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A repressão avança na Crimeia

por Pedro Correia, em 28.03.14

«The warning signs are clear. In Crimea, the crackdown is coming. But the repression won’t be televised.»

Salil Shetty, secretário-geral da Amnistia Internacional

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 

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Confundir agredido com agressor

por Pedro Correia, em 26.03.14

 

Leio hoje, num jornal diário português, um artigo que aponta o dedo acusador à União Europeia pelo actual conflito entre russos e ucranianos. Tudo se deveria, segundo o articulista, à "irresponsabilidade" dos dirigentes europeus, que pretendem alargar o limite das suas fronteiras orientais ao território ucraniano, despertando a compreensível ira de Moscovo. Como se a vontade de Vladimir Putin devesse sobrepor-se à decisão soberana do povo ucraniano, que deve ser o único a pronunciar-se nesta matéria.

Este texto, à semelhança de vários outros que tenho lido nas últimas semanas, pretende ser um eco do senso comum em questões internacionais, transformando a geopolítica em bússola orientadora. Que a Crimeia seja ocupada pela tropa russa como se fosse um tabuleiro de xadrez é um pormenor irrelevante em raciocínios deste tipo. Pensamento semelhante levou muitos a apoiar a invasão das Malvinas, em 1982, em sintonia com a repugnante ditadura militar argentina.

 

A Crimeia, no primeiro censo realizado no século XX, tinha ainda maioria de população tártara. Esta população foi alvo das maiores atrocidades -- incluindo deportações em massa -- tanto no período czarista como no estalinismo, abrindo caminho aos colonos eslavos que se apropriaram das suas terras e das suas casas.

Hoje há apenas 12% de tártaros na península. Os russos são 58%.
Ou seja: primeiro expulsam-se os habitantes autóctones; depois proclama-se o princípio da soberania com base num critério demográfico, etno-racial, que nos faz retroceder alguns séculos. Um pouco como aquele indivíduo que matou os pais e procurou depois invocar a sua condição de órfão como atenuante em tribunal.
É uma mistificação histórica, e uma inaceitável manipulação, fazer o que Putin faz: justificar a anexação da Crimeia para fazer coincidir poder estatal com nacionalidade, à semelhança do que sucedia no século XIX.

 

Se começamos a invocar tudo em nome dos sacrossantos "interesses estratégicos" -- que são sempre interpretados à luz da conveniência de quem agride -- acabaremos por justificar e até aplaudir a anexação de Gibraltar pelas força militar espanhola, por exemplo. Ou de Cuba pelos Estados Unidos, cujos "interesses estratégicos" não toleram um regime hostil a escassos 150km de distância da sua costa.
O paralelo não é descabido pois os EUA até têm uma base militar em território cubano (Guantánamo), tal como a Rússia tem uma base em território ucraniano (Sebastopol).

 

Não poupemos nas palavras: estamos perante um claro retrocesso civilizacional.
Neste caso há um agressor e um agredido.

O agredido é o estado ucraniano.

O agressor é Putin, que procura legitimar-se perante a opinião pública interna com este anacrónico exercício de musculatura, totalmente inaceitável.
Confundir agressor com agredido é abrir todas as portas à pura arbitrariedade, condenando o direito internacional a tornar-se letra morta.
É por este "novo mundo" que pugnamos? A minha resposta é clara e simples: não.

 

Foto: Serguei Ilnitsky/AFP

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E depois da Crimeia?

por Luís Menezes Leitão, em 16.03.14

 

Seguramente que, no final do dia de hoje, Putin dirá que a Crimeia já cá canta e agora seguir-se-á o resto, ou seja, o leste da Ucrânia, a Transnístria, e se calhar até territórios dos estados bálticos que lhe permitam o acesso terrestre a Kaliningrad, a antiga Königsberg. Já alguém disse que o mal da Europa era ter demasiada história para tão pouca geografia. Eu digo que neste momento o mal da Europa é ter-se transformado numa plutocracia, em que os mercados são reis e senhores e os governos estão nas mãos do poder financeiro. Foi por isso que a resposta pífia da Europa ao avanço russo passou apenas por ameaçar a Rússia com sanções económicas. Putin ri-se das sanções económicas. Não só é a maior parte da Europa que está dependente do gás russo como, ao contrário do que sucede no ocidente, Putin não se deixa influenciar pelo poder financeiro. Pelo contrário, os milionários russos sabem que só serão milionários enquanto Putin quiser. Basta ele não querer para que surja qualquer acusação criminal que lhes tirará a fortuna toda, se não forem mesmo atirados para a prisão. É por isso que a Europa nada pode contra Putin. Quanto aos Estados Unidos, desde a presidência de Obama que voltaram a um cíclico isolacionismo, o qual já pagaram muito caro em ocasiões anteriores. Já a ONU, será naturalmente paralisada pelo veto russo. Putin tem assim o caminho livre para reconstituir o império russo. Resta saber se será o único. Depois da vitória russa, será que a China não encarará isto como um precedente que lhe permita avançar também para Taiwan? Quando se começa a ceder, nunca se sabe onde as cedências param.

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Putin mau, Putin bom

por Pedro Correia, em 12.03.14

 

Não há nada como mostrar músculo para ganhar popularidade. Ainda há um mês, Vladimir Putin recebia críticas de vários quadrantes pelas suas detestáveis tendências autocráticas que o levaram a promulgar leis discriminatórias dos homossexuais, banindo-os dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi -- os mais caros de sempre, orçados em 51 mil milhões de dólares (10 mil milhões acima das Olimpíadas de 2008 em Pequim).

Bastou-lhe invadir um país soberano, à margem do direito internacional e das regras de convivência civilizada entre países soberanos, para calar certas vozes críticas. Por estes dias tenho reparado no silêncio de alguns: tão indignados com Putin há um mês, tão complacentes com Putin agora.

Dizia Woody Allen, com irresistível ironia, que evitava ouvir Wagner para não sentir a tentação de invadir a Polónia. Apetece perguntar que música o autocrata russo gosta de escutar -- e também alguns dos que agora o apoiam, nem que seja apenas através do silêncio conivente perante a agressão russa à Ucrânia. 

Foto AP/Valentina Petrova

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Contra a lei de Talião

por Pedro Correia, em 10.03.14

 

 

Depois da Ucrânia, a Moldávia. Depois da Moldávia, os estados bálticos: o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento, na Crimeia ou noutro quadrante, porque já houve muitas violações no passado. Fantástica tese, que vou vendo repetida até por gente que me habituou a argumentar com inteligência noutras ocasiões.

Subjaz a este raciocínio que não devemos colher qualquer ensinamento dos erros -- e até dos crimes -- anteriormente cometidos. Esta visão do mundo que justifica as arbitrariedades presentes pela ocorrência de arbitrariedades passadas condena a Humanidade a uma eterna pena de Talião: olho por olho, dente por dente. E absolve de antemão futuros agressores, alegando que também eles terão sido vítimas. Ou, se não foram eles, terão sido os pais. Ou os avós.

Nada é para mim tão inaceitável como esta equivalência moral que alguns pretendem estabelecer entre quem agride e quem é agredido. Com estas premissas será sempre possível justificar as maiores atrocidades -- em qualquer época, em qualquer lugar.

A civilização começa no preciso momento em que recusamos com firmeza a lei de Talião e nos demarcamos sem ambiguidades de todos quantos a praticam, seja sob que pretexto for.

Foto Reuters

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Ucrânia: a história repete-se? (III)

por Luís Menezes Leitão, em 10.03.14

 

Há exactamente 75 anos, nas fronteiras da Checoslováquia, proclamava-se: "Camaradas alemães dos sudetas: a hora da libertação chegou. As nossas tropas preparam-se para colocar a vossa região sob a égide do Reich". Para as pessoas de etnia alemã, era o tempo da alegria. Para os checos, o da tristeza e das lágrimas. Mas, ao contrário do que se esperava, Hitler não parou nos sudetas. Ocupou Praga e declarou a todo o mundo que a Checoslováquia tinha deixado de existir. Ninguém se atreveu, no entanto, a contestar o poderio alemão. Apenas Churchill tinha avisado: "A crença de que se consegue a paz na Europa lançando aos lobos um pequeno Estado é um erro fatal".

 

 

Hoje os russos da Crimeia festejam a sua primavera russa, há tanto aguardada, ansiando pelo regresso à Mãe-Pátria da qual tinham sido separados em 1954. E as tropas russas lá estão para garantir que ninguém se oporá a esse desejo. E efectivamente ninguém parece ter capacidade para se opor. A União Europeia não existe politicamente, e está dependente do fornecimento do gás russo. Quanto aos Estados Unidos, acham que é um problema europeu, e não estão dispostos a intervir no mesmo, por muito que isso lese a União Europeia. Como disse a assistente do Secretário de Estado, Victoria Nuland, ao embaixador dos EUA na Crimeia "fuck the European Union".

 

Putin tem assim o caminho aberto para a anexação da Crimeia. Resta saber se vai parar por aí. Hitler não parou. Pensou naturalmente que se tinha conseguido obter os territórios checos, apenas devido a uma população levemente maioritária de alemães nos sudetas, o que o impedia de reivindicar Danzig, que tinha em 1939 uma população de 95% de alemães? Putin pode perfeitamente pensar o mesmo. Afinal, a Transnístria não fica assim tão longe e a Moldávia é muito mais fácil de vergar que a Ucrânia. Aguarda-se pelas cenas dos próximos capítulos.

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Sobre a Ucrânia (3)

por Pedro Correia, em 09.03.14

Ucrânia: a grande questão. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

"Homenzinhos verdinhos" alargam influência na Crimeia. Do José Milhazes, no Da Rússia.

Úteis lições da História. De João Ferreira do Amaral, no 31 da Armada.

Jugocrânia. Do Luciano Amaral, na Crise Crónica.

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Crimeia, a coutada do novo czar

por Pedro Correia, em 07.03.14

 

Por enquanto as televisões, que filmam com crescentes precauções para evitarem ser alvos de represálias, ainda conseguem mostrar-nos fragmentos do que se passa na Crimeia ocupada manu militari por tropa russa sem insígnias: quem ousar por estes dias manifestar-se a favor da ligação à Ucrânia nas ruas de Simferopol é logo arrastado por bandos de jagunços incapazes de conviver com opiniões "dissidentes". Impossível ver ali sequer desfraldada uma bandeira ucraniana, confirmando-se não existirem condições mínimas de liberdade para realizar uma campanha referendária. Como pode haver um referendo minimamente credível sem campanha? E como pode realizar-se já no dia 16 -- ou seja, daqui a cinco dias úteis -- uma consulta popular com 30 mil militares e paramilitares russos a impor às urnas a vontade das armas?

Estes jagunços são todos homens e têm especial predilecção por agredir mulheres perante a passividade da tropa ocupante russa, que serve de guarda pretoriana às manifestações locais pró-Moscovo. Algo que dá que pensar, em vésperas de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Não por acaso, a enviada especial da CNN à Crimeia viu-se hoje impedida de sair do hotel em reportagem.

Pior sorte teve o enviado das Nações Unidas: Robert Serry foi ameaçado por milícias armadas e forçado a rumar ao aeroporto. Isto enquanto o chefe do Governo da região autónoma, ferozmente pró-russo, chama "traidores" aos defensores da soberania ucraniana na península -- deixando assim bem evidente que não existem garantias de imparcialidade das autoridades locais para promoverem o referendo. Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de entrar na Crimeia, pelo segundo dia consecutivo, por elementos das forças especiais russas ali plantados como vigilantes de uma coutada -- a coutada particular do novo czar Vladimir Putin, que pretende anexar a Crimeia à maneira dos vetustos senhores feudais, exímios praticantes do direito de pernada.

 

Eis uma versão revista e actualizada da Lebensraum hitleriana: onde houver comunidades russas, Moscovo estenderá o seu domínio de fuzis em riste -- à revelia do direito internacional, que garante a integridade territorial e o exercício da soberania dos Estados cuja independência é reconhecida pela ONU. Mandando às malvas os direitos das minorias étnicas, tal como sucede na Rússia com as minorias sexuais.

Ao contrário do que pretendem alguns admiradores do presente exercício de musculatura do Kremlin, a Crimeia é um mosaico de línguas e etnias. Onde vivem russos (58%), ucranianos (24%) e tártaros (12%), entre habitantes de outras origens. E muito mais tártaros ali existiriam se nas décadas de 30 e 40 Estaline não tivesse sujeitado grande parte desta população a deportações em massa para a Sibéria e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Menor para ceder mais "espaço vital" ao neocolonialismo russo.

 

Nada me surpreende em tudo isto excepto o aplauso basbaque de alguns autoproclamados "progressistas" à política de canhoneira do Kremlin. Tão velha como a mais antiga lei que remonta aos confins da História: a do mais forte.

A comovida homenagem que certo "progresso" faz ao retrocesso civilizacional nunca deixará de me espantar.

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Crimeia

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.03.14

O problema ficou resolvido em Yalta. Quem não perceber isto, salvo o devido respeito, não percebe nada de História. Nem de política.

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