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Convidada: MARIA MADEIRA

por Pedro Correia, em 23.01.18

 

A perversidade das boas intenções

- a propósito da polémica em torno da Supernanny

 

Quando o assunto envolve crianças, publicidade, exposição, pais, quase de certeza que o desfecho não será dos melhores. Se a todos estes ingredientes também se juntar um programa de televisão em formato reality show, onde as regras do jogo são duras e o termo, imperativo, vai ao encontro de audiências, share, rating, termos usados para medir a temperatura de um programa, temperatura que terá muito pouco a ver com pessoas mas terá muito a ver com lucro, temos um género de circo montado.

Esta é a realidade, quer queiramos quer não. Os canais privados de televisão existem para obter lucro, não são propriamente a Santa Casa da Misericórdia. Infelizmente, ou felizmente, depende do lado da barricada onde nos encontramos, sabem muito bem manipular e explorar as fraquezas humanas, as debilidades em termos financeiros e emocionais. Eu continuo a achar que o mundo é feito de escolhas, e são elas que acabam por ditar se algo vinga ou se está condenado ao fracasso. Determinados programas de televisão também têm este lado de testar de que matéria é que as pessoas que por aqui habitam são feitas.

De certo modo até se podia comparar esta situação a alguns políticos. O problema talvez não esteja  exactamente nos políticos, o problema talvez esteja na nossa escolha quando votamos e os escolhemos para nos representarem.

 

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Resumindo: não é com proibições, petições, que chegamos a algum lado. É, talvez, com uma consciência individual, individual porque cabe a cada um reflectir e fazer as suas próprias escolhas - não me apetece, não quero, ser obrigada a ter mais um pai-Estado que me proíbe de fazer o que quero.

Sou adulta, sou eu que escolho o que quero para a minha vida. Da mesma forma que escolho em quem voto, também escolho que não gosto de programas que vão ao encontro de formatos reality show, sejam eles quais forem, tenham eles crianças, tenham eles gente mais adulta.

Não gosto de assistir em directo, sentada confortavelmente no sofá de casa, à exploração de pessoas com vista a obter lucro.

Eu escolho não gostar. Ponto. Cada um escolherá o que quiser. Reticências.

 

 

Maria Madeira

(blogue AMANHECER TARDIAMENTE)

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Convidada: MAGDA PAIS

por Pedro Correia, em 19.01.18

 

Sem manual de instruções

 

Nunca se falou tanto em educação de crianças. A cada virar de página há alguém que se auto-intitula como o guru da educação, o único que pode ensinar os pais e o único em que todos os seus casos são de sucesso. Há centenas de milhares de livros, de blogs, de revistas sobre o mesmo tema e até um programa de televisão sobre o mesmo tema, esmiuçando o comportamento dos pais, dos filhos, da influência do cão, do canário ou do periquito no futuro dos gaiatos. Estuda-se, analisa-se, conclui-se e, por fim, dão-se fórmulas quase matemáticas para que a educação funcione.

Diz-se o que se pode dizer ou fazer em contraposição com o que não se deve fazer ou proibir. Colocam-se as crianças em redomas de vidro, não as deixando errar para não sofrerem. Não podem chumbar na escola ou ser contrariadas porque isso afecta a autoestima. Não podem estudar muito para não se cansarem.

Nunca os pais tiveram tanta informação como hoje em dia. E serve para... quase nada. Os miúdos continuam a não trazer manual de instruções. Estamos perante um ser humano que terá de ser educado mas não programado. Que terá de aprender a lidar com as frustrações e de perceber que o mundo gira à volta do sol e não da sua pessoa. Que tem de errar para aprender. Que tem de perceber que não pode ter tudo o que quer. Que tem de ganhar autonomia e de não ser apaparicado. Tem de aprender a ouvir um redondo NÃO e aceitá-lo. Tem de, em casa, ter pais e não amigos.

 

Sou a mãe mais imperfeita que possam imaginar. Não quero ser perfeita, quero só fazer o que acho melhor para os meus filhos. Mesmo que isso seja ir contra aquilo que os ditos gurus acham importante.

Os meus filhos ajudam em casa desde sempre. Obviamente com tarefas adaptadas à idade. Desde que começaram a ir à escola que se vestem sozinhos. Desde que foram para o ciclo que vão sozinhos para a escola. Têm, desde que entraram no ciclo, uma mesada que gerem como entendem, sabendo que é desse dinheiro que têm de pagar as refeições que fazem fora de casa ou as idas ao cinema. Se querem telemóveis XPTO, mudar de computador ou comprar uma máquina fotográfica, têm de juntar dinheiro para o fazer.

 

Escolho muito bem onde me devo impor. Não exijo que façam tudo como eu quero. Não me preocupo com a roupa que vestem ou com a cor do cabelo mas, em troca, quero boas notas e bom comportamento. Podem andar de sandálias no inverno ou calças com buracos mas não podem responder torto nem usar telemóvel na escola. Têm de respeitar os outros e a língua portuguesa.

Não os julgo mas, em troca, têm de ser honestos. Quando têm problemas, propomos soluções mas não os resolvemos por eles. Gostamos e queremos conhecer os amigos deles mas não intervimos nessas relações.

Dizemos não quando é preciso e sim sempre que possível. Deixamos que saiam sozinhos ou com os amigos, desde que nos avisem onde vão, quando vão e quando regressam. E têm horas de chegar a casa (mais uma vez adaptadas à idade).

 

Ambos sabem que somos permissivos e exigentes ao mesmo tempo. Aprenderam que cada acção tem uma consequência e que só depende deles se essa consequência é boa ou má. Se não cumprem as regras, a consequência é um castigo que depende do grau e gravidade do incumprimento.

E conversamos. Desde sempre. Explicamos o quê e porquê e, sempre que possível, decidimos em conjunto o que fazer.

Ser pai ou mãe não é fácil. Mas também não é um bicho-de-sete-cabeças. É uma experiência constante, uma aprendizagem diária e um desafio. Mas é tal e qual como diria o Noddy: Um desafio! Gosto disso!

 

 

Magda L. Pais

(blogue STONE ART)

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Convidado: OLAVO RODRIGUES

por Pedro Correia, em 16.01.18

 

O que é realmente um erro linguístico?

 

Ao abordar esta questão, surgem sempre dois tipos de defensores: os mais conservadores e os mais liberais. Os primeiros opinam que, para que uma língua seja bem usada, esta tem de ser regida por regras que se reconhecem como sendo canónicas e aceitáveis, as quais estão relacionadas com a gramática e com a ortografia. Há alguns casos mais extremos que propõem distinções de qualidade entre as variantes de determinados países, incluindo, às vezes, as pronúncias também.

Por outro lado, existem os mais liberais que opinam que um idioma é inevitavelmente mutável em todos os seus campos, pelo que de nada serve tentar impor normas de fala, dado que, mais tarde ou mais cedo, as mesmas cairão em desuso. Por norma, estas pessoas não se importam com realizações linguísticas do género: «tu fizestes», «atão», «onteontem», entre outras. Algumas delas também concordam com a Reforma Ortográfica de 1990, precisamente por acreditarem que a língua, enquanto organismo vivo, necessita de uma mutação constantemente activa.

 

Nos dois grupos existem diversos graus nas suas inclinações, contudo, será que algum deles alguma vez conseguiu ou conseguirá, de facto, responder à questão: «o que é realmente um erro linguístico?»

Eu não pretendo encontrar uma verdade absoluta para este tópico, pois a minha opinião, à semelhança da de toda a gente, vale o que vale e duvido muito de que surja uma resposta infalível a esta pergunta, considerando que os próprios especialistas nem sempre chegam a um consenso. Contudo, não deixa de ser um novelo de lã com imensas pontas soltas que conduzem a um mundo enorme de conhecimento e reflexão.

 

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Comecemos, então, pelo seguinte: o que é um idioma? É um sistema de representação do mundo que tem determinados padrões na fonética, na gramática e no léxico, no entanto, embora haja sempre pontos em comum que se identificam na mesma língua, também existem imensas variantes quando o seu número de falantes é grande, como é o caso do português.

Partindo deste princípio, constata-se que o critério para considerar não-preferencial uma certa realização linguística é um pouco abstracto e funciona como uma espécie de espiral.

O círculo central é a variante-padrão e os que o rodeiam costumam ser considerados formas desviantes. Quanto mais afastados do centro, menos aceitáveis parecem. Em português dizer, por exemplo: «duvido de que faças isso» parece ser o ideal; «duvido que faças isso» já é um pouco desviante e «isso faças duvido que» não é aceite pelo sistema interno de reconhecimento de nenhum falante.

Porém, visto que uma língua é bastante rica em diversidade e está em constante mudança, há sempre estruturas a competir pelo reconhecimento, o que leva a que exista uma área cinzenta na qual é difícil escolher uma forma canónica, tendo em conta que as várias opções são todas muito usadas e que as gramáticas e dicionários nem sempre estão de acordo relativamente à mesma questão.

Pegando no exemplo que dei acima, é possível verificar esta ocorrência. À luz do meu conhecimento pessoal, já não é nada raro encontrar construções do tipo «duvido que» e não me refiro apenas à oralidade ou a textos informais. Quer em traduções, quer em textos originalmente escritos em português, tem-se tornado bastante comum a ausência da preposição «de» antes do pronome relativo «que».

 

Por enquanto, a presença da preposição ainda é a mais canónica, uma vez que, se o verbo a requer noutros casos, como em «duvido disso», então, faz sentido que se adicione «de» a todas as construções. No entanto, devido ao facto de que um idioma se encontra em mutação constante, daqui a alguns anos aparecerá, novamente, o choque entre conservadores e liberais - quase parece que estou a falar de política - umas gramáticas, menos receptivas à mudança, rejeitarão a forma recém-chegada e outras, adeptas da sua existência, aceitá-la-ão.

Ainda não se chegou a uma conclusão satisfatória. Por um lado, se uma determinada estrutura pode vir a tornar-se canónica, porquê resistir à naturalidade das alterações? Por outro, se não houver uma distinção restrita do que é certo ou errado, toda a gente falará e escreverá sem o conhecimento correcto, o que talvez origine indisciplina, dificuldades na comunicação e distorção da mensagem intrínseca no discurso.

 

Na minha mais sincera opinião, gostava de evitar a definição «erro». Nesta crónica não se atribuirá esse rótulo, isto porque a preferência de certas realizações idiomáticas não tem a ver com a linguística, mas sim com o meio socio-cultural e tem sido sempre assim em todos ou, pelo menos, em quase todos os países. Eis uma citação que o demonstra: «Grammatica (...) é um modo çerto e justo de falár e escrever, colheito do uso e autoridade dos barões e doutos.» (J. Barros, Grammatica da Lingoa Portugueza, 1540).

O/A leitor/a poderá pensar que a afirmação acima está desactualizada em relação ao nosso tempo e, de facto, de certo modo, tem razão, pois escrever algo assim nos dias de hoje não seria visto com bons olhos, no entanto, há que reconhecer que sempre existiu uma parte que se destacou para representar um todo.

 

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No caso do português europeu, o dialecto lisboeta tomou a dianteira, dado que, culturalmente, Portugal se tem centrado muito em Lisboa ao longo da História, da mesma maneira que, em 1540, eram as classes privilegiadas que definiam o que era correcto dizer e escrever.

Levando em consideração que todas as culturas, desde que não infrinjam os direitos humanos, têm o mesmo valor e dignidade e que a língua faz parte da cultura, então, há que pôr a hipótese de que dizer «tu fizestes» numa aldeia do Norte Interior é tão acertado como dizer «tu fizeste» em Lisboa, visto que se avalia o que é correcto através da norma linguístico-cultural em determinada região, independentemente de essa corresponder ou não à variedade canónica. Estamos a falar de variantes não de erros. 

Não tenciono afirmar, com esta óptica, que um/a lisboeta não pode combinar «tu» e «fizestes» ou que um/a nortenho/a não deve conjugar a forma da segunda pessoa do singular, no Pretérito Perfeito, sem o «s». O meu objectivo é assinalar que as estruturas gramaticais desviantes também merecem o seu lugar por pertencerem à nossa língua.

 

É verdade que se registam certos padrões nas mais diversas regiões, mas isso não significa que tenhamos de corrigir alguém amiúde quando nos apercebemos de que lhe escapou uma regra canónica.

Eu contra mim falo, pois, antigamente, tinha o hábito irritante de corrigir os meus interlocutores mais chegados. Todavia, agora olho para trás e pergunto: será que era mesmo importante? Muitas pessoas não nutrem nenhuma paixão pela linguagem, só se servem dela para cumprirem as tarefas do seu quotidiano, por isso, será que é mesmo produtivo impor-se-lhes regras que quiçá não venham a usar na sua vida profissional? Saber não ocupa lugar, porém, creio que ganharíamos muito mais se direccionássemos o esforço para a tolerância e para aqueles que estão realmente interessados em seguir a variedade-padrão.

Este raciocínio também se aplica à relação linguística entre países, pois creio que neste contexto também não deve haver competições deste tipo, as quais só costumam gerar ruído e nenhuma conclusão produtiva.

Digo isto, porque sempre que me dirijo à caixa de comentários do YouTube para ler as opiniões do público acerca de uma partilha cultural, geralmente entre Portugal e o Brasil, há imensas pessoas xenófobas dos dois lados do Atlântico que entram num conflito ridículo para disputar quais as melhores variante e cultura.

 

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Em Portugal algumas pessoas acreditam que o português brasileiro já é um idioma diferente, ponto de vista esse de que discordo, mas que respeito desde que os seus defensores abandonem a arrogância xenófoba, a qual é tão característica de alguns.

O único campo em que, do meu ponto de vista, é possível falar de erros, é a ortografia pelo facto de não ser uma parte do corpo da língua, mas sim um instrumento, ou seja: um idioma tem, naturalmente, como bases principais: a pronúncia, a sintaxe, a semântica e o vocabulário.

Todavia, a ortografia é uma invenção posterior e especificamente criada para servir a língua, não tendo nascido com ela. É possível haver um idioma sem ortografia, mas não sem as outras áreas anteriormente mencionadas.

A ortografia é algo legislado que, ao contrário, dos outros campos linguísticos, não se altera de forma autónoma, o que lhe confere, a meu ver, o estatuto de ferramenta e não de órgão.

 

Para terminar, não pretendo, com esta crónica, sugerir que a homogeneidade deve ser ignorada, tendo em conta que o ensino e a difusão do idioma necessitam de alguma coerência de modo a não confundir os aprendentes - nativos ou não - e para que a comunicação em massa seja o mais clara possível.

Contudo, é também preciso considerar o contexto em que usamos determinadas maneiras de falar e de escrever, não excluindo variantes que, provavelmente, sempre existiram e contribuíram para a riqueza da nossa língua. O que as distingue das formas canónicas é o facto de nunca terem sido acolhidas pela literatura, pelo jornalismo, pela política ou por outros, o que não lhes tem permitido alcançar o centro da espiral.

Assim sendo, quando se fala em erro linguístico, há que especificar qual é o objectivo do/a escrevente ou do/a orador/a, bem como o meio social em que vai comunicar. Usar uma variante não-canónica é adequado a uma conversa de café ou a uma SMS, mas não a uma palestra ou a um ensaio.

A variedade-padrão do português europeu tem os traços que hoje conhecemos, porque a sociedade e a cultura portuguesas a definiram dessa maneira, porém, podia ter quaisquer outras características igualmente aceitáveis.

 

 

Olavo Rodrigues

(blogue TOCA DO COELHO)

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Convidado: ANDRÉ AZEVEDO ALVES

por Pedro Correia, em 10.01.18

 

Espanha, Catalunha, Tabarnia... *

 

Um dos temas internacionais mais interessantes – e relevantes - de 2017 no âmbito da política internacional foi a questão da independência da Catalunha. Para além da óbvia importância geopolítica da disputa, para quem se interessa por ciência política e pela Escola Austríaca o tema reveste-se de especial interesse, já que o problema da secessão e da legitimidade (ou falta dela) dos Estados é um problema central.

 

Não é possível no âmbito de um post breve como este proceder a uma análise desenvolvida do problema, pelo que me centrarei apenas numa dimensão: a recentemente levantada questão da Tabarnia:

 

“¿Que qué es Tabarnia? Detrás de la denominación está la plataforma «Barcelona is not Catalonia», una organización ciudadana que pretende que el área metropolitana de Barcelona y parte de la franja costera de Tarragona se conviertan en una comunidad autónoma separada del resto de Cataluña. Y es que los promotores de esta iniciativa, más de un centenar de agrupaciones, asociaciones y empresas de la Ciudad Condal, están hartos del proceso independentista y de los perjuicios que están ocasionando a la economía catalana en general, y a la barcelonesa en particular. Basta echar un vistazo al mapa electoral catalán tras las elecciones del pasado día 21 para ver cómo el territorio que coincide con este territorio imaginario que es Tabarnia aparece teñido de naranja por su voto mayoritario a Ciudadanos, frente al interior de Cataluña, donde predominan el azul, de JuntsxCat, y el amarillo, de ERC, sobre todo en el sur. Este resultado demuestra, a juicio de esta plataforma, que existen dos «cataluñas», la rural del interior frente a la urbana de la costa y que gira en torno a Barcelona. Y es esa Barcelona no independentista la que está detrás de este movimiento, «de base transversal, unitaria y democrática que tiene por objetivo conseguir una gestión política y fiscal propia para Barcelona al margen de la Generalitat de Cataluña».”

 

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Quem se revê na tradição do liberalismo clássico, tenderá a ter uma presunção a favor do direito à secessão, auto-determinação e independência por parte de comunidades integrantes de um Estado nas quais haja uma clara vontade da população nesse sentido. Citando Ludwig von Mises (na sua obra Liberalismo):

 

“O direito à autodeterminação, no que tange à questão da filiação a um estado, significa o seguinte, portanto: quando os habitantes de um determinado território (seja uma simples vila, todo um distrito, ou uma série de distritos adjacentes) fizerem saber, por meio de um plebiscito livremente conduzido, que não mais desejam permanecer ligados ao estado a que pertencem, mas desejam formar um estado independente ou tornar-se parte de algum outro estado, seus anseios devem ser respeitados e cumpridos. Este é o único meio possível e efectivo de evitar revoluções e guerras civis e internacionais.”

 

Mas a questão da Tabarnia (assim como outras similares que sempre é possível levantar) suscita a complexidade processual e a dificuldade de estabelecer a legitimidade dos processos de secessão em cada circunstância concreta. Para colocar apenas algumas dessas dificuldades: Como se determina a vontade colectiva dos habitantes de um determinado território? Quais as fronteiras relevantes? Que alternativas devem ser colocadas a votação? Quem as define? Qual a dimensão da maioria necessária? E qual o limiar de participação exigido? Em que condições é possível reverter a decisão?

 

Dificuldades que, sem afastar a presunção liberal clássica de partida a favor do direito de secessão, me levam a encarar com prudência e algum cepticismo as suas manifestações concretas. Também por isso me faz crescente confusão o absolutismo (pró ou anti secessão) nestas matérias. Talvez seja a posição possível para um liberalismo temperado com uma dose de conservadorismo. Ou pode ser simplesmente resultado da idade, que vai avançando.

 

*Agradeço ao Pedro Correia e restante equipa do Delito de Opinião pelo simpático convite, no meu caso reincidente, depois de um primeiro em 2011 (como o tempo passa…).

 

 

André Azevedo Alves

(blogue O INSURGENTE)

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Convidado: JOÃO PAULO CRAVEIRO

por Pedro Correia, em 08.01.18

 

Le pays de Cocagne

 

Durante a Idade Média a que muitos, erradamente como demonstrou Umberto Eco, se referem ainda como a “Idade das Trevas”, surgiu o mito do país da Cocanha, espécie de paraíso terrestre, onde a abundância fornecida pela natureza era de tal ordem que ninguém precisava de trabalhar, o que era mesmo proibido, vivendo-se numa festa permanente e perpétua, sem fome nem guerras. Uma utopia, muito antes de Thomas More, que exprimia o desejo de paz, igualdade e prosperidade universal. No país da Cocanha as casas eram feitas de doces, as montanhas de gelados, havia sempre vinho, o sexo era completamente livre e toda a gente permanecia jovem para sempre.

O país da Cocanha foi representado por Peter Bruegel-o-Velho num quadro famoso em que representantes do clero, da nobreza e do povo recebiam tudo o que queriam refastelados no chão, sem precisarem sequer de se mexer, caindo-lhes as iguarias do céu. Foi, talvez, a forma que o protestante Peter Bruegel encontrou para sublimar a destruição de Bruxelas pelos soldados do Duque de Alba enviados pelo católico Filipe II de Espanha para combater a Revolta dos Países Baixos, ou Guerra dos 80 Anos.

Já os poemas medievais Carmina Burana hoje bem conhecidos pelo trabalho de Carl Orff se lhe refeririam, retratando as danças selvagens, o amor livre, o vinho e a licenciosidade. Diversos músicos mais recentes ou da actualidade abordaram o país da cocanha nos seus temas, como Edward Elgar que escreveu uma abertura de concerto, Georges Brassens na canção “Auprès de mon arbre” e também Jacques Brel, entre outros; mesmo no filme da Disney Pocahontas se refere o Novo Mundo como terra de cocanha. Podemos ainda olhar para o movimento hippie dos anos 60 do século XX como uma espécie de concretização do país da cocanha em que todos os desejos tinham resposta imediata.

 

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O mito do país da cocanha não deixa também de nos lembrar o paraíso bíblico em que Adão e Eva viviam na felicidade absoluta, antes de comerem a maçã, pelo que o seu surgimento não é uma novidade absoluta na História.

A persistência da mitologia do paraíso terrestre traduzido de forma artística ou mesmo subliminarmente na política deveria fazer-nos pensar na sua justificação e na enorme influência que tem tido na humanidade ao longo dos tempos, a diversos níveis, já que promessas de paraísos terrestres é coisa que não tem faltado.

Todos aprendemos que a Revolução Francesa foi um passo da humanidade no sentido do progresso. Na realidade, os desejos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade rapidamente descambaram, não numa aproximação de um paraíso terrestre como muitos imaginaram no seu princípio, mas numa espiral de terror, assassínios e pobreza que rapidamente destruiu os seus próprios mentores terminando ingloriamente num “império” que levou a guerra e a destruição a toda a Europa. Nem Portugal, aqui neste cantinho da Europa, escapou. Isto, enquanto a Inglaterra e muitos outros países prosseguiam o seu caminho no mesmo sentido de desenvolvimento sem necessidade da hecatombe da Revolução Francesa.

 

Há um século que se iniciou uma das experiências mais impressivas visando a construção de um “paraíso” na Terra, sem exploradores nem explorados, em que todos seriam iguais e em que a Igualdade seria lei. O regime instituído na Rússia pelo partido, primeiro chamado bolchevique e depois comunista, que ao longo dos anos teve como líderes assassinos notórios como Lenin, Stalin, Krushchov ou Brejnev foi um dos maiores desastres da História. As suas vítimas contam-se por muitas dezenas de milhões de mortos por fome e guerra, para além da imensidão de degredados. Tudo isto, não para construir impérios assumidamente militarizados e racistas como os nazis e fascistas, mas tendo a boa intenção da construção de um “paraíso terrestre” concreto e verdadeiro.

 

Um pensamento minimamente racional deveria levar-nos a desconfiar de todos os que ainda hoje nos prometem paraísos terrestres, que são os populistas de todos os matizes ideológicos. Especialmente depois das experiências trágicas provocadas pela transposição para a realidade das ideologias construtoras de “homens novos”, da prosperidade universal e da paz para todos enfim conseguida.

 

 

João Paulo Craveiro

(blogue VISTO DE DENTRO)

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Convidada: JOANA RITA

por Pedro Correia, em 05.01.18

 

Elogios avulso

 

o  pedro correia desafiou-me para escrever um artigo, aqui para o delito de opinião. “quanta honra”, pensei. mais ainda quando me é dada a liberdade para escrever sobre aquilo que eu quiser.

pensei em vários temas: a pós-verdade, o tempo médio de vida das indignações nas redes sociais, a lei do financiamento dos partidos – foram alguns dos temas que me fizeram abrir um documento no word e começar a escrever. desisti dessas ideias, pois julgo que sobre cada uma delas outros irão escrever e com mais propriedade.

 

resolvi partilhar convosco algumas ideias avulso, em tom de elogio. confesso que estou farta de reclamações: hoje é o bolo-rei em cima do caixote, amanhã são as cartolas na festa do final do ano.

 

ficam aqui algumas coisas que valem a pena ou, como se diz na minha aldeia, são coisas que “sim, senhor”.

 

 

país irmão: se nunca viram, não sabem o que estão a perder

 

conheci esta série por acaso, julgo que através de um tweet do nuno lopes.

*suspiros*

os diálogos são ricos, o argumento é genial e os planos das cenas são muito bem pensados.

acompanho no rtp play; ainda que passe no canal 1, à segunda à noite, é mais fácil de gerir online.

 

FB: https://www.facebook.com/paisirmaortp/?fref=ts
RTP PLAY: https://www.rtp.pt/play/p3846/pais-irmao

pais irmão - foto da pagina de facebook .jpg

 

 

fugiram de casa dos seus pais: um programa de tv que podia ser um podcast

 

o miguel esteves cardoso (mec) inspirou-me muito, quando era mais nova. achava-o irreverente, devorava os seus livros. há uns anos a sua escrita deixou de ter sentido para mim e continuei a viver agarrada aos livros de outros tempos. quando soube que ia haver um programa de televisão, de conversa, entre o bruno nogueira e o mec: awwwwww. expectativas ao alto. no dia da estreia sentei-me no sofá, em frente à televisão. e depois percebi que o programa era muito bom, sim. para ouvir em podcast. enquanto arranjo o almoço ou lavo a loiça > rtp play > e ouvir.

 

RTP PLAY: http://www.rtp.pt/play/p4131/fugiram-de-casa-de-seus-pais

fugiram de casa dos seus pais -  página fb do br

 

 

também os brancos sabem dançar: um romance que dança com a palavras

 

sou apaixonada pelos buraka som sistema e pela voz do kalaf. Em tempos li uma entrevista dele, à revista LER, e fiquei fascinada com o seu discurso. numa das últimas feiras do livro, em Lisboa, ganhei coragem e comprei um livro seu, que era um compêndio de crónicas. o kalaf estava lá e eu pedi-lhe um autógrafo. sim, senti aquela coisa de ai ai ai está ali a minha crush.

também os brancos sabem dançar é um romance embrulhado em amarelo, que cheira a kizomba e a funaná. a leitura é um conjunto de passadas que misturam movimentos mais antigos e as coreografias mais contemporâneas que invadiram as pistas de dança, recentemente. é para ler. e dançar, pois.

 

(o livro publicado na Caminho, em 2017)

kalaf epalanga.png

 @ joana rita 

 

 

slow j: ainda sobre palavras e brancos que sabem rimar

 

conheci o slow j no festival super bock super rock, há dois anos.

num palco pequeno, com o fred ferreira, surgia um rapaz tímido com uma voz quente e a atitude de quem só quer fazer o que gosta, da melhor forma possível.

2017 trouxe-nos the art of slowing down e esta música, CASA. “esse é o meu fado, esse é o meu semba” – e foi assim que slow j me conquistou. definitivamente.

 

slow j - fotografia de marco almeida para musicfes

© marco almeida, para musicfest.pt

 

 

* escrevo em desacordo com o AO90 

 

 

Joana Rita

(blogue ALL ABOUT LITTLE LADY BUG)

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Convidada: GRAÇA CANTO MONIZ

por Pedro Correia, em 03.01.18

 

O ano em revisão

 

Nesta época há quem faça uma revisão daquilo que aconteceu ao longo do ano na sua vida. Este tipo de exercício pode ser fonte de algumas frustrações se, como no meu caso, entre outros momentos menos bons ou felizes, a conclusão apontar para um dia-a-dia de rotina, um estilo de vida com pouco agite, enfim um ano enfadonho e pouco vivido. Mas nesse balanço anual há sempre um momento de auto-ilusão de que “vivi” muito, conheci muitas pessoas, viajei para vários sítios e experimentei diferentes sensações e momentos: acontece quando faço uma lista dos melhores filmes e séries a que assisti e que agora partilho convosco *.

 

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Cinema em 2017: Paterson, de Jim Jarmusch 

 

É que, se passei uma boa parte deste ano (e dos anteriores) a determinar os casos em que o Regulamento Geral de Protecção de Dados Pessoais se aplica fora do território de um Estado-Membro da União Europeia (bocejos...) e ainda tenho dúvidas em certos casos(!), a verdade é que conheci a poesia de William Carlos Williams enquanto me passeava de autocarro, conduzido por Adam Driver, por uma tranquila vilória de New Jersey (“Paterson”, Jim Jarmush, é o meu n.º 1) e tremi com o frio de Massachussets e com a angústia de Lee em “Manchester by the Sea”, de Kenneth Lonergan (é o meu n.º 2). Mas, durante este ano, não me fiquei pelos EUA: fui à Coreia do Sul conhecer a jovem Sookee, contratada para trabalhar para uma menina rica japonesa (“The Handmaiden”, de Park Chan-wook, o meu n.º 3) e regressei à Europa onde fiquei muito impressionada com a frieza de Isabelle Huppert em “Elle”, de Paul Verhoeven (é o meu n.º 4) e com o humor de Toni Erdmann, de Maren Ade (o meu n.º 5). Merece igualmente uma menção a crítica que Sally Potter faz à elite esquerdista anglo-americana em “The Party”.

 

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 Televisão em 2017: The Crown, na Netflix

 

Quanto a séries, deixei-me render àquela que é a série mais cara de sempre, “The Crown” (a minha primeira escolha), e a “Victoria” (vem em segundo lugar), ambas sobre duas inspiradoras mulheres e rainhas britânicas. Pelos EUA, acompanhei de perto os esquemas e as artimanhas de um grupo de mulheres criminosas e presas numa cadeia americana (“Orange Is the New Black”, em terceiro lugar) e andei pelas ruas de Nova Iorque ao lado de James Franco e Maggie Gyllenhaal em “The Deuce” (a minha quarta escolha). Em último lugar estão, lado a lado, duas séries de outros tempos: o futuro distópico em “The Handmaid’s Tale” e os perigos anunciados nos contos de Charlie Brooker em “Black Mirror”.

 

Em 2018 é certo que vou voltar à extraterritorialidade do Regulamento Geral de Protecção de Dados Pessoais, mas faço-o na expectativa de que haverá iguais formas de escapismo em novos filmes, séries e temporadas (será que vamos ter de esperar até 2019 pela nova temporada de Game of Thrones?).

Desejo a todos um óptimo ano!

 

*Agradeço ao Pedro Correia e ao Delito pelo simpático convite!

 

Graça Canto Moniz

(blogue O INSURGENTE)

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Convidada: DANIELA MAJOR

por Pedro Correia, em 22.12.17

 

Da Resistência e da Consolação

 

I.

Numa conferência recente no Nexus Institute[1], disponível no youtube, George Steiner questiona a validade das Humanidades. Por Humanidades, ele compreende não só o estudo académico da História, Filosofia, Línguas ou Religião, mas também a própria produção artística e literária. As Humanidades caminham então neste limbo: a criação de algo e o seu estudo.

No campo académico, Steiner identifica vários problemas com o estudo das Humanidades, e com a forma como elas são abordadas nas Universidades. Ele exige um maior rigor na selecção dos estudantes, e uma reforma dos currículos para incluir campos que deviam conviver com as Humanidades como a matemática e a arquitectura. Estas resoluções enquadram-se no âmbito de uma reflexão mais alargada sobre o papel das Universidades nos dias de hoje. Não estou agora tão interessada em discutir esta questão pois algumas das premissas de Steiner parecem-me exageradas. Ele tem sobretudo em conta universidades privadas que se encontram no top dos rankings mundiais e cuja comparação com todas as outras universidades só funciona, em consequência, até um determinado ponto.

 

II.

O problema da validade e utilidade das Humanidades é mais interessante até do ponto de vista do pensamento de Steiner. É uma questão que ele coloca há anos. A formulação é bem conhecida, e está presente na frase de Adorno: “não pode haver poesia depois de Auschwitz”. Em muitos aspectos, Steiner passou grande da sua vida académica a tentar aferir a veracidade desta afirmação.

Gieseking que tocava Debussy enquanto se conseguia ouvir, na sala de concertos, os gritos das pessoas que estavam nos comboios para Dachau. O jardim de Goethe que quase faz fronteira com Buchenwald. Os intelectuais e artistas que se colocaram, abertamente, orgulhosamente, do lado de Hitler e de Mussolini. É bem possível que Auschwitz tenha destruído uma certa ideia das Humanidades. A partir da Revolução Francesa, passou-se a acreditar que a concretização da cidadania, e a felicidade dos povos que daí adviria, só poderia ser conseguida através da educação. Reduzindo esta ideia ao mais básico: só é cidadão quem consegue ler, porque a leitura nos dá poder. O poder do conhecimento, o poder do espírito crítico. A crença no progresso esbate-se no século XX. A crença na tríade educação-felicidade-cidadania parece sair derrotada. O século XX não foi feliz nem particularmente cívico. Pior: foi profundamente infeliz enquanto foi mais letrado e alfabetizado do que todos os outros séculos. O século onde mais pessoas leram e onde os livros eram mais baratos e acessíveis foi também o século dos campos de extermínio e dos gulags.

 

III.

Neste sentido, seria relevante olhar para aqueles campos que andam na fronteira entre as Humanidades e as Ciências Sociais: a História, a Antropologia, a Sociologia, a Ciência Política. Estas disciplinas têm por ambição a explicação e interpretação da realidade, muitas vezes com a expectativa de conseguir prevenir erros do passado. Aquando da eleição de Trump, foram reavivados textos conhecidos sobre as características do Fascismo. A História tem por objectivo, adicionalmente, o questionamento e a preservação da memória e de identidades, sejam elas regionais, nacionais, civilizacionais ou culturais. A sociologia e a antropologia têm por objectivo a explicação de determinados comportamentos sociais. Todas estas ambições encontram correlações com o poder político. Estudar os processos democráticos em Portugal ou na Europa do Sul, olhar para um mapa de eleições do século XIX, estudar o Iluminismo, isto é, a origem da Modernidade e do discurso político moderno, ajuda-nos a perceber, sem dúvida, o que fomos e o que somos, e os comportamentos que assumimos perante a sociedade e perante a política na sua forma mais pura.

 

IV.

E contudo: para quê? Os historiadores, por muito que se esforçassem, não conseguiram evitar a eleição de Trump. Nem a literatura o conseguiu fazer. A História demonstra o perigo da emoção desenfreada instilada no discurso político. Demonstra o perigo de se brincar com factos, de se espalhar mentiras, das teorias da conspiração. A literatura faz pouco dos tiranos. E contudo, verificamos que todas estas disciplinas, todas as Humanidades, apesar da sua capacidade criativa, têm uma função apenas reactiva, reaccionária, no verdadeiro sentido do termo. Não foram factos que impediram o Brexit ou Trump. Um historiador podia ter-se sentado (mas sentou-se?) a explicar, reparem, que a União Europeia é um fenómeno histórico e a paz alcançada no Continente Europeu é algo absolutamente inédito. Mas será que isso teria feito diferença? Será que ter Umberto Eco a explicar as características do fascismo fez alguma diferença?

 

V.

And yet...

Após os atentados ao Charlie Hebdo, o Tratado sobre a Tolerância de Voltaire, esgotou. Historiadores juntaram-se em livros e artigos para explicar a importância do riso e da sátira, fazendo questão de reafirmar, perante a barbárie, que nada disto é novo. Há sempre um tirano que pretende, em nome de qualquer coisa, matar aquilo que nos é essencial: a liberdade. E foram também os historiadores, cientistas sociais e políticos, e alguns escritores, como Salman Rushdie, a lembrar que, apesar de tudo, os livros e as ideias circulam. E a explicar, a não deixar esquecer, que há algo de muito, muito positivo na sátira, no questionamento de dogmas, de preconceitos, no combate à infâmia. E que o sistema democrático em que nos inserimos, regidos, em última análise, por Declarações de Direitos que nos são inalienáveis, foi conseguido e alcançado com muito suor, sangue, e lágrimas. Mas cá estamos, cá continuamos.

 

VI.

E enquanto eles não são alcançados? Ou o que acontece quando eles são alcançados mas são postos em perigo?

George Steiner dá uma resposta a isso, uma resposta ao mesmo problema que coloca. Numa longa entrevista a uma televisão holandesa, também online no youtube, com o título apropriado de Beauty and Consolation[2], Steiner conta a história de Boris Pasternak. Antes do Doutor Jivago, Pasternak traduziu os poemas de Shakespeare para russo – por sinal, Moscovo vai ter uma estátua de Shakespeare[3]. Em 1937, Pasternak estava na conferência dos escritores soviéticos. Com ele estavam 2000 pessoas. Nas palavras de Steiner, 37 foi um dos piores anos, “one disappeared like flies every day”. A Pasternak foi dito que se discursasse, iria ser preso. E preso seria se não discursasse. Ao terceiro e último dia, os amigos de Pasternak disseram-lhe, em desespero, que ele ia ser preso de qualquer forma. Ao menos que dissesse algo a que eles se pudessem agarrar, depois. E durante a conferência, Pasternak levanta-se e profere um número. 30. E, segundo Steiner, ergueram-se 2000 pessoas e declamaram o soneto correspondente. When to the sessions of sweet silent thought / I summon remembrance of things past… um soneto de Shakespeare sobre a memória. Em português, na extraordinária tradução de Graça Moura, começa como, Quando em meu mudo e doce pensamento / chamo à lembrança as coisas que passaram…. As 2000 pessoas recitaram-no em russo, usando a tradução de Pasternak. Steiner retira a óbvia conclusão: “it said everything. You can’t touch us. You can’t destroy Shakespeare. You can’t destroy the Russian language. You can’t destroy the fact that we know by heart what Pasternak has given us”.

Pasternak não é preso e vive para escrever Doutor Jivago.

 

VII.

Citando Steiner novamente, no vídeo já referenciado, “what we have in us they can’t take away from you.” O estudioso do Talmud que sabe de cor os cinco livros da Torah e que no campo de concentração diz às pessoas para lhe perguntarem por passagens quando for necessário (ou essencial, quando for essencial). Braudel, no campo de prisoneiros de guerra onde esteve preso, reúne as notas para o que vai ser La Méditerranée et le Monde Méditerranéen, um dos mais importantes livros de História do século XX.

As Humanidades servem para a preservação da memória, das identidades, das ideias. Não explicam apenas o mundo e os processos de formação sociais, políticos, económicos. São formas de resistência – daí serem reaccionárias. Elas pretendem reagir à mentira, à manipulação e, em última análise, à tirania. O facto de serem elas próprias objecto frequente de manipulação, o facto de muitos supostos humanistas, escritores, artistas, intelectuais, se colocarem do lado errado, não apaga a extrema necessidade, a extrema urgência da sua existência. “What we have in us they can’t take away from you”. 

 

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[1] https://www.youtube.com/watch?v=L-WecwvZZzk

[2] https://www.youtube.com/watch?v=3xUzVfxwm_k

[3] https://themoscowtimes.com/news/shakespeare-59254

 

Daniela Major

(blogue AVENTAR)

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Convidada: ISABEL PIRES

por Pedro Correia, em 20.12.17

 

Do histórico pessoal nas relações tardias

 

Desde há umas décadas que é relativamente comum encetar-se relacionamentos amorosos a partir dos quarenta anos de idade, adoptando-se vários modelos.

Naturalmente, há maior preocupação e cuidado em definir como se vão estruturar perante a condição de existirem filhos de uma parte ou de ambas, assim como face às especificidades associadas a novos padrões de organização do trabalho.

Pelo facto de estas circunstâncias e outras semelhantes terem uma face mais concreta, visível e pública, e também por fazerem parte dos deveres, normalmente encontram-se soluções que não afectam de forma significativa a nova relação. Há como que um encaixe natural que decorre de algo que está num plano superior envolvido pela obrigação e por isso podem estar mais defendidas de conflitos.

 

Com a bagagem das relações interpessoais até aí mantidas, nomeadamente com as amizades, algumas de décadas, já não é tanto assim. Não raro, de ambos os lados surgem tensões relativas ao modo como essas ligações se expressam e concretizam, quer quando se mantém o figurino até aí adoptado, quer quando se altera.

 

E são os encontros com os amigos do sexo oposto (falo do modelo heterossexual pelo facto de ser o mais comum) que suscitam dúvidas e conflitos. Dúvidas até nos dois elementos.

Num, essas dúvidas é sobre o contar ou o não falar; sobre a necessidade de o fazer e sobre a continuidade, que receia não ser bem interpretada pelo parceiro. Ao mesmo tempo que navega numa sensação de perda relevante de património afectivo individual.

No outro, as dúvidas têm que ver com o medo de perda advinda da dificuldade de compreender e aceitar que não é o eixo exclusivo dos afectos para além da família de sangue.

 

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 Foto de Henri Cartier-Bresson

 

Do que se conhece acerca dos assuntos que costumam ser conversados num qualquer ponto inicial da relação, este trilho não consta como frequente, até porque, afirma-se, o estado de paixão ou arrebatamento tem tendência a ofuscar ou a toldar as linhas com que se cosem os dias.

 

Esta questão - ao que fazer e como fazer à bagagem afectiva que se construiu e que fez, e faz, aquela pessoa ser assim - quando entra uma nova pessoa para partilha íntima? Não havendo respostas iguais, adivinha-se contudo a importância de desenvolver a plasticidade interpretativa e a possibilidade de acolher modelos diferentes dos esperados quando se tinha vinte ou trinta anos.

O envelhecer, ou melhor, o envelhecer bem não será também isto: integrar bem, de forma satisfatória, o que vem de trás?

 

Entre os opostos de vida de solteiro em que a vivência das amizades é mais desregrada e uma vida em comum que se esvazia dos amigos que cada um tinha, existem soluções intermédias mais satisfatórias em termos do equilíbrio individual que importa preservar, mas que ainda esbarram com muitas dificuldades associadas ao sentimento de posse e ao entendimento do que é a exclusividade.

 

 

Isabel Pires

(blogue NASCER NA PRAIA)

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Convidada: SARA BARROS

por Pedro Correia, em 18.12.17

 

A máquina de moldar raparigas

 

O famoso dicionário americano Merriam-Webster elegeu feminismo como a palavra do ano de 2017, baseando-se na intensa procura que o termo teve nestes últimos doze meses e que representou um aumento de 70% face a 2016. Mas talvez algumas pessoas se questionem que necessidade pode haver de feminismo numa sociedade desenvolvida em 2017 depois de tantas conquistas sociais.

Será um mero capricho ou uma necessidade real?

 

Tomemos como exemplo uma mulher, chamemos-lhe Mónica.

Folheemos brevemente o seu álbum de fotos. Aqui está ela com cinco anos: entretida com uma mini cozinha, com tachinhos e que até faz barulhos como uma verdadeira. Ela também tem muitas bonecas para alimentar e embalar, uma mini tábua de passar e até um mini avental. Todos estes objectos, tão variados, só se encontram na secção das meninas. Quando for para a escola Mónica até vai poder ter um manual de actividades rosa só para meninas.

Mónica com onze anos: sentada numa cadeira enquanto a mãe lhe limpa os joelhos esfolados depois de uma expedição científica ao quintal. "Já tens idade para te portares como uma menina a sério", diz a mãe. Mónica não sabe o que responder. Ela ainda não sabe que muitas mulheres antes dela também tiveram a sua natureza condicionada por esta ideia.

 

Esta agora é ela com catorze: deitada de barriga para cima na cama com os olhos fechados, meio neste mundo meio no outro. O seu sangue já não lhe causa espanto, embora nunca tenha chegado a perceber porque é que nos anúncios a pensos higiénicos ele nunca aparece com a cor que realmente tem. Mónica pensa que gostava de ser mais como as mulheres que vê na televisão. Mais como Mariana, sua amiga que tanta atenção já atrai. Mónica ama Mariana e às vezes gostava de lhe arrancar os cabelos. As mulheres sempre fazem isso umas às outras nos programas e nos filmes. É muito engraçado de se ver. Ser mais como as princesas que são sempre bonitas e meigas e que ficam com o príncipe enquanto as adversárias são castigadas.

Mónica pensa nisto enquanto está no shopping com Mariana à procura de um novo par de sapatos. As duas riem de algo picante que Mariana diz. Uma puta com gelado de baunilha a cair para a blusa e ainda a correr para os insufláveis. Mónica sabe que muito em breve aparecerá um rapaz que lhe dirá o quanto ela é bonita e especial apesar dos muitos defeitos que já catalogou em frente ao espelho. Talvez se ela se sentar mais direita, se encolher o estômago, se sorrir mais. Talvez se não tivesse comido o gelado. Não como Mariana, mas um pouco como Mariana. Entre a vergonha moral infligida e a pressão para ser um objecto sexual.

 

Mónica aos vinte: a caminhar pela rua já tarde. Mas é uma rua bem iluminada e com movimento. Uma lição que foi bem aprendida. Fingir que se é surda e muda. Para não acabar como Mariana que se recusava a mudar de rua e a ser surda, andou à chuva e molhou-se. Mónica lembra-se das vezes que ouviu pessoas brincarem com situações parecidas. Ou a fazerem piadas envolvendo carros mal estacionados.

Uma memória mais antiga: uma imagem no seu livro da escola. Um homem entra em casa, a mulher está a segurar um tachinho, há um crucifixo. Mónica achou aquilo um pouco ridículo mas quando ao jantar disse que não se queria casar os pais apenas riram e disseram que ela tinha muito tempo para se divertir antes de subir ao altar.

 

Aos vinte e seis: a almoçar uma salada só de alface no escritório. Pensando em conselhos que lhe deram recentemente. Que devia arranjar alguém, viver assim sozinha não era coisa para uma rapariga como ela tão bonita (Mónica pensa: onde devemos viver. É uma trindade), que devia investir na carreira (Mónica pensa: para-tudo-e se tiver de abdicar do-não serei mais-do resto-desejável para ninguém-há um tempo certo), que devia era sair mais (Mónica pensa: Mariana, porque me abandonaste), que não se devia esquecer do relógio biológico (Mónica pensa: o meu útero a explodir como uma supernova quando o tempo da bomba relógio chegar a zero e então o mundo acabará).

 

Com trinta e três: deitada de barriga para cima na cama com os olhos abertos, muito neste mundo e pouco no outro, enquanto ouve um respirar tranquilo ao seu lado. Disseram: finalmente, não estás mais sozinha. Mónica não respondeu.

Finalmente. Uma última foto: Maria com onze anos sentada numa cadeira enquanto a mãe lhe limpa os joelhos esfolados.

 

Agora sim, podemos fechar o álbum e voltar à pergunta inicial: é o feminismo uma necessidade real?

Vivemos numa sociedade que sob uma capa de falsa igualdade, quando não mesmo abertamente, permite e incentiva a existência de mecanismos de opressão contra as mulheres, forçando-as desde cedo a moldarem-se a estereótipos e a papéis arcaicos de género, a preencher exigências contraditórias e impossíveis, culpando-as pela violência contra si e minando a sua auto-estima. E no fim levando-as a perpetuar elas mesmas este sistema de desigualdade.

A resposta é sim.

 

 

Sara Barros

(blogue DESABAFOS AGRIDOCES)

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Convidado: PAULO SOUSA

por Pedro Correia, em 15.12.17

 

Sobre os livros

  

Antes de serem lidos, todos os livros encerram um potencial de nos poder vir a agitar o espírito, de nos ensinar, ou até assustar. Fazem-nos sonhar, sorrir, gargalhar e até chorar. Depois de lidos, muitos deles ficam connosco para sempre. Um punhado mais restrito altera a maneira como pensamos e por isso mudam também aquilo que somos. Tal como acontece com algumas das pessoas com quem nos cruzamos na vida, alguns livros são verdadeiros pontos de viragem. São como o fim ou princípio de capítulos que dividem a nossa existência em partes distintas, como se tudo se resumisse a um antes e depois de cada um deles. 

Lembro-me de haver sempre  livros à minha volta. Quando era pequeno eles eram muito poucos e por isso muito mais preciosos. A escassez fazia-os gozar de uma procura que levava a que fossem partilhados repetidamente.
Ainda antes de eu saber ler, o meu irmão e o meu primo já tinham lido todos os livros que existiam nas duas casas. Sempre que o magro espólio era aumentado nenhum dos dois aceitava esperar pelo outro e acabavam a ler em simultâneo. O mais rápido esperava uns segundos pelo outro para só então se virar a página. Lembro-me de os ver assim, sentados no último degrau da escada, lado a lado, ora a interiorizar a mensagem ora a ver qual dos dois lia mais rápido. Tal como na natureza, após a escassez vem a sofreguidão. Para saborear não se pode ter fome e eles, que já salivavam antes de abrir a primeira página, liam tudo sem mastigar e sem se preocupar com a digestão.

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Eu via aquilo e queria também poder aceder àquele mundo que só existia quando as páginas se abriam. Esse mundo era frequentado por diversas pessoas da família de diferentes gerações. A muito partilhada lista de títulos fazia dos nossos livros um ponto de passagem que mais tarde ou mais cedo todos palmilhavam. Tornavam-se por isso também num ponto de encontro.

Quando finalmente aprendi a ler, a lista do títulos disponíveis nas nossas casas já era um pouco mais generosa e foi crescendo sempre sem nunca mais parar. Nunca tive de ler à desgarrada e nunca soube de mais ninguém que o tivesse feito.
Olhando para as gerações mais recentes, nenhum membro da nossa família alargada partilha o gosto por ler com semelhante intensidade. Todos consomem a maior parte dos tempos livres à frente de ecrãs.
Será que estamos a caminho de um mundo onde, como antes de Gutemberg, os livros voltarão ser lidos apenas por uma minoria?
Da mesma forma que a fotografia não matou a pintura, nem a televisão matou o cinema, também não serão os suportes electrónicos que matarão o livro. Mas mais do que perguntar se os novos suportes são complementares ou alternativos ao livro impresso, a dúvida que me coloco reside na capacidade e na disponibilidade intelectual de quem cresce como espectador passivo em frente de ecrãs. Que capacidade de interpretar, ou até de fantasiar, sobre o que do passado chegou até aos nossos dias terá quem não conhece o cheiro dos livros?

 

Paulo Sousa

(blogue VALE DO ANZEL)

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Convidado: PEDRO OLIVEIRA

por Pedro Correia, em 13.12.17

 

Sem balizas não se marcam golos

  

 

- Bom dia.
- Queria levantar cem euros.
- Tem preferência nas notas?
- Tanto faz.
- Aqui estão, duas de cinquenta.
- Ai, o que é que eu faço com dinheiro tão grande? 
- Então dê cá as de cinquenta. Quer como?
- Mais miúdo.
- Estão aqui, dez notas de dez euros.
- Está a brincar? Não quero levar essa miudagem toda.
- Então quantas é que quer trocar em maiores?
- Veja o senhor.
- Troco-lhe estas seis por três de vinte, leva sessenta em vinte e quarenta em dez.
- Troque-me esta de vinte por quatro de cinco.
 
Há uma frase do meu escritor francês (nascido na Argélia) preferido que diz isto: "le peu de morale que je sais, je l' ai appris sur les terrains de football".
Quantas situações da nossa vida se complicam pela falta de balizas, pelo enredamento em que nos vemos envolvidos, pela falta de objectividade.
 
Voltando ao diálogo que inicia este texto e que exaspera qualquer um (até eu fiquei cansado ao escrevê-lo), as coisas poder-se-iam ter resolvido de forma simples se a pessoa que foi efectuar o levantamento tivesse dito: "Quero cem euros em duas notas de vinte, duas de dez e quatro de cinco."
É claro que isso seria simples de mais. A nossa tendência natural é para complicar, burocratizar. Tornar difícil, o fácil e tornar complexo, o simples.
 
Falei há pouco em Camus mas é óbvio que o escritor não conheceu o futebol português, não assistiu, diariamente, aos doze programas televisivos, não ouviu os quarenta e seis debates radiofónicos nem leu os três jornais futebolísticos. Lá está, conseguimos tornar insuportável um jogo que na sua essência é composto por onze atletas de cada equipa a correrem atrás de uma bola para a introduzirem dentro de uma baliza.
A conclusão a que queria chegar é que a vida pode ser tão simples como um jogo de futebol, mas preferimos emaranhar em vez de rematar.

 

 

Pedro Oliveira

(blogue ENCRUZILHAMENTO)

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Convidada: BEATRIZ ALCOBIA

por Pedro Correia, em 11.12.17

 

Acerca da eutanásia

  

O Presidente da República pediu, há dias, a participação de todos os portugueses no debate sobre a eutanásia. Pessoalmente sou a favor do direito à eutanásia, mediante regulação de ponderação. 

Nenhum argumento contra a eutanásia me parece poder, legitimamente, sobrepor-se, de modo razoável, ao direito fundamental da pessoa decidir do seu destino, o que implica decidir da vida do seu corpo biológico, dentro do qual se passa a nossa existência neste mundo. 

Negar a eutanásia é legitimar a privação de liberdade, é apoiar a ideia de se poder condenar uma pessoa, já em sofrimento, a uma pena de prisão, sendo que a solitária é o seu próprio corpo, para apaziguar as consciências dos outros. Parece-me um egoísmo muito grande.

O argumento do possível arrependimento futuro da pessoa não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia de arrependimento na ponderação.

O argumento de manter a pessoa viva por conta de uma possível, embora improvável, cura, não é razoável porque a pessoa que decidiu pedir a eutanásia já lidou com a ideia dessa possível cura na ponderação.

O argumento da religião não é razoável porque ninguém tem que ser obrigado a viver pelos preceitos religiosos alheios.

O argumento de que a medicina serve para curar e não para matar não é razoável pois a medicina também serve para aliviar o sofrimento e ajudar e, de qualquer modo, a pessoa já está em estado de estar perto da morte ou em situação de não poder melhorar a sua condição de saúde e querer morrer com a sua ideia de dignidade, de modo que o médico não vai matá-la, vai permitir que a pessoa encerre a sua vida como decidiu, com alguma dignidade.

O argumento do erro de diagnóstico também não é razoável pois os diagnósticos, em casos graves, confirmam-se e infirmam-se. Não é como se uma pessoa fosse diagnosticada com uma doença grave e sem nenhuma confirmação, passada uma semana estivesse a ser eutanasiada.

O único argumento que me parece razoável, mas inconsistente, é o argumento da derrapagem. A despenalização da eutanásia levar a uma desregulação e a uma banalização da prática, como acontece na Holanda onde os idosos são pressionados a pedir a eutanásia para os hospitais rentabilizarem camas e onde o pessoal médico cada vez pratica mais eutanásias porque o hábito banalizou o acto. 

Penso que o argumento não é consistente pois podemos, sobretudo sabendo do exemplo da Holanda, regular o acto com prudência: deixar legislado quem, como e quando pode praticar a eutanásia e quais as precauções obrigatórias, nomeadamente, confirmar diagnósticos, garantir que a pessoa que pede a eutanásia ponderou a decisão, decidir o teatro do próprio acto de modo a garantir-lhe dignidade, deixar ao pessoal médico o direito de objecção de consciência, etc.

Não me parece razoável impedir o direito das pessoas à autodeterminação com o argumento de que dá muito trabalho regular o acto de modo a evitar abusos.

 

 

Beatriz Alcobia

(blogue IP)

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Convidada: MISS X

por Pedro Correia, em 06.12.17

 

Às almas antigas que nos desvendam

  

Nestes dias de frio natalício, percorrendo os versos de Pushkin - "antiga Primavera, que nos acode à imaginação, miragem de terra longe, duma rua" -, assomou-se-me à memória o meu avô. 

Era sempre após a queda da folha de Outono e do cair da geada de Inverno que o meu avô chamava todos os netos à sua presença.  

Como se nos quisesse ver apenas e só na Primavera, ressuscitados e renascidos, para um novo começo cíclico que se iniciava, não na data do nosso aniversário, mas a cada domingo de Páscoa. 

Com os nossos trajes domingueiros,  do alto da nossa meninice, um a um dirigíamo-nos ao patriarca da família, para prestar o nosso respeito e ouvir as palavras que precisávamos de ouvir. 

Como um acto de paz, em ramo de oliveira, o meu avô oferecia também um presente monetário, tornando-nos ainda mais crescidos perante tal oblação real. 

Sempre que era chamada à sua presença, ouvia-o atentamente, mas recusava sempre aceitar o que me oferecia, com um não apressado, em fuga pela porta do jardim. 

Naquele domingo de Páscoa dos meus 12 anos, encontrei-o sentado placidamente na sua velhice e eu, de pé, alta e esquiva, no meu vestido de menina, esperava-o em silêncio. 
Perante os meus olhos amedrontados, abriu a sua mão enrugada revelando a mesma oferta que sempre recusara. 
“Não posso aceitar”, disse-lhe.  

A sua voz interrogativa lançava-me um “Porquê” ao qual nunca respondi. 

Fechando a sua mão sobre a minha, suspira: "És uma mulher velha. Tens uma alma antiga dentro de ti. Nas tuas leituras, nas tuas palavras, nos teus actos, guardas milhares de anos vividos nesse teu coração. Nada está errado contigo, percebes? Tudo está certo."

De regresso a casa, a estranheza do meu ser iluminou-se em pleno sentido do existir.  
A única pessoa que me viu, para além de mim própria, que desvendou o meu próprio enigma, foi o meu avô. 

Neste Natal, aos anciãos e às almas antigas que nos desvendam, a minha sentida homenagem. 

 

 

Miss X

(blogue LIVROLOGIA)

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Convidado: EUFRÁZIO FILIPE

por Pedro Correia, em 04.12.17

 

A senhora da limpeza

  

Antes de chegar às galerias, identificaram-me com um sorriso.
Subi no magnifico elevador, conduzido por um delicado polícia.
Sentei-me nas galerias e olhei para baixo. Lá estavam os representantes da nação. Os eleitos da República. As palavras cruzadas, as ideias esgrimidas, as bandeiras nas lapelas, os passos perdidos, os aparelhos políticos. Os credos e os farsantes. Desiguais.
Inocente, segredei a um jovem cabisbaixo, companheiro de galeria :
-- Coisa linda esta democracia.
Lá em baixo também estavam os meus, pouco numerosos ainda mas a combater pela maioria que vive nos subúrbios de tudo.
Lá em baixo quase todos esquecidos de subir os olhos para as galerias, tricotavam a verve, gesticulavam poses de verniz.
De quando em vez disparavam blasfémias, partilhavam impropérios para mais tarde se abraçarem à hora do repasto. Quase todos.
Inocente, o jovem cabisbaixo, segredou-me :
-- Comigo, um dia isto será diferente.
 

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Terminada a sessão plenária os deputados saíram como estava previsto.
O amplo salão ficou vazio, soberbo e solene. De tantas memórias.
O salão ficou vazio mas eu deixei-me ficar até ser convidado a sair pelo mesmo delicado policia.
Foi um dia que resolvi festejar em silêncio.
Procurei um restaurante no belo bairro de São Bento e sentei-me à mesa.
Serviram-me um discurso intragável.
Fechei os olhos, abri os olhos e pedi o livro de reclamações.
Levantei-me da mesa sem pagar.
Os empregados ficaram a ler o meu protesto.
Lá fora ouvi alguns aplausos, mas fiquei na dúvida quanto ao seu voto.
Dei uma volta ao quarteirão e na passagem ainda olhei para a fachada do restaurante.
Para meu espanto a porta rangeu.
Começou a abrir-se lentamente.
Era a senhora da limpeza.
 

 

Eufrázio Filipe

(blogue MAR ARÁVEL)

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Convidada: CÁTIA SAMORA

por Pedro Correia, em 01.12.17

 

Solidariedade feminina, realidade ou mito?

  

Recuemos aos idos e saudosos anos 90. Ao meu terceiro ciclo (7.º, 8.º e 9.º anos). Aquela época em que a adolescência já estava em fase galopante, as hormonas andavam descontroladas e a personalidade ia-se construindo com picos de felicidade extrema e tristeza profunda. Oscilações perfeitamente compreensíveis à luz dos 13, 14, 15...

Desta época guardo boas memórias, mas também recordo que tive mais amigos do sexo masculino que do sexo feminino e lembro-me bem o que motivou esse facto.

A verdade é que a grande maioria das meninas da minha turma gostava de falar mal umas das outras nas costas e eu não tinha paciência para aqueles jogos. Mas a cereja no topo do bolo viria a ser a amizade saudável e despreocupada que eu mantinha com um dos rapazes que mais amores despertava na turma.

Resultado? Consegui, sem me esforçar absolutamente nada, que o sexo feminino, praticamente em peso, me odiasse. As raparigas da minha turma passaram a excluir-me de tudo e, certa vez, combinaram uma ida ao cinema onde toda a turma foi convidada, excepto eu e a minha melhor amiga, que era excluída por arrasto. Mais! Ameaçaram os rapazes: "se lhes dizem para ir cancelamos tudo."

Apesar da maldade deste episódio que vos descrevo ele não foi traumatizante, pois já na altura eu fugia de dramas e sabia bem o que não queria. E o que eu não queria era amizade por conveniência, era ter de agradar a algumas pessoas só para que não me vissem como um alvo a abater.

E por que razão vos conto eu isto? Simples.

Analisando a sociedade em que vivemos e falando agora de comportamentos adultos, creio que as mulheres, de um modo geral, continuam a tratar-se como aquelas meninas me trataram.

 

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Existe solidariedade feminina? Não me parece... E mais grave ainda, na minha opinião, é não existir respeito entre mulheres. Parece que estamos sempre prontas a atacar, esperamos um deslize para poder apontar o dedo. Criticamos, com todo o azedume que conseguimos reunir, o sexo feminino com base na roupa, na postura, na maquilhagem, no penteado, na cor do cabelo, na forma como educa os filhos, no comportamento que tem para com o marido, na dieta que segue, na dieta que não segue, na forma como conduz, no modo como fala, como decora a casa, como vive a sua vida...

Parece que o sexo feminino é capaz de tolerar tudo, menos uma falha vinda de outra mulher.

Não sei de onde virá esta agressividade que pauta os nossos comportamentos, talvez venha dos tempos em que tudo aquilo que as mulheres ambicionavam era um bom partido e, motivadas por isso, a ciumeira e a disputa eram inevitáveis. Comparavam-se partidos e dotes e o sentimento de rivalidade era genuíno. Ou talvez seja algo mais recente... Mas o que importa isso?!

O que tem de importar aqui e agora é o futuro. Aquilo que podemos fazer a partir deste preciso momento em que nos encontramos. A mudança tem de estar presente no nosso quotidiano, na forma como educamos as nossas crianças ou no modo como vamos reagir da próxima vez que uma mulher falhar connosco. Temos de ser capazes de nos autocriticar e dizer: “Eu vou ser mais solidária para com as mulheres da minha vida."

Pessoalmente, e com vergonha vos confesso, também eu já fui injusta, já teci juízos de valor com base em coisas supérfluas. Contudo, tenho em mim o desejo de mudar, o desejo de que esta lacuna se possa fechar.

Farei o meu melhor e mais um pouco ainda.

 

 

Cátia Samora

(blogue HÁ MAR EM MIM)

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Convidado: JOÃO BRANCO

por Pedro Correia, em 29.11.17

 

Análise patológica à falta de cultura desportiva

que grassa pelo nosso país

  

I

Um espectáculo profundamente abjecto, asqueroso e degradante que ultrapassou todos os limites da decência e do bom senso e trespassou a própria lei, tornando-a, como se diz na gíria, um mero verbo de encher. Não posso de modo algum qualificar de outra maneira, com recurso a uma adjectivação mais suave, a luta fratricida a que temos assistido, no campo das palavras, nos últimos anos no futebol português. Se o fizesse, creio que estaria a passar um verdadeiro paninho quente pela irracionalidade instalada no pensamento dos dirigentes, dos jornalistas (?) e dos adeptos (adeptos? consumidores, vá) do futebol do país que é actualmente o detentor do título europeu.

O mais grave disto tudo é precisamente isso: o mau exemplo, a má imagem, o horrível cartão de visita do nosso futebol que temos vindo a oferecer a toda a Europa. Enquanto campeões europeus em título deveríamos estar a viver actualmente a fase de maior apogeu do nosso futebol. Deveríamos ter aproveitado o momento histórico (e a responsabilidade associada que veio certamente pendurada na Taça; se a quiseres manter na vitrine do teu museu daqui a 4 anos, aproveita esta ocasião para proceder à realização de um conjunto de acções, medidas ou programas que possam melhorar o grau de conhecimento sobre o jogo existente no teu país, a formação de treinadores, aumento de qualidade que certamente se irá reflectir na formação de melhores atletas e de mais completos seres humanos; dota os teus clubes de mais condições infraestruturais e superestruturais; usa toda a experiência e conhecimento acumulado para formar melhores dirigentes; porque só assim poderás manter o nível de qualidade e potencial atingido) vivido pela nossa selecção na Gália para realizar uma inversão total ao estado de sítio instalado, estado de sítio que é tão e somente o produto do estado de falência generalizada (financeira, moral, cultural) dos nossos clubes, dos nossos dirigentes, dos nossos consumidores-cidadãos, dos grupos editoriais e até dos próprios jornalistas.

Estou convicto que todos têm a sua quota-parte de culpa neste degenerativo processo em curso que ameaça, a curto prazo, recolocar o nosso futebol no mesmo patamar em que se encontrava há 30 anos se o paradigma vigente não for alterado rapidamente para outro que atribua mais importância ao conhecimento sobre o jogo.

 

II

A direcção pensa e acorda a estratégia no briefing diário. O presidente vira-se para o seu ventríloco de estimação, para um Saraiva qualquer, que pode chamar-se Marques ou Luís Bernardo (se bem que o Luís Bernardo não risca nem escreve absolutamente nada nos discursos de Luís Filipe Vieira; tal serviço é encomendado a uma espécie de ghost-writer chamado António Galamba; ó Luís, este é o meu melhor ângulo?) e diz: "olha, ó Saraiva, mandas-me este texto para o Fernando Mendes?" - o Saraiva manda para o Mendes. O Mendes, que bem pode chamar-se Calado ou Freitas, não se importa de ejacular (todas as noites) a informação em directo porque, estando necessitado do verdinho que recebe do clube e do canal de televisão para realizar uma acção de cobertura aos fiados que deixou um pouco por toda a parte, dispõe-se a tudo. Até a mentir.

Ameaçado de despedimento caso não escreva sobre o assunto, o jornalista de turno abre o laptop para contornos ficcionais à coisa. "Se não escreveres, o povo não deixa cá o clique. Se o povo não vier cá deixar o seu clique, ninguém patrocina isto. Se ninguém financiar isto, vamos todos para o olho da rua. Portanto escreve bem. Escreve tudo o que sentes até que te doam as mãos, menino."

 

O cidadão comum, advogado de profissão, lê no dia seguinte, antes de entrar na sessão no tribunal, sessão onde o cosmos lhe cai graciosamente sobre o ombro e sobretudo, sobre a língua:

Advogado A: "Meretíssimo, em primeiro lugar saúdo a sua pessoa, desejando-lhe toda a  sapiência (e todos os mais humildes, sinceros, estimados e atenciosos votos de confiança, saúde para o Sr. Meretíssimo e para a sua santa família) na aplicação da Justiça neste processo que nesta gloriosa manhã de Inverno nos traz até aqui à humilde casa basilar do Estado de Direito Democrático, campo de batalha de muitas querelas cavalheirescas entre causídicos, nas quais respeitamos honrosamente como sempre, como não poderia deixar de ser e como é nosso apanágio, a lei e os bons costumes de actuação desta corte. Queira-me também o meretíssimo Juiz dar-me apenas um segundinho muito importante para saudar os Srs. Procuradores com a mais calorosa e cordial das saudações, declarando-me incondicionalmente rendido ao trabalho lavrado neste despacho de acusação, despacho que aproveito para considerar como fidedigno em relação aos actos. A Sr. Procuradora, garbosa como sempre, com o seu cabelo aprumadinho que certamente muito trabalho deverá ter dado à sua ditosa mas não menos genial cabelereira..."

(entretanto o Juiz adormece porque o homem desdobra-se ordinariamente em mesuras, tratando até a empregada de limpeza de ocasião que está a passar pelo corredor por "Minha querida senhora, tieta do agreste que agora me deste uma visão do demónio que não posso, ai se não fosse casado, o que faria consigo sua pérola de diamantes, mais linda que qualquer uma ali posicionada estrategicamente no peitinho, ai no peitinho, ai o meu peitinho que não cabe em mim de tanta paixão que sinto, não tanto descaída para o seio direito mas mais para o esquerdo da Grace Kelly)"

Advogado B repete de seguida a mesma ordem de cumprimentos e saudações, bajulando tudo e todos a eito, qual metrónomo da arte do piropo hipócrita. Eis a arte de dizer muito pouco em muitas palavras, uma especialidade clássica do ser lusitano.

 

A audiência é dada por encerrada. Os dois advogados chegam ao café:

A: "O gajo nem lhe tocou, pá. Foi um mergulho para a piscina. Como é que és tão cego, meu?"

B: "Não toca? Vives em que mundo, caralho?"

A: "Olha, no do teu clube, que só sai à rua de 8 em 8 anos, certamente que não vivo, ó dragarto. Todos os anos vou ao Marquês com a família lá pelos idos de Maio enquanto tu ficas em casa a tocar corneta."

B: "Não admira. Com as instituições todas dominadas e com os árbitros todos comprados. É só colinho, tu..."

A: "Colinho? Mas tu és do único clube que até ao dia de hoje viu um dirigente condenado por corrupção!"

 

Por aqui me fico. Eis o verdadeiro elogio à irracionalidade. Este é o discurso irracional de gente que se considera a última coca-cola do deserto da racionalidade, os Descartes dos tempos modernos. Posto isto nem queiram imaginar o teor linguístico do discurso que à mesma hora é mantido por dois bêbedos no tasco. Várias foram as vezes em que já os vi, aqui pela rua do Arco, em Viseu, à paulada.

O produto do pensamento de um bando de manipuladores torna-se o prato do dia. A bola, o leitmotiv disto tudo, é pontapeada para fora do estádio sem piedade. Discute-se tudo até ao osso: movimentações de bastidores, problemas internos, problemas de balneário, situações financeiras dos clubes, zangas entre jogadores e namoradas, posts enigmáticos no twitter... A falha de marcação do central é sempre justificável e justificada com um erro do árbitro no minuto seguinte. Passámos da era da crítica aberta ao árbitro à éra da crítica aberta ao videoárbitro. Levam os dois na tarraqueta.

Parafraseando o saudoso Salgueiro Maia: "eis ao estado a que chegámos!"

Urge acabar com isto. 

 

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III

Um país sem respeito pela diferença e incapaz de promover a igualdade de oportunidades é um país falido moralmente. Falido moralmente e sem futuro. Que é um país sem futuro já eu sei há muitos anos. Contudo, como sou um romântico da coisa, teimo em continuar por aqui a arrumar caixotes à espera que a minha oportunidade chegue. 

"Eles vão acreditar nas tuas capacidades, meu querido."

Vão, o tanas! Neste país só se salva quem tem cunhas ou quem exerce eficazmente a sua influência junto de terceiros.

Voltando ao assunto.

Sabiam que o Comité Olímpico Português paga mensalmente:

  • 1375 euros a atletas olímpicos de Nível I do Ciclo de Preparação para os Jogos, pagando apenas 518 a atletas paraolímpicos do mesmo nível?
  • 1100 euros a atletas olímpicos de Nível II e somente 386 euros (um valor abaixo do salário mínimo nacional) a atletas paraolímpicos?
  • 900 euros a atletas olímpicos de Nível III e somente 226 euros (abaixo de qualquer pensão rural paga a quem nunca colocou um cêntimo a render na Segurança Social durante toda a sua vida) a atletas paraolímpicos do mesmo nível?

 

Sim, é verdade. Não quero contestar os valores que são pagos aos atletas olímpicos apesar de crer que estes valores não satisfazem nem de perto nem de longe as suas necessidades, visto que são atletas que, além dos gastos estruturais decorrentes das suas vidas, têm que gastar centenas de euros em materiais de treino, suplementos alimentares, viagens, alojamento, refeições em dias de competição, consultas médicas, de enfermagem, consultas de fisioterapia, gastos com staff técnico, etc... Estas bolsas são uma perfeita esmola. Quero, sim, contestar apenas a desigualdade da coisa. O que diferencia mesmo o suor de um atleta olímpico de um atleta paraolímpico? 

E as próteses, pagam-se como? E as cadeiras adaptadas para momentos de competição, pagam-se como? E os óculos, pagam-se como? E as despesas estruturais, de deslocação, alojamento e material dos atletas-guia que acompanham alguns dos atletas? E as despesas das pessoas que têm de acompanhar os atletas que não são autónomos? Será que uma mísera esmola de 226 euros no caso dos atletas de Nível III paga tudo isto?

Já agora: porque é que se atribuem 1375 euros mensais a um atleta como o Nelson Oliveira (pago principescamente na Movistar) e só se atribui uma bolsa de 1100 euros ao Rui Bragança (Taekwondo) que coitado, para competir internacionalmente, tinha que ir saquear a arca das pandinhas de 1 euro aos pais?

 

IV

Por último.

Quando vou por aí ao domingo de manhã ao Fontelo ver jogos de formação, assusto-me com as atitudes que são praticadas pelos pais. Não obstante a pedagógica informação que circula a rodos pelos campos, que é distribuída no início da época pelos clubes aos pais, pelas associações regionais e pelas federações aos clubes, sobre o papel dos pais na vida desportiva dos seus filhos, vejo cenas que não lembram nem ao Mitroglou:

"Rodrigo, tu não vais dar mais golos ao Francisco. Os olheiros do Dragon Force vieram-te ver. Quantos mais golos deres ao Francisco, mais estás a contribuir para que ele vá para o Porto e para que tu fiques aqui a jogar pelos distritais. É isso que queres?"

"Tá bem, pai."

Sim, leram bem. Esta foi a apreciação, num tom despregado, em que um pai se dirigiu ao filho à saída do balneário, bem à minha frente. Sim, o clima de competição inter-trabalhadores promovido pelo sistema capitalista já chegou ao único sítio onde é actualmente permitida à criança brincar. 

 

O futebol representa para alguns pais a sua válvula de escape das frustrações do dia-a-dia. Tenho visto comportamentos que não lembram nem ao diabo, como pais a agredir-se, árbitros a ser apedrejados, pais a ameaçar árbitros à entrada dos balneários, pais descontrolados a ameaçar treinadores (porque o seu filho só jogou 3 minutos!!), pais a retirar crianças do campo quando a prestação dos filhos não lhes está a correr de feição, pais a criticar a alto e bom som o rendimento de colegas dos seus filhos à frente dos seus pais. Para outros, a participação desportiva do seu pequeno rebento é encarada como a única oportunidade para escalar o monte do Evereste que é a sociedade portuguesa.

Os olheiros andam aí. Há que gabar a cesta para que ela finalmente se venda. Com os olhos postos no Prémio se um dia o rapazote vier a vingar neste mundo cão (facto que acontece na razão de 1 em 100000000000) para certos pais, a actividade desportiva do seu filho é um vale tudo. Leram bem: um vale tudo. Vários são os que diariamente me pedem um olheiro à medida das simpatias clubistas. Eu bem tento retorquir, com alguma ironia (que nem todos entendem), que para se chegar ao Benfica ou a um Sporting não basta partir a jarra lá de casa com um pontapé de bicicleta.

É preciso muito mais que isso, mas eles não querer crer! 

 

Uma generosa fatia dos comportamentos que vou vendo por esses campos vem de pais que não fazem a mínima ideia do sofrimento, do constrangimento e até dos traumas (que se irão reflectir na personalidade do futuro indivíduo, provocando aquilo a que chamamos profundas falhas de carácter) que provocam nos miúdos com as suas atitudes. Há pais que não compreendem que uma atitude motivada pela performance do filho, que a desvalorização do desporto enquanto uma ferramenta de mero divertimento, que a valorização do desporto como uma forma de ascensão social, e que a incorrecta pressão que incutem sobre o rendimento desportivo dos seus filhos ou sobre a gestão que é feita por treinadores e dirigentes são atitudes que passam naturalmente para os comportamentos destes.

 

 

João Branco

(blogue O MEU CADERNO DESPORTIVO)

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Convidada: RITA PIRES

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

Das músicas que enfeitiçam

 

 

«Índio do queixo torcido 

Que se amansou na experiência 

Eu vou voltar pra querência 

Lugar onde fui parido.» *

 

Música.

Um mundo muito relativo. Cheio de opções e de estilos. Pessoal e, quase, intransmissível. O que gostamos hoje pode não ser aquilo de que gostávamos há um, cinco ou dez anos. Ou então pode e mantemo-nos fidelíssimos a uma ou outra, em particular, durante anos a fio. 

 

Gostamos de uma porque a ouvimos no momento certo. Gostamos de outra porque a ouvimos no momento errado. Não nos esquecemos daquela porque era a que tocava na rádio quando nos levantávamos para ir para a escola e os nossos pais conversavam à janela, apanhando o primeiro ar da manhã, minutos antes de também saírem de casa para trabalhar.

Queremos voltar a ouvir a outra porque precisamos de chorar o mesmo choro de há uns anos, quando descíamos a rua e passávamos no lugar onde conhecemos um amor já perdido.

Gostamos de uma porque nos faz vibrar exactamente da mesma maneira que vibrávamos quando tínhamos 20 anos e o mundo era um lugar sem fim e até o impensável era possível.

Escutamos outra porque nos traz uma existência onde a tristeza não existe. E pomos outra a tocar justamente porque precisamos de sentir uma percentagem dessa tristeza. 

 

 

 

Qual é a probabilidade de encontrarmos a música certa para nós?

Aquela mais consistente, que nos encaixa no ser, ou a outra mais emotiva que fala de nós, em determinado momento, sem que quem a criou nos conheça ou venha a conhecer? 

O que faz uma pessoa ligar o rádio, em casa para cozinhar ou no carro antes de rumar ao trabalho, no exacto momento em que Aquele som está no ar?

O que faz outra pessoa vaguear na Internet e encontrar aquela outra música que nunca ouviu em lugar nenhum? 

 

Foi algo parecido que me sucedeu com a música que ilustra este post. Julgo, até, que pode muito bem ter sido neste mesmo blogue o local onde a achei. E depois o mundo virtual tem destas coisas. Pesquisam-se mais músicas, escutam-se entrevistas.

Não desfazendo o autor da letra, sublinho quem a interpreta. Vítor Ramil, uma tranquilidade capaz de fazer viajar para a mais doce nuvem de algodão. Há muitas outras músicas das quais gosto, sem dúvida. Mas gostar desta é pessoal e – definitivamente – intransmissível.

 

* Poema de João da Cunha Vargas, musicado por Vítor Ramil.

 

 

Rita Pires

(blogue CENAS TIPO)

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Convidado: ANDRÉ ABRANTES AMARAL

por Pedro Correia, em 20.11.17

 

Das imagens que criei de certos escritores

 

 

“Gostava de livros mas não gostava de escritores

Rubem Fonseca, A Grande Arte

 

Foi em Junho no Chiado. Estava imensa gente em frente à Brasileira e eu tive de me pôr em bicos dos pés para ver Mário Soares, que nessa altura era Presidente da República e que estava no Chiado, em frente da Brasileira, no meio daquela gente imensa a inaugurar a estátua do Fernando Pessoa.

Eu olhava para a estátua do Fernando Pessoa sentado à mesa e de perna cruzada e achava que quem o tivesse visto ali verdadeiramente sentado a ler ou a escrever ou a beber café ou o que fosse, nem que fosse esperar, teria presenciado a história. Eu via uma estátua; alguém tinha visto a pessoa.

 

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Mais tarde, não muito mais tarde só que naquela altura pouco era muito tempo, estávamos na Place Saint-Michel e eu e os meus pais soubemos pela primeira página de um jornal pendurado num quiosque, já não me lembro muito bem mas penso que era o Libération, que Georges Simenon tinha morrido.

A fotografia a preto e branco dum homem com um cachimbo, na primeira página dum jornal naquela praça perto do Quai des Orfèvres, é a que me vem à memória quando pego num Maigret. Pessoa foi uma estátua numa esplanada, Simenon uma foto num jornal preso num grampo dum quiosque.

 

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Anos antes, em frente à Barata havia uma banca de jornais, daquelas que eram caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios onde estavam os jornais e as revistas para serem vendidos, e foi pelas primeiras páginas desses jornais pousados em cima dum desses caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios, naquela altura como era de tarde os vespertinos desse dia, que soube da existência do José Gomes Ferreira. Soube da existência do José Gomes Ferreira quando ele tinha deixado de existir. Não tinha idade para mais e o homem tinha morrido naquele dia. Ainda nessa tarde cheguei a casa da minha avó que comentou com os meus pais então souberam do José Gomes Ferreira? Vivia perto de vocês. Ao que parece vivia perto de nós e eu não sabia. Ainda hoje lá está a placa. José Gomes Ferreira, além dos livros, mas todos os escritores são alguma coisa além dos livros, tornou-se na placa presa na parede do prédio dizendo a quem passa e não olha para ela que ele viveu ali até àquele dia em que eu soube da sua existência pelas capas dos vespertinos que eram vendidos em cima de caixotes de madeira, frente à Barata.

 

Vamos agora avançar um pouco mais no tempo até uma noite em que eu subia a Avenida da Igreja e me cruzei com José Cardoso Pires. Reconheci-o e, apesar de ter disfarçado, ele deve ter reparado porque quando me viu afastou logo o olhar. Continuei a subir e ele a descer até que ganhei coragem e olhei para trás e vi-o: um vulto que desaparecia na noite enquanto descia a avenida que eu subia. Quando mais tarde li O Delfim ou a Balada da Praia dos Cães, um vulto na noite a descer a avenida era a imagem que me vinha à mente.

 

Deparei-me com outros escritores, alguns nas apresentações dos seus livros outros que vou conhecendo, mas esses perdem o fascínio criado pelas palavras que escreveram. E não é só isso. A magia tem também que ver com a idade. A idade que temos e a idade que eles têm. Ou tiveram. A diferente geração a que nós e eles pertencemos. José Gomes Ferreira, nascido em 1900, ou Cardoso Pires em 25, não têm nada a ver com António Lobo Antunes, nascido em 42. Este estava na feira do livro numa tarde de chuva a conversar com Lídia Jorge, e está bem, era ele e era ela e estavam lá. Pelo menos para mim é assim que para quem tenha agora 10, ou 20 anos, talvez possa ser diferente. Mas quem tem hoje 10 ou 20 anos também não ficou a saber quem era José Gomes Ferreira quando estava em frente da Barata a ver as primeiras páginas dos vespertinos deixados em cima de caixotes de madeira à espera que lhes pegassem.

 

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E depois houve Agostinho da Silva. A minha mãe dava consultas ali muito perto do Príncipe Real e via-o quase todos os dias a tomar café, pois tomavam café no mesmo café no Príncipe Real. Ela via-o quase todos os dias e um dia disse-me que se eu quisesse ela um dia falava com ele e dizia-lhe que eu gostaria de conversar com ele um dia. Eu disse que sim, ela falou-lhe e ele disse que sim também. E encontrámo-nos. Foi numa manhã de Abril na Travessa do Abarracamento de Peniche que eu bati à porta e falámos. Uma manhã inteira nisso, numa conversa sobre Deus, sobre Portugal, sobre os Portugueses, sobre a liberdade, sobre como um político deveria ter a humildade por implorar para não ser candidato, sobre o coitado do Belmiro que só tinha responsabilidades e não era livre, sobre o número de contribuinte que ele recusava ter, sobre aquela frase do homem não ter nascido para trabalhar mas para criar que é uma frase mas também uma forma de estar na vida. Tudo aquilo que Agostinho da Silva dizia nessa altura ele conversou comigo nessa manhã.

Agostinho da Silva não era propriamente um escritor como os de cima, mas um filósofo, um filósofo que se calhar está para Portugal como Paul Ricoeur deve estar para a França. Foi alguém que conheci, a quem apertei a mão, com quem falei e que soube quem eu era. E se outros viram Pessoa sentado no Chiado, eu estive com um dos que melhor o estudaram entrando dessa forma nesta pequena história que escrevi sobre como, se estivermos atentos, acabamos por viver a história.

 

 

André Abrantes Amaral

(blogue O INSURGENTE)

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Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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Convidado: JOAQUIM A. RODRIGUES

por Pedro Correia, em 15.11.17

 

Há sempre qualquer coisa

 

Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está p'ra acontecer” no mundo.

 

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia.
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.
 

 

 

 

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

 

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.
A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

 

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.
 
 
Nota:
Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím,
e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

 

 

Joaquim Alexandre Rodrigues

(blogue OLHO DE GATO)

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Convidado: AUGUSTO MOITA DE DEUS

por Pedro Correia, em 13.11.17

 

Aprender e compreender

 

Há assuntos delicados de abordar e um deles é o racismo, tema que tem ganho crescente notoriedade na opinião pública nacional em tempos recentes, nomeadamente através de uma série de artigos no Público, bem como devido a notícias como a da polémica em torno da estátua do Pe. António Vieira, ou o caso dos seguranças do Urban Beach. É um tópico que continua na ordem do dia nos EUA, mesmo através de ângulos surpreendentes. Veja-se a revelação recente de campanhas especiais de agitação da opinião pública americana envolvendo Pokemons Go, orquestradas a partir de São Petersburgo. Para além de delicado, este é um tema arriscado, pois ao falar pode-se desencadear o tipo de reacções que se pretendem minorar, numa espécie de efeito boomerang. Mas falar é importante. Compreender é fundamental.

 

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Existe racismo em Portugal? Claro que sim. Como o combater? Pelo desenvolvimento duma cultura de hiper-consciencialização racial? Será que não pode dar-se o azar de termos uma espécie de gato de Schrödinger, em que ao abrir a caixa de Pandora da polémica racial, podemos estar a matar o dito gato? Nos EUA faz-se a categorização das etnias (African American, Hispanic, White, Native American, etc) e isso até pode ter uma boa intenção subjacente, mas tais medidas consciencializam algo que deveria ser tão irrelevante e opaco para a nossa interacção mútua quanto o nosso grupo sanguíneo.

 

Há medidas de carácter proactivo que podem ser tomadas? Claro que sim, mas de preferência atacando os problemas na raiz e não de uma forma superficial, skin deep. Veja-se por exemplo as condições de aprendizagem das populações mais desfavorecidas. Não sou sociólogo, mas é óbvio que há desigualdade de oportunidades para a generalidade das populações de certos bairros, independentemente da origem étnica (com diferentes incidências, admita-se). Trata-se na base de uma questão em larga medida de natureza económica. Esses miúdos têm acesso a boas condições de estudo, apoio escolar, ou um ambiente em casa que favoreça a aprendizagem? É também um problema de organização escolar, visto que os estabelecimentos de ensino desses bairros têm de lidar com problemas complexos (de segurança, por exemplo), que dificultam o cumprimento da sua missão educativa.

 

Mas existe também um problema de compreensão e de crença: não tenho estatísticas para citar, mas tenho fortes suspeitas que, a montante, professores das escolas dos bairros desfavorecidos frequentemente deixam de acreditar nos seus alunos, esquecendo-se que cada nova geração de crianças e jovens que recebem no início do ano é… isso mesmo, nova, uma multidão de pedras preciosas em bruto, cada uma delas um potencial caso de sucesso escolar e pessoal. A educação é uma batalha que se trava corpo-a-corpo, aluno-a-aluno. Cada aluno é diferente, não se podendo generalizar a partir de eventuais maus resultados anteriores. Por outro lado, a jusante, quando aparecem jovens que têm propensão para os estudos, o que sucede? O que dizer da pressão de grupo sofrida para que esses jovens não se destaquem nas notas? Noutros casos, em especial no caso das raparigas, será que é fácil estudar quando ao fim dum dia de escola, a tarefa principal é cuidar dos familiares mais novos? Quem defende e ajuda estes jovens?

 

O que nos traz de volta à questão económica, que condena certos bairros ao ostracismo social, o que obviamente entronca no racismo, pois a percentagem dos grupos étnicos varia de bairro para bairro e as decisões respeitantes a esse tipo de profiling já foram tomadas infelizmente há muitos anos atrás. Neste respeito é contudo útil observar certas subtilezas. Hoje em dia dizer uma piada racista suscita uma reacção imediata das redes sociais e da opinião pública em geral, e bem. Mas o que dizer daquelas graçolas que dão uma conotação negativa a certas zonas economicamente mais deprimidas? Por que isso não é igualmente denunciado? Há uns tempos alguém dizia que a Madonna numa certa foto parecia uma cabeleireira da Damaia. Se fosse uma cabeleireira de Oeiras, já não teria piada, certo?

 

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A questão não é censurar o humor, mas sim compreender porque é que para algumas pessoas isso sequer tem graça. Aliás, um caso ainda mais notável eram as constantes chalaças em torno do facto de Pedro Passos Coelho morar em Massamá e passar férias na Manta Rota. Se ele morasse na Quinta da Marinha e fosse a banhos na Quinta do Lago, isso nem sequer era assunto.

 

Em suma, na questão do racismo é preciso atacar as causas de fundo, económicas, educacionais. Dar oportunidades e mudar mentalidades. Urge aprender e compreender.

 

 

Augusto Moita de Deus

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidado: DAVID MARINHO

por Pedro Correia, em 10.11.17

 

Newton à portuguesa, século XXI

 

A terceira lei de Newton diz-nos que qualquer acção tem uma reacção com a mesma intensidade e direcção, no entanto, em sentidos apostos. Ora, aplicando estupidamente esta lei ao que aconteceu no Urban Beach, parece-me que peca por tardia.
É que, após dezenas de queixas-crime por violência ou actos discriminatórios no Urban Beach, foi preciso um vídeo, violentamente gravado na vertical, fazer despoletar uma acção política sobre esta casa de diversão nocturna. Impressionante como o facto de chegar a mais gente faça mover as opiniões e as ações definitivas para as coisas, não bastando o assunto em si, porque é preciso causar ruído. E coisas como o Urban existem ao pontapé na política portuguesa (falando nesta, claro), porque nunca se soa um alarme se a casa não ardeu por completo. É esta a estratégia que devemos tomar? Envergonhar as instituições e/ou pessoas na praça pública para que se calem com a solução do problema?
E agora sei o que vai acontecer. Os seguranças privados irão para uma reunião admitir que a vida está difícil, farão greve se for preciso, as discotecas/bares, etc não poderão abrir e daqui a qualquer coisa como dois meses aparecerá a notícia a dizer que o negócio da noite está a cair a pique. E com isto aproveita-se um célebre sketch dos Gato Fedorento, o "Lusco-Fusco" que serviria para colmatar o problema da noite, e assim eles voltam à ribalta. Com jeitinho ainda dizem que são como os Simpsons, que prevêem coisas e que elas se tornam ridiculamente iguais. É isto, não é? (E com isto previ eu o futuro e receberei os louros por isso. Se não acontecer, esqueçam, está bem?).
O meu ponto é: a violência, seja ela qual for, deve ser punida e é punida por lei. Não têm de bater duas ou três vezes até acontecer, deve-se actuar logo. E actuar significa, antes de tudo, haver queixa, seja de quem vê, seja de quem leva. Nada disto é científico e até percebo a questão das represálias que podem advir da queixa por parte do agressor e que a violência seja maior a partir daí. Mas a política, a discussão pública, deve incidir na segurança que devemos ter todos quando nos queixamos, e que a acção sobre a mesma deve existir desde o momento que é provado (porque na maioria das vezes é fácil de provar).

 

 

David Marinho

(blogue DOMINGO À TARDE)

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Convidada: MARGARIDA C. AGUIAR

por Pedro Correia, em 08.11.17

 

Envelhecimento demográfico, um desafio à inovação

 

Nas economias mais desenvolvidas, o fenómeno do envelhecimento demográfico é uma realidade inexorável que está a entrar, cada vez mais, pela casa adentro. Por cá, o assunto não tem merecido a atenção que exige, não apenas pela dificuldade que temos demonstrado de descolarmos do curto prazo, mas também pela falta de visão necessária para o desenho de políticas públicas com objectivos que no médio e longo prazos operem os efeitos desejáveis.

O envelhecimento demográfico é considerado por muitos um problema para o futuro. E não deixa de ter razão quem assim pensa numa sociedade que não é capaz de pensar de forma diferente. A primeira transformação a fazer é cultural. Não sendo possível inverter o envelhecimento demográfico, o que verdadeiramente importa é sermos capazes de encontrar soluções que se adaptem às novas realidades.

Com efeito, o fenómeno do envelhecimento não é novo – todos sabemos. Os números são sobejamente conhecidos e as projecções têm uma probabilidade elevada de se concretizarem, bastando para tal olhar para o passado e o presente. Há muito que a estatística nacional e que estatísticas e estudos de instâncias e centros de investigação europeus vêm chamando a atenção para as trajectórias inversas da curva de natalidade e da curva de longevidade. A primeira em movimento descendente e a segunda, pelo contrário, em movimento crescente. A população total está a reduzir-se e estamos a envelhecer. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. Os números não oferecem dúvidas. Estes, ao contrário de muitos outros, não têm discussão.

 

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Vivermos mais tempo é motivo para nos deixar mais felizes. Seria expectável que esta perspectiva de bem-estar nos obrigasse a pensar e a actuar no sentido de criarmos condições para que a boa notícia do aumento da esperança de vida possa ser vivida com dignidade e qualidade de vida.

Políticas públicas e sociedade civil deveriam conjugar esforços para remar ambas para o mesmo lado, complementando-se e articulando-se na definição de estratégias nacionais integradas e transversais, intertemporalmente consistentes, fortemente apostadas no investimento na inovação, identificando caminhos para os quais deve ser canalizado o esforço.

É muito importante que as populações tomem consciência do envelhecimento. Não basta saberem que vivem mais anos: é fundamental que compreendam as políticas públicas do envelhecimento e participem nelas, se organizem enquanto sociedade civil, de modo a criar um clima favorável às transformações da economia e organização social. Temos toda a vantagem em sermos protagonistas da mudança. Antecipar caminhos, dispor de uma estratégia para lidar com as boas e as más notícias é a única via. O pior que nos pode acontecer é o futuro bater à nossa porta e não estarmos preparados para o receber.

 

Portugal não está ainda preparado para a complexa realidade trazida pelas alterações demográficas, com reflexos, entre outros, na economia, nos hábitos de poupança, na equidade intergeracional, na gestão do ciclo de vida, na organização do trabalho e da sociedade, no emprego, na ocupação do tempo e no entretenimento, nas redes familiares e sociais.

O envelhecimento demográfico tem impactos significativos na despesa pública com os sistemas de pensões e de cuidados de saúde ou na gestão da dívida pública.

Com a população activa a reduzir-se, temos pela frente um desafio superior que é o de sermos capazes de aproveitar as capacidades das pessoas mais velhas, contribuindo não apenas para melhorar a produtividade, mas também para humanizar a sociedade, erguendo pontes entre as gerações mais novas e as gerações mais velhas.

O caminho passa por as populações dos países envelhecidos tomarem consciência da relação entre a solução dos problemas criados pelo envelhecimento e a existência de uma cultura pró-inovação. Portugal está dentro deste "barco". Está em causa uma transformação cultural que, evidentemente, se vai fazendo. Mas precisamos de agir com antecedência, de modo a, com tempo, nos organizarmos.

 

 

Margarida Corrêa de Aguiar

(blogue QUARTA REPÚBLICA)

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Convidado: PEDRO AZEVEDO

por Pedro Correia, em 02.11.17

 

O valor dos actos

 

As Farpas foram publicações assinadas por Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz entre 1871 e 1872, e somente pelo primeiro até 1883.
 
Esta prosa, um inovador conceito de jornalismo para a época, trouxe novas ideias e uma admirável crítica social.
 
Naquilo que era uma sátira “política, das letras e dos costumes” destacou-se Ramalho Ortigão. Sobre o mérito, Ramalho afirmou que "ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que teve, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos Homens deduz-se do valor dos actos que praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes”.
 
Vem isto a propósito de um estudo de 2015, extraído de uma analise a seis empresas, desenvolvido por oito investigadores e promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que concluiu que o mérito não tem grande relevância na evolução profissional dos portugueses. No mesmo trabalho são indicados como preponderantes para o sucesso factores como as ligações pessoais, a partidos políticos e, pelo menos num dos casos, a organizações católicas e a associações secretas.
 
Dá que pensar!
 
Acreditando eu que os homens são todos iguais aos olhos de Deus e que a salvação é a Sua graça, não deixo de achar relevante a obra que realizamos na nossa curta passagem por este mundo. Como dizia o Marquês de Maricá, “os homens sem mérito algum, brochados de insígnias e de ouro, são comparáveis aos maus livros ricamente encadernados”.

 

 

Pedro Azevedo

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

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Convidado: JOSÉ MANUEL FARIA

por Pedro Correia, em 31.10.17

 

Medidas urgentes de combate aos fogos

 

Dezenas de anos de políticas de abandono das florestas. Dezenas de anos de subordinação dos governos de direita e de esquerda às celuloses.
  
O povo está chocado e indignado com as tragédias que se abateram sobre diversos concelhos do interior do País a 17 de Junho e 15 de Outubro, e que horrorizaram e enlutaram o País. É o resultado de dezenas de anos de políticas de abandono das florestas e de desprezo pelas populações rurais, de políticas de desordenamento e desertificação do interior, de políticas de desmantelamento dos serviços públicos (Serviços Florestais), de políticas de floresta “desenhadas” à medida e no interesse das celuloses — por parte dos sucessivos governos.
Estes sucessivos governos, de direita e de esquerda, são os principais responsáveis.
 
Pode-se aceitar que se subordine o património florestal, aos interesses das celuloses, colocando, inclusivamente, em risco os bens e a vida das pessoas? Não. Os interesses das populações e a vida das pessoas estão em primeiro lugar!
O que se espera dos deputados é que, com carácter de urgência, deliberem no sentido de exigir ao Governo de António Costa que assuma o compromisso escrito, visando:
‣ Suprir, até ao final de 2017, os recursos financeiros, a todas as populações atingidas, que lhes permitam reconstituir, integralmente, o respectivo património, total ou parcialmente, destruído;
‣ Reabertura dos serviços públicos encerrados, nas cidades e vilas do interior;
‣ Medidas que garantam o escoamento dos produtos agrícolas e florestais a preços justos, nomeadamente do material lenhoso queimado;
‣ Revogação da lei que liberaliza a plantação de eucaliptos;
‣ Proibição do aumento da área de eucaliptal; 
‣ Atribuição da propriedade e gestão, tanto dos baldios como dos terrenos abandonados, às comunidades locais, para seu usufruto exclusivo;
‣ Proibição da permuta de eucaliptais ou de qualquer outra forma de concentração;
‣ Criação de incentivos compensatórios aos produtores florestais que plantem espécies autóctones, resistentes ao fogo, para protecção dos bens e da vida das populações; 
‣ Abertura de corredores de acesso às florestas e criação de faixas de protecção entre a floresta, as estradas e o meio urbano;
‣ Reactivação dos Serviços Florestais, repondo os efectivos do corpo de guardas florestais, recolocando-os no terreno em acções de prevenção, fiscalização e vigilância;
‣ Criação das equipas de sapadores florestais em falta e construção/reparação das redes viárias primárias e secundárias que garantam, às populações, acessibilidades em segurança.

 

 

José Manuel Faria

(blogue RUPTURA VIZELA)

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Convidado: FILIPE MOURA

por Pedro Correia, em 27.10.17

 

O PSD não é social-democrata

 

Na corrida para a liderança do PSD, há uma discussão sobre “ideologia” que me parece colocada em termos equivocados. Parece que há quem ache que o PSD deve voltar a ser “social-democrata”. José Eduardo Martins escreveu mesmo um manifesto contra os “tecnocratas” que têm liderado o partido e conduziram a política do anterior governo.
Ninguém duvida de que o PSD, com Passos Coelho na liderança, foi diferente (mais à direita) do PSD tradicional. Mas nunca no seu passado o PSD foi social-democrata. O partido que em Portugal tem aplicado políticas social-democratas (mais ou menos à esquerda, consoante o líder e o contexto histórico) é o PS. Social-democracia é centro-esquerda, coisa que o PSD nunca foi. O PS oscila entre o centro-esquerda e a tecnocracia. O PSD, entre a tecnocracia e a direita. Durante a liderança de Passos, uma direita assumida e orgulhosa de o ser. Todas as medidas que marcaram o seu mandato tinham um propósito ideológico: diminuir drasticamente a presença do Estado na sociedade portuguesa, através de privatizações e cortes. Não havia “tecnocracia” nenhuma.
Para este equívoco de classificar as políticas do anterior governo como “tecnocráticas” contribui o discurso da “TINA” – “there is no alternative”. O ex-ministro Vítor Gaspar, já como quadro do FMI, chegou mesmo a lamentar que as políticas nacionais interfiram na política económica, que pelos vistos é algo que deve ser reservado a “sábios” e ficar fora do escrutínio democrático. Este discurso pode parecer tecnocrático, mas é uma certa ideologia levada ao extremo. Faz parte das ideologias extremistas considerarem-se “científicas” e portadoras da única “solução correta”. Lembro-me de discutir com um apoiante de Passos Coelho sobre o liberalismo enquanto ideologia. O meu interlocutor não aceitava que o liberalismo fosse classificado como ideologia – considerava-o acima disso.
Não me cabe a mim decidir o futuro do PSD. Apenas aponto, em resumo, dois factos. O que causa a diferença entre este PSD de Passos e o PSD a que estávamos habituados não é a falta de ideologia – é talvez o excesso. O PSD tem de decidir se quer mais ou menos ideologia, mas se optar por mais ideologia não será com certeza para ser parecido com o PS, pelo que talvez devesse mudar de nome.

 

 

Filipe Moura

(blogue ESQUERDA REPUBLICANA)

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Convidada: RITA I CARREIRA

por Pedro Correia, em 25.10.17

 

Extraordinariamente normal

 

Na sequência dos incêndios de 15 de Outubro, foi noticiado que a Caixa Geral de Depósitos, onde estão depositadas partes dos donativos que os portugueses fizeram para apoiar as vítimas de Pedrógão Grande, irá doar cerca de meio milhão de euros aos hospitais de Coimbra para ajudar as pessoas afectadas pelos incêndios. Sendo Portugal um país onde há um sistema de saúde financiado pelos impostos pagos pelos portugueses, deve-se concluir que o Governo acha que pode tratar os donativos como um substituto de impostos.

Quando as pessoas fizeram estes donativos, decerto pensavam que o dinheiro iria ser directamente entregue às vítimas para as ajudar a reconstruir parte da vida que perderam – isto daria um bom inquérito aos portugueses, se houvesse algum meio de comunicação social para aí virado. Em vez disso, o governo achou por bem aumentar a capacidade dos hospitais de Coimbra em responder a incêndios. Um investimento em capital fixo permanente não faz sentido do ponto de vista de gestão dos hospitais, se o que se observou este ano é completamente anormal e fruto de vicissitudes meteorológicas combinadas com um excesso de optimismo na gestão dos recursos actuais.

Mas se o que se observou este ano deixar de ser uma situação considerada extraordinária, para ser encarada como normal porque não há “solução mágica”, como disse o Primeiro Ministro, em que o Governo espera que todos os anos haja incêndios que causem feridos suficientes para justificar este investimento, então a decisão do governo parece ser lógica. Digo parece ser porque não é necessário que seja.

 

Na gestão de recursos alocados a uma potencial tragédia há sempre uma escolha entre gastar o dinheiro em medidas reactivas ou medidas preventivas. Não me recordo de ver noticiado que os hospitais tenham tido capacidade insuficiente para lidar com as vítimas dos incêndios de Junho e agora com os de Outubro; mas, segundo própria admissão do ex-Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, há, ao nível da administração local, recursos insuficientes que requerem que os próprios cidadãos não contem com a protecção do estado, tendo dito “Não podemos ficar todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver o problema”. Ou seja, há sítios onde aplicar o dinheiro de forma a aumentar a capacidade de se prevenir o tamanho da tragédia.

Na quinta-feira antes dos incêndios de Outubro, que foi também o dia em que o relatório da comissão de peritos foi entregue no Parlamento, uma entrevista a Nádia Piazza, da Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande, foi publicada no jornal i. Nela, a usurpação do poder pelo governo central e administrações regionais, que impedem os municípios de agir, é dada como uma das causas para a pouca resiliência do interior do país aos incêndios. Só que estes últimos incêndios demonstraram que mesmo em locais urbanos no litoral, como por exemplo Braga, um motor de crescimento do país, não há plano para manter a cidade segura. Outros factores apontados são um quadro legislativo caótico, havendo também medidas que poderiam ter resultados, mas que por não serem implementadas não surtem efeitos.

Relativamente ao financiamento de projectos, Nádia Piazza aponta que a administração do território florestal depende da existência de fundos comunitários, o que indica que não é uma prioridade governativa nacional. É como se Portugal deferisse para a União Europeia o esforço de administrar o seu próprio território, numa auto-demissão das suas responsabilidades básicas.

 

Para o ano, o orçamento do Ministério da Administração Interna irá aumentar 11% face a 2017, atingindo o valor máximo dos últimos 10 anos, o que foi anunciado após os incêndios de Outubro; no entanto, de notar que as despesas com os incêndios poderão ficar fora da contabilidade do défice para 2018, pois o Comissário Europeu Pierre Moscovici considera tais custos excepcionais, o que contradiz as declarações do Primeiro Ministro, que acha que os incêndios devem ser assumidos pelos portugueses como uma situação normal – subentende-se então que esta crença do Primeiro Ministro é a justificação do aumento de investimento nos hopitais de Coimbra, discutido acima.

Dada a importância que o governo associou ao défice para demonstrar a sua boa gestão do país, dá jeito haver estas tragédias, de vez em quando, pois abrem folga nos critérios de contabilização do défice, até porque ninguém liga ao nível da dívida pública. E dá jeito o governo ter uma cassete para Bruxelas e outra para Portugal.

 

 

Rita I Carreira

(blogue A DESTREZA DAS DÚVIDAS)

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Convidada: VERA GOMES

por Pedro Correia, em 23.10.17

 

Cada dia com uma doença auto-imune é uma batalha

 

Um almoço de grupo igual a tantos outros, não fossem os rolos de papel higiénico em cima das mesas. Poderia ser uma despedida de solteiro, quiçá, antecipadas as festividades para a hora de almoço. Mas não. Um grupo de pessoas unidas por algo que as assola e que as tenta vergar, umas vezes com mais sucesso do que outras.

Entre sorrisos, dietas, piadas e trocas de experiências, este grupo assemelha-se a qualquer outro que festeja um aniversário, um almoço de Natal, ou outro qualquer que imponha celebração. Cortesia de uma doença invisível aos olhos do comum dos mortais, mas bem presente para quem tem que lidar diariamente até ao fim dos dias da sua vida. Tal e qual um casamento. Só que desta vez imposto e sem poder de escolha do "parceiro" com quem TODA a vida será partilhada.

Uns pensam que é mentira, que é preguiça, que são "queixinhas" crónicos ou até hipocondríacos. Imaginem se um dos membros do grupo apenas explicasse sem grande detalhe um dia da sua vida. Ou lhe faziam uma estátua, ou bajulavam-no pelo seu heroísmo! Na verdade, cada uma das pessoas que partilha este repasto é um lutador, um herói, o expoente máximo da resiliência. Mau estar, desconforto, dores 24/7 até ao fim da vida: não é fácil de aceitar, enfrentar e gerir. Há dias em que o mundo é demasiado pequeno para amenizar, escutar, confortar ou aliviar. Há dias que são maiores para noutros dias se enfrentar a cruel realidade de um corpo que não acompanha o que a mente deseja alcançar.

Cada dia com uma doença auto-imune é uma batalha. Um constante processo de tomada de decisão que jamais vê o fim. "Ora, tenho 10 barras de energia, tenho esta lista de tarefas que precisa de 12 barras de energia. O que deixar para amanhã?"

 

Nunca na vida as palavras do Variações fizeram tanto sentido: "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga!" Se não é pelo dosear da energia, é por aquela comida que nos faz salivar só de ser mencionada, mas que o corpo nem sempre aceita. Claramente Deus nem sempre perdoa o mal que faz, pelo bem que sabe. Que Deus cruel! Aliás, quem é o Deus, que supostamente é amor e afins, que faz alguém passar por tamanha provação?

A Doença Inflamatória do Intestino (vulgo DII, ou Síndrome de Chron, ou - os diferentes tipos - Colite Ulcerosa) assola mais de 15 mil almas só em Portugal – e o número não pára de aumentar. Esta doença consiste numa resposta exarcebada do sistema imunitário, que ataca o sistema digestivo. Chron, Colite Ulcerosa ou Indeterminada: está relacionado com a sintomologia e com as zonas afectadas.

No caso da Doença de Crohn, ocorre uma inflamação em qualquer parte do tubo digestivo, desde a boca até ao ânus. A colite ulcerosa ataca o revestimento interno do intestino grosso causando inflamação, ulceração e hemorragia.

 

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 Foto: Cristiana Reis

 

Os sintomas incluem: dor abdominal, cólicas, diarreia, hemorragia, perda de apetite, perda de peso, fraqueza, fadiga, náuseas, vómitos, cansaço, febre e anemia. A cirurgia pode ser necessária, mas não cura a doença inflamatória intestinal.

Depois temos as pérolas extra das DII: os sintomas extra-intestinais. Dentro desses sintomas, destacam-se a artrite; úlceras orais; febre; olhos avermelhados, doridos e sensíveis à luz; erupções cutâneas; osteoporose, entre muitos outros. Acreditem: numa doença-auto imune, nem a imaginação é limite.

Para que estejamos todos na mesma página: a doença inflamatória do intestino NÃO tem cura. Portanto, dispensamos toda e qualquer sugestão que venha como milagrosa para uma cura (inexistente). Beber sumos xpto, comer um ingrediente importado de Marte, ou fazer yoga dia e noite não vão curar nada! Será muito mais produtivo e gentil que nos escutem quando precisamos de falar do que estamos a passar. Não nos julguem, não digam que somos exagerados, não digam que somos hipocondríacos ou que temos a mania das doenças. Porque, acreditem, se tivéssemos escolha, não escolheríamos isto!

 

Querem ajudar? Ora, porque não, num dia em que a fadiga teima em ficar, fazerem as compras do supermercado para nós? Ou trazerem-nos comida? Ou fazerem-nos sorrir nos momentos em que parece que o mundo desaba sobre as nossas cabeças? Porque não serem gentis quando não conseguimos ir à vossa festa porque passámos a noite no wc em vez de dormir? Ou animarem-nos quando mais um tratamento não resultou? Ou irem-nos buscar ao hospital depois de mais uma dose de medicação ou de um exame médico?

Almoços com rolos de papel higiénico em cima da mesa, de um grupo de pessoas que não se conhecem a não ser numa das redes sociais da moda, acontecem por uma simples razão: ninguém julga. Todos escutam.

Quando é que tu irás também escutar?

 

 

Vera Gomes

(blogue ESCADINHAS DO QUEBRA-COSTAS)

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Convidado: MANUEL S. FONSECA

por Pedro Correia, em 20.10.17

 

O chumbo e o livro

 

A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

 

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

 

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos melhor do que eu que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

 

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O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, página a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

 

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

 

 

Manuel S. Fonseca

(blogue ESCREVER É TRISTE)

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Convidado: ANTÓNIO AGOSTINHO

por Pedro Correia, em 12.10.17

 

É fundamental proteger a orla costeira

 

A protecção da orla costeira portuguesa é uma necessidade de primeira ordem. Ninguém duvida de que o processo de erosão costeira assume aspectos preocupantes numa percentagem significativa do nosso litoral continental.

Atente-se no estado em que se encontra a duna logo a seguir ao chamado “Quinto Molhe”, a sul da Praia da Cova [concelho da Figueira da Foz].

Por vezes, ao centrar-se a atenção sobre o acessório, perde-se a oportunidade de resolver o essencial...

 

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  Foto de Pedro Agostinho Cruz

 

O professor Filipe Duarte Santos, coordenador do Grupo de Trabalho do Litoral, visitou em 2015 o by-pass da Gold Coast, na Austrália, destacando aquela tecnologia como solução para a transposição de sedimentos na barra da Figueira da Foz.

 

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Esta é a posição, há muitos anos, do movimento cívico SOS Cabedelo (que surgiu da urgência em salvar uma onda que é um dos ex-líbris da cidade), que tem publicamente defendido a construção de um by-pass (um túnel para deslocação contínua das areias das praias a norte para as a sul).

Filipe Duarte Santos considera que o caso da Figueira da Foz “é dos mais gritantes” no que respeita à erosão costeira e defende que “não há incompatibilidade entre ter um porto e uma praia que não seja exageradamente grande, como a que existe actualmente”, desde que seja encontrada e posta em prática uma solução. “E não tem nada de extraordinário, basta o transporte das areias a Norte para Sul”, resumiu. Concluindo: “Na Austrália, num caso semelhante mas mais complicado em termos de traçado, a solução do by-pass resultou. O que é preciso é que os poderes públicos tenham em sua posse estudos fiáveis e se disponibilizem a fazer análises de custo-benefício e a implementar a melhor solução."

Na sua opinião, o by-pass fixo é mesmo a melhor resposta a longo prazo. "E Portugal tem uma longa tradição de engenharia costeira."

Ainda no seu entender, “estão reunidas as condições para avançar”, uma vez que, acredita, “há verbas comunitárias” disponíveis.

Então o que tem faltado?

Vontade política e financiamento.

 

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Todavia, em época de campanhas eleitorais, como aconteceu recentemente nos debates que se realizaram tendo em vista as autárquicas 2017, se houve temas abrangentes a todas as candidaturas que se apresentaram a sufrágio, foram a erosão costeira, o porto da Figueira e o by-pass...

 

 

António Agostinho

(blogue OUTRA MARGEM)

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Convidado: PEDRO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 05.10.17

 

Amêijoas com os olhos em bico

 

(Nos últimos tempos, pelas mais diversas razões, a menor das quais não será o desinteresse pela rasteira vida politica portuguesa, ensaio contos baseados em factos reais, notícias de jornal, e procuro com isso tentar a ficção, por um lado, e olhar o país e os portugueses, por outro. Ofereço ao Delito de Opinião um desses ensaios. Não o levem a sério – quem sempre escreveu sobre a realidade tem sempre dificuldade em inventar por cima dela...)

 

Os homens perdem-se pela mais básica das tentações, já sabemos. Quase todas, diz quem quer generalizar. Mas o Sargento Barreto costuma afirmar, lá na messe, que nada o faz desviar da sua rota. A não ser... amêijoas! Os colegas gozam, riem, desafiam-no, mas há dez anos que ninguém o ouve dizer outra coisa no Quartel dos Bombeiros Sapadores de Vila Franca de Aguiar, onde presta serviço. Podem criticar-lhe muita coisa, mas falta de coerência é que não...

Barreto, 45 anos, é um homem alto e forte, mãos grossas e seguras, pouco cabelo numa cabeça luzidia e avermelhada, uma vida dedicada à corporação, passagens breves pelos bombeiros locais, e até um estágio em Lisboa. Por onde foi passando, o hábito nunca se perdeu: começar por descobrir a tasca, o restaurante, a cervejaria, onde a amêijoa “à bolhão pato” – mergulhada num mistura de alho, coentros, limão, azeite e temperos a gosto, e cozida até os bichos abrirem a concha e revelarem as suas “intimidades” ... – se apresentava do seu agrado. Chegou a comprar um bloco de apontamentos pequeno, dos que cabem numa algibeira da farda, para anotar as melhores mesas para aquela delicia, que lhe transformava momentos azedos em dias felizes. Contava, tentando explicar a tentação, que mesmo depois de confrontado com os mais selvagens incêndios, ou com imagens hediondas de cadáveres desfeitos, perdia a fome para o jantar dedicadamente feito pela sua Olímpia (que implicava com as “minudências” do seu homem...), mas não resistia a umas amêijoas, se as encontrasse por perto.

Há uns anos, porém, Barreto começou a notar uma ligeira mudança nas mesas dos restaurantes, especialmente nos da sua zona, ali mesmo junto ao Tejo. Cada vez havia mais amêijoa, mas o bivalve parecia-lhe diferente, talvez até alterado: a casca cada vez mais clara, raiada, o sabor desmaiado, como se o bicho sofresse de anemia, e um caldo final sem graça. Parecia que tudo tinha sido reduzido a uma sopa de alho. Ao mesmo tempo, começou a ouvir falar do negócio da “amêijoa japónica”, uma espécie importada dos países asiáticos, que teria a vantagem de se reproduzir mais rapidamente, e de se adaptar a qualquer tipo de ambiente, ainda que pudesse constituir perigo para a saúde publica, se não fossem salvaguardadas as devidas medidas de prevenção.

 

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O Sargento começou a perguntar aos seus amigos, donos de restaurantes, onde andavam eles a comprar aquela “espécie de amêijoa”, e aos poucos lá foi descobrindo que a praga estava em plena expansão: centenas de pessoas, cujos recursos eram escassos, recorriam à apanha da “japónica”, para ganhar a vida, calculando-se que chegavam diariamente às 15 toneladas de bivalves desta “raça” capturados sem qualquer controlo. Sachos, facas de mariscar, enxadas e tesouras, tudo servia para a apanha, sempre num jogo de gato e rato com as autoridades – a que Barreto pertencia, é certo, mas integrado numa brigada mais urbana e pouco ou nada ligada ao rio.

Em conversa com o dono do “Pão de Forno”, um dos seus tascos favoritos, Barreto tentou convencer quem o ouvia a não alinhar naquele crime – que além de ilegal e perigoso, dava cabo do sabor da sua única tentação. As respostas eram sempre as mesmas: a “japónica” é mais barata, o cliente nem dá pela diferença, e o desemprego ajuda a caucionar as alternativas. Além disso, esta amêijoa, ainda que seja proibida em Portugal, era bem valorizada em Espanha, para onde se vendia boa parte do stock de cada apanha.

Vencido pelo cansaço e pela argumentação dos que o rodearam na conversa com o Silva do “Pão de Forno”, Barreto não teve outro remédio. Na manhã seguinte, apresentou-se no Posto e disse ao Comandante Peralta que queria trocar a ronda da cidade pela caça aos apanhadores do Tejo. Apesar da falta de agilidade física não recomendar tal ousadia, o chefe percebeu o sentido profundo do pedido. Passou-lhe a guia de marcha.

Dois dias depois, os primeiros 683 quilos de “amêijoa japónica”, no valor de 2000 euros, estavam apreendidos nos armazéns da GNR de Vila Franca de Aguiar. E a guerra não parou mais. Até ao dia em que Barreto se sentou à mesa do “Pão de Forno” e voltou a sentir o aroma incontornável da “sua” amêijoa de sempre, a “amêijoa boa”, que não se chama assim por ser apenas boa, mas por ser a melhor que os apanhadores encontram nas baías, nos estuários, nas lagoas.

- Ah, agora sim, temos amêijoa no prato...

A missão estava cumprida, o fogo estava apagado.

 

 

Pedro Rolo Duarte

(blogue PEDRO ROLO DUARTE)

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Convidado: RUI ALBUQUERQUE

por Pedro Correia, em 03.10.17

 

Esquerda e direita

 

I

Paulo Trigo Pereira, um dos gurus da política económica do actual governo do PS e referência incontornável da esquerda portuguesa, concedeu, há dias, uma entrevista ao Público, da qual, só por estar profundamente entorpecida e desatenta, a nossa direita não soube retirar o devido aproveitamento. O ponto mais importante do que aí foi dito está num comentário feito a propósito da política orçamental para 2018 e da possível redução da carga fiscal em vigor, em que Trigo Pereira afirma o seguinte: «O desagravamento fiscal não deve ser a bandeira da esquerda. É a bandeira da direita».

Esta afirmação encerra, de facto, o essencial que distingue, desde sempre, a esquerda da direita ou, para sermos mais rigorosos, toda a esquerda de alguma direita liberal: a convicção de que a justiça social e o progresso são apenas atingíveis pela intervenção do estado na distribuição da riqueza socialmente gerada.

 

II

É verdade que existem socialistas em muitos partidos, movimentos e think tanks de direita. Friedrich Hayek dedicou, sintomaticamente, a sua histórica obra The Road to Serfdom «aos socialistas de todos os partidos». Não o fez por acaso, mas porque boa parte da direita – a do seu tempo, a do tempo anterior ao seu e a do tempo que se lhe seguiu – acredita que os valores sociais mais elevados da liberdade e da justiça social são inatingíveis pela interacção e cooperação humanas.

Conservadores e pessimistas, estruturalmente hobbesianos no seu DNA, os que assim pensam descreem nas virtudes do individualismo e olham para cada homem, em relação com os outros, como um perigo e não um aliado e um parceiro natural. Para eles, a ordem espontânea social e de mercado – a catalaxia – é uma falácia literária, inexequível no mundo dos homens, sendo necessário que o estado intervenha para dar sentido às coisas. Mas se muita direita ainda pensa assim, onde só existem socialistas, que assim pensam, é, inquestionavelmente, na esquerda. E Paulo Trigo Pereira, com elevação e honestidade intelectual, disse-o claramente naquela sua frase: a direita (alguma direita) pugna pelo desagravamento fiscal, mas a esquerda não deve fazê-lo, porque defende a virtude do imposto como mecanismo necessário para uma melhor distribuição da riqueza, a fim de alcançar a tal justiça social, de outra forma considerada inatingível.

 

III

Ora esta é, precisamente, a fronteira que deve fixar a distinção entre esses dois pólos da histórica dicotomia. Não se trata de querer manter a divisão geográfica que vem da velha Assembleia Nacional francesa e que depois se transmitiu, embora com importantes nuances, para a Convenção parlamentar que lhe sucedeu, tão pouco pretender preservar blocos ideologicamente homogéneos, entre si higienicamente separados.

Repetimos: à direita multiplicam-se os socialistas; mas o território natural do socialismo é a esquerda, como Paulo Pinto Pereira bem frisou, e este é o ponto significativo. Do que se trata, portanto, é que existem valores que alguma direita ainda defende e que nenhuma esquerda jamais reclamará como seus. Esses valores são os que estruturam o pensamento liberal. Vejamos quais são.

 

IV

Em primeiro lugar, a crença no indivíduo possuidor de direitos naturais, inerentes à sua condição humana, e não no indivíduo apenas detentor desses direitos se e enquanto cidadão, isto é, como integrante de uma comunidade política estruturada num estado que lhos reconhecerá e conferirá. De modo algum encontraremos no pensamento socialista a convicção de um direito natural inerente ao indivíduo, que o estado tem de respeitar, mas, quando muito, a de direitos individuais que o estado promoverá e deverá garantir.

O direito natural é uma crença liberal, mas não de todo o liberalismo, e uma convicção da direita, mas não de toda a direita. À esquerda, nunca o será.

 

V

Daqui decorre, em segundo lugar, a convicção de que o liberalismo tem a liberdade como um resultado da interação estabelecida entre todos quantos compõem uma comunidade, acreditando que eles são capazes de comporem os seus interesses e de criarem as instituições que os assegurem ou reponham quando ameaçados ou postos em causa, ao passo que, à esquerda, a liberdade é somente assegurada pela comunidade transformada em status político, no fim de contas, pelo direito à coerção de alguns sobre todos os outros.

Falamos, no fim de contas, nas duas ideias basilares do liberalismo e do socialismo: o mercado e o estado; a ordem social espontânea e a ordem social intervencionada por insuficiência própria. Alguma direita acredita na primeira. Nenhuma esquerda será capaz de fazer o mesmo.

 

VI

Depois, corolário necessário dos dois anteriores postulados, a solene certeza de que existe sempre uma elite dirigente que zela por todos nós, que intervém para corrigir o que de mal fazemos e que cuida da nossa felicidade. A esquerda e o socialismo partem sempre da necessidade, muito platónica, de um «governo de sábios», a confiar com algumas restrições, enquanto que a direita prefere a máxima popperiana de um «governo de homens», a manter sob absoluta reserva. A esquerda confia aos «sábios» a felicidade dos povos, porque considera que os homens não a conseguem, por si mesmos, atingir, enquanto a direita desconfia dessas boas intenções e, por isso, prefere que os «sábios» sejam vistos apenas homens comuns, sujeitos às tentações e fraquezas de todos os outros.

 

VII

Em consequência de tão grande convicção nas virtudes do governo, e avancemos para mais uma diferença substantiva, a esquerda considera o Direito e a Lei como instrumentos iluminados de ordenação social vertical, que devem ser apenas por si mesmos limitados: «Quod placuit principi, legis habet vigorem», assim se citava Ulpiano nas Institutas de Justiniano, máxima sempre invocada por quem defendeu a estatização dos países da Europa Continental. Primeiro como direito divino dos soberanos, depois como direito racional de déspotas iluminados, por fim, com a Revolução Francesa, como direito das assembleias representativas da volonté générale.

À esquerda, o direito e a lei serão, assim, sempre vistos como instrumentos de governação, para atingirem os elevados fins da res-publica, enquanto que, nalguma direita, o direito deverá ser a ordenação natural da coisa comum, a revelação das normas de convivência pacífica na Grande Sociedade e os meios para a contenção do grande Leviathan.

 

VIII

Deste conjunto de convicções distintas e separadas resultará, para os socialistas de esquerda e de direita, que todos os direitos individuais são necessariamente limitados por aquilo que, momento a momento, o legislador e o poder soberano entenderem ser o bem público, isto é, o interesse geral, exceptuando-se algumas normas constitucionais de rigidez cada vez mais atenuada. Em contrapartida, para todos os verdadeiros liberais, que, quanto mais não seja, por exclusão de partes, só poderão estar à direita, a propriedade de cada um sobre si mesmo, os resultados que cada indivíduo atingir por si próprio, ao longo da vida, são sagrados e devem ser intocáveis, porque incorporam a sua personalidade e representam a dignidade do esforço e do trabalho individual, noutras palavras, a própria vida humana. Por conseguinte, a esquerda vê no imposto, tão mais alto quanto as necessidades declaradas pelo soberano assim o exigirem, o seu instrumento principal de justiça social. A direita liberal considera o imposto um mal, quase sempre inevitável, porque sempre reduzirá o incentivo à produção e porque é sempre uma severa limitação ao direito de cada um dispor de si mesmo, embora o possa admitir em certas e limitadas circunstâncias, se obedecendo a limites rigorosos, limites esses que, desde a Magna Carta de 1215, os povos civilizados vêm impondo aos seus governantes.

 

IX

Fica aqui por esclarecer o que distingue a ideia de justiça social à esquerda e à direita. Deixando enfaticamente de lado aquela nefasta treta de que «o coração está à esquerda e a carteira à direita» - como se o socialismo tivesse o monopólio dos bons sentimentos e das boas intenções -, assentemos num princípio: todos queremos o melhor para os nossos concidadãos e para as comunidades onde vivemos.

 

X

Assim sendo, o que nos distingue, então? Mais uma vez, a crença no indivíduo: a esquerda entende que só com um intermediário soberano – o estado – se pode redistribuir a riqueza, indo buscá-la a quem a produz e entregando-a a quem a não tem; a direita liberal afirma que só se pode distribuir o que existe e que para produzir a riqueza e bem-estar o sistema capitalista de livre-mercado é o mais eficaz, porque incentiva a produção, distribui melhor e mais igualitariamente os bens e serviços produzidos, gerando, desse modo, mais prosperidade para um número maior de seres humanos.

Porquê? Por muitas e diversas razões. Mas, essencialmente, porque a estrutura da economia capitalista exige o crescimento da riqueza e a sua distribuição por aqueles que serão os consumidores que a vão manter e fazer crescer. Porque a falácia da «concentração capitalista» de Marx é um disparate que nem nas economias estáticas seria possível conceber, quanto mais em economias de mercado, onde a competição pelas escolhas dos consumidores leva necessariamente ao aprimoramento dos produtos e da produção, à inovação e à criatividade, obrigando a investimentos sucessivos e constantes no sector produtivo, isto é, à redistribuição do capital. Porque a concorrência não manipulada por governos e políticos, pelo «capitalismo» de compadres dos amigos do BES, faz necessariamente baixar preços e elevar a qualidade. Porque só o incentivo geral do lucro legítimo, isto é, o obtido no livre-mercado – o lucro de quem produz, que quer ganhar mais, e de quem compra e consome, que quer pagar menos e ter melhor – pode fazer crescer uma economia, uma sociedade e, consequentemente, um país.

 

XI

Em contrapartida, a célebre economia de tributos altos, na qual Paulo Trigo Pereira acredita, desincentiva quem investe, afeta recursos a quem nada contribuiu para criar riqueza – políticos, burocratas e clientelas partidárias, principalmente -, entrega-os a governos que os utilizam, inúmeras vezes, em destinos de que as pessoas não carecem ou, pelo menos, não têm necessidade naquele momento, mas que eles imaginam que lhes rendem simpatias e votos.

A racionalidade da decisão política, não o esqueçamos, é o poder, não é o crescimento. De resto, bastará olharmos para a realidade nacional, para concluirmos que a subida de impostos dos últimos anos, ao contrário das intenções sempre declaradas, se fez acompanhar, não de um aumento geral do bem-estar, mas do aumento da pobreza, do desemprego, de precariedade laboral e de salários de miséria. Um país que cativa uma tão elevada percentagem da riqueza nacional produzida anualmente teria que ter melhor destino, a cumprirem-se os vaticínios das políticas económicas socialistas.

Isto, obviamente, para já não falarmos na apropriação indevida das riquezas cobradas aos portugueses, pela via tributária, por políticos e banqueiros desonestos, que lhe têm acesso fácil. Infelizmente, também aqui não têm faltado, nos últimos anos, exemplos flagrantes.

 

XII

Poderíamos prosseguir, mas estes são já bons argumentos para mantermos a dicotomia «esquerda-direita» e para dizermos que o liberalismo se deve situar na segunda e nunca na primeira.

Não nos referimos, entenda-se, ao liberalismo histórico francês e afrancesado ou ao actual «liberalismo» americano, que eram e são manifestações de estatismo pueril, no primeiro caso, e de social-democracia moderna, no segundo. Referimo-nos a um liberalismo que se projecta no indivíduo, na propriedade, na cooperação, na criação e distribuição de riqueza sempre à margem ou para além do intervencionismo do estado, na justiça e numa igualdade social que advêm de uma sociedade mais próspera, mais rica e com mais oportunidades para um cada vez maior número de pessoas.

À esquerda nunca encontraremos quem defenda o conjunto destes valores. À direita ainda encontramos. Pensem nisso.

 

 

Rui Albuquerque

(blogue BLASFÉMIAS)

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Convidado: JOÃO AFONSO MACHADO

por Pedro Correia, em 28.09.17

 

António Costa - o governo que merecemos

 

Aquelas duas entrevistas a Ferro Rodrigues em que, pressurosamente, ele alertava para o calendário pós-eleitoral e lembrava «primeiro se escolheria o presidente da AR», já diziam tudo. Costa, depois da sua tribunícia punhalada em Seguro, ou subia ao Poder ou, em definitivo, morria para a política.

Depois foi a pobreza dos debates, semanas a fio, confundindo a legitimidade política com a legitimidade jurídica (como antes a revolucionária ccom a democrática), e Costa a negociar os seus acordos à esquerda, enquanto ordenava às suas milícias pelejassem e calassem os argumentos contestatários da Direita.

E a Direita, incapaz de se reconhecer na Oposição, lamurienta, premonitória – qual Velho do Restelo – invocando até a vinda próxima do Diabo, tornava-se alvo fácil da chacota da Esquerda e do eleitorado em geral.

Tudo porque António Costa é o maior político português. No mais biltre sentido que ao termo se possa atribuir, claro. Não lhe foi dificil, portanto, congeminar o esquema pelo qual se colocou à cabeceira do Conselho de Ministros.

Costa sabe que a Esquerda leninista-trotskista não transige na sua missão dialéctica de votar o oposto da Direita. Por muito pouco, assim, consegue um qualquer desaguisado parlamentar para, em permanência, ter contra si o PSD/CDS e, a favor, a CDU/BE. Palhaçadas e encenações à parte – incondicionalmente.

Sabe também que somos um País virado para o futebol (e, entretanto, até para o Eurofestival), muito mais do que para a política. Ama-se Pinto da Costa, Bruno Carvalho, Luis Filipe Vieira, como se acredita piamente na inocência de Sócrates. É tudo uma questão clubística... Algo muito importante do ponto de vista eleitoral, tão importante que Costa não teme a desconfiança de quem vota, eventuais comparações com o seu antecessor, de quem, aliás, foi ministro.

Não há de que nos queixarmos, pois.

 

A política portuguesa já se fez de meritocratas, geralmente recrutados no sector privado, que partiam para a governação no mais puro espírito de missão. Agora ela é monopólio dos funcionários dos partidos, desses que faltavam às aulas para dactilografar comunicados lá na sede, a rapaziada das comissões e dos relatórios e do “aparelho”. Uns incontornáveis desempregados se afastados da burocracia e das tricas intestinas.

Costa nasceu assim. Alguém o imaginará a advogar, por exemplo?

É tal a sua percepção e o seu à-vontade neste estranho mundo português que Costa jamais perde o sorriso, por muito comprometedora que seja a situação. Nem uma faúlha o tocou na mortandade e no braseiro florestal deste Verão.

Não há, realmente, de que nos queixarmos.

 

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Até porque – e Costa está atento a isso – metade dos eleitores sequer vota. E se passar a votar fá-lo-á em Costa e na Esquerda Unida, nas poucas patacas que supostamente auferem a mais, por troca com uma subida da tributação indirecta – que não sabem, nem pretendem saber, o que é.

O mesmo se diga do agravamento da dívida pública (que foi uma das principais armas de arremesso de Costa conra a PaF nas pretéritas eleições) e das famigeradas “cativações”. A Saúde e o Ensino em Portugal deterioraram-se por completo. Mas quantos perceberão porquê? Não fora a insegurança que corre os tradicionais paraísos de lazer, não fora o ocasional boom turístico com que a sorte nos contemplou, por que baixos andariam as optimistas contas públicas do Governo?

Mas tudo são conexões que a maioria dos portugueses não alcança. Por isso Costa permanece, e permanecerá, no seu estado de graça. O tempo cavalga, as próximas eleições já não tardam, e ele é o provável vencedor.

 

Merecêmo-lo.

Merecêmo-lo ainda porque a Direita não sabe fazer oposição. Ocorrem-me Eça e Ramalho e o seu contributo para a desmistificação do caduco Rotativismo. E, no passado recente e no presente, Medina Carreira, Pulido Valente, Caiado Guerreiro, António Barreto... Portugal necessita urgentemente de uma IV República (a antecâmara da Monarquia, mas isso é uma história a guardar para outro dia) e ela só é possível mediante a análise crítica destes e doutros e de uma seta – a ironia - apontada ao calcanhar do Aquiles Costa – o próprio Costa, ele e a sua atrapalhação quando é enfrentado a sério. Tudo a deixar bem exposto o ridículo em que vivemos sob o comando dos partidocratas e o paternal encorajamento da Europa rica.

 

 

João Afonso Machado

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidada: ALEXANDRA G.

por Pedro Correia, em 26.09.17

 

A pauta, as pautas

 

As ligações de sangue, outrora, como agora, constituem ainda a maior, não necessariamente a melhor, de todas as pautas, que é de relações humanas que aqui se trata. Crescemos com bases de referência, algumas das quais perdurarão para sempre, mesmo que manchadas por episódios de falta de diálogo, de tolerância, de excesso de exigência. Existe a solidez, a liquidez e a parte gasosa, aquela que cedo aprendemos a remeter ao limbo por, definitivamente, se ter cedo revelado o zero absoluto (uma pedra sem a forma de coração baleia ou nuvem ou aquela prima, enfim, diferença alguma).

Depois, crescemos, etc., vocês sabem, o mundo todo começa a envolver-nos, mas desse mundo não estão excluídas as relações de sangue, não todas. Tem início o prazer de reconhecermos com clareza que existe a empatia, as afinidades, mais ou menos cultivadas, regadas ou não, diariamente, mas que persistem, as irritações, nem sempre capazmente explicadas (era o que faltava, ter que explicar tudo!), a indiferença, a percepção das traições, mas quase sempre optamos pelo afastamento, a excessiva generosidade de alguém que, afinal, quer retirar-te tudo para que, esvaziado, olhes naquela direcção, onde tudo se assemelha à traição, ao roubo perpetrado com falta de requinte.

Um dia, tens então/também aquele tio crente, um tio referência durante toda a tua infância, o tio dos chocolates suíços, que gasta € 3,000.00 numa campa de granito, onde a infância das flores é colocada todas as semanas, colorida, sobre as raízes de osso da tia, sabendo tu que se enamorou por um anjo loiro com menos três décadas que ele, que se torna naquilo que sempre foi, o gabarolas de serviço, agora com vestígios alarmantes de Parkinson, mas ainda capaz de movimentar, pelo menos, a conta milionária, dando abrigo ao anjo loiro e tornando-a sua herdeira universal, coberta d’oiros, um guarda-roupa exuberante, uma altivez camuflada de amabilidade em figura de garrafas de vinho do Porto e um meio bolo caseiro, comprando-te a atenção, cativando-te como se foras o ramo de flores sobre a campa da tia Flor de Ossos.

A(s) pauta(s) que rege(m) as relações humanas evolui para auto, autos, coisa séria, dos mais diversos, quando sentes que uma pessoa, aos 85 anos, mesmo considerado todo o dever de respeito que lhe deves, e à sua liberdade, que a tem, se tornou no cachorrinho de abanar a tola colocado sobre o tampo do porta-bagagens do Ford Cortina da tua infância, lembras-te, aquelas idas à praia, os passeios à terra das tias velhas?, e sentes, não pena, mas desprezo, pelo ridículo inconsequente, o interior do porta-bagagens perdendo nas curvas o conteúdo, a música da tua infância transformada na queda rolante das memórias que nunca pensaste poder perder.

E começas a apreciar o silêncio.

 

 

Alexandra G.

(blogue IMPRECISÕES)

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Convidada: HELENA FERRO GOUVEIA

por Pedro Correia, em 24.09.17

 

Merkel, a esfinge

 

Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler, que há doze anos comanda os desígnios da Alemanha, é a ausência de gobbledygook no seu discurso. Angela Dorothea Merkel é uma mulher não dada a complicações,  terra-a-terra, a quem coube em sorte alguns dos desafios mais complexos da história contemporânea teutónica e europeia. Quando o Muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, a física era uma desconhecida, sem ambição política. Ninguém ousaria prever que se tornaria na mulher mais poderosa do mundo e na Mutti, mãezinha, dos alemães.

Pode pensar-se nela como uma maratonista que não desperdiça esforços em sprintes para impressionar a bancada. O que exaspera membros do seu governo, da oposição e alguns líderes europeus.  Angela Merkel não é movida pela ideologia, toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos. Convém acentuar a palavra factos. “O meu pai [o pastor luterano luterano Horst Kasner] atribuia muita importância à lógica e à clareza dos argumentos."

Se hoje ela é uma pessoa extraordinariamente controlada e discreta, características que a tornam para muitos estranha, pouco previsível, esfíngica,  isso é resultante de uma vida entre dois mundos, duas Alemanhas. Conhecendo-se a história da divisão alemã entende-se: nada é simples, nada é linear, não há lugar para maniqueísmos. “É muito difícil do ponto de vista actual compreender e tornar compreensível como nós vivíamos. Onde se situavam as fronteiras do compromisso que cada um devia encontrar para si próprio?”

 

Porque não conhecemos Angela Merkel?

Muito da vida de Angela Merkel no lado oriental do Muro de Berlim continua a ser uma incógnita. Já em 1991 o diário Süddeutsche Zeitung perguntava “porque não conhecemos Angela Merkel?”. “Sim, foi uma grande vantagem ter aprendido a manter-me calada nos tempos da RDA. À época foi uma das estratégias de sobrevivência e continua a sê-lo hoje."

Rainer Eppelmann, dissidente do regime da República Democrática Alemã (RDA), conheceu Merkel nos dias seguintes à queda do Muro e recusa apontar-lhe o dedo. “As pessoas, na sua maioria, apenas sussurravam. Nunca diziam o que pensavam, o que sentiam, do que tinham medo. Até hoje, não temos plena consciência do efeito sobre os  indivíduos.” Acrescenta: “para ser fiel às suas esperanças, ambições, crenças e sonhos, era preciso ser-se herói 24 horas por dia. Ninguém consegue.”

A vida da futura chanceler numa ditadura foi tão “normal” quanto possível. Nunca usou roupa da RDA, mas sempre da Alemanha ocidental, por uma razão bem prosaica. “O meu pai tinha um salário baixo. Seiscentos marcos por mês. Não era muito para vestir todos os filhos (…) e a nossa família em Hamburgo enviava-nos roupa.”

“Nunca senti a RDA como meu país natal”, afirmou à fotógrafa alemã Herlinde Koelbl em 1991. “Tenho um espírito relativamente ensolarado e sempre tive a expectativa de que a minha trajectória de vida seria também relativamente ensolarada, a despeito do que acontecesse. Nunca me permiti ser amarga. Sempre me vali da margem de liberdade que a RDA me permitia. […] Não havia sombra sobre a minha infância. E, mais tarde, agi de maneira tal a não me colocar em permanente conflito com o Estado.”

Com um perfil o mais distante possivel do típico político alemão – visite-se a Haus der Geschichte e a galeria dos retratos de presidentes e chanceleres no pós-guerra, todos homens, apenas uma mulher: Angela Merkel –  fez uma carreira vertiginosa,  sem paralelo na Alemanha, tornando-se na líder incontestada da Nação e na chefe de Governo mais antiga da União Europeia. Isto na tripla qualidade de mulher, do Leste, divorciada e sem filhos.

 

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Ter coragem no momento certo

Recuemos no tempo. Durante uma aula de natação, quando tinha 12 anos, Angela Merkel ficou parada na extremidade da prancha de mergulho cerca de 45 minutos antes de reunir a coragem necessária para saltar para a piscina. “Tenho coragem no momento certo. Mas preciso de um considerável tempo de preparação e de pesar todos os riscos.”

Na escola, na universidade, nem colegas, nem professores, apesar da excepcional inteligência, alguma vez viram na recatada Merkel um potencial de liderança. Foi o destino que lhe pregou uma partida ou foi ela que traçou o seu destino?

Contrariamente à maioria dos políticos de primeira linha dos democratas-cristãos, ela não seguiu o caminho tradicional – a filiação na juventude democrata-cristã, envolvimento na política local, construção de redes e contactos. Estava do outro lado do Muro. Como se explica a ascensão do “nada político”, de alguém com um perfil o mais distante possível do clássico, a mulher mais poderosa da Alemanha? Por uma conjugação de qualidades pessoais e de acasos biográficos e de uma constelação histórica ímpar.

O dia determinante para a carreira política de Angela Merkel é 30 de Setembro de 1990, quatro dias antes da reunificação alemã, o dia em que conheceu Helmut Kohl, que seria o seu ídolo, mestre e com quem aprendeu aquilo que os alemães denominam “Willen zur Macht”, o desejo de poder, a mola inicial, o princípio do salto.

Kohl, o historiador, considerava que o Gabinete Federal devia reflectir a nova realidade política alemã. Por isso uma mulher do Leste, jovem, ainda para mais protestante, encaixava-se no puzzle do poder. Por outro lado, o chanceler da reunificação queria rodear-se de pessoas que lhe fossem absolutamente reconhecidas.

O encontro entre Merkel e Kohl não foi obra do acaso, mas aconteceu por iniciativa de Merkel. Dias antes das comemorações da unificação alemã,  decorreu em Hamburgo o congresso de “reunificação” da  União Democrata Cristã  (CDU)  com os movimentos democráticos de raízes cristãs da  antiga RDA. Nesse congresso, Merkel era um dos delegados do Demokratischen Aufbruch. Aproveitando a ocasião, a política pediu a um conhecido para a apresentar a Kohl. Tiveram uma longa conversa, que impressionou positivamente o chanceler. Voltariam a encontrar-se em Bona, nos finais de Novembro, em vésperas das primeiras legislativas da Alemanha reunificada, que se realizaram a 2 de Dezembro. Depois de ler as actas da Stasi relativas a Angela Merkel, limpas, Helmut Kohl convenceu-se de que ela deveria integrar o Governo. Que o novo ministério da Juventude e Condição Feminina fosse quase esvaziado de competências fazia parte dos cálculos do presidente da CDU. O animal político Kohl farejou a substância de que Merkel era feita e queria que ela amadurecesse para outros voos. O que ele não poderia imaginar é que  nove anos  mais tarde a dama faria xeque-mate ao rei.

Num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung, a 22 de Dezembro de 1999,  com o partido mergulhado na maior profunda crise da sua história em virtude do escândalo em torno do financiamento partidário, Angela Merkel comete “parricídio”.

Sem estados de alma, a  então secretária-geral do partido acusa Kohl de prejudicar a CDU ao silenciar o nome dos doadores que alimentaram a contabilidade paralela dos democratas cristãos. “A credibilidade de Kohl, a credibilidade da CDU e dos partidos políticos estão em jogo”, escreveu na altura. O artigo levaria o ex-chanceler a renunciar à presidência honorária do partido. Os doadores, esses, continuam incógnitos. Wolfgang Schäuble, o eterno príncipe herdeiro de Helmut Kohl, vê-se envolvido no escândalo e a escapar-se-lhe entre os dedos a possibilidade de um dia se tornar chanceler.

Merkel publicou o artigo sem avisar Schäuble, o então presidente da CDU.  Num gesto que combinava virtude protestante com crueldade, a “Mädchen” (menina) de Kohl cortava o cordão umbilical do seu pai político. “Ela espetou a faca nas costas dele e girou duas vezes”, afirma Karl Feldmeyer, jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung . Foi o momento em, que pela primeira vez, muitos alemães se deram conta da existência de Angela Merkel.

Alguns anos mais tarde, Michael Naumann – que ocupou a pasta da cultura no gabinete do social-democrata Gerhard Schröder –  questionou Helmut Kohl: “O que é ela quer de facto?” “Poder”,  terá a resposta cortante. A um outro amigo, o chanceler da reunificação contou que seu apoio à jovem  Angela Merkel tinha sido o maior erro da sua vida: “enrolei a cobra no braço.”

A jogada de Angela Merkel deu certo. Mergulhados na maior crise da sua história, os democratas-cristãos precisam de alguém imaculado, fora do “sistema Kohl”, alguém insuspeito, alguém de Leste. Empurrada pelas bases como uma Joana d”Arc, Merkel é eleita presidente da CDU, em Abril de 2000, no congresso de Essen, com uma votação “soviética”: 96 por cento.

Seria a primeira mulher a ocupar este cargo num dos dois grandes partidos alemães, como também já havia sido pioneira no de secretária-geral. Na sequência dos remoques do cardeal de Colónia, Joachim Meisner, que considerava pouco edificante a líder de um partido cristão viver em união de facto, casaria, em Dezembro de 2000, na intimidade, com o químico e professor universitário Joachim Saeuer. Ninguém fora informado. Nem os pais de Merkel. Há poucas fotos do casal: as das visitas anuais ao festival de Bayreuth e em algumas cerimónias oficiais. Para ela, a esfera privada é inviolável. Joachim Sauer nunca será um “primeiro-marido”.

 

Da crise a líder do mundo livre

Reforça a imagem de ser feita de gelo com a resposta à crise financeira global e à crise do euro, após o colapso do Lehman Brothers. Torna-se numa figura odiada por um largo sector da opinião pública europeia. Ao seu ritmo de pequenos passos acabaria por ultrapassar as hesitações. “Merkel, que duvidou durante longos meses de que a Grécia conseguisse algum dia assumir a disciplina inerente à participação numa moeda única, acabou por reconhecer que os custos para os outros países da sua saída do euro – resultantes do efeito de contágio – seriam muitíssimo superiores aos benefícios”.

“Se o euro fracassar, fracassa a Europa”, dirá em Outubro de 2011. Enquanto ia acumulando derrotas nas eleições regionais, a chanceler foi somando vitórias nos palcos da crise do euro. Mantendo um discurso pró-Europa, Angela Merkel não abdicou da austeridade e impôs aos seus pares um caderno de encargos da sua lavra. Por momentos, receou-se que a sua paciência com Atenas se esgotasse. Mas não, até aí se manteve firme na convicção europeia. De resto, Merkel não sucumbiu aos que pediam flexibilidade e tempo no combate à crise.

O ano de 2012 será lembrado como o ano em que a moeda única foi salva da implosão a que parecia condenada pela crise da dívida europeia. Foi a decisão da chanceler de manter a Grécia no euro e, mais ainda, de assumir os custos associados que o permitiu fazer.

Ganhou entre os alemães a aura da salvadora do euro a custos mínimos e o cognome de Mutti. O ano de 2012 seria também o ano da afirmação do poder incontornável da Alemanha, da fragilidade da França e da mais evidente e perigosa deriva do Reino Unido em relação à Europa.

Mesmo tendo em consideração todos os riscos políticos que a decisão acarretava, decidiu  abrir, a 4 Setembro de 2015, as fronteiras alemãs a todos os refugiados sírios que queiram procurar refúgio em solo alemão. No dia seguinte chegariam a Munique, de hora a hora, comboios cheios de refugiados. As centenas depressa se tornaram milhares e nos cais vivem-se momentos comoventes. Milhares de alemães trazem brinquedos, vestuário, água, guloseimas.  Dão, eufóricos, as boas vindas. As cenas repetem-se nas estações ferroviárias de Frankfurt am Main e Dortmund.

A maior emergência humanitária desde 1945, a crise dos refugiados transformou aos olhos da opinião pública e publicada a vilã impiedosa numa  heroína global. E transformou para sempre a Alemanha. “A chanceler alemã está do lado certo da história. Num mundo global a solução não é construir muros”, sublinhou Barack Obama.

Em 2015 a revista Time elegeu-a como a personalidade do ano. “Por pedir mais do seu país do que a maioria dos políticos ousaria, por enfrentar de forma firme a tirania, bem como o oportunismo e por oferecer uma liderança moral firme num mundo onde esta é escassa, Angela Merkel é a pessoa do ano da Time”.

No Guardian, o historiador britânico Titmothy Garton Ash, profundo conhecedor da Alemanha, dizia: “A expressão ‘líder do mundo livre’ é normalmente aplicada ao Presidente dos Estados Unidos, e raramente sem ironia. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.”

Quem é a chanceler? De onde veio a dama que fez xeque-mate a todos os reis no seu caminho? Como cresceu? De que gosta? Como é a pessoa para além da política? O que a faz mover?

Perguntas que, desde 1991, altura em que Merkel  se tornou pela primeira vez ministra, ocupam jornalistas, analistas e biógrafos. Talvez uma das melhores respostas que encontrei foi a de Bernd Ulrich, no Die Zeit. “Wer ist Merkel? Die Kanzlerin. Was will sie wirklich? Kanzelerin sein.”(Quem é Merkel? A chanceler. O que pretende realmente? Ser chanceler).

 

 

Helena Ferro de Gouveia

(blogue DOMADORA DE CAMALEÕES)

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Convidada: CARLA ROMUALDO

por Pedro Correia, em 22.09.17

 

Tântalos

 

Uma das histórias (“Will-o’the-Whisp”) de Sum: Tales from the Afterlives (uma compilação de contos breves sobre possíveis vidas depois da morte escritos pelo neurocientista David Eagleman) descreve um Paraíso que inclui uma sala repleta de monitores. Aí, o recém-morto descobre, para seu grande espanto e euforia, que poderá seguir tudo, rigorosamente tudo o que vai acontecendo aos vivos. Vai saltando de câmara em câmara e acompanhando o que sucede ao seu legado: as alegrias e infortúnios dos filhos e netos, de que modo é evocado por quem o conheceu, a evolução dos projectos que criou ou de que fez parte, as crianças que trepam à árvore que plantou, os novos habitantes da casa que foi sua, etc.

Rapidamente fica viciado nessa actividade. Corre todas as manhãs para os monitores e aí passa o dia até ao encerramento da sala. Quer sempre ver mais, saber mais, sofre e alegra-se com quanto vê mas nunca fica saciado. É como se a vida, a sua vida, ainda lhe pertencesse. A visão que possui agora da complexa rede de acontecimentos e suas consequências é múltipla, profunda, total; mas está impossibilitado de qualquer tipo de intervenção. Não há mensagens sussurradas em sessões de mesas de pé-de-galo, nem aparições fantasmagóricas, nem sinais de espécie alguma. Tudo verá e nada poderá fazer. Apesar disso, o morto – cada vez menos recente – regressa todos os dias à sala com igual sofreguidão.

O acesso à sala dos monitores, porém, tem um prazo de validade. Em algum momento, o cartão de acesso deixará de funcionar e o morto ficará de fora, a olhar os portões que outros transpõem mas ele não, e reparará que do lado de fora há outros como ele, a rondar, à espera de uma oportunidade para iludir a segurança e regressar à sala, coisa que nunca mais ocorrerá.

O prazo de validade do cartão de acesso não é aleatório. Cada recém-chegado tem a sua vida escrutinada. Os que fizeram sobretudo boas acções são os que primeiro perdem o acesso à sala dos monitores. A esses, como recompensa, é poupado o conhecimento de um futuro que não viverão.

 

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Tendo por certo que a memória tem os seus caprichos, ninguém estranhará que me tenha lembrado deste conto, assim como da história de Tântalo, quando me vi frente à fonte de Trevi, em certa tarde de Verão. É que Tântalo, filho de Zeus, foi condenado a nunca saciar a fome e a sede, apesar de permanentemente mergulhado em água até ao queixo e à sombra de ramos carregados de frutos. Quando tenta alcançá-los, a água escapa-se e os ramos afastam-se. E a Tântalo, garanto-vos, assemelham-se os polícias que vigiam a fonte. Quando, saídos de umas quantas voltas por ruelas pouco prometedoras, se nos depara a luminosa Trevi, insolitamente ali, como se acabada de materializar-se, o primeiro que ouvimos são os frenéticos apitos. Em seguida, as vozes e risos da multidão. E só depois, muito depois, quando os ouvidos se habituam a tanta dissonância, a água.

Tardamos em descobri-los entre a multidão, mas aí estão, os polícias das fontes, acalorados, reluzentes de suor, muito morenos, a camisa demasiado justa para tão ampla curva da barriga, visivelmente irritados, ei-los, os guardiões do património, zelando para que nenhum turista com delírios de Ekberg se lance aos pés de Neptuno.

Não, enquanto eles aqui estiverem não haverá mergulhos, nem rabos sentados no mármore, nem pés nus a chapinhar, nem se lavarão rostos, cabelos, mãos, chapéus ou bandanas, nenhum gesto de desrespeito pelo património que constituem agora as fontes, ordem da presidente da Câmara. E aqui estamos, 42 graus à sombra, sedentos, sem poder avançar por entre uma multidão de turistas com câmaras, tantos são os paus de selfies ao alto que mais parece a rendição de Breda, aqui estamos frente à miragem luminosa da fonte onde Mastroianni, cheio de frio, já um pouco bêbedo, porque a produção tentou aquecê-lo com whisky, mergulhou atrás de uma deusa nórdica a quem as águas pareceram cálidas. O sensual quadro que guardávamos na memória transformou-se em cena absurda, ainda que italianíssima. O estrépito dos três, nada menos que três apitos – do lado esquerdo, no centro e do lado direito – enerva, mas a energia repreendedora dos agentes tem uma comicidade irresistível. Gesticulam, zangam-se, sopram o apito, mandam desencostar da fonte com gestos exagerados, vigiam o ritual do lançamento das três moedas por cima do ombro, um costume que um guia imaginativo garante provir do general Agripa, como se não soubéssemos que o devemos a Frank Sinatra.

 

 

Neptuno, a Abundância, a Fertilidade, a Colheita, cavalos alados resfolegantes, tritões ensandecidos – frente a nós está a vida, caótica, aos borbotões, mas não devemos tocar-lhe. Tampouco o farão os três homens. Quanto dariam os guardiões para poder cometer o delito que têm por missão prevenir…

E então, estourados, lábios a arder, pernas doridas, sandálias empoeiradas, voltamos costas a Trevi, com pena, e anunciamos bem alto que não, não desejaremos uma eternidade contemplativa com vista para o que não podemos provar.

Apitam os três em uníssono, como quem diz ámen, e cai o pano na tarde romana.

 

 

Carla Romualdo

(blogue AVENTAR)

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Convidada: CATARINA DUARTE

por Pedro Correia, em 20.09.17

 

O respeito pelo direito à diferença obriga-nos a todos a pensar igual?

  

Os temas são lançados, a grande velocidade, na nossa sociedade: poucas vezes debatidos onde devem ser; muitas vezes falados, com alguma leviandade até, nos cafés do mundo digital, onde se tornam virais. 

Ao longo dos últimos anos, temos vindo a abordar assuntos muito relevantes, alguns deles quase fracturantes, numa sociedade tida como tradicional e conservadora, que permaneceu, durante muitos e muitos anos, fechada sobre si mesma e que se viu, de um momento para o outro, com um mundo inteiro de questões pela frente.

 

Temas como o aborto, o casamento e a adopção por casais do mesmo sexo, temas como a eutanásia, como as barrigas de aluguer, são apenas alguns exemplos das muitas questões que devem ser debatidas de forma séria.

Há quem concorde, há quem coloque dúvidas, há quem não disponha de toda a informação ou de todo o conhecimento necessário para poder opinar com conhecimento de causa mas há também quem, apesar de ter toda a informação do seu lado, simplesmente, não concorde. E estas pessoas, aquelas que não concordam, são, muitas vezes, mal tratadas e perseguidas.

 

Nos cafés virtuais, mas também na vida de todos os dias, ninguém se dedica a perceber a origem dos seus receios, quando é precisamente nessas interrogações que uma sociedade - que ainda está a aprender como funciona isto de ser democrata - evolui.

Qualquer de nós, para qualquer assunto, pode ser a excepção para determinada regra. É, por isso, importante dar voz a todos e a todos dar a oportunidade de pensar e dizer o que, concretamente, pretendem transmitir, sem qualquer tipo de represália, sem qualquer tipo de receio, sem qualquer tipo de censura.

 

Hoje, se quisermos pertencer ao grupo dos fixes, os tais que, nos cafés virtuais, se sentam na mesa do fundo a fumar cigarros e a beber café, a nossa opinião tem que ser a favor do ciclo da sociedade. Caso contrário, somos recambiados para o galão fraquinho e para a torrada com pouca manteiga.

Estamos muito sensibilizados quanto às questões das minorias e, de repente, toda e qualquer opinião passou a ser imposta às maiorias. Impingimos as nossas crenças e os nossos valores, forçamos a igualdade na forma de ser e na forma de estar e, pior, caminhamos para impor a igualdade de pensamento!

 

No final do dia, a perseguição é feita ao homem pelas suas ideias e eu concluo sempre: tanto queremos respeitar o direito à diferença que obrigamos todos a pensar igual.

 

 

Catarina Duarte

(blogue INSENSATEZ)

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Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

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Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 18.09.17

 

A primazia do individual sobre o colectivo

  

A esquerda encontra no Estado resposta para todos os problemas, aumentando sucessivamente a carga fiscal em nome do chamado Estado social, deixando os cidadãos sem metade do salário supostamente para garantir serviços de saúde e educação tendencialmente gratuitos, mas os portugueses continuam a gastar boa parte da outra metade do salário, precisamente em despesas com saúde e educação. Pelo meio vão atendendo aos interesses corporativos instalados, garantindo a chamada paz social, que não serve a todos, mas satisfaz os que têm capacidade de encher as ruas, berrando de megafone em punho.

Alguns radicais culpam o capitalismo e reclamam ainda mais Estado, para colmatar as insuficiências do sistema. Outros mais cínicos afirmam ser possível reformar, mas se cortam um imposto para efeitos propagandísticos ou satisfação da clientela, logo em seguida sobem outro, enquanto aumentam alguns cêntimos pensões e salários, procurando conquistar votos, mas no final o resultado líquido é sempre o mesmo, dívida e carga fiscal não param de crescer. Como se não bastasse, o Estado ainda serve para albergar familiares, amigos e correligionários políticos, auferindo salários acima da média e boa parte deles com emprego para a vida garantido. Enquanto o contribuinte tiver alguma disponibilidade no bolso, imaginação não faltará aos parasitas.

 

Seria suposto o Estado garantir segurança aos cidadãos, mas sobre isso estamos à partida conversados, viu-se agora no Verão o resultado dos incêndios, deixando a nu as ineficiências do Estado.

Em matéria de segurança criminal e justiça ainda é pior. Vários complexos típicos da esquerda tendem a desculpabilizar ou mesmo justificar comportamentos criminosos individuais. Acresce a tudo isto um sistema judicial moroso que ninguém ousa reformar, tornando Portugal um case-study. A memória do Estado Novo ainda não se apagou e há quem pretenda confundir autoridade das forças policiais com repressão. Falam em combater a corrupção, mas comparem o tempo que os EUA precisaram para julgar e condenar Madoff com o tempo que Portugal precisa para sentar um banqueiro ou político no banco dos réus. Apenas infracções de trânsito e evasões fiscais são tratadas de forma célere, muitas vezes demasiado céleres, sem garantir os direitos de defesa, tudo o resto é moroso.

 

Todos concordam na necessidade de descentralizar, aproximar os centros de decisão política dos cidadãos, mas ninguém ousa reformar de forma séria o mapa autárquico. A redução do número de freguesias foi imposta pela troika, ou não teria avançado, o número de municípios permanece intocável e se forem mexer será para aumentar. A não ser talvez, que num futuro não muito distante, Portugal seja obrigado a solicitar novo resgate. Porque há nos partidos militantes a precisarem de emprego como presidentes de câmara, vereadores ou assessores e mais alguns ainda para trabalhar nos diferentes serviços municipais.

Tenho para mim que num país da dimensão de Portugal bastariam cem municípios e talvez umas mil freguesias. Mas alguém acredita que será possível reformar profunda e eficazmente o Estado sem enfrentar uma contestação brutal? Basta encerrar um Tribunal, serviço de hospital, estação de correios ou balcão da CGD para se instalar a berraria.

 

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À direita, em bom rigor poucos se assumem como direita, a maior parte dos políticos nessa área dizem-se sociais-democratas ou democratas-cristãos, para atrair votos da esquerda moderada, o que até não está mal de todo, uma vez que instalados no poder fazem exactamente o mesmo que os socialistas, mas sem contarem com a benevolência de boa parte das redacções nos media ou das corporações. No fundo são versões light do socialismo.

Liberal na economia, conservador nos costumes, ultimamente em Portugal alguma direita traça este auto-retrato. Alguém que pretenda para si Liberdade mas não a conceda aos outros será seguramente um hipócrita, sabendo à partida que da esquerda não se pode esperar muito nesta matéria. É triste constatar que da direita também não.

O nazismo é proibido ou tendencialmente silenciado ao contrário do comunismo. Num contexto de atentados terroristas de inspiração islâmica, não falta à direita quem pretenda colocar barreiras à imigração. Quanto a mim todas as ideologias e religiões devem ser permitidas e toleradas. Pouco me importa que defendam Hitler, Estaline ou Mao. Que adorem Alá, Jesus Cristo ou até o Diabo se preferirem. São os comportamentos criminosos, individuais ou de grupo que devem ser perseguidos e reprimidos, nunca a convicção ou pensamento. A Liberdade tem essa superioridade moral: quem verdadeiramente a ama e pratica, defende-a até dos que pretendem suprimi-la.

 

Também não me revejo nos que à direita se dizem liberais na economia, mas defendem subsídios para a tourada em nome da tradição. Não gosto dos anti-tourada, aliás, não gosto dos anti seja o que for, a tourada existe e deve existir enquanto existirem espectadores. Qual a moral de criticar um subsídio para o cinema, teatro ou qualquer actividade que a esquerda habitualmente considera de interesse público, mesmo que não interesse ao público, forçando que todos a paguem e depois fazer exactamente o mesmo? Não se pode defender o mercado e apregoar suas virtudes apenas às segundas, quartas e sextas.

Se a Liberdade é virtuosa, porque terei que continuar aceitando que o Estado defina as substâncias que posso ou não consumir? Os efeitos do álcool são assim tão diferentes da cannabis ou mesmo cocaína? Conduzir sob efeitos que limitam o comportamento será diferente, porque não somos da via, apenas a partilhamos com outros, fora disso cada um tem o direito de fazer o que quer. Até porque já o faz. Hipocritamente os governos combatem e proíbem a droga, mas alguém que pretende consumir determinada substância não a consegue adquirir?

 

O comportamento sexual de cada um é com cada um. Não quero saber da conversa da esquerda reivindicando direitos para grupos específicos, gostaria sim de ver os que se dizem liberais defendendo a Liberdade plena de todos os indivíduos. Porque a questão de fundo é a primazia do individual sobre o colectivo. A esquerda funciona numa lógica grupal, colectiva, por isso amarra pessoas a rótulos, os conservadores fazem o mesmo, apenas consideram existir grupos bons e grupos maus, oferecendo à esquerda os votos da causa. Esquecem ambos que os direitos não são colectivos, mas individuais.

O insuportável politicamente correcto deve ser combatido porque configura a perda da Liberdade, da individualidade, pretende impor à sociedade uma normalização que por vezes até a faz parecer um rebanho. Nada de novo, o velho socialismo sempre colocou o colectivo acima do indivíduo, obtendo o desastroso resultado que todos conhecemos.

A esquerda não pode ser combatida apontando os seus erros e incompetências, mas defendendo a Liberdade em todas as suas vertentes. Ao contrário do que alguma direita defende, não se podem abrir excepções: a Liberdade precisa ser total e não condicional.

 

 

António de Almeida

(blogue AVENTAR)

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Convidada: CARLA MAIA DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 15.09.17

 

Religações

  

Tenho um cinto de couro que comprei há anos, e tenciono usá-lo até que se gaste e morra de morte natural. Tenho um único cinto; tal como só tenho um par de óculos de sol, um relógio (que não uso), uma gabardine, um guarda-chuva, uma carteira, uma mochila, umas havaianas, um cartão de telemóvel e um carregador de bateria. Não vejo necessidade de acumular acessórios de difícil arrumação e utilidade duvidosa. A ideia de «ir às compras» aborrece-me. Se quiserem torturar-me, convidem-me a passear num centro comercial, em demanda de roupas ou sapatos, e peçam-me opinião sobre a matéria. Em menos de cinco minutos, simularei um ataque de hipoglicemia e sairei da terceira loja com ar desvairado.

 

No último inverno, a presilha soltou-se. Deixei a coisa andar, até que o cinto se começou a parecer com a orelha caída de um basset hound, e achei por bem impor limites à minha preguiça. Procurei um sapateiro e perguntei-lhe se o paciente tinha conserto. O homem, já velhote, disse que sim, que não era grave. Pegou em agulha e linha e pôs-se a coser a presilha, cheio de paciência e vagar.

 

Fazia frio. Começámos a falar sobre comida, para aquecer a alma. Ele contou-me do bife que dava para quatro pessoas, e que a mãe dele desfiava num arroz malandrinho, apaladado com salsa picada e cenoura às rodelas. Eu contei-lhe do rancho que se fazia em casa da minha avó materna, um rancho como nunca mais provei, com bofes e tudo. Então, ele levantou os olhos e perguntou:

— A menina é do norte?

— Sou. Como é que sabe? Não tenho sotaque.

— É que só lá é que se diz «bofes»...

— ... e se tratam as senhoras por «menina».

 

Continuámos a conversa, agora estreitada por laços geográficos. Ao nosso lado, as pessoas entravam e saíam, na voracidade das manhãs urbanas, inquirindo os preços das palmilhas, duplicados de chaves, tacões e meias-solas. Aconcheguei-me no conforto de uma certa invisibilidade temporária.

 

Quando acabou o trabalho, entregou-me o cinto: «Está pronto.» Não aceitou dinheiro. Insisti, sem sucesso. Despedimo-nos com um sorriso, desejei-lhe um bom dia e agradeci-lhe outra vez.

 

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Saí para a rua e atirei-me ao frio como gato a bofe, corajosamente. Tenho a certeza de que o resto do dia me correu bem. Sentia-me animada, grata, ligada ao mundo por um encontro generoso. Registei tudo no meu caderninho preto, cujo título é: «Primeiro a bota, depois a meia» (um dia, também vos conto esta história).

 

O cinto ainda vai durar mais uns anos, aposto. A memória deste encontro durará muito mais. Não é uma opinião, é um sentimento.

 

 

Carla Maia de Almeida

(blogue O JARDIM ASSOMBRADO)

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Convidado: BRUNO SANTOS

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Rosas do abismo

  

Parece que a nova moda entre uma certa inteligência nacional é espalhar a ideia, não só de que Portugal é um país racista, mas também que toda a sua História é uma expressão antiga, intemporal, desse racismo.

Este ataque ao carácter da Nação e ao seu legado é uma forma de revisionismo, de falsificação histórica e ocultação, que pretende apagar da memória colectiva, principalmente da que servirá as novas gerações, o verdadeiro sentido do projecto Português no mundo e os pilares da sua identidade. Pretende, no fundo, armadilhar o futuro, esvaziando o céu de uma terra que há muito perdeu o chão.

Nenhuma das grandes nações da História está isenta de erro e a evolução da Humanidade sobre o planeta tem sido feita à custa de conquistas, de desastres, de luta pela sobrevivência ou pelo poder, de busca da Paz ou da guerra. Mas o contributo dado por Portugal, ao longo de toda a sua História, para a aproximação dos povos, para o conhecimento do Homem pela descoberta do Outro, ficou bem expresso na saga dos Descobrimentos, quando o nosso país liderou um movimento civilizacional de amplitude global, que permitiu a expansão do mundo sobre si mesmo e a abertura de horizontes com os quais a humanidade não sonhava.

O Projecto Áureo português foi bem mais do que a construção de um simples império colonial. Ele representou a expressão plena de um universalismo afectivo e de uma Alma infinita que se contemplava a si própria em qualquer lugar da Terra, do Brasil à Índia, do Tibete a Timor. E ainda que a força do poder e o poder da força tenham muitas vezes sido usados nos diferentes alhures onde chegou a ânsia de conquista - que mais do que do outro, foi a ânsia de conquista de si próprio - o que nesses lugares deixámos de mais importante, porque mais vivo e vivificante, foi a marca indelével de uma comunidade de afectos reunida em torno de uma utopia espiritual. Por isso há hoje portugueses espalhados por todo o mundo. Portugueses de todas as cores, de todas as raças e línguas, de todos os credos e nações. Por isso hoje a Esfera Armilar permanece na bandeira que nos representa, como símbolo de uma vocação fraternal perene e tradução oculta de um lema que fez de Portugal e dos portugueses dignos capitães de uma saga maior, em busca da Verdade, da Justiça e da Paz (Aleph, Daleth, Shin).

 

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Por isso também resiste nos atlânticos Açores a Ave encimando a esfera do Mundo, sobre a Coroa do seu Imperador - a Criança ou o Pobre - trazidos como luz eterna à noite escura do século pela Rainha da Rosa e pelo Rei que nos lavrou na Alma um destino tanto mais belo quanto incompreensível e sofrido. Sabeis novas do meu amigo? Ai Deus e o é?

Vive em todos os povos, porque é constitutivo do humano, a chaga do preconceito, da ignorância e do temor ao outro. Mas poucos foram esses povos, ao longo de séculos e séculos de desventuras, que como os portugueses buscaram nesse outro a razão de si próprios, vendo neles, reflectida como num espelho, a inocência de um Império intraduzível, sem espaço nem tempo, cujo monarca único é o Amor.

Não. Portugal não foi, não é e não será, por muito que os seus detractores o tentem impor, um país racista. Dorme, é verdade, um sono de morte. Um sono fundo, comatoso, povoado de sonhos lúgubres e dantescos, onde ladrões e necromantes dançam e riem em torno dos círculos infernais. É verdade que Portugal é hoje um espectro, uma sombra, um esquecimento. Mas brilha teimosamente no peito desse espectro "uma pequenina luz bruxuleante", um vestígio tenaz da sua Alma Eterna que será, se assim Deus o quiser, quem iluminará o caminho da noite e encherá de rosas o abismo.

 

 

Bruno Santos

(blogue AVENTAR)

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Convidada: ANAMAR

por Pedro Correia, em 11.09.17

 

Em Setembro...

  

O que diria Raul Brandão, se voltasse a este mundo, e visse os queridos lisboetas incomodados com tantos turistas?

São euros, senhores,  são "euro milhões"...

Foi este escritor tão realista como lírico que me ajudou há alguns anos a descobrir o significado da expressão "vai-te embora ó mês de Agosto".

Era uma expressão lá muito de casa, dita pelo meu pai, quando havia alguma contrariedade ou alguém o aborrecia.

Estamos situados na Figueira da Foz, cidade-mãe da que foi considerada, até fins dos anos 70 do século passado, Rainha das Praias de Portugal, praia da Claridade.

Raul Brandão mostrou-me o caminho. Escreveu que considerava os figueirenses pouco hospitaleiros e arrogantes para com os veraneantes, por lhes ocuparem os espaços de casa, pois ao alugar iam viver para anexos, a ocupação de ruas, cafés e esplanadas e tudo o mais que alimenta uma estância balnear e os levava a expressarem-se dessa maneira.

Junho, Julho e Agosto eram plenos, Setembro  trazia os banhistas de alforge, que pela sua simplicidade não traziam mal ao seu "mundinho". (Conhecer a Figueira do século passado é uma riqueza no maravilhoso livro de Jorge de Sena "Sinais de Fogo").

O ADN dos habitantes de uma região é para a vida... Não deixa de ser estranho que os figueirenses, ainda hoje, continuem a pensar da mesma forma, mas em escala menor, na proporção dos banhistas que recebem, que são muito menos, oriundos de Coimbra e Beira Interior, nostálgicos  de um passado que também foi meu, mas não pratico e resumido ao mês de Agosto.

Outrora, alugar casas três meses seguidos era a verdadeira "almofada de conforto" numa cidade de turismo e pesca.

As boas vias de comunicação permitem que as pessoas façam praia e voltem a casa. Mais baratinho...

Bom, este é um "delito de opinião"... que faz de mim uma filha esconjurada pelos detractores da cidade. 

Eu continuo a dizer "vai-te embora ó mês de Agosto", mas porque gosto muito de Setembro. 

 

 

 

Anamar

(blogue MAR À VISTA)

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Convidada: CÁTIA MADEIRA

por Pedro Correia, em 06.09.17

 

Não é feliz? Ai que horror!

  

Vivemos numa espécie de Síndrome de Felicidade, em que o êxtase com o que somos tem de estar sempre num qualquer pináculo de satisfação que pouco se entende.

Quando era miúda não havia redes sociais. Quando só tínhamos quatro canais e a TV por cabo era um privilégio de muito poucos, nesse tempo não se falava de felicidade. Não havia questionários com o nível de felicidade. A publicidade não vendia a bendita de forma tão explicita e nós também não nos preocupávamos tanto com ela.

A vida vivia-se com o que existia. Todos sabiam que havia momentos do “tem de ser”, em que a felicidade está tudo menos presente; os momentos de castigo, os de insatisfação, os de inveja, os de ciúme, os de levar uma lambada na cara e engolir o choro acompanhado de lágrimas fingindo não ter sentido nada. Depois existiam os momentos em que estávamos contentes.

Hoje a felicidade é um objectivo, um projecto, um “goal” (para os que preferem em inglês). Ser feliz é para alguns uma opção, uma escolha. A mim parece-me que aquilo que me tentam fazer assimilar se parece cada vez mais uma obrigação. Sorrir, mesmo em dor.

Parece que todos temos de estar sempre a encontrar motivos para esfregar felicidade em face alheia. Sobrando-nos os momentos do sofrimento colectivo, aqueles em que se colocam sinais de luto no Facebook por conta de uma tragédia nacional. Ou aqueles em que mostramos enraivecidos porque um país alheio escolheu mal o seu presidente.

De resto, tudo no nosso pequeno mundo corre na perfeição, afinal de contas depende apenas das nossas escolhas e da nossa vontade. As restantes frustrações são apenas histórias mal resolvidas.

 

Jamais no tempo de minha mãezinha alguém se lembraria de querer validar a qualidade do valor do leite que vendia pelo nível de felicidade das vacas. Hoje, uma conhecida marca de lacticínios usa exactamente esse rótulo para garantir que o seu produto é o melhor do mercado.

Pergunto-me quem terá feito o questionário às vacas. Penso cá com os meus botões se alguém enviou por e-mail um questionário, ao estilo Marktest, daqueles com mais de 50 perguntas, para que as vacas fizessem uma avaliação ao seu nível de felicidade. Mais uma vez, para quem prefere estrangeirismos, a vaca faria um “assessment”.

A vaca, depois de um dia a dar leite a troco de um fardo de palha, abre o e-mail e depara-se com cinco dezenas de perguntas às quais deve responder de: “mu” a “muuuuuuuuuuuuuuu”, sendo que “mu” corresponde a “discordo completamente” e “muuuuuuuuuuuuuuu” corresponde a “concordo completamente”.

A felicidade serve para vender tudo, até correntes banhadas a ouro com uma pedra pendurada na ponta.

Quando ouço alguém afirmar que a felicidade é uma escolha dou comigo a ruminar: “como será a vida desta pessoa? Que raio de obstáculos terá encontrado?”, é provável que poucos, é possível que nenhuns, ficando no fim da linha a hipótese de ter encontrado uma qualquer espécie de life coach (que são aquelas pessoas que para aí andam a ensinar os outros a viver) que lhe deu a receita mágica.

 

Mas não há nada como olhar para um caso prático. Concordam?

Olhemos então com atenção para a Clotilde Maria.

 

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A Clotilde Maria levanta-se às 5:30 da manhã, come qualquer coisa sem lacticínios e sem glúten. Tira o pijama apesar do frio e veste o equipamento de corrida. Quando saí à rua está um frio de rachar, sente-se tentada a voltar para a cama, mas ontem, sob o sentimento de “motivada” tinha já dito no Facebook que hoje corria logo pela manhã. No fim do seu texto inspiracional estava um #noexcuses.

Ao fim de 3 km já estava arrumada mas castigou o corpo mais um pouco, afinal de contas não se tinha esquecido de ligar a aplicação e podia publicar na sua conta os quilómetros percorridos. No fim, sem estar certa se desmaiaria ou não, publicou o feito. Uma foto do seu relógio xpto para acompanhar. Tirou várias selfies, mas desistiu, em todas estava capaz de vomitar. Assim não seria motivadora. Publicou tudo com um “a sentir-se feliz”, concluindo com um simples #nopainnogain e uma frase “vale tanto a pena começar o dia assim”. Até chegar a casa recebe pelo menos 10 gostos das amigas que a invejam no trabalho, as mesmas que lhe passam o dia a dizer “quem me dera ter coragem”. As que ainda estarão na cama a esta hora.

O dia passa sem nada de bom para contar. Mal viu o filho pequeno que entretanto o marido já deixou no colégio. Não falou com o marido porque este tinha uma reunião cedo e correu para os transportes. O autocarro atrasou-se, o barco esteve em greve e a fila para pedir um café interminável.

Mas chegou ao emprego, ligou o computador, fez 20 gostos nas páginas das amigas e, apesar de estar passada dos carretos, publicou uma imagem retirada do Google onde dizia “a vida é feita de pequenas coisas, aproveita e sê feliz”. Recebeu 100 gostos.

O chefe disse mal do seu trabalho, perdeu dois ficheiros de Excel importantes porque o PC ficou passado, a mãe ligou-lhe a dizer que o pai estava pior, saiu fora de horas do escritório, mais greves, mais autocarros atrasados. Chegou a casa, deu um beijo no filho e foi fazer o jantar. Quando acabou de arranjar tudo para o dia seguinte o filho já tinha adormecido no sofá. Deitou-o e antes de dormir publicou novamente no Facebook: “Ser feliz é a minha escolha, qual é a tua? Boa noite”.

Adormeceu a chorar.

 

Alcançar um momento de júbilo, daqueles que recordamos em velhos, nos serões com amigos, ou já caquéticos no lar, deixou de ser algo que sentimos porque um conjunto de variáveis da vida assim o proporciona. Passou a ser algo que depende inteiramente de nós, independentemente do que a vida nos oferece. Transformou-se num estilo de vida. Uns são budistas, outros são católicos, mil outras religiões e crenças, e depois há os felizes.

Às vezes imagino que quando adormecemos um qualquer neurónio, chefe do gabinete da felicidade, manda chamar todos os outros e, enquanto vira as páginas do seu flipchart, demonstra a evolução que estão a fazer. Ameaça de despedimento os neurónios insatisfeitos e promete promover os que a procuram com verdadeiro empenho.

Há uns meses ouvi uma citação fantástica que sou incapaz de reproduzir mas que, em suma, pretendia transmitir o seguinte: quanto mais perseguimos a felicidade, menos a encontramos. E eu, que escrevo neste blog com nome choninhas, cada vez mais compreendo esta realidade.

A felicidade é um lugar que encontramos a espaços, são momentos, episódios, circunstâncias. A felicidade é a primeira palavra de um filho, uma manhã sem preocupações, uma tarde de sol na praia enquanto os miúdos correm na areia. São coisas pequenas, comuns, que de tão banais parecem poder ser orquestradas, planeadas, mas não podem. A felicidade nasce da espontaneidade do momento e fica gravada na nossa memória.

 

Antes de ir pregar de volta para a minha freguesia, deixo ainda a entrevista feita por um programa alegre à Cláudia Marisa, uma eterna infeliz, só Deus sabe porquê! Já que a apresentadora não entende.

 

Boa tarde a todos, estamos aqui esta tarde para falar com a Dona Cláudia Marisa que nos vem falar um pouco sobre si a propósito de nada, tínhamos de encher o programa com conteúdos.

(risos forçados)

- Boa tarde Cláudia Marisa.

- Boa tarde.

- Então conte-nos um pouco sobre si. É uma mulher feliz?

- Não. Por acaso não sou.

- Não é feliz? Aí que estranho! Mas então porquê?

- Bom, perdi toda a minha família. Os meus pais morreram num acidente de viação e eu fui entregue num orfanato. Quando fiz 18 anos saí e fui trabalhar para ter dinheiro para alugar uma casa. Conheci o meu marido nessa empresa. Casámos. Estávamos felizes...

- Então quer dizer que já foi feliz? Porque não está agora?

- Porque o meu marido teve um acidente de trabalho e morreu.

- Como assim? Conte-nos tudo.

- Deixaram que lhe caíssem em cima várias paletes de latas de salsichas.

- Que horror. Essa empresa funcionava mal em termos de logística.

- Por acaso não. O meu marido não devia estar lá. Descobri depois de ele morrer que me traía com a Jacinta da charcutaria. Estavam a encontrar-se escondidos nesse momento quando as paletes lhes caíram em cima. Ficaram juntos para sempre.

- E depois?

- Depois descobri que estava grávida. Mas perdi o bebé com o stress. Voltei a estar sozinha.

- Mas tem amigos e amigas certamente...

- Não, as pessoas tendem a afastar-se de quem tem muito azar. Gostam mais de pessoas felizes e que atingem objectivos.

- Se calhar a Cláudia Marisa tem pensamentos negativos. Tem, Cláudia, pensamentos negativos? Ou consegue olhar para a frente e ver um futuro brilhante?

- Choro muitas vezes a pensar no que me aconteceu.

- Pois é isso. É isso que impede a sua felicidade. Está tudo na sua mente. Já experimentou mindfullness?

- Não sei o que é. É algum tratamento?

- É um estilo de vida.

- Certo.

- Vai ver que se se encher de força de vontade vai ser feliz.

- Descobri que tenho só tenho seis meses de vida.

- Ora que chatice. E o que é que fez em relação a isso?

- Estou a ser acompanhada por um excelente médico num hospital público.

- Publico, disse?

- Sim.

Hummm. Já experimentou deixar o glúten e os lacticínios?

- Não.

- Pois. Olhe que pode ser isso.

Entretanto alguém fez sinal, o tempo estava a acabar. Terminaram o programa com um “até a amanhã e não se esqueçam de ser felizes”.

As luzes apagaram-se, a Cláudia Marisa voltou para a sua miséria, sobre a qual havia de optar ser feliz. A apresentadora seguiu com os seus compromissos e as suas publicações nas redes sociais; aquelas cujas fotos foram tiradas  sem querer  por um fotógrafo profissional, num momento de profundo júbilo, enquanto corria à beira-mar, ainda maquilhada e com roupa sem um pingo de suor.

 

 

Cátia Madeira

(blogue EM BUSCA DA FELICIDADE)

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Convidada: MARIA ARAÚJO

por Pedro Correia, em 04.09.17

 

O momento certo

  

Há cerca de um ano tive um contratempo com alguém da blogosfera, a propósito de um e-mail que me enviou, e a que não respondi porque a minha frequência no Sapo Mail era praticamente zero. Desde então tento ler, diariamente, a correspondência que recebo. São, maioritariamente, comentários/respostas aos posts.

Hoje, final da tarde, dei uma vista de olhos ao correio e, de repente, um nome que conheço da blogosfera chamou-me a atenção. Reparo no assunto.

Se os meus olhos ficaram petrificados, o meu coração bateu forte com a surpresa do conteúdo.

«Porquê eu?»

«E agora?! O que vou fazer?»

 

Sem a miníma ideia sobre a volta a dar ao assunto, sem conseguir perceber o que levou tão distinta pessoa a fazer-me um convite destes, estava a minha cabeça confusa e os meus olhos liam e reliam o pequeno texto.

Não tinha palavras nem dedos que me levassem ao teclado para dar-lhe uma resposta.

Pensei procurar textos no meu blog que me dessem ideias. Não queria decepcionar este senhor.

Foi então que me lembrei de cumprir o desafio que eu própria lançara a alguém, há algum tempo, e que não cumprira porque estava sem ideias.

No ambiente de trabalho do computador, procurei o documento que guardara para o reler e retribuir no momento certo.

Abri-o e li.

 

Num desabafo (assim o interpretei), o autor do texto transmitia alguma nostalgia de escrever no papel, à moda antiga, de corrigir os erros manualmente, o que a tecnologia agora faz por si.

E fazia a comparação entre o texto publicado, escrito no teclado, sem erros e perceptível, com o original, manuscrito, que vai “esgalhando”, de modo a chegar assim ao leitor.

Os puristas vêem a escrita no teclado como um retrocesso, porque assim não se tem consciência da passagem das ideias do papel para o monitor. Isto levou-me a verificar de que modo a minha escrita no computador e a manuscrita seriam diferentes também.

Peguei no papel e na caneta. Escrevinhei o que me veio à mente.

Risquei, rabisquei, rasguei folhas.

Confesso que senti alguma dificuldade em escrever uma frase.

 

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No teclado, os dedos chegam lá com destreza e os olhos detectam os erros. Percebemos que as ideias estão mal definidas, apagamos, corrigimos, acrescentamos, copiamos, colamos. Perdemos consciência do valor que as rasuras, os rabiscos, o pensamento e as emoções que transmitimos ao papel têm tanto na escrita como na nossa vida.

Isto fez-me voltar atrás no tempo. Foram muitos os manuscritos que guardei nas gavetas físicas das minhas memórias: os de amor, os de família, os de amigos, os do simples prazer de escrever.

No teclado do nosso computador escrevinhamos uma frase, um sentimento, uma opinião, um conceito. E esquecemos.

É como as fotografias. Com as novas tecnologias, deixámos de gravar no papel, de pôr na moldura que decoraria o móvel da sala aquele momento especial. Ficam arquivadas nas muitas pastas do computador até ao dia em que nos lembramos de reviver aquela viagem, aquele dia, aquele momento.

Acabo este este texto com a mesma frase/pensamento que o autor “esgalhou” no seu: “Com os actuais processadores de texto, deixei de ter passado."

 

 

Maria Araújo

(blogue CANTINHO DA CASA)

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Convidado: JOSÉ RICARDO COSTA

por Pedro Correia, em 01.09.17

 

Pequeno devaneio outonal em pleno Verão

  

Embora partilhem a mesma melancólica serenidade, gosto mais de pensar num cemitério como uma espécie de alfarrabista do que num alfarrabista como uma espécie de cemitério, preferindo assim, em ambos, vestígios de vida onde tudo está feito para que prevaleça a morte. É verdade que as prateleiras do alfarrabista mais parecem campas de autores, de títulos, de editoras, ou mesmo de aristocráticos jazigos do que foram outrora valiosas e luxuosas colecções, e que hoje, quando só há tempo para a mais fugaz novidade (dizer “escaparates” nunca foi tão apropriado), jazem, ignotas, na mais desconceituada escuridão, da qual apenas uns bibliófilos ousam resgatar. Mas por muito anémicas, tísicas ou aneurismadas que estejam pelo tempo, basta um par de olhos que saibam ler para os ressuscitar, ainda que como mera curiosidade histórica ou estética. Ora, o mesmo pode acontecer num cemitério. Não com os seus moradores, que dormem o seu tranquilo sono eterno, mas com toda uma retórica fúnebre que, embalada pelo tempo, também por lá foi adormecendo.  

Calhando ir a passar ali perto, resolvi entrar no cemitério da Lapa, mesmo ao lado da igreja onde repousa o liberal coração de D. Pedro IV, para um segundo abraço ao venerável Camilo, durante o qual pressenti de novo o seu lamento por ter aquele ignóbil músculo como vizinho, em vez do irmão inteiro, cuja companhia preferiria. Ter, em pleno mês de Agosto, e num dia em que outras zonas do país iam ardendo sob um Sol impenitente, manhã tão fresca, ainda para mais coberta por um romântico nevoeiro e salpicada por uns inofensivos pingos de chuva, é um luxo meteorológico que não iria desprezar, aproveitando-o para um higiénico e não menos pedagógico passeio de moderno flâneur por aquela ilha de pedra transformada em alfarrabista para quem o procurar.

Só a título de exemplo, veja-se a frase inscrita no túmulo do pintor Silva Porto. Por muito que seja o respeito perante uma ilustre figura que hoje parte, já não é possível uma dedicatória como esta, sendo por isso, letra morta:

 

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Como será impossível, num tempo em que muitos alunos nem sabem os nomes dos professores (são o stôr de Matemática, a stôra de Inglês) esta dedicatória ao antigo professor:

 

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Ou ainda esta informação prestada pelos filhos da baronesa de Fornelos sobre o pedido da mãe relativamente à sua última morada:

 

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Como tantos livros que jazem nas prateleiras dos alfarrabistas, também já ninguém escreve sobre a pedra textos como estes para homenagear os mortos. Não porque não se queira, em virtude do nosso livre-arbítrio, mas porque não se pode. Tal como na Literatura. Sendo a língua a mesma, a portuguesa, poderíamos escrever romances como Herculano ou Camilo, lado a lado com os de Lobo Antunes ou Saramago, ou poesia como a de Maria Browne, João de Lemos ou Bulhão Pato com a mesma naturalidade com que o fazem Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice ou José Miguel Silva. Mas não o fazemos pela mesma razão que não vestimos as suas roupas, não partilhamos a sua sensibilidade moral, não usamos as mesmas expressões ou gestos quotidianos: o tempo, essa camisa de forças que nos prende a uma época, não o permite.

Mas uma coisa é escrever, outra será ler. Se os museus continuam cheios de pintura que já ninguém pinta, se continuamos a ver filmes antigos que já ninguém realiza, se podemos apreciar vestuário antigo que já ninguém veste ou gostar de conhecer usos e costumes que ninguém segue, por que razão temos mais dificuldade com textos velhos? Talvez por falarmos ou escrevermos diariamente com a mesma naturalidade com que respiramos, acabamos por sentir mais o peso da sua antiguidade, a qual, instintivamente, rejeitamos no nosso quotidiano. Olhamos para uma pintura do século XVI ou para um filme mudo dos anos 20, e apesar de já não fazerem parte do nosso quotidiano, não relutamos em aceitá-los, sem que isso cause a menor estranheza. Porquê? Cá está, precisamente por já não fazerem parte desse quotidiano, permitindo uma margem de segurança que nos dá liberdade para gostar deles, sem medo de cairmos no ridículo.

Com a palavra, é muito mais difícil. Mas isso não é justo e nem sequer faz sentido. Gostar de ler Camilo ou Maria Browne não significa ser como eles do mesmo modo que gostar de ver dedicatórias antigas não quer dizer que um dia as façamos iguais. Acontece apenas que não há melhor porta para entrar num espírito antigo do que a palavra. A palavra não tem matéria, forma ou cor como a que vemos num vaso grego, num vestido renascentista ou numa escrivaninha do século XVIII, sendo também por isso que é através dela, seja num alfarrabista de papel ou de pedra, que as almas ainda vivas melhor entram na textura espiritual das que já o foram, resgatando-as mais uma vez da morte.

 

 

José Ricardo Costa

(blogue PONTEIROS PARADOS)

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Convidado: ARMANDO PALAVRAS

por Pedro Correia, em 30.08.17

 

Esboço de uma literatura russa

  

Aos que sofreram nos GULAG soviéticos

as agruras sofridas pelos judeus nos campos de extermínio nazis

e pelos chineses nos campos do deserto de Góbi.

 

 

Enquanto no Ocidente, durante todo o século XIX, autores como Baudelaire e Marx, entre outros, aproveitaram o processo de modernização em desenvolvimento para o usarem como fonte de energia e material criativo, nas áreas geográficas fora do Ocidente a modernização era inexistente. Foi essa a situação da Rússia durante todo o século XIX. A sua economia estagnava, e em alguns casos até regredia. Trotski reconhece-o na sua História da Revolução Russa, no I Volume: “O traço essencial e o mais constante da história da Rússia é a lentidão em que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural."

Este atraso em relação ao Ocidente desempenhou um papel central na politica e na cultura russas, da década de 1820 ao período soviético. Cerca de cem anos. A Rússia, em relação ao Ocidente, no século XIX, foi um arquétipo do Terceiro Mundo no século XX.

 

No inicio do século XX, o país com maior dimensão populacional em quase todos os outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa (exceptuando o Império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-o século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Tchékhov di-lo sarcasticamente na sua peça O Cerejal.

Contudo, esta era do subdesenvolvimento russo produziu, no espaço de duas gerações, uma das maiores literaturas do mundo. E, curiosamente, foi São Petersburgo, a capital imperial, a mais clara expressão de modernidade no solo russo do século XIX. Que iniciou uma tradição literária brilhante com características próprias. Assumida com Puchkine (no seu Cavaleiro de Bronze) e se estendeu a Gogol, Chernyshevski, Dostoievski e Bieli. Nela surge como personagem principal o “homem comum”, cujo destino é sempre o de vitima. Mas uma vitima cada vez mais audaciosa no século XIX, fruto das várias revoluções. Uma vitima que encarna a vida real de alguns dos autores. Dostoievswki, por exemplo, teve a vida moldada por dois acontecimentos. O seu pai morreu quando ele era ainda jovem, provavelmente assassinado por um dos seus servidores. Mais tarde, o autor de Recordações da Casa dos Mortos esteve prestes a ser executado por traição. Foi cruelmente conduzido ao cadafalso e deixado de olhos vendados à beira da morte, antes de ser informado que a pena fora comutada.

E como Dostoievski nenhum poeta, romancista ou dramaturgo russo terá trabalhado em condições normais de liberdade intelectual. Muito menos em condições favoráveis a essa liberdade.

 

A literatura russa é intima, escrita para o leitor russo. Mas mesmo o leitor exterior a esse território com a dimensão de metade da lua consegue perceber o tormento de Pushkin, o desespero de Gogol, a alma dilacerada de Dostoievski na Sibéria, a luta impetuosa de Tolstoi contra a censura e o desalento do extenso rol de assassinados (ou desaparecidos) incrustados nas façanhas literárias russas do século que nos precedeu. A estes podemos juntar Turguénev, Tchecov, Andréev ou Nikolai Leskov, que se tornaram clássicos para as gerações posteriores.

Mas o homem comum torna a aparecer-nos no contexto soviético, após uma revolução que juntamente com os seus companheiros venceu; numa nova ordem onde teoricamente goza de todos os direitos de que necessita. Uma ilusão que pagou cara.

O mítico John Reed, no seu imortal 10 Dias que abalaram o Mundo, descreve-nos em rigor os primeiros dez dias da tomada do poder bolchevique. Só a História da Revolução Russa de Trotski se lhe assemelha, suplantando-o em muitos pontos.

 

As políticas genocidas na Rússia Soviética dos anos 1932-1933 e 1937-1949 estão hoje devidamente documentadas e estudadas. Já Dostoievski, em Demónios, nos transporta às origens do terrorismo moderno. Porque o conceito de “terror em massa” é fulcral em Lenine, fórmula que surge a partir da revolução de 1905. Volta a surgir em força na Primavera e durante o Verão de 1918, estando ainda presente em Abril de 1921. E largamente apoiada por intelectuais como Gorki, sobretudo no que diz respeito à massa de camponeses. Em 1930-31, foram deportados cerca de dois milhões de camponeses.

De repente, o terror de 1793 dos “homens do barrete frígio” é institucionalizado no dia 5 de Setembro de 1918 pelo decreto “sobre o terror vermelho”. De facto, os meses que se seguem caracterizam-se por um clima de violência estatal absolutamente novo. São 15.000 as vítimas do Outono de 1918. Ou seja, foram executados, em dois meses, três vezes mais do que o número total de executados no século anterior pelo terror czarista!

 

Nicolas Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue jorre a rodos!”.

Caracterizado pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos “Amanhãs que cantam!”.

É neste contexto histórico que surge esta literatura, produzida por homens e mulheres que sofreram na pele o terror soviético, cujas personagens das narrativas são, na dimensão humana, os mesmos “deuses” e heróis evocados por Homero, Sófocles, Ésquilo e Euripides. [1]

 

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Ivan Chmeliov (1873-1950) nasceu e foi criado em Moscovo, onde se formou em Direito. Em 1918 instalou-se na Crimeia. Foram anos de fome, medo e humilhação. Em 1920, o filho único do escritor, ex-oficial do Exército Branco, foi preso no hospital e fuzilado.

Emigrou em 1922 para França. A sua obra-prima, onde conta a história da Crimeia do pós-guerra, um testemunho vivo da pavorosa concretização da “grande experiência de transformação” politica e social da Rússia levada a cabo pelo partido bolchevique, foi saudada por Thomas Mann.

Em Março de 1922, 400 mil pessoas passavam fome; 75 mil morreram. Até ao Verão de 1923, 100 mil pessoas morreram de fome.

É sobre esta tragédia que Chmeliov se debruça em O Sol dos Mortos.

  

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Evgueni Zamiatine (1884-1937), escritor por vocação e engenheiro naval por profissão, é um dos primeiros vultos a tratar o homem comum da época soviética nos seus contos. No Ocidente tornou-se famoso com Nós (1924), a pioneira distopia que iria influenciar textos de género como 1984 de Geroge Orwell. Onde denuncia as maluqueiras bolcheviques de 1917, ao intervirem na vida privada, acabando com a instituição família, transformando o espaço doméstico em espaço colectivo onde viviam várias famílias, com dormitórios colectivos e salas próprias para o sexo!

Em 1931 endereça uma corajosa missiva crítica a Estaline.

Os contos de Ziamatine são “um lampejo do que a literatura pós-revolucionária poderia ter sido, se a ditadura não tivesse eliminado totalmente a independência, a ousadia e o individualismo” (Mirra Ginsburg). Nas suas narrativas, impelido pela total liberdade humana de criar, converteu-o num cidadão inconveniente em dois regimes despóticos. O czarismo condenou-o por um ano de exílio; o comunismo baniu-o para sempre.

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Ossip Mandelstam (1891-1938) foi um dos grandes poetas modernos. Escritor profundamente tradicional (da tradição de Petersburgo), na sua novela de 1928, O Selo Egípcio, trata o homem comum como até aqui não havia sido tratado porque nos aparece num contexto soviético, com o seu drama e angústia pós-revolucionários. No final da história Mandelstam faz referência a Moscovo e ao hotel Selecto, através do capitão Kirzzanowski. Moscovo tornara-se o quartel-general de uma nova elite soviética protegida (e chefiada) por uma terrível polícia secreta que actuava a partir da prisão Lubianka, onde o poeta, seis anos depois, seria interrogado e detido.

Dois anos depois da publicação d’O Selo Egípcio, o poeta, juntamente com Nadejada, sua esposa, regressa a Leninegrado, mas os esbirros do partido que estavam ao comando da Sociedade de Escritores e controlavam os empregos e a habitação, expulsaram-nos.

Os Mandelstam regressam a Moscovo. E em 1933, no meio da campanha estalinista pela colectivização das terras, onde perecem mais de quatro milhões de vidas camponesas, e a um passo da Grande Depuração que levaria à morte outras tantas (ou mais), o poeta compôs o poema n.º 286 sobre Estaline.

Embora Mandelstam o não tenha escrito, leu-o em voz alta diversas vezes em reuniões à porta fechada. Um dos que o ouviram denunciou-o à policia secreta. Numa noite de Maio de 1934 foram buscá-lo. Após terríveis sofrimentos físicos e mentais, quatro anos depois morreu num campo de passagem perto de Vladivostoque.

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Isaac Babel (1894-1940), influenciado por Gogol (e Maupassant), nasceu na cidade portuária de Odessa que pertencia ao império russo. Era filho de um vendedor de roupas usadas e de uma judia moldava. O seu tio fora morto num pogrom.

Borges, referindo-se a Babel, dizia que o “clima habitual” da sua vida “seria uma catástrofe”.

As suas principais histórias foram incluídas, mais tarde, em Exército de Cavalaria. Escreveu ainda Contos de Odessa, narrativas de inspiração autobiográfica sobre a sua infância no gueto de Moldavanka, antes e após a revolução.

Em 1930 testemunha, na Ucrânia, a brutalidade e as mortes causadas pela colectivização forçada da agricultura. No Congresso da União de Escritores Soviéticos, em 1934, Babel é já um autor marginalizado pelo realismo socialista. O regime silenciou-o. Em 1935, a sua peça Maria viu a estreia cancelada em Moscovo pela polícia política. Em 1939 foi preso e interrogado sob tortura na prisão do KGB em Moscovo. Segundo a versão oficial teria morrido numa prisão do Gulag em Março de 1941. Os seus manuscritos foram confiscados e destruídos.

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Vassili Grossman (1905-1964) nasceu na cidade de Berdítchev, a “capital judia” da Ucrânia, em 1905. Filho de judeus, o pai era engenheiro e a mãe professora. Embora tenha estudado engenharia, Vassili acabou por se tornar jornalista e escritor.

Como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobriu as batalhas de Moscovo, Estalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga.

Em 1961, os agentes do KGB assaltam-lhe a casa levando-lhe todas as anotações que possuía para Vida e Destino, um volume extraordinário, mas de leitura complexa. Em 1974 um dos originais que sobreviveram é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin e através do físico nuclear Andrei Sákarov e do humorista Vladimir Voinovich, esse manuscrito sai do país para ser editado em vários países em 1980. Em 1988 é publicado na Rússia de Gorbatchov.

Em Vida e Destino, Grossman, além de denunciar as atrocidades nazis, manifesta um profundo desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917. Anna Semiónovna foi uma das vítimas dos pogrom e Evguénia Nikoláevna, perseguida devido às posições políticas do seu marido, Víktor, assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da “confiança do partido”. E procurou guiar-se e “agir segundo a sua consciência”, o melhor que foi dado ao ser humano.

O terror leninista/estalinista, assinalado anteriormente, foi confirmado em obras literárias como Tudo Passa, de Grossman. Um dos seus personagens, um activista convicto, a dado passo diz: “Escorraçámo-los como a um bando de gansos.”

No fim da vida escreve o seu último volume. Uma espécie de reportagem na Arménia. Com o qual tornou a ser molestado por abordar o genocídio arménio. 

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Varlam Chalamov (1907-1982) nasceu em Vologda. Filho de um padre ortodoxo, viveu os seus primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga. São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em Gulag, como Evguenia Guinzbourg, em Le Ciel de La Kolyma, o testemunham.

A este lugar, Varlam chama “o desembarcadouro do inferno” [2]. Num dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso, diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis mensagens.” Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão por dia. 

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Alexandr Soljenitsine (1918-2008) nasceu em Kislovodsk. A grande denúncia sobre o terror soviético surgiu numa obra sua - Arquipélago Gulag. Os gulag [3] eram campos de concentração e de trabalho forçado na antiga União Soviética.

Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi a sua primeira novela. E foi o primeiro testemunho publicado na antiga URSS por um dos presos políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia do Gulag. E para isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht, que há muito sabia dessa tragédia mas continuava a venerar o sanguinário Estaline.

Ivan Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos campos de trabalho forçado, o Gulag, que o regime de Estaline (e Lenine) aproveitaria do tempo dos czares. É, aliás, bem provável que a sua origem esteja na prisão da ilha de Sacalina, à qual Tchécov dedicou um livro sobre o estudo que aí fizera.

Os detalhes são assombrosos. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!

O relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Soljenitsine, à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele próprio, mais tarde Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Só por milagre a detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão de artilharia no Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate. No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um amigo.

Já como prémio Nobel e apenas com um livro publicado (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich), passa à escrita os apontamentos que iriam dar origem a O Arquipélago Gulag, publicado em 1973 no Ocidente. A obra de Soljenitsine é uma narrativa sobre factos presenciados pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, um dos campos do arquipélago, e pelas cartas e relatos de 237 pessoas.

 

Quantos desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais do que os que foram chacinados no holocausto nazi.
Anne Applebaum, em Gulag, trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável.                                    

 

_________________________________________________________

 

[1] Porque se trata de um esboço, neste escrito, por receio de lhes não dar a dignidade que merecem, não se reproduz reflexão sobre muitos autores russos, dessa época, que mereciam uma referência tão elevada como aqueles que nos mereceram essa reflexão: Sinyavsky que cumpriu pena em vários campos de trabalho forçado entre 1966 e 1977; Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Joseph Brodsky, Jaan Kross (Estónia) e Chukovskaya, que na sua novela trata de Bilibin e Veksler.

Também não se faz reflexão sobre ficções como O Meteorologista, de Rolin, ou de narrativas como Rumo à Liberdade, do polaco Slavomir Rawicz.

 

[2] José Milhazes diz-nos sobre o assunto:” Ao vaguear na Net deparei com a publicação de um trecho de um livro traduzido por mim em 1990 "Contos de Kolima” num blog chamado "Teor Crítico".

Escrita por Varlam Chalamov, ela exerceu em mim uma grande importância, tendo contribuído fortemente para a revisão de algumas das minhas ideias políticas. É depois de obras como estas, de relatos directos, pessoais, que se conclui que entre os campos de concentração nazis e o Gulag poucas diferenças existiam. Uns diziam matar pela "limpeza da raça", outros pela "classe social"... Descubra a diferença!”. (http://darussia.blogspot.pt/2013/11/contos-de-kolima-excerto.html).

 

[3] GULAG - acrónimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados para prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscovo. Cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse sistema de trabalho escravo, tema do livro Gulag, de Anne Applebaum.

Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Para se proteger da violência, alguns grupos de presos criaram códigos e leis internas que deram origem aos Vory v Zakone – a máfia russa. A quantidade de campos foi reduzida a partir de 1953, logo após a morte de Estaline. Porém, os campos de trabalho forçado para presos políticos duraram até os anos 90.

 

 

Armando Palavras

(blogue TEMPO CAMINHADO)

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Convidado: ROBINSON KANES

por Pedro Correia, em 28.08.17

 

Comuniquem menos mas falem, dialoguem e façam mais

  

Nos últimos tempos temos assistido ao discurso do "comunique mais, fale menos". Aliás, os auto-intitulados grandes comunicadores e muitos seguidores desta tendência apregoam a mesma aos sete ventos como a pedra-de-toque para resolver todos os problemas. A comunicação não vive por si só: funciona como mensageira e tem um objectivo concreto que implica a existência de uma base e de um trabalho de rectaguarda. Não se comunica primeiro e se faz depois, ou simplesmente não se faz. Não estou também a fazer um ataque à comunicação, bem pelo contrário, ou não fosse um acérrimo defensor de uma boa comunicação, seja em que contexto for. Aqui, debater-me-ei em questões práticas do nosso quotidiano, das organizações, e não na óptica publicitária.

Comunicar passou a ser a palavra de ordem, ao invés do falar e, consequentemente, um retrocesso de mentalidades camuflado com um discurso de contemporaneidade. Reparem como chamamos comunicação a muita propaganda. Propaganda traz-nos más memórias, mas basta alterar o conceito e...

Vende-se também a ideia de que todos podemos ser bons comunicadores e que basta dominar as "10 coisas que as pessoas altamente bem sucedidas fazem para comunicar" ou os "10 segredos de Saturno para agradar aos seus anéis" para o sucesso ser garantido. A comunicação é fundamental mas, por si só, não cria nada, todavia, tem um poder infinito para o bem e para o mal.

 

Também podemos sempre adoptar a postura oriental do "Comunicachim Tai Chuan" ou a dos "Monges Palradeiros de Sarnath" e comportarmo-nos como autênticos robôs, desprovidos da nossa personalidade e do nosso eu. Quem é que nunca assistiu a uma palestra ou àqueles seminários onde o conteúdo é carregado de lugares-comuns ou simplesmente não existe, mas os braços do orador, o olhar e a voz parecem uma sessão de break-dance?

Em tempos, assisti a uma conversa em que os aduladores de uma personagem discutiam o movimento da árvore e os ramos bem como a inspiração na natureza com que o alvo da sua adulação assumia o discurso e consequentemente exaltava o seu eu. Discutia-se e acarinhava-se a postura do "grande líder", já o que o mesmo dizia não era importante.

Comunicamos também por SMS, email, ou numa só direcção (por norma, a nossa) mas na realidade quão eficiente será essa comunicação? Será que estamos mesmo a acrescentar valor ou a mudar alguma coisa? Como é que com tantos profissionais da "arte de comunicar" ainda não conseguimos evoluir praticamente nada e no seio das organizações a comunicação continua a ser o maior dilema? Porque se gastam milhões em programas de formação em comunicação e os erros continuam?

De facto, também sugiro que se comecem a escolher os fornecedores destes serviços pelos resultados e não pela comunicação que muitos fazem...

Penso que a questão está mesmo aí: comunicamos demais, preocupamo-nos muito com a embalagem da mensagem, mas esquecemos o fundamental, que é o seu conteúdo e o que leva à mesma.

 

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  William Turner - War. The Exile and the Rock Limpet (Tate Britain)

Fonte da imagem: própria

 

De que me vale ter um discurso altamente trabalhado, mexer os braços como um polvo, atirar ideias para o ar se depois não existe um seguimento nem interacção entre pares?

De que me vale comunicar se o foco está em mim e não nos outros?

Comunicar não é fazer discursos, não são textos altamente burilados ou ocos, não é ser robótico na abordagem, não é achar que o comunicador sou eu, até porque a comunicação tem mais que um sentido. Entendo que a abordagem é utilizar o falar como contraponto ao comunicar e assim criar um novo conceito, mas não estará a comunicação a matar o falar e consequentemente a matar-se a si própria? Nomeadamente a sua essência?

É que tudo isto resulta bem quando estamos a falar numa direcção com um headset colocado na cabeça para uma multidão. Mas no dia-a-dia?

 

De que me vale ter uma brilhante comunicação interna na minha organização, por exemplo, se depois as minhas chefias intermédias não falam com as pessoas?

De que me vale ter standards de apresentações, emails e tudo o mais e os problemas não se resolvem porque ninguém fala?

De que me vale comunicar by the book e com isso nem me dar conta que estou a criar uma ditadura do politicamente correcto esquecendo que os disruptivos podem ser a chave para a inovação ou a solução de muitos problemas?

De que me vale comunicar se nem domino, e muito menos promovo, capacidades como a disciplina, a criatividade, o respeito, a capacidade de síntese (sob o ponto de vista de Howard Gardner, como uma capacidade integradora de várias áreas e disciplinas), a ética, a cooperação, o espírito critico e o pensamento estratégico - acrescentei estes três últimos pontos aos cinco defendidos por Gardner e que citei acima.

 

Nunca se comunicou tanto e já diz o povo que "é a falar que a gente se entende". É nestas coisas que o povo é sábio, porque todos os dias testa na prática a teoria que outros nunca ousaram tirar dos livros, dos discursos atraentes.

Lembro-me de um professor que, perante a pouca vontade dos alunos em fazer um exame, optando por substituir o mesmo por um trabalho de grupo/apresentação, respondeu: "e quando a bomba vos cair nas mãos e tiverem de resolver os problemas, vão dizer esperem aí que vamos fazer um trabalho de grupo?". Não é raro ver indivíduos da “velha-guarda” a falarem e a resolverem um problema no imediato enquanto outros preferem comunicar e levam dias a resolver um problema. Quem me conhece sabe que sou das pessoas que mais se empenham em processos de mudança, mas também tenho de reconhecer que varrer tudo o que está para trás nem sempre é a melhor estratégia.

 

Deixaria a sugestão: façamos mais, falemos e dialoguemos uns com os outros e comuniquemos menos.

Comuniquemos aquilo que fazemos ou queremos sem cair no ridículo, pois não são raras as vezes em que a comunicação se encontra desfasada da realidade e em nada alinhada com o nosso comportamento...

Foquemo-nos no nosso cérebro social (hipótese cientifica que defende que os seres humanos têm um cérebro maior, comparado com outros vertebrados, maioritariamente devido à nossa necessidade de manter um registo e aplicação da nossa interacção social) para desenvolver a nossa comunicação e consequentemente beneficiarmos mais quem nos ouve e menos a nossa pessoa, ou, numa lógica mais solidária, beneficiarmos ambos da mesma forma e com claras implicações com o bem-estar que por cá tende a ser confundido erradamente com wellness.

 

Uma outra nota: deixemos as teorias e o discurso da comunicação ir além daqueles que já estão em posições de chefia ou são patrocinados pelos media. Pode ser que assim possamos adequar esse discurso àqueles que ainda são afastados deste processo. Não podemos defender a nossa teoria se estamos a excluir aqueles que mais podem beneficiar dela... Pode trazer-nos menos retorno nas contas ao final do mês, mas no longo prazo pode ser um activo de valor incalculável.

Deste modo, o segredo do sucesso não está na comunicação, pelo menos para quem não quiser ser oco e comportar-se como uma carapaça de tartaruga sem conteúdo ou como um perfil de LinkedIn vistoso que esconde uma pessoa sem miolo. De facto, a comunicação ajuda, mas se o foco incidir somente sobre esta, corremos o risco de navegar no vazio, aumentar a entropia nos processos, criar um mundo paralelo e no médio prazo perder a confiança daqueles a quem pretendemos fazer chegar a nossa mensagem, ou não fossem célebres as palavras de Lincoln: "É possível enganar toda a gente durante algum tempo, aliás é até possível enganar sempre algumas pessoas, mas não nos será possível enganar sempre toda a gente."

  

 

Robinson Kanes

(blogue NÃO É QUE NÃO HOUVESSE...)

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Convidado: JOÃO FREITAS FARINHA

por Pedro Correia, em 25.08.17

 

Viajar ou o elogio da aventura

 

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Estados Unidos da América, Dezembro de 2015, 2h da madrugada. Conduzíamos rumo a Boston, na única etapa da viagem que não tinha sido planeada. Tinhamos feito cerca de dois terços de uma viagem de 900 km e a neve não dava tréguas. O ponteiro da gasolina estava a descer ainda mais que o da temperatura. Nada de preocupante, o GPS tinha a indicação dos postos de combustível. Primeiro posto - falhámos a saída. Não fazia mal, havia outro, umas dezenas de km mais à frente. Estava fechado. Com a gasolina já na reserva, o GPS não dava indicações de postos próximos. Para ajudar, a estrada tornava-se cada vez mais escura e estreita. Outros carros, nem vê-los.

Com o carro já a funcionar à base de fumos e boa vontade, eis que, qual oásis no meio do deserto, surge a placa com a palavra mágica. "GAS".
Finalmente! Parámos o carro e dirigimo-nos à funcionária da bomba, do outro lado do vidro. Sorriso nos lábios. Estávamos salvos!

— "Please, can we put some gas?"

— "No. This station is closed."

—  "But we came from so far away, please let..."

— "GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY. GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY".

Afinal não. Não íamos pôr gasolina.

No meio do nosso desnorte, ainda tivemos lucidez para olhar em volta. Mesmo ao virar da esquina, havia um hotel. Milagre dos milagres, uma cama, finalmente! A gasolina podia esperar pelo amanhecer...

 

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Viajar também é isto. Vou-me sempre lembrar do gelo a estalar sob os meus pés, ao caminhar num glaciar; da paisagem deslumbrante após uma caminhada de quase 20 quilómetros até à base do Fitz Roy; de ver uma baleia de bossa a brincar com a sua cria; ou do entusiasmo incontido de quando entrei na Euro Disney. Mas também não me vou esquecer daquela vez em que o carro quase ficou sem gasolina no meio do nada. Ou quando ficámos uma semana retidos em Londres, sem malas e em vésperas do Natal, porque um nevão fechou os aeroportos.


Viajar também é vermo-nos em situações que são maiores que nós. Viver algo diferente do que temos em casa. Não no sentido de arriscar, ou ser inconsciente. Mas de dar espaço à espontaneidade e aceitar o imprevisto.

 

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Resorts e excursões. Tanta gente viaja com guião definido ao milímetro. Saltar de monumento em monumento. De fila em fila. Conhece-se uma cidade através de uma montra. E nunca se chega a sair do nosso pequeno mundo.

 

Eu planeio sempre o que vou ver, claro. Os monumentos, os museus, os parques. Compro bilhetes, contrato guias... Mas também adoro a sensação de me perder numa cidade. Saber o destino, sem conhecer o caminho. Andar pelos bairros, sentir o pulso do local. Pedir indicações, falar com quem lá vive.


Viajar é sair dessa nossa bolha. Só conhecemos realmente um sítio se também o virmos através dos olhos dos outros. Mudar a nossa perspectiva, aprender.

O acto de viajar é efémero, mas o que trazemos quando regressamos fica connosco para sempre.

 

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Parque Nacional da Terra do Fogo, Argentina, Outubro de 2015. Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana - Um conjunto de estradas que liga, quase sem interrupções, o Alasca a Ushuaia.

“Aqui finaliza la Ruta N. 3. Buenos Aires 3.063 Km. Alaska 17.848 Km.” - Dizia, em letras amarelas gravadas na madeira.

 

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Seria só uma placa, e não lhe teria dado grande importância, se no dia anterior não nos tivéssemos sentado à mesa de Carlos Alvarez. O Carlos foi guarda florestal durante largos anos. Agora, reformado, gosta de falar desses tempos.

Enquanto nos preparava ovos mexidos e chá para o pequeno almoço, cheio de orgulho e um brilho nos olhos, contava como tinha construído aquela placa com as próprias mãos. Quando nos preparávamos para sair, veio ter connosco. “Não se esqueçam de tirar uma fotografia à minha placa” - disse com um sorriso de orelha a orelha.

Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana. E para nós, nunca seria uma placa qualquer. Era a placa do Carlos.

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João Freitas Farinha

(blogue JOÃO FREITAS FARINHA - FOTOGRAFIA)

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Convidado: F. PENIM REDONDO

por Pedro Correia, em 23.08.17

 

A gaivota

  

Caminhei pela areia durante muito tempo, como faço tantas vezes.
Não era ainda a fornalha do Verão e corria até uma aragem fresca apesar da crueza do sol.
O mar batia à minha esquerda, sem espalhafato, e a ravina subia os seus trinta metros do outro lado, em contorsões de arenito.
Tanto quanto os olhos alcançavam, nem vivalma. Um deserto à minha frente.
Naquela solidão de mar e areia só somos atraídos pelas irregularidades; um barrote que veio na maré, uma pegada estranha ou os restos de uma fogueira em que se aqueceram os pescadores da noite passada.
E foi assim que descobri a gaivota, como uma anormalidade.
Estava pousada a uns vinte metros da linha de água. Mas não estava pousada como pousam os pássaros, sempre prontos a voar. Era como se chocasse uma ninhada.
 
Quando me aproximei nem sequer se agitou. A única coisa que movia era a cabeça, de um lado para o outro, e ao fazê-lo o seu bico era um aparo que escrevia na areia uma caligrafia desesperada.
Cheguei tão perto que podia ver os seus olhos aterrorizados, amarelos, e não sabia como demonstrar a minha compaixão.
(Em toda a minha vida só vi morrer um pássaro, e foi em plena cidade.
Despenhou-se de súbito, estrebuchou mansamente durante algum tempo e depois inteiriçou.)
 
Não me atrevi a tocar na gaivota. Por um lado imaginava o terror do pobre pássaro ao ver-se agarrado, por outro receei agravar o sofrimento daquele corpo que tão pesado jazia na areia. Senti-me inútil e grotesco.
(Confesso que o sofrimento dos bichos me toca bastante pois, ao contrário dos humanos, não podem explicar o que sentem e geralmente morrem desamparados. Por causa disso já várias vezes fui tentado a contrariar essa fatalidade.)
Neste caso não me parecia viável qualquer intervenção. Estava muito longe de qualquer ajuda especializada e desconhecia de todo o que levara a gaivota à desesperada situação em que se encontrava. Doença, acidente ou simplesmente velhice?
(Será que as gaivotas demasiado velhas pousam em praias desertas e ficam olhando o mar até ao último suspiro? Com que direito iria eu interferir num processo desse tipo, carregando desajeitadamente um bicho em sofrimento para o ver morrer num veterinário qualquer?)
 
Fiquei a olhar para ela e ela também olhava para mim. Duvido que soubesse ler no meu rosto a aflição e compaixão que eu sentia. Eu também no rosto dela não via senão os sentimentos que a minha condição humana permite imaginar.
Cheguei a pensar que a gaivota, depois do terror inicial, sentiria pelo menos o alívio de constatar que eu não lhe fazia mal.
Então comecei a recuar sem poder deixar de a olhar, até que a gaivota era apenas uma sombra como outras que resultam das irregularidades da areia.
Caminhei a bom ritmo durante a meia hora que me separava de casa.
 
Embrenhei-me nas rotinas caseiras com mais afinco do que é usual.
Mas quando anoiteceu a gaivota voltou a instalar-se no meu pensamento.
Pressentia-a agora na total escuridão da praia e não sob o sol violento da tarde.
O mar rugia como sempre, mas sem se ver.

Então desejei ansiosamente que a maré subisse e que uma grande vaga cumprisse finalmente o destino.

 

 

Fernando Penim Redondo

(blogue DOTE COME)

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    128. O
    129. N
    130. D