformação. Uma forte parte do problema é a incapacidade de usar alguma medida de espírito crítico que permita questionar o que nos chega às mãos (ou olhos). Não é, na minha experiência, exclusivo de nenhuma sociedade ou cultura, mas tende a ser tanto mais pronunciada (de novo, de acordo com a minha experiência) quanto menor for a formação científica.

 

O método científico, com todas as suas falhas, ensina antes de mais a questionar observações e a formular hipóteses que devem ser testadas. Isto é válido para um laboratório e para o cientista que faz as suas culturas num disco de Petri, mas também para o leitor genérico que vê um post no Reddit ou LinkedIn ou Facebook. A ignorância nunca é um pecado nem um defeito (todos somos vastamente mais ignorantes que conhecedores), mas a falta de espírito crítico ou de vontade de pensar é um dos maiores males modernos.

 

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Só esta citação para terminar. Lincoln sabia da poda.

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Um poeta com os pés na terra

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.04.16

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Dos melões costuma-se dizer que só se sabe se são bons depois de abertos. De um cidadão, de um funcionário, de um servidor do Estado conhecem-se as suas atitudes, os seus comportamentos públicos, o mérito ou demérito das suas acções. Da escrita de um poeta é, por vezes, possível conhecer a sua intimidade, o seu modo de pensar, nem sempre a sua circunstância. Mas de um ministro só será possível analisar a sua acção no fim, embora se possa sempre dizer que não raro na política há males que vêm por bem. Em todo o caso, não posso deixar de pensar que a chamada de Luís Filipe Castro Mendes ao Ministério da Cultura me parece uma decisão sensata e acertada. A entrevista que deu à RTP revela antes de mais a ponderação e a serenidade do escolhido, uma abertura de espírito e uma predisposição para o exercício do cargo pouco habituais na nossa vida pública. E ideias.

Um discurso directo, claro, frontal, eminentemente livre e bem articulado, revelador de uma capacidade de análise e de abertura para a aprendizagem indispensáveis a um bom exercício do cargo. Longe dos excessos verbais, do umbiguismo, da má educação e indisfarçável pesporrência de que padeciam alguns dos seus antecessores, capaz de olhar o seu interlocutor nos olhos sem fugir às questões, Castro Mendes apresenta-se à partida como o homem certo para o lugar no momento adequado.

Sem pressas, genuíno, consciente da sua missão, caloroso q.b., a sua primeira entrevista serviu, para já, para nos apresentar o homem. E elevar a fasquia. Muito. Oxalá tenha sorte, e que não nos desiluda, porque quanto ao resto não me parece que lhe falte alguma coisa para o exercício do cargo.

Ninguém lhe pede que transforme um país de versejadores natos e humoristas de vão de escada numa terra onde os Camões, os Pessoa, os Cardoso Pires ou os Lobo Antunes se reproduzam aos pontapés. Ou que dê novos fados ao nosso Fado. Nem mesmo que ensine regras básicas de civilidade e princípios de cidadania aos muitos que ainda os não têm. Mas apesar de tudo, e sem que eu saiba qual a atitude que adoptará em relação ao novo Acordo Ortográfico de 1990, é reconfortante pensar – e este é um bom princípio –, que na Cultura está um homem de cultura. Um homem civilizado. Um poeta com os pés na terra.

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Um Ministro Poeta

por Isabel Mouzinho, em 12.04.16

Sou tudo menos socialista, já se sabe. Mas ter um poeta como Ministro da Cultura, parece-me bem, confesso. Porque terá, pelo menos, um peculiar entendimento das coisas, uma sensibilidade maior. E isso é muito importante.

De Luís Filipe Castro Mendes conheço pouco. Mas à esquerda e à direita todos lhe tecem os maiores louvores. Segundo a minha amiga Helena, que o conhece bem, (...) iremos ter como Ministro da Cultura um homem muito inteligente, muito culto, e cuja profissão de origem, a diplomacia, lhe permitiu correr mundo e contactar com culturas muito diversas.

Humanamente é um homem caloroso, cujo olhar sereno mas directo só pode tranquilizar aqueles que, na área que vai conduzir, ponham parte do destino profissional nas suas mãos.

A Helena tem certamente razão. Há uns três anos estive no lançamento de um livro do futuro Ministro e gostei muito. Pude testemunhar a serenidade calorosa de que fala a Helena e tocou-me sobretudo a simplicidade com que pegou no seu livro e leu alguns poemas, que é no fundo a melhor maneira de os apresentar.

Vamos ver como se sai na política, mas lá que promete, disso não restam dúvidas...

 

Para a solidão nascemos. Outras vozes

nos chamam e invocam, outros corpos

se perfilam radiosos contra a noite.

Nós não somos daqui. Num intervalo

de campanhas esquecidas nos dizemos,

abrindo o coração aos de passagem.

Mas quando a manhã chega nós partimos,

mais livre o coração, longa a viagem.

 

                                                          (Luís Filipe Castro Mendes)

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Michel Giacometti e o Plano de Trabalho e Cultura - Serviço Cívico Estudantil

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Há 40 anos começou a acabar | 04. Casa para todos

por Tiago Mota Saraiva, em 26.11.15

Continuar a viver - Índios da Meia Praia de António da Cunha Telles

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Há 40 anos começou a acabar | 03. Reforma Agrária

por Tiago Mota Saraiva, em 25.11.15

Torre Bela de Thomas Harlan

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Há 40 anos começou a acabar | 01. Operações SAAL

por Tiago Mota Saraiva, em 23.11.15

Trailer do Filme AS OPERAÇÕES SAAL de João Dias 


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Lá, como cá!

por Helena Sacadura Cabral, em 23.03.15

UN APERÇU DE LA CULTURE DES ADOS :

 

Quel est le plus grand navigateur au monde ?

- Internet Explorer !

 

Quelle est la capitale de Taïwan ?

- Made-In

 

De quelle œuvre est issue la phrase "To be or not to be" ?

- De "Questions pour un champion".

          

Pourquoi dit-on de Jules César qu'il était un dictateur ?

- Car il savait dicter plusieurs lettres à la fois ; il était très rapide.

 

Quelle est la taille de Hong-Kong ?

- 10 m, peut-être plus ; il est très grand !

 

Qui était Léonard De Vinci ?

- Un très grand écrivain ; son œuvre principale est Da Vinci Code.

 

Qui était Galilée ?

- Un grand savant. Avant lui, la terre ne tournait pas.

 

Qui était le Général de Gaulle ?

- Un homme dans le dictionnaire. Il fut un protestant très pratiquant, catholique même. C'est pourquoi il a été enterré dans un village avec deux églises, à Colombay.

 

Expliquez-moi la règle des probabilités.

- C'est une règle mathématique mais on ne sait si elle existe ou pas.

 

Vous êtes certain ?

- Eh non, puisqu'elle n'est que probable !

 

Quelles sont les trois grandes périodes de l'humanité ?

- L'âge de la pierre, l'âge du bronze et l'âge de la retraite. Ce dernier est le plus court.

 

Comment est mort Napoléon ?

- Il a été décapité, comme Bonaparte et tous les rois, d'ailleurs.

 

Parlez-moi des croisades.

- C'est un voyage organisé. Il a été organisé par le Pape pour que les chrétiens se rencontrent et discutent entre eux.

 

Pouvez-vous me parler de l'âge de pierre ?

- Oui, Pierre avait entre 30 et 35 ans ; c'était un apôtre du Christ.

 

Parlez-moi de la Révolution française.

- Les Français s'insurgent ; ils prennent la Bastille. Cela se termine le 14 juillet avec des feux d'artifice.

 

Parlez-moi des capacités du cerveau

- Le cerveau a des capacités tellement étonnantes que, aujourd'hui, presque tout le monde en a un.

“Je n'en suis pas persuadé !” a répondu le professeur

 

Qui a inventé le zéro ?

- Personne ne le sait. On peut dire que devant, il ne sert pas à grand-chose mais il est très utile car c'est le seul chiffre qui permet de compter jusqu'à 1. Sans lui, on aurait commencé à 2.

 

Et encore:

 

- La solidarité sociale a poussé l'Etat français à construire des H&M.

 

- Un ovale est presque rond mais quand même pas.

 

- La décolonisation est quelque chose de nécessaire car on ne peut laisser les enfants en colonies de vacances toute l'année.

 

- Si De Gaulle n'apparait pas sur les photos de la conférence de Yalta c'est parce que c'est lui qui les a faites... évidemment!            

 

-  Pendant la guerre, les gens étaient très occupés par l'occupation

 

Ah, que c'est bon de savoir que les ados ont de l'humour.

 

Podiamos pensar que exemplos destes só se passavam em Portugal. Afinal estamos bem acompanhados pela sabedoria dos adolescentes franceses que nasceram na terra da cultura...

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Um festival da diplomacia cultural dirigido aos sentidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.05.14

Em 1993, o Consulado Geral de França em Hong Kong e Macau deu início a um conjunto de iniciativas que se têm vindo a repetir anualmente e são actualmente conhecidas como "O Maio Francês". Em rigor, Le French May é bem mais do que um simples festival porque não só não se esgota em Maio como consegue prolongar-se por todo o mês de Junho, com extensão, num caso pelo menos, até Setembro, congregando exposições, cinema, música e gastronomia. Este ano terá lugar a vigésima segunda edição e o que aí vem é um verdadeiro festim para os sentidos, celebrando os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre a França e a China.

Deixo aqui para os leitores do DO uma pequena ideia dos eventos, mas gostaria em especial de sublinhar a exposição de doze obras primas da pintura mundial, que estará patente no Museu de Arte de Macau, e que justificou o maior seguro alguma vez feito por estas bandas, isto é, qualquer coisa como o equivalente a € 300.000.000,00 (trezentos milhões de euros). Entre as obras que estarão à vista de quem nisso tiver interesses sublinho Le Balançoire, de Renoir, Le Verrou, de Fragonard, o retrato de Francisco I, de Clouet, e Pintor e Modelo em Estúdio, de Pablo Picasso. As obras virão directamente para Macau do Museu D'Orsay, do Louvre, de Versailles e do Centro Pompidou. 

 

Para quem é apreciador de Rameau, tantas vezes esquecido e aqui há uns anos justamente homenageado no CCB, num programa da Festa da Música, destaco  Le Concert d'Astrée com Emmanuelle Haïm, a soprano Katherine Watson e o tenor Anders Dhalin. Por ser uma das minhas obras favoritas, espero que seja possível escutar Rondeau des Indes Galantes. Mas também virão Philippe Jaroussky & The Venice Baroque Orchestra, Roland Dyens, O Fausto, de Gonot, numa co-produção da Ópera de Nice Côte d’Azur, da Ópera de Avignon e do Théâtre de Saint-Étienne, dirigida por Paul-Emile Fourny, Sons d'Auvergne pela Filarmónica de Hong Kong e a mezzo-soprano Clara Mouriz.

Muito mais haveria a dizer, como haverá depois a contar, mas convém que para os lados da Gomes Teixeira e das Necessidades se reflectisse também sobre se não fará mais sentido uma ofensiva da nossa diplomacia cultural, em larga escala, que atrás dela levará a diplomacia económica, do que andar a vender apartamentos com títulos de residência acoplados, a preços inflacionados e sem verdadeira criação de riqueza.

De qualquer modo, deixando estas considerações para outra altura, se o leitor está a começar a planear as suas férias de Verão, tem uma deslocação prevista para estas bandas ou está simplesmente indeciso, talvez não fosse mau começar a pensar na hipótese de aproveitar a viagem e gozar os prazeres de Le French May. Ao contrário de outras saídas, em que o risco é nosso e a gestão por conta dos outros, esta seria uma saída limpinha. Pode ter a certeza de que tudo aquilo que puder ler, ver, ouvir e degustar por estes lados, nunca ninguém lhe poderá tirar.

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Barrete

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.02.14

Um tribunal escreve no respectivo acórdão que a expedição de um conjunto de obras de Miró foi "manifestamente ilegal". E para que não haja dúvidas acrescenta "não ser necessário argumentação sofisticada para concluir que a realização do leilão pela leiloeira Christie's das obras de Joan Miró comprometeria gravemente o cumprimento dos deveres impostos" pela Lei de Bases do Património "e reduziria a nada a concretização dos deveres de protecção do património cultural" (socorro-me da citação do Público).

Que o presidente do Conselho de Administração da Parvalorem olhe para as obras e em vez de arte e património veja notas de euros, parece-me normal tratando-se de um economista, tendo em atenção as funções que exerce e as tarefas que lhe foram cometidas de espremer as tetas de uma vaca exaurida. Menos curial será a posição do secretário de Estado da Cultura, que depois de atirar para o Governo anterior as culpas do País ter "herdado", contra vontade, é certo, uma colecção de excepção, ainda se permitiu, quando questionado sobre a manifesta ilegalidade do seu despacho que autorizou a exportação das obras, perguntar se "seria normal que por causa de uma questão deste género eu pondere a demissão?".

Pois a mim parece-me que fazendo Barreto Xavier parte de um executivo liderado por uma organização juvenil do PSD, afinal o mesmo executivo de onde saiu o senhor Relvas depois de uma fantástica conferência de imprensa, de onde se demitiu "irrevogavelmente" o dr. Portas e de onde fugiu o dr. Vítor Gaspar, depois de um acto de contrição que durou meses a ser preparado, não seria nada normal que ponderasse sequer a hipótese de demissão. Qual demissão qual quê, pá, está tudo doido? Nem por uma "questão deste género" nem por nenhuma outra. O senhor Barreto Xavier ainda se arriscava a ser praxado e não seria bonito vê-lo de gatas com aqueles tipos e aquelas tipas que querem ter "o direito à humilhação" a mandá-lo fazer "béubéu". Nem pense nisso.

O senhor Barreto Xavier deve continuar onde está. Se possível indefinidamente. E se alguma vez tiver a triste ideia de ponderar a hipótese de sair, o melhor é só fazê-lo depois de garantir, pelo menos, um louvor e a imprescindível condecoração do Prof. Cavaco. Hoje em dia, como sabe, esses ornamentos são fundamentais para a apreciação do mérito de um funcionário, até mesmo dos piores, e o senhor não é menos do que estes. Dava-lhe jeito e teria o efeito dos portugueses já não estranharem na hora da promoção. Fique onde está, homem, tente continuar sempre assim, marimbe-se (esta é do saudoso Azevedo) para a ilegalidade e para essa trampa dos "mirones" e vai ver que chega ao fim do mandato. É limpinho. Fazer figura de parvos, aplaudir filósofos baratos, comer gato por coelho e enfiar barretes, vindos sabe-se lá de onde, tudo isso é connosco. Siga para bingo, sem crise.

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Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 28.12.13

 [FLS, MAFLS]

 

Antes de mais, e já que ainda vos apanho na oitava natalícia, faço votos para que (trabalhando ou feriando) continuem a celebrar a quadra com ternura e boa disposição.

Gostava de vos recomendar nesta semana um blogue cuja minúcia e detalhe vão bem a par da sua matéria: chama-se Memórias e Arquivos da Fábrica de Loicas de Sacavém. Através da exposição das razões e inspiração inscritas em cada objecto, o seu autor - que não consegui identificar- torna possível sabermos um pouco mais sobre o nosso país na época da sua produção. Para mais, o dito autor/a parece tão ou mais recomendável que a obra: uma busca no Sapo permite intuir um daqueles polígrafos inspirados e curiosos que as novas plataformas de publicação em rede têm trazido ao conhecimento público. Um caso a seguir.

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A excepção cultural

por jpt, em 24.09.13

Há alguns meses Durão Barroso comentou a posição francesa sobre a excepção cultural no seio da liberalização comercial. A reacção francesa foi iracunda e bastante desvalorizadora da Comissão Europeia, algo que vindo da pátria de Monnet e de Delors não deixou de ser surpreendente. Em Portugal li, logo, algumas céleres vozes criticando o dito de Durão Barroso. Claro, e para além do assunto, há que bater no homem. Por várias razões, uma das quais é esta esquizóide forma de xenofobia lusa, a de dizer mal de qualquer patrício mal ele tenha assomado além fronteiras. A barbárie barrosista foi logo proclamada, não só mas também pela intelectualidade bem-pensante. Na altura lembrei-me disto que se segue, mas não sabia onde estava, depois fui de férias e passou-me. Agora saltou da estante, esta delícia de Amselle, um belíssimo antropólogo francês ("Branchements", 2001, pp. 14-15).

 

"À cet égard, plutôt que de protester contre la domination américaine et de réclamer un état d'exception  culturelle assorti de quotas, il serait préfèrable de montrer en quoi la culture française contemporaine, son signifié, ne peut s'exprimer que dans un signifiant planétaire globalisé, celui de la culture américaine. Si celle-ci, à l'instar de la culture française au XVIIIe siècle, est devenue un opérateur d'universalisation, ainsi que le démontre le sens - France-États-Unis - dans lequel sont produits les remake, cela ne correspond pas pour autant à une situation d'aliénation ou de colonisation de l'esprit français par la puissance américaine, situation stigmatisée naguère par Étiemble à l'aide du vocable "franglais". Parler franglais, c'est peut-être, pour les Français, énoncer la vérité de leur culture, de même que, pour le groupe sarcellois Bisso na Bisso, se brancher sur le rap américain est le meilleur moyen de retrouver ses racines congolaises. Contrairement à ce que pensent les obsédés de la pureté des origines, la médiation est le chemin le plus court vers l'"authenticité" ... Par le biais du "samplage" (sampling) s'exprime l'originalité d'une culture dont on serait bien en peine de dire si elle est française, américaine ou africaine.

 

Talvez pouco interessante para muitos. Mas, e repito, uma delícia, principalmente quando recordo alguns indignistas, furibundos facebuquistas. Colegas, ou quase.

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Programar um evento cultural pode ser divertido ou um tormento. No caso da conferência do Tempo, no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva - é sempre uma diversão. Laborinho Lúcio fez uma conferência inaugural brilhante, os debates correram bem, a SIC Notícias esteve em directo, até mesmo o programa Expresso da Meia Noite, tivemos cinema (ainda decorrem filmes a esta hora!) e discoteca (que continua em crescendo e sempre um bom pretexto para ver os amigos). Defeitos? Nada. Apenas um cansaço súbito e uma dor nos pés.

A equipa do pavilhão está de parabéns, bem hajam pelo empenho e entusiasmo. Vocês são os maiores.
Amanhã a coisa continua, festejamos o tempo, a entrada no Verão e das 9 da manhã com ginástica até à conversa final com João Lobo Antunes, há ateliers diversos, exposições, workshops, debates. Enfim, uma programação de luxo que merecia mais público? Sim, é verdade. Temos a desculpa da música no Terreiro do Paço, de ser sexta-feira, de um qualquer jogo de futebol. Quem esteve e encheu o auditório para ouvir e fazer perguntas ficou a saber muitas coisas e terá ficado com curiosidade sobre outras tantas. Aviso: no Observatório na Ajuda, no domingo, pelas 21h00 podem ver a lua cheia e aprender mais com Rui Agostinho, o homem que desfez todo o meu imaginário sobre o Planeta e o tempo:) Ah, esqueci-me: amanhã continuam os jogos matemáticos. Já não teremos a prova de vinho - obrigada à Fundação Eugénio de Almeida - e também não teremos o movimento slow food, mas há maneiras de fazer gelatina que nem imaginam.

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Tomem nota: 24 horas sobre o Tempo, no Pavilhão da Ciência Viva, Parque das Nações, dia 21 para 22, entrada livre a partir das 18:00 até às 18:00 do dia seguinte.

Vejam o programa e tragam o corpo, sim?
Vão ser 24 horas que começam com Laborinho Lúcio, mais debates, filmes, dança, comes e bebes, workshops e mais não sei o quê! Partilhem, por favor, divulguem e apareçam, é cultura e é nossa e de borla. É preciso dizer mais? É para todas as idades e para todos os gostos, façam o favor de divulgar.

Nota: esta programação pode ser alterada.

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por Patrícia Reis, em 12.06.13

FESTIVAL DO DESASSOSSEGO vai até dia 13, na Casa Fernando Pessoa, procurem a programação. Vale a pena.

Ontem ao fim da tarde, na Casa Fernando Pessoa,
houve leitura de poemas. Presentes, os poetas António Cícero
(Brasil), Gastão Cruz, Golgona Anghel, Nuno Júdice e Maria Teresa Horta,

Entre outros poemas, Maria Teresa Horta leu este inédito:

POEMA DE AMOR

Quando me despes
visto a roupa toda

Quando me vestes
tiro o meu vestido

Eu sou aquela
que desgoverna o fogo

E a ordem do amor
insubordino

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Sugestões

por Ana Vidal, em 07.04.13


Sábado cultural: visita à exposição da Clarice Lispector, na Gulbenkian. Magnífica e imaginativa forma de expor tantas palavras essenciais. O mistério de Clarice intacto, apresentado em gavetas que ora escondem ora revelam. Como ela própria. Um aplauso a quem teve a ideia.
A seguir, visita à exposição da Joana Vasconcelos, na Ajuda. Depois de Versailles já não é arrojo, já não é coragem. Coragem teria sido começar aqui a "profanação" de um palácio real, assim é apenas a repetição de uma receita de sucesso. Uma batota que infelizmente repete a fórmula do costume e revela a sempiterna saloice nacional: primeiro a segurança da aprovação dos outros, depois o reconhecimento fácil e garantido.
Finalmente, à noite, o filme Night train to Lisbon. De novo o jogo de espelhos entre nós e os outros. Um Jeremy Irons sem surpresas, sempre superlativo. E a estranheza de uma história nossa, caseira, vista por olhos estrangeiros. Aí, sim, a surpresa da intensidade com que de repente nos vemos a nu: trágicos, labirínticos, incumpridos e infinitamente nostálgicos.

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A avaliar por este relato do Samuel de Paiva Pires, diria que a prova de Cultura Geral do concurso externo de ingresso na carreira diplomática é curiosamente parecida com esta: 

 

 

E, já agora, gostaria muito de saber qual é a resposta que os critérios de correcção da dita prova consideram correcta para a pergunta "qual o planeta por onde passaríamos se viajássemos da Terra até Urano pelo caminho mais curto".

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E mais uma boa notícia

por Ana Vidal, em 07.02.13

 

Sobretudo para quem, como eu, se deixou há muito fascinar pela personalidade magnética e a escrita única de Clarice Lispector. Se é o seu caso, leitor, espreite aqui.

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Um genocídio mental

por Ana Vidal, em 12.01.13


Uma destas manhãs fui "obrigada" a ver parte do programa da manhã da TVI. No espaço de pouco mais de meia hora registei as seguintes pérolas:
1. Uma florista de bouquets para noivas que se inspira em Confúcio para as suas criações artísticas, explicando: "é um senhor chinês antigo que está agora a vir à tona". Muitas palmas do público.
2. Uma blogger fashionist (ainda estou para perceber o fenómeno, mas o defeito deve ser meu) que se refere às "tendências 2013" em shorts e mini-saias com a gravidade e a reverência com que Vítor Gaspar anuncia outras reduções, bem menos apetitosas. Muitas palmas do público.
3. Um anunciante de produtos naturais de emagrecimento e saúde que oferece como brinde, para compras acima de x euros, "a Bíblia Sagrada, um livro de auto-ajuda". Muitas palmas do público.

Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança - mas eu sou uma optimista, já se vê - de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.

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Em comentário ao meu post de ontem à noite, o Rui Rocha indicou-me este vídeo. Como o Rui, sendo de Braga, não pode dizer mal de Guimarães aqui no blogue (seria demasiado óbvio), transformo-o eu em post. E vivam o dinheiro dos contribuintes e a macrobiótica parabólica polaroid.

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O glamour da cultura ou talvez a cultura do glamour

por José António Abreu, em 27.11.12

Panfleto distribuído à entrada de espectáculos incluídos no programa de Guimarães 2012. Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim. Este tipo de projectos é propenso a megalomanias em que as considerações económicas são detalhes mundanos e irritantes, afastados com garantias de ganhos significativos mas nunca directamente contabilizáveis. Os benefícios de «imagem», a criação de «hábitos», o desenvolvimento de uma «indústria cultural» e mais uma catrefada de chavões vencem sempre o cepticismo. No fundo, tudo não passa de um afinal provinciano desejo de parecer culto e inteligente; tão provinciano que acaba invariavelmente misturado com a satisfação de interesses particulares – pois se artistas «menores» e colaboradores diversos correm o risco de não serem pagos, as «mentes» organizadoras, os seus amigos e os artistas consagrados nunca têm razões de queixa. Claro que muitas vezes também é bem feito para os tais artistas menores, que vêem nestas feiras de vaidades uma oportunidade para se «afirmarem» e ganharem muito dinheiro de repente, à custa do erário público. Mas talvez o mais curioso seja que, depois, valeu sempre a pena, foi sempre um sucesso retumbante. Com o lixo empurrado para debaixo do tapete, as críticas desvanecidas pelo tempo e pelo cansaço, e as contas pagas pelo contribuinte. Cultura? Provincianismo puro.

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Um filme ressuscitado

por Pedro Correia, em 17.11.12

Comprei bilhete com antecedência para um acontecimento cinematográfico - a estreia em Lisboa, numa sessão única, da cópia recentemente restaurada do filme As Portas do Céu, apresentada há dois meses, no Festival de Veneza, pelo realizador Michael Cimino. Não exagero ao utilizar a expressão acontecimento cinematográfico: trata-se de um filme quase com estatuto mítico por vários motivos. Desde logo por ter uma aura equivalente à de  O Quarto Mandamento / The Magnificent Ambersons, de Orson Welles, quatro décadas depois.

Cimino era em 1980, ano da estreia desta longa-metragem, um dos mais célebres cineastas do planeta depois de ter sido galardoado com o Óscar, dois anos antes, pelo excepcional - do ponto de vista da qualidade cinematográfica e da controvérsia que suscitou - O Caçador, talvez o mais polémico filme de sempre sobre a guerra do Vietname. Tal como sucedeu com Welles logo após ter estreado Citizen Kane, quando se tornou o realizador-estrela da RKO, a então próspera United Artists deu a Cimino liberdade total para rodar o filme seguinte, que foi precisamente este. Um projecto megalómano, desmedido, descomunal, bigger than life, que conduziu o histórico estúdio à falência e condenou o incómodo cineasta a uma longa travessia do deserto.

 

Tal como sucedeu com a película de Welles, tornada quase irreconhecível pelos executivos da RKO à revelia do realizador depois de lhe ter sido dada carta branca para filmar o que quisesse e como entendesse, também esta foi severamente amputada, acabando por circular em cópias adulteradas de 141 ou 149 minutos, que suprimiam segmentos decisivos. A versão original, de 219 minutos, foi praticamente retirada de circulação logo após o fiasco da estreia e do coro de críticas negativas que recebeu nos Estados Unidos: duas gerações de espectadores jamais puderam vê-la.

Felizmente, ao contrário do que sucedeu com o segundo título da filmografia de Orson Welles, cuja montagem original se perdeu para sempre, neste caso foi possível recuperar Heaven's Gate sob a supervisão do próprio Cimino. É um notável trabalho de restauro que faz inteiro jus à magnífica fotografia de Vilmos Zsigmond, agora restituída ao esplendor original.

 

Comprei o bilhete no início da semana antecipando uma provável enchente hoje à tarde no Monumental, onde seria possível ver o filme em ecrã grande, como merece - iniciativa meritória do Festival de Cinema de Lisboa e Estoril, que decorre até amanhã com a exibição de películas de Luis Buñuel, Otto Preminger, Brian de Palma, Monte Hellman, Lindsay Anderson, François Ozon, Hou Hsiao-Hsien, Bernardo Bertolucci, Alain Resnais, Stephen Frears e Abel Ferrara, entre outros realizadores.

Afinal, nesta sessão única, a sala estava praticamente vazia: este filme de culto, debatido na proporção inversa à das oportunidades de ser visto, passou quase clandestino numa Lisboa preguiçosa e distraída, que esbanja sucessivas oportunidades para se cultivar e abrir horizontes - oportunidades que os residentes noutras zonas do País bem gostariam de disfrutar.

 

Três horas e meia de exibição que passaram muito mais depressa do que supus. É uma oportunidade rara, assistirmos à segunda vida deste western atípico que nos revela a face negra do sonho americano - um filme maldito, perseguido desde o primeiro dia por um rasto de controvérsia, amado por um punhado de críticos e renegado pela poderosa indústria de Hollywood. Com deslumbrantes cenários naturais rodados no estado de Montana, uma banda sonora inesquecível e um elenco de luxo - Kris Kristofferson, Christopher Walken, John Hurt, Sam Waterston, Isabelle Huppert, Jeff Bridges, Joseph Cotten (outra coincidência: foi ele o actor eleito de Welles e protagonista de Citizen Kane e The Magnificent Ambersons), Brad Dourif, Mickey Rourke e Willem Dafoe (este no seu primeiro papel em cinema).

Só foi pena a sala quase vazia. Um sinal da crise, que não é apenas financeira - é também de hábitos culturais. A Sétima Arte clássica, vocacionada para a exibição em sala, vai morrendo aos poucos, mês após mês, ano após ano. Um dia, talvez não muito distante, haveremos todos de lamentar o encerramento do último cinema do nosso bairro, da nossa vila, da nossa cidade, do nosso país.

Demasiado tarde, como é costume.

 

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O Mais e o Menos

por Laura Ramos, em 26.10.12


Fui às minhas reservas fotográficas para reavivar a memória e vos falar do Jorge Barreto Xavier que eu conheci.

Nesta altura ainda não era político. Ou antes, era. No melhor sentido do termo... Interventor, empenhado, consistente, profundamente conhecedor dessa disciplina difícil e fascinante a que se chama Gestão das Artes, free lancer comprometido no 'bom governo' da cultura.

Neste projecto inteiramente da sua autoria, por exemplo, revelou bem quanto tinha, em doses certas, de pensamento e de acção. E demonstrou uma observação apurada e reflectida acerca dos riscos em que incorrem as administrações culturais desnorteadas, sem capacidade de planificação, empolgadas pela quantidade em detrimento da qualidade (o mais e o menos...).
Mais uma vez, a receita que aqui se aplicava ao local aplicar-se-ia também, como uma luva, ao nacional (ia pensando eu na altura).

Depois disso, sim: veio a ser o Director-Geral das Artes de Gabriela Canavilhas, com quem conseguiu trabalhar com grande dificuldade. Demitiu-se mais tarde, usando de uma discrição notável, a contrastar com o show off  ruidoso, despeitado e sobranceiro da Ministra que jamais entendeu quem tinha realmente nas suas fileiras, confundindo-o com as restantes figuras de xadrez arregimentadas por critérios festivaleiros e pouco atentos ao mérito.

Não há tempo mais difícil do que este para conseguir o crescimento do “lugar político” para a Cultura e a sofisticação das equipas decisoras que o Jorge Barreto Xavier preconizava.

Mas parece-me - aviso já - que podem contar com rigor e clarividência. Com uma forte noção do bom uso dos recursos disponíveis. E com umas contas diferentes acerca do mais e do menos dos caminhos e dos resultados da acção política.

Foi uma boa aposta.

 

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Irra! Nem a cultura se safa

por Patrícia Reis, em 09.09.12

A TVI termina com o único programa cultural digno desse nome, o único na grelha actual e anterior. João Paulo Sacadura, além de ser uma pessoa excelente, é um profissional de mão cheia. Por mim, agradeço tudo o que fez, o interesse, a divulgação, o trabalho árduo, a constante vontade de fazer mais e melhor num país onde a cultura é sempre o parente pobre. É muito simples: a cultura é a nossa identidade nacional. Leiam o Mattoso, o Eduardo Lourenço, tudo o que Eduardo Prado Coelho escreveu, o que escreve Maria Alzira Seixo, Helena Vasconcelos e tantos outros ros. Daqui a pouco é a a RTP a terminar com o excelente Ler+, Ler melhor, apresentado pela maravilhosa Teresa Sampaio? Se for, temos o caldo mesmo entornado. Para azedar as coisas o FB pergunta-me se quero adicionar Miguel Relvas como meu amigo. Acham isto normal? Estou deprimida, vou fazer máquinas de roupa e esquecer que a conta vem no final do mês.

 

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Para acabar de vez com a cultura? (3)

por Ana Vidal, em 11.07.12

 

Quando perguntaram a Churchill quanto cortaria na cultura em nome da austeridade, a resposta foi esta: "Nada! Se cortássemos na cultura, o que nos faria lutar a seguir?"

 

Em Portugal, a verba para a cultura não chega sequer a 1% do Orçamento de Estado. Dispensamos um Ministério (bah, para que servem essas esquisitices?) e mesmo a Secretaria de Estado deve estar em hibernação prolongada, porque nunca mais deu notícias. Obcecados com a austeridade, os nossos governantes parecem não perceber uma coisa tão simples como isto: um país sem uma sólida identidade cultural e um ensino de qualidade não pode evoluir, não tem futuro. Muito menos numa Europa agonizante e dominada pelos gurus da economia. Talvez seja esta, afinal, a explicação para a nossa tão falada imobilidade: não temos por que lutar.

 

Nota: Eu sei, Woody, passo a vida a roubar-te os títulos. Desculpa lá o abuso.

 

Adenda: Nem de propósito, este impressionante desabafo que encontrei aqui. Sintomático.

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Generalizando

por Ana Vidal, em 10.07.12

 

Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas - e é aqui que começam as generalizações - tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.

 

Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.

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Elvas e as suas muralhas

por João Carvalho, em 30.06.12

 

As muralhas de Elvas passaram a ser hoje património mundial classificado pela UNESCO na categoria de bens culturais. Uma classificação justíssima para um extenso conjunto de património histórico construído que inclui todas as fortificações da cidade, um forte do século XVII e outro do século XVIII, três fortins do século XIX, três muralhas medievais, uma muralha do século XVII e o aqueduto.

Trata-se da maior fortificação abaluartada do mundo. O conjunto remonta, nos seus primórdios, ao reinado de D. Sancho II e tem um perímetro com cerca de dez quilómetros e uma área que ronda os 300 hectares.

Cenário de contadas e recontadas batalhas e de encontros e desencontros luso-espanhóis, Elvas pode ser uma bela visita de férias, pela exemplar conservação patrimonial que versa grandes momentos da nossa História e agora com o interesse a que acresce a honrosa classificação.

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Em bloco

por Helena Sacadura Cabral, em 27.01.12

 

"Demissão em bloco no CCB

Seis elementos que compõem o Conselho Directivo do CCB demitiram-se ontem à tarde, por considerarem inaceitável a justificação do Governo para afastar Mega Ferreira na recondução à presidência."

 

Porque terá sido que Mega foi afastado?

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Para acabar de vez com a cultura? (2)

por Ana Vidal, em 13.01.12

Acabo de receber, de uma amiga escritora brasileira, este video sobre o encerramento da Livraria Camões do Rio de Janeiro, uma importante ponte cultural entre os nossos dois países. Aqui, uma petição de protesto a pedir assinaturas. Aqui, a página do facebook que foi criada para o efeito.

Os brasileiros que conheço estão inconsoláveis. E nós?

 

 

O texto da petição:

"Frente ao iminente fechamento da Livraria Camões no Rio de Janeiro, por decisão da atual administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa, juntemos nossos protestos para que tal não aconteça.

É mais uma presença portuguesa a ser rasurada à nossa volta, corroborando o que pensamos ser uma acentuada miopia de Portugal face ao Brasil no que tange às questões culturais.

A Livraria Camões é uma casa de cultura em nosso país e seu trabalho ao longo de décadas contribuiu concretamente para a divulgação da cultura portuguesa e o acesso à sua literatura. Nela, todos que se dedicam aos estudos portugueses e de cultura de língua portuguesa sempre encontraram um espaço maior de acolhimento e de diálogo.

Solicitamos que partilhem este abaixo-assinado de modo a questionar o caso e tentar que tal decisão, ao menos, seja reavaliada.

A cultura não pode ser tratada como item supérfluo!"

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Para acabar de vez com a cultura?

por Ana Vidal, em 11.01.12

Não é que eu esperasse muito da Lusa, mas aqui está mais uma prova de como os critérios editoriais têm vindo a mudar em Portugal nos últimos anos. Admito, por razões orçamentais, que sejam fundidas as secções "lusofonia" e "internacional" numa única editoria, mas que se extinga liminarmente a de "cultura", passando os seus elementos para a de "sociedade", diz tudo sobre o que é realmente importante para quem escolhe as notícias que nos faz chegar. Espera-nos, provavelmente, uma cultura cor-de-rosa.

 

Uma sociedade que desvaloriza a cultura - a sua e a dos outros - não vai longe, nunca. 

 

Nota: Woody, passo a vida a citar-te. Desculpa lá o abuso.

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Camões de A a Z

por Ana Vidal, em 02.12.11

 

Aqui está uma boa notícia: Publicado o primeiro Dicionário sobre Luís de Camões.

Dirão que já era tempo, mas mais vale tarde do que nunca.

 

A boa notícia foi logo seguida de outra péssima: o livro está escrito em acordês, facto que o desclassifica totalmente aos meus olhos. Terei pena mas não vou comprá-lo, como protesto por mais uma agressão à língua portuguesa, que Camões tanto honrou.

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Pontos nos is (2)

por João Carvalho, em 21.11.11

DECISÕES

I

Sempre que ouço dizer que o Governo atirou fora as questões da Cultura dá-me vontade de rir. Lamento que isto assim dito por pessoas que têm responsabilidades públicas arraste gente anónima que facilmente absorve este tipo de pregões, mas estou-me nas tintas por dois motivos:

— não é a primeira vez que a representação governamental da Cultura deixa de ter um ministro e passa a ter um secretário de Estado;

— a Cultura não dá de comer no imediato a quem tem fome e os tempos são de óbvia e necessária austeridade, o que obriga a hierarquizar com especial critério a intervenção de quem governa.

Porém, acho que há ainda uma boa razão para contrapor aos pseudo-críticos do costume. Desde logo, a vida tem-me demonstrado que a intervenção institucional na Cultura é um tema que suscita sempre ideias geniais à mais distinta intelectualidade da nossa praça, enquanto do lado de fora, mas que os mais iluminados, quando se vêem a decidir, perdem depressa a imaginação criadora e a acção raramente ultrapassa a simples distribuição de verbas (leia-se: redistribuição de impostos).

A boa razão a que me referia é, pois, um dado substantivo e não um devaneio: a Cultura institucional está entregue a um homem de cultura que nada tem a provar para fazer currículo. Chega-me.

II

Vem agora a talhe de foice registar a decisão de Francisco José Viegas, não por ter substituído o director do Teatro Nacional D. Maria II, mas sim por ter demitido Diogo Infante do cargo.

Digo isto sem querer saber das possíveis qualidades de quem foi demitido. Diogo Infante pode ser um excelente actor, encenador, líder de uma companhia de artistas e até um bom economista, dentista, jornalista ou motociclista. Não me interessa. Interessou-me saber, em data recente, que era um mau director do Teatro Nacional D. Maria II, ao exceder as suas funções de modo inadmissível e com consequências públicas de claro impacto.

Ora, ao contrário dos péssimos hábitos portugueses, quando Diogo Infante declarou que a época de 2012 ficava sem efeito, não houve inquéritos nem quaisquer daquelas coisas que ficam a arrastar-se de gabinete em gabinete para intermináveis trocas de argumentos. Nada. O secretário de Estado apontou-lhe a porta de saída sem mais sobressaltos. Caso encerrado.

Teria Diogo Infante fundamentação para encerrar uma das mais importantes instituições culturais do Estado? Dou de barato: até podia ter. Contudo, faltava-lhe o fundamento dos fundamentos, o fundamento supremo, o fundamento indispensável: Diogo Infante não foi eleito pelos portugueses para qualquer posto que lhe permitisse tomar decisões políticas. Não fazia parte das suas atribuições.

O poder político está legitimado por eleições recentes e Francisco José Viegas está à altura do cargo. É bom saber que as questões da Cultura, afinal, não foram atiradas fora, mesmo que os meios sejam modestos. Chega-me.

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Autores defendem (?) a RTP1

por João Carvalho, em 19.10.11

«A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) mostrou-se hoje contra a privatização do  canal 1 da RTP, afirmando que seria um "erro grave para o futuro da televisão em  Portugal".» Lê-se isto e estranha-se, não é?

Esta notícia (a partir de um comunicado emitido pela SPA) sofre de dois pecados, um dos quais se torna mais evidente por estas duas frases logo adiante:

«a eventual privatização do canal 1 da RTP teria como consequência o "afastamento  da programação diária de temas que, seguramente, não seriam do interesse das  televisões privadas"»;

«segundo a SPA, "a programação de um canal público entretanto privatizado pouco  espaço deixaria para a inclusão dos trabalhos dos autores e artistas  portugueses"».

Vamos agora aos pecados que estão em causa no conteúdo da notícia e que precisam de ser interpretados para tirarmos conclusões.

O primeiro pecado é que a SPA não critica a privatização da RTP, nem sequer da RTP2 especificamente, visto o segundo canal ser onde ainda se vão reunindo algumas atenções de natureza cultural e, por isso, onde poderiam incidir justificações que sustentassem a posição aqui assumida pelos autores. Pelo contrário, ao criticar em concreto a eventual privatização só da RTP1, a SPA devia ter-se explicado muito bem para que nós, pessoas de boa-fé, pudéssemos entender que raio de programas os autores têm medo de ver afastados do primeiro canal e que atenção tão especial é que este tem dado aos trabalhos de autores e de artistas portugueses.

O outro pecado da notícia é jornalístico e resulta do anterior: se a SPA não quis explicar-se para que a sua crítica pudesse ser mais consistente e menos suspeita do que parece, o jornalismo básico ensina que era necessário esclarecer melhor a informação junto da fonte, antes de ser publicada a notícia (e se esta ainda tivesse algum interesse). Infelizmente, os pecados do jornalismo desleixado e bacoco passaram a ser comuns.

Em suma: perdeu-se o aspecto pedagógico de um exercício jornalístico primário que seria exemplar, perdeu-se um caso que podia servir para informar com aquele rigor que anda cada vez mais arredado das nossas vidas e perdeu-se uma bela oportunidade para percebermos que razão estranha e duvidosa está a fazer mexer os autores por trás daquele comunicado distribuído pela SPA.

Ficámos todos mal, portanto.

 

 

A foto é de 1958 e não é da SPA

reunida a assistir a um programa da RTP1 dedicado

aos autores portugueses

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O País numa caixa de comentários

por Pedro Correia, em 12.10.11

Tanto se fala e se escreve sobre o pequeno mundo da política. Mas pouco se escrutina o pequeno mundo da cultura. Às vezes, no entanto, vale a pena reparar nele. Porque é uma outra forma de percebermos melhor uma certa maneira de ser e de estar em Portugal. Espreitem, por exemplo, a caixa de comentários deste texto da excelente Maria do Rosário Pedreira e vejam até que ponto se ramifica o fio de polémica nele desencadeado. Não me pronuncio sobre o fundo da questão, até por desconhecer as obras dos dois nomes mais mencionados, mas sugiro um olhar atento a muitos comentários aduzidos. Mostram-nos melhor que mil discursos o que somos e como somos.

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Manual de sobrevivência

por Ivone Mendes da Silva, em 01.10.11

Por razões que não vêm agora ao caso, estive, durante a tarde, a braços com a tragédia Alceste de Eurípides. Apresentada nas nas Dionísias Urbanas de 438 a.C., o seu plot é conhecido: por determinação dos deuses, o rei Admeto só poderá evitar a morte iminente se alguém se sacrificar em seu nome. Os pais, conquanto sejam idosos, recusam-se a abreviar o tempo de vida que lhes resta e só a mulher, Alceste, se dispõe a substituí-lo na morte. Héracles, a caminho do seu 8º trabalho, é recebido por Admeto apesar do luto em que o palácio mergulhara. Para recompensar o rei pela obediência às leis da hospitalidade num momento tão difícil, traz Alceste da morte para o amor.

Este  happy end talvez não seja o mais comum na tragédia, mas as outras características estão lá todas. Platão olhou para a figura de Alceste apenas de uma perspectiva que confere ao sentimento amoroso a força motriz do gesto da rainha: “Os numes honraram nela a virtude máxima do amor.” Não é só o amor mas o carácter que impulsiona Alceste para a abnegação total. Uma capacidade de sacrifício que persiste sem assentar a mira num qualquer retorno. Quando lhe dizem que, por tal gesto, será sempre recordada e honrada, Alceste  responde :  οί θάνοντες τεθνήκασι  “Os mortos, mortos estão.”

Uma frase lapidar que é um manancial para os estudantes de Clássicas aprenderem as subtis diferenças entre o aoristo o pretérito perfeito gregos e que nos traz a pétrea serenidade determinada de que sabe o que quer e o quer fazer.

Shakespeare esteve mais próximo da ideia de sacrifício, quando colocou na voz do velho rei Lear estes versos, sem dúvida inspirados na rainha de Feras: “Upon such sacrifices, my Cordelia, / The Gods themselves trown incense.”

Para além de um binómio caro aos antigos, Amor/Morte, parece-me clara a lição euripidiana de que todo sacrifício ou abnegado gesto tem um efeito boomerang, ainda que não seja imediato, ainda que não seja da esfera do claramente visível.

Os gregos, os antigos, sabiam muito. Como muito sabiam os poetas, os pintores, os escritores, os cineastas, os artistas que os seguiram. Na sua crónica de hoje n’ O Expresso, o Manuel S. Fonseca diz-nos que “ quando (…) nada for como dantes (…) há-de acordar-nos na boca o sabor de um filme antigo. Vai saber bem. Será que nos salva?”

Creio que sim: o filme antigo, o livro muito lido, o poema repetido, a tragédia grega ou o quadro na parede do museu hão-de ser também, como diz o Pedro Correia num post aí abaixo “uma chave para decifrar o mundo”.

A nossa Patrícia, no seu livro Por este mundo acima, coloca, como único sobrevivente no cenário de uma Lisboa pós-apocalíptica, um editor de livros. Se entre os antigos se sabia como atravessar o coração das trevas, é bom que nunca se esqueça onde é que isso se escreveu e se voltou a escrever, qualquer que seja a linguagem utilizada.

Hoje, fartei-me de fazer citações. Ainda bem: eu também acho que são os outros que nos salvam.

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Uma chave para decifrar o mundo

por Pedro Correia, em 27.09.11

    

 

Ouço com alguma frequência opiniões negativas sobre o ensino das religiões - e da religião cristã em particular. São opiniões que fazem tábua rasa de dois mil anos de história da Humanidade e que, se fossem levadas à letra, conduziriam ao desconhecimento generalizado de uma das nossas bases civilizacionais. A história da pintura, da escultura, da arquitectura e de parte significativa da música ocidental torna-se incompreensível a quem ignora os fundamentos do cristianismo e as inúmeras personagens dos livros da Bíblia. Isto nada tem a ver com crença -- tem a ver com cultura, no sentido mais lato, profundo e nobre do termo.

A ignorância das religiões -- em nome do princípio da laicidade levado ao extremo -- conduz até à incompreensão e à irrelevância de boa parte dos maiores autores ateus, agnósticos e anticristãos -- de Voltaire a Nietzsche. Leio, de momento, uma das obras mais emblemáticas de Karl Marx: está cheia de alusões bíblicas, provavelmente ininteligíveis para todos os apóstolos da "indiferença", que fogem da religião como o diabo da cruz em vez de procurarem entender a importância da religiosidade e da espiritualidade como parte integrante da condição humana, da criação artística e do pensamento filosófico através de todas as épocas - incluindo a nossa.

O Moisés, de Miguel Ângelo, a Última Ceia, de Leonardo, a Paixão Segundo São Mateus, de Bach, a catedral de Chartres ou a de Brasília (criada pelo ateu Óscar Niemeyer), para serem devidamente apreciadas enquanto veículos de fruição artística e emanações do melhor da nossa cultura, necessitam de referências que só o conhecimento das religiões (neste caso a religião cristã) nos proporciona. Isto vale também para a Mesquita Azul de Istambul, o Buda Reclinado de Banguecoque, Machu Picchu ou Angkor Wat.

Ao criticarem o estudo das religiões, os arautos desta tese estão no fundo a fazer a apologia da ignorância. Assumi-la em nome da "laicidade" é ainda mais grave. Por constituir uma perversão da genuína laicidade - a que vem expressa, pela voz de Cristo, nos Evangelhos: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus."

É uma frase muito antiga -- e tão "moderna" como se tivesse sido impressa no jornal desta manhã. Conhecê-la -- e saber por que foi proferida e os efeitos devastadores que causou numa concepção teocrática do poder político -- ultrapassa em muito o reduto da fé: é um acto de cultura. Da mesma forma que alguém sem o menor conhecimento bíblico é incapaz de interpretar esta extraordinária frase, contida num dos romances de Graham Greene: "Prefiro ter sangue nas mãos do que água como Pilatos."

Religião também é isto: uma chave para decifrar o mundo, uma pista para descobrirmos novos mundos. Às vezes longínquos, outras vezes situados bem próximo de nós.

 

Imagens: Voltaire e Nietzsche

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O génio de Fontes Rocha

por Pedro Correia, em 22.08.11

 

Há uma semana, aos 84 anos, deixou-nos para sempre José Fontes Rocha - o maior génio vivo da guitarra portuguesa. Tal como sucedia com Carlos Paredes, este instrumento musical era nele o complemento perfeito das próprias mãos, tornando-se um objecto mágico que dedilhava com insuperável perícia.

Tive a sorte e o privilégio de escutar ao vivo a arte de Fontes Rocha na fase culminante da sua carreira, quando integrava o Quarteto de Raul Nery acompanhando Amália Rodrigues pelos palcos mais prestigiados do mundo (incluindo o Lincoln Center, em Nova Iorque). Poucos anos antes essa arte ficara bem expressa -- e acessível às gerações futuras -- naquele que é não só o melhor álbum de Amália mas o mais deslumbrante disco desde sempre editado com música portuguesa: Com Que Voz. Os extraordinários dotes interpretativos e vocais da fadista casavam na perfeição com o exímio talento de Fontes Rocha, a quem os guitarristas mais jovens justamente chamavam mestre.

Num característico sinal dos tempos, não li um obituário digno do seu papel na nossa música em nenhum dos principais jornais portugueses, todos muito entretidos com as habituais irrelevâncias de Verão. Até por isso lembro, em jeito de contraste, um magnífico documentário que vi recentemente na RTP 2 intitulado As Cordas de Amália, da autoria de Cristina Margato. Um documentário que reunia Fontes Rocha (então com 82 anos), Raul Nery (88) e Joel Pina (89) lembrando em conjunto os tempos áureos em que acompanhavam Amália pelo mundo. Fala-se agora tanto na necessidade da definição de serviço público de TV: este documentário, para mim, é um exemplo de relevante serviço público. Tal como a magnífica série documental sobre a guerra de África (1961-75) rodada por Joaquim Furtado, ou a biografia televisiva em três episódios de José Afonso assinada por Joaquim Vieira, com um belíssimo título: Maior que o Pensamento. Ou um recente documentário sobre a vida e obra de Vitorino Nemésio que vi também na RTP2. Ou um debate moderado por Paula Moura Pinheiro entre Fernando Pinto do Amaral e Eugénio Lisboa a propósito de David Mourão-Ferreira, esse poeta hoje tão injustamente esquecido. Ou Filipa Melo, em Nós e os Clássicos, à conversa com Jorge Silva Melo sobre um dos melhores romances portugueses do século XX: Húmus, de Raul Brandão. Ou Filipa Leal declamando de modo insuperável o poema Portugal, de Alexandre O'Neill.

Isto é serviço público.

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Sulfúricas

por Laura Ramos, em 11.08.11

 

A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

 

Sinto uma consideração quase nula pelo que, em Portugal, se publica. Desgosta-me a infinidade de romances desonestos, entendendo por desonestidade não a falta de valor intrínseco óbvio (isso existe em toda a parte) mas a rede de lucro rápido através da banalização da vida. Livros reles de autores reles.

 

Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

 

António Lobo Antunes

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Da verdadeira decadência

por Laura Ramos, em 15.01.11

 

Eis um episódio tristemente sintomático.

A Comissão Europeia edita anualmente uma agenda, que distribui gratuitamente pelos estabelecimentos de ensino da UE.

São cerca de três milhões de exemplares, que pretendem guiar o reportório quotidiano dos jovens europeus em formação.

Na edição deste ano, entre as entradas que assinalam as datas do sagrado solene de muçulmanos, judeus, hindus, etc., não existe uma única referência ao calendário religioso cristão.

 

Se eu mandasse, convidava a classicista Maria Helena da Rocha Pereira para falar aos membros da Comissão – e, já agora,  aos eurodeputados – sobre uma coisita básica e simples, do género... «Sobre A Identidade Europeia».
A seguir à historiadora convidava um filósofo, para completar a abordagem, de seu nome Joseph Ratzinger.

E só não acrescentava outros para não maçar muito os nossos mandatários.


Mais do que a crise económica, acredito que a ignorância complexada é o pior inimigo da Europa XXI.

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Size matters

por Pedro Correia, em 12.05.10

"Para a sociedade laica [a visita do Papa] não representa mais nem menos do que representaria a visita de Jacob Zuma ou Ólafur Grímsson. Ponto", escreve Eduardo Pitta. Questiono-me se será mesmo assim. Se os presidentes da África do Sul ou da Islândia visitassem Portugal, o autor do blogue Da Literatura provavelmente não se mostraria tão preocupado com a contagem de cabeças no Centro Cultural de Belém. Catorze? Centro e quarenta? Mil e quatrocentas? Para a "sociedade laica" tanto faz. Ou talvez não.

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Apostolado e cultura

por João Carvalho, em 11.12.09

Ora aí está. Certos homens são tão apressadamente associados às suas opções de vida e tão aligeiradamente separados da sua condição humana que até nos esquecemos, por vezes, de que eles também são feitos de virtudes e de fraquezas.

O Prémio Pessoa 2009 – decidido por Pinto Balsemão, Faria de Oliveira, António Barreto, Clara Ferreira Alves, Fraústo da Silva, João Lobo Antunes, José Luís Porfírio, Maria de Sousa, Mário Soares, Miguel Veiga, Rui Baião e Vieira Nery – é atribuído a um homem de reconhecidas virtudes, com uma vida rica de apostolado e vasta de cultura: D. Manuel Clemente, bispo do Porto e «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo».

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Dos liberais iludidos

por Jorge Assunção, em 12.07.09

Leio com atenção a muito interessante e boa polémica interna que opõe o Luís Naves ao Tiago Moreira Ramalho no Corta-Fitas a propósito dos subsidios à cultura (ler, por esta ordem: Ide ao teatro; Uma polémica interna; A minha ilusão liberal; e Ilusões liberais). Não concordo com nenhum, embora esteja mais próximo da posição do Tiago. Mas vou-me concentrar no último texto do Luís Naves. Primeiro numa questão de pormenor, diz este que o Tiago "defendeu auto-estradas sem portagens: se as estradas já foram pagas com os meus impostos, para quê pagar portagens?". O Luís Naves aqui comete um erro, se existem auto-estradas com portagens é exactamente para estas não serem pagas com impostos.

Mas o que me importa mais discutir é a questão da educação. A certa altura o Luís Naves diz que se "o acesso aos serviços é conforme o imposto cobrado aos pais. O estudante pobre cuja família está isenta de impostos deve pagar mais propinas; ao rico com pais que já pagaram em impostos, não se deve cobrar propinas". Não me querendo substituir ao Tiago, este não diz propriamente que o acesso aos serviços é conforme o imposto cobrado. O que diz (ele que me corrija se estiver errado), e eu concordo, é que sendo o ensino actual pago por impostos de todos, se qualquer pessoa para além de pagar impostos tiver de procurar uma alternativa privada é duplamente prejudicada. É por isso que um liberal pode defender, por exemplo, o cheque-ensino. Que, de forma simplificada, é nada mais, nada menos, do que o retorno dos impostos aos pais, com justiça social à mistura porque os pais pobres teriam direito a igual cheque pagando ou não impostos. Claro que o cheque-ensino não resolve todas as questões sobre o assunto e ainda pressupõe que o ensino tem um valor para a sociedade enquanto um todo (de forma associada e ainda de encontro a esta lógica, teríamos de abordar também a escolaridade obrigatória) que justifica que os impostos de todos sejam distribuídos pelos pais com crianças a estudar (coisa que chocará uma determinada classe de liberais), mas garante pelo menos uma maior liberdade aos pais para optarem por escolas públicas ou privadas conforme a qualidade de cada uma, sem que sejam alvo dessa penalização dupla.

Já no caso do financiamento do ensino superior, as propinas deveriam, pura e simplesmente, reflectir o preço do serviço em causa. Ou seja, tal como nas auto-estradas com portagens, aplicaríamos a lógica do utilizador-pagador. Os ricos, portanto, pagariam o serviço em causa caso tivessem filhos a estudar no ensino superior, já os pobres, na lógica de solidariedade social para que devem servir os impostos, seriam subsidiados para obter esse serviço e portanto também não deixariam de ter acesso a ele. O que não vale é apelidar parasita a um liberal por frequentar o ensino superior público subsidiado quando não lhe resta outra alternativa em Portugal para um ensino de qualidade a preço comparável. Para além do mais, importa fazer ver que a demonstração por absurdo que o Luís Naves utiliza vai desembocar ao nosso actual sistema. Para quem ainda não percebeu, o actual sistema de ensino superior público financiado na sua maioria por impostos já garante que os ricos tenham acesso a um ensino de qualidade a baixo preço, basta consultar qualquer estudo sobre o assunto que este logo nos diz que as universidades públicas estão repletas de alunos da classe média/alta, enquanto os pobres, paradoxalmente, vêem-se muitas vezes relegados para as universidades privadas ou, ainda pior, nem sequer chegam a frequentar o ensino superior.

Já na questão essencial, dos subsidios à cultura, vou fugir (para já) ao debate, mesmo porque este post já vai longo. Não sem contudo dizer que se nos Estados Unidos existem subsídios à cultura, também existe uma muito maior propensão à filantropia. O problema português não se resume à discussão sobre se o Estado deve ou não apoiar manifestações culturais, mas deriva e muito da incapacidade do surgimento de entidades exteriores ao Estado no apoio à cultura nacional.

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O 'inteleto' do ministro

por Pedro Correia, em 16.03.09

José António Pinto Ribeiro, numa evidente tentativa de dar provas de existência política como ministro da Cultura, promete apressar a entrada em vigor do acordo ortográfico, o que já lhe mereceu o mais que justificado aplauso oficial de Brasília. É uma atitude culturalmente errada, porque ignora as profundas divisões que este acordo tecnicamente insustentável, juridicamente inválido, politicamente inepto e materialmente impraticável tem suscitado na comunidade intelectual portuguesa - e também na brasileira. E é institucionalmente inaceitável, pois ocorre num momento em que o manifesto em defesa da língua portuguesa contra o acordo ortográfico já ultrapassou as cem mil assinaturas, o que obriga a Assembleia da República a agendá-lo para debate em sessão plenária. Dado o ritmo do agendamento das petições populares a que os deputados já nos habituaram, é bem provável que o manifesto acabe por ser discutido no plenário de São Bento só depois de o acordo ter entrado em vigor, o que seria uma demonstração do talentoso intelecto deste ministro. (Será que deverei começar a escrever já inteleto?)

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