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Ser Família

por Francisca Prieto, em 26.06.15

A minha tia Xita, na carreirinha dos nove irmãos, ocupava o terceiro lugar na cronologia dos nascimentos, logo a seguir à minha mãe. Nos nossos corações concorria claramente a um lugar cimeiro no pódio. Porque nos oferecia enormes caixas de chocolates, envoltas em farfalhudos laços dourados selados com o timbre inconfundível da Casa Pereira, porque no Natal era quem se encarregava de arranjar um bolo-rei do tamanho de uma roda de autocarro e porque nunca se esquecia de meter no correio um cartão por ocasião dos nossos anos.

Por tudo isto e, sobretudo, porque era uma tia solteira. Nós gostávamos dela porque ela gostava muito de nós e não tinha mais ninguém.

Ao longo dos anos, e à medida que o tempo a foi deixando mais roliça, não havia Natal em que o prato forte não fosse observar meticulosamente a sua indumentária. Ora porque aparecia com um vestido amarelo-canário com um folho transversal que acentuava os quilos acumulados no ano transacto, ora porque se lembrava de cobrir os ombros com lenços cheios de ilustrações de ramagens e espingardas antigas (sussurrávamos nós que era a mais fina expressão do seu lado bélico). Batom sempre muito, e em cores garridas, a deixar marcas duradouras nas bochechas dos sobrinhos.

Quando fui viver para os Estados Unidos, a primeira carta que recebi foi sua. E, à medida que fomos trocando correspondência (do lado dela, com farto uso dos cartões de artistas amputados que pintam com a boca), descobri que aquela tia solteirona tinha um extraordinário sentido de humor e uma visão muito perspicaz sobre os assuntos mundanos.

Ás tantas, lá por alturas de ficar adulta, com tristeza percebi que as gargalhadinhas estridentes desta tia, que nos entravam pela porta de casa num laivo de suprema alegria, não eram um simples traço de personalidade. Umas vezes eram consequência de uma medicação mal doseada, outras vezes eram sinal de falta de medicação. Descobri, nem sei bem quando, que a tia Xita não era simplesmente um bocadinho pílulas, era mesmo doente. Mas nós continuámos a gostar dela. Porque ela gostava muito de nós e não tinha mais ninguém.

Aqui há uns anos a sua saúde foi-se deteriorando a acabou por ter de ir viver para um lar. Continuámos, no entanto, a receber regulares cartões na caixa do correio. Ás vezes com uma letra muito trémula.

Um dia a minha prima Filipa, que vive na Covilhã, veio a Lisboa e foi visitá-la. Como não a via há algum tempo ficou muito impressionada com o seu estado e perguntou no lar se não seria melhor chamar um padre para lhe administrar os últimos sacramentos. Responderam-lhe que achavam excessivo, que a tia ainda ali estava para lavar e durar. Suponho que tenha ficado incomodada porque no dia seguinte, voltou lá e, mediante a falta de alguém mais qualificado, resolveu rezar um terço ao seu lado.

A tia morreu na noite seguinte, a dormir, com setenta e qualquer-coisa anos. Acredito piamente que esperava apenas que alguém lhe oferecesse um momento de oração para se despedir.

Não foi muito conveniente para os sobrinhos, já que isto se passou em pleno Agosto e todos gozávamos dias de férias pelos quatro cantos de Portugal. Mas viemos todos, porque gostávamos dela, porque ela gostava de nós e porque somos tudo o que teve. E isso é ser família.

Querida tia Xita.

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Os Mistérios do "Tal Canal"

por Francisca Prieto, em 19.06.15

Um dia destes andei a ver antigos episódios do “Verão Azul” e confesso que fiquei admirada com a quantidade de pares de estalos que são sendo arriados naqueles putos ao correr das histórias. Só o Piranha levou para cima de meia dúzia num dia em que se resolveu armar em esperto e fazer greve de silêncio em casa.

Já não me lembrava de ter feito parte de uma fornada de malta cujos pais, para nosso próprio bem, não tinham qualquer pudor em nos pespegar umas boas e velhas galhetas. E eu levei umas quantas, confesso, sobretudo pela minha velha mania de não me saber calar nos momentos cruciais. Se em alguns casos considero que até foram bem arriadas e que me prepararam para a dureza da vida, noutros casos, demorei uma data de anos a engolir a injustiça da punição corporal.

O caso mais gritante foi o “Caso Tal Canal”.  Ora o popular programa do Herman foi para o ar em 1983 quando eu tinha uns ingénuos 12 anos. Não havia qualquer hipótese de conseguir fazer segundas leituras dos sketches, mas, mesmo ficando-me pelos sentidos mais literais, ria-me que nem uma perdida, em uníssono com o resto da família. Achava um piadão ao Menino Nelito a infernizar a vida da sôdona Palmira, ao Estebes a falar à Puorto, ao Victor de Sousa a fazer de entrevistador, a Helena Isabel de locutora e por aí fora.

 

Andava tão entusiasmada com a revoada de humor que cantava incontrolavelmente a letra do genérico por todo o lado, inclusivamente à mesa do jantar em família, sublinhando efusivamente o verso final de cada estrofe, que acabava invariavelmente em “...e o que mais adoro em ti é o tal canal”. Com cara de poucos amigos, um dia o meu pai lançou-me o primeiro cartão amarelo – “Fazes favor de não cantar isso”.

Ingenuamente achei que o alerta tivesse por base o facto de estar a cantar à mesa. Nunca me passou pela cabeça que a letra desta ritmada canção pudesse conter significados obscuros. De maneira que não me inibi de, à primeira oportunidade, voltar a gritar pela casa fora “...e o que mais adoro em ti é o tal canal”, “...e o que mais adoro em ti é o tal canal”, “...e o que mais adoro em ti é o tal canal”. Até que PUMBA, lá saltou a lamparina da ordem, que aquilo não era casa em que se falasse dessas coisas (embora eu não fizesse a mínima ideia de que coisas estavam a falar).

Só muito recentemente, ao rever o genérico do programa, já com idade para cantarolar o que bem me apetecesse, finalmente se fez luz no espírito relativamente ao mistério ginecológico que estava por detrás do “Tal Canal”.

 

Felizmente, os pais já se deixaram desta mania de andar a chegar a roupa ao pêlo à criançada por motivos musicais, caso contrário assistiríamos a espancamentos em praça pública, à porta da “Ilha Aventura”, quando crianças de 5 anos bamboleiam as ancas ao som “del moviemento sexy”.

E não, não vou falar do magote de miúdas de 10 anos das aulas de hip hop da escola católica dos meus filhos que se apresentaram num teatro matinal, envoltas em plumas, a lançar para a frente os braços numa coreografia convidativa que implorava “give me, give me, give me a man after midnight”. Sim, já nem falo disto. Não vá eu provocar, numa de revival, o regresso a alguns costumes bíblicos que implicavam apedrejamento.

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Laços Fraternos (ou como Caim elimina Abel)

por Francisca Prieto, em 15.06.15

À nascença calhou-me na lotaria ser bafejada com uma grande, unida e bem disposta família. E, não obstante ao longo dos anos ter andado à chapada com as minhas estimadas irmãs sempre que se afigurou necessário, é verdade que não há semana em que não sejam trocados vários telefonemas de prolongada duração onde ficamos a saber montes de pormenores das vidas uns dos outros.

Não é linear que, em caso de avaliação, o grau de importância dos temas das conversas fosse considerado o mais relevante por alguém de outro apelido, já que pode acontecer, por exemplo, um de nós estar com uma gripe de caixão à cova mas esquecer-se de o mencionar porque ligou só para partilhar um trocadilho hilariante que acabou de passar num filme argentino.

Os meus filhos costumam ignorar este transe familiar e, ao fim de uns quantos minutos, falam comigo como se eu não tivesse um aparelho agarrado ao ouvido e não estivesse, efectivamente, em pleno diálogo com terceiros.

Ora na semana passada, tinha eu desligado uma destas chamada infinitas onde se falava de um par de livros e se recomendavam outros tantos filmes quando o Prietito mais velho comenta que, apesar de não saber com quem eu estava a falar, estava capaz de jurar que era com o tio Zé. Eu ri-me, confirmei as suas suspeitas e aproveitei para me lançar na evangelização de Caim e Abel. Que um dia gostaria muito de ver os meus quatro filhos a serem amigos, a ajudarem-se uns aos outros, enfim, a manterem contacto regular. E, na esperança de lhes dar uma imagem mais explícita, perguntei ao Rodrigo se ele não achava giro daqui a uns trinta anos fazer como eu e o tio Zé e pegar no telefone para ligar ao Manel.

O Manel, que é o primogénito e que, desde tenra idade, nunca percebeu onde é que nós estávamos com a cabeça quando resolvemos levar aquela abécula lá para casa, fez uma cara horrorizada e apressou-se a responder: “aviso já que se ele me ligar eu não atendo”.

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Lições

por Francisca Prieto, em 13.06.15

O gosto pela escrita herdei-o do meu pai. Foi sempre o meu pai quem, em dias de festa, em momentos apartados ou apuros declarados soube construir longas missivas com todas as palavras nos lugares certos.

 

A minha mãe, por seu lado, domina uma capacidade mais discreta mas igualmente difícil. Sabe, como ninguém, prescutar as almas dos filhos e, quando acha que é preciso, escolhe um postal da sua vasta colecção, escreve no verso uma frase curta e trata de o enfiar num dos nossos bolsos. Acabamos por dar de caras com um alento insperado que nos faz suspirar até às profundezas mais reconditas da alma e depois, já com os níveis de oxigénio repostos, arrumamos a casa e seguimos com a vida.

No outro dia, assistindo ao meu desespero enquanto enfiava a vasta prole no carro, entre gritos (dos mais velhos) e choradeiras (das mais novas), resolveu, passadas umas horas, mandar-me um SMS que dizia: “Deus te dê paciência. Neste momento é este o teu lugar. Mas tens a vida toda.”

 E, da última vez que lá passei por casa, enfiou-me na carteira um envelope azul e recomendou-me que o abrisse depois, no sossego da intimidade.

Continha um poema que o meu pai escreveu há mais de dez anos. Chama-se “Por Fim” e diz assim:

 

Apanhar humildemente

as lágrimas caídas.

Deixar a casa limpa

de tristeza.

Aprender a chorar

com um sorriso

e o silêncio activo

de quem reza.

 

Fiquei a pensar que os meus pais são esta combinação perfeita entre saber traduzir uma forma de viver e saber escolher as palavras de cada dia.

A nós, ensinaram-nos tudo o que vem neste poema. A apanhar as lágrimas caídas e a varrer a tristeza de casa. Tantas vezes quantas forem necessárias.

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O Postal do Anacleto

por Francisca Prieto, em 03.06.15

Todos os Natais, impreterivelmente e durante vários anos, não falhava a chegada do postal do Anacleto.

A mensagem era, em tudo, semelhante à do ano anterior e chegava sempre no momento de colocar a última figura no presépio. Desejava umas boas festas à professora Marta e a toda a família, e agradecia, em tom cerimonioso e sempre com algum erro ortográfico, a enorme influência da minha mãe na sua vida. Um dia atrevi-me a perguntar quem era o Anacleto, nome alegórico, a fazer lembrar uma personagem de circo.

O Anacleto, juntamente com o irmão, fazia parte de um grupo de miúdos do Casal Ventoso que, algures nos anos 70, frequentavam actividades de tempos livres onde a minha mãe era animadora. Era um grupo difícil. Todos analfabetos, das letras e do mundo, entre os seis e os doze anos, com rostos endurecidos pela vida e sem grande perspectiva de futuro capaz.

As actividades eram simples, adaptadas à audiência, e tinham como objectivo ajudar aquelas crianças a desenvolver capacidades tão primárias como a atenção, a memória ou a coordenação motora.

Um dia, entraram de rompante pela porta num fulgor de entusiasmo.Tinham visto o Auto da Barca do Inferno na televisão e queriam fazer a peça. Mediante tal euforia, a minha mãe não lhes soube dizer que não. Simplificou o texto, improvisou um cenário à altura, distribuiu papéis e ensaiou milhentas vezes as entradas e saídas de cena, as falas, os gestos e as posições em palco.

O irmão do Anacleto tinha um muito provável atraso mental. Foram-lhe dados alguns papéis à experiência e, incapaz de sequer acertar o passo com os cavaleiros, acabou por fazer de moço que levava a cadeira onde o fidalgo se sentava.

Lá pelo meio dos ensaios chegou a altura de tratar dos trajes. Arranjou-se maneira de irem em excursão ao Guarda-Roupa Paiva, no Parque Mayer. Quando transpuseram a porta daquele armazém repleto de charriots, cabides e prateleiras foi como se tivessem entrada na gruta de Ali-Babá. Nunca tinham visto tal coisa e esbugalhavam os olhos no deslumbramento de experimentar chapéus, asas de anjo, mantos, coroas, espadas e floretes.

Chegou a noite de actuação. A minha mãe mandou-os vestir e deu instruções para que, no fim da peça, colocassem a roupa num cesto para ser depois devolvida à procedência.

E assim avançaram pelo palco, sem temor, anjos, diabos, cavaleiros, judeus, fidalgos e sapateiros. Com tal brio e compenetração que, ao cair do pano, a casa veio abaixo em aplausos estrondosos.

A minha mãe ficou sentada na plateia à espera da rapaziada. Esperou, esperou, e ninguém aparecia. Resolveu então ir investigar o que se passava. Quando chegou ao camarim improvisado deu com o elenco ainda vestido. Pediram-lhe: “Senhora, deixe-nos fazer outra vez”. E assim se sentou a minha mãe na plateia vazia a assistir, de fio a pavio, à repetição da encenação enquanto lágrimas grossas e indisfarçáveis lhe corriam pela cara abaixo.

O Anacleto foi mantendo contacto. Na altura tinha 11 anos e andava ainda na primeira classe. Soube-se que nos quatro anos seguintes conseguiu acabar a primária e que arranjou emprego num hotel no Algarve. 

O irmão, um dia, encontrou a minha mãe na rua e fez-lhe uma grande festa. Quando indagado sobre o que andava a fazer, respondeu, de peito inchado, com orgulho e convicção: “Estou a viver em Trás-os-Montes. Tenho um grupo de teatro e estou a ensinar aos outros aquilo que a senhora me ensinou a mim”.

 A minha mãe não perguntou mais nada. Porque embora duvidando do ritmo cénico dos cavaleiros deste grupo de teatro de Trás-os-Montes, não teve qualquer dúvida de que, naquele momento, a badalada do seu coração batia a um ritmo muito mais descompassado.

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Fraternidades Perdidas

por Francisca Prieto, em 28.05.15

O tio Pedro vivia a sépia numa moldura de arabescos por cima da cómoda da avó Dorotheia.

Tinha ficado eternizado aos vinte anos a descer uma escadaria, generosamente untado em brilhantina, de casaco assertoado e cigarro na mão esquerda.

 

O tio Pedro era um número de telefone que a minha avó me pedia para rodar no mostrador quando deixou de ser capaz de ler letra miudinha. Eu era pequena e só ouvia uma metade da conversa que circulava pelo auscultador, mas era fácil adivinhar as deixas devolvidas às frases ladaínhadas mais ou menos uma vez por mês. “Então filho, como estás?”, “E a Lurdes?”, “Os dias estão a ficar mais compridos” (ou mais curtos, consoante a época do ano). E depois, o fatal “Então e quando é que me vens visitar?”.

Só conheci o tio Pedro no ano passado. O que quer dizer que a fatídica pergunta provavelmente ficava no ar na maior parte das vezes. Era sabido que o tio Pedro cumpria o calendário exactamente um par de horas por ano, quando sabia que tínhamos ido de férias e que não havia risco de se cruzar com o meu pai.

Parece que nunca tiveram nenhuma briga feia, nunca se insultaram, nunca pregaram uma bofetada um ao outro. Eram simplesmente tão diferentes que não tinham vontade de se dar.

A tia Lurdes não ajudava à festa. Consta que era obssessivamente possessiva, de tal maneira que nunca quis ter filhos para não ter de partilhar o marido.

 

Quando a minha avó morreu, os dois irmãos não se viam há vinte anos. Na altura eu estava a viver nos Estados Unidos, pelo que perdi esta única oportunidade de pôr a vista no tio Pedro (confesso que me pelava por saber como era, em carne e osso, o mítico rapaz garboso da foto). Contam os meus irmãos que o encontro no velório foi digno de uma cena do “Padrinho”.

Era uma noite de Janeiro, humedecida pela tristeza. Da capela mortuária começaram-se a ouvir, em crescendo, passos firmes a percorrer as lajes de pedra. O tio Pedro entra pela porta, avança para o meu pai, e os dois irmãos, de cabelo grisalho, sobretudo escuro de fazenda e comoção contida, abrem os braços em simultâneo e cumprimentam-se com um sentido beijo na face.

Ficou assim imortalizado o reencontro fraterno num simbólico abraço convicto, ao lado do leito de morte da mãe.

 

Só se voltaram a ver passados outros vinte anos. Em Outubro passado. Depois da tia Lurdes morrer, o tio Pedro pediu que chamassem o meu pai para o ir visitar ao lar onde morava.

Mais uma vez, não foram trocadas acusações. Limitaram-se a conversar como se não tivesse existido um gap temporal de quarenta anos, tendo o tio Pedro pedido ao meu pai que cuidasse das coisas dele.

Morreu passado um mês. Tratavam-se por “mano”.

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Delícias Conventuais

por Francisca Prieto, em 27.05.15

rebuçados de ovos.jpeg

 

A tia Elisa era, na família da minha mãe, uma espécie de Fernando Pessa: nunca ninguém a conheceu com menos de 80 anos. Leve e delicada, cresceu num convento e foi aí que aprendeu a importância do ponto certo do rebuçado.

Vivia no alto alentejo, lá para as bandas de Portalegre, de onde todas as costelas da minha mãe são oriundas.

Um dia a tia Catarina (mulher do seu sobrinho Manel) pediu-lhe ajuda para dar conta de uma remessa de marmelos. Descascaram-se oito quilos, cortaram-se em pedaços uniformes e deixaram-se a cozer no grande caldeirão de cobre da velha cozinha alentejana.

Antecipava-se, para o dia seguinte, a laboriosa operação de os desfazer em marmelada.

Só que, por uma imprevisibilidade do destino, quis Nosso Senhor que o tio Manel exalasse o último suspiro nessa noite, no conforto do seu leito.

De manhã a tia Catarina deu conta da tragédia e mandou chamar a tia Elisa. Enquanto preparava as cerimónias fúnebres, que seriam realizadas em casa, deu-lhe instruções precisas para não deixar que os marmelos se arruinassem.

A Tia Elisa ainda a tentou dissuadir, mas deixar estragar oito quilos de marmelos era coisa que estava fora de cogitação naquela família. De maneira que, vendo a sobrinha irredutível, toca de lançar para o caldeirão os oito quilos de açúcar que a receita exigia.

Só que era preciso ficar ali a dar à colher de pau e convenhamos que a tia Elisa, que devia andar pelos oitenta e cinco, já não tinha propriamente o vigor dos verdes anos.

Às tantas, a viúva resolve deixar por breves momentos a câmara ardente e dar um salto à cozinha para ver em que ponto andava a marmelada. Deu com a pobre da tia Elisa à beira das lágrimas, queixando-se de dores no braço: “Ai filha, tem paciência, que eu não consigo dar conta disto”. A tia Catarina ia tendo um treco. Que se deitassem fora os marmelos ainda ia, agora os oito quilos de açúcar, é que nem pensar.

Arregaçou as mangas, agarrou na colher de pau e, com as suas próprias mãos lançou-se à empreitada.

De quando em quando aparecia uma sobrinha na cozinha a tentar chamá-la à razão “ó tia, venha descansar um bocadinho, deixe lá a marmelada”. E a tia Catarina, sem tirar os olhos do caldeirão, resmungava “deixem-me sossegada, já aconteceu hoje uma desgraça nesta casa, era só o que faltava acontecer outra”.

Reza a história que a marmelada ficou pronta e que o enterro do tio Manel lá decorreu sem mais incidentes.

 

Passados dez anos casou-se a tia Lacas, a irmã mais nova da minha mãe. Os meus pais sabiam que a tia Elisa, na altura com uns 95 anos, fazia gosto em vir a Lisboa ao casamento e resolveram ir buscá-la a Portalegre. 

Apresentou-se no seu modo discreto, carregando um grande saco. A minha mãe simpaticamente perguntou-lhe: “então tia, esteve a fazer doces para o casamento?”. A tia, com o ar envergonhado de quem já não consegue dar conta do recado, respondeu-lhe baixinho: “não filha, só levo uns rebuçadinhos de ovos. Fiz quatrocentos.”

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Sabores da Memória

por Francisca Prieto, em 25.05.15

Covó.jpg

 

Um dia destes, durante um almoço em casa da minha mãe, alguém se atreveu a invocar o santo nome do rolo de bacalhau da Covó em vão. E digo em vão porque não há quem dê com a famosa receita. 

Do meu lado, era capaz de jurar que estava guardada numa caixa rectangular, daquelas de lata, ensanduíchada entre um papel rascunhado com o segredo das filhoses de abóbora e outra nota com indicações para os ovos enrolados. A minha mãe jura que se perdeu nas brumas das arrumações. O problema foi que, depois de enunciada a fatídica lembrança, as papilas gustativas de toda a família desataram a salivar em excessos saudosistas.

Com muita pena, não cheguei a conhecer a Covó: uma tia-avó a cheirar a bolo que se despediu do mundo poucos meses antes de eu chegar. Mas o rolo de bacalhau, graças a Deus, foi perpetuado por mais um rol de tempo pela Céu, uma empregada da minha avó que tinha um lugar tão seguro nos nossos corações que até passava os Natais connosco.

Acontece, porém, que a Céu foi viver para a terra vai para mais de 20 anos e o que é certo é que nunca mais ninguém meteu o dente num rolo de bacalhau daquela categoria.

Vai daí que o meu irmão, depois do incontornável almoço, alinhavou meia dúzia de indicações da minha mãe e resolveu encetar a empreitada de delegar na Patrocínia, uma cozinheira de mão-cheia, a reconstituição da famosa iguaria.

Foram-se fazendo experiências. Primeiro estava atirar para o soufflé, depois ficou abatatado em demasia e, por fim, lá pela quarta tentativa, já se tinha conseguido uma aproximação bastante razoável. Mas, confessava o meu irmão, se era certo que se tinha acertado na textura, ao sabor ainda lhe faltava qualquer coisa. Um tempero, um ingrediente, uma qualquer especiaria que ele não conseguia identificar mas que remetia irremediavelmente esta versão para a segunda divisão dos rolos de bacalhau.

Fui forçada a chamá-lo à razão. O ingrediente que ele procurava era a essência da Covó e da Céu. E isso ainda não é coisa que esteja à venda no Pingo Doce.

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