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Os Homens sem terra

por Cláudia Köver, em 27.12.12

O homem que nasce, torna-se inesperadamente rei do seu Ser mas incapaz de reinar sobre a vida que lhe foi dada. Descobre, caminhando, que o mundo é uma ilha e que não há gruta que o esconda da sua própria pessoa. Mascara então o rosto, fugindo da responsabilidade, pois como pode um rei sem terra viver dependente do pão que lhe é dado?

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a menina que não queria trabalhar

por Cláudia Köver, em 25.05.12

Era tonta. Vivia numa rua flutuante, onde os pés não tocavam o chão.

Era de pensamentos leves, como chantilly salpicado de pepitas de chocolate, que a distraíam do seu derradeiro conteúdo.
Era atrasada. Como um relógio que não se alimenta.
Era teimosa na sua ignorância. Teimava que não sabia. Teimava que não havia onde procurar.
Era boa de desculpas. Desculpava o pé direito por pisar o esquerdo, sem nunca pensar como poderia dançar sem causar nódoas negras. Desculpava-se a si de si própria, sem nunca pensar que a sua terceira pessoa poderia com isso sofrer.
Era má de trabalho. Não trabalhava nem para ela própria.

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Adormecer e acordar

por Cláudia Köver, em 24.05.12

Acordar é como adormecer. É despertar para uma realidade inversa. É nadar no fundo do mar e por breves instantes não saber se estamos prestes a romper o espelho de água ou a descer ao fundo do mar.

Acordar é como adormecer. Um deles é nos mais querido que o outro. Um deles salva-nos do outro. Dependendo do momento que estamos a viver na realidade ou no sonho.

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A coisa sem palavras

por Cláudia Köver, em 23.05.12

Dar palavras a quem não se quer é prostituição emocional. A alma – se é que esta é a definição mais apropriada - pode por momentos abandonar o corpo quando sofre. Mas a alma não se descola das palavras, a não ser que esta seja corrompida, separando a expressão do sentimento real. O que fazer a estas palavras sem alma? O que fazer aos sentimentos reais que ficaram sem palavras? Por vezes, a ligação entre ambas perde-se por completo na mentira e no fingimento, sem nunca mais se encontrarem. É aí que a alma se separa da outra coisa, aquela que diz as coisas sem sentir.

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Espaço

por Cláudia Köver, em 22.05.12

Espaço. Há um determinado espaço que pode ser ocupado. Não há como preenchê-lo com mais do que o que lhe foi previamente destinado. Cabe uma pessoa. Cabe meia pessoa mais outra meia pessoa. Não cabem duas. Se eu quiser deixar uma pessoa se sentar, tenho, inevitavelmente que remover a outra.

No lugar ao lado, cabe o mundo. Neste, falta-lhe o espaço. Ou, simplesmente não lhe estava destinado caber mais nada.

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Se eu sou só uma

por Cláudia Köver, em 20.05.12

Se eu fosse só uma, como poderia contar comigo mesma?Terei todo um universo no meu interior? engolido à nascença por inteiro ou que se move e cresce sem aviso?


Se eu sou só uma, com quem dialogo internamente? Não deveriam os nossos pensamentos ser mais lentos, não nos sentiríamos prisioneiros da nossa própria mente?
Se eu nasci para ser só uma, porque não me encontro facilmente? Porque me angustiam as minhas próprias decisões, mesmo aquelas que tomo apenas na minha mente?

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de momento

por Cláudia Köver, em 18.05.12

Se não fosse o momento, morreria de tédio na espera pelo futuro. Na verdade, vivo o instante como se, se não o vivesse, este morresse também ele vítima do tempo.

 

Olho os sonhos a curto prazo, sem nunca pensar que um sonho, se chama sonho, por não estar na realidade.

 

Sou paixão. Não sei viver se não apaixonada. Por vezes, apaixonada por alguém. Sem paixão seria um corpo sem alma, um vagabundo sem rua, um poeta sem palavras.

 

Somos todos nós vítimas do momento: os que não o sentem, os que dele fogem, os que nele se afogam. Para todos, o mais doloroso será um dia saber que este momento terminou, sem nos ter avisado.

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Devíamos ser Deuses

por Cláudia Köver, em 16.05.12

(regressei. habitualmente regresso sempre. não reli este texto. perdoei-me qualquer coisa. sou apenas mortal)

 

Deveria haver um compartimento no nosso corpo reservado apenas para a saudade. Não teria de ser grande, porque a saudade no geral já é algo que aperta. Aperta o coração.

 

Deveria ser proibido sentir uma angústia que não se pode resolver. Proibido não por lei constitucional, mas por alguma regra incutida na infância. Sei lá. Deveria chegar-nos uma carta em casa com um comprimido que resolvesse esse nó.

 

Deveria ser possível fechar os olhos e encontrarmo-nos com pessoas em sonhos. Num mesmo sonho. Ao invés de sonharmos com alguém que, por sono pesado ou morte prematura, não se lembra do que sonhou.

 

Deveria ser fácil gostar das pessoas. Na realidade, é. Mas tal como sucede com todos esses outros "simples" sentimentos, complicamos um pouco, sofremos um pouco. Talvez para moldarmos os nossos caminhos mortais um pouco mais à semelhança das trágicas epopeias gregas.

 

Deveria ser tudo perfeito. Mas o “quase” é a palavra que mais se adequa ao ser humano. A única coisa “total” é o sentimento. Não se pode “quase” sentir.

 

No fundo, os nossos sentimentos são a única coisa que fazem de nós deuses. Mesmo que apenas por um segundo. E as palavras dos outros fazem de nós mortais. Porque não as podemos controlar. 

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Em campo aberto II

por Cláudia Köver, em 01.03.12

Quero ficar com os pés plantados neste lugar, sem nunca mais perder as raízes, nem deixar a chuva me levar. Quero ficar neste solo ainda que inóspito e sem previsão de florir em meu redor. Quero ficar aqui ao lado desta pedra, quer ela me contemple com desassossego ou de olhar gelado. Ele é pedra. Levanta-se com mais facilidade do que eu, que posso cair morta só com a força do puxão. Ele não tem época para ser levado. Eu sou flor, mas tenho em pedra o meu coração. 

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A estúpida que eu sou

por Cláudia Köver, em 26.02.12

Sou um pouco filha de toda a gente, abandonada pelo desejo inalcançável de ser grande e de infantilidade desprendida na mente. A estúpida que eu sou, achando que já sei viver, num mundo que só gosta dos pequenos quando estes também são pequena gente.

 

Deixo-me levar pela sabedoria do crescido, aquele que nem sabe desfrutar, e que não espera que um dia aos seus calcanhares vá chegar. A estúpida que eu sou, pensando que deixar de ser pequeno é começar a morrer e o fim do sofrimento alcançar.  

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Sou um animal de duas cabeças

por Cláudia Köver, em 21.02.12

Sou um animal de duas cabeças que matam a fome em pratos diferentes. Quando as lágrimas me caem ao peito não sei qual rosto consolar, pois penso com o coração. Sempre que o raciocínio sobe até um dos seus cérebros perco momentaneamente a claridade na visão. Gatinho às escuras até encontrar novamente a sabedoria de que todos nós somos dois, três ou quatro num só corpo pesado e de que a beleza só nasce quando abraçamos a nossa multiplicidade. 

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Em campo aberto

por Cláudia Köver, em 18.02.12

Pegou-me pelo braço. Não com a mão, simplesmente com as palavras. Arrastou-me de forma lenta, passo-a-passo. Provavelmente adormeci-lhe no ombro, sem dar pelo arrasto e sem lhe sentir o pulso. Provavelmente não senti nada, ou não dei conta do que senti, até me perguntarem o que sentia.

 

Vomitei rapidamente as palavras, estranhamente sem me deixar afogar em pensamentos. Quando abri os olhos, após terminar a última frase, estava noutro sítio. Estava longe do local onde achava que me tinham plantado.

 

As raízes tinham sido descosidas da terra de forma cuidadosa. Intactas, elas rodeavam os meus pés. Perguntaram-me se me sentia diferente, se sentia que alguém me tinha tirado de um vaso e colocado num campo aberto. Tive medo e disse que não. 

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Entre vizinhos todos conheciam a Dona Esmeralda, que se queixava dos buracos das toupeiras. Tinha olheiras de quem passava à noite à coca e comichava do nascer ao por do sol. E, todos os dias, a vizinhança prestável, fazia o frete de ajudar na caçada cega.

 

Tempos passados a Dona Esmeralda abandonou o queixume e a vizinhança continuou a aguardar as suas lamentas. Queriam saber se os buracos do bicharoco ainda lhe fazia doer a vista e dar gritos de meia-noite.


“Não” retorquiu.

 

A Dona Esmeralda, porém, continuava pálida e de ar frustrado, mas, quando confrontada com as perguntas armadas da vizinhança, dizia:“Não,não . Não é grave”.


Tempos depois deixou-se de pôr olho na Dona Esmeralda. Buscou-se a senhora e encontrou-se o seu cadáver no jardim – perfurado pela amargura interna. Tinha túneis escavados pelo corpo - de enfiar o punho inteiro -, mas, enfim, tinha um jardim floreado e sem buracos de toupeira.

 

De facto o foro emocional era, naquela vizinhança, ainda mais privativo que o jardim das traseiras.

 

Julho, 2009 

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