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Natal: uma memória cubana

por Pedro Correia, em 25.12.16

«A finales de la década de 1960 la celebración de las Navidades fue postergada o eliminada en Cuba, no solo por ateísmo cientifico militante sino además porque, en lugar de empeñarse en celebraciones y libaciones, se decidió que la gente debía dedicarse durante aquellas jornadas a los cortes de caña en los dias en que más altos rendimientos de azúcar podian conseguirse. Por si fuera poco, junto a los simbolos navideños por esos tiempos también habían desaparecido los turrones y la cidra española que, unidos a lo cerdo asado, los frijoles negros y a la yuca con mojo de naranjas agrias (no totalmente desaparecidos pero también esquivos) conformaban los elementos más característicos para alimentar la celebración.»

Leonardo Padura (ontem, no El Mundo)

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 03.12.16

 

De la energía nuclear a la moringa, los proyectos inacabados de Fidel Castro

 

Despedido "como un perro" por ironizar sobre Fidel Castro

 

Estudiantes de periodismo acorralaron a Fidel Castro en una reunión secreta en 1987

 

 

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Dizer muito em duas palavras

por Pedro Correia, em 02.12.16

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Excelente capa, a do Courrier International. Com um dos melhores títulos que li por estes dias para assinalar a morte de Fidel Castro: "Cuba libertada."

O jornalismo de qualidade é assim: consegue dizer quase tudo com um número mínimo de palavras. Neste caso bastaram duas.

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Leituras recomendadas

por Pedro Correia, em 28.11.16

 

Cuando Cuba era igual de rica que España antes de Fidel Castro. De Javier G. Jorrín, no El País.

 

Fidel y los escritores, una relación de desengaño y humillación. De Luis Alemany, no El Mundo.

 

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Um país que mata os seus heróis

por Pedro Correia, em 28.11.16

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  Huber Matos (à direita) com Fidel Castro em 1959

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 Arnaldo Ochoa (à esquerda) com Fidel Castro em 1961

 

Nenhum ser humano bem formado se congratula com a morte de outro ser humano. Mas um democrata alegra-se sempre perante a expectativa de um fim próximo de um regime autocrático.

Na morte de Fidel Castro - que por ironia mencionou Cristo na sua última reflexão pública, difundida a 9 de Outubro - penso nos inúmeros perseguidos pela ditadura implantada há quase 58 anos em Cuba. Todos, ou quase, acreditaram nas promessas de liberdade, traídas pelo novo tirano que envelheceu no cargo sem nunca ter abdicado da menor parcela do seu poder absoluto.

 

Penso no general Arnaldo Ochoa, que foi o oficial mais graduado do exército, proclamado Herói da Revolução e líder das operações militares em Angola, de que Castro se serviu para a sua propaganda “internacionalista”: acusado de traição à pátria, foi detido em Junho de 1989 pela polícia política e condenado sumariamente à morte por um tribunal fantoche e logo executado, sem lhe ser reconhecido o direito a uma defesa minimamente justa.

Penso em Guillermo Cabrera Infante, um dos melhores escritores latino-americanos do século XX, forçado em 1965 a um exílio perpétuo que o levou a trocar o sol caribenho pelas brumas de Londres, onde sucumbiu de nostalgia, por ter ousado gerir com irreverência o Conselho Nacional de Cultura e o Instituto de Cinema nos primeiros anos da era pseudo-revolucionária.

Penso em Heberto Padilla, poeta encarcerado em 1971 pelo “crime” de pensar e escrever como um homem livre, atirado para os cárceres castristas na sequência de um recital de poesia em Havana considerado “subversivo” – ele que escreveu estes versos corajosos: “Muerte, / no te conoszco, / quieren cubrir mi patria / con tu nombre.”

Penso em Huber Matos, combatente na Sierra Maestra e revolucionário da primeira hora, o primeiro crítico da deriva autoritária do novo regime. “Es bueno recordar que los grandes hombres comienzam a declinar cuando dejan de ser justos”, escreveu ele numa desassombrada carta a Fidel Castro que em Outubro de 1959 lhe valeu 20 anos de prisão, seguido da expulsão de Cuba, onde nunca foi autorizado a regressar.

 

Penso em muitos outros cubanos, uns já desaparecidos outros ainda vivos mas condenados à morte cívica e ao banimento vitalício em sucessivas purgas promovidas pelas patrulhas ideológicas do castrismo ou vítimas dos anátemas políticos lançados pelo regime: Antón ArrufatArturo Sandoval, Bebo Valdés, Belkis Cuza Malé, Cachao López, Carlos Alberto Montaner, Carlos Franqui, Celia Cruz, Eliseo Alberto, Eloy Gutiérrez Menoyo, Gustavo Arcos, Jesús Díaz, Néstor AlmendrosNorberto Fuentes, Olga Guillot, Orlando Jiménez Leal, Paquito d' Rivera, Pedro Luis Boitel, Raúl Rivero, Reinaldo Arenas, Severo Sarduy, Virgilio Piñera, Willy Chirino, Zoe Valdés.

Sob a mão de ferro dos irmãos Castro, Cuba tornou-se um país que "mata os seus heróis", na definição lapidar de Cabrera Infante. País de suicidas e desterrados, onde a luz da esperança se foi tornando cada vez mais precária e vacilante.

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Blogue da semana

por Pedro Correia, em 27.11.16

É um blogue feito em condições duríssimas, num país onde a liberdade de imprensa ainda é uma utopia e a liberdade de expressão sofre severas restrições. Mas a jornalista Yoani Sánchez não desiste: a sua Generación Y continua a ser de leitura obrigatória para quem quer conhecer o quotidiano de Cuba para além das trombetas da propaganda. Vai ficar na montra do DELITO ao longo desta semana marcada pelo rescaldo da morte de Fidel Castro.

Felizmente em Havana há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.

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O acaso vira a vida do avesso

por Pedro Correia, em 27.11.16

Herbert L. Matthews com Fidel Castro 

 

E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?


Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.


Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista.

Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.


Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda.

A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana.

Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi de algum modo manchada para sempre.

 

Texto reeditado

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No le tengo miedo

por Diogo Noivo, em 26.11.16

Hoje e nos próximos dias suceder-se-ão as análises sobre a vida e o papel político de Fidel Castro, uma das personalidades mais fortes e marcantes do século XX. Porém, a morte do líder cubano deve convidar-nos também a relembrar todos aqueles que, com prejuízo para a sua parca liberdade e segurança, se atreveram a denunciar o regime ditatorial que submeteu um país inteiro à indigência.
Conhecemos relativamente bem os opositores das gerações mais velhas, gente como Guillermo Fariñas, Elizardo Sánchez, e o colectivo Damas de Branco. Mas existe uma ala jovem, tão ou mais activa. Los Aldeanos, um duo formado por Bian Oscar Rodríguez Gala "El B" e por Aldo Roberto Rodríguez Baquero "El Aldeano", estão na vanguarda da nova dissidência. Usam como instrumento de acção política um dos poucos 'produtos' que conseguiu furar o embargo: o hip hop.
Formado em 2003, o duo Los Aldeanos deixa claro ao que vem nos títulos dos álbuns que editou e no nome dos projectos que integrou: o primeiro trabalho recebeu o título “Censurado”; o segundo intitula-se “Poesia Esposada” (Poesia Algemada); e, em 2007, integram o colectivo “La Comisión Depuradora”.
As letras têm um propósito claro. Contudo, e em linha com a tradição da música de intervenção feita sob o jugo de ditaduras, os versos estão pejados de subtilezas que tornam os textos ambivalentes – e que mantêm os autores fora da prisão. “No le tengo miedo” é porventura um dos melhores exemplos da capacidade de criticar frontalmente o regime de Castro através de uma letra cujo valor facial não é político. O que, à primeira vista, é uma ode à vida e à superação das dificuldades quotidianas, esconde um apelo à resistência e à liberdade.

Y yo sé que yo
a la vida no le tengo miedo
y aquí no se rinde nadie no
seguiré de pie levantando mi voz
Y yo sé que yo... Y yo sé que yo...

 

Los años no engañan, el tiempo puede estar bravo
que yo sigo siendo yo, y a los falsos caso no hago, no!
trabajo diariamente, no soy creyente ni vago
ni me rindo, ni me paro, ni me canso, ni me apago

 

Destruir la poesía de fe con podrida prosa
es como ver encajada en un clavo una mariposa
a la luz la creación, a lo oscuro, el facilismo
tu podrás ser quien tu quieras fiera, que yo soy yo mismo

 

Lo más importante es la visión real que tengas
que nadie te meta un cuento y la mente te la entretenga
en mierda, basura, drogas, dinero y prostitución
porque todo eso, no es más que perdición

 

Voy en dirección contraria, el agor lleva muchos
porque escucho a mi corazón y con mi corazón lucho
son tiempos de ahogo espiritual, de idas absurdas
la gente dobla en lo reto y coge reto en la curva

 

Em Portugal, país apaixonado por cantautores como Zeca Afonso, os projectos musicais como Los Aldeanos deveriam ser venerados. Hoje é um bom dia para começar.

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O principal legado de Castro

por Pedro Correia, em 26.11.16

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«El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros.»

Fidel Castro, Setembro de 2010

 

A morte física de Fidel Castro - o autocrata que permaneceu mais tempo em funções na era moderna - tem desencadeado expressões de idolatria lacrimosa nos circuitos mediáticos: "Pai da revolução cubana", "comandante chefe", "líder histórico", "figura carismática".

Nem uma só vez escuto a palavra ditador.

"Não se pode dizer que Fidel Castro deixou Cuba como país próspero e desenvolvido. O povo cubano tem sofrido muito - e tem sofrido não só por causa do bloqueio mas pelas políticas que foram realizadas pelos próprios dirigentes cubanos. E não nos podemos esquecer que em Cuba não há democracia." Palavras do jornalista José Milhazes na SIC Notícias - um dos raros que navegaram contra a corrente, pondo os factos acima da ladainha hagiográfica.

 

Na sua fabulosa Autobiografia de Fidel Castro, Norberto Fuentes - que foi um dos funcionários de mais elevada patente do castrismo antes de se ver forçado a rumar ao exílio, como aconteceu com centenas de milhares de cubanos - escreveu estas palavras, supostamente concebidas pelo próprio autocrata: "Hei-de morrer a ruminar a satisfação imensa de que terão de me julgar à revelia. E quando decorrerá tamanho processo? Dentro de quinhentos anos? Dentro de mil? Quando é que a história julga de maneira definitiva e sem apelo nem agravo?"

Nesse aspecto, Fidel Castro pode ser apresentado como um triunfador da História - alguém que sobreviveu à derrocada do mundo comunista e recorreu às bravatas nacionalistas para se perpetuar no poder até a fatalidade biológica impor a sua lei suprema.

Para ele, só a razão de Estado existia. E o Estado confundiu-se durante mais de meio século com a sua pessoa. Neste contexto, o povo funcionava como substantivo abstracto: compunha as manifestações de apoio ao Governo, as únicas autorizadas, e servia de vocativo permanente na retórica oficial.

 

O que vigora na Cuba dos nossos dias?

Um regime de partido único, profundamente hierarquizado, em que as hostes partidárias se confundem com as forças armadas (que embolsam 60% das receitas turísticas) e o aparelho de Estado. Um regime em que a cúpula do poder permanece nas mãos de membros da mesma família há 57 anos. Um regime que destruiu o tecido produtivo do país e hoje se vê forçado a importar 80% do que ali se come. Um regime mergulhado num irreversível e penoso crepúsculo, confundindo o seu destino com o do país.

Há meio século, a palavra de ordem era "socialismo" - a toda a velocidade. Agora a palavra que paira nas mentes de todos é "capitalismo" - o mais devagar possível. Com mais de dois milhões de cubanos forçados a viver fora da ilha e milhão e meio à beira do desemprego porque o Estado-patrão deixou de ter verba para pagar os magros salários - os segundos mais baixos do hemisfério ocidental - e as esquálidas pensões de reforma.

"Agotados de tanta trinchera y demasiadas alusiones al enemigo, nos preguntamos si no sería más coherente usar todos esos recursos para aliviar los problemas cotidianos. Revertir las crónicas dificultades del transporte urbano, la calidad del pan del mercado racionado o el abastecimiento de medicamentos en la farmacias de la Isla, serían mejores destinos para lo poco que contienen las arcas nacionales." Palavras escritas há dias pela jornalista Yoanis Sánchez no seu blogue.

 

Cuba é hoje uma nação envelhecida, sem esperança, com a segunda mais larga população de idosos da América Latina: 46% da população tem mais de 40 anos. Os jovens tudo fazem para abandonar um país onde o partido-Estado persiste em oprimir a sociedade.

Este foi, para azar dos cubanos que mal sobrevivem hoje com o equivalente médio a 15 dólares diários, o principal legado de Fidel Castro.

Em nome da "liberdade", o que torna tudo ainda mais trágico.

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Com a voz embargada de emoção

por Pedro Correia, em 28.10.16

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Os enviados das mesmas televisões que preenchem o tempo a perorar sobre os presos de consciência em Angola desembarcam em Cuba e desdobram-se em salamaleques perante o "líder histórico" que ali instaurou uma das mais ferozes e persistentes ditaduras do planeta, denunciada em todos os relatórios de organizações como a Amnistia Internacional e os Repórteres Sem Fronteiras. Nem um aludiu à existência de dezenas de presos políticos na ilha-prisão, governada há quase 58 anos por dois irmãos que controlam com mão de ferro o aparelho do Estado, submetendo ao seu ditame todas as instituições políticas, a magistratura e as forças armadas. Nem um fez o mais remoto reparo à inexistência de partidos políticos, de uma imprensa livre, de manifestações contra o Governo e de qualquer outro direito cívico e político - começando pelo épico direito à greve tão idolatrado pelos émulos castristas cá do burgo.

A palavra ditadura foi banida do discurso jornalístico dominante. Ou só é utilizada quando dá jeito, com uma chocante duplicidade lexical em função de indignações muito selectivas. Quando tanto se fala em crise de jornalismo, eis mais um factor que a justifica: a persistente incapacidade dos jornalistas de chamar as coisas pelos seus nomes.

Imaginam um repórter estrangeiro a visitar Portugal nos anos 60, embargado de emoção, a chamar "líder histórico" a Salazar? Pois. É precisamente isso.

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Dez anos depois

por Pedro Correia, em 31.07.16

O general Raúl Castro recebeu o poder do seu irmão mais velho, Fidel, faz hoje dez anos. E mantém-se como senhor absoluto de Cuba.

Uma década depois, eis uma devastadora panorâmica do quotidiano comunista: salários congelados, rede de transportes em colapso, apagões constantes, edifícios públicos sem ar condicionado, carências de todo o género, dependência das "dádivas" petrolíferas da exangue Venezuela, contínua repressão política, novos recordes migratórios: 44 mil cubanos radicaram-se nos últimos 12 meses nos Estados Unidos e muitos milhares mais preparam-se para fazer o mesmo.

Com quase 20% de população idosa, Cuba é o país mais envelhecido do continente americano. A "revolução" tornou-se tão decrépita como os líderes que lhe restam.

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Dez livros para comprar na Feira

por Pedro Correia, em 08.06.16

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Livro cinco: Telex de Cuba, de Rachel Kushner

Edição Relógio d’Água, 2015

352 páginas

 

Nada na vida é comparável a uma infância feliz. É disto que nos fala este singular  romance de Rachel Kushner, centrado num punhado de jovens norte-americanos criados na província do Oriente, na Cuba da década de 50, sob o manto ditatorial de Fulgencio Batista. Naquele “paraíso de fracassados”, como alguns pedantes lhe chamavam, já outra ditadura espreitava, protagonizada por barbudos de charuto e caqui, prontos a descer os contrafortes da Sierra Maestra.

Indiferentes às reviravoltas da política, esses adolescentes não imaginavam que viviam os melhores anos das suas vidas naquele aldeamento da United Fruit, próspero império de cana-de-açúcar construído à custa de muito suor de importação, com haitianos forçados a trabalhar ali de sol a sol. A Cuba que os jovens expatriados conheciam proporcionava-lhes uma irrepetível aura de aventura: devolvidos com os pais à nação de origem após o triunfo do castrismo, nenhum deles reviveria esses anos dourados. Esperava-os um futuro cinzento e rotineiro – a vidinha encastoada num subúrbio de aluguer, longe do esplendor tropical que lhes marcou a memória.

Kushner, nascida no Oregon em 1968, tem o dom de surpreender o leitor: antes dela, nunca a literatura nos havia fornecido um retrato tão minucioso da comunidade estrangeira ancorada na Cuba pré-revolucionária. Guiados por ela, viajamos no espaço e no tempo, convivendo com aqueles que lá estavam apenas por empréstimo mas que de algum modo também chamavam sua àquela terra e dela se despediram para sempre numa trepidante madrugada de Ano Novo.

Telex de Cuba, originalmente publicado em 2008, é um dos melhores romances norte-americanos da última década. Servido por uma competente tradução de Jorge Pereirinha Pires que vale a pena enaltecer.

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O discurso da ditadura

por Pedro Correia, em 21.03.16

Em Cuba não há opositores. Há "dissidentes", como lemos e ouvimos a toda a hora. É espantoso como o léxico oficial da mais velha ditadura do hemisfério ocidental, feroz repressora dos direitos humanos, consegue contaminar o discurso jornalístico dos países com liberdade de imprensa. Pela mesma lógica, um Álvaro Cunhal ou um Mário Soares, por exemplo, nunca teriam sido opositores a Salazar: não passariam afinal de "dissidentes" do regime.

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Revolução em marcha

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.03.16

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À atenção do Turismo de Portugal

por Rui Rocha, em 09.11.15

Aqueles turistas que se apressam a visitar Cuba antes que aquilo mude talvez possam ir reservando viagens a Portugal para virem cá ver como isto fica depois de mudar.

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"Servir a personas, no a ideas"

por Pedro Correia, em 20.09.15

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 Foto AFP

 

Acompanho em directo, através do canal televisivo Cubavisión, a homilia do Papa Francisco na missa campal realizada na Praça da Revolução, coração da Havana comunista.

Uma homilia notável, de que destaco estas palavras, que ecoam as de Jesus mencionadas no Evangelho de São Marcos (9,30-35): "Quien quiera ser el primero, ser el más importante, que sea el último de todos y el servidor de todos. Quien quiera ser grande, que sirva los demás y no que se sirva de los demás. Servir significa, en gran parte, cuidar la fragilidad. Servir significa cuidar de los frágiles de nuestras familias, de nuestra sociedad, de nuestro pueblo. Son personas de carne y hueso, con su vida, su historia y especialmente con su fragilidad, las que Jesús nos invita a defender, a cuidar y a servir. (...) Nunca el servicio es ideológico, ya que no se sirve a ideas, sino que se sirve a las personas. (...) Quien no vive para servir no sirve para vivir."

Entre os que o escutavam, na primeira fila da imensa multidão ali concentrada, estava Raúl Castro.

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Ler

por Pedro Correia, em 24.05.15

 

O diário digital Generación Y, da cubana Yoani Sánchez. Não é "dissidente", como alguns lhe chamam: dissidente é o regime dos irmãos Castro, que rasgou as promessas de liberdade feitas há mais de meio século, quando Cuba se livrou de uma ditadura de sete anos para mergulhar noutra ditadura que dura há oito vezes sete anos.

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O segundo fôlego da revolução

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.15

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 (foto: Vaticano)

O modo como Cuba está a fazer a transição do socialismo puro e duro, herdado de Fidel, para um modelo, que ainda não se sabe qual é, mais consentâneo com os valores globalizadores da liberdade e da democracia, tem vindo a afirmar-se de forma discreta e, ao mesmo tempo, a meu ver, inteligente.

Não sei até onde poderá ir a abertura cubana, nem se o restabelecimento de relações diplomáticas normais entre Cuba e os Estados Unidos da América conduzirá à implantação da democracia. De qualquer modo, penso que não será difícil imaginar, pelos sinais que nos chegam, que o que vier terá todas as condições para ser melhor, do ponto de vista dos direitos humanos, da liberdade, da democracia, do apoio da comunidade internacional e da qualidade de vida dos cubanos, do que o testemunho que foi recebido.

Sem grande alarido, nem declarações excessivas, Cuba parece reencontrar o seu espaço, que no caso implica também uma mudança no seu relacionamento com o Vaticano, o que é capaz de deixar apreensivos os mais fiéis guevaristas. E, às vezes, são pequenos (grandes) pormenores que, passando despercebidos na comunicação social, vão marcando a diferença. É certo que persistem algumas contradições quando tudo isto acontece ao mesmo tempo que é publicado um artigo de Fidel com o sugestivo título de "Nuestro derecho a ser Marxistas-Leninistas", mas essas serão arestas que o tempo se encarregará de limar.

Embora tenha sido assinalado o carácter privado da visita de Raúl Castro ao Vaticano, não deixa de ser irónico que o Presidente cubano se tenha feito acompanhar, para além de um vice-presidente do Conselho de Ministros e do chanceler Bruno Rodriguez Parilla, do ministro das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, Leopoldo Cintra Frías. Notar-se-á que Castro também chegou ao Vaticano num belíssimo Maserati, com a bandeira de Cuba, para visitar um Papa que se tem afirmado, entre outras coisas, pelo seu desapego ao luxo e aos sinais exteriores de opulência, aliás em coerência com aquilo que tem publicamente defendido, é a sua prática e constitui o seu pensamento.

Sem colocar em causa o caminho que está a ser seguido, que vejo com satisfação pelos benefícios que poderá trazer a todos os cubanos e pelo clima de paz e segurança que transporta para as Caraíbas, espero igualmente que em nome da verdade, e por respeito para com todos aqueles que sofreram os horrores da ditadura, o facto da Revolução Cubana e das suas Forças Armadas Revolucionárias passarem a estar abençoadas não faça Francisco esquecer-se dos excessos que em nome delas foram cometidos. 

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Leituras

por Pedro Correia, em 01.05.15

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«Cuba é o "objecto" de Fidel. É ele o seu dono, à maneira de um proprietário de terras do século XIX. Dir-se-ia que transformou e aumentou a fazenda do seu pai para fazer de Cuba uma só fazenda de onze milhões de pessoas. Dispõe da mão-de-obra nacional como bem entende. Quando, por exemplo, a Universidade de Medicina forma médicos, o objectivo não é que eles exerçam livremente a sua profissão, mas que se tornem "missionários", enviados para bairros-de-lata de África, da Venezuela ou do Brasil, de acordo com a política internacionalista imaginada, decidida e imposta pelo chefe de Estado. Ora, em missão no estrangeiro, estes bons samaritanos tocam apenas numa pequena fracção do salário que lhes pagaria, em circunstâncias normais, o país de acolhimento, ficando a parte mais significativa à disposição do governo cubano, que assume um papel de um prestador de serviços. Do mesmo modo, os hoteleiros estrangeiros, franceses, espanhóis ou italianos, que contratam pessoal cubano na ilha não pagam eles próprios aos seus funcionários, como acontece em qualquer sociedade livre: pagam salários ao Estado cubano, que factura esta mão-de-obra a bom preço (e em divisas), antes de atribuir uma parte ínfima aos trabalhadores (em pesos cubanos, que pouco valem). Esta variante moderna de escravatura não pode deixar de lembrar a relação de dependência que existia nas plantações do século XIX em relação ao dono todo-poderoso.»

Juan Reinaldo Sánchez, A Face Oculta de Fidel Castro, pp. 180-181

Ed. Planeta, 2014. Tradução de Patrícia Xavier

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Razão e emoção.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.15

Como bem se demonstra neste artigo a única decisão racional possível implicaria o Eurogrupo chegar a acordo com a Grécia, atribuindo-lhe condições mais favoráveis de pagamento da dívida para poder permanecer na zona euro. Essa situação evitaria que a Grécia se aproximasse da esfera de influência russa, o que é essencial numa altura em que estamos a um passo da guerra total na Ucrânia.

 

Não me parece, porém, que tal vá acontecer, especialmente porque as decisões políticas nem sempre são racionais, podendo ser ditadas por uma forte carga emocional. Foi assim, por exemplo, que os Estados Unidos encararam a revolução cubana, onde um grupo de guerrilheiros derrubou o regime pró-americano de Fulgêncio Baptista, visto internamente como um simples capataz dos EUA. Desde o início, os EUA adoptaram uma política de total intransigência em relação a Fidel Castro, o que teve como único resultado que Cuba se atirou para a esfera de influência soviética, passando os EUA a ter um regime pró-soviético a 120 km das suas costas. Cuba quase atirou os EUA para uma guerra nuclear e só agora, passados mais de 60 anos, os dois países voltaram a ter uma aproximação.

 

Mas a revolução cubana teve também um efeito altamente pernicioso no ocidente, devido à grande influência que teve na sua juventude.   Che Guevara e Fidel Castro transformaram-se em ícones mundiais da juventude, levando a uma contestação sem precedentes nas democracias ocidentais. Nos EUA assistiu-se às gigantescas manifestações contra a guerra no Vietname e na Europa culminou com o Maio de 68, que até provocou a renúncia de De Gaulle no ano seguinte. Curiosamente, enquanto toda a juventude europeia olhava fascinada para Cuba, a URSS esmagava tranquilamente a primavera de Praga. Na altura dizia-se que o ocidente atravessava uma época de depressão nervosa, da qual só sairia com o governo de Thatcher no Reino Unido e com a presidência de Reagan nos EUA, essenciais para a vitória na guerra fria.

 

A Europa atravessa um período semelhante de emoções à flor da pele. Há muito tempo que costumo ver em viagens à Alemanha cartazes a dizer: "os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas" ou "os resgates do euro põem em causa as nossas pensões", num país que deveria estar a cantar loas aos ganhos líquidos que está a ter com o euro. Em Portugal Passos Coelho também se pôs a criticar as propostas gregas, porque sabe que, se forem satisfeitas, ele será posto em causa por não ter feito exigências semelhantes. E agora até Cavaco Silva saiu da sua torre de marfim para falar dos muitos milhões que Portugal emprestou à Grécia, numa atitude totalmente imprópria de um Chefe de Estado.

 

Curiosamente, não me parece que o governo grego esteja minimamente preocupado com esta falta de acordo. Dá-me aliás a ideia que as constantes viagens de Tsipras e Varoufakis não se destinam minimamente a influenciar os seus inimigos europeus, perdão, os seus parceiros europeus para que cheguem a acordo com a Grécia. A ideia parece-me ser antes a de influenciar a opinião pública europeia, que se tem multiplicado em manifestações de apoio aos gregos. As declarações públicas de Schäuble e agora de Cavaco Silva parecem-me assim uma tentativa frustrada para combater a simpatia com que a iniciativa grega está a ser vista pelas populações europeias. Neste enquadramento, a estratégia de Tsipras parece clara: o homem que chamou Ernesto ao seu filho, em homenagem a Che Guevara, quer realizar o velho sonho de Otelo e ser o Fidel Castro da Europa. Já esteve mais longe de o conseguir.

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"Todos somos americanos"

por Pedro Correia, em 19.12.14

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Obama com Raúl Castro em Dezembro de 2013, durante o funeral de Mandela

 

Barack Obama deu o passo que se impunha ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, congeladas desde 3 de Janeiro de 1961 pelo presidente Dwight Eisenhower, ainda o actual inquilino da Casa Branca não tinha nascido.

É um passo que deve saudar-se. O embargo económico decretado por Washington à vizinha república das Caraíbas serviu apenas para conferir à ditadura castrista uma aura de legitimidade em defesa da soberania nacional ameaçada por pressões externas. Enquanto a população sofria, o regime ditatorial implantado há 56 anos em Havana tornava-se cada vez mais duro e mais fechado.

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Cuba, governada pelo mesmo partido e pela mesma família desde Janeiro de 1959, subsiste como anacrónico resquício da Guerra Fria. Mais de dois milhões de cubanos abandonaram o país desde que o comunismo ali foi implantado sob a bênção da União Soviética, que transformou o país num protectorado, enquanto guarda avançada do imperialismo vermelho às portas dos Estados Unidos. Quando o comunismo europeu entrou em derrocada, Cuba sofreu anos de dolorosa penúria até Fidel Castro, forçado pelas circunstâncias, abir a economia cubana às divisas estrangeiras proporcionadas pelo turismo internacional.

Mas a abertura não teve repercussões no plano político: as liberdades essenciais continuam a ser espezinhadas, o monolitismo governativo mantém-se incólume e todas as esperanças de abertura foram abortadas por sucessivas purgas que transformaram cada tímido reformista em feroz inimigo da "revolução".

 

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 Fidel Castro recebido em Washington pelo vice-presidente Richard Nixon (Abril de 1959)

 

Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga uns punhados de dólares para a subsistência elementar dos seus habitantes. Meio século de monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e de nacionalização total da propriedade de cultivo foram a receita certa para o fracasso actual: a ilha comunista importa 84% dos alimentos que consome e não faltam bolsas de carência alimentar no país, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.

O embargo - que atravessou dez administrações norte-americanas - lesou o povo cubano sem servir os interesses de Washington. Obama demonstra ousadia e coragem política ao enfrentar os poderosos lóbis anti-Castro - republicanos e democratas - com as medidas de abertura agora anunciadas.

É uma decisão que só peca por ser tardia. Afinal, os EUA normalizaram há duas décadas as relações com o Vietname - que continua a ser uma ditadura comunista - apesar da sangrenta guerra que ali travaram. E a diplomacia sino-americana vai de vento em popa apesar das divergências ideológicas entre Washington e Pequim.

 

«Todos somos americanos», declarou o Presidente dos EUA no seu discurso de quarta-feira em que anunciou o princípio do degelo com Cuba. Aquela frase de Obama foi pronunciada em espanhol para ampliar o potencial congregador da mensagem.

Condenar Cuba ao perpétuo isolamento dificultaria ainda mais uma transição que nunca será fácil do regime comunista para uma economia de mercado onde as liberdades sejam respeitadas e defendidas. O povo cubano só pode estar grato a Barack Obama.

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Uma decisão inteligente

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.12.14

obama_castro_handshake_AP.jpgQuando em 2009 o Presidente Obama prometeu conduzir a política externa norte-americana, relativamente a Cuba, numa nova direcção, o que se confirmaria desde logo com o reinício do diálogo sobre as questões da imigração que estavam suspensas desde 2003, muito poucos acreditariam que uma relação inamistosa e conflituosa que se prolongou durante quase cinco décadas, tendo múltiplos palcos espalhados pelo mundo e que perdurou para lá da Guerra Fria, terminasse da forma simples, civilizada e respeitosa que foi agora conhecida. O aperto de mão selado aquando das exéquias de Nelson Mandela, entre Raúl Castro e o seu homólogo norte-americano, obtém assim confirmação. Num raro sinal de sensatez, boa fé, inteligência e pragmatismo, os vizinhos desavindos resolveram conversar e encontrar soluções para os problemas que persistiam. Nos próximos anos a opinião pública dos dois países e das demais nações irá observar o desenvolvimento dessa relação com atenção aos mais ínfimos detalhes.

É natural que muita gente não fique satisfeita, a começar pela Rússia de Putin, a Coreia do Norte da família Kim ou a Venezuela madurista. E que outros não saibam como reagir. Mas essas são questões de somenos perante a importância do que agora se conseguiu. A simples leitura das reacções da maioria dos leitores do Gramma, jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, ao discurso do Presidente Raúl Castro, diz bem da satisfação que a decisão transporta para a maioria dos cubanos. O risco maior, para já, estará do lado de Obama, na forma como conseguirá manter os sempre difíceis equilíbrios entre as decisões da política externa dos EUA e o acolhimento das mesmas na sua frente interna, problema que desde há muito está presente nas sempre atribuladas relações em matéria de política externa entre os inquilinos da Casa Branca, o Congresso e o Senado. Recorde-se apenas Versalhes, a Liga das Nações, a Declaração de Wilson e tudo o que se passou deste então.

Ao escolher o caminho do "socialismo próspero e sustentável", Cuba parece querer abdicar dos modelos mais radicais que conduziram muitos cubanos à pobreza e à miséria, e opta por uma via de desenvolvimento de pequenos passos do tipo chinês. 

Por outro lado, o fim do embargo a Cuba e a normalização das relações diplomáticas introduz um factor de desanuviamento e paz nas relações internacionais que constitui um excelente sinal de esperança e uma forma simpática de se chegar ao fim de um ano muito conturbado, entre outros, pelos problemas na Síria e na Ucrânia, desta vez com a perspectiva de que nem tudo foi em vão.

Oxalá que este importante sinal, que abre uma nova via no entendimento entre os EUA e Cuba, não seja destruído pelo fundamentalismo de alguns sectores mais conservadores norte-americanos, nem pelos extremismos latino-americanos, e possa constituir um modelo a seguir noutras situações - a começar pelo Médio Oriente - e um novo sopro de liberdade e progresso no golfo do México e no mar das Caraíbas.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 03.07.14

"Fidel Castro se comporte en empereur", de Axel Gyldén.

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Penso rápido (14)

por Pedro Correia, em 02.07.14

A incultura "comunicacional" galopa de manhã à noite: a televisão devia tornar-nos mais cultos, mais sábios, mais esclarecidos, mas só nos torna mais broncos.

Há dias, num canal televisivo, o presidente cubano Raúl Castro era apresentado como "líder sul-americano". Já nem insisto nesta escandalosa disparidade de critérios jornalísticos que reserva o rótulo de "ditador" a um Pinochet ou um Videla, excluindo um Castro. Como se só à direita existissem ditadores. Como se um general que reprime toda a oposição, censura a imprensa e mantém ilegalizados os partidos da oposição esteja dispensado de justificar o rótulo de tirano pelo simples facto de ser comunista.

Desta vez indigno-me apenas com a elementar falta de conhecimentos de geografia por parte de quem escreveu, de quem editou e de quem leu a referida "notícia". Incapaz de perceber que a ilha de Cuba, situada a escassos 135 quilómetros da costa norte-americana, está ainda mais longe de pertencer à 'América do Sul' do que de ser um país livre.

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Talvez fosse conveniente explicar-lhes que aquilo não fica perto "dessa" Cuba.

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Exilado até na morte

por Pedro Correia, em 28.02.14

 Huber Matos, com Fidel Castro e Camilo Cienfuegos em 1959

 

Huber Matos, um dos heróis da revolução cubana, morreu ontem, aos 95 anos. No exílio, em Miami, onde se encontrava desde 1979, após uma longa detenção nos cárceres castristas. Manteve-se fiel ao ideário por que lutou na Sierra Maestra contra a ditadura de Fulgencio Batista -- ideário logo atraiçoado pela nova ditadura imposta aos cubanos por Fidel Castro.

A 19 de Outubro de 1959 -- apenas dois dias antes de ser encarcerado e a nove dias do desaparecimento de outro herói da revolução, Camilo Cienfuegos, cuja morte permaneceu sempre envolta em mistério -- este antigo professor que comandou a chamada Coluna 9 do Exército Rebelde na quase mítica investida contra Santiago escreveu uma corajosa e premonitória carta a Fidel Castro em que renunciou a todos os cargos e honrarias do novo regime. Uma carta que lhe valeu duas décadas de privação da liberdade.

Vale a pena lê-la: é um documento extraordinário. Escrito por um lutador contra a opressão que soube detectar os primeiros indícios da deriva autocrática do novo regime e que recusava ver uma ditadura substituída por outra: "Es bueno recordar que los grandes hombres comienzan a declinar cuando dejan de ser justos."

 

Pagou um preço duríssimo pela coerência. E por ter ousado dizer em voz alta aquilo que o ditador não tolerava escutar. Foi o primeiro de muitos, condenados à morte cívica pela tirania de Castro -- antes de Cabrera Infante, Carlos Franqui, Heberto Padilla, Virgilio Piñera, Néstor Almendros, Reinaldo Arenas, Norberto Fuentes, Jesús Díaz, Eliseo Alberto, Carlos Alberto Montaner, Raúl Rivero, Zoe Valdés e tantos outros. Nos círculos do regime passaram a chamar-lhe "terrorista anticubano", com a linguagem típica das ditaduras, sempre prontas a instrumentalizar o vocabulário ao serviço da oligarquia dominante.

Os restos mortais de Huber Matos -- exilado até na morte -- só serão depositados em Cuba, por sua vontade expressa, quando a liberdade por que ele tanto lutou ali enfim chegar. Pode ser a passo de tartaruga, como ironiza Yoani Sánchez no seu blogue, mas chegará. Como escreveu Padilla, um dos poetas banidos pela ditadura, "protege-te dos vacilantes / porque um dia saberão o que não querem".

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Um gesto para a História

por Pedro Correia, em 10.12.13

 

Em 8 de Abril de 2005, por ocasião do funeral do Papa João Paulo II na Praça de São Pedro, houve um encontro histórico, até aí impensável: o presidente israelita, Moshe Katsav, cumprimentou o seu homólogo iraniano, Muhammad Khatami, com quem trocou breves impressões aproveitando o facto de ser fluente na língua persa por ter nascido no Irão. Este gesto de boa vontade, ocorrido no momento da missa de exéquias em que os fiéis eram convidados a saudar-se "na paz de Cristo", surpreendeu todos os observadores internacionais e suscitou críticas aos dois chefes de estado por parte dos sectores mais extremistas de ambos os países.

Hoje, durante as cerimónias fúnebres de Nelson Mandela em Joanesburgo, aconteceu um gesto ainda ainda mais relevante e mais imprevisto: o aperto de mão trocado entre Barack Obama e Raúl Castro quando o Presidente norte-americano se encaminhava para o púlpito onde fez o seu vibrante discurso de homenagem ao falecido ex-líder sul-africano, a quem justamente chamou "um gigante da História".

Há homens que têm este condão: conseguem congregar os outros mesmo depois da morte. O exemplo de Mandela, Nobel da Paz em 1993, pairava nas tribunas do estádio Soccer City, onde os dirigentes máximos de Cuba e dos EUA começaram a quebrar um gelo acumulado há mais de meio século: os dois países cortaram relações diplomáticas em 3 de Janeiro de 1961.

Mandela –- "personalidade maior do século XX", como o designou a Presidente brasileira Dilma Rousseff, discursando em português pouco antes de Obama, no mesmo local –- teria certamente exibido o melhor dos seus sorrisos perante o aperto de mão entre Obama e Castro. Porque não houve estadista capaz de odiar o ódio como ele.

Falta agora traduzir em acções concretas o belo simbolismo ilustrado nesta fotografia difundida pela cadeia televisiva norte-americana ABC. Obama, para ser verdadeiramente digno do Nobel que lhe foi atribuído em 2009, deve pôr em prática o que nenhum dos seus antecessores –- de Lyndon Johnson a George W. Bush –- teve coragem de fazer: levantar o embargo a Cuba decretado em 1960 pelo presidente Eisenhower e ampliado dois anos depois por John F. Kennedy.

Extinta a guerra fria, Cuba é hoje um tigre de papel que proclama slogans anti-imperialistas enquanto mendiga dólares para a subsistência elementar. Meio século de “revolução” que impôs a monocultura agrícola para abastecer de açúcar os camaradas soviéticos e a nacionalização total da propriedade de cultivo foi a receita certa para o fracasso actual: Havana importa 84% dos alimentos que consome –- e não faltam bolsas de fome na ilha, que dispõe de 6,6 milhões de hectares de solo fértil mas só cultiva pouco mais de três milhões.

É este o momento para a administração norte-americana dar um sinal positivo. Afinal, Washington normalizou as relações com o Vietname –- que se mantém uma ditadura comunista –- apesar da sangrenta guerra que ali travou durante uma década. Desmoronado o império soviético, ultrapassada a guerra fria, Cuba deixou de ser uma ameaça para o poderoso vizinho do norte. Condená-la ao isolamento é dificultar ainda mais uma transição que não será fácil do totalitarismo comunista para uma economia de mercado onde as liberdades sejam respeitadas e defendidas.

Para ser consequente com o histórico gesto de hoje, Obama deve incluir o levantamento do bloqueio a Cuba entre as suas prioridades imediatas.

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Leituras

por Pedro Correia, em 19.06.13

 

«Os charutos que a Cuba comunista produz são um dos símbolos do capitalismo desenfreado, e há quem pague cem dólares ou mais por um charuto de Havana enrolado à mão, o que corresponde a cerca de dois meses e meio de salário da mão que o enrolou. Ou a cinco meses de salário do professor que lhe ensina os filhos.»

Michael Palin, À Aventura com Hemingway

Bizâncio, 2013. Tradução: Francisco Agarez

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Hasta siempre, Bebo Valdés

por Pedro Correia, em 25.03.13

 

"La libertad cuesta muy cara, y es necesario, o resignarse a vivir sin ella, o decidirse a comprarla por su precio."

José Martí

"Dentro de la Revolución todo; contra la Revolución, nada."

Fidel Castro

 

Fala-se muito da privação dos direitos políticos em Cuba, submetida desde 1959 à férrea oligarquia dos irmãos Castro. Fala-se muito menos da repressão cultural na ilha-prisão, onde escritores, poetas e artistas tão diversos como Cabrera Infante, Virgilio Piñera, Nestor Almendros, Carlos Franqui, Jesús Díaz, Reinaldo Arenas e Heberto Padilla se viram condenados consecutivamente ao silêncio, à prisão ou ao exílio por ousarem desafiar os dogmas do regime. Houve já quem chamasse "genocídio cultural" ao meio século de tirania comunista que impõe a lei da mordaça a um povo que é, como poucos, vocacionado para a liberdade.

Pensei nisto há dois dias, ao tomar conhecimento de que um dos mais geniais pianistas do nosso tempo nos disse adeus. Era Bebo Valdés, falecido aos 94 anos após mais quatro décadas de exílio voluntário. Foi um dos reis da noite de Havana nos anos 40 e 50, tendo chegado a actuar com Nat King Cole. Quando os barbudos de Castro desceram a Sierra Maestra, substituindo uma ditadura por outra de sinal contrário, ele fez uma declaração que viria a condená-lo ao ostracismo: "Sou neutral em matéria política." Uma frase destas bastava para que lhe pusessem o rótulo de contra-revolucionário.

Quando Fidel mandou expropriar os 955 bares e cabarés existentes na capital cubana, em Março de 1968, Bebo percebeu que era tempo de partir. A mãe fê-lo prometer que não regressaria enquanto vigorasse a ditadura e ele cumpriu a promessa: disse adeus à ilha, tornou-se cidadão do mundo. A Havana que transportava consigo era uma Havana mítica, há muito sepultada na poeira da memória.

 

Bebo imprimiu à sua música a inconfundível nostalgia do exílio, latente em cada acorde que colhia do piano. Como ele, muitos outros acabaram a espalhar o som cubano pelas rotas do desterro.

Castro, implacável, proclamou que a arte teria de ser posta ao serviço da revolução, começando por proibir os cubanos de escutar os Beatles. De proibição em proibição, todo o som dos exilados acabou por ser alvo da censura oficial na rádio e na TV. Três gerações da ilha foram assim impedidas de ouvir o intérprete de La Comparsa. E também Celia Cruz, a rainha da salsa - que a Billboard Magazine chegou a considerar "a mais influente figura feminina da história da música cubana": exilada em 1959, nunca mais regressou à sua Havana natal. E Olga Guillot, a rainha do bolero, que partilhou palcos com Frank Sinatra: partiu em 1961 sem olhar para trás.

 

É enorme a legião de músicos ou futuros músicos cubanos que a revolução castrista expurgou. Inclui o trompetista Arturo Sandoval, exilado em 1990 durante uma digressão em Espanha com Dizzy Gillespie. Cachao López, um dos mestres do mambo, que rumou em 1962 para os Estados Unidos numa viagem sem regresso. Willy Chirino, que partiu em 1960, ainda adolescente, e hoje é um dos mentores do movimento pacifista cubano Eu não coopero com a ditadura. Gloria Estefan, que já vendeu mais de cem milhões de discos, permanece longe do país natal, onde nasceu há 55 anos. Paquito d'Rivera - provavelmente o melhor saxofonista contemporâneo - pediu asilo político aos EUA, em 1981, quando se encontrava em solo espanhol: o jazz, sua especialidade, era considerado "música imperialista" naqueles anos de chumbo do regime.

Votaram com os pés, abandonando um regime que os oprimia. Cada qual a seu modo, todos sabiam que a criação artística é inseparável da liberdade.

 

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A palavra mais difícil de escrever

por Pedro Correia, em 18.08.12

Pensava eu que um ditador é isso mesmo: um ditador. Nada disso: é um "líder histórico". Uma, duas, três, quatro vezes "líder histórico". A notícia é da agência Lusa, mas pelo estilo podia ser da Prensa Latina, o que não impediu a sua repercussão acrítica em diversos órgãos de informação portugueses, o que diz muito sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Temos de ler a imprensa estrangeira para vermos uma correspondência correcta entre o nome e a coisa. Aqui, por exemplo. Nunca imaginei que por cá fosse tão difícil escrever uma simples palavra de sete letras. Estou com muita curiosidade de saber qual será a próxima vez que a Lusa a utilizará.

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Havana, Julho de 2012

por Pedro Correia, em 28.07.12

 

Em pleno século XXI, ainda há quem seja preso por dar vivas à liberdade. Neste mesmo mês de Julho de 2012, ainda há quem seja ameaçado pela polícia política por citar Gandhi. Em Cuba, a ilha-prisão. Gerida há 53 anos por dois irmãos. Como resumia há três anos o Observatório de Direitos Humanos, referindo-se ao irmão mais novo, "um novo Castro, a mesma Cuba". Nada de significativo mudou de então para cá. Toda a informação permanece asfixiada sob torrentes de propaganda. O regime continua a promover purgas ocasionais entre os seus serventuários, o que apenas se destina a reforçar as estruturas repressivas. E as desigualdades, em diversas situações do quotidiano, são cada vez mais chocantes.

Foi um mês particularmente infeliz para Cuba. Por ter desaparecido Oswaldo Payá, um dos mais tenazes opositores à ditadura. Prémio Sakharov dos Direitos Humanos, concedido em 2002 pelo Parlamento Europeu, e promotor do inédito Projecto Varela, que reuniu 11.020 assinaturas de cidadãos cubanos em defesa de um referendo pela abertura democrática, logo inviabilizado pela petrificada cúpula do regime.

Sem ele, tudo volta a ser mais difícil. Como escreveu Yoani Sánchez no seu blogue, "ninguém devia morrer antes de alcançar os seus sonhos de liberdade".

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Coisas que não lerás no Avante

por Rui Rocha, em 26.07.12

Cuando un opositor muere, en cualquier democracia, se dejan a un lado los odios y se respeta la dignidad del desaparecido. En una dictadura, como la cubana, no es así. La muerte de Payá ha sido groseramente festejada en varios medios oficialistas cubanos. Detrás de ese comportamiento irracional yace la inseguridad moral de quienes no pueden admitir que una persona honesta, convencida de sus ideas, defienda, con métodos pacíficos y desde las propias leyes vigentes, la democracia en Cuba.

 

Rafael Rojas, aqui.

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Grandes romances (1)

por Pedro Correia, em 09.06.12

UM HOMEM DESTRUÍDO MAS NÃO VENCIDO

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

 

Em Janeiro de 1953, uma das obras mais memoráveis da literatura universal encabeçava o top de vendas nos Estados Unidos: O Velho e o Mar. Com esta novela que assombrou o mundo literário logo ao surgir nos escaparates, quatro meses antes, Ernest Hemingway relançava espectacularmente a sua carreira, desmentindo os críticos que lhe tinham antecipado o epitáfio. Não tardaria o Pulitzer. Nem o Nobel, que lhe foi atribuído em 1954.

"Um homem pode ser destruído, mas não derrotado" é o mote desta comovente saga de um ser frágil em luta desigual contra as mais inclementes forças da natureza."Hei-de lutar enquanto tiver remos", diz para si próprio o velho pescador Santiago, protagonista do livro. No final, perdido o espadarte que pescara no alto mar e esgotadas as forças, basta-lhe a recompensa de nunca ter virado a cara à luta - mensagem que transcende épocas e modas, tornando-se numa alegoria da condição humana. A Dignidade do Homem foi, aliás, o título inicial que Hemingway concebeu para a novela, cuja trama era antecipada num dos primeiros contos do autor - Os Invencíveis (1925) - em que um toureiro figurava no lugar do pescador.

"Esta é uma obra que nos eleva à contemplação da dignidade do homem e do mundo", escreveu Jorge de Sena no prefácio à edição portuguesa do livro, que ele próprio traduziu. Portugal foi um dos países onde O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea) cativou gerações de admiradores, funcionando muitas vezes como iniciação à literatura de qualidade.

Hemingway congeminou durante 15 anos a história do velho Santiago que nunca voltou costas aos tubarões, concebendo-a desde logo como uma homenagem aos pescadores de Cojímar, belíssima aldeia piscatória situada a poucos quilómetros de Havana. Era ali que o escritor costumava ancorar o seu iate Pilar na década de 50, quando Cuba se tornou a sua pátria adoptiva.

Publicado inicialmente nas páginas da revista Life, no dia 1 de Setembro de 1952, O Velho e o Mar teve um sucesso imediato: só em dois dias, a revista vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Um sucesso prolongado em livro, uma semana mais tarde. Com 50 mil cópias vendidas logo na edição inaugural, a obra manteve-se nos seis meses seguintes no top americano, tornando-se objecto de estudo em escolas francesas, alemãs, italianas e japonesas. Portugal acabou por não fugir à regra.

 

Santiago, um homem no limiar da pobreza mais extrema e praticamente escorraçado da sociedade, tem apenas como amigo um rapaz chamado Manolín. Só esta criança - única personagem do género na obra romanesca de Hemingway - mantém toda a confiança nas capacidades do velho pescador que se prepara para enfrentar o derradeiro desafio da sua vida no mar das Caraíbas. Por isto, O Velho e o Mar também constitui um hino à amizade.

Numa carta dirigida ao crítico Bernard Berenson, poucos dias após a publicação da obra, Hemingway confessava que o seu "único fim na vida" era ser um velho sábio, à imagem e semelhança de Santiago. No auge da carreira, quando era rico e famoso, o futuro Nobel da Literatura não escondia o fascínio por um estoicismo de raiz evangélica. A simbologia cristã percorre aliás as páginas desta obra - do nome do protagonista aos três dias em que decorre a acção, culminando na cena final com Santiago a levar os utensílios de pesca às costas, como Cristo rumo ao Gólgota. O velho adormece enfim, exausto, com as palmas das mãos viradas para cima e os braços estendidos em forma de cruz. 

 

Nota. Dedico este início de uma nova série no DELITO à leitora Ilda Pontes, que nesta caixa de comentários me alertou para algo que eu ignorava: a inclusão do meu texto sobre O Velho e o Mar no livro Plural - de língua portuguesa, destinado aos alunos do 9º ano -, da autoria de Elisa Costa Pinto e Vera Saraiva Baptista (Raiz Editora). Um texto publicado originalmente em Janeiro de 2003, no Diário de Notícias. O sortilégio dos blogues também passa por surpresas deste tipo.

 

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Preso por dar vivas à liberdade

por Pedro Correia, em 10.04.12

 

«Protege-te dos vacilantes /

Porque um dia saberão o que não querem»

Heberto Padilla

 

Vários dias depois, interrogo-me sobre o destino daquele homem que se encheu de coragem e gritou "abaixo o comunismo, viva a liberdade" pouco antes do início da vasta missa campal celebrada pelo Papa na Praça Antonio Maceo, em Santiago, segunda maior cidade de Cuba. Foi um grito insensato, atendendo ao contexto, mas as figuras tocadas pelo heroísmo não costumam caracterizar-se pela sensatez.

Vejo e ouço rostos e nomes de assassinos diariamente nas páginas dos jornais e nas imagens dos telediários. Por lamentável contraste, ignoramos tantas vezes a identidade destes heróis solitários que ousam proclamar em voz bem alta o que milhões de concidadãos pensam em países agrilhoados e amordaçados. Ao ver aqueles fugazes segundos de reportagem televisiva em que vários esbirros da ditadura cubana rodeavam o indivíduo e o levavam para parte incerta, pensei que aquela era a perfeita metáfora de uma revolução falhada: 53 anos após a vitoriosa entrada dos barbudos da Serra Maestra em Havana, basta alguém proclamar uma frase em louvor da liberdade para ser riscado da convivência cívica.

Infelizmente, nada que deva surpreender-nos: em Cuba qualquer cidadão pode ser detido a todo o momento com acusações tão vagas e tão implacáveis como "faltar ao respeito aos símbolos pátrios", algo que muitos comunistas portugueses associariam de imediato à ditadura salazarista embora estejam sempre na primeira linha do aplauso ao chamado "socialismo cubano".

O problema não reside apenas na facilidade com que se é preso em Cuba. Há "flagrantes violações da dignidade humana" nos cárceres castristas, como alertam opositores à ditadura, entre eles o médico Óscar Elías Biscet, que sabe muito bem do que fala: esteve 12 anos preso por delito de opinião.

Pensava em tudo isto enquanto acompanhava a missa papal em Santiago sintonizando o canal oficial cubano Cubavisión, de que disponho através da TV Cabo. Dir-se-ia um canal devoto, tanta era a solene deferência perante Bento XVI nesta sua inédita peregrinação ao país que Fidel Castro fez proclamar em 1976 como estado ateu até à revisão constitucional de 1992.

 

Escuto com alguma emoção o Credo recitado em coro por largos milhares de vozes. Na primeira fila da assistência à cerimónia litúrgica alinham-se respeitosamente vários membros da nomenclatura cubana, com destaque para o "general do exército Raúl Castro, presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros", como não se cansa de assinalar a locutora da Cubavisión. O irmão mais novo e herdeiro de Fidel saudou o Papa chamando-lhe "Santidade", algo impensável noutros tempos. Quase todos os bens da Igreja Católica foram "nacionalizados" após 1959 e dezenas de sacerdotes acabaram por ser expulsos da ilha, onde o ensino religioso foi proibido. Até 1991 um cidadão cubano tinha de se declarar "não crente" para ingressar no Partido Comunista.

"Ficaram para trás os anos de fanatismo anti-religioso em que as pessoas eram expulsas do trabalho ou da escola só por terem em casa um quadro do Sagrado Coração de Jesus", escreveu Yoani Sánchez no El País. O mesmo jornal que viu o seu correspondente em Havana, Mauricio Vincent, ser expulso da ilha em Setembro de 2011: os seus artigos independentes irritavam as autoridades comunistas.

 

Cuba deve avançar "pelos caminhos da justiça, da paz, da liberdade e da reconciliação", disse o Papa na sua homilia em Santiago enquanto a chuva caía, com persistência muito tropical. As imagens da Cubavisión focavam a multidão compacta, mas quase sempre à distância, com raros planos aproximados. A política contamina tudo - até a realização televisiva. O general Raúl Castro cumprimentou o Sumo Pontífice com uma semivénia respeitosa, a poucos metros da imagem da padroeira cubana, à qual Ernest Hemingway - cubano por opção e adopção - ofereceu a medalha recebida em 1954 pela Academia de Estocolmo que o distinguiu com o Nobel da Literatura.

Hemingway viu-se forçado a abandonar Cuba em 1960, o que lhe apressou a morte. Vivesse ele hoje e talvez acabasse por escrever um romance sobre aquele desassombrado cubano detido simplesmente por dar vivas à liberdade - anónimo herói da vida real. Robert Jordan - o protagonista de Por Quem os Sinos Dobram - gostaria de o conhecer. E era bem capaz de juntar a sua voz àquele corajoso brado solitário.

Foto: Enrique de la Osa (Reuters)

 

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Hoc est enim corpus meum

por Pedro Correia, em 06.04.12

Meio século depois, Cuba volta a celebrar a Sexta-Feira Santa como feriado nacional. As autoridades comunistas corresponderam assim a um pedido expresso do Papa Bento XVI na sua recente deslocação ao país. Foi preciso outro chefe da Igreja Católica visitar Havana - João Paulo II, em 1998 - para os trabalhadores cubanos poderem assinalar o Natal como dia festivo após quase três décadas de proibição: Fidel Castro havia cancelado em 1969 o feriado natalício com o argumento de que "interferia nos trabalhos da colheita do açúcar". Se não fosse "socialista", certamente não faltaria quem o acusasse de tenebrosas tendências neoliberais...

Em Portugal, a CGTP defende a manutenção dos feriados religiosos dizendo - e com razão - que devem merecer tanto respeito como o 1º de Maio ou o 25 de Abril. Algo que os sindicalistas portugueses terão certamente transmitido aos seus camaradas cubanos quando lá se deslocaram, vai fazer em breve um ano, para assistirem à comemoração do Dia do Trabalhador. Ou quando lá estiveram, no ano anterior. Acredito que o ex-secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, tenha defendido algo semelhante durante a sua visita a Havana em Julho de 2009.

A fé move montanhas. Até num país governado desde 1959 por um partido que só em 1991, durante o seu quarto congresso, começou a tolerar militantes com assumida crença religiosa. "Paris vaut bien une messe", proclamou Henrique IV em 1593 ao converter-se ao catolicismo. Porque não há-de o general Raúl Castro pensar o mesmo nesta quadra pascal?

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Cuba, 2012

por Pedro Correia, em 04.04.12

 

«Presenciar la represión acelera así el proceso de complicidad entre los ciudadanos ante el totalitarismo.»

Yoni Sánchez no seu blogue, Generación Y

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Hemingway, Fidel e Fuentes

por Pedro Correia, em 14.08.11

  

Norberto Fuentes é um escritor que fez parte do círculo íntimo do poder comunista em Havana e chegou a ser confidente de Raúl Castro durante os longos anos em que o irmão mais novo de Fidel se limitava a aguardar pacientemente que chegasse a sua hora de ascender ao posto cimeiro da hierarquia política em Cuba. Durante o período da intervenção cubana em Angola, nas décadas de 70 e 80, esteve lá destacado numa missão de que foi incumbido pelo próprio Fidel Castro, tendo sido um dos cronistas dessas expedições militares que de algum modo assinalaram o canto do cisne da Guerra Fria.

Fuentes também é um dos autores mais bem documentados sobre Ernest Hemingway, a quem dedicou anos de investigação. Recolheu muitas confidências de Gregorio Fuentes, que foi o piloto do iate Pilar, de Hemingway, e serviu de inspiração ao inesquecível pescador Santiago, da novela O Velho e o Mar. Um dia, em Havana, falou livremente sobre Mario Vargas Llosa, já então proscrito pelo regime castrista devido às suas críticas desassombradas ao sistema ditatorial que perseguia os melhores cidadãos de Cuba. “Como romancista é bom, mas interessa-me mais como político. É uma das melhores cabeças deste continente”, confessou um dia ao escritor espanhol J. J. Armas Marcelo, biógrafo e amigo de Llosa. Este episódio, passado nos anos de chumbo do castrismo, vem descrito no livro Vargas Llosa: El Vicio de Escribir, de Armas Marcelo.

Pouco tempo depois, à semelhança do que fizeram mais de três milhões de cubanos desde a instalação da ditadura comunista em 1959, Fuentes conseguiu abandonar a ilha-prisão, rumando ao exílio em Miami. E de lá legou ao mundo dois livros considerados fundamentais sobre dois homens que para sempre ficarão ligados à história cubana: Autobiografía de Fidel Castro e Hemingway en Cuba.

Dois livros que pretendo adquirir e ler sem demora.

 

Foto: Ernest Hemingway e Fidel Castro na única vez em que se encontraram (Cojímar, Cuba, Maio de 1959)

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De Havana a Londres

por Pedro Correia, em 06.08.11
O Livro das Cidades, de Cabrera Infante, Publicações Dom Quixote.

O escritor cubano, falecido em 2005, foi forçado a trocar o sol do Caribe pelo exílio britânico, vivendo quatro décadas em Londres. Nunca voltou à ilha natal, que ia lembrando com crescente saudade de obra para obra. Mas adaptou-se bem aos rigores do clima londrino, como este livro documenta. Guillermo Cabrera Infante descreve-nos a sua vida quotidiana em Londres – uma vida compassada, feita de minuciosas rotinas, estivesse chuva ou sol. Acompanhamos os passeios do escritor por South Kensington Park, seguimo-lo pelas zonas do grande comércio, damos um pulo à Gloucester (pronuncia-se “Gloster”) Road, onde viveu com a mulher, Miriam Gómez, e as duas filhas. “Quem está cansado de Londres está cansado da vida”, escreveu Samuel Johnson. Cabrera não estava: o amor pela capital britânica aconteceu à primeira vista, em Novembro de 1963: mal virou uma esquina, deparou com um bando de adolescentes em histeria. O que era? Os Beatles, que ali actuavam. Seguiram-se os anos loucos da swinging London, que o autor cubano testemunhou por dentro. Muito antes da movida madrilena, que causou furor por toda a Europa, era Londes a dar cartas – na moda, na música, nos usos e costumes.
Cabrera Infante fala-nos aqui também das personalidades que foi conhecendo ao longo da vida. Poucos ficam bem na fotografia. George Raft, por exemplo, era mafioso tanto no cinema como na vida real. Elizabeth Taylor, uma insuportável diva. John Lennon, o rei da arrogância.
E fala-nos de outras cidades. A britânica Bath, “a cidade mais encantadora da Inglaterra”. San Sebastián, “um espectáculo para ver e voltar”. E tantas outras: Bruxelas, Nova Iorque, Las Vegas, Madrid, Veneza, Rio de Janeiro, Salvador da Baía... À primeira vista, falta Havana. Mas Havana está sempre presente, em todas as entrelinhas. Essa Havana que foi a mais deslumbrante das cidades do antigo império espanhol e hoje vegeta numa amarga decadência, estrangulada pela ditadura castrista.
A dor do exílio acabou por matar Cabrera Infante. Mas Miriam Gómez há-de cumprir a promessa que lhe fez: as suas cinzas serão um dia espalhadas pelo chão de Cuba.
Classificação: ****



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Vinte cidades que jamais esquecerei (V)

por Pedro Correia, em 17.06.11
HAVANA
"Se lhes disserem que me perdi, procurem-me em Havana."
(Federico García Lorca)



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Confundir democracia com ditadura

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

Do alto da sua senilidade, Fidel Castro pergunta se a NATO também tenciona "bombardear Espanha" para travar manifestações de rua. Confundindo, desde logo, legítimos protestos em democracia com levantamentos populares contra uma ditadura.

Que Castro, a cuja família pertence o nada invejável troféu correspondente à mais longa ditadura do hemisfério ocidental, confunda democracia com despotismo é algo que não deve admirar ninguém.

O problema, como sempre sucede nestas coisas, são os discípulos. Tantos deles mais papistas que o papa. Reparem neste texto do Renato Teixeira. Mete tudo no mesmo saco: a luta contra tiranias e festivos acampamentos de rua em capitais democráticas. Desvirtuando, de caminho, o significado de uma canção que deixou rasto como símbolo de resistência à feroz ditadura militar brasileira - e também ao regime salazarista.

É intolerável identificar a Tunísia do deposto Ben-Ali, a praça Tahrir e os opositores a Assad na Síria com protestos em cidades europeias como Atenas, Madrid e Londres. O Renato Teixeira sabe muito bem que é uma profunda desonestidade intelectual confundir aqueles que ousam erguer-se em revolta contra sistemas ditatoriais com os que reclamam contra as naturais imperfeições da democracia. Os primeiros correm o risco de ir parar anos a fio aos cárceres, sofrerem torturas ou até perderem a vida. Os segundos só correm o risco de uma constipação se cair uma chuvada mais forte.

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O penoso crepúsculo cubano

por Pedro Correia, em 28.04.11

 

Num mundo em que a História acelera, em Cuba parece ter parado. A sensação de irrealidade que nos chega da ilha comunista, aprisionada há mais de meio século por uma "revolução" que a pôs à margem dos sonhos e aspirações da generalidade dos povos, atingiu por estes dias o cume:

- O congresso do Partido Comunista Cubano reuniu enfim, com nove anos de atraso, em clara violação dos seus próprios estatutos.

- Soube-se agora que o primeiro secretário do partido, Fidel Castro, havia secretamente transferido estas funções em 2006 para o irmão, o general Raúl Castro, também em flagrante violação das normas estatutárias.

- Procedeu-se à "renovação" do partido nomeando para braço direito de Raúl, com 80 anos incompletos, um dos cabecilhas da revolução, José Machado Ventura, com 80 anos já feitos.

- A Comissão Política do PCC, que integra 15 dirigentes, conta com três novos membros - todos com mais de 50 anos, idade em que ainda se é jovem para os padrões cubanos.

- Numa suprema demonstração de cinismo, Raúl, figura cimeira do regime desde 1959, vem agora estabelecer um limite de dez anos para o exercício de cargos políticos. Seguida à letra, no caso dele, a norma permitir-lhe-á governar até aos 90 anos. Mas na Cuba comunista, onde a biologia manda mais do que a ideologia, nunca se sabe: os governantes são os primeiros a violar as próprias normas que impõem ao povo.

 

 

O que este congresso que devia ter ocorrido em 2002 confirma é a manutenção de um regime de partido único, profundamente hierarquizado, em que as hostes partidárias se confundem com as forças armadas (que embolsam 60% das receitas turísticas) e o aparelho de Estado. Um regime em que a cúpula do poder permanece nas mãos de membros da mesma família há 52 anos. Um regime que destruiu o tecido produtivo do país e hoje se vê forçado a importar 80% do que ali se come. Um regime mergulhado num irreversível e penoso crepúsculo, confundindo o seu destino com o do país.

Há meio século, a palavra de ordem era "socialismo" - a toda a velocidade. Agora a palavra que está nas mentes de todos é "capitalismo" - o mais devagar possível. Com mais de dois milhões de cubanos forçados a viver fora da ilha e milhão e meio à beira do desemprego porque o Estado-patrão deixou de ter verba para pagar os magros salários - os segundos mais baixos do hemisfério ocidental - e as esquálidas pensões de reforma de oito euros mensais.

Cuba é hoje uma nação envelhecida, sem esperança, com a segunda mais larga população de idosos da América Latina: 46% da população tem mais de 40 anos. Os jovens tudo fazem para abandonar um país onde o partido-Estado persiste em oprimir a sociedade. Em nome da "liberdade", o que torna tudo ainda mais trágico.

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Avante, por Assad e Castro!

por Pedro Correia, em 23.04.11

A ditadura síria, acossada por gigantescas manifestações de rua, manda disparar contra o próprio povo. O morticínio ocorre até durante a realização de funerais. O mundo inteiro protesta contra esta barbaridade. O mundo inteiro? Não. Em Portugal, o Avante! defende a despótica dinastia Assad, revelando aos seus leitores que os EUA "financiam a oposição síria" e as autoridades de Damasco "negam responsabilidades nas vítimas" (sic). Nem o Omo lava mais branco...

Mas que outra coisa seria de esperar de um jornal capaz de enaltecer, pela pena de um dos principais dirigentes do PCP, o "admirável processo de democracia participativa" em Cuba?

 

ADENDA. Um artigo esclarecedor no El País: Siria se hunde en la represión sangrienta.

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Ecos de Cuba

por Pedro Correia, em 08.01.11

 

«Lo que más angustia a esta mujer que ha caído en el paro no es el futuro de su empleador estatal, sino el rumbo que su vida personal tomará. Nunca ha hecho otra cosa que llenar actas, componer contratos, enmendar declaraciones. Sus diecisiete años de vida profesional los apostó a trabajar para ese patrón gubernamental que hoy la ha dejado en la calle.»

                                                                               *

«Tiene apenas treinta y dos páginas y una sobria cubierta azul. El pasaporte cubano parece más un salvoconducto que una identificación. Con él podemos saltarnos la insularidad, pero su tenencia tampoco garantiza que logremos tomar un avión. Vivimos en el único país del mundo donde para adquirir dicho documento de viaje hay que pagar en una moneda diferente a la que se reciben los salarios. Su costo de “cincuenta y cinco pesos convertibles” significa para un trabajador promedio guardar el sueldo íntegro de tres meses en aras de conseguir ese librito de filigrana y hojas numeradas.»

                                                                               *

«En apenas un par de horas la bandeja de entrada de mi Motorola colapsó, de tantos pronósticos y expectativas que generan en nosotros los próximos doce meses. Curiosamente, una palabra se repetía en la mayoría de estos mensajes, la escurridiza “libertad” copaba con sus ocho letras una buena parte de los sms que me llegaron en las vísperas de Navidad.»

 

Yoani Sánchez, Generación Y

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Notícias do mundo

por Pedro Correia, em 21.12.10

Liberdade de expressão reforçada na Venezuela socialista.

 

Regime de Pequim cada vez mais aberto ao exterior.

 

Democracia consolida-se na Bielorrússia.

 

Prosperidade sem precedentes em Cuba.

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Como o acaso vira a vida do avesso

por Pedro Correia, em 23.11.10
E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?
Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.
Herbert L. Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista. Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.
Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, agora editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda. A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana. Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi manchada para sempre.
................................................................................................................
O Homem que Inventou Fidel
Autor: Anthony De Palma
Editora: Bizâncio
Páginas: 328
Classificação: ****

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Alinhados com a ditadura castrista

por Pedro Correia, em 22.10.10

 

 

Um indivíduo isolado, disposto a levar uma greve de fome às últimas consequências, conseguiu o maior sinal de abertura da ditadura cubana do último meio século, levando à libertação de algumas dezenas de presos políticos. Esse indivíduo, o cubano Guillermo Fariñas, acaba de ser justamente distinguido com o Prémio Sakharov, anualmente atribuído pelo Parlamento Europeu. Na Assembleia da República, os grupos parlamentares aprovaram hoje um voto de congratulação por esta escolha. Todos? Todos não: o PCP e o seu apêndice verde estiveram não ao lado do resistente Fariñas mas da ditadura castrista. Espantosa justificação invocada num partido que se diz internacionalista: o Prémio Sakharov é um "instrumento político de intervenção e ingerência".

Como se um prémio com estas características não tivesse precisamente a obrigação de consumar o direito à justa ingerência da comunidade internacional em regimes que escravizam os seus povos. Como se na galeria de vencedores deste prémio não figurassem personalidades e organizações que justificam, só por si, este direito. Refiro-me a Nelson Mandela, Aleksandr Dubček, Aung San Suu Kyi, as Mães da Praça de Maio, Taslima Nasrin, Ibrahim Rugova, Xanana Gusmão, os Repórteres Sem Fronteiras e a própria Organização das Nações Unidas. Por vontade do PCP e do seu apêndice, o prémio iria antes para a família Castro.

 

Imagem: alguns dos galardoados, desde 1988, com o Prémio Sakharov.

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Notícias politicamente incorrectas (5)

por Pedro Correia, em 26.09.10

A abertura à iniciativa privada em Cuba é imparável, mas será administrada a conta-gotas. (...) Do total [de 178], 29 actividades já eram legais mas há vários anos que as autoridades locais não atribuíam licenças para que fossem exercidas. Era o caso dos 'fabricantes-vendedores de coroas e flores' e dos massagistas. (...) Os donos de restaurantes privados só podiam ter 12 cadeiras, mas agora poderão ter 20 clientes de cada vez e servir-lhes carne e marisco.

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Notícias politicamente incorrectas (4)

por Pedro Correia, em 18.09.10

Em cada dia que passa, vão sendo desvendados os planos do governo de Raúl Castro para reactivar a economia [cubana] e aliviar a carga de um Estado mastodôntico e ineficiente, que controla mais de 80% do emprego. Num prazo de três anos serão despedidos um milhão de trabalhadores (cerca de 25% dos empregados estatais), metade dos quais já em 2011.

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Mais papistas que o Papa

por Pedro Correia, em 15.09.10

Pressionado pela comunidade internacional, e sob a mediação da Igreja Católica, o Governo cubano libertou 52 presos políticos que estavam detidos desde a 'Primavera negra' de 2003. O Avante!, mais papista que o Papa, aproveitou a ocasião para insultar esses cidadãos cubanos que conheceram os cárceres da ditadura castrista. Chama-lhes "mercenários", que foram "pagos a peso de ouro pelos EUA". E garante aos seus leitores que não são presos de consciência, como diz a Amnistia Internacional: são pessoas que "receberam de países estrangeiros (os EUA) fundos e materiais para conspirar contra o Estado cubano".

Com este fraseado e esta terminologia, o jornal oficial do PCP desacredita a própria luta dos seus militantes contra a ditadura salazarista. O Diário da Manhã é que costumava transformar os presos de consciência em "mercenários" ao serviço do estrangeiro, negando os relatórios de organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional. Muitos comunistas portugueses certamente coram de vergonha ao lerem hoje o Avante!.

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Notícias politicamente incorrectas (2)

por Pedro Correia, em 13.09.10

O Governo de Cuba anunciou a redução de mais de 500 mil trabalhadores no sector estatal até ao primeiro semestre de 2011.

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