Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Isto está perigoso.

por Luís Menezes Leitão, em 29.08.17

A notícia de que a Coreia do Norte acaba de lançar um míssil (felizmente não armado) sobre o Japão é a confirmação do agravamento da tensão internacional na região, motivado pela estupidez de Trump. Qualquer pessoa inteligente percebe que o que não tem remédio remediado está e a Coreia do Norte há muito que constitui um Estado pária, completamente à margem do actual sistema internacional, que por isso pode ser ignorado, mas que é um autêntico suicídio tentar combater.

 

Contra a Coreia do Norte não servem condenações internacionais, e muito menos por resolução das Nações Unidas. A Coreia do Norte é o único país do mundo que travou com sucesso uma guerra contra as Nações Unidas, da qual não saiu derrotada. Por isso pode dar-se ao luxo de ignorar tudo o que na ONU se diga, limitando-se a qualificar as sua resoluções como uma nova declaração de guerra. E por isso as ameaças dos EUA são absolutamente irrelevantes para Pyongyang, de nada servindo os disparates que Trump tem vindo a dizer. Ou melhor, podem servir para lançar um mar de chamas sobre Seul, Tóquio e até Guam.

 

Steve Bannon, o estratega principal da eleição de Trump viu isso muito bem quando afirmou o seguinte: "Até que alguém resolva a parte da equação que mostra que 10 milhões de pessoas morrerão em Seul nos primeiros 30 minutos pelo uso de armas convencionais, eu não sei do que estão a falar, não há solução militar aqui. Eles apanharam-nos". Logo a seguir a estas declarações Trump demitiu Steve Bannon. Mais uma vez se demonstra, como no Frankenstein, que é muito fácil a criatura rebelar-se contra o criador. O pior é que isso pode provocar uma catástrofes de dimensões imprevistas. O mundo já tem um louco na Coreia da Norte. Só lhe faltava um monstro de Frankenstein na Casa Branca.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Trump está perigoso.

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.17

Os presidentes norte-americanos têm o condão de supreender qualquer observador, funcionando completamente ao contrário do que tinham anunciado. É assim que Donald Trump, depois de imensa controvérsia por as suas medidas inconstitucionais contra os imigrantes islâmicos terem sido barradas nos tribunais, decidiu agora intervir na guerra civil síria. Foi uma acção sem mais consequências do que uns mísseis despejados no terreno, mas que lhe garante o aplauso da comunidade internacional perante o total apagamento da ONU. A propósito, o que é que anda lá a fazer o nosso Guterres? A Rússia fica furiosa, o Irão protesta, mas o ataque não vai trazer consequências de maior na esfera internacional. Trump pode por isso proclamar que está a tornar a América "great again" e tranquilamente gozar os aplausos gerais pela sua iniciativa, que lhe permite consolar o seu ego magoado por um dos inícios presidenciais mais desastrados da história recente. 

 

O problema é que Trump tem um perfil psicológico narcísico e os aplausos que hoje lhe dão por uma iniciativa bem sucedida estimulam-no a passar rapidamente a outra. Mas o que ele agora considera estar à mão é muito mais perigoso do que ele alguma vez pode imaginar: a Coreia do Norte. À primeira vista pode parecer um resquício da guerra fria, que os Estados Unidos facilmente dominarão, mas a verdade é que nem nos seus maiores tempos de grandeza a América conseguiu vencer a Coreia do Norte. O seu mais brilhante génio militar McArthur, depois de encurralado no sul da península, conseguiu tomar Pyongyang em virtude do sucesso mililtar do seu desambarque em Incheon, mas percebeu perfeitamente que teria que recuar após a entrada da China no conflito. Ainda chegou a propor a Truman um ataque nuclear à China, mas a perspectiva de generalização da guerra nuclear, com a ameaça de uma resposta russa, levou o presidente a demitir o seu general, tendo depois as partes acordado em voltar a fixar a fronteira no paralelo 38.

 

Hoje a Coreia do Norte é um estado nuclear, que não reconhece qualquer poder na esfera internacional, uma vez que até se gaba de ter vencido uma guerra contra as Nações Unidas. Não é por isso nada provável que um ataque convencional à Coreia do Norte não desencadeie uma resposta nuclear imediata que, se não atinge por enquanto os EUA, facilmente atinge a Coreia do Sul ou o Japão. Trump pode estar a querer testar tantos anos depois a velha doutrina de Kissinger da guerra nuclear limitada, que lhe granjeou o epíteto de Dr. Strangelove. Mas é muito pouco provável que a China alguma vez pactue com semelhante estratégia, ainda mais depois das polémicas declarações de Trump sobre a Formosa. Seguramente que Trump não sabe onde se está a meter.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Até quando a passividade das potências mundiais?

por Alexandre Guerra, em 06.03.17

imrs.jpg

Notícia do lançamento dos mísseis norte-coreanos numa televisão da estação central de comboios de Seul/Foto:Lee Jin-man

 

A Coreia do Norte lançou/testou esta Segunda-feira mais quatro mísseis balísticos de médio alcance, que acabaram por cair no Mar do Japão. É um cenário que se tem repetido vezes de mais e tem toda a razão o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, ao classificar aquela acção como "extremamente perigosa". Três daqueles mísseis despenharam-se na Zona Económica Exclusiva nipónica, ou seja, numa área até ao máximo de 200 milhas náuticas da sua linha de costa. Inicialmente, as primeiras notícias falavam em mísseis de curto alcance que, podem ir até aos 500 quilómetros, mas mais tarde percebeu-se que se tratava de projécteis que alcançaram, pelo menos, os 1000 quilómetros de distância. E é por causa disto que os alarmes em Tóquio e em Seul estão a soar, porque o regime norte-coreano tem vindo a fazer testes consecutivos, sendo notórios os progressos que têm sido alcançados por Pyongyang. O regime norte-coreano não esconde o objectivo de vir a desenvolver um míssil balístico intercontinental (ICBM), cujo alcance vai para além dos 5500 quilómetros, ou seja, capaz de atingir território dos Estados Unidos. É certo que o desenvolvimento da tecnologia de mísseis, por si só, constitui uma ameaça diminuta, mas o problema é que, paralelamente, Pyongyang tem continuado a envidar esforços no seu programa nuclear, suspeitando-se que já possa ter conseguido, com sucesso, construir ogivas suficientemente pequenas para serem transportadas numa cabeça de míssil. E é nesta conjugação terrível que surge a ameaça à paz internacional. 

 

Entre 2006 e 2016, a Coreia do Norte efectuou cinco testes nucleares e, de acordo com o que se vai sabendo, o poder destrutivo dos engenhos tem vindo a aumentar. As ondas de choque detectadas pelos sismógrafos japoneses no último teste subterrâneo norte-coreano de Setembro do ano passado, revelaram uma explosão com a potência de 10 a 30 quilotoneladas. Dada a escassez de informação relativa ao programa nuclear da Coreia do Norte, os especialistas não conseguem ter a certeza quanto ao tipo de bomba de que se está a falar. Se é de hidrogénio, as chamadas bombas termonucleares, as mais potentes, que assentam num processo de fusão de isótopos de hidrogénio (na verdade é um duplo processo, já que tem uma fissão inicial), ou se é uma bomba atómica (fissão). Apesar do regime de Pyongyang ter anunciado que os dois testes realizados em 2016 foram de bombas de hidrogénio, os especialistas duvidam deste alegação, uma vez que não tiveram suficiente potência para se enquadrarem nessa categoria.

 

Apesar destes sinais de preocupação, o grau de desenvolvimento da tecnologia nuclear e dos respectivos vectores de lançamento ainda não atingiu aquele patamar dramático, em que a Humanidade se vê perante a iminência de ter um regime esquizofrénico na posse de um engenho capaz de aniquilar milhões de pessoas. No entanto, se a Coreia do Norte continuar a ter esta "liberdade" para manter em curso o seu programa de armas de destruição maciça (como parece que está a ter, apesar de todas as restrições), é apenas uma questão de "quando" (e não "se") terá um míssil balístico nuclear pronto a ser disparado, capaz de atingir países vizinhos inimigos, como a Coreia do Sul e o Japão ou até mesmo os EUA.  

 

Estranhamente, a comunidade internacional parece estar bastante permissiva perante esta ameaça, dando muito mais atenção a outros assuntos (importantes, é certo), mas que não têm a gravidade do que se está a passar na Coreia do Norte. Admito que o perigo não esteja ao virar da esquina, mas é muito provável que, se nada for feito, poderemos chegar ao dia em que terão que ser tomadas medidas dramáticas para evitar um mal maior. A História recente tem alguns episódios de acções "preemptivas" e "preventivas", nomeadamente executadas por Israel, que levaram à destruição de complexos militares de desenvolvimento de armas de destruição maciça. Em 1981, o primeiro-ministro hebraico Menachem Begin deu ordem para que oito caças F-16 destruíssem o reactor nuclear de Osirak, no Iraque, que Israel acreditava produzir plutónio para ogivas. Secretamente e contra a vontade de Washington, Begin não hesitou. Estava lançada a “doutrina Begin”, que assenta no seguinte princípio: “The best defense is forceful preemption." Para Begin, nenhum adversário de Israel deveria adquirir armas nucleares. Em 2007, seria a vez de Ehud Olmert pôr em prática a “doutrina Begin”, desta vez contra a Síria. Anos mais tarde, a New Yorker explicava como Israel tinha bombardeado secretamente o suposto reactor nuclear de Al Kibar sem que ninguém desse por isso e o assumisse posteriormente.

 

Estes exemplos devem ser tidos em conta quando se analisa a ameaça do programa nuclear norte-coreano, porque, por mais violentos que tenham sido os regimes de Saddam e de Hafez al-Assad, nunca chegaram ao grau de loucura e de insanidade das lideranças de Pyongyang. Bem sabemos que qualquer acção militar contra a Coreia do Norte contaria, quase de certeza, com a oposição da China, no entanto, não deixa de ser preocupante a atitude contemplativa que as principais potências têm tido em relação à forma como Pyongyang tem desenvolvido o seu programa de armas de destruição maciça. Por muito menos, mas muito menos mesmo, os EUA invadiram o Iraque em 2003.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma brincadeira cada vez mais séria

por Alexandre Guerra, em 09.09.16

O mundo ocidental acordou hoje com a notícia de que a Coreia do Norte fez mais um teste nuclear, com os registos de actividade sísmica a indicarem poder tratar-se de um engenho de 20 a 30 quilotoneladas de potência, ou seja, superior à bomba que os EUA lançaram sobre Hiroshima. Mas o problema já nem é só este, o da bomba em si, é o facto do regime de Pyongyang ter aparentemente conseguido desenvolver os vectores de lançamento para transportar essas ogivas, nomeadamente, os mísseis balísticos de médio alcance. E é sobretudo esta questão que torna a ameaça norte-coreana cada vez mais perigosa e imprevisível. A julgar pelas informações que vão chegado, neste momento parecem começar a estar reunidas condições para que um qualquer lunático em Pyongyang carregue no botão e lá dispare um míssil com ogivas nucleares com capacidade para atingir a Coreia do Sul, o Japão e até mesmo território americano no Pacífico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Brincadeiras" que um dia podem correr muito mal

por Alexandre Guerra, em 23.06.16

20160623001277_0.jpg

Lançamento na Quarta-feira de um dos dois mísseis de médio alcance Musudan com a presença de Kim Jong-un/Yonhap 

 

Nos últimos anos vai-se tendo cada vez mais a impressão de que, a acontecer qualquer drama militar de dimensões cataclísmicas, começará numa "brincadeira" para os lados da Ásia oriental. Se é na Península da Coreia (que, "by the way", continua formalmente em estado de guerra), no Mar do Japão ou no Mar Oriental ou Sul da China, ainda está para se ver (esperemos que não). Além dos interesses territoriais inconciliáveis entre várias nações que se jogam naquelas paragens, esta região é, no actual contexto geopolítico e geoestratégico, uma espécie de ponto de confluência de várias "placas tectónicas". Porque, além dos actores regionais directamente envolvidos nas disputas territoriais, tais como a China, o Japão, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul, a Rússia, o Vietname, as Filipinas, entre outros, o jogo de alianças e de interesses acaba por envolver também os EUA, sobretudo pela sua ligação aos aliados nipónicos e a Taiwan.

 

Qualquer acidente ou incidente que por ali aconteça (e têm acontecido alguns) pode acender o rastilho para algo de dimensões problemáticas. Da disputa das Ilhas Curilhas, entre o Japão e a Rússia, à das Ilhas Spratly, entre Pequim e várias nações, tais como as Filipinas ou o Vietname, passando pelas "escaldantes" Ilhas Senkaku (ou Diayou para os chineses), sob administração japonesa mas reclamadas por Pequim, os factores de ignição são muitos. São recorrentes os episódios militares hostis, sobretudo por parte de Pequim, com Washington, por exemplo, à distância, a ir dizendo que não permitirá qualquer ameaça à integridade territorial do Japão. Isto já para não falar do "dossier" Taiwan. Mas é principalmente de Pyongyong que vem a maior ameaça sistémica. A Coreia do Norte não abdica da sua retórica bélica e provocadora e tem dado claros sinais de que a acompanha com uma escalada militar. Ainda ontem testou mais dois mísseis balísticos de médio alcance, conhecidos no Ocidente como Musudan, tendo o primeiro falhado, mas o segundo alcançado os objectivos. E trata-se de informação já confirmada pela Coreia do Sul e EUA.

 

Se ainda estou recordado das aulas de Problemática e Controlo de Armamentos, um míssil balístico de médio alcance (MRBM/IRBM) poderá ter um raio de acção entre os 500 quilómetros e os 5000. A partir daí estamos a falar de mísses Intercontinentais (ICBM). Este míssil norte-coreano terá voado 400 quilómetros, o que, segundo os especialistas, representa uma melhoria em relação ao teste anterior. Há poucas dúvidas de que se o regime de Pyongyang continuar a testar os seus mísseis, irá conseguir desenvolver na sua plenitude de forma eficaz estes vectores de lançamento de eventuais ogivas nucleares. E, por isso, o líder norte-coreando, Kim Jong-un já veio dizer que o seu país está em condições de atacar interesses dos Estados Unidos na ilha de Guam, no Pacífico. Se é certo que muitas das vezes a retórica proveniente dos líderes daquele regime é mera propaganda, desta vez, e a julgar por algumas reacções, as palavras de Kim Jong-un estão a ser levadas mais a sério.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coreia do Norte atrasa relógios 30 minutos para recuperar a hora que o país tinha em 1912.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todos os 7 computadores existentes no país ficaram durante horas sem acesso à internet.

Autoria e outros dados (tags, etc)

house.png

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

o mundial

por Patrícia Reis, em 13.07.14

Não entendo nada de futebol, mas parece que a Coreia do Norte anuncia que a final será com Portugal!!!! Coreia do Norte versus Portugal. Isto é que é informação - ou manipulação - com altos pergaminhos!

Autoria e outros dados (tags, etc)

A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 27.04.14

 

Os antigos romanos, com a sua infinita sabedoria, diziam: "Si vis pacem para bellum". Ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Infelizmente, no entanto, o actual Ocidente perdeu totalmente essa perspectiva e arrisca-se a deixar desencadear uma guerra mundial, por total incapacidade de previsão e antecipação das consequências das decisões estratégicas que tomou.

 

Barack Obama, talvez confortado por a Academia de Estocolmo lhe ter dado o Nobel da Paz mal se sentou no cargo, apostou totalmente no isolacionismo americano, abandonando a postura intervencionista que desde Reagan sem excepção os Presidentes Norte-Americanos vinham seguindo. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de que a América deixou de ser temida no mundo, sem deixar de ser odiada. Hoje, qualquer milícia pró-Rússia na Ucrânia acha que pode livremente tomar reféns, da mesma forma que os estudantes iranianos tomaram a Embaixada Norte-Americana em Teerão durante a presidência de Carter, que se mostrou incapaz de fazer fosse o que fosse. E como se isso não bastasse, o inenarrável Presidente da Coreia do Norte insulta o Presidente Norte-Americano, ao mesmo tempo que prepara mais testes nucleares, sabendo-se bem com que fim.

 

Quanto à União Europeia, que tem mostrado durante a crise financeira que tem muito pouco de união e ainda menos de europeia, limita-se a satisfazer os desejos de hegemonia de Berlim. Precisamente por isso mergulhou de cabeça na crise ucraniana apoiando precipitadamente um governo de extremistas formado na Praça Maidan, o que teve como contraponto a revolta das populações russas do país. Depois de a Rússia já ter anexado o que lhe interessava, ou seja a Crimeia, sem precisar de disparar um tiro, assiste-se a uma verdadeira guerra civil, em que de um lado estão os "terroristas" e do outro os "nazis", enquanto os desgraçados dos observadores da OSCE são mandados para uma zona de guerra observar não se sabe o quê, sendo logo feitos reféns e qualificados como prisioneiros de guerra, sem que ninguém tome qualquer medida de retaliação.

 

Enquanto na Ucrânia e na Coreia do Norte os sinais de guerra são cada vez mais ameaçadores, a resposta do Ocidente continua a ser ridícula. As agências de rating consideram a dívida da Rússia como lixo financeiro, julgando que em caso de guerra os investidores continuarão a comprar dívida como se nada se passasse e a seguir os prestimosos conselhos destas agências. O Governo interino da Ucrânia acusa a Rússia de querer a terceira guerra mundial. E Obama acusa a Rússia de não levantar um dedo para resolver a crise ucraniana. Quanto à Europa, amarrada pelo colete de forças do euro, não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia. Continuem com os cortes orçamentais, deixem os países europeus sem defesa, e vão ver aonde vamos parar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Norte-coreanos obrigados a ter penteado igual ao líder.

 

(foto roubada ao Provas de Contacto)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Boicotes? Distúrbios? Escasso interesse nos actos eleitorais? Pouco entusiasmo? Fraca participação? Talvez seja verdade no decrépito Ocidente. Mas nada disso ocorre na Coreia do Norte. Veja-se o que se está a passar nas eleições parlamentares que decorrem neste Domingo. De acordo com fontes fidedignas, os eleitores votaram cantando e dançando. E com total transparência, posto que não há cabinas individuais de voto. A meio do dia, já tinham votado 91% dos norte-coreanos. Nada que espante muito tendo em conta os dados de participação nas anteriores eleições: 99,98%. Nem mais, nem menos. E este ano a coisa promete correr tão bem ou melhor. Note-se que este entusiasmo não surge do nada. Durante várias semanas, os órgãos de comunicação estimulam a participação com poemas de forte carga motivadora e com títulos tão sugestivos como “Torrentes de Emoção e Felicidade”. Perante isto, não admira que os eleitores corram a desaguar nas mesas de voto. A nossa Comissão Nacional de Eleições tem aqui amplo campo de aprendizagem. Por outro lado, tudo está feito para facilitar a vida aos eleitores. Sabe-se como o excesso de escolha pode ser perturbador. Por isso, os norte-coreanos são muito beneficiados com um sistema simplificado em que podem votar num único candidato. Significa isto que não podem manifestar descontentamento com o candidato único apresentado? Antes de mais, é preciso esclarecer que isso é muito pouco frequente pois a escolha é muito criteriosa. Mas se por mero absurdo houver um candidato menos adequado, há obviamente solução. Aliás, se tivermos em conta o que se escreve no Economist, poderíamos descrever o curioso sistema norte-coreano com a expressiva frase “uma pessoa, um voto, três tipos de urna e um funeral”. De facto, os que votam no candidato proposto pelo regime têm direito a colocar o seu voto numa urna própria. Os pouquíssimos que não apoiam esse candidato, votam numa segunda urna. E os que o fazem ganham de imediato direito a ingressar numa terceira urna. E a um funeral. Percebe-se assim o entusiasmo com que as delegações da Coreia do Norte são sempre recebidas na Festa do Avante. Percebe-se menos, atendendo à profícua troca de experiências que certamente ocorre na Atalaia, que Bernardino Soares tivesse dúvidas sobre a natureza democrática do regime norte-coreano. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O golpe mau e o golpe bom

por Pedro Correia, em 28.02.14

O PCP, em sintonia com a Rússia de Putin, condena firmemente aquilo a que chama "autêntico golpe de Estado" na Ucrânia. Mas houve um tempo em que os comunistas portugueses apoiavam golpes de Estado. O de 19 de Agosto de 1991, por exemplo -- tentativa desesperada da velha guarda soviética de travar o passo às reformas de Mikhail Gorbatchov, resistindo a todo o preço ao desmoronamento da ditadura. Três dias depois, a golpada malogrou-se. E a obsoleta União Soviética recebeu aí o seu dobre a finados.

"Quando um dos meus colegas da rádio me comunicou que o Partido Comunista Português tinha anunciado o seu apoio ao golpe, não senti espanto, mas alívio, porque eu já não fazia parte dessa organização. Caso contrário, talvez tivesse morrido de vergonha ao confirmar que a miopia política dos dirigentes comunistas portugueses era bem maior do que eu imaginava. Depois caiu a noite trágica de 19 para 20 de Agosto, quando os tanques esmagaram mortalmente três jovens que lhes tentaram cortar o caminho para a Casa Branca, lugar onde se encontrava Boris Ieltsin", lembrou José Milhazes no seu blogue, Da Rússia.

Vinte anos depois, o PCP ainda chorava a "desagregação da URSS", confirmando nada ter aprendido. Nem com os próprios erros nem com as lições da História. Não admira por isso que os comunistas portugueses sejam os últimos defensores do indefensável: a Coreia do Norte, governada há sete décadas com punho de ferro pela dinastia Kim, monarquia vermelha que continua a merecer um indecoroso aplauso do "partido irmão".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Proteger a população

por João André, em 18.02.14

Apesar de todos os choques do documento da ONU sobre a Coreia do Norte, a questão chave é mesmo "E agora?". Não é fácil responder. Avanço hipóteses partindo do princípio (improvável) que não seriam vetadas no Conselho de Segurança.

 

1. Guerra aberta: mesmo com autorização da China, esta guerra traria certamente consequências trágicas. Não só para os soldados dos dois lados mas também para as populações das Coreias. A Coreia do Sul sofreria retaliações (mesmo que não nucleares) enquanto que a Coreia do norte não só sofreria com a guerra como veria a sua população a ser usada como carne para canhão. O resultado seria, se é possível concebê-lo, provavelmente pior que a situação actual.

 

2. Diplomacia: talvez um dia venha a dar resultados, mas até lá muita gente sofrerá e morrerá. Além disso a diplomacia só tem resultados quando apoiada pela força e determinação em a usar.

 

3. Sanções ao país (ou às suas figuras): as sanções directas ao país não me parecem funcionar. As figuras espremem mais a população e continuam felizes. As sanções às suas figuras poderão dar alguns resultados, mas num regime tão fechado como o norte-coreano parecem-me ser essencialmente inconvenientes para as ditas figuras.

 

4. Imunidade: esta hipótese seria semelhante à da diplomacia, mas terminaria com a saída dos responsáveis políticos do regime e o seu exílio dourado algures no mundo. Seria no mínimo desagradável, mas talvez fosse a que poupasse mais a população.

 

Quando se discutem as ditaduras, seja a Coreia do Norte, Cuba, o Irão ou a Arábia Saudita, aquilo que normalmente se questiona é como punir os responsáveis. A grande questão deveria ser sempre a mesma: como poupar/salvar a população. O objectivo de intervenções não deveria nunca ser a de punir, de levar os responsáveis ao TPI. Esse deveria ser sempre um objectivo secundário. O primeiro objectivo deveria ser sempre o de poupar a população inocente.

 

Não tenho, no entanto, quaisquer ilusões. A China e a Rússia nunca permitiriam uma intervenção militar. Os EUA não teriam qualquer interesse em se empenharem a esse nível. As sanções e a diplomacia serão inúteis. A população norte-coreana continuará a sofrer, quer o seu ditadorzinho tenha natas ou não.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bons investimentos na Coreia do Norte

por Rui Rocha, em 10.04.13

"Coins and stamps are the only way I can invest in North Korea. At some point down the line, North Korea will cease existing as a country. Then the value of the coins will go up."

Autoria e outros dados (tags, etc)

O sarilho da Coreia do Norte.

por Luís Menezes Leitão, em 11.03.13

 

Multiplicam-se cada vez mais os sinais de que pode estar iminente um ataque nuclear da Coreia do Norte aos seus vizinhos do Sul. A Coreia do Norte, de quem o deputado Bernardino Soares uma vez disse que tinha dúvidas que não fosse uma democracia, é um país que consegue escapar a toda a lógica nas relações internacionais. Em primeiro lugar, a guerra da Coreia foi a única vez em que as Nações Unidas — em virtude da ausência do delegado soviético — conseguiram determinar o envio de forças próprias para combater na península, já que em ocasiões posteriores limitaram-se a autorizar o uso da força por Estados Membros. Paradoxalmente tal levou a que as Nações Unidas nunca tivessem conseguido ser vistas como árbitro pelo regime norte-coreano, que considera todas as suas resoluções como declarações de guerra.

 

A guerra da Coreia terminou de forma ambígua. Depois de MacArthur ter conseguido uma reviravolta extraordinária, que o levou mesmo a tomar Piongyang, a entrada da China no conflito obrigou-o a recuar novamente até ao paralelo 38. A sua proposta de iniciar um conflito nuclear com a China, que inevitavelmente se estenderia à União Soviética, acarretou, porém, a sua demissão, tendo então Truman formulado a doutrina que durou toda a guerra fria: as grandes potências não atacariam directamente as outras potências, travando a guerra em palcos limitados. Tivemos assim sucessivas guerras ao domicílio, como o Vietname, Angola ou o Afeganistão.

 

O fim da guerra fria e a proliferação nuclear alteraram os dados do problema. Juntamente outros países, como Israel, Índia e Paquistão, a Coreia do Norte acedeu ao clube nuclear, permitindo-se fazer exercícios de lançamento de mísseis ao mesmo tempo que os Estados Unidos proclamavam existir armas de destruição maciça no Iraque. E como lá não há petróleo, mas apenas uma monarquia de fanáticos, é bem previsível que as coisas dêem para o torto. Mergulhado numa crise económica sem precedentes, não faltava mais nada ao Ocidente do que este novo sarilho. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Levantamento de peso em Pyongyang

por Pedro Correia, em 31.07.12

No 5 Dias, há quem suspire por medalhas olímpicas para a Coreia do Norte - esse paraíso da livre opinião, sem sombra de censura.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

Actores da grupo norte-coreano Morangbong, fantasiados de personagens da Disney como Mickey Mouse, Minnie, Ursinho Pooh, Branca de Neve, Dumbo, a Bela ou o Monstro,  dançaram para a cúpula do regime num grande teatro. Ao que parece, o espectáculo insere-se num plano grandioso (podia lá ser outra coisa) de Kim Jong-un para fazer uma alteração profunda no campo das artes e da literatura. A notícia deixa-me sentimentos contraditórios. A última revolução cultural de que me lembro teve as consequências que se conhecem. Por outro lado, se tudo correr  pelo melhor, pode ser que ainda vejamos o camarada Bernardino Soares vestido de Pateta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dois pesos, duas medidas

por Pedro Correia, em 30.12.11

 

Concebo que um jornal tenha uma agenda política. Concebo que um jornal transforme as palavras em arma de arremesso ideológica. Concebo até que um jornal abdique esporadicamente do rigor da escrita em função de simpatias declaradas ou aversões indisfarçáveis. Mas entendo muito mal que o faça de forma tão ostensiva que possa levar alguns leitores a confundir esse preconceito com pura incompetência. Confesso: foi nesta hipótese que cheguei a pensar ao ler hoje as páginas 28 e 30 do Público, ambas pertencentes à secção Mundo, ambas redigidas sob critérios jornalísticos antagónicos.

Título da página 26: «Kim Jong-un, o 'Grande Sucessor', já é o líder supremo da Coreia do Norte». Destaque de entrada da peça: «No último dia de luto nacional por Kim Jong-il, o 'número dois' da hierarquia veio discursar perante milhares de pessoas para dizer que o país vai 'transformar o pesar em força'». Reparem nos vocábulos utilizados, todos com conotação positiva ou neutra: «líder»; «supremo»; «grande», «hierarquia»; «sucessor». A notícia refere-se à Coreia do Norte, a mais feroz tirania do planeta, onde segundo informações veiculadas por organismos internacionais credíveis pelo menos um quinto da população passa fome e cerca de 200 mil pessoas estão internadas em "campos de reeducação", privadas dos direitos fundamentais. A liberdade de expressão é inexistente neste país submetido desde a década de 40 ao totalitarismo comunista. De liberdade de imprensa nem vale a pena falar.

Ditadura? Claro que sim. Mas o termo é cuidadosamente evitado nesta página. Fica reservado para outra notícia, a que surge duas páginas adiante: «Mais 15 anos de prisão para o último ditador argentino». É uma peça curta, de apenas quatro parágrafos. Mas onde surgem três vezes as palavras «ditadura» ou «ditador». Nem faltam nela referências concretas a «crimes contra a humanidade», «tortura», «detenções» e «assassinatos» cometidos entre 1976 e 1983 na Argentina. Palavras que, por assinalável contraste, estão omitidas nos 12 parágrafos sobre a Coreia do Norte. Dois pesos, duas medidas: quem leia o longo texto sobre o "Grande Sucessor" fica apenas a saber que a Coreia do Norte "atravessa uma grave crise alimentar", eufemismo para evitar a palavra fome.

Um ditador devia ser sempre apelidado de ditador. Mas se for um ditador de esquerda é legítimo que receba um indulto jornalístico? Deixo a pergunta à consideração de quem quiser pronunciar-se. A resposta, para mim, é óbvia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tiques de ditadores

por João Carvalho, em 30.12.11

 

Mais um "milagre" do Photoshop ao serviço dos ditadores: à esquerda, a foto do funeral de Kim que um free-lancer registou; à direita, a foto do mesmo momento e que as autoridades norte-coreanas distribuíram às agências noticiosas internacionais, depois de "restabelecida a ordem" por via do computador.

O processo é velho e conhecido, desde a era pré-Photoshop na União Soviética ao regime egípcio recentemente deposto. Estes retoques têm todos uma coisa em comum: são tiques que só lembram aos ditadores, que gostam sempre de experimentar se o poder os deixa apagar ou modificar a História.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Será o querido ditador?

por João Carvalho, em 29.12.11

 

Não tenho a certeza, mas parece que esta foto não é do funeral do querido ditador norte-coreano. Se fosse, aquele ciclista refractário que acabou de fugir da coluna já estaria, no momento da foto, a ser mortalmente alvejado por um agente da autoridade em julgamento supersumário feito a olho.

Ainda assim, vou falar com o camarada Bernardino Soares para tirar dúvidas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O olhar opaco de um torcionário

por Pedro Correia, em 20.12.11

Há blogues para todos os gostos. Há até um blogue sobre Kim Jong-il a olhar para não importa o quê. Agora que o torcionário fechou os olhos vale a pena dar-lhe uma espreitadela. Ao blogue, não à múmia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um ditador é um ditador

por Pedro Correia, em 19.12.11

 

A palavra ditador parece ter caído definitivamente em desuso em Portugal. Só isto explica que a SIC Notícias tenha hoje revelado ao País que "morreu o líder da Coreia do Norte". E no entanto não conheço nenhum outro dirigente mundial, na actualidade, que merecesse tanto o epíteto de ditador como Kim Jong-il, herdeiro da mais longa dinastia comunista do planeta. Nem conheço nenhum país que ostente um nome oficial tão desfasado da realidade como a chamada República Democrática Popular da Coreia. Um país que nada tem de republicano, pois o poder transita ali dentro do mesmo ramo familiar, como era costume na corte absolutista de Versalhes: o tirano agora falecido herdara o ceptro do pai, Kim Il-sung, e o seu indigitado sucessor será o filho mais novo, Kim Jong-un. Um país que nada tem de democrático: a transmissão do comando supremo ocorre em Pyongyang por simples decreto emanado da cúpula do partido único, enquanto os direitos mais elementares são ferozmente espezinhados. Um país que nada tem de popular: os norte-coreanos continuam a fugir para o exterior, com risco da própria vida, para escapar às tenebrosas condições proporcionadas pelo regime estalinista implantado em 1948. Um regime que condena a sua própria população à miséria e à fome, em flagrante contraste com a vizinha Coreia do Sul.

Morto o ditador, quem se apressou a endereçar condolências ao "povo coreano"? Naturalmente o PCP, que em vez de se insurgir contra a tirania prefere lançar farpas aos Estados Unidos. Omitindo a prática de tortura, as frequentes execuções públicas e a existência de dezenas de milhares de presos políticos na monarquia vermelha.

Nada que nos deva espantar: nas teses ao XVIII congresso do partido, em 2008, os estrategos da Soeiro Pereira Gomes elogiaram o regime de Pyongyang nestes termos inequívocos: "Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à 'nova ordem' imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista - Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia" (destaques a negro das próprias teses). Um facto que mereceu críticas de alguns dos mais prestigiados militantes do PCP, como o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira.

O que seria de esperar de um partido que, nas páginas do seu jornal oficial, considera a Rússia estalinista "a mais brilhante conquista da história da humanidade"?  

 

ADENDA: O Estado de São Paulo chama ditador a Kim Jong-il. E o New York Times também. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o JN e o Público. É reconfortante saber que na grande imprensa internacional ainda há quem chame as coisas pelo seu nome. Porque um ditador continua a ser um ditador. Tenha a cor política que tiver.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D