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Ser mãe é ter vários corações que não se controlam. Cuidamos, perdemos o sono, sentimos uma alegria imensa, morremos de aflição. Em pequenos tentamos perceber quem são, mas é muito cedo que os filhos nos conhecem como conhecem a palma da mão, porque os adultos são previsíveis, repetem-se muito e esta fatalidade é letal quando se chega à adolescência.

Já o escrevi muitas vezes, a adolescência é a fase mais triste da vida de uma mãe. Há uma guerrilha permanente, a comunicação falha – falar com um adolescente é o mesmo que dar banho a um peixe -, alguém encolhe os ombros, revira os olhos, o espelho de quem fomos na nossa adolescência.

E uma mãe tem e não tem memória do que foi. Diz “no meu tempo” quando é favorável, mas tende a esquecer-se do que fez, do que disse, quem foi na adolescência.

A guerrilha dura uma época e, de repente, parece quase esfumar-se.

Muitas vezes, a reaproximação faz-se mais tarde e surgem os sentimentos justos de frustração: o meu filho já não quer saber de mim. Ora, os filhos têm de ir à sua vida, como as mães antes de serem mães também optaram por fazer. É a vida que o exige, são os tempos, é o mais saudável.

A família funciona para muitos como um fantasma permanente e nem sempre simpático. A mãe tem de se despedir da função de ser mãe a tempo inteiro (sim, até uma mãe a trabalhar permanece mãe todos os minutos do dia). Não se desliga dos filhos anos e anos a fio e, de repente, parece que é obrigatório o dar espaço, o gerir do silêncio.

Quem faz dos filhos o seu projecto de vida atravessa então um momento de redefinição que nem sempre é feliz. Quem sou eu depois de ser mãe? Não é que exista uma total perda de identidade, mas corremos o risco de nos perder nos mil e um afazeres da educação e do amor.

Custa perceber que os filhos já não precisam tanto de nós; dói quando há informação que não partilharam connosco, quem sabe se emoções, os momentos menos felizes.

Nunca se deixa de ser mãe e, fatalmente numa sociedade marcada pela palavra tremenda que é a “culpa”, nunca deixamos de pensar no que falhámos, como falhámos.

Depois a montanha russa da vida dá um piparote e os filhos regressam com aflições sobre os próprios filhos, deixam-se estar mais tempo, fazem confidências, precisam de colo. E há outra mudança na relação, volta-se a um estado de compreensão e a partilha faz-se de uma outra maneira.

Ser mãe é um estado feliz, é um estado de alerta, é querer que os filhos nos superem, sejam mais e melhores do que somos. Quando se consegue vislumbrar o sucesso dos filhos no seu comportamento, na sua vida, temos de sorrir.

São sempre os nossos meninos, o nosso coração fora do corpo.

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A crónica perfeita

por Pedro Correia, em 07.04.17

 

Ando sempre à procura da crónica perfeita. Julgo tê-la encontrado.

 

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Crónica da região saloia

por Leonor Barros, em 05.09.15

Entram dois homens que entabulam de imediato conversa: "E tu estás com quantos anos? 86?" O outro diz que sim. Começa também a fazer contas sobre a idade do companheiro. "Ah pois atão". E eis que salta um terceiro ausente à conversa, um tal de João que é um ano mais novo, mas, que, segundo os dois está muito pior que ambos. 'Na faz nada' argumentam. O de 86 tece uma série de comentários sobre a importância de se manter activo e sai-se com uma máxima que me me fez sorrir "Rir é viver. Chorar é morrer" disse peremptório e atirou-me quando me viu sorrir "É ou não é verdade?" Concordei claro. Além de ser verdade e de descrever na perfeição o que sinto em relação à vida, que os deuses me livrassem de discordar de tão assertiva personalidade num corpo alto e ágil que não deixava adivinhar as décadas percorridas. Daí até desfilar argumentos em defesa da vida activa foi um pulinho "Ficam aí parados e depois vão à 'fisoterapia'. Sabes qual é a minha 'fisoterapia'? É assim ó, para cima e para baixo na horta. Essa é que é a minha 'fisoterapia'." E já que veio a horta ao barulho discutiram fervorosamente o andamento da de cada um, O mais baixo reclamava que a batata doce estava muito funda, uma 'trabalhera', claro que a culpa era dele 'puseste-a muito fundo',  atirou-lhe o alto, 'na foi nada. Ela é que cresceu pra baixo e ficou funda' discordou o baixo. Os saloios jamais concordarão enquanto tiverem voz para teimar. E têm uma voz de duração longa e convicções férreas no que se trata a não dar razão ao outro, seja lá qual e quem for esse 'outro'. Finda a querela da batata doce, mudámos dos tubérculos para os cereais. O mais alto vangloriava-se de ter o melhor milho 'daqui até as Caldas da Rainha' e o pomo da discórdia foi a razão da exuberância do milho. E ó se discutiram. Era da água. 'Na é nada!' Era da terra? 'Né nada da terra!' Vim-me embora entretanto. Como dizem os alemães e se não morreram, são vivos ainda, que é como quem diz, se não se calaram entretanto, ainda lá estarão a discutir o milho entre o Dulcolax e o Paracetamol, o Aminoxil e o Trifene 200. Deve ser também isto a que chamam 'vida activa'

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Crónica no DN

por Patrícia Reis, em 22.07.15

A avó de Schäuble sabia muito sobre os gregos

por ANA SOUSA DIAS

 

"A minha avó costumava dizer: a benevolência vem antes da devassidão." Isto disse Wolfgang Schäuble e, vinda de quem vinha, a frase tinha tudo para me irritar. A bondade como primeiro passo para a bandalheira, ora aí está o que as minhas avós não me transmitiram e eu nunca ensinarei aos meus netos. Não é que as minhas avós fossem de complacências, nada disso. Ambas foram grandes disciplinadoras, ambas justas, uma católica, a outra mais interessada na leitura do que no Além. Mas confundir benevolência com devassidão, ui, nunca.

Vamos aos clássicos, já que falamos de frases do tempo das avós. Estar morto é o contrário de estar vivo, disse um dia Lili Caneças. Ser bom é o contrário de ser mau, digo eu à boleia do raciocínio. Os rebuçados de mentol que as minhas avós me deram ou o fechar os olhos às tropelias infantis não me levaram ao mundo do crime. Estou mesmo convencida de que a avó Filipa percebia de ginjeira que a casa se esvaziava mal se aproximavam as seis da tarde e o terço da Rádio Renascença, que ela tanto queria partilhar connosco. Não nos ralhava por preferirmos ir para a rua brincar. Fingia que não percebia. Era benevolente.

Schäuble conta que lá em casa eram três irmãos e, quando lutavam, o pai dizia-lhes que o mais forte devia recuar. Isto para dizer que aplicou esse princípio nas negociações com a Grécia. Vejam bem o que está implícito e explícito nesta conversa. Primeiro, "o mais forte", leia-se, a Alemanha, leia-se, ele próprio. Segundo, "recuou", quer dizer, foi ele quem recuou naquela longa noite e não o grego que voltou para casa com um saco de exigências em tudo opostas ao mandato que levava.

Destas coisas de lutas infantis tenho o dobro da experiência do ministro alemão. Lá em casa éramos seis irmãos e o mais forte não era sempre o mesmo. Entre derrotas, vitórias e nem uma coisa nem outra, aprendi muito e serviu-me para a vida. Recuava-se e avançava-se conforme as circunstâncias, a presença das diferentes autoridades, o sistema interno de alianças, a capacidade de persuasão e até as malfadadas botas para o pé chato, armas poderosas nos pés dos mais pequenos. Não saberemos nunca qual de nós foi o mais forte, nem isso interessa para nada.

No livro As Benevolentes (2006), Jonathan Littell faz e desfaz os circuitos sinuosos do poder militar na Alemanha de Hitler, numa extensa narração seca e de cortar a respiração. É uma autópsia do mal destituída de emoções. O autor foi buscar o título aos gregos, os antigos: deusas impiedosas e vingativas a quem chamavam Benevolentes por puro medo de dizer o verdadeiro nome. Ah, talvez seja isso. A avó de Schäuble era perita em mitos gregos.

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Vestida para Matar

por Francisca Prieto, em 20.06.15

"Vestida para Matar" era o título de um filme de Brian de Palma que passou no grande ecrã lá por inícios dos anos 80, cujo título nunca me convenceu, uma vez que é a esplendorosa protagonista quem acaba esventrada à navalhada. Dressed to be Killed teria sido inequivocamente um tiro mais certeiro, mas deduzo que o Brian de Palma não tenha querido desvendar, assim à priori, que a boazona batia a bota a meio da fita sem apelo nem agravo.

 

É certo que, no cenário terrorista dos nossos dias, a expressão “Vestida para Matar” atiraria facilmente para conotações iraquianas e que, face a um título destes, em vez de uma giraça de mini-saia e botas altas, imaginaríamos imediatamente uma película protagonizada por uma Mata Hari de tez escura, enrolada em TNT debaixo da burka. 

 

Ora esta história de haver quem se vista para matar, quem se traje para morrer ou quem se dispa para chocar, faz-me pensar nas razões que levam cada um de nós a escolher determinado conjunto de peças para vestir. Haverá certamente quem se cubra apenas para evitar a nudez mas, na maior parte dos casos, escolhemos a roupa em função do nosso estado de espírito ou da imagem que queremos projectar.

 

Diz a minha mãe que a Agatha Christie conta, na sua biografia, que seguindo o sábio conselho da sua progenitora, nunca viajou que não fosse com roupa interior imaculada. Temia ter um acidente e queria garantir não vir a passar vergonhas no hospital.

Não sei se a história é verídica, nem tão pouco se é relativa a Agatha Christie (conhecendo a minha mãe, seria bastante verosímil enganar-se na fonte de informação), mas é certo que, depois de ouvir isto, sempre que viajo e não vá o diabo tecê-las, deixo conscientemente em terra o underware “da guerra da Coreia”. Quanto ao resto, estou em mágica sintonia com a Emma Bull que, no seu romance War for the Oaks, descreve sabiamente a psicologia que está por detrás desta questão: "Sometimes, she reflected, she dressed for courage, sometimes for success, and sometimes for the consolation of knowing that whatever else went wrong, at least she liked her clothes".

Ou seja, mesmo que não me apresente em trajes que me fiquem a  matar, quando a coisa começa a ficar preta, ao menos gosto dos meus trapos.

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Escolhas Sabáticas

por Francisca Prieto, em 18.06.15

Em Maio de 66, Lisboa foi brindada com uma actuação de Morte e Vida Severina: uma peça de teatro brasileira que casava o belíssimo texto de João Cabral de Melo Neto com as notas cristalinas de Chico Buarque que na altura não passava de um anónimo estudante da Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

A peça tinha tido um sucesso estrondoso no Brasil e a repercussão junto do público e da crítica foi tal que o espectáculo viajou para a França, onde recebeu o grande prémio do Festival Universitário de Nancy.

À boleia do festival gaulês, o elenco aproveitou para fazer uma paragem por Lisboa e apaixonou assolapadamente o público alfacinha, conseguindo a proeza de se fazer ouvir em eco progressivo para além das paredes do Teatro Avenida por muito e muito tempo.

Passados uns anos, a minha mãe, que na altura era professora da cadeira opcional de teatro no Liceu D. Filipa de Lencastre, tendo à sua frente uma data de raparigas de enfadados dezasseis anos, lembrou-se do fulgor da brisa trazida do lado de lá do Atlântico e propôs-lhes levar a cena uma versão nacional deste grande êxito do Chico.

Logo se juntaram várias alunas que entusiasticamente trataram de dar o seu melhor para que a empreitada fosse levada a bom porto. De entre todas, havia uma rapariga especialmente empenhada. Não havendo na altura forma de conseguir registos das composições musicais, muito menos site de internet de onde se fossem sacar as letras, a Ana, conhecida por ser um às da viola, levou a coisa a peito e, durante tardes a fio, tratou de passar repetidas vezes uma velha cassete no leitor e assim, só de ouvido, conseguiu reconstruir na íntegra toda a banda sonora da peça.

 Por alturas do segundo período, quando os ensaios andavam ao rubro e pelos corredores do liceu não se ouvia outra coisa que não fossem as canções da Morte e Vida Severina, a Ana foi chamada à reitora do liceu. Era excelente aluna, mas nos últimos meses as notas tinham caído a pique. A reitora avisou-a que, ou se aplicava, ou ia perder o ano. Que era melhor deixar-se de teatrices.

 A Ana, com uma serenidade pouco comum à sua idade, respondeu: “Minha senhora, perder um ano não tem qualquer importância. Anos há muitos. Mortes e Vidas Severinas é que há só uma”, e continuou a participar animadamente em todos os ensaios.

O ano lectivo acabou e a peça subiu ao palco com um sucesso equiparável ao da versão original brasileira. Os pais choraram, abraçaram-se, cantaram da plateia para o palco, as alunas retribuiram do palco para a plateia, enfim, uma emoção sem igual à conta das desventuras do retirante nordestino Severino.

A Ana teve realmente aproveitamento insatisfatório, pelo que foi obrigada a repetir o último ano do liceu.

Passada uma década, estava a minha mãe numa estação de metro quando repara numa rapariga que se aproxima com um grande sorriso. Cumprimentou-a, adivinhando tratar-se de uma antiga aluna (foram tantas que lhes perdeu a conta). Ela, percebendo que não estava ser reconhecida, apresentou-se pelo nome e remeteu a minha mãe para o contexto da Morte e Vida Severina. Contente por a ter reencontrado e curiosa por saber o que tinha sido feito daquela rapariga, a minha mãe perguntou-lhe se tinha seguido a carreira musical.

Ao invés da previsível réplica de perdição, ouviu-a, numa voz de mulher e em tom seguro, anunciar que agora era médica, que depois de ter repetido o sétimo ano tinha conseguido entrar na faculdade de medicina e formar-se com distinção. E fez questão de sublinhar que o ano da Morte e Vida Severina tinha sido a coisa mais extraordinária que lhe tinha acontecido na vida.

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Das muitas manias que existem há uma que é comum a muitas pessoas, nomeadamente a mania de preencher o tempo com muitas actividades. O excesso de actividades pode ser um problema na vida destas pessoas e, por ser uma mania com queda para a obsessão, acaba por se tornar numa patologia do foro psicológico, que mais cedo ou mais tarde pode ter consequências nefastas para os que dela sofrem.

A mania surge por força de vários factores, sendo um deles a hiperactividade e outro a sede de conhecimento. As pessoas ávidas de conhecimento são tidas como perigosas, porque movem o mundo na busca de algo que preencha o vazio que sentem, querendo sempre aprender mais e sobre vários temas.

Um dos problemas de se fazer muitas coisas em simultâneo é que não nos dedicamos a nada em particular. O tempo parece nunca ser suficiente para tudo o que tem de se fazer e o descanso acaba por ser relativo, uma vez que não se pode dormir muito para não roubar tempo útil.

Fazer apenas uma coisa o tempo todo poderia tornar-se monótono e desinteressante. Fazer uma coisa de cada vez seria eficiente. Porém, o desafio reside no que torna a tarefa difícil e isso só acontece porque esta não é o único foco de atenção. Eu defendo que as pessoas que fazem muitas coisas ao mesmo tempo aprendem a priorizar, a relativizar, e regozijam quando efectivamente conseguem terminar algo a que se propuseram. Acredito plenamente que a busca pela felicidade varia de pessoa para pessoa e que algumas serão felizes com as banalidade que encontram em cada dia, com uma vida pacata, serena, com um ou outro pico de entusiasmo. No entanto, há aquelas que não se contentam com o trivial e que só se realizam no emaranhado de ideias que as atormentam, para que nunca deixem de ter a ambição de ser e fazer cada vez mais.

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Sobre a "arte" de criticar

por Joana Nave, em 26.05.15

Estive mesmo para intitular este post como "Sobre a mania de criticar". Porém, considero que não é uma mania mas sim uma arte.

A crítica está-nos no sangue, precisamos dela como do ar que respiramos. Não tem grande importância o alvo da nossa crítica, desde que a prática da mesma possa ser efectuada. Criticamos tudo e mais alguma coisa, os dias cinzentos, o calor excessivo, as filas de trânsito, tanto se vamos para o trabalho como para a praia, os impostos, o Governo, os políticos, a polícia, os bombeiros, os médicos, os advogados, os professores, os comentadores, os padres, os vizinhos, a família e tudo o que se cruzar no nosso caminho. A mania ou arte de criticar são uma forma de expressão, até porque existe mesmo a profissão dos críticos, que se desdobra em inúmeras vertentes normalmente ligadas às artes, como a literatura, a pintura e o cinema, o que enaltece a actividade.

De certo modo, todos nós de uma maneira ou doutra, temos este dom da crítica mesmo que não o usemos como profissão. É mais como um hobby, um veículo que nos distrai dos verdadeiros problemas para nos ocupar a mente com a panóplia de pensamentos vãos e ligeiros, que nos divertem os neurónios enquanto passamos por tempo precioso das nossas vidas.

É o que estou a fazer neste momento, a criticar a própria crítica, na tentativa de eu mesma reflectir sobre a real pertinência desta tarefa, que ao invés de me elevar só me faz mergulhar no lodo dos tormentos que afligem a alma dos pobres de espírito. Pelo menos, enquanto o faço, treino o músculo criativo e faço o meu exercício diário de escrita.

Que tudo o que façamos tenha um propósito. É simples, poderoso e cria mudanças significativas ao nível do bem estar. Da próxima vez que quiser criticar algo ou alguém responda a esta questão: "- O que é eu ganho com isto?"

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Sobre o que nos move

por Joana Nave, em 21.05.15

Passam séculos, décadas, anos, semestres, meses, dias, horas, minutos, segundos... O tempo passa por nós e é como areia que se desvanece entre os dedos. Toca-nos ao de leve e escapa-se logo de seguida. Não temos tempo para uma série de coisas e, principalmente, para as que nos fazem mais felizes. A correria desenfreada em que nos movemos cansa-nos, agasta-nos, corrói-nos e envelhece. É pois mais do que natural que haja cada vez mais pessoas deprimidas e infelizes, pois passam mais de metade das suas vidas a desempenhar tarefas que não lhes trazem qualquer sentimento de prazer.

Claro que não podemos passar a vida a lamentar-nos, a criticar o Estado, os chefes e a má sorte de não termos nascido ricos. Temos acima de tudo de encontrar aquilo que nos move, o que nos faz acordar a cada dia com vontade de viver, ser mais, aprender e ensinar. Depois de encontrarmos esse bem precioso que é a motivação, resta-nos serenar. Enfrentar as obrigações diárias como deveres necessários para alcançar os nossos objectivos. Como dizem, nada de grande foi ou jamais será realizado sem esforço. Se soubermos qual é a meta, todos conseguiremos lá chegar. Uns mais depressa, outros mais devagar, mas com a certeza de que todos temos a nossa oportunidade.

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O amor não tem idade

por Joana Nave, em 04.03.15

O título poderá sugerir o amor entre duas pessoas de idades distintas. Claro que o fosso geracional também é um tema muito interessante, até porque a idade que é declarada na nossa certidão de nascimento pouco ou nada tem a ver com a idade da nossa alma, e essa sim evolui a diferentes ritmos e pode afastar ou aproximar pessoas da mesma ou diferente idade. Porém, hoje estou centrada nas pessoas da mesma geração, da mesma idade, ou próxima, vá, que passeiam num centro comercial qualquer.

São um casal, não resta qualquer dúvida. São de estatura baixa, os cabelos brancos como a neve, usam óculos com lentes de fundo de garrafa, vestem-se de cores sóbrias, com tecidos quentinhos. Movem-se devagar, gestos lentos, susurros.

No entanto, o que me faz reparar neles é o braço do homem que torneia as costas da mulher, segurando-a com firmeza, ainda que as mãos estejam fracas, engelhadas e deformadas pela artrite. O braço do homem envolve a mulher e fá-la caminhar. Não são efusivos, não se fazem notar, quase que passariam despercebidos no frenesim que os rodeia, entre pessoas sempre apressadas para encher as suas vidas com mais coisas, que nunca hão-de ser suficientes para lhes trazer uma felicidade plena.

E o casal de velhinhos de cabelo branco destaca-se no meio da multidão. Neles detenho o meu olhar, abrandando o meu passo apressado, próprio dos outros, dos que não são o casal de velhinhos, que avança com doçura, como se caminhassem sobre nuvens fofas. E é neste momento que dou por mim a esticar o canto dos lábios para constatar, com uma imensa alegria, que o amor não tem idade.

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Mais um ano

por Joana Nave, em 31.12.14

Mais um ano passou. Passaram os meses, os dias, as horas recheadas de momentos, uns bons outros nem tanto. No tempo que ainda resta para fechar a porta ao velho e abri-la ao novo, fazem-se os habituais balanços, recordam-se os dias felizes, os projectos realizados, lamenta-se um ou outro episódio menos feliz e elaboram-se planos para o futuro. Um novo ano é como um livro em branco que anseia por ser escrito com novos desafios, conquistas e emoções. Todos os dias que passamos são dádivas, ainda que sejam duros, ainda que tenhamos dificuldade em entendê-los, são oportunidades únicas de aprendizagem e desenvolvimento pessoal. Há dias que são quase insuportáveis, em que a dor magoa com uma profundidade atroz, mas tudo passa e o sol brilha sempre mesmo depois de uma tempestade. Temos de pensar no que de bom nos acontece e concentrar tempo e energia nesses pensamentos, para que se multipliquem, para que ganhem forma e se materializem na nossa vida. Que 2015 seja o ano da esperança, no melhor para nós, mas sobretudo em sermos melhores.

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A condição humana

por Pedro Correia, em 14.12.14

E de repente, quando menos se espera no meio das mil irrelevâncias do quotidiano, deparamos com um texto que nos reconcilia com o melhor da crónica jornalística - aquela que é capaz de reflectir o mais profundo e genuíno e dilacerante dilema da frágil condição humana. Um texto como O Brilho do Bronze, de Roberto Pompeu de Toledo, que acabo de ler na revista Veja e pode ser consultado aqui.

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Ter menos e ser mais

por Joana Nave, em 11.11.14

Tenho o hábito de me perder enquanto navego na Internet e acabo quase sempre por descobrir páginas e pessoas interessantes. Numa dessas páginas, deparei-me com um artigo sobre como trazer mais simplicidade para as nossas vidas. Ter menos e ser mais. Esse artigo incide sobre uma das divisões da casa que mais gosto: a cozinha. É certo que muitos fogem dela, quer sejam homens ou mulheres, mas eu adoro cozinhar e passo muitas horas na cozinha, entre tachos e panelas, a tentar transformar em algo delicioso os vários ingredientes que guardo no frigorífico e no armário das mercearias. A minha preocupação é adquirir os melhores ingredientes e ter os melhores utensílios. Este prazer associado à cozinha é o que me leva a gostar tanto desta divisão da casa, sendo o local onde se preparam saborosas refeições que alimentam a minha família e amigos. Como nos diz Laura Esquível no seu romance "Como Água Para Chocolate", para se cozinhar bem temos de acrescentar o ingrediente principal, que é o amor. Cozinhar é uma expressão de amor. E tudo isto é ser... Ter, seria uma cozinha enorme, com armários espaçosos, muita luz, electrodomésticos topo de gama, loiça das melhores marcas, uma bimby, e estar sempre tudo limpo e arrumado, tipo capa de revista. Mas isso seria impessoal, desprovido de sentimentos, de vida, seria ter e não ser e eu escolho sempre as emoções.

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Depressa de mais

por Joana Nave, em 15.09.14

A propósito do início do novo ano lectivo, vieram-me à lembrança os primeiros dias de aulas. Que alegria imensa se apoderava de mim nos dias que antecediam o começo de um novo ano de aprendizagem. Folhear livros novinhos, repletos de conceitos ainda por descobrir. Conhecer professores e colegas novos, rever os já conhecidos. Sempre gostei do regresso às aulas, de comprar o material escolar, de antecipar e planear o estudo, as actividades extra-curriculares e os meus hobbies. Sempre fui muito dinâmica, criativa e enérgica. Hoje, ao fim de tantos anos, e com a certeza de que ainda me falta aprender tanta coisa, dou por mim a pensar que passou depressa de mais, ou talvez tenha sido eu que fui depressa de mais, e pelo caminho acabei por perder muita coisa. Perdi amigos, contactos, perdi aquele saborear doce das coisas que se vão conquistando passo a passo, porque fui depressa de mais. Conheci muito, mas retive pouco, aprendi demasiado, para logo após esquecer. Quis dar a volta ao mundo, mas esqueci-me de escolher por onde começar e, agora, sinto o vazio de quem foi tão longe, mas chegou só. Eu era mais que os outros, mais ambiciosa, mais audaz, mais aventureira, mais perseverante, era mais... Porém, agora que os observo à distância, invejo as suas vidas pacatas e amenas, que têm tudo o que é preciso para serem felizes e tranquilas. Será que o são ou que tal como eu questionam o rumo que tomaram? Talvez essas vidas me invejem a mim, por acharem que podiam ter ido mais longe. A vida é pois este labririnto às avessas. No meio das encruzilhadas questionamos sempre o caminho, mas o que importa mesmo é não deixar de caminhar.

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E se eles gostarem de circo?

por Joana Nave, em 20.04.14

Há umas semanas, durante um jantar com amigos, apercebi-me de uma questão interessante que me fez pensar... Os meus amigos têm filhos, que são crianças enérgicas e curiosas. Os pais têm muitos interesses que partilham com os filhos e, como hoje em dia, há tantos meios e facilidades para organizar actividades entre pais e filhos, é recorrente irem ao cinema, ao teatro, ao zoo, à quinta pedagógica, ao oceanário, e até a museus.  No meio da conversa durante o nosso jantar, e porque ouvia atentamente a descrição do leque de actividades, indaguei: “Então e o circo?”. Ao que me responderam peremptoriamente: “Nós não gostamos de circo!”. Não muito convencida, ainda perguntei: “Mas e se eles gostarem?”. A resposta, acompanhada por um sorriso algo trocista: “Mas nós não gostamos.”

Resolvi não insistir no assunto, mas fiquei a pensar... O circo é uma das recordações que tenho da infância. Hoje em dia não vou ao circo, mas também não tenho filhos, mas se os tivesse iria certamente com eles ao circo, porque é na infância que certas experiências fazem sentido. Os meus pais não são apreciadores de ópera e nunca me levaram à ópera. No entanto, já em idade adulta, comecei a ouvir ópera e gosto de assistir a um espectáculo sempre que tenho oportunidade. Mas o caso do circo é diferente, se os meus pais não me tivessem levado ao circo em criança, não era agora em adulta que eu iria começar a gostar de circo, porque há coisas que são próprias de crianças, faz parte da aprendizagem. Os filmes e os livros estão repletos de referências a circos e, a meu ver, é importante que se tenha este conhecimento ao vivo e a cores, para que passe do sonho à realidade e assim, quer se goste ou não, a recordação ficará para sempre.

A educação dos filhos é um tema complexo, que não deve ser abordado de ânimo leve. Respeito as convicções do pais, porque acredito que têm argumentos que justificam as suas escolhas e, mesmo que não os tenham, porque são pais e devem saber o que é melhor para os seus filhos. Contudo, ainda assim, se fossem os meus filhos, eu gostaria de os levar ao circo.

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Postais de um Fotógrafo de Bairro (XVII)

por Bandeira, em 15.03.14

José Bandeira

 

Dia que passe à rua Direita do Dafundo e veja dois homens como que lutando no interior de uma antiga caixa de electricidade em betão, não se assarapante: é apenas o Ricardo “a levantar o americano”. O americano é o João e a caixa, excrescência no muro de uma quinta apalaçada, é a casa dele. Os velhos de Algés variaram-lhe a nacionalidade quando arranjou trabalho na linha de caminho-de-ferro que levava gente a jogar ao casino do Estoril. Viam-no correr para a estação e metiam-se com ele, “Lá vai o americano”, porque se dava ares de endinheirado e tinha andado pelo estrangeiro todo, para não falar dos mais de dois anos que teve de cumprir na guerra em África.

 

(Talvez houvesse um velho mais velho do que os outros a quem a imagem do João atrasando-se para o emprego lembrasse, por um qualquer mecanismo da imaginação, os carros americanos – sabe, os eléctricos sem electricidade que dantes havia – e desse ao apodo esse outro sentido. Devaneio meu, gosto talvez da ideia porque pensar no carro americano é pensar nas fotografias que há dele.)

 

Hoje vai pausadamente o americano, apoiando-se numa bengala, a caminho dos setenta anos. A bengala, trá-la desde que se lhe queimaram as pernas certa vez que se deixou dormitar frente a uma lareira. Recebe modesta reforma dos anos em que trabalhou no caminho-de-ferro, antes de um processo de lay-off e a sedução de uma pequena indemnização o terem levado a trocar a trilha dos carris dos comboios por uma outra bem mais torcida, a que morre na caixa de electricidade sem serventia à porta de uma quinta apalaçada na rua Direita do Dafundo.

 

O Ricardo, 31 anos, trocou Barca d’Alva (onde o comboio morreu de tristeza em 1988) pelo exército. Serviu na Bósnia e em Timor, e quem sabe por onde andaria hoje não fora o que lhe sucedeu quando estava na ilha. Seguia com um camarada e viu caminhar na sua direcção o comandante, o segundo comandante e o comandante de pelotão, todos com cara de muito caso. Perguntaram-se os dois homens em que teriam asneirado; não tinham. Os superiores vinham comunicar ao Ricardo a notícia da morte da mãe, senhora ainda nova, não tinha cinquenta anos. A sequência dos acontecimentos dá-lhes dimensão trágica: acidentara-se um avião em Timor, o Ricardo telefonara à mãe na noite desse mesmo dia para a tranquilizar, no dia seguinte ela caíra sem vida.

 

Em Lisboa vai fazendo de si o que pode com o que as circunstâncias fizeram dele. Não quis regressar ao Douro. Há já uns cinco anos que trabalha na portaria de uma escola no Restelo. Estimam-no por lá, mas amanhã podem dizer-lhe que olhe já não é preciso (ou já não podemos) e ele terá de se aguentar. Nos dias em que há aulas, levanta-se às quatro e meia da madrugada na casa da namorada, nos arrabaldes de Sintra, para estar na escola às seis. Não chega a receber três euros à hora. É curto, o João há-de emprestar-lhe uns trocos nos dias de maior aperto. Quando sai do trabalho, a meio da manhã, desce ao Dafundo para “levantar o americano”. Ajuda-o a mudar a fralda (mazelas do acidente com a lareira), a vestir-se, a lavar-se, uma vez por semana a tomar banho na Recreativa do Dafundo, que a instâncias suas abriu as portas ao amigo. Depois acompanha-o ao café Africano, do Euclides, que é onde ambos almoçam quase todos os dias, com o acerto das contas atabalhoadas por vezes deixado para as calendas gregas.

 

Almoça-se no Africano. O americano está adoentado, anda a Sumol. Foi o Ricardo quem o levou ao médico de família e é ele quem lhe dá o comprimido e o xarope. Da primeira vez que assim os vi supus uma relação familiar, mas enganei-me: conheceram-se ali mesmo e “ficaram amigos”. É tudo. Se alguma semelhança existe nos dois homens é talvez a de serem em tudo diferentes. O americano viveu façanhas rijas, tem mundo, fez coisas boas e fez coisas más (e às vezes não sabia sequer se as coisas que fazia eram boas ou más porque sobreviver lhe tomava o pensamento todo). Falta-lhe a disponibilidade para a ilusão que se sente muito num Ricardo doente de entusiasmos.

 

 Esperamos os três, frente à caixa de electricidade, pela assistente social que ficou de aparecer para se tentar arranjar, como se diz na política, “uma solução”, uma forma de tirar o João da rua sem o afastar do bairro. Até porque o americano não é indigente, tem uma pequena reforma, o que lhe falta é um quarto com uso de elevador ou um rés-do-chão a preços que ele possa pagar e lhe deixe uma folga para os hábitos de independência. O Ricardo, que passara os últimos dias a telefonar para a Segurança Social e para quem quer que achasse que podia ser útil ao processo, “Tenho um Moche”, dizia, “não pago nada”, impacienta-se com o atraso, corre à Cruz Quebrada para saber na Junta o motivo da demora, garantir que a visita não falha porque eles têm de ver onde e como vive o americano. Este aponta com a barba grisalha o rapaz que corre rua acima e diz-me, "É um filho", e eu faço que sim com a cabeça.

 

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Como a globalização nos impede de sonhar

por Joana Nave, em 23.02.14

Há uns tempos fui a um hipermercado fazer umas compras rápidas e, ao percorrer apressadamente os corredores, destacou-se um expositor inserido no espaço gourmet, onde esplendorosas e reluzentes se exibiam umas dezenas de latas de chá da Mariage Frères. Fiquei surpresa e contente por encontrar disponível um produto que julgava só haver na própria Mariage Frères, ou Museu do Chá, em Paris. Pensei logo que poderia comprar mais latas, com diferentes variedades de chá para juntar à que adquiri na viagem que fiz à capital francesa. Porém, com o turbilhão de pensamentos outro sentimento se apoderou de mim, um que me fez até ficar triste, pois apercebi-me da falta de magia que há em toda a globalização. A ideia de irmos a um lugar distante, adquirir artigos que só existem nesse mesmo lugar, por fazerem parte da história, da cultura, das características da região, está completamente posta de lado. A descaracterização é crescente e fatal. É certo que traz para os que não viajam uma possibilidade única de tocar os pedacinhos que compõem o mundo, mas retira por completo a unicidade a quem viaja, a quem sente o cheiro de outras terras que não a sua. E o pior é que nos rouba os sonhos, porque materializa aquilo que antes só os livros e os filmes nos davam a conhecer.

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Alimentar o Amor

por Patrícia Reis, em 18.12.13

Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir. Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter. Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte. É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Valtam-nos guardiões. É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar. Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade. É tão fácil ser rebelde. Pica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou. Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros. Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela. Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.

 

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

(obrigada, Manuela, por me teres enviado esta crónica do MEC)

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Quem somos

por Joana Nave, em 22.10.13

Somos partículas de um todo, pontos discretos  de um conjunto. A cola que nos liga torna-nos contínuos no tempo e no espaço. Que cola é essa, capaz de unir fragmentos de um bem maior?

Claro que começa com a família, responsável por tudo o que aprendemos nos primeiros anos de vida. Depois vem a escola, os professores, os colegas. À medida que os anos decorrem, forma-se o grupo de amigos. Os amigos vêm e vão. Uns ficam para sempre, mais ou menos distantes, outros estão apenas de passagem, mas aprendemos com todos, sem excepção.

Somos um bocadinho de todos os que se cruzaram no nosso caminho. É maravilhoso sentir este fluir em nossas vidas. Por mais que a sensação de estagnação se apodere de nós em determinados momentos, estamos ainda assim a aprender alguma coisa. A vida por vezes obriga-nos a abrandar o ritmo, a saborear cada passo, a olhar para o que nos rodeia e a prender o olhar em cada pormenor, para que seja absorvido no nosso conhecimento.

A personalidade surge então como uma rede que envolve tudo o que nos compõe, que não deixa cair nenhum pedacinho, antes abarca todos os recortes que vamos fazendo e pondo lá dentro, para não nos esquecermos de quem somos e do que nos faz feliz.

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A crise das idades

por Joana Nave, em 20.09.13

Muito se tem escrito e falado sobre a crise económica, social, de valores, mas pouco ou nada se tem dito sobre a crise das idades. No entanto, se há crise que é transversal a todos os seres humanos, é precisamente esta.

As idades comportam inúmeras incertezas, angústias e vontades. Logo à nascença somos confrontados com a dimensão da aprendizagem, da dependência, da partilha, da carência e da necessidade de afecto. Na infância são-nos impostas regras e exigidos deveres e obrigações para atingirmos determinados objectivos, quando o que realmente nos importa são as brincadeiras de manhã à noite e tudo o que tenha cor e risos, que nos encham de alegria, própria desta idade. Na juventude, a par de uma série de dúvidas que nos tomam por assalto, vêm as primeiras decisões e o reforço do que nos é exigido. Quando se atinge a idade adulta entra-se numa ambivalência entre o que queremos e o que fazemos, e que nos acompanha por largos anos da nossa vida: tirar a carta de condução; tirar um curso superior; começar a trabalhar; sair de casa dos pais; casar; ter filhos; ser dedicado à carreira ou à família, ou a ambos. Hoje em dia, existe uma maior diversificação de caminhos, pois a sociedade, pelo menos nos países mais desenvolvidos, é mais liberal no que se prende com o casamento e a adopção e, por outro lado, o aumento da escolarização e o desemprego obrigam a que a emancipação seja cada vez mais tardia.

Todas estas questões são pertinentes, mas a crise reside essencialmente nas decisões que se tomam e que condicionam o futuro. É certo que nunca é tarde para começar uma nova carreira, para mudar o rumo antes traçado mas, ainda assim, há certas coisas que estão aprisionadas à idade, ou pelo menos à vontade que temos que tudo fosse diferente. É importante aceitar e valorizar o que somos, mais do que o que temos. Somos as experiências e as vivências que passámos e esta bagagem permite-nos hoje, no presente, decidir com mais confiança do que a que tivemos anteriormente. Se o trilho percorrido não nos levou a bom porto, estamos sempre a tempo de escolher outro. Estamos sempre a tempo, enquanto houver fôlego, enquanto as pernas tiverem força para caminhar, enquanto a voz se soltar do emaranhado de complexos e gritar bem alto o que queremos.

Segundo a Sylvia Plath, a árvore está carregada de frutos, temos de escolher os que mais gostamos, os que conseguimos alcançar, e até à quantidade que nos permite sentir satisfeitos. Alguns vão ficar na árvore, é inevitável, faz parte da escolha. O perigo é quando ficamos indecisos e, por não os escolhermos, deixamos que caiam de maduros.

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Ilusões

por Joana Nave, em 15.09.13

A ilusão é uma forma de ver as coisas que nos rodeiam ou de entender certos pensamentos que nos assaltam. Somos ilusionistas por natureza, atribuímos características humanas a seres inanimados, apenas porque os sentimos como reais e queremos dar-lhes vida no nosso mundo ilusório.

Ao contrário do que se possa pensar, a ilusão não nos impede de viver, mas impulsiona-nos a ir mais longe. Porque nos deixamos iludir, somos capazes de ir em frente, de desbravar caminhos inóspitos, de entregar as amarras do nosso destino a quem prometa libertar-nos. Somos, afinal, verdadeiros mestres da ilusão e percorremos o mundo na esperança de nos reencontrarmos, como se não conseguimos fazê-lo de outra forma. Por isso, olhar para dentro é tão difícil que só os outros nos podem mostrar a vida como num espelho, onde estão reflectidas as mágoas, dúvidas e angústias várias. O medo, o grande medo que temos da sombra que nos persegue ao longo de toda a nossa existência, e que nos sufoca por estar sempre presente, nos bons e nos maus momentos.

A ilusão bate sempre à porta, mas quase nunca a deixamos do lado de fora, convidamo-la a entrar como se de uma ilustre visita se tratasse. Damos-lhe o melhor lugar na nossa mesa, servimos vinho de reserva em copos de cristal e convidamo-la a ficar connosco. Se assim não fosse, como seria possível que tantos de nós ficássemos desiludidos quando a vemos partir?

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Em tua memória

por Joana Nave, em 25.08.13

Os avós ocupam um lugar inigualável nas nossas vidas. Somos o fruto dos filhos que eles plantaram no mundo, o orgulho da família, a promessa de um futuro risonho, que os encha de soberba e altivez. Tenho tantas memórias da minha avó, que hei-de andar o resto da minha vida a recordá-las. Essas memórias mantêm-na viva no meu pensamento e ajudam-me a suportar a dor da perda.

Lembro-me da história da “Bela Adormecida”, que me leu vezes sem conta por volta dos meus 3 anos, até que eu soubesse reproduzir de cor cada palavra, cada ponto final e virar de página, sem saber ainda ler. Lembro-me dos bolos caseiros que me ensinou a fazer, numas das muitas férias de Verão que passámos juntas na aldeia. Lembro-me de todas as vezes que cuidou de mim, da preocupação constante com o meu bem-estar, da alegria com que testemunhou e contribuiu para a minha educação católica, do orgulho por me ter visto terminar com sucesso a minha Licenciatura, e das muitas rezas que fez para que nunca me faltasse trabalho, para que a vida me corresse bem.

Quando tirei a carta de condução, o primeiro caminho que o meu pai me ensinou foi ir de nossa casa a casa da minha avó, um caminho que percorri inúmeras vezes. Lembro-me dos lanches de Domingo à tarde, das revistas que ela tinha por lá e que eu devorava sentada no sofá, enquanto ia ouvindo a conversa dos adultos. Era dessas revistas que ela recortava receitas para me dar. A minha avó era a fã nº1 dos meus cozinhados e, por isso, no Natal eu fazia o seu prato preferido para a consoada: bacalhau com broa e grelos.

Na casa onde viveu a maior parte da vida, e onde eu vivi os meus primeiros anos, estão espalhadas várias fotografias que lhe ofereci, aquelas que revelam as três décadas que partilhámos. Penso que a organização extrema e a memória implacável me vêm dela, que era exímia nestas duas características.

Por vezes, pensava que devíamos passar mais tempo juntas, mas a vida é demasiado complexa e passa demasiado depressa para termos tempo de dar valor ao que é realmente importante. Somos gratos, mas também somos egoístas. Agora, já não posso fazer mais nada, mas mesmo que pudesse o tempo continuaria a não encaixar na complexidade do dia-a-dia, porque temos de fazer escolhas e ser determinados e eu fui sempre demasiado ocupada para me permitir sentir a dor que hoje sinto.

 

Esta crónica foi escrita em memória de Maria Lucília da Costa dos Anjos 1931-2013.

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Controlador mas pouco

por Joana Nave, em 22.08.13

De que adianta querer controlar o mundo se tão pouco conseguimos controlar os nossos próprios impulsos?

Controlar é uma condição inerente a qualquer ser humano. Somos, em doses variáveis, controladores, manipuladores e obsessivos, mas gostamos de tingir estas características menos positivas com uma lata cheia de obstinação, a que invariavelmente apelidamos de personalidade forte.

Desde pequeninos que nos ensinam que temos de ocupar o nosso lugar no mundo, como se este fosse demasiado pequeno para o tamanho dos nossos desejos e ambições. Os valores fundamentais como a partilha, a solidariedade e a compreensão são sinais de fraqueza que só mais tarde, em idade adulta, nos entram pela porta adentro mascarados de homens de boa-vontade que lutam pelo seu semelhante. É mais uma moda que uma crença.

O controlo é apenas uma consequência da vivência mesquinha a que somos instigados desde a infância. Controlar o que se come para ter um corpo esbelto, controlar o que se veste para ter uma aparência decente, controlar o que se diz para ser considerado uma pessoa culta, controlar o que se faz para ser tido como uma pessoa educada. Pouco se tem dito sobre controlar a desonestidade, a falta de civismo, a mesquinhez, e até a avareza, porque o que se controla está à superfície e não na profundidade dos nossos sentimentos.

Tenho pensado algumas vezes que gostava de controlar o tempo para poder assimilar com maior clareza as consequências dos meus actos, mas o impulso é incontrolável e só o trabalho diário, perseverante e consistente consegue alinhar dentro de cada um de nós o que racionalmente sabemos que nos faz bem. Controlar tudo e todos os que nos rodeiam é um trabalho inglório, que nos desgasta e deprime, porque só quando conseguimos entender o que estamos a sentir somos capazes de aceitar e libertar as amarras que nos oprimem e limitam a nossa felicidade plena.

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Certa

por Patrícia Reis, em 22.12.12

Não é que tenha de ter razão. Não preciso de me sentir certa todos os dias. Acredita. Posso cometer os mesmos erros de sempre e dizeres que, pese as horas de conversa e acusações mútuas, sou incapaz de aprender. O pior, sabes, é que quando sinto que a certeza mora cá dentro fico cheia de palavras que podem cair como uma chuva de pedras. O amor sem condição é impossível. Estar certa, completamente ciente de que o caminho que percorro é o justo, longe das sombras e outras maldades. Posso arriscar e dizer que, terás de me perdoar, mas desta vez ganho eu. E é assim. Tenho razão. Queres que explique melhor? As palavras não são a verdade inteira da justiça do que sinto. As palavras são poucas e estão gastas, terás de ouvir o silêncio do que te digo ou escrevo. Arrisca um pouco, deixa o pedestal de ser o que achas que tens de ser, desce à rua da amargura, mesmo aqui aos teus pés, e vê como o meu coração se desfaz nas pedras para que o possas pisar. Sim, a razão é essa, o meu coração derramado, incapaz de se moldar de novo, transformar-se num músculo dentro de um corpo. Eu já não tenho corpo e tu nem dás por isso. Olha para mim, não olhes para o que pensas que eu sou, mas para quem eu sou. Não o sabes fazer? Já o sei. Tanta coisa que é impossível saber. Deixa, não te rales, a vida é feita destas intrigas e pedaços de fracasso, sem drama, vamos aprendendo a ver conforme nos é possível. Por isto tudo, o meu coração já não pulsa, permanece aos teus pés e falas para um coração morto. Podes contar das tuas razões até ao Verão. Já cá não estou para te ouvir, mas estou certa. Certa da minha morte em ti. Quando tropeçares naquele líquido não será vermelho de paixão, apenas uma cor vil de fim. Não te surpreendas, mas tens permissão para chorar e dizer que não entendes. Quando foi que entendeste? 

 

http://www.portaldaliteratura.com/cronicas.php?id=85#ixzz2Fk57nQ9I

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