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jornalismo à portuguesa

por Patrícia Reis, em 18.01.18
A maioria dos jornalistas do país está nos centros urbanos e, a maior percentagem, em Lisboa. Não há nenhum problema com esta realidade, é assim há muito tempo e talvez seja o mais natural. Dito isto, os jornalistas a trabalhar em Lisboa estavam convictos de que Pedro Santana Lopes ganharia as eleições para presidente do Partido Social Democrata e foi um enorme desaire a vitória de Rui Rio.
 

O problema? Sentir o pulso do país com os dedos da capital é um erro crasso. Muitos jornalistas e fotógrafos ficaram em Lisboa e aguardaram a vitória daquele que seria, ouvi dizer amiúde por aí, um presidente do PSD que iria tornar “a cena mais divertida”. A cena é a cena política.

Um militante de Viseu conta-me que votou no Rui Rio por saber que este não se coibirá se fazer governo com o Partido Socialista e que isso é um regresso à forma antiga, antes das maiorias Cavaco e de Sócrates, e o fim da chamada geringonça.

O facto de os militantes terem trocado a volta aos jornalistas deu origem a alguns incidentes sem relevância e a perplexidade estendeu-se gloriosamente até às direcções de órgãos de comunicação social. Facto consumado, a vida anda para a frente. Há uma tragédia em Tondela e a maioria dos jornalistas a trabalhar em Lisboa interroga-se: Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu. E lá vão à cata de como contar a história, tal como fizeram com Pedrogão Grande cuja localização seria, para muitos, igualmente desconhecida até aos incêndios.

Conhecemos o nosso país através da comunicação social mais generalista e com maior impacto ao nível nacional. Existem terras e terrinhas sobre as quais nunca ouvimos falar e, consequentemente, militantes de partidos vários que desconhecemos. A realidade da política é distinta.

Não é o Pacheco Pereira a pontificar na televisão ou os 30 segundos de discurso crispado na Assembleia da República. O mundo faz-se de outra forma quando é visto com olhos que não os de um lisboeta. Não é um problema do jornalismo, é um problema de todos nós.

O que consideramos normal e adequado em Lisboa pode ser o inverso para a realidade do Samouco ou de Marco de Canaveses. Os exemplos são mais do que muitos e convém não esquecer que a capital, ou o Porto, reflectem apenas os gostos e atitudes, comportamentos e vontades de uns tantos, não da totalidade.

Os jornalistas aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se. As pessoas a norte não se surpreenderam grandemente. Santana Lopes não percebeu nada.

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Boas intenções

por Patrícia Reis, em 04.01.18
Todos os anos, faço uma lista com decisões tomadas. A cada ano que passa, a lista fica mais curta. Já percebi que posso fazer mil planos, a vida encarrega-se de os destruir e de colocar novos no meu caminho. Não tenho, por isso, desejos que cheguem para as doze passas da praxe, à meia noite de 31 para 1 de Janeiro. Vou repetindo as mesmas coisas básicas que posso resumir em saúde, amor e alegria e a coisa dá-se.
 

Dito isto, no dia 6 de Janeiro há algo que muda na minha forma de estar e estou pronta para fazer a simpatia dos Reis. Reunimos amigos à volta da mesa – a melhor forma de estar com os amigos, diria – e munidos de uma nota de cinco euros e de bagos de romã vamos dizendo e embrulhando três bagos: Melchior, Gaspar e Baltazar eis uma semente para ter e para dar.

A dita nota, no meu caso, está velha e seca, é sempre a mesma. Fica enrolada e bem apertada dentro da minha carteira durante o ano e tenho a certeza que nunca terei os 117 milhões de Cristiano Ronaldo, mas terei para ter e para dar. Todos os anos, o ritual repete-se. Depois de dobrar a nota três vezes com três bagos de romã, dou-me conta que ter e dar é apenas uma extensão do afecto gigantesco de quem partilha a mesa comigo.

Os amigos permitem-nos ter e dar. Estão cá para nós. São uma família lógica, distinta da família biológica, são a família que escolhemos.

O meu núcleo familiar é cada vez mais curto. As famílias não se praticam com os primores de outrora. No meu caso, o Natal mudou consideravelmente depois da morte do meu avô paterno que, na verdade, era um perpétuo Pai Natal, sempre de sorriso no rosto, capaz de dançar de andarilho e de não se chatear com nada. Faz falta o meu avô. Muita falta.

Contudo, olhando à minha volta, ouvindo as histórias mil vezes repetidas (amigos antigos também têm essa coisa da repetição), as gargalhadas, as exclamações de alegria e de espanto; observando a forma ternurenta como os meus amigos se abraçam, se tocam enquanto conversam, assegurando-se da importância de cada um, sei que estou bem entregue.

O meu avô apreciaria esta dádiva de amizade que me aconteceu na vida e, é claro, riria da minha lista de boas intenções. Para ele, um dia de cada vez era mais do que uma opção, era um mote. E eu, avô, estou a aprender, um dia ainda chego lá.

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Parece um guião para um filme de série B, com alegações relativas à segurança nacional, porventura envolvendo as secretas (agora dirigidas por uma mulher, saliente-se) e interesses ocultos. Não é. Trata-se tão somente de política à portuguesa, mal feita, indecorosa, ofensiva.
 

Que os partidos queiram tratar da sua existência financeira e fiscal com melhores opções não me espanta grandemente; que os partidos o façam à porta fechada, em sessões sem actas ou qualquer registo escrito (nem que seja para a posterioridade) é, no mínimo, suspeito. Nove reuniões à porta fechada decorreram entre abril e outubro deste ano. Nove reuniões, repito, para discutir, digamos, interesses próprios (fim do limite para a angariação de fundos, a possibilidade de pedir restituição do IVA pago na totalidade de aquisições de bens ou serviços, e ainda a possibilidade de pessoas singulares pagarem despesas de campanhas a título de adiantamento).

Podia ser um erro, uma inocência, mas nada disso: quando emails trocados mostram que há um encobrimento de quem propôs o quê, designando-se os partidos envolvidos pelas letras do alfabeto, pois não temos como acreditar na ingenuidade de nada, seja de ideias ou de processo.

O CDS e PAN foram os únicos partidos que não votaram a nova lei de financiamento, uma lei aprovada no dia 21 de Dezembro, vésperas de natal. Será que alguém, iluminado por luzinhas de fraca potência, pensou que a época permitiria que isto não viesse à tona? Terá sido essa a hipótese levantada naquelas cabeças, da esquerda à direita? A isto chamo eu um atestado de estupidez passado à sociedade portuguesa sem qualquer vergonha ou embaraço.

Resta-nos, portanto, que Marcelo Rebelo de Sousa leia com atenção o que é proposta de lei, perceba o processo de construção desta nova lei e faça o que é preciso ser feito: vetar a lei. Mas não pode ficar por aí. Terá de dar um puxão de orelhas a todos aqueles com assento na Assembleia da República e que dizem representar Portugal e os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa redesenhou o nosso conceito de Presidência da República. Não pode ser comparado a nenhum dos presidentes anteriores. Cavaco era demasiado distante e rígido; Sampaio era diplomático e contido; Soares gostava de uma presidência inspirada na realeza e por aí fora. Marcelo Rebelo de Sousa apostou nas pessoas, na proximidade, na humanidade. Dizem que é o Presidente dos afectos e que está em todo o lado.

No caso desta lei de financiamento dos partidos e devolução do IVA, o Presidente terá de esquecer os afectos e tratar os partidos como merecem, alunos armados em espertos que não cumpriram com as regras de transparência que o exercício das suas funções obriga. Não deverá ser apenas uma reprimenda, terá de ser uma valente reprimenda. Não só porque a nova lei levanta questões variadas sobre as quais o Presidente tem uma opinião formada e conhecida (Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto líder do PSD, considerava que os partidos deveriam ser financiados pelo Estado na totalidade, retirando empresas e pessoas individuais do processo), mas sobretudo por ser evidente que em democracia não se aprovam leis desta forma.

No presente caso, espero que se recorde vivamente da sua profissão de professor e tenha a capacidade de dizer aos partidos o que é preciso ser dito: não brinquem com o poder que têm, sff.

 

P.S.: Como bom professor, Marcelo Rebelo de Sousa dá oito dias aos partidos para voltar atrás com a lei do financiamento. Resta saber se os “alunos” merecem ou estão ao nível.

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o moralismo que vai matar o consolo e o sexo

por Patrícia Reis, em 20.12.17
Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Até a pergunta é perigosa de se fazer nos tempos que correm.
 

Ando a combater com esta mania de querer dizer as coisas como as penso em vez de as dizer dentro de uma forma que se pode classificar, nos dias que correm, como “politicamente correcta”. Sou acusada de ser frontal e bruta muitas vezes, é um karma como outro qualquer, assim fico com a fama e o proveito. O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Não, esta não é uma crónica sobre o Kevin Spacey, o Harvey Weinstein e afins. Nada disso. O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever.

Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido, aflito com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema (bom, é evidente que há!), e a estudante continua a soluçar. O professor pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga lá começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”.

A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio?

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?

Se assim é, só posso dizer uma coisa: ainda bem que nasci em 1970. O que sinto é um retrocesso civilizacional em termos de comportamento, uma obsessão pela vigilância, um discurso pelo politicamente correcto que cai constantemente num moralismo que ninguém sabe quem define ou comanda. Será isto saudável?

Uma coisa é certa, este professor nunca mais consolará aluna alguma. E os meus afilhados mais novos, quando chegarem à adolescência, e se questionarem sobre o seu próprio corpo e o dos outros ou outras, terão de fazer um percurso deveras complicado e, antevejo, perigoso.

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"Minha querida" juíza

por Patrícia Reis, em 15.12.17
Então, analisemos de forma muito simplista: se a juíza diz “Professor” para se dirigir a Manuel Maria Carrilho e opta pelo “Bárbara” ou "minha querida" para falar com a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, isso é ...? Não é normal.
 

A notícia de que Manuel Maria Carrilho foi ilibado no processo de violência doméstica do qual é acusado pela ex-mulher foi um vento mau que apareceu hoje de manhã. Não consigo entender várias coisas, mas há uma que me espanta mais do que qualquer outra: uma juíza que Bárbara Guimarães considerava incapaz de imparcialidade e tendo, por isso, pedido a sua escusa, mantém-se no caso e é capaz de dizer coisas como: “Causa-me alguma impressão a atitude de algumas mulheres." A mim também, sobretudo se são juízes.

A lei não confere poder a uma juíza para proferir semelhante frase e as implicações que possam ter, em especial junto da opinião pública. Ainda há quem venere os juízes com o mesmo fervor com que em outros tempos se venerava a opinião do padre ou do médico. Vivemos numa aldeia global, bem sei, mas os juízes deveriam perceber que existem limites e deveriam ter em conta que observações sobre o carácter das pessoas não são do seu pelouro.

No caso presente, seria ainda de ter em conta o vasto curriculum do acusado, com um conjunto de processos perdidos, de multas aplicadas, e ainda com uma constante presença nos meios de comunicação social a difamar a ex-mulher e familiares.

Bárbara Guimarães manteve uma elegância ímpar e tem sido enxovalhada da pior maneira. Sobre isto a juíza não tem nada a dizer? Tem, pois, tem para dizer uma pérola que, espero, possa ser analisada em aulas no Centro de Estudos Judiciários ou objecto de processo no Conselho Superior de Magistratura. Diz a juíza, Joana Ferrer de seu nome, que Bárbara Guimarães é uma mulher determinada e auto-suficiente do ponto de vista financeiro, que deveria ter ido ao Instituto de Medicina Legal mostrar como foi vítima de maus tratos.

Portanto, posso concluir que para esta espécie de juiz, garante da boa manutenção de uma sociedade, todas as vítimas de abuso estão a correr para o dito Instituto. Nunca leu, coitada, nada sobre o perfil psicológico de vítimas de abuso. Deveria ler. É pena que a justiça não sirva para ser justa. Mas, lá estamos, um é um professor e a outra é apenas a Bárbara.

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Não acontece só aos outros

por Patrícia Reis, em 15.12.17

A reedição do livro de Maria Antónia Palla, "Só acontece aos outros - histórias de violência" é uma radiografia de uma sociedade portuguesa que, afinal, em 40 e tal anos pouco ou nada mudou. Lançado há uma semana, pela novíssima editora Sibila da escritora Inês Pedrosa, este livro de Maria Antónia Palla tem agora uma segunda vida e permite que qualquer leitor possa descobrir uma grande jornalista através das reportagens que fez ao longo da sua vida. São peças de antologia, como descreve a editora, mas são também uma radiografia da sociedade portuguesa, que mudou muito e mudou quase nada. As reportagens de Maria Antónia Palla descrevem situações que ainda hoje perduram, violências sucessivas com crianças, mulheres e idosos. Histórias portugueses, muitas delas escritas na década de 70, algumas antes do 25 de Abril, espelham a vida de certas pessoas e de como a dor, a desilusão, a fraqueza ou o heroísmo podem ser, demasiadas vezes, penalizadoras. Uma menina que aparece morta; uma anciã violada por um jovem; ex-amantes que combinam espancar e torturar a mulher com quem andaram; uma mulher mata o filho recém-nascido; um rapaz português aparece morto numa cadeia espanhola; uma mulher, cansada de maus tratos, envenena o marido. Estas são algumas das histórias reais que serviram de mote para a investigação da jornalista Maria Antónia Palla. No prefácio, Helena Matos, também ela jornalista, escreve que este livro “mostra-nos como para lá da espuma do que enche as primeiras páginas dos jornais – os planos salvíficos para o país, as declarações dos governantes, os programas que vão resolver definitivamente os problemas inadiáveis [...] – estava e está a vida das pessoas. Porque a Maria Antónia, acima de tudo, conta-nos as pessoas”. O livro, há tanto esgotado, é agora reeditado com a inclusão de duas reportagens inéditas, uma delas escrita na década de 80 do século passado e outra já este ano. Comprova-se assim que a jornalista, de 83 anos de idade, mantém o seu interesse contínuo na sociedade portuguesa. Na biografia "Viver pela Liberdade" (edições Matéria-Prima), Maria Antónia explica-se com facilidade: uma vez jornalista, para sempre jornalista. E é essa forma de olhar o mundo que lhe permitiu, em 2017, voltar à reportagem, desta vez para abordar a questão da adopção e das instituições de acolhimento. Existem milhares de crianças nas instituições, abandonadas, retiradas à família. O mundo da adopção é visto agora por Maria Antónia Palla numa reportagem única, na qual não pretende atingir qualquer imparcialidade, já que não considera possível que um jornalista envolvido nas coisas do mundo possa ser imparcial. O facto de permanecer activa e sempre jornalista, confere a Maria Antónia Palla um olhar sobre o Outro que é raro, que é coincidente com o jornalismo que aprecia: aquele que implica pesquisar, ouvir, estar atenta. As histórias sobre as quais escreve são fortes e são, apesar de terem um tempo cronológico de escrita, intemporais. Infelizmente, a violência permanece mesmo que possamos nomear um certo avanço civilizacional. “Nem toda a mudança dependeu da vontade de mudar. E essa vontade, quando existiu, ficou muitas vezes aquém da necessidade, em particular no que se refere às mulheres, aos jovens e às crianças. Faltou à 'revolução' o rasgo de inventar o futuro. A voz do cidadão comum permanece silenciada. A dor da gente não chega aos jornais, o diz o poeta na canção”, escreve a jornalista.

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quer saber a dieta da Adele?

por Patrícia Reis, em 06.12.17
Se é mulher, de qualquer idade, provavelmente quer. Se tem mais de 40, a probabilidade de querer é ainda maior. E porque todas-temos-de-ser-magras, há publicidade a receitas milagrosas a cada esquina das redes sociais - e parece que é tudo normal.
 

Então, a coisa dá-se. Chegamos aos 40 anos de idade e cada quilo que engordamos chega, generoso, com a família mais chegada, pai, mãe, filhos, instala-se naquilo a que a minha mãe designa como a faixa de Gaza, barriga, coxas, peito, cara, rabo. É um quilo, nada de grave. Vamos suar as estopinhas e caminhar ou frequentar o último ginásio genial com uma estratégia complexa e milagrosa. Sabemos, por termos a idade que temos, que estamos a viver uma ilusão.

Depois fazemos 45 anos de idade. A coisa piora um bocadinho – a vários níveis – e ver as revistas de moda só pode ser um exercício que se faz com descontração, cientes de que ninguém tem corpos assim, pelo menos ninguém feliz, a comer um bom queijo alentejano e a beber um copo de vinho tinto. Os nossos quilos a mais são nossos, logo não faz qualquer diferença a nossa melhor amiga ou a senhora a lavar a cabeça na calha ao lado no cabeleireiro, dizerem: ah, que disparate, estás óptima. Se uma pessoa sabe que já não entra numas calças 36, pois não entra numas calças 36 e já entrou, não há conversa.

Pessoalmente, aos 47 anos, não me posso queixar, admito. Vivo bem com o corpo que tenho, mesmo que me possa atraiçoar aqui e ali, e não vista um 36. O pior é a perpetuação do fascínio com a magreza e com as dietas mais estrambólicas. Como estamos todos dominados pelas redes sociais – eu só conheço duas pessoas que não têm facebook e uma delas é a minha avó – somos bombardeados com as informações mais diversas, basta serem publicações patrocinadas e nas quais nós nos inserimos, ou seja, fazemos parte do grupo alvo: mulheres, entre os 35 e os 55.

E estas publicações repetem-se todas as semanas e, todas as semanas, me perguntam: Sabe como Adele emagreceu? Veja como Julia Roberts se mantém. E por aí fora. Tudo isto com as fotografias das senhoras cuja imagem e nome é usado e abusado para vender uns comprimidos ( à base de umas plantas de que eu nunca ouvi falar, mas eu não sou especialista em plantas), que só se vendem online, e nesta semana, maravilhoso!, em promoção, encomende já, estamos com 30% de desconto.

Nada disto é bom, já se sabe, e há quem vá cair na canção do bandido por acreditar que a Adele ou Angelina Jolie (que está claramente feia de magra na minha opinião, mas isso agora não interessa nada) tomou aquelas coisas à base de Hoodia Gordonii ou Garcinia ou outra coisa qualquer que, afinal, depois de tudo, porque carga de água é que não se experimenta mais uma coisa? Depois da dieta do paleolítico, da dieta das maçãs, da dieta com produtos que parecem comida de astronauta, pois vamos lá experimentar estes comprimidos.

Esta semana atingimos o pináculo da perfeição, para citar Miguel Araújo, com um post patrocinado que anuncia uma dieta que não se deve fazer porque emagrece de imediato. Carregando então no botão que diz saber mais, fico eu, pobre alma inocente, horrorizada com a venda de outros comprimidos, que está provado que emagrecem de um dia para o outro, mas que os nutricionistas não recomendam. Mostram imagens do antes e depois que, para sermos honestos, são imagens da senhora A e da senhora B, nunca a senhora B podia ser o depois da senhora A pela simples razão que não são a mesma pessoa. O texto e as imagens mostram que é possível emagrecer num ápice, mas não o façam. É uma forma doentia de promover uns comprimidos (esta coisa dos comprimidos é uma mania?) que, no desespero, alguém menos sensato pode encomendar. Porventura com promoção especial desta semana.

Eu denunciei este post, um post patrocinado, algo que alimenta financeiramente o senhor Mark Zuckerberg e esta invenção extraordinária que une a aldeia global. Não sei se terei alguma sorte com a minha denúncia, o mais certo é ver isto outra vez daqui a duas semanas. O pior de tudo, penso eu que tenho sobrinhas a sair da adolescência, raparigas que vêem as tais revistas de moda e atrizes perfeitas em filmes românticos que Hollywood fazia na temporada antes-do-assédio-ser-assunto, são as jovens com problemas de peso que vão cair nesta esparrela.

Moral e eticamente, o senhor Mark Zuckerberg não deveria aceitar estas coisas, mesmo que lhe dê mais uns trocos. O mesmo tipo de posts é colocado no Instagram, criado pelo senhor Mike Krieger, com promessas de dietas milagrosas que vão mudar a vida de quem quer perder peso. Querer perder peso é, muitas vezes, uma questão estética, muitas vezes de saúde e bem estar e implica necessariamente com a auto-estima das pessoas. Não deveria ser possível enganar as pessoas deste modo. Dirão que só é enganado quem quer. Será?

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frames da vida

por Patrícia Reis, em 25.11.17

O Pedro a cortar um texto na Grafinova, em pé, com o x-acto na mão, concentrado. Foi a primeira vez que o vi, fazia ele parte daquele grupo especial do Caderno 3 de O Independente.

Não nos tornámos amigos com rapidez, eu era apenas a estagiária. Foi o tempo. Pedimos desculpa um ao outro num certo almoço de bacalhau num restaurante de que o Pedro gostava em especial.

Rimos os dois às gargalhadas com recordações da vida amorosa de cada um de nós.

Mostrámos o orgulho devido com as conquistas dos nossos filhos, filhos com Maria no nome.

E depois pequenos frames da vida.

O Pedro a discutir músicas com o João Gobern.

O Pedro abraçado à Cila. À Ana Teresa. À Margarida.

O Pedro sério. Na televisão, na rádio, por escrito.

O Pedro com a Helena a rirem os dois, a grupeta reunida, num jantar ali ao lado, num restaurante, e eu a invejar tanta partilha e alegria.

Bolas, Pedro, podias ter avisado que isto ia ser tão curto. Podíamos ter feito aquela coisa estranha para a Egoísta, ou aquela proposta igualmente estranha a uma fundação.

Podíamos ter feito tanto, e agora não há tempo. Tu fizeste muito e quem te conheceu só pode mesmo chorar-te. Desculpa se não te respondi com mais pressa, desculpa se a vida nos atrapalhou em algum momento.

Agora resta-me dizer, até já. Ficamos mais pobres sem ti.

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querido, mudei a casa

por Patrícia Reis, em 16.11.17
Na secretaria da existência surgem coisas distintas, pois ele é impostos, modelos com nomes estranhos para preencher, dados que nos solicitam a todas as horas e em todos os sítios, assinamos de cruz, dizemos que aceitamos as condições e seja o que Deus quiser. Despachar.
 

De repente, quando é preciso fazer obras, a vida muda totalmente. Ao fim de dois meses fora de casa, regresso com alguma melancolia e apreensão. Estava eu cheia de energia para limpar e arrumar, abrir caixotes, seleccionar e mandar para o lixo, quando percebi que, afinal, ainda não está bem tudo pronto. Portanto, tenho de esperar para tirar as coisas do caixote. E não posso usar a cozinha. Apenas o frigorífico. Um dia, talvez, consiga usar o resto.

Há pó laranja por todo o lado (já disse que a cozinha está laranja? Pois, mas, por favor, não tirem conclusões políticas desta opção estética!), uma penumbra de pó acinzentado que cobre tudo e vários sacos com ferramentas diversas, algumas com aspecto terrífico, outras simplesmente incompreensíveis, há garrafas de água e papelões, cartões e plásticos.

Tudo se atrasa, obras são uma loucura, tu não te metas nisso. Ouvi eu estes meses, já com a obra começada e, consequentemente, sem hipótese de desistir. E uma cozinha parte-se num instante, fica mesmo como um cenário de guerra em meia dúzia de horas, o pior é a reconstrução. Para colocar armários e pedra, cubas e máquinas, ah, isso é todo um processo estranho e estamos sempre quase, mas falta o quase e o quase é avassalador. A vida é dominada pelo quase.

E o que dizer daquele dia em que se visita a obra e – surpresa! – não há lugar para a máquina da roupa? A solução é simples, parte-se um pouco aqui, um pouco ali, e o quase foi-se.

O desespero é de tal ordem que considero nunca mais desencaixotar seja o que for. Quando isto terminar, vou deixar a cozinha impecável, super limpa, com os mega armários vazios por incapacidade de os encher. A minha cozinha cabe em trinta caixotes, a minha cozinha não tem 15 metros quadrados, nós acumulamos tanto que é quase anedótico.

Espreitando para dentro de um caixote descubro uma coisa verde de plástico que não sei para que serve. Do outro lado, está um livro de cozinha, em mandarim, oferta de uma amiga cheia de graça e boa disposição. Que grande chuto na tola! E ainda não sei qual é a conta final desta magna obra, mas não digam à minha mãe que ela é capaz de ter um ataque e deserdar-me (ela tem uns tachos de cobre maravilhosos que cobiço há anos, mas que nunca caberão no paraíso reformulado que é a minha bela-quase-cozinha-laranja). Para quê pensar no que isto vai custar? Prefiro admirar a minha existência e abrir uma pilha de correio.

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prostituta por acaso

por Patrícia Reis, em 14.11.17
Diferentes religiões cristãs insurgiram-se publicamente. O uso indevido da Bíblia e das suas narrativas para cumprir acórdãos de justiça é, no mínimo, um abuso.
 

Volto ao caso do acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre a mulher violentada pelo amante e pelo marido. O entendimento radical que se pode fazer da Bíblia é também algo que está datado. Estamos numa outra era. Entendemos melhor a Bíblia, as questões dramáticas da tradução, das diversas traduções (excelente trabalho de Frederico Lourenço, acaba de sair o terceiro volume da sua tradução a partir dos textos gregos). Sabemos hoje factos históricos que colocam em causa muito do que tomámos por certo ao longo de séculos.

A iniciativa de reunir várias vozes de líderes cristãos partiu da academia, da Universidade Lusófona, onde existe um mestrado - há 20 anos – dedicado às Ciências da Religião. O mestrado é um espaço de aprendizagem e de estudo, de partilha e aquisição de conhecimento e, nessa perspectiva, inscrevi-me há um ano e pouco, tendo cumprido os dois primeiros semestres. Aprendi muito, li o que de outra forma não leria, reanalisei os meus mitos, conferi histórias e, sobretudo, entendi a enorme importância da religião na história da Humanidade, mesmo para quem se diz ateu ou agnóstico. Porque a religião não é exclusivo do intelecto, é da dimensão do emocional.

Eli Wiesel, ele que recebeu o prémio Nobel da Paz, escreveu: “Podemos não ser a favor de Deus ou contra Deus, mas não podemos ser sem Deus”.

Ora, a Bíblia, que reúne textos importantes para as três religiões monoteístas, nunca foi a melhor plataforma para ajudar a causa das mulheres. Pelo contrário. Mas existem crenças colectivas extraordinárias que não correspondem à verdade e uma delas, exemplo máximo de como um texto sagrado pode ser desvirtuado e usado para manipular as mentes, é a questão de Maria Madalena.

Se perguntarmos,  numa sala cheia de pessoas de diferentes proveniências e condições sócio-económicas, qual a profissão de Maria Madalena, a resposta é: prostituta. Não há qualquer dúvida sobre esta matéria, é fazer o teste. Eu fiz, este ano, na feira do livro do Porto, numa conversa com José Luís Peixoto sobre o Sagrado e o Profano.

Ora, não há nada da Bíblia que nos indique claramente que esta mulher exercia a mais velha profissão do mundo. Nenhum versículo, nenhum evangelho. Há uma mulher, Maria Madalena, liberta de demónios (Lucas 8:2) que podem ser interpretados de várias formas; que acompanha Jesus, que esteve perto da cruz (Mateus 27.56; Marcos 15.40; Jo 19.25), que pode ser entendida como discípula até por ser aquela a quem Jesus aparece depois de ressuscitar (Mateus 28.9; Marcos 16.9; Jo 20.11-18).

Para o comum dos mortais, em Portugal ou em outro país, em pleno século XXI, Maria Madalena era uma prostituta. Porquê? A Igreja encarregou-se de dividir as mulheres em três figuras centrais: Eva, a tentadora demoníaca; Maria, a mãe silenciosa e cumpridora; Madalena, a devassa. Esta construção foi feita pelos homens e a virtude de Maria Madalena foi violada e vilipendiada ao longo dos tempos por causa de um papa: Gregório ( 540-604 d.C), que achou por bem afirmar que sabia de fonte segura que a senhora, afinal, era uma prostituta. E até hoje, o mito mantém-se.

Não é só errado invocar os textos sagrados e a religião, com o seu manancial de subjectividade e contexto histórico tantas vezes perdido, para reclamar boas acções ao nível da prática da Justiça, como  também  é terrível perceber que os homens o fazem há séculos e séculos e as maiores vítimas são sempre as mulheres.

Por isso, esta iniciativa do departamento de Ciências da Religião da Universidade Lusófona não é de somenos, é uma grande conquista. São as religiões de inspiração cristã em defesa das mulheres. Este gesto que, para muitos, pode ser simbólico, é uma porta que se abre com a força de uma ventania a que podemos chamar justiça.

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Essa mulher somos nós

por Patrícia Reis, em 31.10.17
O Conselho Superior da Magistratura portuguesa pronunciar-se-á no dia 7 de Dezembro do ano da graça de 2017.
 

Só nesse dia, véspera do antigo dia da mãe (quando estas coisas eram programadas por questões teológicas e não comerciais), é que os senhores podem avaliar a conduta do juiz desembargador Neto de Moura e da senhora juíza desembargadora que deveria ser destituída de funções no momento exacto em que diz que, enfim, isto é uma maçada, mas eu só li na diagonal.

Eu conheço muita gente que só leu na diagonal o código da estrada e foi penalizada por isso. Ainda bem.

Conheço muita gente que não leu o código deontológico do jornalismo mas passa a vida a mastigá-lo como se fosse pastilha Gorila e a fazer balões para que o mundo possa reparar em tanta sapiência.

O que eu não conheço é alguém que venha dizer: meus senhores, o que aconteceu no Tribunal da Relação do Porto é infame, indigno da profissão que exercem, portanto tomem lá com a devida punição.

Não, vamos esperar até dia 7 de Dezembro, dia em que pode chover ou fazer sol, e até lá, enfim, são tantos dias, existirão outras mulheres que podem ser vítimas de violência e acusadas a partir da lógica da Bíblia ou de uma lei de há um milhão de anos.

Que importância é que isto tem? Tem muita. Tem mais importância, por exemplo, do que discutir na televisão, durante duas horas!, a entrevista do primeiro ministro que durou meia hora. Dirão que exagero, pois talvez. Para mim tem mais importância por saber que a questão das mulheres parece ser apenas um rolo de tinta que sobe e desce e nada acrescenta, uma coisa cansativa, mas o que querem?, dá-me para aqui.

Essa Mulher Somos Nós é o nome da petição que circula para que possamos mudar a Justiça e a forma como a Justiça é praticada em Portugal no que toca às mulheres. Porque a pergunta é: quem fiscaliza os juízes? São os tais senhores que se vão pronunciar no dia 7 de Dezembro? E quem fiscaliza esses? A petição visa repor a justiça e entender se é possível ultrapassar este estado de graça de impunidade que alguns juízes parecem gozar com um à-vontade ofensivo. Eu assinei, porque também sou esta mulher, esta vítima. E vocês?

 

P.S. - The Guardian e o The Independent já fizeram uma notícia sobre este caso. Ficámos bem no retrato, como podem imaginar.

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Mulheres portuguesas, deixai hoje de trabalhar

por Patrícia Reis, em 15.10.17
Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.


Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.

As mulheres, ao longo da História, tiveram de cumprir apenas duas quotas: ou são umas Evas – logo demoníacas e tentadoras, perversas e afins – ou são Marias – a mãe, beatificada e calma, sempre cumprindo a tradição e, acima de tudo, o silêncio. Desde o chamado pecado original que temos esta avaliação extrema das mulheres seja em que situação for.

No caso dos ordenados ou promoção nas carreiras, andámos muito, conseguimos muito, mas falta bastante para chegar à famosa e pouco cumprida paridade.

O Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social aponta como diferença ao nível dos salários dos tais 21,8% (dados de 2016) e releva que 28,9% das mulheres recebem o ordenado mínimo nacional. O mesmo ordenado mínimo vai para 18,5% dos homens.

Como combater esta desigualdade? Mantendo ferozmente a convicção de que os direitos são iguais. Por favor, não me falem em mérito.

As mulheres portuguesas trabalham muito. Todas as mulheres trabalham muito, dirão. Sim. A tradição pesa e a cultura também. E, se existem filhos, cabe por regra à mulher tratar dos infantes, da casa, dos mais velhos, desdobrar-se. Considerando que esta situação, em pleno século XXI, parece perpetuar-se, talvez seja mesmo bom irmos para casa fazer o que nos apetece, ou passear, já que para muitas de nós o que fazemos não vale o mesmo do que aquilo que é feito por homem.

Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência.

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Cortar os pulsos

por Patrícia Reis, em 24.09.17

Viver numa aldeia às portas de Lisboa durante o verão é bom. Fugir para uma aldeia às portas de Lisboa num fim de semana de inverno é bom. O pior mesmo é ir e vir todos os dias para uma aldeia às portas de Lisboa.

 

Por razões que agora não interessam para nada, vim viver para uma aldeia, na margem sul, a 40 minutos de Lisboa. Não vim de férias, nada disso, vim para estar e viver até Lisboa me ter de volta, que é como quem diz, até voltar a ter casa digna desse nome.

Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa e, como todas as pessoas das grandes cidades, tenho da aldeia a ideia idílica que me ajuda a pensar que, um dia, sabe-se lá quando, vou conseguir reformar-me (só esta afirmação dá logo vontade de rir) e viver num sítio mais tranquilo.

Estou na aldeia e a cortar os pulsos.

Sim, adoro aqui estar no pique do verão, quando a animação é mais que muita – numa única rua temos dois bares e um salão de jogos, é uma festa –, quando o peixe ainda chega vivo à peixaria, as pessoas acotovelam-se para comer gelados e temos um território bem demarcado na praia do costume.

Ou então, em pleno inverno, de lareira acesa, sem sair de casa, vivendo na ilusão de que o descanso se pode fazer num único fim de semana.

Tudo isso está muito bem, mas experimentem ter de passar a ponte (25 de Abril ou Vasco da Gama) todos os dias. Façam contas: quilómetros de gasolina, portagens, minutos perdidos no pára-arranca.

Sim, estou a queixar-me e algum de vós estará a pensar por que carga de água é que não vais de transportes públicos, certo? Pois, quem tem uma vida profissional como a minha dificilmente se adapta aos transportes públicos, porque às dez da manhã é preciso estar em Queluz, às duas da tarde no Saldanha e às quatro em Cascais.

Não será todos os dias, mas a verdade é que ando de um lado para o outro como os pombos andam por aí a conspurcar estátuas. Não tenho onde pousar verdadeiramente, não tenho um emprego das nove às seis. Portanto, a única solução é esta: ir e vir. E o que é agradável e quase consolador nas férias é agora uma tortura. A mercearia está fechada por estes dias. A gasolina acabou? Bom, talvez a bomba a três quilómetros de distância esteja aberta. Não sabes como atinar com o forno a gás ou ficaste sem gás? Respira fundo.

Depois deste desabafo, posso dizer que existem coisas boas: o café onde nos tratam como se fossemos realeza, o restaurante maravilhoso dos amigos que se mantém aberto já em modo fim de verão, a tabacaria onde os jornais podem ser guardados para quem ainda lê jornais em papel (eu!), o silêncio imprescindível, e quase estranho, dos carros que não passam, dos autocarros que não travam. Enfim. Por estes dias, viver na aldeia e trabalhar em Lisboa é um sacrifício. E ainda não fez um mês que aqui estou. Já disse que estou a cortar os pulsos?

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Para acabar de vez com a democracia

por Patrícia Reis, em 16.09.17

Em vésperas de eleições é muito fixe conspirar e mandar bitaites como se isto fosse, o que parece ser tantas vezes, a República das Bananas.

 

Eu tenho amigos de direita. Tenho um filho de direita. Não tenho nada contra quem segue esta linha política, mas tenho tudo contra a politiquice da treta. Temos para todos os gostos: se o/a candidato/a comprou uma casa é por ter comprado uma casa; se o/a candidato/a sabe fazer contas é por sabe fazer contas; e por aí fora.

Mas também temos este registo à esquerda. Não tenho a menor paciência para o argumento de que alguém não tem como governar uma cidade por não saber quanto custa um bilhete de metro (que não é uma empresa municipal, a última vez que verifiquei, e existem múltiplos tarifários).

Ataques e mais ataques, sem grande mérito para quem os começa, sem grande mérito para quem os decide combater. Na verdade, trata-se da canseira habitual em vésperas de eleições e que tem o condão de comover muito pouco o eleitor que estará entretido com o último reality show ou com a bola (talvez possamos inverter isto, porque a bola é evidentemente quem mais ordena).

Portanto, grande parte do debate político é entre políticos e os políticos, já se sabe, alimentam-se disto como os pombos no Chiado se alimentam de qualquer coisa que caía das mãos dos turistas ou dos locais.

Ideias? Ouço nos debates entre candidatos que existem ideias e estratégias, mas não há – quase nunca – um esmiuçar das mesmas. Para ver se eu, e qualquer outro eleitor, concordamos com as mesmas, e se apostamos no senhor ou senhora A por ter um plano com o qual possamos concordar. Não, nada disso. Temos umas coisas a que chamamos debates, temos os habituais com engajamento político e com palas nos olhos e pouco ou nada passa disto.

Acresce ainda que a direita tem feito um pobre serviço à democracia, por não ter candidatos que sejam – vá, vou ser querida e fofa - carismáticos. Não, a direita tem candidatos que são “mais ou menos”, são os “possíveis”, o que é preocupante porque fragiliza o processo democrático e a possibilidade de qualquer debate. Como o primeiro-ministro carrega no bolso das calças as duas esquerdas que podiam fazer alguma oposição, o cidadão que seja como eu, esperaria da direita mais política e menos politiquice. Não acontece.

O que é mesmo bom é fazer alvo aos patos, tiro para aqui, para acolá e a grande máquina do mais-do-mesmo vai rolando.

A minha fé na política é cada vez menor e, tenho cá para mim, estou cada vez menos sozinha nesta convicção. Por outro lado, espanta-me que existam pessoas que ainda queiram servir o país ou exercer qualquer tipo de serviço público, porque o escrutínio é absurdo, a maldade e a deficiência de alguns jornalistas é crónica e, por fim, nem sequer é bem pago.

Talvez eu esteja errada, pode sempre acontecer, mas temo muito pelo futuro da nossa democracia que, afinal, ainda nem tem 50 anos.

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erotismo 0 - tecnologia 2

por Patrícia Reis, em 21.08.17

Há uns anos, Agustina Bessa-Luís revelou, numa crónica de jornal, que nada é mais anti-erótico do que a praia, a praia onde metade do país se encontra de momento. Também escreveu, numa outra circunstância, que uma mulher para parecer inteligente só precisa de usar um vestido preto e ficar calada. É uma ironia, e é uma verdade, se considerarmos o quadro mental. Mas não vamos por aí.

 

O calor faz-se sentir e eis-nos na praia, esse cenário de tristes paisagens em que estamos no nosso melhor ou nosso pior. O tal anti-erotismo prevalece.

À minha volta, no fim de semana de dolce fare niente, vejo famílias ruidosas, os gestos do costume - "Pedro, vem aqui já, não te chamo outra vez"; "Maria, tens de meter protector", "Tens sandes, come uma sandes, já comeste um gelado" - e um outro que é perturbador, embora comum e, portanto, expectável: poucos livros protegidos por leitores ávidos de uma boa história (eu terminei o romance de Paul Auster, 4,3,2,1, que recomendo, embora possa compreender que o número de páginas assuste os menos experientes), jornais por ler encostados a mochilas e sacolas da moda e, pois claro, muitos telemóveis a emitir a luz da salvação e eternidade.

Para quê falarmos se posso estar no Facebook? Recordo-me das grandes conversas na praia, jovens em bando, partilhando histórias, reclamando levemente do horror que foi a escola, sem querer falar disso; piscadelas, início de namoros, jogos e cartas. A sedução fazia parte do verão e o tal anti-erotismo de Agustina ainda não me tinha assaltado como uma verdade fatal, ou seja, não tinha dois filhos, não passara a barreira dos 45 anos de idade.

Tudo era uma festa e conhecer pessoas novas uma promessa de verão que se cumpria religiosamente, alguém que trazia uma prima que vivia no interior do país; um melhor amigo de há dois meses.

Agora, depois de pousar o livro, de ter lido os jornais e as revistas, a esconder-me na sombra desde as onze da manhã - aguentando heroicamente até às seis da tarde por amor, e só mesmo por amor -, eis que percebo que não são apenas os corpos que se degradam com o tempo. É o tempo que nos traz a tecnologia para dentro da vida, mesmo com água e areia, e não há espaço para conversas.

Foi-se a sedução. Não há nenhum bando na praia de adolescentes à espera de crescer mais em dois meses do que em um ano lectivo intenso: há telemóveis para todos os gostos. E, sim, corpos massacrados por essa realidade básica: com a idade vem o peso e cada quilo traz uma família inteira com ele, avó, tia, primo, e custa muito mais a perder esses excessos, ocupantes indesejados.

Porque não lemos, não conversamos, não andamos em grupo, mas, caramba, temos de comer uma bola de berlim.

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Eles têm as costas largas

por Patrícia Reis, em 02.08.17

As generalizações são tramadas, mas — tendo consciência ou nem por isso — mantemos essa necessidade de assumir o rótulo, de catalogar, de definir em bando para concluirmos coisas, em teoria, pertinentes e que devem algo à inteligência.

 

Os portugueses assumiram há muito tempo que existe essa figura de papão que os trama e designam o mesmo bicho mau e careca de uma forma quase incolor: eles.

Eles comem tudo e não deixam nada, pois lá diz a canção. O drama é que o Eles — vamos colocar em maiúscula para lhes dar um pouco mais de corpo, solidez, pertinência — não existem enquanto criaturas reais que tomam decisões. São apenas os que prejudicam, os que nos tiram os dias de sol, os que falharam, os que podiam ter feito melhor, mas  que não fizeram porque nunca fazem. Quase como uma versão castigadora da professora de matemática que prolonga o tempo de aula para massacrar os alunos que anseiam pela aula de português. Ou como uma entidade que procura vingar-se da Humanidade e que tem um desígnio maléfico que nos inflige um fado que, afinal, é apenas um fardo.

Seja qual for a metáfora usada, uma coisa é certa: a culpa é toda Deles. E Eles não se acusam, por não ser nomeados, e quando o são, já se sabe, estão no governo ou no partido A ou B.

Prezamos a democracia, já cá andamos há uns anos e sabemos que é  infinitamente melhor do que tínhamos antes da revolução dos cravos em 1974, mas será que ainda sabemos apreciar o sabor dessa democracia e a valorizar a importância do debate público?

Ah, Eles tratam, mesmo mal, resolvem, pensam e fazem com que a máquina se tenha instalado, criado raízes e se mantenha no seu movimento perpétuo. Ora, Eles, sejam lá quem forem, podem muito, têm as costas largas e não se importam com as críticas.

Alguns fazem parte dessa massa anónima do Eles há tanto tempo que encaram as críticas com a placidez com que algumas pessoas vivem uma hora de boca aberta para desvitalizar um dente. Não se importam nada com as críticas, as queixas, os comentários de fel nas redes sociais, os factos, isto ou aquilo. E estão instalados a ver a paisagem e a dormir sossegados porque são Eles e sendo Eles não são como Nós, os deste lado que, apesar da queixa, não queremos ir para ali.

Eu, para a política? Eu, ter de votar? Eu, ter de perceber a função exacta de um vereador, deputado, ministro? Eles comem tudo e não deixam nada, têm o poder.

O Nós não entendeu ainda que Eles têm o poder por lhes ter sido dada essa oportunidade. Ninguém quer fazer parte do Eles.

A fragilidade da democracia é a maior falha do Nós que, assobiando e cuscando o vizinho para o maldizer, está muito entretido a olhar para o seu umbigo em detrimento do Outro. O Outro é o bem comum. Nem Eles, nem Nós percebemos isso.

Por isto, e mais umas tantas coisas, vem aí a silly season e teme-se o pior. Ou então sou eu que estou especialmente pessimista. A culpa é Deles.

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a forma mais preguiçosa de ver o mundo

por Patrícia Reis, em 27.07.17

Esquerda, direita, volver. Ou porque é tão difícil abrir a discussão pública a novas pessoas, novas ideias, diferentes formas de pensar.

 

Dividir o mundo entre a esquerda e a direita é a forma mais cómoda de se viver, a mais preguiçosa e também a menos interessante. Mas é assim que vivemos. Na dicotomia que faz com que tudo tenha esta divisão categórica. Olhamos para os intervenientes em qualquer programa de televisão ou de rádio e lá estão os senhores mais assim, os senhores mais assado (escrevo senhores porque, objectivamente, as senhoras não aparecem com tanta frequência). O que muda em termos de pensamento? Nada. Existe uma agenda e um pensamento condicionado, logo é bastante previsível o que vai ser dito, ou dado a ouvir para que o público em geral possa processar e pensar.

Olhar para o mundo através deste binóculo bipolar parece-me redutor. Dirão que existem várias esquerdas e outras tantas direitas, clivagens, diferenças, actualizações, que existe um centro e os liberais e talvez, porque não?, neo liberais, e tal. Pois seja. Nasci antes da revolução, poucos anos antes, sou, por isso, também produto das conquistas de Abril. Cresci em democracia e, passados mais de 40 anos, pasmo com realidades que limitam a possibilidade de se pensar o mundo de uma forma que não seja partidarizada. E estou um pouco cansada de mais do mesmo, que é como quem diz dos comentários dos agentes informadores mais assim, ou mais assado.

Temos poucos académicos a escrever nos jornais, a falar na televisão. Temos uma mão cheia de politólogos, mas deixámos de ter historiadores, sociólogos, filósofos em contacto com o grande público. O que temos? Mais do mesmo. Os senhores do costume. Há décadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que fez campanha sem outdoors, manifestações e outras acções típicas de uma campanha presidencial, esteve anos e anos a entrar pela casa das pessoas através da televisão. O poder que tem a pequena caixa que mudou o mundo é real e contribui para muito. Não sei se, em Portugal, nesta altura do campeonato, contribui para se pensar o país, o mundo, as questões que afectam as pessoas. O que importa é equilibrar as intervenções entre os agentes de esquerda e os da direita.

Nos jornais, durante muito tempo, os escritores – que pensam o estado do mundo e são uma forma de consciência do seu tempo – escreviam crónicas, eram chamados a apresentar ideias. Hoje, são raros os escritores que se envolvem nas matérias sociais. Não por não quererem, simplesmente por não terem esse espaço. Tudo o que envolve a sociedade é político e, portanto, é evidente que tudo se passa à volta da esquerda e da direita? Sim, tudo o que envolve a polis é político, todos nós temos gestos e discursos que formam uma ideia política, mas não precisa de estar engajada numa agenda de partido que, para tornar as coisas ainda mais pobres, resulta em “picar” os potenciais adversário e outras variantes pouco dignificantes.

Disseram-me, há uns meses, que não se pode deixar de ir buscar para intervir nas televisões, rádios e jornais pessoas cujo reconhecimento é imediato. Todas elas eram desconhecidas numa determinada fase da vida, certo? Certo. Portanto, podemos apostar em pessoas cujo discurso é diferente e que ninguém conhece. Ah, as audiências sofrem com isso, com o facto de ninguém saber quem é o académico que vem explicar coisas importantes, digamos, sobre o Islão. A solução é colocar alguém cujo rosto se multiplica em vários cantos da comunicação social, tornando-o um agente de comunicação. E, mesmo que não saiba nada sobre o Islão – que perspectiva de direita, que perspectiva de esquerda, pode existir nesta matéria não sei dizer, mas que importa muito que se saiba mais sobre o Islão não tenho a menor dúvida -, pois alguma coisa se arranjará para pontificar e fazer o contraponto, ou seja, o descascar no vizinho do lado, à esquerda, ou à direita. Do outro lado do ecrã, alguém irá dizer: este tipo é de direita/esquerda.

Perde-se muito quando se divide a realidade apenas desta forma e, acima de tudo, perde-se a possibilidade de abrir horizontes, de aprender, de formular ou reformular pensamento. E, caramba, precisamos tanto de pessoas que pensem bem, diferente, que nos empurrem para lugares melhores. Não dará audiências, mas talvez contribuísse para dar a volta ao estado do país.

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É uma ilusão que alimentamos há mil anos: somos um país integrador, com boa vontade, tolerância e outros predicados de correcção extrema. Somos bonzinhos. Conquistámos o mundo, uma boa parte do mundo, e, nos tempos de glória, não fomos tão maus quanto... Eis o busílis: a comparação.

Nunca somos tão maus quanto A ou B, outros povos, outros colonizadores, outros intolerantes, racistas, xenófobos. Mas não é suficiente. Não temos no parlamento representação de outras etnias que, é bom que se entenda de vez, não têm se ser integradas na sociedade portuguesa, fazem parte da sociedade portuguesa.

Não se trata de dar lugar aos recém chegados. As comunidades africanas a residir em Portugal estão por cá há tempo suficiente para terem um lugar em funções de representatividade, nos órgãos de comunicação social (creio que temos, salvo erro, apenas uma pivot de origem africana e numa estação de televisão privada), na política, enfim, em todos os sectores da vida pública.

Em muitos casos, vivemos num gueto, tal como é a Cova da Moura. Será difícil ignorar ou desvalorizar os acontecimentos de discriminação e violência por parte dos 18 polícias da esquadra de Alfragide, na Amadora, acusados pelo Ministério Público de crimes diversos. Um dos polícias é acusado de cerca de 20 crimes. Os relatos são medonhos e não podemos simplesmente fingir que não sabemos, ou que o racismo não existe, que o índice de violência não é brutal.

O meu marido, nascido em Angola, não tem a cor certa para este mundo de falsos brandos costumes. Os meus filhos sofreram várias agressões verbais por causa da cor de pele do padrasto. Ainda hoje, com mais de uma década de casamento, há quem olhe, há quem comente, há quem não consiga conter um esgar. Já ouvi frases como “coitadinha, ela é tão branquinha”. O meu marido lida bem com isto. Eu, tenho os meus dias.

Aprendemos a ignorar, mas não nos surpreendemos com relatos de violência física ou verbal. Triste? Sim, mas não é apenas isso. É um retrocesso crescente ao nível civilizacional, dirão alguns. Também não é verdade. Nunca fomos um país isento de racismo, logo a ideia de retrocesso é relativa. Deveríamos denunciar mais? Sim. Mas importa perceber o medo e a ideia de inutilidade de denúncia, por existirem muitos casos em que as vítimas encolhem os ombros e dizem: "não queremos mais chatices".

Dos 18 polícias acusados - finalmente uma acusação real e adequada – podemos esperar que se faça justiça? Infelizmente, não tenho fé na justiça portuguesa, ou melhor, tenho tanto quanto nos bons e brancos costumes nacionais.

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eles não sabem, nós também não

por Patrícia Reis, em 14.07.17

Mais uma semana de exames, desta vez com a publicação das notas. Mais uma semana de ansiedades e de incertezas. para pais e filhos.

 

E saíram as notas dos exames. Os miúdos atropelavam-se para chegar às pautas, um burburinho nervoso persistia e alguns pais esperavam com ansiedade, braços cruzados, atentos. Os telemóveis memorizaram as notas. Os rostos dos finalistas do 12º, nas diferentes áreas, são uma palete confusa que abrange a totalidade do espectro emocional. Há riso, choro, aflição, mutismo, mãos a arrepelar cabelos.

Os jovens com a alegria conquistada pela visão da pauta agrupam-se naturalmente. Os menos felizes encolhem-se, o corpo em curvatura. Os rapazes contêm-se, as raparigas começam no frenesim de perceber a média, faz contas, corrige, liga à mãe que não está presente. Há duas miúdas que discutem se têm de se inscrever já para a segunda fase dos exames, ambas com 10 a História. Não sabem o que fazer. Uma delas pergunta: "Mas tu já sabes o que vais fazer? Que média precisas para entrar na faculdade?" E a resposta chega veloz: "Não sei. Não faço ideia. Talvez eu não devesse ir para a faculdade, mas a minha mãe..."

Afasto-me deste cenário com o coração apertado por todos os que ali ficaram contristados com os resultados. Sei de quem tenha pago explicações caríssimas e tenha de enfrentar a realidade: o filho traz notas negativas a ambos os exames. Sei de quem não quer pensar mais no assunto.

Vou com as boas notas do meu filho mais novo pela rua e penso que ele também não faz ideia do que será o futuro. Há uns anos, ainda criança, o mais velho sentenciou que o futuro é um país lá longe. E agora que parece mais próximo, mais assustador, não é possível ter a certeza de que estejamos a ser correctos.

 

Pressionamos os miúdos para decidirem? Escolham um curso, sff, depois logo se vê? Valerá a pena ficar a morder o lábio de nervosismo perante a decisão que diz: não quero ir para a faculdade? Ser pai não é ter um livro de receitas certas, nem garantias de eficácia como os pequenos electrodomésticos que por aí se vendem.

Ser pai é complicado. Ser filho é igualmente complicado.

Num mercado cada vez mais exigente, acreditamos que uma licenciatura é uma ferramenta básica e lutamos para que os nossos filhos adiram com empenho e alegria. Não saber o que se quer fazer é paralisante e, ao mesmo tempo, frustrante. Mas pior será pensar que estamos a depositar nos nossos jovens todas as esperanças de um mundo melhor, sabendo de antemão que o que importa verdadeiramente é encontrar algo de que se goste. A paixão importa.

Para muitos miúdos, esses que estudaram aqui por casa para os exames nacionais, o que parece ser mais urgente é "ter um emprego". Eu vou dizendo que o mais importante é fazerem algo de que gostem, algo que possa proporcionar conhecimento, mas também uma gratificação pessoal.

Levo as boas notas do meu filho para casa e sei que ele se inscreverá na faculdade sem saber nada do futuro. Eu sou mãe dele e também não tenho o direito de saber do futuro dele. Será uma presunção muito grande continuar a decidir o que quer ou não quer, o que deve e o que não deve. Ou não será?

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estes senhores não viajam separados

por Patrícia Reis, em 08.07.17

Comunicar é muito mais do que falar ou ouvir. Comunicar é tornar comum, o que implica esforço, atenção, proximidade e sobretudo interesse pelos outros. No aeroporto, há uns dias, um grupo de surdos mudos embarcava para Itália. Na algazarra típica dos aeroportos, chamadas para o voo internacional XPTO, viam-se pessoas a atropelar pessoas com trolleys desajeitados, crianças a dormir, ou a ser simplesmente crianças, este grupo de pessoas - a maioria adultos, dois casais de meia idade, dois adolescentes - manteve-se perto. E na sua Língua Gestual, formando uma roda, conversava e ria. Conversar, usando a Língua Gestual, implica também a capacidade de observar o outro. Na expressão facial, no corpo que se movimenta. Na semana passada, a propósito do concerto no Meo Arena de solidariedade para com as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, pudemos assistir, naquele quadrado no canto inferior direito, a uma tradução para Língua Gestual que assumia o ritmo, a música, o entusiasmo. E a dança do corpo e das mãos era simplesmente maravilhosa de ver. No aeroporto o que mais me comoveu foi perceber que o casal mais velho, mais de 65 anos, não precisa de muito para comunicar, como se os olhos dissessem tudo. Aquela mulher e aquele homem conhecem-se dentro de uma espécie de silêncio que obriga ao reconhecimento permanente do outro. Não se deixam de olhar por um segundo. Não precisam mais do que esboçar algum gesto. Sabem. Conhecem-se. De todos os casais que conheci ao longo da vida, nunca vi nenhum com aquele nível de intimidade. Dentro do avião, impossibilitados de ouvir os diferentes anúncios sonoros e com tripulação estrangeira (era um avião de uma abençoada companhia low cost) incapaz de os entender, o casal é separado. A senhora para a fila vinte e tal, o senhor deve ficar na fila quatro. Não é possível não ouvir estes pormenores, a hospedeira fala em inglês com sotaque italiano e fala alto. Talvez porque os senhores sejam surdos mudos, o que é ridículo. O senhor recusa sentar-se e tenta, sempre com um sorriso, explicar, aponta para a mulher, para a aliança, para o lugar ao lado. São salvos por um técnico português que fazia um controle qualquer ao avião e estava pronto para sair. O técnico vai ao fundo do corredor do avião, traz a senhora, pede licença ao senhor do lado e explica que é preciso trocar de lugar, "estes senhores não viajam separados". Pareceu-me justa está frase. O casal sentou-se por fim, fila quatro, lugares A e B. Deram as mãos.

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saber viver custa muito

por Patrícia Reis, em 01.07.17

Numa sociedade a sofrer de ansiedade, palpitante, impulsiva, temos cada vez mais dificuldade em viver bem. O que é viver bem?

 

Aprendi há algum tempo que existe uma máxima que me permite conquistar alguma tranquilidade: se tem solução é um problema; se não tem solução, pois siga, andemos para a frente. Podemos ficar a congeminar em muita coisa, construir cenários, projectar o que teríamos dito a A ou B se tivesse havido tempo, ou agilidade mental, naquele momento específico. Tudo isto é uma enorme tanga, já se sabe, o tempo não volta para trás, não conseguimos repor a verdade.

Ficamos agarrados a muitos preconceitos e somos minados de tal forma que o nosso quadro mental revolta-se e esquece o bom senso. Dentro do bom senso está a nossa capacidade de parar e reflectir. Como o avô de um amigo que dizia que antes de comprar qualquer coisa precisava de um período de reflexão. Só partia efectivamente para a comprar depois de perceber se esse objecto de desejo espontâneo fazia mesmo falta.

Parar permite também escolher. E torna-se mais fácil perceber quem são as nossas pessoas. Nem todas as pessoas fazem parte do nosso clã. Sim, convivemos, mas existem pessoas que nos pertencem, com quem temos afinidades, projectos, possibilidades de crescer, de partilhar. As outras não são da nossa equipa, vestem um equipamento distinto, fazem juízos e validações que nos são incompreensíveis. Até aqui, tudo bem. Não temos de gostar de todas as pessoas; nem todas as pessoas têm de gostar de nós.

O maior drama de tudo é quando nos deparamos com uma das características nacionais mais danosas: a inveja. Podemos utilizar o cliché e dizer que a inveja mata. Enquanto mata por dentro os invejosos(as), atinge de forma extrema o alvo da inveja. E, em vez de termos armas para combater que assentem na seriedade e intelecto, ficamos estarrecidos a ver como a inveja se propaga como um gás mortal. As redes sociais são pródigas neste capítulo. Os mass media divulgam online títulos bombásticos que, tantas vezes, não correspondem à verdade. A exposição é hoje uma constante e como não lhe vejo solução, creio que terei de seguir a tal máxima e seguir em frente, ignorar o que se diz levianamente sobre A ou B. Enquanto sigo para a frente, paro.

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É tempo de exames e enquanto dura esta ansiedade evita-se a próxima. Aos 17 anos, é legítimo ter dúvidas e não saber o que se quer fazer para o resto da vida. Aliás, o conceito do resto da vida é hoje tão móvel como tudo o resto.

 

Adolescente chegou a casa e comunicou que o exame nacional de português – para alunos do 12º ano – foi bastante mais fácil do que pensara. “Saiu Alberto Caeiro e Vergílio Ferreira”, disse, não estando particularmente entusiasmado, nem tão-pouco aliviado. Confessou que deixou por fazer duas perguntas. Não, nada de interpretação, apenas o terror da gramática cuja terminologia, confesso, também me assombra. A evolução da língua, pois e tal, mas a nova terminologia é um verdadeiro chuto na tola e, por muito que se possa dizer que a lógica ajuda a chegar lá, não tenho como. Sou de outra geração e não sei o que é um complemento oblíquo. O meu filho talvez saiba. Ou não.

Hoje é dia do exame nacional de História cuja matéria é vasta e, por isso, os livros estiveram espalhados na mesa da sala e houve adolescentes que entraram e sairam, fizeram perguntas, desesperaram.

A época de exames é sempre assim, dirão. O stress acumula-se, há uma cambada de nervos para controlar e, a seguir, a ânsia da espera pelos resultados. Lá para meados de Julho chegam as notas e depois a decisão de ir ou não à segunda época.

Tudo isto foi falado e discutido ao longo do ano escolar e o adolescente cá da casa sabe bem o que o espera. O que me incomoda verdadeiramente é ver o nível de cansaço a que chegou e como a perspectiva de ir para a universidade não parece sequer ser aliciante. Diz que está ocupado com os exames, que não pensa nisso. Eu não sei se acredito nesta versão. Posso apenas dizer que os outros adolescentes, aqueles que por aqui andam e não são meus filhos (logo falam comigo mais facilmente, é uma das leis da vida quando se vive a maternidade e a adolescência), mostram-se apreensivos e, na sua maioria, não sabem que curso escolher. Um diz-me: “Vou para onde a média for mais baixa”. Outro adiante: “O meu pai diz que Direito é que é e eu, como não sei, vou para Direito”. E outro, mais felizardo: “Eu posso ir para onde quiser, tenho uma média alta, mas ainda não decidi”.

Não saber o que se quer fazer com o resto da vida aos 17 anos parece-me perfeitamente natural, da mesma forma que advogo que frequentar um curso superior não significa obrigatoriamente seguir a via profissional que deriva do curso.

Do que entendo dos miúdos com quem vou falando, a questão mais pertinente é conseguir ter um emprego. Fazer a universidade é apenas mais uma inevitabilidade, mas o que importa é saber como irão ter emprego, que ordenado conseguirão ter, como farão a vida de adulto.

Esta é a geração que nasceu dentro da crise, a geração que nasceu com a notícia regular de atentados terroristas. Toda a pressão está em cima deles e não podem respirar um pouco e viver as férias de verão como em outros tempos.

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Quotas. Sim ou não?

por Patrícia Reis, em 16.06.17

Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco.

 

Sempre tive sentimentos contraditórios até por perceber que muitas vezes – demasiadas vezes – as mulheres estão pouco disponíveis para algumas coisas, recusam convites, ponderam muito sobre cargos públicos e as suas enormes desvantagens.

Sim, existem desvantagens claras e uma delas é o escrutínio público exacerbado (basta pensar na quantidade de processos de difamação para perceber o que quero dizer).

A uma mulher comenta-se o penteado, o vestido, o sorriso, qualquer gesto e pesam-se todas as palavras com minúcias e requintes – tantas vezes – de pura maldade.

A verdade é que a luta pela paridade continua a fazer sentido. Direitos e deveres iguais, para homens e mulheres, tal e qual como ordenados, progressão de carreira, oportunidades. Estamos longe, muito longe de um registo paritário e, compreensivelmente, mulheres e homens continuam a marchar com a bandeira do feminismo.

No parlamento discute-se a questão das quotas – outra vez. Agora a discussão é sobre a imposição de quotas às empresas públicas e às empresas cotadas em bolsa de valores. Os conselhos de administração devem ter mulheres? Pois. Parece uma evidência, mas são pouquíssimas as mulheres em lugares de topo, pode-se imaginar que ao nível dos conselhos de administração a tendência masculina seja a mais poderosa.

A votação desta proposta será feita na próxima semana e, como sempre, temos quem seja contra (o Partido Comunista Português é uma fonte maravilhosa de surpresas, ou melhor, de não-surpresas). Desta vez o CDS, que tem uma maioria feminina no Parlamento, alinha com o resto. Se a dita lei for aprovada teremos uma questão pertinente que é semelhante à de alguns gestores culturais quando precisam de ter paridade nos programas que desenham: como cumprir com a quota, a noção de paridade, se as mulheres se recusam a assumir certas tarefas?

Diz-se que desde 2006 os partidos políticos sofrem com esse pesadelo constituído lei que é a paridade nas listas eleitorais. No caso das empresas, onde as mulheres a partir de 2018 deverão constituir cerca de 33 por cento das administrações e órgãos de fiscalização, há multa para quem não cumprir.

E aqui é que eu torço o nariz. Eu não quero ver uma mulher incompetente num conselho de administração de uma empresa pública só para cumprir a quota, para não pagar multa. Eu quero ver mulheres competentes reconhecidas por mérito próprio. Nesse aspecto, o quadro mental potencialmente misógino mudou muito em 40 anos de democracia, mas não mudou tanto assim.

Acresce que às mulheres falta um sentido de corporativismo e raramente se defendem umas às outras. Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco. Mas fica bem dizer que somos paritários, defensores da igualdade de género. É mais bonito e nem divide a esquerda e a direita (excepção feita ao Partido Comunista Português, claro).

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Defendo os professores sempre que posso, pasmo perante a notícia que diz que a Fenprof e a Federação Nacional da Educação planeiam uma greve para o dia 21 de Junho, dia de exame nacional para muitos alunos.

 

Posso simpatizar com a causa – progressão na carreira, melhores condições – mas não tenho como não considerar esta atitude como um acto de bullying aos alunos. Os anos de exame nacional são difíceis para qualquer estudante. São jovens, preocupam-se, entram em pânico, são pressionados pelos pais e constantemente recordados do exame e da proximidade do mesmo pelos professores. O stress é muito. Gasta-se dinheiro em explicações (quem pode), faz-se pesquisa na internet e descarregam-se textos de exames de anos anteriores. Muitos adolescentes perdem noites, têm pesadelos, distúrbios alimentares, roem as unhas, e por aí fora.

A par disto, os jovens que estão no 10º ano ou a terminar, no 12º, têm ainda uma pressão adicional. É que o mercado de trabalho está mau, as notícias sobre a crise fazem parte da banda sonora das suas curtas vidas deste sempre e há um discurso pessimista que é, parece, inevitável. Depois temos ainda aquela máxima que advoga que é importante ir para a faculdade. Há sempre uma alma que lá debita o cliché destes tempos: sem uma licenciatura não vais a lado algum. E o melhor, acrescenta a mesma alma, é fazeres já mestrado e, mesmo assim, nada está garantido.

Ora, a vivência de tudo isto nos nove meses em que dura o ano lectivo é, no mínimo, motivo de stress, de angústia e de grande dúvida. Muitos são os alunos que não sabem verdadeiramente o que fazer a seguir. Ah, existem os psicotécnicos, dirão. Sobre isso muito haveria a dizer, mas agora não vamos por aí.

Para perturbar mais ainda os alunos que estão no primeiro ano do secundário ou que são pré-universitários, a Fenprof e a Federação Nacional da Educação anunciam que os exames podem ter de ser adiados, os professores vão fazer greve (ou ameaçam apenas para fazer paragonas nos jornais?).

Com todo o respeito pelos professores, a pergunta é: não podiam pensar no que isto causa aos miúdos que estão a preparar-se para ir a exame? Ou não lhes ocorreu? O argumento que esta data chama mais a atenção para os problemas dos professores é, no mínimo, triste. E, se é forma de chantagem perante o Ministério da Educação, diria que não é motivo para prejudicar centenas e centenas de alunos que hoje se perguntam como é que isto vai ficar. Até dia 21 de Junho muita água correrá debaixo da ponte, já se sabe. Para os miúdos será apenas uma greve de nervos.

P.S: Acabo de ler que o governo tem como garantir os serviços mínimos de forma a não prejudicar os exames nacionais de dia 21 de Junho. Vou ali explicar isso a três adolescentes em stress, a ver se ficam melhor.

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Feminista e Cavalheiro

por Patrícia Reis, em 02.06.17

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres.

 

A mãe explicava ao filho adolescente que para ser feminista não é preciso ser mulher. O miúdo, 15 ou 16 anos, algumas borbulhas, o mesmo corte de cabelo padronizado desta época, calças de ganga do sítio do costume e ténis de uma das três marcas mais afamadas, olhava para a mãe com aquele ar que só os filhos têm e que podemos traduzir assim: eu-até-te-dizia-que-estás-maluca-mas-vou-só-revirar-os-olhos-para-não-te-ouvir.

Tudo isto se passava num café, cinco e meia da tarde, o jovem com a mochila, a mãe com um ar de quem já subiu aos Himalaias três vezes. E a mãe disse: “Portanto, se queres que haja igualdade entre homens e mulheres tens de te esforçar por isso e, se acreditas que essa é a melhor situação, pois é feminista.” Bom, o miúdo lá revirou os olhos, mirou os ténis, espreitou o smartphone, suspirou, considerou várias coisas que não suspeito e manteve-se calado.

A mãe insistiu como só as mães insistem, é um mecanismo já instituído: as coisas importantes repetem-se para ver se entram na cabeças dos infantes. O miúdo anuiu e, por fim, disse: “Ok, e se eu for feminista, dás-me a semanada mais cedo?” Por breves instantes consegui imaginar com exactidão as várias formas de tortura que a mãe terá congeminado, mas tudo se reduziu a um encolher de ombros e, lançando a mão à mala tirou a carteira e deu-lhe dez euros.

O miúdo sorriu e percebeu que estava na altura de se retirarem, a mãe já de costas em direcção à porta. Apressou o passo, ultrapassou a mãe pela esquerda, estendeu o braço e, gentil, abriu a porta pesada de vidro para a mãe passar. E o miúdo exclamou sorridente: “Claro que eu sou um feminista e um tipo como deve ser.” A mãe riu-se e eu sorri.

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres. Como se sabe, de pequenino se torce o pepino e, neste caso como em outros casos, importa que os valores inerentes ao feminismo sejam aprendidos em casa. Dirão que muitas famílias não cumprem os requisitos e estarão certíssimos. Mais uma razão para que outras famílias possam promover o feminismo como algo que – infelizmente – ainda faz sentido e precisa de adeptos no século XXI.

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Temos medo

por Patrícia Reis, em 23.05.17

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

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Não se pode ter tudo

por Patrícia Reis, em 20.05.17

O tempo não estica. O tempo parece cada vez mais curto. O tempo é o mesmo mas gastamos cada vez mais em frente a um ecrã. Precisamos de sair da internet. Para ter vida e nessa vida ter também tempo para ler.

 

“O mercado está um desastre e é o mercado mundial”, quem o diz é um agente literário norte-americano. Portanto, o drama não é nacional. Ok. Não se consegue tirar qualquer consolo desta realidade.

“Não sei onde vamos parar”, suspirou-me uma editora da nossa praça. O que se passa? Os livros não vendem. Nenhum autor que tenha recebido direitos de autor este ano conseguirá sorrir.

Há excepções? Sim, é verdade, já se sabe que sim. Mas as excepções são isso mesmo, excepções. Capas com letras a dourado e indicação de best-seller do jornal estrangeiro A ou B já não surtem o mesmo efeito. É difícil vender livros, é difícil pensar carinhosamente na ideia de que um dia, quem sabe?, conseguiremos viver desse ofício solitário que é a escrita.

O mundo de hoje faz-se em frente ao ecrã, do smartphone, do computador ou tablet, e pouco mais importa. As redes sociais roubaram-nos o tempo para fazer muitas coisas, entre eles ter capacidade para sair para a rua e entrar numa livraria. Roubaram-nos concentração e os miúdos de hoje estudam com televisão, computador, consola, telemóvel. É a realidade deles. Talvez por isso alguns torçam o nariz quando têm de ler Camões ou, esforço suplementar!, Agustina Bessa-Luís.

Sem livros não há pensamento e sem pensamento não há civilização. Parece uma lapalissada banalzinha sem qualquer importância, mas não é. Não podemos achar normal que para entender "Os Maias" os miúdos do secundário se auxiliem somente de um livro de resumo da obra. Não podemos estar permanentemente ligados nas redes como se não existisse mais nada.

Neste país de escritores e poetas – e de enorme qualidade – vivemos um momento terrível: há mais escritores do que leitores. Pela parte que me toca, vou sair da internet e comprar um livro. Pergunte-se: há quanto tempo não faço o mesmo? Pois.

Até podia dizer que a feira do livro de Lisboa inaugura no dia 1 de Junho, contudo sei que é indiferente. No ano passado, em plena feira, uma criança pedia um livro, a choramingar, e o pai respondeu: “Nós viemos comer gelados. Não se pode ter tudo.” É isto. Não se pode ter tudo.

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o que o desemprego mata em nós

por Patrícia Reis, em 15.05.17
Se a vida te dá limões, faz limonada. Pode parecer uma banalidade, mas serviu para dizer a uma amiga que tinha de andar para a frente. Acrescentei que o açúcar é o amor que tem à sua volta. Porque tem amor na sua vida e tomou sempre decisões em prol da família.
 

A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.

A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.

Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.

A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.

Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.

O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

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Crónicas

por Patrícia Reis, em 25.04.17

Olhar para Portugal e manter esse tesouro “inicial inteiro e limpo” por ser urgente ainda agora a Liberdade, uma outra forma de Liberdade ou várias liberdades. Como se a luta pelo melhor fosse infinita e, por isso, o que foi ontem ainda é hoje e podemos construir sempre mais e melhor.

Foi ontem a madrugada pela qual tantos esperaram. Foi ontem que as conversas em sussurro vieram para a rua em clamor, sem receios ou olhares de soslaio.

Foi ontem que capitães juntaram os homens para mudar o estado das coisas.

Foi ontem que Paulo de Carvalho cantou E Depois do Adeus de José Niza e José Calvário.

Foi ontem que as mulheres passaram a conseguir sair do país sem precisar de autorização do pai ou do marido.

Foi ontem que o poema de Sophia tatuou para sempre o que todos sentiam.

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio 

E livres habitamos a substância do tempo (*)

 

Foi ontem que a senhora dos cravos nos deu esse símbolo, mesmo que a história tenha várias versões.

Foi ontem que os estabelecimentos prisionais se abriram para deixar livre quem nunca deveria ter sido preso.

Foi ontem que se cantou Liberdade com a convicção de que o futuro seria melhor, seria nosso.

Foi ontem e foi agora mesmo, porque importa recordar o 25 de Abril, o que nos uniu, a razão para a luta.

*Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

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O mundo é um lugar perigoso, já se sabe. Todos os dias temos notícias sobre como o Mal nos assola. O que se passa na Tchetchénia é, no limite, um atentado a todos os valores humanistas que aprendemos a conhecer e, ao mesmo tempo, exemplar de como não evoluímos como espécie.

 
 

Somos capazes do pior, sobretudo quando cultivamos a ignorância, quando acreditamos que a nossa forma de estar e a nossa opinião prevalece e deve prevalecer. Existem campos de concentração para homossexuais na Tchetchénia. Quando escrevo campos de concentração agradeço que se entenda na dimensão terrível que atribuímos ao Holocausto. Não é melhor.

É triste e desumano que a sexualidade seja discriminada, seja questionada e, quando fora de um padrão que alguém definiu como certo (só esta ideia é já um chuto na tola), passível de levar à tortura.

O senhor Putin é homofóbico? Não tenho a menor dúvida e, para não ficar sozinho, foi buscar o senhor Ramzan Kadyrov para manter a Tchechénia na ordem. Trata-se de mais um regime e, como em todos os regimes, o tal padrão normalizador é, no limite, espelho de quem governa.

Sunita, muçulmano, ex-separatista, dono de um exército privado, o senhor Kadyrov faz o que quer e como quer há já uns anos. O poder é seu desde 2007. A perseguição a homossexuais não é de hoje, mas agora chegam testemunhos e relatos perturbadores que indicam que a homofobia chegou a um extremo. Se é gay, é para abater, ou torturar até que denuncie quem é igualmente gay.

Sim, em pleno século XXI, com tudo o que deveríamos saber, há um lugar no planeta Terra em que os homossexuais têm de ter medo, têm de se casar e ter filhos para esconder a sua verdadeira sexualidade. Um sítio onde as famílias são instigadas a denunciar quem possa ser gay ou – muito melhor – tratar do assunto, que é como quem diz, executar filhos, primos, tios, sobrinhos ou outros que possam ser homossexuais ou suspeitos de tal.

A Amnistia Internacional criou uma petição, o mesmo fez a organização Avaaz. Lemos nos jornais – no The Guardian têm-se escrito vários artigos sobre esse terror – e comentamos nas redes sociais. Não chega. Contra o Mal não chega.

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