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Convidada: ANA

por Pedro Correia, em 24.05.17

 

As crianças de hoje

 

Dei catequese durante anos numa paróquia muito dividida em termos de classes sociais. Crianças muito, muito pobres, e, no outro extremo crianças com muitas posses. O comum entre a maioria delas? A Hiperatividade diagnosticada e comprovada cientificamente.
Lidar com crianças hiperativas pode ser esgotante, desgastante, frustrante. Sabemos que não podemos ir a qualquer local público, pois não sabemos que comportamento elas poderão vir a demonstrar. Pode chegar mesmo a ser humilhante para os adultos que as acompanham, sendo pais ou não.
No início do ano de catequese, e com um grupo novo, coloquei-me à prova, tentei desvendar o que poderia estar por trás deste comportamento. Eu não acredito que as crianças nasçam hiperativas só porque sim, sempre acreditei que existem diversos motivos para que este comportamento se desencadeie. E não me enganei. Vou apenas enumerar alguns exemplos, infelizmente reais:
 
 
- Crianças que viveram na rua até aos 3 anos de idade – Não se recordam da maior parte das coisas, mas há três memórias fundamentais e que as irão acompanhar para a vida: a sensação de insegurança, a fome e o frio;
- Crianças que assistiram à morte de um dos familiares perpetuada por outros, ou seja, pessoas em quem confiavam;
- Crianças que apareciam com a marca do cinto no rosto, nos braços, e sempre que me arriscava a levantar um pouco a camisola a algum, as lágrimas tendiam a cair tal a crueldade, a violência a que tinham sido sujeitas;
- Crianças que destruíam os vidros ao murro por se sentirem presas, por não sentirem a liberdade tão desejada;
- Crianças que não tinham o mínimo acompanhamento em casa, uma palavra de carinho, força e confiança. A sua companhia eram os gadgets eletrónicos, os telemóveis topo de gama, as consolas de inúmeras formas e feitios;
- Crianças “depositadas” na catequese, como se de um ATL se tratasse;
- Crianças sem estrutura familiar;
- Crianças que à pergunta “O que queres ser quando fores grande?”, respondiam “Quero ser pai, quero ter muitas mulheres, que vou matando à medida que tenho filhos.”
  

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Todos estes exemplos indicados como hiperativos ou mesmo psicopatas (num dos casos). O acompanhamento que tinham a nível psicológico? Nenhum! Como é que a sociedade quer integrar estas crianças? Qual o papel da escola, das assistentes sociais no seu desenvolvimento?
Classificar as crianças como hiperativas é fácil, o difícil é mudar mentalidades, o difícil é fazer com que ultrapassem certas vivências, o difícil é fazer esquecer… No fundo, o difícil é agir e ajudar!
 
A catequese era assim uma hora semanal em que se falava da Igreja, de princípios e valores que lhes custava a interiorizar, mas acima de tudo era um espaço em que eles desabafavam, um espaço em que se sentiam seguros, um espaço onde podiam abraçar e beijar sem medo, um espaço onde podiam ser crianças e interagir com os outros, brincar sem maldade associada. Um espaço que ia deixando a teoria da Igreja cada vez mais para trás, um espaço que se tornou o espaço deles, o espaço em que deixei um pedacinho do meu coração a cada semana.
 
Quando conhecerem uma criança identificada / diagnosticada com alguns destes sintomas, tentem perceber a sua história de vida e não a classifiquem logo como irritante, provocadora, briguenta, intolerável. Pode ter suportado em poucos anos de vida aquilo que nenhum adulto suportaria. E estas crianças merecem ser ajudadas!
Numa semana em que se comemorou o Dia do Abraço, lembrem-se: este simples gesto pode curar meses de sofrimento.

 

 

Ana

(blogue CHIC' ANA)

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Convidado: DIOGO OURIQUE

por Pedro Correia, em 22.05.17

 

Ases Indomáveis

 

– Mamã, que aviões grandes são aqueles?

– São aviões militares americanos, filho.

– Americanos? Mas os americanos não estavam a sair da nossa base?

– Pois, parecia que sim. Mas têm agora um presidente novo que, pelos vistos, os quer manter por cá.

– Aquele senhor cor-de-laranja?

– Sim, filho, aquele senhor cor-de-laranja.

– É por isso que têm passado muitos aviões pelo nosso aeroporto nestes dias?

– Sim.

– E isso é bom ou mau, mamã?

– Não sei, filho… Sinceramente, não sei.

– Mas não devia ser bom? A nossa professora de inglês diz que os americanos contribuíram muito para o desenvolvimento das nossas ilhas.

– E quantos anos tem a tua professora?

– Sessenta e tal, não sei bem.

– Pois, é normal, filho. A tua professora já está numa idade em que é bastante comum ter-se uma memória selectiva.

– O que é isso, mamã?

– Memória selectiva? É quando, por exemplo, tu nunca te esqueces de levar o equipamento para as aulas de Educação Física, mas esqueces-te sempre dos TPC que tens para fazer.

– Mas não foram os americanos que nos trouxeram músicas e filmes novos, e que deram muito dinheiro às nossas ilhas?

– Sim, filho, mas… Explico-te da seguinte forma: gostas muito da tia Teresa, não gostas?

– Sim, claro! E do Tomás, e da Marta, e…

– Pois. Agora imagina que a tia Teresa, o Tomás e a Marta vinham viver para nossa casa durante muitos e muitos anos. E, com eles, vinha o resto da família toda. Até pagavam renda e compravam umas coisinhas para a casa; só que deixavam tudo sujo, nunca saíam da casa-de-banho, usavam os teus brinquedos e escondiam bombinhas de mau cheiro debaixo dos tapetes. Bombinhas que, ao longo dos anos, deixavam a terra e as nossas plantinhas doentes.

– Credo, mamã! Porque é que iam fazer isso tudo?

– Porque sim, filho. Porque estavam a pagar, e achavam que o dinheiro justificava tudo. É mais ou menos assim que os americanos funcionam.

– Então e porque é que não alugamos a casa a outras pessoas, se eles são assim tão maus?

– Porque eles não deixam. Porque já não vivem cá a tempo inteiro, mas, pelos vistos, continuam a pagar. Só vêm nas férias, ou então quando há guerra.

– E estes aviões todos? Vêm de férias, agora que está a ficar calor? Ou vêm para a guerra?

– Não faço ideia, filho. Mas, normalmente, os aviões militares não transportam pessoas que vêm de férias.

 

 

Diogo Ourique

(blogue QUERIA? JÁ NÃO QUER?)

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Convidados: NELSON REPREZAS

por Pedro Correia, em 19.05.17

 

Bruscamente, debaixo do chuveiro

 

Tenho andado entra e sai, em casa, por motivos vários. Ao mesmo tempo, a minha filha pediu-me para lhe ficar com as duas gatinhas enquanto ela se ausentou por um par de dias.

Anteontem entro em casa, ligo mecanicamente o televisor para quebrar a paz e o silêncio, as gatas ronronavam num maple e fui para o duche. Eis senão quando, oiço miadelas estridentes, correrias, barulho de um par de coisas a cair e a estilhaçarem-se… mais correrias, choques com portas e é aí que, debaixo do chuveiro, me pergunto se estarei a ser assaltado. Molhado e nu não é propriamente a melhor maneira de resistir a assaltantes, salvo especialíssimas circunstâncias… mas enchi-me de coragem, enrolei-me na toalha e segui para o hall. Olhei para a sala, não vi nada, vou à cozinha e vejo as gatinhas assustadas, muito encolhidas e enroscadas, junto ao fogão. Que coisa, pensei eu… serão mesmo assaltantes?

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E é neste ponto que oiço uma gritaria que, por motivos claros, não provinha das gatas, Vou à sala, procuro identificar o ruído, mais ou menos semelhante a um grupo de carpideiras bem pagas, talvez, ainda, uma vaca que um dia vi o meu irmão veterinário ajudar a parir e deparo com a imagem do Manuel Serrão, na TV, no “Prolongamento”, a imitar (!!!!????!!!!) o Salvador. Pensei sobre que diabo se estaria a passar. Curioso, aproximei-me e na ininteligibilidade dos lances canoros da criatura, percebo que havia uma tentativa de uma letra. O homem imitava o Salvador, o que percebi pelos gestos, naturalmente não pela música. Mas a letra, meu Deus… só percebi Poooooorto… peeeeeenta e qualquer coisa que rimava com penta. Não era pimenta, mas algo por lá perto e que não consegui definir. Insisti E quando julgava que a letra continuava, o homem insistia… peeeeeenta….. pimeeeeeeeeeeeeenta…. (acho) e fiquei-me por aqui. 

Volto à cozinha e olhei, enternecido e solidário com as gatinhas. Pequei no “remote” e calei o Serrão. As gatas olharam para mim, embevecidas e agradecidas. Peguei nelas, fiz-lhe um mimo e elas deitaram-se de novo no maple. Voltei ao chuveiro e  prolonguei aquele jacto quente e gostoso até me desaparecer aquela rima estranha de …peeeeeenta…..pimenta…
Mesmo assim, quando me deitei, e cada vez que fechava os olhos… é… aquela sensação que todos nós certamente temos e que faz com que não consigamos deixar de trautear mentalmente uma canção… lá estava ela. Só que desta vez era mais grave. Além do peeeeenta, pimeeeeeenta mesmo de olhos fechados eu tinha a visão festivaleira do Manuel Serrão e de gatas assustadas, tal como se nota na foto.
Tomei um Dormonoct. 

 

 

Nelson Reprezas

(blogue ESPUMADAMENTE)

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Convidado: JOSÉ DA XÃ

por Pedro Correia, em 17.05.17

 

Palavra de médico

 

Desculpem este à-vontade ao entrar assim, de supetão, numa casa que, não sendo minha, visito amiúde, para dizer somente que um homem não é de ferro. Nem de madeira ou silicone (se bem quem haja por aí quem use, mas enfim…).

O que trago aqui é aquele imbecil sentimento de impotência perante a classe médica. É mais ou menos consensual que os médicos são um tanto corporativistas, lavando quantas vezes as mãos com as velhas desculpas já de todos sobejamente conhecidas.

Partindo deste pressuposto, reconheço que não tenho qualquer hipótese de ser convenientemente tratado, porque cada profissional que consulto anuncia, para os mesmos sintomas denunciados, diferentes palpites de doenças, consoante a sua especialidade.

 

Passemos assim aos factos.

Um destes dias surgiu-me uma dor intensa no pé direito. A dor apesentava-se com tamanha intensidade que quando me deslocava mais parecia um ancião de provecta idade.

Consultei então um médico muito simpático que avançou com o primeiro palpite: gota! E disse-o de forma peremptória. Palavra de médico.

Uma série de questões formuladas levou-o a concluir que o problema tivera origem na pinga do fim de semana. Prescrição de análises, sangue tirado para a cabidela e o resultado veio finalmente, dizendo: não tem nada que justifique essa dor!

No entanto insiste numa medicação específica e numa dieta pormenorizada. Pílulas azuis, verdes, amarelas, tudo para combater o tal… nada.

Não convencido, procuro outro especialista. Mais exames, pílulas de outras cores, mas sem evidentes melhoras. Diz o médico actual que deverão ser artroses. Artolas sou eu em lhes dar crédito.

Todavia com este último médico há uma evidente melhoria… acabou-se a dieta! O que há duas semanas era veneno agora deixou de o ser.

Palavra de médico.

 

Não gosto de servir de bola de ténis… passa para cá, devolve para lá… Mas deve ser do meu mau feitio, assumo.

Neste dérbi médico verificou-se uma espécie de empate. Definitivamente como não aprecio indecisões, eis-me na busca de outro especialista. Conclusão rápida e quiçá assertiva: isso é coluna! Palavra de médico.

Desta vez com pior prognóstico: tinha de ser operado.

Havia agora uma derrota e por goleada, o que, digamos, não é nada agradável. E muito menos desejável.

 

Vai daqui procurei um velho amigo, que não sendo médico vai endireitando alguns ossos. Após análise do meu problema, pergunta-me:

- Tu não bateste em lado nenhum com o pé?

Fui ao meu disco interno e procurei na memória eventuais episódios. Finalmente respondo:

- Há uns tempos dei uma pantufada numa pedra, lá na aldeia. Porém na altura pouco me doeu…

- Pois… já deves ter percebido que não és de ferro. Desconfio que partiste o pé.

Incrédulo com a revelação, ainda pergunto:

- E nos exames não dava para ver?

Após um breve silêncio, o meu amigo respondeu:

- Provavelmente até dava, mas não era a especialidade deles.

Pronto… batido aos pontos. Palavra de não-médico!

 

 

José da Xã

(blogue LADO A/B)

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Convidado: LUÍS NOVAES TITO

por Pedro Correia, em 15.05.17

 

Arte urbana

 

Ao irrecusável convite de Pedro Correia, que reabre a porta do DELITO DE OPINIÃO aos seus camaradas dos blogs seis anos depois, respondo presente embora os anos tenham feito rarear a vontade de escrever na Barbearia onde já desunhei imaginação, a torto e a direito, para suavizar olheiras e escanhoar bochechas imberbes deitando, não poucas vezes, cal na água sempre que pretenderam deixar as paredes da loja no esquife.

 

Volto ao DELITO com uma reflexão sobre a última obra-graça de Bansksy.

Um homem de macaco, provavelmente um imigrado em Inglaterra - porque só esses andam de macaco e pendurados em escadas na terra de sua majestade - a desconstruir a estrela dos ilhéus deixando no seu lugar o vazio que se pressente ser o futuro do Continente cada vez mais deserto de autóctones.

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Não foi difícil chegar aqui. Na grande ilha nunca se guiou pela direita, nunca se trocou a libra esterlina pelo marco travestido de moeda única, nunca se contrariou a dinâmica americana em favor da solidariedade da União e, tirando a amizade pelas calientes águas mediterrâneas e atlânticas vizinhas do Al-Maghrib e pelo Oporto, nunca se levaram a sério as línguas românicas que, no dizer do Flying Dutchman dos tempos calvino-penitenciais em voga, só servem para gáudio dos prazeres da carne e da gula dos éteres.

Também não foi difícil lá chegar porque os continentais estrelados foram perdendo o gás e, em menos tempo do que qualquer outra constelação, murcharam em sabedoria e ideais e fizeram-se joguetes invertebrados dominados pelo medo, que dizem não ter, a burocratas e banqueiros que lhes extorquem o que resta da sua dignidade e condição histórica.

 

Volto ao homem de fato-macaco, alegadamente um migrante, neste espaço europeu que as gentes do norte do Douro poderiam designar por “morcão” e as do Sul do Seine por “Marcon” e onde os social-democratas abandonaram o social à sua sorte e os democratas-cristãos evoluíram para o ateísmo, para analisar mais fino a arte de Bansksy.

O operário, embora de balde à cintura, não usa o queirosiano pano encharcado em benzina (transportando Eça para o actual contexto europeu repleto de Abranhos), nem tão pouco repinta a estrela murcha com o azul do fundo. Prefere representar o proletário de marreta e escopro na mão a sacar nacos de tinta sem ferir o estuque de uma bandeira que tem por hino a nona de Ludwig, An die Freude, adaptada por Herbert para que todos os povos do Norte e do Sul o cantem afinados, dirigidos no ritmo pela batuta alemã.

 

E é isto, Pedro. Um barbeiro a fazer de crítico de arte, um analista a fazer de escritor.

Paz e saúde.

 

 

Luís Novaes Tito

(blogue A BARBEARIA DO SENHOR LUÍS)

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Convidada: ALICE ALFAZEMA

por Pedro Correia, em 12.05.17

 

Balancé

 

Faz este ano precisamente dezassete anos que a minha mãe morreu, era Maio, o Dia da Mãe calhou num domingo dia sete e ela foi na terça dia nove. Foi levada pelo sono da tarde, nem uma expressão de dor, apenas ficou o frio extremo que eu jamais pensei existir.

Os meus avós eram pescadores, o meu pai também, pessoas habituadas ao risco e conhecedoras da morte. A minha mãe tinha uma doença incapacitante que a podia devorar a qualquer momento, no entanto ela era uma animadora de espíritos, isso fascinava-me. Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte? Afinal não é isso o que fazemos todos os dias sem o notarmos? Sabemos apenas que existimos.

A consciência da sua finitude e uma fé imensa davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida. A sua vontade férrea naquilo que queria conhecer, as coisas que não ficaram por dizer. Os abraços que demos e as vezes que chorámos como forma de alívio. Não deixámos nada para amanhã, foi tudo feito num hoje único. Vivemos coisas simples, apreciámos coisas simples, coisas banais, como o barulho da chuva, a cor de uma joaninha, a surpresa de ver a erva a crescer. Rimos muito, rimos quando havia motivo para rir e rimos também quando nos apetecia chorar, quando nos apetecia desistir.

A morte faz balancé na vida. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, mais rápido, mais devagar, parado, a começar, a acabar. O que fizemos juntas nesse balancé ficou em mim, às vezes vem de mansinho, em sonhos, em cheiros, em paladares. Não são coisas palpáveis, são coisas minhas.

 

 

Alice Alfazema

(blogue ALICE ALFAZEMA)

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Convidado: TIAGO CABRAL

por Pedro Correia, em 10.05.17

 

Ficar para último

 

Ao longe a luz do sol, quieta continuas a observar essa luz que te acorda. Já estás velha, rugosa, encarquilhada, as costas sofrem com dores que nunca irão acabar. Tomas comprimidos sem saber para que servem, pegas na primeira caixa que vês, só queres que acabe aquela dor nas costas, no corpo todo. Sentas-te à beira da tua casa, sozinha. Não esperas por ninguém, todos os que poderiam chegar já morreram, o teu homem, irmãos, cunhados, genros e até um filho. Sobras tu. Velha.

 

Depressa morro, depressa isto acaba. As recordações são confusas, de ontem nada, almocei? Não importa. Lembras-te há 60 anos, casa cheia, trabalho muito para lá do sol a sol, moira carregada, analfabeta, nunca consegui tirar as cartas, tivesse eu as cartas e ia sozinha cortar o cabelo, a casa cheia, filhos, da barriga e os emprestados a quem nunca deixaste chamar mãe. A aldeia cheia de gente morta, mas com uma igreja bem-posta, limpa, cheia de adornos dourados, com boa escadaria para os mendigos da bendita caridade. Há missa e não vais, nunca foste, havia sacas para carregar às costas, essas que agora te fazem sofrer, agarras à noite o terço e murmuras a ladainha, avé Maria cheia de graça, a televisão já não funciona, já não é só ligar no botão, não sabes como funciona, não interessa, ligo o rádio e fico a ouvir sem perceber nada, mas é a minha companhia.

 

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Ficas sentada à tua porta, na pedra torta onde já se sentou o teu marido que morreu a arder, com os pés enfiados na lareira sem sentir nada, e ainda se levantou, tenho frio, muito frio. Quem te resta mora longe, a avó velha cheira mal, eu não quero ir à avó velha. Eu sei que cheiro mal, o banho é ao domingo, sei lá que dia é hoje, se já passou domingo. Já não cozinho, essas putas que agora aqui vêm e sem pudor falam de mim comigo presente, coitadinha dela, ande venha a comer, olhe aqui o que lhe trouxemos, ande prove este peixinho, ao jantar é massa com carne, aos vossos pais matei eu muita fome. Tanta boca que alimentei nesta desgraçada pobreza, nesta aldeia cheia de fome, gente explorada que nunca se levantou, sempre rente ao chão, espezinhada, já sabes ou tiras o chapéu e dobras a espinha, nem que seja ao mais novinho de quem manda quando passar por ti, ou aqui não trabalhas e morres de fome.

 

Está a acabar, sabes tão bem e bem melhor que todos os outros, depressa morro, depressa isto acaba. A aldeia deserta, o vazio inteiro de dias e dias que são apenas um ininterrupto esperar, aguardar por nada, por ninguém. Eu queria ir ao chão, as minhas pitas que as mataram, já não tenho a minha tapada, as saudades de trabalhar a terra, os carreiros da água, fecha em cima com o sacho, desvia a água para o outro carreiro, apanhar a azeitona, já nem azeite tenho, as furdas com os porcos sempre a aguardar a vianda que levava no caldeiro, esperar por Dezembro para a matança, casa cheia, hoje vazia, tenho que a limpar, os quartos vazios, mas limpos, vou mudar os sofás de lugar, já não posso, não consigo. Vou para a porta esperar, sentada por detrás das fitas, escondida dos olhares de ninguém olha para a aldeia deserta, nada mais há para olhar que o silêncio, o largo empedrado já sem o cheiro a terra molhada, os sons do campo que tanto cativam os de fora não lhe dizem nada, sempre os ouviu. Mais um dia que vai passar, lento, como a solidão de ser sozinha é.

 

Levantar, vestir e esperar. Passa alguém, bons dias, bons dias, quem é esta que me fala? Já não conheço ninguém. Depressa morro.

 

 

Tiago Cabral

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

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Convidada: VÂNIA CUSTÓDIO

por Pedro Correia, em 08.05.17

 

Todas as promessas perdidas

 

Naquele momento em que tudo se apaga, naquele último sopro de vida que se esvai no peito, o sonho sobrepõe-se à angústia e ao medo que leva ao desespero de desistir? O que leva um adolescente, com tanto para viver, a baixar os braços? Durante muito tempo, não se falava de suicídio na imprensa. Havia um código de ética e deontologia que se arrepiava e acreditava no efeito perverso do comportamento de imitação que podia advir deste tipo de notícias. Hoje o suicídio dos jovens é o tema mais quente do momento, seja pela jogo Baleia Azul ou pela série Por 13 razões, a passar na Netflix.

De repente, somos obrigados a encarar a realidade que foi escondida durante tanto tempo. Alguns não aguentam. E não aguentam o quê? Todos sabemos o quê. Todos passámos por lá. A transição da infância para a idade adulta é um caminho complicado, difícil e angustiante. Não é por acaso que se ouvem notícias de mil estudantes "expulsos" de Espanha das férias de Páscoa. E não, não estamos a misturar temas. A aceitação do grupo é o busílis de tudo. Numa altura em que ainda não sabemos quem somos, sem personalidade verdadeiramente definida, o medo tolda as decisões e pode de facto ser mau conselheiro. Se para sentirmos que há mais quem seja como nós, temos de nos anular em comportamentos de grupo, por que não deixarmo-nos ir? É tão mais fácil quando a nossa própria convicção ainda não encontrou uma linha de pensamento e acção que a mantém segura. Mais ainda quando toda esta angústia se afoga num estado depressivo de quem ainda há tão pouco tempo só conhecia dias felizes.

É tão difícil crescer. O que sente um adolescente que desiste? Quem de nós, por uns minutos que fosse, não chegou a desistir? E o que acontece quando não conseguimos encontrar o tal grupo que consegue levar-nos ao colo, mesmo que à boleia de muitas parvoíces, gargalhadas e algumas experiências limite? O chamado ciclo do animal-noivo, o processo de passagem à vida adulta existe e não pode continuar a ser ignorado. Pais, médicos, familiares e amigos, todos temos um papel importante a desempenhar. E o mais importante de todos talvez seja mesmo o de reconhecer que este é um caminho que tem de ser percorrido. A sós, mas não necessariamente sozinhos.

Quantas vidas e sonhos de libertação desse peso e angústia que a adolescência carrega não teriam sido salvos com apenas uma palavra amiga? Alguém que explicasse o processo e fizesse ver a luz ao fundo do túnel. Estaremos assim tão alheados que já não nos lembramos de como foi?

 

 

Vânia Custódio

(blogue CAIXA DOS SEGREDOS)

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Convidada: JOANA LOPES

por Pedro Correia, em 04.05.17

 

Por terras da Abissínia

 

Ser turista é limitativo, eu sei. Preferia ser «viajante», sem prazos nem restrições físicas e financeiras, mas não é possível. Turista portanto me assumo e, como tal, tenho tentado conhecer um pouco dos cinco continentes deste pequeno mundo.

Perguntam-me, frequentemente, qual foi a minha viagem preferida, ou o «top 5» das que já fiz, mas deixei de ser capaz de responder. Escolho uma, sem lhe atribuir nenhum privilégio, mas porque me marcou de um modo especial. Talvez por ter nascido em África, talvez porque é o continente que menos conheço.

 

Há quatro anos passei duas semanas na Etiópia, pouco mais do que nada para ficar com ideias vagas sobre o segundo maior país africano em extensão. Parecia então ser um oásis naquele Corno de África, entre vizinhos em permanente conflito, e centro de onde irradiavam esperanças de conciliação e de progresso. Tristíssimo que tenha chegado a sua vez de contrariar expectativas, esperemos que não por muito tempo.

Percorri algumas centenas de quilómetros onde quase tudo é totalmente verde e fértil, com montes e vales bem cultivados (o celeiro etíope) e milhares de cabeças de gado que tornam o país praticamente autossuficiente em termos de alimentação. Mas falta tudo o resto e a pobreza é por isso extrema, as estradas e muitas outras infraestruturas são quase inexistentes ou muito rudimentares. Como mais do que rudimentares são os instrumentos usados na agricultura, numa terra onde «quem trabalha são as mulheres e os burros» – burros que são mesmo um ícone, tão grande é a sua quantidade, tão importantes as funções que exercem como meio de transporte de pessoas e de mercadorias.

 

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O país depende cada vez mais de investimentos chineses e turcos, exporta algodão e têxteis, carne de várias espécies animais e, evidentemente, café. Aliás, reza a lenda ou a História (nem sempre é fácil perceber-se em que plano se está exactamente) que foi aqui que o café foi descoberto. Como? Uma cabra ter-se-á mostrado tão excitada depois de comer repetidamente a respectiva planta que os donos decidiram seguir-lhe o exemplo, descobrindo assim as suas potencialidades. A Etiópia é governada há quase trinta anos praticamente em regime de partido único, com as inevitáveis consequências em termos de corrupção, e a moeda nacional é tão fraca que tudo o que tem de vir do exterior tem um peso difícil de suportar. Em todo o caso, aparentemente vai-se (ou ia-se?) progredindo, por exemplo através de um interessante e muito louvável sistema de cooperativas. E, ao contrário dos vizinhos da Eritreia e da Somália, tem sido raro que multidões de etíopes fujam por essa África abaixo para se afogarem às portas da Europa.

Há também um povo altivo, orgulhoso da sua etnia («a Norte temos os árabes, a Sul os negros, nós estamos no meio»); orgulhoso também pelo facto de nunca ter sido verdadeiramente colonizado e de ter uma História rica, sem fronteiras muito nítidas que a separem de um extenso conjunto de lendas – uma realidade estranha, mas fascinante, para as nossas cabeças cartesianamente formatadas.

 

Axum, no Norte, é um paraíso para os arqueólogos, tantos são os rastos de civilizações antiquíssimas já descobertos e os muitos que há ainda por explorar. Conta a lenda que um filho de Noé, pai de todos os povos de pele castanha, era avô de Etiopos que foi enterrado em Axum e deu o nome a todos os habitantes do país. Seja como for, sabe-se hoje que as origens da civilização etíope remontam ao século X a.c. Os etíopes reivindicam ter em Axum a «verdadeira» Arca da Aliança e «veneram» a rainha de Saba que, segundo as crónicas, teria regressado de uma viagem a Jerusalém grávida de um filho do rei Salomão, criança que viria a ser o célebre rei Menelik, fundador da dinastia Salomónica que perduraria na Etiópia até ao século XX e a ter, como último representante, o imperador Haile Selassie (tio avô de um dos elementos da troika que por aqui andou…).

 

Há também a Cidade Imperial de Gondar, um conjunto de seis castelos construídos seguindo técnicas introduzidas pelos portugueses no século XVI, implantados numa grande cerca que chegou a ter doze portas. E, acima de tudo, as igrejas de Lalibela, a «Nova Jerusalém» da Etiópia, cravada numa região árida e agreste. Não há palavras que possam dar uma ideia, mesmo que aproximada, do que são esses doze templos, escavados na rocha e em muitos casos ligadas por túneis, distribuídos por dois conjuntos separados por um rio, estando fisicamente afastado o décimo primeiro: último a ser construído e o mais espectacular, com a sua forma em cruz, enterrado, e com quinze metros de altura. As escavações começaram em pleno século XII e todo o conjunto foi construído em apenas vinte e quatro anos, o que é quase inacreditável! Terão estado implicados nas obras, usando instrumentos mais do que rudimentares, 40.000 homens e conta a lenda que trabalhavam enquanto havia Sol e que os anjos faziam o turno da noite… As igrejas de Lalibela, Património da Humanidade segundo a UNESCO, são um dos grandes motivos de orgulho dos etíopes – e com toda a razão.

 

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Não falei de Addis Abeba? Nada de especial a assinalar, a não ser dois museus e um gigantesco e caótico mercado que tem nada menos do que 103 hectares e onde se vende tudo o que imaginar se possa.

Gostava de voltar à Etiópia? Talvez, mas é pouco provável. Até porque repetir viagens não é a minha praia: temo que não haja amor como o primeiro.

 

 

Joana Lopes

(blogue ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA)

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Convidado: JOSÉ AUGUSTO LEITE

por Pedro Correia, em 02.05.17

 

A importância de ter memória

 

Após baixar, entre 2006 e 2008, umas centenas de fotos antigas da cidade de Lisboa a partir do site do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, e da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, na plataforma FLICKR, comecei a questionar-me se existiria alguma forma de as utilizar, além do simples deleite pessoal e simples arquivamento.

Não tendo ainda sequer um blog - e pouca ideia fazia do que era na altura - reparei que não existia praticamente nada na internet que recordasse a história de Portugal desde o século XVIII até 1974, referente à Indústria, Comércio, Hotelaria, Cinema e Teatro, Transportes, Equipamentos, etc, etc. Apenas começavam a ser disponibilizadas fotos pelos já mencionados Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Arquivo Fotográfico da CML, além de jornais e revistas antigas que começavam a ser digitalizados pela Hemeroteca Digital de Lisboa.

Questionei-me porquê. Fácil! Ainda existia um certo preconceito, receio, ou vergonha de muitos em falar, escrever e recordar o que de bom Portugal construíu e criou antes de 1974. Para outros tudo tinha sido mau … Daí pensei que os grandes e pequenos arquitectos, industriais, comerciantes, médicos, engenheiros, artistas, etc. que foram construindo o nosso país ao longo dos últimos séculos não mereciam continuar no esquecimento.

E lá me decidi em 2009, a criar um blog para esse fim, abrangendo o maior número de regiões de Portugal, e o maior número de temas diversificados, que as fontes mo permitissem, apesar de escassas tanto a nível fotográfico como textual. Devagar, devagarinho, como bom português, lá fui andando…

 

 

Não pretendo com o que vou escrever aproveitar este espaço para publicitar o meu trabalho, sobejamente conhecido, mas apenas demonstrar e chamar a atenção que, por vezes, vale a pena empreendermos numa tarefa cultural e socialmente útil, mesmo que não obtenhamos qualquer dividendo da mesma. O que muita gente já apelidou de outro tipo de “serviço público”.

O sucesso desta "empreitada" ao longo dos últimos sete anos foi para mim gratificante tendo conseguido ser mais uma nova fonte de consulta para muitos estudantes, investigadores, organismos oficiais, etc. O meu modesto contributo baseado apenas em pesquisa na internet, alguns livros e revistas antigas foi consumindo "apenas" sete horas por dia em seis dias por semana.

Sabendo todos os visitantes, seguidores e leitores, que os temas eram exclusivamente de antes 25 de Abril de 1974, e abrangendo maioritáriamente o período entre 1900 e 1974, com enfoque principal no período do Estado Novo, nunca uma voz crítica se levantou, antes pelo contrário. Fiquei surpreendido mas o número de visitantes (2.300.000) e páginas vistadas (6.770.000) alcançado veio-me demonstrar e confirmar a "sede" e vontade de saber acerca desse período, que durante algumas décadas foi evitado sequer falar.

Mas muito pouco ainda damos importância à nossa história, até quando a mesma poderia ser um atributo de grande valia publicitário. Um exemplo: de entre algumas curiosidades que me impressionaram pela negativa foi o facto de, por exemplo, alguns hotéis históricos de Lisboa não referirem sequer o seu ano de fundação nos seus sites, que deveria ser motivo de orgulho (penso eu). Um deles, depois de visitar um artigo que escrevi, acerca do mesmo no meu blog, lá viria a colocar o ano de fundação (1875) mas acompanhado de um erro histórico clamoroso, apelidando-se de “Primeiro Hotel em Lisboa”, em vez de mencionar “Hotel mais antigo de Lisboa ainda em funcionamento”, enfim…

 

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Ao terminar, apraz-me registar, com satisfação, que vão aparecendo cada vez mais fontes de consulta online, e as que já existem vão-se aprimorando e desenvolvendo o seu meritório trabalho em prol da comunidade, ávida de saber e de cultura independentemente da época. A par, vão aparecendo grupos de Facebook direccionados para Lisboa antiga, Porto antigo, Arte e Monumentos etc., assim como alguns blogs históricos de qualidade, que só vêm enriquecer o nosso panorama cultural, tornando-se em mais fontes de consulta e pesquisa.

Repito: os grandes e pequenos arquitectos, industriais, comerciantes, médicos, engenheiros, artistas, etc. que foram construindo o nosso país ao longo dos últimos séculos não merecem ser esquecidos.

Os “fantasmas”, preconceitos e outras coisas mais vão-se diluindo com o tempo e desaparecerão por completo. Como tudo na vida é preciso que uns comecem… e que outros continuem.

 

 

José Augusto Leite

(blogue RESTOS DE COLECÇÃO)

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Convidado: LUÍS MILHEIRO

por Pedro Correia, em 28.04.17

 

Viver na estrada ou morrer no estádio...

 

Às vezes pensa que mais valia ter morrido no estádio.

Nunca mais seria esquecido, nem duvidavam dele quando afirmava que era fulano tal, esse mesmo que jogara no meio campo do “Belém”. E que só por não ter tido muito juízo, é que andava agora com uma camioneta a distribuir pão, aqui e ali.

Raramente é reconhecido. E quando isso acontece chega a ser deprimente, pois só alguns “doentes da bola”, dos que fazem todas as colecções de cromos, o enchem de palmadas nas costas. É por isso que lhes mente quase sempre, diz que é engano, que não é esse cromo do Belenenses, que lhe faltou numa colecção qualquer.

Pode parecer contraditório, mas as coisas da fama são mesmo assim, é como o amor, só gostas de quem te vira as costas, de quem não fica à tua espera na esquina.

Um dia, num completo desespero, dias depois de se divorciar da segunda mulher, queimou tudo o que tinha em casa dessa outra vida, fotografias, camisolas, calções, etc.

Os troféus teve o cuidado de os levar para a casa dos pais, dias antes. Foi por isso que escaparam a mais aquela crise de identidade, assim como os álbuns de fotografia dos tempos de solteiro e os recortes que o pai foi coleccionando ao longo da carreira.

Mas a “destruição” não mudou nada, parece que os álbuns de retratos continuam lá todos por casa, com as louras platinadas bem entrancadas e o inesquecível Lamborguini azul marinho, que lhe venderam como se fosse a sua cara. Não devia pensar nisso, até porque as louras hoje devem estar todas encarquilhadas e o desportivo está na sucata há muitos anos…

Estava ali a almoçar, com aqueles homens cansados de trabalhar como escravos, com vontade de fazer uma revolução, pelo menos de palavras. Ele nem isso. Continuava às voltas com o passado, tão mal resolvido…

Ali ninguém o reconhecia e ainda bem. Ainda lhe chamavam parvo, por ter deitado tanta coisa fora… por ser agora também “escravo” nesta sua última vida. Foi então que, à boa maneira portuguesa, se tentou confortar, “lambendo as feridas” e dizendo para os seus botões que ganhava uma miséria e não gostava nem um pouco do que fazia, mas pelo menos tinha trabalho.

Olhou o relógio, pagou a despesa e despediu-se da malta, pois tinha de se fazer à estrada, na velha Transit, cada vez menos voadora…

 

 

Luís Milheiro

(blogue LARGO DA MEMÓRIA)

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Convidado: RUI ÂNGELO ARAÚJO

por Pedro Correia, em 26.04.17

 

Criar o futuro

 

Há talvez vinte anos, um fornecedor de produtos informáticos tentava convencer-nos de que a ausência de cedilhas e acentos no processador de texto do software que nos vendia não representava nenhuma limitação, já que no futuro, um futuro luminoso ali ao virar da esquina, esses detalhes da língua desapareceriam. Com o uso generalizado da informática, uma novilíngua agramatical impor-se-ia com naturalidade e júbilo, contra os info-excluídos velhos do restelo. Contudo, a empresa fabricante, apesar de estrangeira, não tinha as mesmas ideias visionárias do seu representante na província lusa: não tardou a haver actualizações do software que incluíam dicionário em português, com a vetusta cedilha e tudo.

 

O Público de há uns dias trazia um artigo de mais um destes seres tecnológicos ávidos de futuro, agora um espécime que, com espantosa presciência e originalidade, declara a morte do livro.

Não vale a pena perder muito tempo com o texto em si, a estultícia intrínseca da argumentação é suficiente para fazer dele um nado-morto. Interessa-me, porém, na medida em que um cadáver interessa a um médico-legista ou a um epidemiologista — ou talvez na medida em que interessa a um taxidermista —, interessa-me perder um minuto a identificar o gérmen de que se contamina a prosa e a determinar o instinto primitivo que leva alguém a cometer textos assim.

 

O preclaro articulista é designer e isso não diz nada sobre ele, porque nenhuma formação académica ou profissão determinam o brilhantismo ou a burrice do utilizador. Mas a malícia trouxe-me à memória aquelas revistas artísticas e literárias de gosto gráfico vanguardista que no dealbar do século XXI faziam sair do prelo páginas por vezes curiosas mas ilegíveis, como se na redacção se digladiassem o editor literário e um designer gráfico revanchista e este levasse a melhor. Não falo de experiências comemorativas do centenário modernista, com ideias futuristas de tipografia ou de mancha de texto, mas sim de ornamentação barroca, sobreposição e mescla de imagem, texto e formas geométricas, colorações infelizes e sem contraste, escalas inadequadas e caprichos afins que nas melhores das hipóteses pediam lupa e excelente iluminação e nas piores não deixavam de todo o ler o texto, caso ele fosse para ler.

 

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Quando o designer é em simultâneo amante de literatura sabe que nos livros e revistas, independentemente do suporte, o seu espaço de trabalho fica nas margens do texto, mas já nem sequer como nos fólios medievais, que a página precisa de respirar. Tirando tipografia, capas, folhas de rosto, índices, marcas de capítulos, etc., não há muito a fazer, quem lê não quer perturbações no seu campo visual, e quem escreve — a não ser que esteja em fase Apollinaire ou Mallarmé, ou pretenda ter o seu momento de fusão disciplinar, de importação gráfica de meios comunicacionais contemporâneos — também não quer dar ao seu leitor mais trabalho do que o de mergulhar no texto.

 

Mas atrevo-me a dizer que para o articulista do Público o livro não está a morrer por incompatibilidade com as novas realidades e interesses do design digital ou tecnológico. O livro morre porque os opressores devem morrer. É a emancipação da mediania (ou da mediocridade), por perversão democrática, que exige a condenação do livro. O autor, ao contrário do que diz e possivelmente acredita, não prevê o fim de uma época, mas exprime o desejo de um mundo à sua medida. Adivinha-se pelo artigo que a sua relação com o livro é a de vítima, não de cúmplice ou amante. Vítima por ter sido em algum momento do seu desenvolvimento traumático obrigado a pegar num contra a vontade. Vítima por o torturar a mera ideia de permanecer em silêncio algumas horas com um livro na mão. Vítima por ter intuído a sua condição de plebeu perante uma certa aura aristocracia dos literatos (uma classe na verdade hoje decadente ou pouco influente, mas que ainda provoca ódios e rancores, nem que seja pela memória do seu antigo ascendente social — o ressentimento, já se sabe, exige retroactivos e transmite-se por via genética).

 

Como o meu vendedor de software de há vinte anos, o cidadão médio, de que o nosso designer parece distinto exemplar, sonha com um mundo à sua imagem, sem cedilhas ou outras extravagâncias intelectuais que atrapalhem a irrequietude púbere e impaciente do frenético admirável mundo novo. Sonha com um mundo em que todos têm um só olho e ninguém é rei. É decerto fã do Got Talent.

 

Num outro texto, de 2014 (sim, dei-me ao trabalho de procurar outros cometimentos do articulista), o designer, ignorando o dicionário, enuncia translucidamente a sua condição, mas não da forma que imagina:

 

«Gosto de acreditar que, nós designers, somos “futurologistas”. Ou seja, somos peritos a criar o futuro, ou pelo menos a prever ou a antever os tempos ...» [Sublinhado meu.]

 

A chave está de facto em criar o futuro, não em prevê-lo. Designers ou sapateiros (a profissão é irrelevante), o wishful thinking que estes indivíduos tomam por pensamento filosófico e visionário transforma-se em gesto criador quando decidem não ler livros. E o gesto criador ascende a verdadeiro Genesis quando toda uma multidão decide eleger os seus iguais, confundindo democracia com mediocracia.

 

 

Rui Ângelo Araújo

(blogue OS CANHÕES DE NAVARONE)

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Convidado: RICARDO ANTÓNIO ALVES

por Pedro Correia, em 24.04.17

 

Versos

 

Nem pensar pagar a camaradagem do Pedro Correia com prosa sobre actualidades, ou delitos semelhantes. Para isso, tenho lá o meu sítio; por isso, em bom espírito de bloga, compartilho com os leitores do DELITO DE OPINIÃO um punhado de versos, que, infelizmente, não são meus, mas de que me apropriei desde que os li pela primeira vez. Foi uma escolha difícil.

Aqui ficam, por ordem alfabética e sem repetição de autoria, que é referida no fim.

Boa leitura, de preferência demorada.

 

A beleza sim mais uma vez

Não por adorno mas instinto fundo (1)

 

a noite ergue-se num continente envelhecido (2)

 

bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar (3)

 

Coisas, e a morte que existe nelas, (4)

 

da poética só o pó, só a ética. (5)

 

É a vida a dar socos na porta. (6)

 

É só com sangue que se escrevem versos. (7)

 

É tarde, muito tarde na noite, (8)

 

Havia no ar um prazer de livro lido (9)

 

Jogue a dama na cama, que ela fica. (10)

 

Marta! Marta! / A minha ânsia de te morder, embriaga-me! (11)

 

O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! (12)

 

Olha-me a estante em cada livro que olha. (13)

 

Os teus versos sabem mais de literatura do que tu, (14)

 

pode um desejo humano ser divino? (15)

 

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite, (16)

 

Sem Jeito Para o Negócio (17)

 

Seu amor é um céu católico e distante… (18)

  

Viesses tu, Poesia,

e o mais estava certo. (19)

 

 

(1) Alberto de Lacerda

(2) João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

(3) Ruy Belo

(4) Murilo Mendes

(5) amadeu liberto fraga

(6) José Régio

(7) Saul Dias

(8) Jorge de Sena

(9) Fernando Grade

(10) Homero Homem

(11) João Rosado (Horácio ou O’Racio)

(12) Cesário Verde

(13) Pedro Kilkerry

(14) Rui Almeida

(15) Vasco Graça Moura

(16) Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos

(17) Mário Cesariny

(18) Gomes Leal

(19) Sebastião da Gama

 

 

Ricardo António Alves

(blogue ABENCERRAGEM)

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Convidado: JOSÉ MEIRELES GRAÇA

por Pedro Correia, em 20.04.17

 

Victor Lustig dos pequeninos

 

Sabe-se que o governo resulta de um imaginativo golpe de rins do PM, que trocou uma possível luta de faca nos dentes dentro do PS, decorrente da sua surpreendente derrota eleitoral, pelo poder de distribuir lugares no governo e no aparelho do Estado, que garante o sossego e a unanimidade das hostes. Fê-lo com o expediente simples, e inesperado, de atrelar comunistas a uma maioria parlamentar.

A jogada não havia sido prevista, e menos ainda discutida, na campanha, e não tinha precedentes. E como o PCP sempre se distinguiu, desde há quarenta anos, pela sua adaptação meramente táctica à democracia parlamentar, que aliás nos seus textos doutrinários continua a desprezar; nem se nota qualquer quebra de disciplina entre o seu pessoal político, que é inteiramente recrutado nas suas coudelarias privativas, que asseguram a opacidade e a reprodução do pessoal político por cissiparidade - são todos iguais: resulta que trazer comunistas para o poder não foi cousa pouca.

Acharam muitos, e eu também, que um governo destes não podia durar: António Costa, e com ele a camarilha dirigente do PS, não tem, sobre o governo do país, ideias substancialmente diferentes das que tinha Sócrates; a negociação permanente com o PCP e as vedetas bolivarianas do BE só podia reforçar o pendor despesista, estatista e terceiro-mundista da situação; e a UE cedo cortaria cerce as veleidades no derrapar da despesa, no aumento do défice e na continuação do financiamento.

O Orçamento confirmou as presunções: era inexequível sem agravamento do défice, não continha medidas sérias de reforma do Estado que facilitassem o crescimento e, cria-se, Bruxelas não o deixaria passar.

Mas deixou, com reservas e vigilância. O Orçamento foi o segundo golpe de rins de Costa, e desta vez duplo: aldrabou os patrões europeus pelo expediente de garantir o cumprimento das metas, custasse o que custasse, com a consciência de a UE não querer, por estar ela própria periclitante, dar as mesmas provas de intransigência que deu aquando do programa da tróica; e obteve aprovação dos seus parceiros apresentando-lhes um orçamento incompatível com as metas que traçava, que depois adulterou comprimindo as despesas mais caras à esquerda, aumentando os impostos que a mesma esquerda considera mais injustos, e dando um bodo fiscal às empresas, sob a forma de perdão fiscal e reavaliações. Para garantir o apoio da massa dos votantes retocou pensões e salários da função pública, mesmo ficando sempre aquém da propaganda que uma imprensa obsequiosa veicula, e estancou a redução de pessoal empregado no Estado.

Com isto, mais cativações e aldrabices menores, às quais de resto os governos da democracia sempre recorreram, apresentou o menor défice da democracia. Não foi, claro: O Conselho de Finanças Públicas acha que não, mas o que o eleitor vê e ouve todos os dias não é aquele Conselho, nem os discursos cépticos de economistas sérios, nem a Oposição que ainda há pouco deprimia toda a gente por não prometer um futuro radioso. O que vê é o optimismo nas declarações oficiais, a taxa de desemprego que baixa, a paz nas ruas que a CGTP garante e os bancos que recomeçaram a dar crédito ao consumo.

Jogada de mestre. Tão de mestre que eu, se fosse comunista, começava a perguntar aos meus botões se não estava a pagar caro demais o apoio: as sondagens mostram que o PS sobe nas intenções de voto e Costa, se tiver uma maioria absoluta, não hesitará em reverter, à menor pressão europeia, as cedências que já fez aos bandos à sua esquerda, porque não tem mais norte do que seja o interesse público do que as galinhas, que entendem que aquele interesse é onde estiver o milho.

 

António Costa e Mário Centeno, na Assembleia da República. Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

 

Entretanto, a dívida pública continua a derrapar. E suponho que os Centenos, Trigos Pereira, mais a vasta floresta de académicos e funcionários que servem o poder do dia, muito devem coçar as pensativas cabeças sobre como aldrabar este indicador, que não cola com o resto. Se houver alguma maneira, encontrá-la-ão. E têm para isso suporte teórico: não é verdade que a economia vive da confiança e das expectativas? Pois então, dourar os números é, bem vistas as coisas, quase um dever patriótico. Sê-lo-ia, também, o trabalho de explicar como é possível que a dívida pública cresça mais do que o défice, mas os economistas ditos de direita têm-se poupado, que eu saiba, a esse excessivo trabalho, decerto por não terem acesso a números que estão escondidos nalgumas gavetas.

Estamos assim. E como a população só vê ao perto, e não tem nem quer ter óculos para ver ao longe; como a Europa finge que é míope, porque corrigir as dioptrias causaria de momento alguma perturbação noutros órgãos; e como a comunistada ou foi apanhada na sua própria armadilha ou aposta que quanto pior a prazo, melhor:

Portugal hoje está um torpor, tanto que Costa pode talvez durar. Para mim, isto é uma grande maçada, não tanto por estar excessivamente preocupado com as futuras e garantidas desgraças dos meus concidadãos - têm o que merecem - mas porque me enganei.

A União Europeia, o PCP, o Bloco, a maioria dos eleitores e eu - somos muita gente a ser enganada. Este homem ou é um génio, ou um crápula, ou um crápula de génio.

Génio não creio, porque lhe falta esta estatura.

 

José Meireles Graça

(blogue GREMLIN LITERÁRIO)

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Convidado: ALEXANDRE BORGES

por Pedro Correia, em 17.04.17

 

O som da televisão aos domingos

 

De vez em quando, acontece uma pequena coisa que nos lembra quem somos.

Um tipo nasce um calhau, depois vai sendo esculpido e depois levam-no a passear, põem-no em exposição, tiram-lhe fotografias, penduram-lhe coisas ao pescoço, dão-lhe o suposto mundo, e, às tantas, uma pessoa já não sabe se é a pedra original, a estátua – por mais bruta ou primária – nela esculpida, ou tudo quanto lhe puseram em cima. É a diferença entre o excesso que se tirou e o supérfluo acrescentado.

Às vezes, esquecemo-nos, mas o que somos é o que está ali no meio.

Como tivemos a sorte de viver até ver o dia de hoje – e, tudo correndo bem, também o de amanhã – foi-nos pedido em contrapartida que tivéssemos bastante mais elasticidade do que aqueles que nos precederam. Viajaríamos mais, veríamos mais, leríamos mais, ouviríamos mais, provaríamos mais, conheceríamos mais – também tínhamos de compreender mais.

E assim me tornei um liberal. Acima de tudo, liberdade para todos. Liberdade para se ser quem se é, para se viver com quem se quiser viver, para viver do que se quiser até quando se quiser, e onde se quiser, com os líderes políticos que se escolheu, rezando ao deus que se ouviu ou julgou ouvir, assumindo a responsabilidade, sem outro poder qualquer sempre a intrometer-se no caminho entre um homem ou uma mulher e as suas escolhas.

 

Até que se me deu uma espécie de epifania.

Ao contrário do que talvez se esperasse, era auditiva, não visual, mas sucedeu num domingo, como convém. Estava este vosso escriba em casa, dividido entre a preguiça dominical, a metafísica dos afazeres da loiça e da roupa e um trabalho intelectual qualquer à espera de conclusão no computador aberto… quando ressoou pela casa, sereno e claro, o som da televisão ao domingo.

O som da televisão ao domingo emitindo para ninguém. Falando para o boneco na sala ou na cozinha. Dando filmes propositadamente escritos, financiados, interpretados e produzidos para serem emitidos ao domingo e, portanto, não serem vistos por ninguém. Ou por ninguém que esteja acordado. Ou ao menos sentado, olhando para eles. Televisão propositadamente feita para o tédio, a inutilidade, o sentimento de absurdo, o nada.

E, de repente, veio aquele conforto das velhas certezas. Do calor do sol do regresso a casa tocando-nos no rosto: sim, o que nós realmente somos é uns conservadorões sem remédio.

Debaixo dos adornos, a estátua, ou calhau polido, revelava-se: sim, ó cafés chiques que saem nas revistas, rooftops trendy no topo das pesquisas. Sim, ó turistas de toda a parte, gente de todas tribos trocando mimos entre todos os sexos, em todas as línguas. Bem-vindas ciclovias e piqueniques electrónicos, brunches para os retardados e delícias em versão fast food gourmet. Vinde, ó entretenimento portátil empacotado no smartphone, manias do running e inaugurações múltiplas. Vinde, que há lugar para todos, ó empreendedores, ó iniciativa privada, ó venture capitalists, ó startups, ó founders – a vida é vossa, mesmo que eu tema pelo dia em que se passe directamente de CEO a sem-abrigo.

 

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Bem-vindos todos, sem amargor nem ironia, mas há mesmo dias em que só apetece fugir de tudo e arrastar-se, no roupão mais coçado, pela casa, ao som da televisão de domingo. Fugir para o café mais banal, uma das 25 pastelarias de fabrico próprio todas iguais acerca das quais a Time Out nunca fará um artigo. Esconder-se no café mais banal do mundo, sem gente nem mundo nem nada particularmente que o recomende, só uma máquina de café e uma daquelas instalações artísticas feitas com garrafas de whisky e Porto e latas de iced tea na montra. Fugir para umas ruelas quaisquer, onde ainda se consiga ouvir o sino de uma igreja badalando ao domingo, não porque sequer se vá entrar na igreja, mas apenas para nos dizer que algumas coisas continuam lá, exactamente iguais ao que sempre foram, indiferentes à febre da estação. Fugir para um livro e um chá banal de infusão, para o que se é, mesmo que se esteja nos subúrbios do assunto, ou da moda, ou do nosso tempo. E não ter vergonha de o dizer segunda-feira. E bater palmas aos outros que não foram à inauguração e não estiveram no evento e não viram e não provaram. A Expo 98 acabou em 98 – já não precisamos todos de andar a recolher carimbos no passaporte para provar que se esteve e se viveu. Mesmo sabendo que o mundo agora já é da gente para quem esta referência não tem absolutamente sentido algum.

 

Respiro fundo e sorrio, reencontrado. Passam agora os créditos finais do filme que nunca vi e me parece ter salvo a vida. Encerrada a aparição, porém, um instante de sobressalto: como resolver aquela aparente esquizofrenia? Como conciliar o liberalismo adquirido com o conservadorismo inato? Um momento volvido, porém, o suspiro de alívio… Havia uma resposta.

Sou um liberal. Um liberal a toda a prova. Acredito que, no mundo, há lugar para todos os povos, todas as religiões, todas as gerações, todas as opções sexuais, para toda a gente. Até para nós, empedernidos, teimosos, intratáveis, irredutíveis conservadores.

 

Alexandre Borges

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidada: CRISTINA NOBRE SOARES

por Pedro Correia, em 12.04.17

 

Zé Inácio

 

Zé Inácio fazia por estar de bem com todos. Que ele não andava neste mundo para fazer zaragatas, até para garantir que não levava ressentimentos para onde fosse depois de morrer. Já basta a alma de uma pessoa andar a penar, quanto mais estar de mal com as outras uma eternidade inteira. Por isso quando lhe perguntavam a opinião sobre alguma coisa, fosse sobre uma zanga de extremas ou sobre uma notícia no jornal, safava-se sempre com um sorriso, que os outros tomavam por franco, ou com um provérbio popular que, mesmo que não viesse a propósito, soava sempre a sabedoria da velha, daquela que não se compromete com nada.

Esta maneira esquiva de estar na vida ganhou-lhe a fama de homem de tino e juízo certo. Que é uma coisa diferente de bom homem, que tino e o saber viver nem sempre andam a paredes meias com a bondade, pois quem sabe viver é esperto e os espertos sabem que bondade a mais é coisa de gente tonta.

Diziam os outros que ele era um homem de juízo certo e sem vícios. Fama que ele cuidava que nunca se manchasse, que um homem sem vícios tem sempre mais razão que os outros, mesmo que não tenha razão nenhuma. E por isso Zé Inácio desde cedo, porque nascera velho, cuidou com esmero sobre o que dele pensavam, pois sabia que a verdade que se conta acerca de um homem nem sempre é o que realmente se passou, mas mais o jeito de como disso se fala. E assim garantia que a verdade que os outros contavam dele seria sempre boa. Zé Inácio fazia por estar de bem com todos, porque não andava nesta vida para arranjar zaragatas mas acima de tudo porque acreditava que mais importante que a vida que realmente se vive é a vida que de nós se fala e conta.

 

Cristina Nobre Soares

(blogue EM LINHA RECTA)

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Convidado: JOSÉ P. TEIXEIRA

por Pedro Correia, em 05.04.17

 

Torna-viagem

 

(Vir aqui botar no Delito de Opinião é um até mais-que-prazer, a mais lembrar-me de que já fui residente, depois partido aquando um qualquer histriónico haddockismo meu. E a agradecer o convite mas a remoer “de que irei eu falar?” nesta visita ao grão-blog. De amigos, respondo-me, “coisa mais preciosa no mundo não há” alguém cantou.)

 

Um tipo emigra. Fica duas décadas imigrado, já adulto, envelhecendo, e nisso se apresta aos cinquentas. Nesse entretanto rodeia-se, reconfigura-se. Mudam-se-lhe interesses e modos. Condicentes com o local onde se aboletou, com toda a certeza. A mim, lá no sul que me acolheu, tornaram-se uns mais rudes e os outros mais profundos. Para estes despertado muito pelos (muito) amigos construídos nesse caminho, gente de biografias densas e rugosas, de atenções múltiplas, a fazerem um ambiente bem mais intenso do que o salão luso, o “Terreiro do Paço” de Minho ao Algarve onde tudo parece, se visto lá de longe, algo coreografado.

 

Nessas décadas se entre os nossos, patrícios, sempre foi comum o lamento, até lamúria, com a perspectiva do regresso à (cada vez menos) casa. Se por lá se anunciava e praticava o convívio fácil, desinibido, a entreajuda, o “amigo de amigo…”, mesmo que quantas vezes desiludindo, a cada um que tinha que regressar ao país, ou mesmo a cada visita de férias, se somavam as conversas sobre o gelo português, a solidão da vida que aqui ocorre. O anúncio, temor, que na “pátria”, por mais “amada” que seja, o ombrear escasseia. Os que iam voltando, os que já haviam voltado e depois revoltado, deixa(va)m sempre o aviso, em Portugal nada e ninguém é como lá fora. Pois por poucos anos que tenham passado os amigos de ontem desaparecem, quanto muito uns jantares no regresso, quais comités de recepção, e depois o silêncio. Nem tecer nem cerzir comunhões. Pois a vida não o permite, vão as pessoas amargas com as crises – essa afinal singular, há pelos menos quinze anos que sempre gemida pelos residentes.

Quem volta(va) às pequenas cidades queixando-se do vazio, da modorra, das polémicas e entusiasmos/irritações por coisas nada, em país de tantas facilidades. Os caídos em Coimbra logo azedos com aquele nicho de homo academicus provinciano, castrador. Os aportados ao Porto notando ainda assim mais cálidos os de lá, mas resmungando o quão estratificada é a cidade, nisso fechada a quem ali se quer acolher, coisas decerto do velho burgo de burgueses. E sobre Lisboa nem falar, cidade de gente ácida, desabrida, pois já urbe. E julgando-se sem tempo para si e para os outros, lesta a desamigar-se dos velhos amigos, inepta para os novos, devido ao trânsito, arrabaldes, condomínios, às distâncias que também são estatutos, importâncias. E impaciências. Ou, sempre eu o disse, à malvada idade. Com tudo isso, por lá cada antevisão do regresso vinha com arrepio.

 

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Depois calhou-me a mim assumir-me o temido “torna-viagem”. Caído nesta mesma capital, agreste e superficial. E desarvorado de utilidade, daquela que me habituara, pois sem o manancial de informações a partilhar, de conhecimentos peculiares para difundir ou contactos para recomendar. Nem emprego para brandir nem a mesa farta, e até burilada, que me havia acompanhado. E a bolsa muito leve. Assim um “torna-viagem” basso, deshumorado, verve trôpega. Os meses foram passando, até os anos já, impávido o tempo. Os amigos, antigos, alguns até imenso, outros novos, sempre aparecem, desafiam, almoçam, adoecem, discutem, curam-se, jantam, aguentam, lêem, riem-se, morrem, propõem, bebem, preocupam-se, preocupam-me. Vivem-me, vivo-os.

Afinal era mentira aquela ladainha, entoada lá longe. Cantávamo-la como exorcismo. Das saudades. Deste ombreio. Saibam disto os que lá estão longe.

 

José Pimentel Teixeira

(blogue COURELAS)

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Convidado: CARLOS NATÁLIO

por Pedro Correia, em 29.03.17

 

Violência indomesticada

 

Desculpem-me se vos escrevo a partir de uma terra secreta. Se vos falo com a voz ingénua, voz simplista, voz naufragada, por uma visão qualquer de alguém que já não vê terra há muito, que já só procura o oásis ou a ilha deserta cheia da manga madura e carnuda e da sombra recortada pelas asas dos pássaros, irrequietos pincéis a desenhar a tarde de sol. É daí que vos escrevo para vos dizer que já há muito perdi noção dos dias, da resolução correcta dos problemas da chamada «vida real», do tempo em que é suposto vivermos - feito de resgates, transacções indevidas, muros, bombas e olhares funestos. Tempos houve em que lia com respeito e dedicação os fundamentos do direito, as bases da justiça e sua concretização num ordenamento jurídico, a luta entre o castigo e a censura do direito, a culpa, o crime, o dolo, e a «mente criativa» e retórica do senhor jurista.

 

Tudo isto já faz parte de um passado relativamente distante, em que na minha cabeça o idealismo ainda se fundia às séries de televisão nas quais, no final, o justo, o inocente, a vítima sempre levavam a melhor. Entretanto, os papéis burocráticos acumularam-se na minha mente e essa tal de «vida real» veio ter ao meu encontro - como comboio apressado a entrar na gare e a levar todos os passageiros desprevenidos - e conduziu-me para essoutro país feito de opiniões inocentes, desprotegidas, de quem fala como quem ama ou se indigna com o mundo, sem nada mais. É nesse espaço inocente, à beira bar plantado, feito de quem sente o justo (mas que também sabe como, quase sempre, o justo é injusto), que leio diariamente, como se se acumulasse à previsão do tempo ou ao signo astral, que «mulher tal foi morta pelo marido». Morta em Barcelos, morta em Lisboa, morta em Famalicão. Parecem notícias de Marte, mas são da Terra. Pior, da nossa terra.

 

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No outro dia, em consequência de mais um massacre, que os jornais mostram com a avidez errada - menos da denúncia e mais do prazer mórbido da publicidade - dei por mim a voltar ao passado. Estava indignado. Como pode isto ser assim, de forma recorrente e impune - homens a pegar em facas, a pegar em revólveres, a pegar nos punhos e em palavras indevidas e a massacrar mulheres inocentes (ou mulheres culpadas, pouco importa). Abri o Código Penal, um livro que tantos «prazeres e penas» já me proporcionou, e naveguei até algumas «ilhas distantes»: o homicídio simples e sua pena, o homicídio qualificado e sua pena (pais e filhos matam-se com mais censura jurídica do que cônjuges, ao que parece), o homicídio privilegiado (que coisa tão bela, o ordenamento sensível ao temor do ciúme - misturado muitas vezes com o álcool, adiante-se -, às irreverências e desvarios do amor e da paixão que na literatura sempre fizeram tombar os corpos com graciosidade e que aqui também procuram acamar com penas as tragédias. Finalmente, o fatídico crime de «Maus Tratos e Infracção de Regras de Segurança», nome já tão adequado à violência doméstica (mas quem disse que o código penal tinha de comungar da poesia?) Artigo tão belo como poucos haverá, o art. 152, do qual resulta que, no pior dos casos, se matares a tua mulher terás 10 anos de prisão, quase o mínimo aplicável ao homicídio simples. Daí a «grande máxima» milenar: se é para matar, mata antes aqueles que conheces.

 

Sei que me dirão, sobretudo advogados de profissão, que se trata de uma leitura simplista (quiçá incorrecta) da forma como a justiça encara o problema da violência doméstica. Talvez. Não é que não vos avisasse desta minha imprecisão. Mas depois lemos coisas como: todas as dias 14 mulheres são vítimas de um crime de violência, em média 100 por semana. Os números da APAV também serão simplistas? Mas o meu ponto é este. Sempre existiram desde tempos imemoriais, e continuarão a existir, os chamados "crimes passionais" motivados pelos furores do amor, da paixão, do ciúme. Mas a questão, parece-me, é até filosófica: a violência é por natureza selvagem e «indomesticada» (mesmo a mais premeditada e dolosa). O equívoco está em vivermos numa sociedade que parece valorar o adjectivo «doméstico», quando chamado a qualificar a violência, como algo de menor importância, mais desculpável, uma violência de trazer por casa. Neste sentido, a violência doméstica seria uma menor violência porque a sociedade considera que nesses casos há muitos factores que interferem com as acções do agressor. Contudo, quanto mais não seja pelos números, pelas penas suspensas, pelas recorrências, por um certo sentido de impunidade, percebemos o preço que pagamos por valorar a violência doméstica como «violenciazinha», ao invés de fazer o contrário. A natureza indomesticada da violência no espaço doméstico ganha proporções ainda mais vorazes e selvagens, isto é, o facto desta violência se verificar no espaço da casa deveria ser tido não como factor desculpabilizante, mas sim agravante.

 

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Enfim, gosto pouco de textos indignados e não é de todo o meu papel. Mas gosto ainda menos de viver numa sociedade que vai «desculpando» a gravidade destes crimes; numa sociedade em que se encoraja os homens a mostrar quem «manda lá em casa», quem é o chefe da família, ou quem «veste as calças»; uma sociedade machista e abrutalhada na qual a intimidade é um factor desculpabilizante e não agravante; uma sociedade do futebol e dos copos na qual as mulheres são aconselhadas a ter paciência quando o Benfica lá perde um pontito ou o seu homem chega a casa de grão na asa; em que os homens não sabem, ou não querem, proporcionar orgasmos às suas mulheres; numa cultura da submissão, do medo e do jantarinho pronto; numa vida de invasão de privacidade, do «vestes-te assim ou assado», do deixa ver a tua carteira, o telemóvel, o computador; uma cultura de estaladas, de berros, de empurrões; uma cultura do «onde é que passaste a tarde?», do ontem à noite fui às meninas; uma cultura de mulheres aconselhadas a vestirem-se como putas para segurar os maridos, uma cultura de costelas de Adão, de divórcios fechados à lei da bala, de humilhações sexuais e penas suspensas; uma cultura do «tenha paciência», do «aguente só mais um bocadinho»; uma cultura do fechar a boquinha e do abrir a boquinha; uma cultura do «uma lady na mesa, uma louca na cama»; uma cultura das nódoas negras, dos grunhos traidores que não admitem traição, das facas na garganta, dos berros constantes; uma cultura do «entre marido e mulher não se mete a colher», do «isto é normal», do «isto é mesmo assim», do olho à belenenses, da prepotência patriarcal do cidadão, do legislador, que vai achando tudo isto normal...

 

Tenho pouco jeito para textos indignados e disse-vos que vos escrevo a partir de uma terra secreta. Espero portanto que estas palavras vos encontrem bem e vos inspirem a pensar sobre o que é na verdade uma casa, o que deve ser um espaço doméstico, a pensar sobre essas 14 mulheres, essas 100 mulheres, essas casas em Barcelos, em Lisboa, no planeta Marte ou no meio do mar. Ingenuamente vos digo - e essa ingenuidade é um espaço intocado que conquistei escavando, resistindo, às matemáticas legalistas do Direito - contra a violência indomesticada só há uma coisa a fazer. Impedi-la, por todos os meios - leis, braços, palavras - já.

 

Carlos Natálio

(blogue ORDET)

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 28.03.17

Como alguns leitores atentos já terão percebido, retomámos uma iniciativa com muito êxito que mantivemos aqui durante mais de um ano, entre Maio de 2010 e Junho de 2011, convidando colegas de outros blogues para escrever connosco um texto inteiramente à escolha de cada um.

Nessa primeira série, a rubrica "Os nossos convidados" contou com a adesão de 223 companheiros - alguns dos quais são hoje nossos colegas no DELITO: Ana Lima, Francisca Prieto, João André, José António Abreu, José Maria Pimentel, José Navarro de Andrade, Luís Menezes Leitão, Luís Naves, Patrícia Reis, Rui Herbon e Tiago Mota Saraiva.

Revisitando essa lista, encontro lá cinco escritores consagrados, dez colunistas hoje com presença regular nos órgãos de informação, um presidente de câmara de uma capital de distrito, um embaixador, um gestor bancário, três professores universitários, um deputado, dois conhecidos advogados, duas figuras cimeiras de agências de comunicação, dois membros actuais de direcções de jornal, um assessor parlamentar e o ex-ministro José Medeiros Ferreira, cuja memória guardarei sempre com apreço e saudade. 

A nova série, iniciada há uma semana, teve o pontapé de saída a cargo do Luís Robalo, do blogue Redondo Vocábulo. Amanhã escreverá connosco o Carlos Natálio, do blogue Ordet.

Desde já lhe dou as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS ROBALO

por Pedro Correia, em 22.03.17

 

Copos e gajas, de preferência boas

 

De manhã se começa o dia, dizia a minha querida avó, mulher avisada, que vestia de preto, tinha um buço pronunciado e gostava da pinga às escondidas.

Como quem sai aos seus, aos seus sai, já enfiei dois medronhos, para dar energia a enfrentar o dia que dá trabalho, e até chegar ao fim, é uma peregrinação quase religiosa ao botequim do chico. Pelo menos tenho fé em ir lá, é uma espécie de purificação do meu interior.

Agora só bebo sininhos, estou em dieta alcoólica, só pequenas quantidades (de cada vez claro). Não se pode dizer que saia caro. Cada sininho são 30 cêntimos. Um copo de três, cinquenta cêntimos. Apesar de alguém desavisado poder estar em desacordo (está longe, não vê, está mal informado), sou uma pessoa poupada: só bebo um de cada vez.

Se descontar de todos os que bebo, as ofertas, os brindes às efemérides de cada parceiro que frequenta o botequim, e os que o Chico se esquece de cobrar, gasto realmente muito pouco. Sou portanto no Sul, um dos homens mais poupados (mas há quem esteja ainda mais abaixo. O Sul não acaba aqui).

 

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Nunca fui de esbanjar dinheiro, na verdade nunca o tive. Comecei a trabalhar bem cedo na terra, sem tempo para estudos nem letras. Depois alguém disse que era melhor deixar de trabalhar a terra. Não valia a pena, pagavam para ficarmos em casa. Só a partir daí é que comecei a ter algum dinheiro para gastar.

Como nunca pude aturar um ajuntamento de mulheres - só para o truca-truca, e mesmo assim apesar de eles acharem, está longe de ser todos os dias - e como é em casa que elas se juntam, para ocupar o tempo livre comecei a frequentar a tasca do chico. Entretinha-me a jogar as cartas, ao dominó e a ver os bonecos do “Correio da Manhã”, posto que não sei ler convenientemente: o pouco que leio, não entendo.

Ora para uma pessoa se entreter tem que consumir, o chico não alimenta a família com ar, é do negócio da venda de bebidas espirituosas, torresmos e sandes de bifanas em vinha-d’alhos.

Não sei o que aconteceu, mas ultimamente só se ouve falar de nós, do medronho, do tinto e das gajas. Isto é uma aldeia pacata. O medronho e o tinto para nós é água e não chamamos gajas às mulheres, chamamos mulheres, e apesar de falarem até à exaustão, gostamos delas não as tratamos como gajas.

 

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De repente vieram para aí jornalistas e televisões, a fazerem perguntas, e sinceramente não entendo o alarido. Nós matamos a sede com prazer e gostamos à nossa maneira das mulheres, não andamos a roubar, a mentir, nem a beber bebidas finas com borbulhas nos salões onde eles vão todos aperaltados apalpar as mulheres dos outros quando vão à casa de banho retocar os beiços, e depois fazem negócios com eles, como se fossem amigos do peito.

Um dia destes ainda fecham a porta do Chico e aí quero ver como vamos matar as horas do dia: só se for sentados à beira da estrada, a ver ninguém passar, que aqui não vem ninguém. Para quê, se isto é um amontoado de velhos e mulheres com bigode?

 

Luís Robalo

(blogue REDONDO VOCÁBULO)

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Os nossos convidados (balanço)

por Pedro Correia, em 11.06.11

 

Em Maio do ano passado, quando nos lembrámos de pedir textos a colegas da blogosfera, das mais diversas tendências políticas, nunca imaginei que esta iniciativa durasse tanto e ultrapassasse em muito o plano inicial. A ideia era termos um convidado por mês, depois um convidado por semana. Mas rapidamente percebi, pelas respostas prontas aos convites, que não fazia sentido haver intervalos tão longos de publicação. A passadeira vermelha do DELITO DE OPINIÃO passou a desenrolar-se, salvo raríssimas excepções, de segunda a sexta. Recebendo convidados das mais diversas tendências políticas e com os mais diversos estilos literários. Cada qual abordando temas à sua livre escolha, como aliás ficou desde logo estabelecido: a única regra era não haver regras. Houve quem optasse por um desenho, por exemplo. Ou por um vídeo. Ou por textos enormes. Ou por textos muito curtos.

Lembro aqui, ao correr da pena, os nossos dez primeiros convidados: Tomás Vasques, Rita Barata Silvério, Afonso Azevedo Neves, Joana Lopes, Nelson Reprezas, Rui Bebiano, Rui Costa Pinto, Ana Paula Fitas, João Sousa André e Ana Lima. Convidados com personalidades diferentes, com blogues de características muito diferentes. Como diferente era também a atitude de cada um deles: houve quem estabelecesse intenso diálogo com os leitores nas caixas de comentários, outros limitavam-se a uma sucinta referência. A piada destas coisas é também verificar estas diferenças. Quase todos reproduziram os textos nos seus blogues, o que multiplicou de alguma forma o intercâmbio entre nós. Era também isso que se pretendia.

E assim passou um ano: vários de nós íamos fazendo convites e as respostas surgiam quase sempre com uma nota suplementar de simpatia. Devo confessar que a qualidade da esmagadora maioria das colaborações excedeu as nossas expectativas, que já eram elevadas. E a quantidade de respostas afirmativas também surpreendeu: foram raras as recusas e quase todas bem justificadas. Uma delas envolveu mesmo um toque de humor: era um período muito quente de Verão e o calor convidava pouco à escrita. Aceitei com um sorriso, claro: estas coisas devem ser encaradas com bonomia. Alguns autores, entretanto, não receberam convite por falta absoluta de contacto: ainda há blogues que vivem praticamente blindados ao mundo exterior.

Recusei apenas um texto - e por um motivo mais que justificável. Era um texto que me criticava duramente e exigia uma resposta igualmente dura da minha parte. Como expliquei à pessoa em causa, há limites para a hospitalidade: gosto de ser cordial mas detesto a falta de chá. Aliás a cordialidade só produz efeitos práticos se funcionar nos dois sentidos.

Foi, como era de prever, um caso isolado. Outro caso isolado, mas de sinal contrário, foi o de alguém que, não tendo sido convidado, se fez convidar enviando-me um texto que não hesitei em publicar. Achei imensa graça a este exemplo de voluntarismo, prova evidente de que a iniciativa se justificava. A tal ponto que alguns dos nossos convidados se tornaram também membros do DELITO: a Ana Lima, a Cláudia Köver (que entretanto estava sem blogue, o que justifica que seja a única sem linque na lista aqui em baixo), o José António Abreu, o José Maria Pimentel e a Patrícia Reis.

Agora, que terminou, deixo aqui - por ordem alfabética - os nomes dos 223 convidados que desfilaram na passadeira. Agradecendo-lhes, uma vez mais, a colaboração que nos prestaram.

 

A

Abel Soares Rosa. Afonso Azevedo Neves. Afonso Ferreira. Alda Telles. Alexandre Borges. Alexandre Guerra. Alexandre Homem Cristo. Ana Cássia Rebelo. Ana Clara. Ana Cristina Leonardo. Ana Gabriela Fernandes. Ana Lima. Ana Matos Pires. Ana Paula Fitas. André Abrantes Amaral. André Azevedo Alves. André Miguel. Andrea Carvalho Rosa. António Agostinho. António Balbino Caldeira. António de Almeida. António Eça de Queirós. António Figueira. António Godinho Gil. António Luís. António Nogueira Leite. António Pais. António Pedro Neto. António Pinho Cardão. Ariel.

B

Bernardo Pires de Lima. Bruno Faria Lopes. Bruno Vieira Amaral.

C

Carla Ferreira. Carlos Azevedo. Carlos Carvalho. Carlos Faria. Carlos Manuel Castro. Catarina Reis da Fonseca. Cláudia Köver. Cristina Nobre Soares. Cristina Torrão.

D

Daniel Santos. David Levy. Diogo Belford Henriques.

E

Eduardo Freitas. Eduardo Louro. Eduardo Saraiva. Ega. Eufrázio Filipe. Eugénia de Vasconcellos.

F

Fátima Mégre. Fernanda Candeias. Fernando Moreira de Sá. Fernando Penim Redondo. Fernando Torres. Filipe Anacoreta. Filipe Moura. Filipe Nunes Vicente. Filipe Tourais. Filomena Naves. Francisca Prieto. Francisco Almeida Leite. Francisco Castelo Branco. Francisco Curate. Francisco Proença de Carvalho. Francisco Seixas da Costa. Francisco Teixeira.

G

Gabriel Silva. Gonçalo Correia. Grande Jóia.

H

Helder Robalo. Helena Araújo. Helena Ferro de Gouveia. Helena Fernandes. Helena Matos. Henrique Burnay. Henrique Raposo.

I

Inês de Barros Baptista. Inês Teotónio Pereira. Isabel Teixeira da Mota. Ivone Costa.

J

Jansenista. Joana Lopes. João Caetano Dias. João Carvalho Fernandes. João Espinho. João Ferreira Dias. João Gomes de Almeida. João Lisboa. João Marchante. João Maria Condeixa. João Paulo Craveiro. João Pedro Pimenta. João Pedro Santos. João Severino. João Sousa André. João Távora. João Teago Figueiredo. João Tunes. João Villalobos. Joaquim Carlos. Jorge Costa. Jorge Fonseca Dias. José Adelino Maltez. José Aguiar. José António Abreu. José Carlos Pereira. José Catarino. José Costa e Silva. José Couto Nogueira. José Luiz Sarmento. José Manuel Arrobas. José Manuel Faria. José Maria Pimentel. José Mário Teixeira. José Medeiros Ferreira. José Moura Pereira. José Navarro de Andrade. José Pedro Lopes Nunes. José Pimentel Teixeira. José Reis Santos. José Simões. Jumento.

L

Leonel Vicente. Lourenço Cordeiro. Luís Aguiar-Conraria. Luís Bonifácio. Luís de Aguiar Fernandes. Luís Melo. Luís Menezes Leitão. Luís Milheiro. Luís Naves. Luís Novaes Tito. Luís Paixão Martins. Luís Rocha. Luís Serpa. Luísa. Luísa.

M

Manuel Pinheiro. Manuel S. Fonseca. Margarida. Margarida Corrêa de Aguiar. Maria Isabel Goulão. Maria João Caetano. Maria João Marques. Maria João Nogueira. Maria N. Maria Teresa Loureiro. Marisa. Marta Costa Reis. Marta Romão. Massano Cardoso. Miguel Cardina. Miguel Félix António. Miguel Madeira. Miguel Marujo. Miguel Noronha. Miguel Serras Pereira. Miguel Vaz. Mr Brown.

N

Nelson Reprezas. Nicolina Cabrita. Nuno Caldeira da Silva. Nuno Costa Santos. Nuno Dias da Silva. Nuno Gouveia. Nuno Pombo.

O

Orlando Nascimento.

P

Patrícia Reis. Patti. Paulo Almeida. Paulo de Morais. Paulo Ferreira. Paulo Guinote. Paulo Marcelo. Paulo Pinto Mascarenhas. Paulo Sousa. Paulofski. Pedro Adão e Silva. Pedro Coimbra. Pedro Magalhães. Pedro Norton. Pedro Quartin Graça. Pedro Rolo Duarte. Pedro Soares Lourenço. Pedro Vieira. Priscila Rêgo.

R

Ricardo AlvesRicardo António Alves. Ricardo Gross. Ricardo Rio. Ricardo Sardo. Ricardo Vicente. Rita Barata Silvério. Rita Ferro. Rita de Vasconcellos. Rodrigo Moita de Deus. Rodrigo Saraiva. Rui Bebiano. Rui Carmo. Rui Castro. Rui Costa Pinto. Rui Herbon. Rui Passos Rocha.

S

Samuel de Paiva Pires. Samuel Filipe. Sara Coelho. Sarah Adamapoulos. Sérgio Lavos. Sofia Bragança Buchholz. Sónia Morais Santos.

T

Teresa Leandro. Tiago Moreira Ramalho. Tiago Mota Saraiva. Tomás Belchior. Tomás Vasques. Torquato da Luz.

V

Vasco Campilho. Vasco Lobo Xavier. Vítor Cunha. Vítor Matos.

Z

Zélia Parreira.

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Convidada: CLÁUDIA KÖVER

por Pedro Correia, em 03.06.11

 

O nascer do riso

 

A fragmentação da obra de três compositores contemporâneos, cuja sonoridade não embale todo e qualquer ouvido, e a sua reconstrução numa nova palete de sons e passagens, serviu de inspiração a este conceito. Admito ter cortado e recolado a obra alheia - à qual eu própria muitas vezes não dou ouvidos - e tê-la refeito a meu gosto, servindo agora de embrulho a esta crónica. No entanto, neste processo, jogou-se também a dança das influências entre a música e a escrita - e as letras acabaram por se adaptar à sua melodia. Tudo isto com o único objectivo de não aborrecer. Infelizmente, poderei ter falhado redondamente nesse aspecto mas, ao menos, espero ter fundido duas baladas aborrecidas numa só música.

 

 

Cláudia Köver

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 03.06.11

Hoje, último dia da campanha eleitoral, é também o último dia em que estendemos a passadeira vermelha a um convidado. Foram mais de 200 que por aqui passaram durante um ano: em breve terei ocasião de agradecer a cada um deles quando fizer o balanço desta iniciativa, que julgo ser inédita na blogosfera portuguesa. Felizmente a esmagadora maioria das pessoas que contactámos acedeu escrever aqui: as recusas foram residuais e quase sempre justificadas. Mas isso, como já referi, fica para outro dia. Agora é a vez de anunciar a nossa última convidada - a Cláudia Köver. Uma blogger neste momento sem blogue, o que é uma forma original de encerrar esta série que já nos deixa saudades. Mas julgo que ela não ficará sem blogue por muito tempo.

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Convidada: ALDA TELLES

por Pedro Correia, em 02.06.11

 

 Os heróis da retirada

 

Cualquier destino, por largo y complicado que sea, consta en realidad de un solo momento: el momento en el que el hombre sabe para siempre quien es. Jorge Luis Borges

 

 “Não há porque não está na moda, porque na Europa não se tolera, também não há forças militares para isso - provavelmente não estariam para se maçar e meterem-se num sarilho muito grande,  mas eu temo que se cami… eu temeria que se caminhasse para uma situação dessas se houvesse forças para isso. Porque a sociedade portuguesa está muito muito descontente”

Medina Carreira, em declarações à Antena 1, no dia 27 de Maio de 2011.

Esta ideia de um golpe de estado em Portugal tem sido sibilada, com pudor, nos últimos meses. No sentido “mediático-democrático” do termo - passe o oxímoro – assim tem sido entendida a campanha ad hominem contra a figura de  José Sócrates, repetida ad nauseam por políticos – de esquerda e de direita, comentadores e jornalistas. De tanto repetida, a “necessária eliminação de Sócrates” parece estar prestes a atingir a sua legitimação.

O expoente máximo do processo em curso foram estas declarações de Medina Carreira que, curiosamente, ou talvez não, pouco eco ou nenhum recolheram nos meandros dos blogues e dos analistas políticos. Na realidade, Medina Carreira disse aquilo que tem estado subliminarmente plasmado na maioria dos discursos políticos: se não sair a bem, terá de sair a mal. A qualquer preço. E esta é a definição básica de golpe de estado.

O único aparente anacronismo no desejo mal contido de Medina é a invocação da necessidade de forças militares para esse golpe. Quanto ao resto, está certo. E remeteu-me imediatamente para o interessante “Anatomia de um instante”, de Javier Cercas (D.Quixote, 2010), sobre o golpe militar de 23 de Fevereiro de 1981 no Congresso dos Deputados em Espanha.

Guinada no leme, golpe cirúrgico, mudança de rumo: era esta a temível terminologia que desde o Verão de 1980 impregnava as conversas dos corredores do Congresso, os jantares, os almoços e os debates políticos e os artigos de imprensa na pequena Madrid do poder. Essas expressões eram simples eufemismos ou, melhor dizendo, conceitos vazios, que cada qual preenchia consoante o seu interesse e que, além das ressonâncias golpistas que evocavam, tinham apenas um ponto comum: tanto para os franquistas como para os democratas, tanto para os extremistas de direita de Blas Piñar como para os socialistas de Felipe González e para muitos comunistas de Santiago Carrilho e muitos centristas do próprio Suárez, o único responsável daquela crise era Adolfo Suárez, e a primeira condição para acabar com a crise era tirá-lo do governo. (…) A partir do verão de 1980 políticos, empresários, dirigentes sindicais e eclesiásticos e jornalistas tinham exagerado até ao delírio a gravidade da situação, entretendo-se diariamente com soluções duvidosamente constitucionais que faziam vacilar o já de si vacilante governo, inventando atalhos extraparlamentares, ameaçando encravar a nova engrenagem institucional e criando uma embrulhada que constituía o carburante ideal do golpismo.”

Isto foi há precisamente 30 anos, numa Espanha ainda em processo de aprendizagem da democracia. Portugal, nessa altura, tinha curiosamente o seu processo consolidado e experienciava o seu curto VII Governo Constitucional, constituído pela coligação formada por PSD, CDS e PPM.

 

A tragédia grega é a nossa opera buffa

E enquanto a futilidade, a ambição de poder e a imaturidade grassam no país, focadas num arbusto, o nosso olhar entre o condescendente e o perplexo sobre a explosiva situação grega (“os gregos falharam” é a água que tentamos sacudir do capote) faz temer, pior que um golpe de estado, um harakiri.

Uma análise de Jorge Nascimento Rodrigues, jornalista e escritor com uma rara visão geo-estratégica de Portugal e do mundo, resume o que realmente se passa: “O que é que nos ensina a Grécia? Provisoriamente (como hipótese de trabalho) quatro  coisas: a) mesmo governos de maioria como é o do PASOK não seguram a situação; b) o modelo de plano de resgate está em falência acelerada (e por aqui ainda andam a discutir, naturalmente, o que o Poul e o BCE deixaram na versão A ou B já ecofinizada); c) a fadiga social (um eufemismo para falar do nível em que as sociedades aguentam processos de "austerização" quando não têm élan mobilizador para os suportar) acumula-se e um dia estoirará; d) como me dizia um amigo meu, se a estratégia da zona euro falhar, não "me admiraria de um dia destes ver estados falhados nas barbas da Europa".

Golpe de estado, golpes de estado, perfilam-se de facto na Europa. Por via da falência de um sistema financeiro global e de um insustentável  modelo de (des)governo europeu  que sobre ela se abateu. Portugal, país sui generis na sua visão trágico-cartoonizada do mundo e da sua própria condição, foca-se, como a Espanha democrática titubeante de 1981, num alvo fragilizado e meramente instrumental. Eventualmente, num musiliano “homem sem qualidades”.

No fim, ficará um instante, como aquele gesto de coragem absoluta de Suárez, a única pessoa que não obedeceu às ordens dos golpistas naquele 23 de Fevereiro e não se refugiou debaixo de um assento parlamentar (esperando talvez a morte). Um gesto eventualmente absurdo, ou “um gesto de redenção individual e talvez colectiva” como o caracterizou Cercas. Esse instante acontecerá às 20 horas do próximo dia 5 de Junho. O primeiro dia de mais um resto das nossas vidas.

 

Alda Telles

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 02.06.11

É com muito gosto que anuncio a chegada, mais daqui a pouco, da nossa convidada de hoje: a Alda Telles, do blogue Lugares Comuns.

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Convidado: JOSÉ REIS SANTOS

por Pedro Correia, em 01.06.11

 

Last mile

 

Entrámos na última semana de campanha eleitoral. E tudo está em disputa. PS e PSD, quais gatos siameses, não se largam. A contenda está ao rubro, com décimas a separarem os dois principais partidos para o desejado primeiro prémio.

Há um mês esta situação não se adivinhava. O PSD parecia a caminho de uma vitória certa; o que quer dizer que a campanha permitiu verificar que a muito anunciada ‘morte política’ de José Sócrates e do seu projecto foi, como tantas outras, prematuramente anunciada. Muito por culpa das ambiguidades públicas do PSD, é verdade, mas também porque de facto, e comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista. E os portugueses sabem disso.

Por outro lado, o PSD não conseguiu sustentar a vantagem adquirida na pior fase do consulado Sócrates, desperdiçou capital político com um conjunto de más decisões e arrisca-se hoje a perder as eleições justamente por não conseguir apresentar um Partido e um líder que dêem garantias de governação.

Os debates, que se poderiam julgar decisivos, acabaram por não o ser, antes pelo contrário ajudaram a adensar as dúvidas no eleitorado, até porque nenhum líder se destacou particularmente.

Temos assim, em expectativa, uma interessantíssima última semana de campanha eleitoral, momento em que PS e PSD terão de jogar as suas cartas finais e tentar descolar nas intenções de voto. E será interessante acompanhar o comportamento dos principais actores políticos e verificar que estratégias seguirão.

Mas, independentemente do que aconteça, é óbvio antecipar um sistema parlamentar de 2 + 1 + 2 (PS, PSD + CDS + PCP, BE), não sendo de esperar que algum partido a solo obtenha maioria no hemiciclo.  

E isso pode ser um problema, pois Cavaco afirmou, explicitamente, que deseja empossar um governo maioritário o que, caso o PS vença, o Presidente terá algumas dificuldades em conseguir.

O que acontecerá então? Sócrates já afirmou, naturalmente, que apresentará proposta de Governo caso ganhe. Passos diz que não o fará caso não ganhe as eleições. Portas que não se coligará com Sócrates. Jerónimo admite a coligação com o PS caso Sócrates rasgue o acordo com a troika (o que não é de todo expectável e seria uma loucura), e Louçã parece mais preocupado com procurar suster a previsível hemorragia eleitoral do Bloco que apresentar-se como possível parceiro governamental.

Parece-me assim evidente que Cavaco procurou condicionar esta campanha, usando de forma abusiva o seu cargo institucional, indirectamente passando a mensagem que só Passos poderá ser primeiro-ministro de um governo de apoio maioritário; o que será, julgo, uma das armas de campanha da malta da São Caetano à Lapa para esta última semana.

Infelizmente vivemos ainda, em Portugal, num caldo político que entende de forma esquizofrénica o nosso sistema eleitoral e constitucional. É que, em teoria, deveríamos estar confortáveis com coligações, mas na prática estas só acontecem à direita, o que é uma natural deturpação das intenções originais dos nossos ‘Pais Fundadores’.

Neste sistema, o PS encontra-se na posição mais difícil, pois sabe de antemão que não tem parceiros naturais de governo. Neste sentido, as palavras do Presidente só podem ser lidas de duas formas: ou Cavaco pretendeu apresentar o PSD como única possibilidade governativa, ou o Presidente procurou mandar um recado para dentro dos partidos da troika para estes não desconsiderarem quaisquer possibilidades coligatórias.

Se assumirmos a primeira leitura, estamos perante um inaceitável abuso de poder por parte do Presidente e uma chantagem inadmissível e intolerante.  Se, por outro lado, considerarmos a segunda hipótese, então tanto Passos como Portas têm de abandonar o discurso e as birras anti-Sócrates e afirmarem que respeitarão as decisões de 5 de Junho, mesmo que isso queira dizer aceitarem coligar-se com o PS. 

Em todo o caso, este é, para mim, o tema-chave à entrada da last mile da campanha, e um assunto que espero suficientemente esclarecido por parte de todos os actores políticos, Cavaco incluindo. Para mais, o país não está em condições para aturar caprichos ou teimosias de gente que deve saber assumir as responsabilidades do momento. E refiro-me a Passos Coelho e Paulo Portas, que devem assumir a responsabilidade de considerar que pode vir a ser necessário contar com o PS como parceiro governamental. 

Ao não o fazerem apenas se apresentam como actores de ‘política pequena’, sem dimensão ou sentido de Estado, preparados apenas para a pequena intriga e jogo de soundbite. O país, hoje, requer mais. Saibam os actores políticos nacionais, então, dar-nos mais. Surpreendam-nos por uma vez. E refiro-me a todos. Porque não estamos em tempos de soluções milagrosas ou individuais.

 

José Reis Santos

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 01.06.11

Recebemos daqui a pouco, com a devida passadeira vermelha, o José Reis Santos. Dos blogues Política de Vinil e Blogue de Esquerda. A passadeira tem hoje um duplo simbolismo: faz precisamente um ano que iniciámos esta série de convites aos colegas da blogosfera para virem escrever connosco.

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.05.11

Vem hoje escrever connosco o José Carlos Pereira, do blogue Incursões, a quem dou desde já as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 30.05.11

Vem hoje escrever connosco o Luís de Aguiar Fernandes. Do blogue Manifestação Espontânea.

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Convidado: CARLOS CARVALHO

por Pedro Correia, em 27.05.11

 

  Triunvirato

 

– “Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.

 

– “Triunvirato não, pá, que me lembras os romanos, com aquelas togas e tudo” – respondo, por sobre a música, ao mesmo tempo que procurava imaginar a efígie de Poul Thomsen com uma daquelas pencas à Júlio César plantadas no meio da cara. Não, ainda não estou assim tão bêbado.

 

– “Triunvirato? Estão a falar do quê?” – intromete-se o Pedro, que tem este hábito ligeiramente irritante de entrar nas conversas a meio – “Ah, de economia. Que parvoíce a minha. Como ouvi falar em romanos pensei que estivessem a falar daquele período imediatamente antes do fim da República.”

 

Caramba, será que o Paulo Portas tem razão?

 

Carlos Carvalho

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 27.05.11

A passadeira do DELITO estende-se hoje para receber condignamente o Carlos Carvalho. Do blogue César & Dama.

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Convidada: MARGARIDA CORRÊA AGUIAR

por Pedro Correia, em 26.05.11

 

Humanidade e sensibilidade social precisam-se...

 

 “O Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu desde Janeiro o pagamento de complementos de reforma a viúvas de ex-embaixadores e antigos funcionários. Em resultado, cerca de vinte ex-embaixatrizes — a quem era reconhecido um trabalho de utilidade pública — ficaram reduzidas a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros.

 “MNE suspende pensão a viúvas de embaixadores” (Expresso, 16.4.2011)

 

Miserável, é a única palavra que me vem ao espírito para condenar a atitude tomada pelos meritíssimos juízes do Tribunal de Contas na extinção das pobres pensões de sobrevivência das viúvas dos nossos embaixadores, aquelas que ainda teimam em viver com idades na casa dos 90-100 anos. E miserável é, também, o silêncio do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

 

Sim, a notícia é verdadeira. Só agora escrevo este apontamento pois tive o cuidado de indagar para saber de onde partira. E partiu de um grupo de juízes do Tribunal de Contas que avaliam os dinheiros gastos pelo Estado, bem ou mal gastos, no caso concreto, parece que mal gastos, um desperdício inaceitável em tempos de crise.    

Estas senhoras pensionistas eram afinal “falsas pensionistas”, o que simplesmente significa que estavam a usurpar o que não lhes era devido, portanto a lesar o Estado. Já só eram 20 porque tinham vindo, entretanto, a desaparecer de forma natural. Começaram por ficar sem nada, quando enviuvaram, porque nada estava previsto e assim viveram durante muitos anos, até surgir alguém que achou estar-se perante uma situação indecorosa e aviltante, tanto para elas como para o país. O Ministro dos Negócios Estrangeiros à época interessou-se pela situação e instituiu um fundo destinado às futuras pensões das viúvas, fundo este alimentado por emolumentos dos nossos consulados. A ideia foi aceite e fez-se justiça, as viúvas foram compensadas, tarde e a más horas, se bem que parcamente, e a situação desonrosa e degradante de certo modo branqueada.

Mas Portugal está em crise e o dinheiro há que o ir buscar onde quer que exista, e ali, naquele fundo, estavam 10.000 euros mensais, para repartir por 20 viúvas. Numa “acção de controlo” levada a cabo pelo Tribunal de Contas eis que o dito fundo foi descoberto; um fundo “desprotegido”, porquanto nunca ninguém se lembrara de o legalizar. A acção foi rápida e eficiente como raramente sucede na recuperação de dinheiros mal parados. Nem uma palavra do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Moral da história: faça-a quem quiser! Na certeza que este miserabilismo a que já nos habituámos parece não ter fim e faz vítimas. Neste caso, são as viúvas dos embaixadores cujo crime cometido foi viverem no Estado Novo, Estado esse que, aliás, nada lhes deixou; viúvas ignoradas por um Novo Estado - que se diz Social e que é o nosso - e agora reduzidas, segundo reza a notícia do Expresso “...a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros”.

A situação é violenta e degradante. E ninguém se interessou por publicamente a denunciar. Porquê é a pergunta que se impõe. Porque elas, as viúvas, já são apenas 20 e o que lhes resta de vida é já pouco. Falar sobre isto para quê? O silêncio e o esquecimento são a melhor forma de tratar assuntos como estes. Até porque entre nós tudo não passará de um mero fait divers, como tantos outros, inconsequentes e rapidamente esquecidos.  

 

Margarida Corrêa de Aguiar

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 26.05.11

Tenho o maior gosto em anunciar a chegada iminente da nossa convidada de hoje: Margarida Corrêa de Aguiar, do blogue Quarta República.

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Convidado: EGA

por Pedro Correia, em 25.05.11

 

Os Passos Perdidos

 

Depois de uma década de governação perdida, que culminou na iminente bancarrota do Estado e na necessidade de o país ser resgatado pelas instâncias financeiras internacionais, o povo português, chamado a pronunciar-se em julgamento político soberano, foi a eleições no dia 5 de Junho de 2011. Eivado do sentido de responsabilidade que lhe é sobejamente reconhecido, no dia do sufrágio o povo acorreu em massa às praias e esplanadas de todo o país, face ao belíssimo dia de sol e calor que lhe fora ofertado.

Das eleições resultou um empate entre PSD e PS. Em consequência de uma votação histórica do CDS, constituiu-se um governo de coligação entre o PSD e o CDS, com o apoio parlamentar maioritário dos respectivos grupos parlamentares.

 

 

Após um período de cerca de 12 meses de governação PSD/CDS, marcado por vários incidentes entre o Ministro das Finanças do PSD e alguns ministros do CDS, e por grande contestação pública, devido às medidas de austeridade entretanto aplicadas e às pequenas reformas feitas, começaram a surgir na imprensa diversas e graves acusações ao Primeiro-Ministro, nomeadamente o de ter sido apanhado a beber uma caipirinha XXL no Bairro Alto num sábado à noite, de ter afirmado publicamente que apreciava carne mal passada e desprezava a comida vegetariana, quase tanto como desprezava os Abba, e bem como de não ter pago uma multa de estacionamento. O episódio mais grave aconteceu quando foi apanhado pelas câmaras de televisão a obsequiar a chanceler alemã com um objecto de cerâmica das Caldas, sendo imediatamente acusado de ter rebaixado e submetido o país à Alemanha. Entretanto, na rua, o povo manifestava-se em massa contra as políticas de direita levadas a cabo pelo governo de coligação. Grupos de anarquistas e fãs dos Abba, elementos do PNR e dos movimentos contra os transgénicos e contra os bifes mal passados começaram a juntar-se a tais manifestações, expressando a sua ira através da queima de pneus e lixo na via pública, da destruição de material público e privado, incluindo ainda a troca de mimos com a polícia, tudo à boa maneira magrebina.

Além disso, os constantes atritos com muitos dos dirigentes dos organismos públicos na directa dependência do Governo (direcções gerais, institutos e fundações públicas, etc.), fruto das extensas nomeações de gente da confiança do PS nos anos anteriores, e que faziam uma oposição camuflada à política executiva do governo, levaram à quase inoperância da administração pública portuguesa.

Com toda esta instabilidade, a gota de água chegou com a demissão do Presidente da Assembleia da República, em desacordo com a política seguida pelo Governo, e da posterior falta de entendimento parlamentar para a eleição de novo Presidente da Assembleia. Em face de tal situação política, e perante o cenário existente de grande contestação política e social, o Presidente da República decidiu demitir o governo e dissolver a Assembleia República, marcando novas eleições legislativas.

Nessas eleições apresentou-se a sufrágio José Sócrates, pelo PS, imbuído de um espírito messiânico nunca antes visto, anunciando-se como portador de uma solução de confiança e optimismo para o país, e visando o fim imediato das políticas de direita que estavam a matar o estado social, esventrando a segurança social, asfixiando a magnífica e exemplar escola pública portuguesa, e destruindo o eficiente serviço nacional de saúde.

Com este discurso, e ajudado pela forte queda do PSD (alvo de divisões intestinas, travava uma guerra interna entre as correntes socialistas e liberais, pontuando ainda nas suas fileiras não poucos que nutriam uma admiração secreta pelo D. Sebastião que ora surgira), José Sócrates conseguiu obter duas maiorias absolutas, uma logo em 2012, outra no final de 2016.

Durante os primeiros anos de governação, o governo, carregado de esperança e optimismo, reintroduziu um plano maciço de obras públicas, construindo-se em tempo recorde uma nova auto-estrada Lisboa-Porto, o novo Aeroporto de Lisboa, o TGV Madrid-Lisboa,  um porto de águas profundas na Nazaré, e um gigantesco novo centro de congressos  em Lisboa (o maior do mundo para dizer a verdade).

Para combater o desemprego estabeleceu-se uma política de contratação pública, assente no princípio de que para um posto de trabalho na função pública, dois trabalhadores, um para trabalhar e outro para dar apoio moral, de modo a manter-se sempre em cima os valores de confiança e optimismo.

Novos programas de formação e ensino foram criados: a “licenciatura na hora”; o “mestrex”; e o “doutoramento electrónico”. Em pouco mais de cinco anos Portugal ultrapassou o Japão em número de licenciados e doutorados por habitante. No entanto, continuava a ser um dos países com maior taxa de analfabetismo no mundo.

Na energia, prosseguiu-se a forte aposta nas eólicas, tornando-se Portugal na maior potência eólica do mundo, tendo para isso renunciando à sua bela paisagem e natureza selvagem. Devido aos preços exorbitantes da electricidade (dos mais elevados do mundo), começou a ressurgir em Portugal a indústria de velas e candeias de azeite. Podíamos não produzir automóveis, aviões, comboios, nem barcos (os poucos que fizemos ninguém os quis comprar), mas pelo menos produzíamos eólicas com fartura (que entretanto deixaríamos de exportar, uma vez que a China começou a produzir unidades mais baratas).

Entrementes, com a indústria arruinada e sem nada produzir de valor, o país acabou por perder os únicos monopólios que ainda detinha no mundo: o da produção de cortiça e o da produção de palitos. Isto, fruto, em grande parte, da extinção da floresta autóctone em consequência dos sucessivos incêndios e da sua substituição por culturas arborícolas de rápido crescimento.

Em 2017 foi abandonada a linha de TGV Lisboa-Madrid, face à descida do preço do petróleo e ao subsequente abaixamento das tarifas áreas, visto que a ferrovia – com bilhetes cinco vezes mais caros e uma viagem cinco vezes mais demorada – não conseguia concorrer com o transporte aéreo. Nesse sentido foi decidido pelo Governo construir um novo aeroporto em Lisboa, localizado nos antigos terrenos do aeroporto da Portela (que tiveram de ser expropriados por milhões), entretanto desactivado e transformado em urbanizações de luxo, ficando a capital a funcionar com dois aeroportos, o da Ota para voos low cost e charters, e o da Nova Portela para os voos regulares.

 

 

Passados alguns anos, e já depois do segundo resgate financeiro da década, ocorrido em 2016, em 2019 apenas a China se disponibilizou para financiar o Estado Português. Porém, como garantias, o Estado deu de penhor toda a banca portuguesa, pública e privada, a estátua do Cristiano Ronaldo em ouro entretanto erigida junto ao Cristo Rei, e ficou obrigado, dali em diante, a importar pelos menos 80% de todos os bens e serviços que importava a partir da China.

Um triunvirato composto por elementos do Partido Comunista Chinês, da chancelaria alemã e do FMI passou, desde essa altura, a governar de facto o país. A União Europeia há muito se tornara uma mera organização simbólica de confraternização; a França ainda estava ocupada com bombardeamentos cirúrgicos na Líbia, alimentando o velho sonho de Napoleão de dominar o mar Mediterrâneo; e o Reino Unido deixara de participar nas reuniões das instituições europeias, queixando-se da insuportável sobranceria alemã.

Sócrates manteve um governo fantoche, constituído por 34 ministros e 392 secretários de estado, tendo direito às regalias e pompas todas que tivera até então.  Dirigia-se ao povo, em directo dos três canais, todas as semanas aos domingos à noite, propagando confiança e optimismo. Era ainda responsável pela organização do congresso anual do PS, que juntava cerca de um milhão de pessoas durante 15 dias seguidos, com espectáculos do Tony Carreira e do Quim Barreiros, uma meia-maratona “José Sócrates”, jogos de computador em rede LAN com os Magalhães (num dos congressos foi, aliás, batido o recorde do Guinness de maior número de portáteis ligados ao mesmo tempo entre si, durante as qualificações para o jogo de estratégia “Socrates Politics Manager”), e incontáveis barracas a servir de borla panados de tofu e cerveja sem álcool.

 

Em finais de 2020, José Sócrates, aparecendo de lágrimas nos olhos em directo da Sala dos Passos Perdidos na Assembleia da República, comunicou ao país que, em sacrifício próprio, dotado do espírito democrático que sempre lhe foi reconhecido, e de modo a operar-se uma renovação política no país, não se ira candidatar ao cargo de Primeiro- Ministro nas próximas eleições legislativas.

 

Nota: agora que estamos quase a meio do ano 2021, e as eleições se aproximam, achei por bem fazer esta breve síntese, muito incompleta e imperfeita, da vida política portuguesa dos últimos dez anos.

 

Ega

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 25.05.11

Vem hoje escrever connosco o nosso amigo Ega. Do blogue Metafísica do Esquecimento.

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Convidado: CARLOS MANUEL CASTRO

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

O grande terramoto político

 

Apesar dos momentos actuais conduzirem a nossa atenção para a importante eleição legislativa nacional de 5 de Junho, a detenção de Dominique Strauss-Kahn (DSK) em Nova Iorque, com um profundo impacto na França e repercussão em todo o mundo, é merecedora de atenção, pois está muito mais em jogo do que podemos pensar, tanto para a França, como para Portugal, como para a UE no seu todo.

Não vou pronunciar-me acerca do caso, mas do que esta saída da corrida presidencial de DSK pode provocar em França e como isso pode ser perigoso para todos nós, europeus.

A imprensa gaulesa, antes de noticiar a detenção do Director do FMI, dava DSK como o grande favorito das presidenciais francesas de Maio de 2012. Desde há meses que o antigo Ministro de Mitterrand e Jospin, sem ter anunciado a candidatura presidencial, batia aos pontos os seus adversários, tanto internamente, no PS francês, como no confronto com a direita. A sua caminhada parecia imbatível. E eram vários os pontos positivos de DSK: além de ser o francês neste momento com melhor noção de que mundo vivemos e de quais as melhores respostas a dar, decorrente das suas funções no FMI, DSK é um dos políticos mais experientes e que granjeava apoios tanto à esquerda como à direita.

Qual castelo de cartas, toda esta imagem, que também conta(va) com alguns episódios pessoais menos abonatórios, tomba num sopro.

Os franceses são abalados por este terramoto político e as cartas voltam a ser baralhadas: tudo está em aberto nas presidenciais de 2012. E é aqui que o assunto começa a ser muito delicado.

 

 

Nos últimos anos, a política francesa tem vindo a transformar-se num campo de batalha de egos e traições, e todo este cenário só tem beneficiado a candidatura da extrema-direita, de Marine Le Pen, que já surge como a segunda candidata mais creditada na corrida ao Eliseu, quase sempre à frente de Sarkozy e atrás de DSK.

Quanto ao actual Presidente francês, uma das maiores desilusões políticas da actualidade, por ter surgido, em 2007, como o novo rosto da França pujante, todo o seu mandato fica marcado pelo incumprimento do que prometera nas últimas eleições presidenciais. Pouco mudou e nada evoluiu.

Não bastasse o mandato falhado, no seu campo político surgem potenciais candidaturas que apenas se movem contra a sua candidatura e triunfam com a derrota de Sarkozy: Villepin, o seu arqui-inimigo e ex-Primeiro-Ministro de Jacques Chirac; e, Jean-Louis Borloo, ex-Ministro de Sarkozy e líder da formação radical, que acaba de sair do UMP. São sempre uns votos, talvez os suficientes para prejudicar Sarkozy de não alcançar a segunda volta.

Não bastasse a fragmentação da direita francesa, a esquerda, com a saída de DSK de cena (à qual, aliás, ainda nem tinha subido), apresenta candidaturas que traduzem a divisão que tem marcado o PSF nos últimos anos: François Hollande e, muito possivelmente, Ségolène Royal e Martine Aubry.

É, pois, com todo este turbilhão, e passando pelos pingos da chuva, que aparece a “imaculada” Marine Le Pen.

A filha do carismático líder da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, tem vindo a subir nas sondagens com grande sustentabilidade. A adaptação dos princípios do pai ao momento presente, mas com uma imagem mais fresca e moderna, trabalhada de modo a que a comunicação das ideias, por mais incongruentes que sejam, passe e conquiste apoios.

O caminho que Marine tem feito, de acordo com os estudos de opinião, tem sido muito favorável à Frente Nacional.

Com o seu engenho de propalar a moral e bons costumes nacionais, tendo nos estrangeiros, no projecto europeu e na globalização todos os males de França, a extrema-direita faz com que Marine surja como o rosto mais credível, face às desavenças da esquerda e direita democráticas, mais enredadas nas questões internas do que nos problemas do país.

 

 

O que hoje parece algo sem grande impacto, rapidamente pode transformar-se numa hipótese muito preocupante. Um breve exercício de memória lembrar-nos-á o que se passou em 2002, quando a França e a Europa acordaram, em choque, no dia a seguir à primeira volta das presidenciais, com Jean-Marie Le Pen a passar à segunda volta e a defrontar Chirac. Depois de em 2000 a extrema-direita ter chegado ao poder na Áustria. Pois é muito provável que Marine Le Pen chegue à segunda volta das presidenciais de 2012 e já esteve mais longe a certeza de que a sua candidatura podia perder.

E é fácil compreender como os ventos sopram a favor do extremismo. O actual descrédito dos candidatos dos partidos-referência, a detenção de DSK é mais uma contribuição, e a desilusão de parte significativa do eleitorado, que se vai rendendo, em França como noutros países europeus, à extrema-direita, tornam o nosso futuro mais inseguro do que incerto.

A retirada da França do euro e o reerguer das fronteiras na UE, entre outras medidas que Marine Le Pen apregoa, e muitos franceses apreciam, não mais seria que o descalabro europeu, a sentir-se, em primeiro lugar, em países como o nosso. 

Pensava eu, até há poucos dias, que DSK seria a pessoa que iria resgatar a França e a UE do actual marasmo. Vai-se esta grande esperança, oxalá outra possa surgir no horizonte.

Dentro de um ano verifique-se este escrito, desejando estar completamente errado no que ao sucesso da extrema-direita diz respeito.

 

Carlos Manuel Castro

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 24.05.11

Dou as boas-vindas ao nosso convidado de hoje: é o Carlos Manuel Castro, do blogue Câmara de Comuns.

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Convidada: HELENA FERNANDES

por Pedro Correia, em 23.05.11

 

Amor postal

 

As idas aos sótãos têm sempre um efeito nostálgico. Uma saudade bastante empoeirada e menos romântica do que nos filmes, ainda assim. As teias são reais e nunca se sabe quando uma aranha simpática nos salta para cima, em jeito de nos desejar as boas-vindas ao seu lar.

De toda a tralha que habita no sótão, entre brinquedos, bugigangas inúteis e as pilhas de dossiês com fotocópias e rabiscos tirados nas aulas, que provavelmente hoje não perceberei, há uma caixinha especial que, volta e meia, gosto de visitar - a caixa das cartas.

É uma pena que os mais novos não partilhem dessa experiência. Hoje é tudo mais rápido e mais simples, mais automático. Eles têm a tecnologia, mas não têm a emoção.

Lembro-me bem do papel com cheiro e desenhos românticos. Para aqueles mais sérios havia o papel de carta normal (ainda existem blocos de papel de carta?) e as canetas cuja tinta exalava um aroma amendoado.

Receber e escrever cartas às amigas era sempre uma grande emoção. Sempre que iam de férias, sabia que ia receber uma idiotice em forma de postal. Então, os postais da adolescência eram o máximo! Parecia que elas não sabiam que o carteiro os podia ler.

Mas as cartas mais divertidas eram sem dúvida as cartas de amor. Escrevi várias, nunca mandei nenhuma. Sempre fui orgulhosa demais. Ainda assim, empenhava toda a minha criatividade no desenho de corações e florezinhas, como se isso compensasse o facto de sempre ter sido péssima a expressar as minhas emoções.

 

 

Bom, bom mesmo, era receber uma carta de amor. Oh, se era! Mandavam-nas por amigas, ou arranjavam maneira de elas aparecerem num dos nossos livros e depois ficavam ao longe, meio escondidos, meio à espreita, a observarem a nossa reacção; e como se o rubor na face não fosse o suficiente para os denunciar, ainda eram vítimas das macacadas dos amigos. Éramos uns tolos alegres. Que saudades!

Infelizmente, para os meus pretendentes, e felizmente para mim, porque ainda hoje me rio à custa deles, o seu Português era sempre péssimo e a imaginação também não abonava a seu favor. A maior parte deles ia directo ao assunto. O que conta é a intenção, não é? Mas um, só um, disse que eu era a musa dele, a deusa de não-sei-o-quê e o não-sei-quantos do pôr-do-sol. Por isso, ainda hoje me lembro dele. É uma pena que a minha repulsa pelos erros tenha sido mais forte do que aqueles lindos olhos azuis.

Com o tempo, perdeu-se o hábito. Foi substituído por palavras mal escritas e símbolos idiotas em mensagens de texto, porque escrever ”amo-te” dá mais trabalho do que “<3”. Foi-se a escrita, foi-se o romantismo. Ficaram os corações matemáticos que insinuam que o amor é melhor a três. Valem-nos as recordações que ficaram no papel, que nenhum curto-circuito, ou chip, ou atalho de teclas pode eliminar, só mesmo o tempo.

Foto: Ana Silva

 Helena Fernandes

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 23.05.11

A Helena Fernandes, do blogue A Conspirata, é a nossa convidada de hoje. Aposto que vão gostar do que ela escreve. Eu já li - e gostei.

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Convidado: MIGUEL SERRAS PEREIRA

por Pedro Correia, em 21.05.11

 

Um importante alerta de Fidel sobre a eventual intervenção da NATO contra o Governo de Madrid

 

Noticiava o Público.es de 25.05.2011:

 

El expresidente cubano, Fidel Castro, califica de "combativo pueblo" a los españoles por las manifestaciones de estos días.

 

El expresidente cubano, Fidel Castro, se ha referido (…) a las manifestaciones que en los últimos días han convocado a miles de personas en las principales ciudades españolas y se ha preguntado si la respuesta a las mismas serán los bombardeos de la OTAN, como ha ocurrido en Libia.

 



"¿Qué pasará en España donde las masas protestan en las ciudades principales del país porque hasta el 40% de los jóvenes están desempleados, para citar solo una de las causas de las manifetaciones de ese combativo pueblo?", pregunta.

 



"¿Es que acaso van a iniciarse los bombardeos a ese país de la OTAN?", añade, en una aparente referencia a la operación que la Alianza está llevando a cabo sobre Libia contra el régimen de Muamar Gadafi por la represión que esté llevó a cabo de las protestas en su contra.

 

Resta-nos esperar que —  talvez inspirado embora pelo temor de ver o povo cubano retomar as suas qualidades combativas contra a ditadura oligárquica que governa a Ilha e o seu recente PEC — Fidel tenha razão,  apesar de tudo, e que vejamos a NATO, assumindo perante o 15M que abala o Reino de Espanha a mesma atitude que adoptou perante o governo de Kadhafi,  apoiar os manifestantes, fazer seu o Manifesto dos Insubmissos, dissuadir pela força o governo de Madrid no caso de este optar pela repressão policial e/ou militar, reclamar a abdicação de Juan Carlos,  e, sobretudo, concertar-se para o efeito com o comando, e colocar-se sob a direcção, da auto-organização dos cidadãos que reclamam a democracia participativa.

 

Miguel Serras Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 21.05.11

Tenho o prazer de anunciar que hoje vem escrever connosco o Miguel Serras Pereira. Do blogue Vias de Facto.

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Convidado: TIAGO MOTA SARAIVA

por Pedro Correia, em 20.05.11

 

Em política não há decisões inevitáveis

 

O calendário marcava o ano de 1985 e Portugal entrava para a Comunidade Económica Europeia (CEE). Com a adesão de Espanha, dizia-se que não podíamos ficar de fora. Tínhamos que “entrar na Europa”, e quem defendesse o fortalecimento dos laços económico-culturais com os países lusófonos era tido como um conservador que se opunha ao progresso do país.

Com a adesão foi chegando muito dinheiro. Investiu-se na construção estimulando um mercado habitacional a partir do crédito bancário, no desenvolvimento infra-estrutural do país a partir de auto-estradas e no financiamento de grandes superfícies dedicadas ao consumo. A partir destas três áreas de negócio, que tantas vezes se cruzaram, constituíram-se as principais fortunas dos mais ricos de Portugal.

Como moeda de troca, os países que iam patrocinando este desenvolvimento foram exigindo medidas que os favorecessem a médio prazo. Desta forma foi sendo financiado o abate da nossa frota pesqueira ou as destrutivas plantações de eucalipto e fomos sendo coagidos a subscrever as sucessivas políticas agrícolas que nos prejudicavam.

A partir de 1999, com a entrada em vigor do Euro e das políticas de redução do défice, Portugal afundou-se em sucessivas crises. O aumento das importações de bens de primeira necessidade, o gorar das expectativas da equiparação do valor dos salários com outros países da Europa ao mesmo tempo que o valor dos bens de consumo iam disparando ou a impossibilidade de accionar medidas financeiras como a desvalorização da moeda para facilitar as exportações, fizeram com que Portugal ficasse economicamente dependente de terceiros e na situação que hoje bem conhecemos.

 

Todos os que, nos últimos anos, combateram estas opções políticas foram sendo ostracizados e ridicularizados pelo furor mediático que louva, ano após ano, o brilhantismo da nova paixão de Portas, a noção de progresso do não-político Cavaco ou a resiliência de Sócrates. O que é ainda mais extraordinário é que, depois de 35 anos de políticas que nos conduziram ao precipício histórico em que vivemos, chegamos a umas eleições em que os de sempre se preparam para dividir novamente o pote, construindo o seu discurso em torno de três afirmações que não precisam de demonstrar:

1. A rejeição do pedido de resgate levar-nos-ia a uma situação de bancarrota;

2. A renegociação da dívida implicaria o agravamento da crise;

3. A análise à dívida pública para que dela se purgue a dívida privada é uma ideia que não merece ser discutida.

Quanto mais tempo deixarmos que a acção política se resuma a uma gestão de inevitabilidades, mais estaremos a contribuir para que o país se afunde. Para se perceber o estado em que ficará o país com um futuro governo PS/PSD/CDS não é preciso ir muito longe. Basta olhar para o estado da Grécia ou da Irlanda, em que as políticas têm sido muito semelhantes. Não é difícil de prever que, com a tríade do costume, dentro de um ano, estaremos a renegociar a dívida e o resgate e serão anunciados mais cortes e impostos.

 

Portugal precisa de sobressaltar a Europa, tal como fez o Chipre - com excelentes resultados para o seu povo - e como tem feito a Islândia. Nas eleições que se aproximam, votar à esquerda é decidir por quem pode ameaçar e combater as tentativas de ingerência externa. Votar à esquerda é dar força ao combate contra a acção especulativa sobre a dívida soberana e ter a certeza que a dívida pública não será engordada por aventuras e prejuízos de privados. Votar à esquerda é ter a certeza que se está a contribuir para que os cidadãos sejam colocados no centro das decisões políticas fundamentais e que processos como o Tratado de Lisboa ou a moeda única serão, sempre, objecto de referendo. Votar à esquerda é rasgar uma luz no fundo do túnel de uma Europa de políticas medíocres feita por políticos-papagaios de interesses instalados.


Tiago Mota Saraiva

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 20.05.11

Hoje, quinto dia útil da semana, recebemos no DELITO o Tiago Mota Saraiva. Do blogue 5 Dias.

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Convidado: RUI CASTRO

por Pedro Correia, em 19.05.11

 

Promessas e realidades

 

“A am in politics because of the conflict between good and evil, and I believe that in the end good will triumph" (Margaret Thatcher)

 

Fui, desde o início, muito crítico relativamente a Sócrates e ao seu Governo. Reporto-me, naturalmente, a 2005, aquando da sua primeira eleição.

Muitos, porventura escaldados com a penosa experiência AD (Durão Barroso/Paulo Portas), que terminou com a fuga de Durão para Bruxelas num momento em que o país clamava por decisões difíceis e reformas estruturais, deram o benefício da dúvida a quem apareceu com uma imagem austera e convicções firmes.

Sócrates, para os mais ingénuos, prometia: sobranceiro na forma como tratava a comunicação social e implacável a afrontar o corporativismo (farmácias, classe médica, professores, etc.). Não foram poucos os que nele viram a coragem necessária para equiparar Portugal aos parceiros europeus.

Na oposição, descontando os partidos – PCP e BE – que insistem em estar fora do sistema e, por conseguinte, da solução, perante um Governo forte e com uma comunicação profissional e eficaz, constatámos a incapacidade do PSD em encontrar um líder à altura de Sócrates, susceptível de convencer os portugueses do logro que o primeiro-ministro já então corporizava. O CDS, por outro lado, estava mais preocupado em reabilitar Portas, após a reconquista de poder ocorrida em 2007.

 

À medida que nos fomos aproximando do termo da legislatura, o cenário, porém, alterou-se radicalmente. No país real, tornaram-se visíveis os sinais da crise, apesar das tentativas do Governo em esconder os seus efeitos. Os números teimam em contrariar o optimismo dos ministros. O desemprego aumenta, a Justiça definha, o investimento estrangeiro decresce e os mercados começam a desconfiar.

Ao mesmo tempo, os escândalos em redor de José Sócrates avolumavam-se, nunca tendo este conseguido esclarecer cabalmente as suspeitas que sobre si recaíram em casos como os do Freeport, Face Oculta, licenciatura, projectos da Câmara da Guarda, falsificação de um documento na AR, compra da casa na Rua Castilho, etc.

Na oposição, as coisas começavam a compor-se, com um CDS mais forte e um PSD com uma líder que assumia a imagem de seriedade e credibilidade que o eleitorado parecia exigir. O clima era propício a uma derrota nas urnas e foi assim que entrámos na campanha para as legislativas de 2009.

Ao contrário das expectativas, no entanto, rapidamente se percebeu que as coisas nem sempre são o que parecem e, mercê de circunstâncias muito especiais, a verdade é que Sócrates demonstrou que estava ainda longe da sua morte política.

Perante uma comunicação socialista impecável e a falta de jeito e surpreendente amadorismo do PSD, a imagem de Ferreira Leite rapidamente se degrada, incapaz de convencer os portugueses da bondade do seu discurso.

O PS, por seu turno, clama de peito aberto que a crise já lá vai e, em final de mandato, o Governo aumenta pensões e funcionários públicos, avançando a todo o vapor com as grandes obras e promessas de um futuro risonho para todos.

Não foi, assim, com surpresa que Sócrates, apesar de tudo, voltou a ganhar as eleições, apesar de não conseguir reeditar uma nova maioria absoluta.

 

 

Poucas semanas após as eleições, percebe-se a farsa montada pelo PS: os números avançados pela máquina socialista estavam longe de corresponder à realidade. O país começa, então, a ser confrontado com a dura realidade das contas públicas e da profunda crise em que se encontra.

Como de costume, o Governo assobia para o ar e responsabiliza a crise internacional e a recusa da oposição em negociar pelo estado a que o país chegou. O que se passou, então, até hoje está ainda bem fresco na memória de todos.

O país, entretanto, entrou em bancarrota, está em recessão, o desemprego aumentou exponencialmente e, incapaz de solver as suas dívidas, Portugal teve que recorrer à ajuda externa.

Vamos, por isso, viver nos próximos anos reféns de quem aceitou emprestar-nos dinheiro, com a nossa soberania suspensa e o futuro dos nossos filhos sem passar de uma incógnita. Tudo por causa de uma governação incompetente, mentirosa e desligada daquilo que era a realidade do país.

Perante este cenário dantesco, o primeiro-ministro atreveu-se recentemente, a balbuciar duas frases que revelam a desonestidade com que sempre encarou os destinatários dos seus discursos e das suas políticas:

 

"Pergunto-me como foi possível fazerem isto ao país"

e

"Eu tenho orgulho naquilo que fizemos por este país" 

 

Estas duas frases são demonstrativas daquilo que Paulo Portas disse no debate da semana passada com José Sócrates: “O primeiro-ministro não vive neste mundo.” Eu diria mais: José Sócrates toma-nos a todos por parvos.

Considero, por isso, que os portugueses têm uma oportunidade única, no próximo dia 5 de Junho, para mostrarem aos senhores que nos governam que não vale tudo.

Tenho para mim que o CDS pode – e deve – assumir a alternativa de que o país necessita. Quanto aos demais, seja no CDS seja noutro partido qualquer, importa é que não fiquem em casa. Para evitar que a História se repita. Não se esqueçam que as sequelas são sempre piores do que o original.

 

Rui Castro

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 19.05.11

Hoje vem escrever connosco o Rui Castro. Dos blogues Rua Direita e Blogue de Direita.

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Convidado: SAMUEL FILIPE

por Pedro Correia, em 18.05.11

 

Perder a memória

 

Acertámos o encontro para o final da tarde. Enquanto caminhámos nas ruas do centro da cidade José J. manteve-se no mais escrupuloso silêncio. Dirigimo-nos à zona ribeirinha, onde podíamos conversar tranquilamente passeando entre os contentores e o rio. Era o melhor amigo de José J. e ele queria deixar-me ao corrente dos planos que tinha para os anos vindouros, os últimos anos de vida, aqueles em que já não era indispensável trabalhar. O projecto de fundo pareceu-me desde logo assombroso. Tencionava perder a memória.

 

De imediato, e perante a minha incredulidade, acrescentou que estava na plena posse das suas faculdades e como eu próprio podia atestar não tinha razões nenhumas para sofrer depressões ou inquietações. Não pretendia esquecer determinadas épocas do passado nem necessitava anular certos episódios menos felizes. Procurava apagar directamente a memória, qualquer que ela fosse. A de ontem, do mês passado, de há vinte anos. Baralhar o continuum temporal. Obscurecer progressivamente as recordações, misturando-as e adensando-as para na fase seguinte decompô-las em substratos. Condensar ínfimas partes, alcançando uma mistura pictórica, tal como pode ser apreciada nas pinturas de Gustav Klimt, embora alterando a percepção corpórea. Estariam delimitados o tronco e os membros, funcionais, perceptíveis através de linhas suaves, encimados por uma cabeça difusa, alargada e alongada, composta por um número ilimitado de partículas elementares. O método para alcançar o objectivo estava traçado. Dependia de um conjunto de exercícios mentais formulados por um investigador alemão em neuropsiquiatria a quem se ofereceu como sujeito experimental. Para que se produzissem alterações corticais os exercícios deviam ser rigorosamente adoptados e colocados em prática diariamente ao longo de dois anos. Pretendia-se reduzir ao mínimo quaisquer efeitos secundários e por isso estavam completamente fora de questão os electrochoques ou a ingestão de fármacos. Esse era um procedimento que recusava. Não queria perder a capacidade de se emocionar. Queria inclusivamente melhorá-la, provê-la de crescente espontaneidade. Queria chorar e rir. Acções apenas fruto do instante; tentava-se que a aprendizagem voltasse a estar reduzida ao mínimo, que um momento não envolvesse uma ligação com o anterior. Não queria perder a capacidade de entusiasmo, e se possível regressar a um estado anterior ao conhecimento, do tipo tábua rasa, uma certa pureza de espírito. E queria continuar a beber álcool (porque também facilitava estados amnésicos). Para atingir o enfraquecimento do córtex, naturalmente, algumas decisões definitivas marcariam o processo. Devia abandonar por completo a leitura. Um homem corrigido, sem passado, que apenas mantivesse as habilidades motoras intactas. Perguntei-me se um doente de Alzheimer conseguia andar de bicicleta.

 

O meu amigo mostrava-se bastante seguro do que explicava: a memória constituía a base da identidade mas ele tinha perdido o interesse em aferrar-se à sua. E não queria fingir que não se lembrava. Queria primeiro suspender e depois suprimir o armazenamento de experiência. Dizia-me que o exercício do poder, a traição ou a negação da realidade, quando sistemáticos, eram os melhores exemplos da falta de memória mas eram caminhos impraticáveis para quem, como ele, tentava resgatar, ao mesmo tempo, sentimentos genuínos. Viver somente o dia presente e experimentar fugazes dividendos narcisistas que, segundo ele, seriam intensos e impulsionadores de renovados desaparecimentos de largas porções de memória. As coisas comuns são debatidas e catalogadas até à exaustão - continuava o discurso - a raridade não atravessa a barreira ora do surpreendente ora do preocupante. Vemos a vontade de adivinhar o passo, o lamento da fala que não correspondeu ao prognóstico doutoral, a bruxa adivinha. O controlo, uma certa aflição por prever, instala-se com maior solidez à medida que os anos vão passando. O homem inseguro é o que repete várias vezes o mesmo gesto, não por alguma dedicação especial, mas porque é apaziguador. Despertei para a leviandade dos últimos anos e a melhor forma de seguir vários caminhos ao mesmo tempo e não escolher nenhum é perder para sempre a memória. Podia poupar-me a todo este longo processo - ao ver a minha cara de espanto o meu amigo tentava aligeirar o ambiente - se agora mesmo tropeçasse e batesse com a cabeça. Mas a zona do córtex afectada teria que ser forçosamente o hipocampo e isso é impossível de controlar num simples acidente.

 

Fiquei meio atordoado com a descrição de todos aqueles propósitos e, instintivamente, olhei à volta procurando pedras ou depressões no chão. O piso perfeitamente plano anulava todas as hipóteses de queda e foi o único momento desde o início do encontro em que respirei com alívio.

 

Samuel Filipe

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 18.05.11

Tenho o prazer de dar as boas-vindas a mais um convidado: hoje é o Samuel Filipe, do blogue Bater com a cabeça.

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Convidado: FRANCISCO ALMEIDA LEITE

por Pedro Correia, em 17.05.11

 

O velho lobo

 

A aparição de Fernando Nogueira na campanha do PSD foi mais do que um simples fait-divers. Muitos rapazolas que de repente comentam em tudo o que é media, destilam ódios e amores nos blogues e dão conselhos a gente de peso não se lembram sequer da personagem. O que fez, o que representou e o porquê deste regresso, meio atabalhoado na forma e com um alvo chamado Paulo Portas. É uma questão de geração, mas não só. Falta a memória, o interesse e o conhecimento.

Nogueira esteve fora deste mundo e do outro durante 15 anos, é certo, mas não se lhe pode chamar, por exemplo, "cavaquista". Tendo estado muito envolvido na subida de Cavaco Silva ao poder em 1985, no célebre congresso da Figueira da Foz que deu a vitória sobre João Salgueiro, Nogueira cedo se solidificou nos vários governos laranja como o verdadeiro braço-direito do primeiro-ministro e presidente do PSD de então.

Como ministro, dividiu o poder com Manuel Dias Loureiro no Governo e no partido, tendo remetido este para um papel mais próximo do aparelho, ficando com a aura do delfim. E não se lhe pode chamar "cavaquista" pelo simples facto de estar de relações cortadas com o actual Presidente da República desde a célebre época do tabu da ida ou não às presidenciais de 1996. Nogueira sentiu-se atraiçoado e deixou a política na sequência da derrota nas legislativas de 1995, ganhas por António Guterres. E nunca mais voltou, até ontem. Nunca ninguém lhe arrancou uma entrevista, uma declaração de apoio a este ou àquele candidato nestes anos todos. Remeteu-se à sua vida profissional no BCP e andou por Paris e Luanda. Volta agora, para apoiar Pedro Passos Coelho, que, recorde-se, não o apoiou na congresso do Coliseu dos Recreios (ao contrário de Miguel Relvas, que, antes de ser "passista" e "barrosista", foi um eminente "nogueirista").

 

 

Voltou como voltou, numa acção de pré-campanha em Sintra, com uma ida à Periquita para comer uns travesseiros. À saída, perante dezenas de jovens que não faziam uma pequena ideia de quem se tratava, Nogueira apontou baterias a... Paulo Portas. E não foi ao acaso, mas algo que talvez só Freud possa explicar. O antigo ministro adjunto do primeiro-ministro, dos Assuntos Parlamentares, da Presidência, da Justiça e da Defesa não é já um político destes tempos. Das várias televisões, jornais e rádios, dos blogues e dos tablets. Podendo ter optado por dizer qualquer coisa que justificasse o seu regresso breve para apoiar Passos, o antigo líder do PSD preferiu desferir um golpe contraproducente em Paulo Portas, deixando José Sócrates como um alvo secundário na sua mira: "Fiquei algo mal impressionado com o doutor Paulo Portas, que me parece que está a ficar com uns tiques socráticos, uma vez que ele próprio se arvora a posição de candidato a primeiro-ministro. Isto é o reino do faz de conta, ninguém acredita que Paulo Portas possa ser primeiro-ministro, porque é impossível, tinha de haver um cataclismo eleitoral".

A comunicação social, e bem, agarrou esta frase e outras do mesmo género, apesar de me parecer que não era esta a intenção do convite para aparecer na pré-campanha. Ao falar como falou de Portas, Nogueira deu-lhe palco e avalizou a sua candidatura de terceira via a primeiro-ministro, que, como muitos sabem, não passa de uma estratégia de marketing eleitoral muito bem montada. Nogueira deu-lhe a peça que faltava no seu puzzle: credibilizou essa hipótese, falando dela, diabolizando-a, mas no fundo deixando bem à vista um certo recalcamento por tudo o que Portas lhe fez enquanto director d' O Independente nos idos dos anos 80 e 90. É que muitos cavaquistas, que ainda o são hoje em dia, aprenderam a lidar com Portas. Perdoaram-no, estiveram com ele na Alternativa Democrática de Marcelo, nos governos de Durão Barroso e Santana ou na ascensão e conquista da Presidência da República por parte de Cavaco Silva. Nogueira não. Nunca mais teve nenhum cargo, nenhuma intervenção. Não esteve em comissões de honra, não foi designado conselheiro de Estado, não é comentador político ou articulista de imprensa. Regressa agora quase como saiu. E o mundo mudou, entretanto. Saiu da política quando Paulo Portas se assumiu como político no grupo parlamentar do PP de Manuel Monteiro, volta com a figura que antes odiava como líder de um CDS com mais força que nunca.

O velho lobo do cavaquismo, entretanto tornado em proscrito do cavaquismo e anti-cavaquista, voltou com as melhores intenções. Contava fazer a diferença, só que o timing não foi o ideal. Quanto à forma, pior ainda. Em vez de uma acção recatada onde revelasse os seus conhecidos dotes de orador ou de pensador, foi atirado aos outros lobos, os dos media, que caçam em matilha. Gostava antes de ter ouvido Nogueira falar das oportunidades perdidas em 16 anos de governação, desde que ele próprio perdeu para Guterres e o País entrou na espiral de loucura que se conhece. De bom aluno da Europa o País passou para calão em pouco tempo, mas também a escolaridade obrigatória aumentou... Será que ainda vai a tempo de fazer melhor figura?

 

Francisco Almeida Leite

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