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Convidado: CARLOS NATÁLIO

por Pedro Correia, em 29.03.17

 

Violência indomesticada

 

Desculpem-me se vos escrevo a partir de uma terra secreta. Se vos falo com a voz ingénua, voz simplista, voz naufragada, por uma visão qualquer de alguém que já não vê terra há muito, que já só procura o oásis ou a ilha deserta cheia da manga madura e carnuda e da sombra recortada pelas asas dos pássaros, irrequietos pincéis a desenhar a tarde de sol. É daí que vos escrevo para vos dizer que já há muito perdi noção dos dias, da resolução correcta dos problemas da chamada «vida real», do tempo em que é suposto vivermos - feito de resgates, transacções indevidas, muros, bombas e olhares funestos. Tempos houve em que lia com respeito e dedicação os fundamentos do direito, as bases da justiça e sua concretização num ordenamento jurídico, a luta entre o castigo e a censura do direito, a culpa, o crime, o dolo, e a «mente criativa» e retórica do senhor jurista.

 

Tudo isto já faz parte de um passado relativamente distante, em que na minha cabeça o idealismo ainda se fundia às séries de televisão nas quais, no final, o justo, o inocente, a vítima sempre levavam a melhor. Entretanto, os papéis burocráticos acumularam-se na minha mente e essa tal de «vida real» veio ter ao meu encontro - como comboio apressado a entrar na gare e a levar todos os passageiros desprevenidos - e conduziu-me para essoutro país feito de opiniões inocentes, desprotegidas, de quem fala como quem ama ou se indigna com o mundo, sem nada mais. É nesse espaço inocente, à beira bar plantado, feito de quem sente o justo (mas que também sabe como, quase sempre, o justo é injusto), que leio diariamente, como se se acumulasse à previsão do tempo ou ao signo astral, que «mulher tal foi morta pelo marido». Morta em Barcelos, morta em Lisboa, morta em Famalicão. Parecem notícias de Marte, mas são da Terra. Pior, da nossa terra.

 

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No outro dia, em consequência de mais um massacre, que os jornais mostram com a avidez errada - menos da denúncia e mais do prazer mórbido da publicidade - dei por mim a voltar ao passado. Estava indignado. Como pode isto ser assim, de forma recorrente e impune - homens a pegar em facas, a pegar em revólveres, a pegar nos punhos e em palavras indevidas e a massacrar mulheres inocentes (ou mulheres culpadas, pouco importa). Abri o Código Penal, um livro que tantos «prazeres e penas» já me proporcionou, e naveguei até algumas «ilhas distantes»: o homicídio simples e sua pena, o homicídio qualificado e sua pena (pais e filhos matam-se com mais censura jurídica do que cônjuges, ao que parece), o homicídio privilegiado (que coisa tão bela, o ordenamento sensível ao temor do ciúme - misturado muitas vezes com o álcool, adiante-se -, às irreverências e desvarios do amor e da paixão que na literatura sempre fizeram tombar os corpos com graciosidade e que aqui também procuram acamar com penas as tragédias. Finalmente, o fatídico crime de «Maus Tratos e Infracção de Regras de Segurança», nome já tão adequado à violência doméstica (mas quem disse que o código penal tinha de comungar da poesia?) Artigo tão belo como poucos haverá, o art. 152, do qual resulta que, no pior dos casos, se matares a tua mulher terás 10 anos de prisão, quase o mínimo aplicável ao homicídio simples. Daí a «grande máxima» milenar: se é para matar, mata antes aqueles que conheces.

 

Sei que me dirão, sobretudo advogados de profissão, que se trata de uma leitura simplista (quiçá incorrecta) da forma como a justiça encara o problema da violência doméstica. Talvez. Não é que não vos avisasse desta minha imprecisão. Mas depois lemos coisas como: todas as dias 14 mulheres são vítimas de um crime de violência, em média 100 por semana. Os números da APAV também serão simplistas? Mas o meu ponto é este. Sempre existiram desde tempos imemoriais, e continuarão a existir, os chamados "crimes passionais" motivados pelos furores do amor, da paixão, do ciúme. Mas a questão, parece-me, é até filosófica: a violência é por natureza selvagem e «indomesticada» (mesmo a mais premeditada e dolosa). O equívoco está em vivermos numa sociedade que parece valorar o adjectivo «doméstico», quando chamado a qualificar a violência, como algo de menor importância, mais desculpável, uma violência de trazer por casa. Neste sentido, a violência doméstica seria uma menor violência porque a sociedade considera que nesses casos há muitos factores que interferem com as acções do agressor. Contudo, quanto mais não seja pelos números, pelas penas suspensas, pelas recorrências, por um certo sentido de impunidade, percebemos o preço que pagamos por valorar a violência doméstica como «violenciazinha», ao invés de fazer o contrário. A natureza indomesticada da violência no espaço doméstico ganha proporções ainda mais vorazes e selvagens, isto é, o facto desta violência se verificar no espaço da casa deveria ser tido não como factor desculpabilizante, mas sim agravante.

 

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Enfim, gosto pouco de textos indignados e não é de todo o meu papel. Mas gosto ainda menos de viver numa sociedade que vai «desculpando» a gravidade destes crimes; numa sociedade em que se encoraja os homens a mostrar quem «manda lá em casa», quem é o chefe da família, ou quem «veste as calças»; uma sociedade machista e abrutalhada na qual a intimidade é um factor desculpabilizante e não agravante; uma sociedade do futebol e dos copos na qual as mulheres são aconselhadas a ter paciência quando o Benfica lá perde um pontito ou o seu homem chega a casa de grão na asa; em que os homens não sabem, ou não querem, proporcionar orgasmos às suas mulheres; numa cultura da submissão, do medo e do jantarinho pronto; numa vida de invasão de privacidade, do «vestes-te assim ou assado», do deixa ver a tua carteira, o telemóvel, o computador; uma cultura de estaladas, de berros, de empurrões; uma cultura do «onde é que passaste a tarde?», do ontem à noite fui às meninas; uma cultura de mulheres aconselhadas a vestirem-se como putas para segurar os maridos, uma cultura de costelas de Adão, de divórcios fechados à lei da bala, de humilhações sexuais e penas suspensas; uma cultura do «tenha paciência», do «aguente só mais um bocadinho»; uma cultura do fechar a boquinha e do abrir a boquinha; uma cultura do «uma lady na mesa, uma louca na cama»; uma cultura das nódoas negras, dos grunhos traidores que não admitem traição, das facas na garganta, dos berros constantes; uma cultura do «entre marido e mulher não se mete a colher», do «isto é normal», do «isto é mesmo assim», do olho à belenenses, da prepotência patriarcal do cidadão, do legislador, que vai achando tudo isto normal...

 

Tenho pouco jeito para textos indignados e disse-vos que vos escrevo a partir de uma terra secreta. Espero portanto que estas palavras vos encontrem bem e vos inspirem a pensar sobre o que é na verdade uma casa, o que deve ser um espaço doméstico, a pensar sobre essas 14 mulheres, essas 100 mulheres, essas casas em Barcelos, em Lisboa, no planeta Marte ou no meio do mar. Ingenuamente vos digo - e essa ingenuidade é um espaço intocado que conquistei escavando, resistindo, às matemáticas legalistas do Direito - contra a violência indomesticada só há uma coisa a fazer. Impedi-la, por todos os meios - leis, braços, palavras - já.

 

Carlos Natálio

(blogue ORDET)

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 28.03.17

Como alguns leitores atentos já terão percebido, retomámos uma iniciativa com muito êxito que mantivemos aqui durante mais de um ano, entre Maio de 2010 e Junho de 2011, convidando colegas de outros blogues para escrever connosco um texto inteiramente à escolha de cada um.

Nessa primeira série, a rubrica "Os nossos convidados" contou com a adesão de 223 companheiros - alguns dos quais são hoje nossos colegas no DELITO: Ana Lima, Francisca Prieto, João André, José António Abreu, José Maria Pimentel, José Navarro de Andrade, Luís Menezes Leitão, Luís Naves, Patrícia Reis, Rui Herbon e Tiago Mota Saraiva.

Revisitando essa lista, encontro lá cinco escritores consagrados, dez colunistas hoje com presença regular nos órgãos de informação, um presidente de câmara de uma capital de distrito, um embaixador, um gestor bancário, três professores universitários, um deputado, dois conhecidos advogados, duas figuras cimeiras de agências de comunicação, dois membros actuais de direcções de jornal, um assessor parlamentar e o ex-ministro José Medeiros Ferreira, cuja memória guardarei sempre com apreço e saudade. 

A nova série, iniciada há uma semana, teve o pontapé de saída a cargo do Luís Robalo, do blogue Redondo Vocábulo. Amanhã escreverá connosco o Carlos Natálio, do blogue Ordet.

Desde já lhe dou as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS ROBALO

por Pedro Correia, em 22.03.17

 

Copos e gajas, de preferência boas

 

De manhã se começa o dia, dizia a minha querida avó, mulher avisada, que vestia de preto, tinha um buço pronunciado e gostava da pinga às escondidas.

Como quem sai aos seus, aos seus sai, já enfiei dois medronhos, para dar energia a enfrentar o dia que dá trabalho, e até chegar ao fim, é uma peregrinação quase religiosa ao botequim do chico. Pelo menos tenho fé em ir lá, é uma espécie de purificação do meu interior.

Agora só bebo sininhos, estou em dieta alcoólica, só pequenas quantidades (de cada vez claro). Não se pode dizer que saia caro. Cada sininho são 30 cêntimos. Um copo de três, cinquenta cêntimos. Apesar de alguém desavisado poder estar em desacordo (está longe, não vê, está mal informado), sou uma pessoa poupada: só bebo um de cada vez.

Se descontar de todos os que bebo, as ofertas, os brindes às efemérides de cada parceiro que frequenta o botequim, e os que o Chico se esquece de cobrar, gasto realmente muito pouco. Sou portanto no Sul, um dos homens mais poupados (mas há quem esteja ainda mais abaixo. O Sul não acaba aqui).

 

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Nunca fui de esbanjar dinheiro, na verdade nunca o tive. Comecei a trabalhar bem cedo na terra, sem tempo para estudos nem letras. Depois alguém disse que era melhor deixar de trabalhar a terra. Não valia a pena, pagavam para ficarmos em casa. Só a partir daí é que comecei a ter algum dinheiro para gastar.

Como nunca pude aturar um ajuntamento de mulheres - só para o truca-truca, e mesmo assim apesar de eles acharem, está longe de ser todos os dias - e como é em casa que elas se juntam, para ocupar o tempo livre comecei a frequentar a tasca do chico. Entretinha-me a jogar as cartas, ao dominó e a ver os bonecos do “Correio da Manhã”, posto que não sei ler convenientemente: o pouco que leio, não entendo.

Ora para uma pessoa se entreter tem que consumir, o chico não alimenta a família com ar, é do negócio da venda de bebidas espirituosas, torresmos e sandes de bifanas em vinha-d’alhos.

Não sei o que aconteceu, mas ultimamente só se ouve falar de nós, do medronho, do tinto e das gajas. Isto é uma aldeia pacata. O medronho e o tinto para nós é água e não chamamos gajas às mulheres, chamamos mulheres, e apesar de falarem até à exaustão, gostamos delas não as tratamos como gajas.

 

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De repente vieram para aí jornalistas e televisões, a fazerem perguntas, e sinceramente não entendo o alarido. Nós matamos a sede com prazer e gostamos à nossa maneira das mulheres, não andamos a roubar, a mentir, nem a beber bebidas finas com borbulhas nos salões onde eles vão todos aperaltados apalpar as mulheres dos outros quando vão à casa de banho retocar os beiços, e depois fazem negócios com eles, como se fossem amigos do peito.

Um dia destes ainda fecham a porta do Chico e aí quero ver como vamos matar as horas do dia: só se for sentados à beira da estrada, a ver ninguém passar, que aqui não vem ninguém. Para quê, se isto é um amontoado de velhos e mulheres com bigode?

 

Luís Robalo

(blogue REDONDO VOCÁBULO)

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Os nossos convidados (balanço)

por Pedro Correia, em 11.06.11

 

Em Maio do ano passado, quando nos lembrámos de pedir textos a colegas da blogosfera, das mais diversas tendências políticas, nunca imaginei que esta iniciativa durasse tanto e ultrapassasse em muito o plano inicial. A ideia era termos um convidado por mês, depois um convidado por semana. Mas rapidamente percebi, pelas respostas prontas aos convites, que não fazia sentido haver intervalos tão longos de publicação. A passadeira vermelha do DELITO DE OPINIÃO passou a desenrolar-se, salvo raríssimas excepções, de segunda a sexta. Recebendo convidados das mais diversas tendências políticas e com os mais diversos estilos literários. Cada qual abordando temas à sua livre escolha, como aliás ficou desde logo estabelecido: a única regra era não haver regras. Houve quem optasse por um desenho, por exemplo. Ou por um vídeo. Ou por textos enormes. Ou por textos muito curtos.

Lembro aqui, ao correr da pena, os nossos dez primeiros convidados: Tomás Vasques, Rita Barata Silvério, Afonso Azevedo Neves, Joana Lopes, Nelson Reprezas, Rui Bebiano, Rui Costa Pinto, Ana Paula Fitas, João Sousa André e Ana Lima. Convidados com personalidades diferentes, com blogues de características muito diferentes. Como diferente era também a atitude de cada um deles: houve quem estabelecesse intenso diálogo com os leitores nas caixas de comentários, outros limitavam-se a uma sucinta referência. A piada destas coisas é também verificar estas diferenças. Quase todos reproduziram os textos nos seus blogues, o que multiplicou de alguma forma o intercâmbio entre nós. Era também isso que se pretendia.

E assim passou um ano: vários de nós íamos fazendo convites e as respostas surgiam quase sempre com uma nota suplementar de simpatia. Devo confessar que a qualidade da esmagadora maioria das colaborações excedeu as nossas expectativas, que já eram elevadas. E a quantidade de respostas afirmativas também surpreendeu: foram raras as recusas e quase todas bem justificadas. Uma delas envolveu mesmo um toque de humor: era um período muito quente de Verão e o calor convidava pouco à escrita. Aceitei com um sorriso, claro: estas coisas devem ser encaradas com bonomia. Alguns autores, entretanto, não receberam convite por falta absoluta de contacto: ainda há blogues que vivem praticamente blindados ao mundo exterior.

Recusei apenas um texto - e por um motivo mais que justificável. Era um texto que me criticava duramente e exigia uma resposta igualmente dura da minha parte. Como expliquei à pessoa em causa, há limites para a hospitalidade: gosto de ser cordial mas detesto a falta de chá. Aliás a cordialidade só produz efeitos práticos se funcionar nos dois sentidos.

Foi, como era de prever, um caso isolado. Outro caso isolado, mas de sinal contrário, foi o de alguém que, não tendo sido convidado, se fez convidar enviando-me um texto que não hesitei em publicar. Achei imensa graça a este exemplo de voluntarismo, prova evidente de que a iniciativa se justificava. A tal ponto que alguns dos nossos convidados se tornaram também membros do DELITO: a Ana Lima, a Cláudia Köver (que entretanto estava sem blogue, o que justifica que seja a única sem linque na lista aqui em baixo), o José António Abreu, o José Maria Pimentel e a Patrícia Reis.

Agora, que terminou, deixo aqui - por ordem alfabética - os nomes dos 223 convidados que desfilaram na passadeira. Agradecendo-lhes, uma vez mais, a colaboração que nos prestaram.

 

A

Abel Soares Rosa. Afonso Azevedo Neves. Afonso Ferreira. Alda Telles. Alexandre Borges. Alexandre Guerra. Alexandre Homem Cristo. Ana Cássia Rebelo. Ana Clara. Ana Cristina Leonardo. Ana Gabriela Fernandes. Ana Lima. Ana Matos Pires. Ana Paula Fitas. André Abrantes Amaral. André Azevedo Alves. André Miguel. Andrea Carvalho Rosa. António Agostinho. António Balbino Caldeira. António de Almeida. António Eça de Queirós. António Figueira. António Godinho Gil. António Luís. António Nogueira Leite. António Pais. António Pedro Neto. António Pinho Cardão. Ariel.

B

Bernardo Pires de Lima. Bruno Faria Lopes. Bruno Vieira Amaral.

C

Carla Ferreira. Carlos Azevedo. Carlos Carvalho. Carlos Faria. Carlos Manuel Castro. Catarina Reis da Fonseca. Cláudia Köver. Cristina Nobre Soares. Cristina Torrão.

D

Daniel Santos. David Levy. Diogo Belford Henriques.

E

Eduardo Freitas. Eduardo Louro. Eduardo Saraiva. Ega. Eufrázio Filipe. Eugénia de Vasconcellos.

F

Fátima Mégre. Fernanda Candeias. Fernando Moreira de Sá. Fernando Penim Redondo. Fernando Torres. Filipe Anacoreta. Filipe Moura. Filipe Nunes Vicente. Filipe Tourais. Filomena Naves. Francisca Prieto. Francisco Almeida Leite. Francisco Castelo Branco. Francisco Curate. Francisco Proença de Carvalho. Francisco Seixas da Costa. Francisco Teixeira.

G

Gabriel Silva. Gonçalo Correia. Grande Jóia.

H

Helder Robalo. Helena Araújo. Helena Ferro de Gouveia. Helena Fernandes. Helena Matos. Henrique Burnay. Henrique Raposo.

I

Inês de Barros Baptista. Inês Teotónio Pereira. Isabel Teixeira da Mota. Ivone Costa.

J

Jansenista. Joana Lopes. João Caetano Dias. João Carvalho Fernandes. João Espinho. João Ferreira Dias. João Gomes de Almeida. João Lisboa. João Marchante. João Maria Condeixa. João Paulo Craveiro. João Pedro Pimenta. João Pedro Santos. João Severino. João Sousa André. João Távora. João Teago Figueiredo. João Tunes. João Villalobos. Joaquim Carlos. Jorge Costa. Jorge Fonseca Dias. José Adelino Maltez. José Aguiar. José António Abreu. José Carlos Pereira. José Catarino. José Costa e Silva. José Couto Nogueira. José Luiz Sarmento. José Manuel Arrobas. José Manuel Faria. José Maria Pimentel. José Mário Teixeira. José Medeiros Ferreira. José Moura Pereira. José Navarro de Andrade. José Pedro Lopes Nunes. José Pimentel Teixeira. José Reis Santos. José Simões. Jumento.

L

Leonel Vicente. Lourenço Cordeiro. Luís Aguiar-Conraria. Luís Bonifácio. Luís de Aguiar Fernandes. Luís Melo. Luís Menezes Leitão. Luís Milheiro. Luís Naves. Luís Novaes Tito. Luís Paixão Martins. Luís Rocha. Luís Serpa. Luísa. Luísa.

M

Manuel Pinheiro. Manuel S. Fonseca. Margarida. Margarida Corrêa de Aguiar. Maria Isabel Goulão. Maria João Caetano. Maria João Marques. Maria João Nogueira. Maria N. Maria Teresa Loureiro. Marisa. Marta Costa Reis. Marta Romão. Massano Cardoso. Miguel Cardina. Miguel Félix António. Miguel Madeira. Miguel Marujo. Miguel Noronha. Miguel Serras Pereira. Miguel Vaz. Mr Brown.

N

Nelson Reprezas. Nicolina Cabrita. Nuno Caldeira da Silva. Nuno Costa Santos. Nuno Dias da Silva. Nuno Gouveia. Nuno Pombo.

O

Orlando Nascimento.

P

Patrícia Reis. Patti. Paulo Almeida. Paulo de Morais. Paulo Ferreira. Paulo Guinote. Paulo Marcelo. Paulo Pinto Mascarenhas. Paulo Sousa. Paulofski. Pedro Adão e Silva. Pedro Coimbra. Pedro Magalhães. Pedro Norton. Pedro Quartin Graça. Pedro Rolo Duarte. Pedro Soares Lourenço. Pedro Vieira. Priscila Rêgo.

R

Ricardo AlvesRicardo António Alves. Ricardo Gross. Ricardo Rio. Ricardo Sardo. Ricardo Vicente. Rita Barata Silvério. Rita Ferro. Rita de Vasconcellos. Rodrigo Moita de Deus. Rodrigo Saraiva. Rui Bebiano. Rui Carmo. Rui Castro. Rui Costa Pinto. Rui Herbon. Rui Passos Rocha.

S

Samuel de Paiva Pires. Samuel Filipe. Sara Coelho. Sarah Adamapoulos. Sérgio Lavos. Sofia Bragança Buchholz. Sónia Morais Santos.

T

Teresa Leandro. Tiago Moreira Ramalho. Tiago Mota Saraiva. Tomás Belchior. Tomás Vasques. Torquato da Luz.

V

Vasco Campilho. Vasco Lobo Xavier. Vítor Cunha. Vítor Matos.

Z

Zélia Parreira.

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Convidada: CLÁUDIA KÖVER

por Pedro Correia, em 03.06.11

 

O nascer do riso

 

A fragmentação da obra de três compositores contemporâneos, cuja sonoridade não embale todo e qualquer ouvido, e a sua reconstrução numa nova palete de sons e passagens, serviu de inspiração a este conceito. Admito ter cortado e recolado a obra alheia - à qual eu própria muitas vezes não dou ouvidos - e tê-la refeito a meu gosto, servindo agora de embrulho a esta crónica. No entanto, neste processo, jogou-se também a dança das influências entre a música e a escrita - e as letras acabaram por se adaptar à sua melodia. Tudo isto com o único objectivo de não aborrecer. Infelizmente, poderei ter falhado redondamente nesse aspecto mas, ao menos, espero ter fundido duas baladas aborrecidas numa só música.

 

 

Cláudia Köver

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 03.06.11

Hoje, último dia da campanha eleitoral, é também o último dia em que estendemos a passadeira vermelha a um convidado. Foram mais de 200 que por aqui passaram durante um ano: em breve terei ocasião de agradecer a cada um deles quando fizer o balanço desta iniciativa, que julgo ser inédita na blogosfera portuguesa. Felizmente a esmagadora maioria das pessoas que contactámos acedeu escrever aqui: as recusas foram residuais e quase sempre justificadas. Mas isso, como já referi, fica para outro dia. Agora é a vez de anunciar a nossa última convidada - a Cláudia Köver. Uma blogger neste momento sem blogue, o que é uma forma original de encerrar esta série que já nos deixa saudades. Mas julgo que ela não ficará sem blogue por muito tempo.

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Convidada: ALDA TELLES

por Pedro Correia, em 02.06.11

 

 Os heróis da retirada

 

Cualquier destino, por largo y complicado que sea, consta en realidad de un solo momento: el momento en el que el hombre sabe para siempre quien es. Jorge Luis Borges

 

 “Não há porque não está na moda, porque na Europa não se tolera, também não há forças militares para isso - provavelmente não estariam para se maçar e meterem-se num sarilho muito grande,  mas eu temo que se cami… eu temeria que se caminhasse para uma situação dessas se houvesse forças para isso. Porque a sociedade portuguesa está muito muito descontente”

Medina Carreira, em declarações à Antena 1, no dia 27 de Maio de 2011.

Esta ideia de um golpe de estado em Portugal tem sido sibilada, com pudor, nos últimos meses. No sentido “mediático-democrático” do termo - passe o oxímoro – assim tem sido entendida a campanha ad hominem contra a figura de  José Sócrates, repetida ad nauseam por políticos – de esquerda e de direita, comentadores e jornalistas. De tanto repetida, a “necessária eliminação de Sócrates” parece estar prestes a atingir a sua legitimação.

O expoente máximo do processo em curso foram estas declarações de Medina Carreira que, curiosamente, ou talvez não, pouco eco ou nenhum recolheram nos meandros dos blogues e dos analistas políticos. Na realidade, Medina Carreira disse aquilo que tem estado subliminarmente plasmado na maioria dos discursos políticos: se não sair a bem, terá de sair a mal. A qualquer preço. E esta é a definição básica de golpe de estado.

O único aparente anacronismo no desejo mal contido de Medina é a invocação da necessidade de forças militares para esse golpe. Quanto ao resto, está certo. E remeteu-me imediatamente para o interessante “Anatomia de um instante”, de Javier Cercas (D.Quixote, 2010), sobre o golpe militar de 23 de Fevereiro de 1981 no Congresso dos Deputados em Espanha.

Guinada no leme, golpe cirúrgico, mudança de rumo: era esta a temível terminologia que desde o Verão de 1980 impregnava as conversas dos corredores do Congresso, os jantares, os almoços e os debates políticos e os artigos de imprensa na pequena Madrid do poder. Essas expressões eram simples eufemismos ou, melhor dizendo, conceitos vazios, que cada qual preenchia consoante o seu interesse e que, além das ressonâncias golpistas que evocavam, tinham apenas um ponto comum: tanto para os franquistas como para os democratas, tanto para os extremistas de direita de Blas Piñar como para os socialistas de Felipe González e para muitos comunistas de Santiago Carrilho e muitos centristas do próprio Suárez, o único responsável daquela crise era Adolfo Suárez, e a primeira condição para acabar com a crise era tirá-lo do governo. (…) A partir do verão de 1980 políticos, empresários, dirigentes sindicais e eclesiásticos e jornalistas tinham exagerado até ao delírio a gravidade da situação, entretendo-se diariamente com soluções duvidosamente constitucionais que faziam vacilar o já de si vacilante governo, inventando atalhos extraparlamentares, ameaçando encravar a nova engrenagem institucional e criando uma embrulhada que constituía o carburante ideal do golpismo.”

Isto foi há precisamente 30 anos, numa Espanha ainda em processo de aprendizagem da democracia. Portugal, nessa altura, tinha curiosamente o seu processo consolidado e experienciava o seu curto VII Governo Constitucional, constituído pela coligação formada por PSD, CDS e PPM.

 

A tragédia grega é a nossa opera buffa

E enquanto a futilidade, a ambição de poder e a imaturidade grassam no país, focadas num arbusto, o nosso olhar entre o condescendente e o perplexo sobre a explosiva situação grega (“os gregos falharam” é a água que tentamos sacudir do capote) faz temer, pior que um golpe de estado, um harakiri.

Uma análise de Jorge Nascimento Rodrigues, jornalista e escritor com uma rara visão geo-estratégica de Portugal e do mundo, resume o que realmente se passa: “O que é que nos ensina a Grécia? Provisoriamente (como hipótese de trabalho) quatro  coisas: a) mesmo governos de maioria como é o do PASOK não seguram a situação; b) o modelo de plano de resgate está em falência acelerada (e por aqui ainda andam a discutir, naturalmente, o que o Poul e o BCE deixaram na versão A ou B já ecofinizada); c) a fadiga social (um eufemismo para falar do nível em que as sociedades aguentam processos de "austerização" quando não têm élan mobilizador para os suportar) acumula-se e um dia estoirará; d) como me dizia um amigo meu, se a estratégia da zona euro falhar, não "me admiraria de um dia destes ver estados falhados nas barbas da Europa".

Golpe de estado, golpes de estado, perfilam-se de facto na Europa. Por via da falência de um sistema financeiro global e de um insustentável  modelo de (des)governo europeu  que sobre ela se abateu. Portugal, país sui generis na sua visão trágico-cartoonizada do mundo e da sua própria condição, foca-se, como a Espanha democrática titubeante de 1981, num alvo fragilizado e meramente instrumental. Eventualmente, num musiliano “homem sem qualidades”.

No fim, ficará um instante, como aquele gesto de coragem absoluta de Suárez, a única pessoa que não obedeceu às ordens dos golpistas naquele 23 de Fevereiro e não se refugiou debaixo de um assento parlamentar (esperando talvez a morte). Um gesto eventualmente absurdo, ou “um gesto de redenção individual e talvez colectiva” como o caracterizou Cercas. Esse instante acontecerá às 20 horas do próximo dia 5 de Junho. O primeiro dia de mais um resto das nossas vidas.

 

Alda Telles

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 02.06.11

É com muito gosto que anuncio a chegada, mais daqui a pouco, da nossa convidada de hoje: a Alda Telles, do blogue Lugares Comuns.

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Convidado: JOSÉ REIS SANTOS

por Pedro Correia, em 01.06.11

 

Last mile

 

Entrámos na última semana de campanha eleitoral. E tudo está em disputa. PS e PSD, quais gatos siameses, não se largam. A contenda está ao rubro, com décimas a separarem os dois principais partidos para o desejado primeiro prémio.

Há um mês esta situação não se adivinhava. O PSD parecia a caminho de uma vitória certa; o que quer dizer que a campanha permitiu verificar que a muito anunciada ‘morte política’ de José Sócrates e do seu projecto foi, como tantas outras, prematuramente anunciada. Muito por culpa das ambiguidades públicas do PSD, é verdade, mas também porque de facto, e comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista. E os portugueses sabem disso.

Por outro lado, o PSD não conseguiu sustentar a vantagem adquirida na pior fase do consulado Sócrates, desperdiçou capital político com um conjunto de más decisões e arrisca-se hoje a perder as eleições justamente por não conseguir apresentar um Partido e um líder que dêem garantias de governação.

Os debates, que se poderiam julgar decisivos, acabaram por não o ser, antes pelo contrário ajudaram a adensar as dúvidas no eleitorado, até porque nenhum líder se destacou particularmente.

Temos assim, em expectativa, uma interessantíssima última semana de campanha eleitoral, momento em que PS e PSD terão de jogar as suas cartas finais e tentar descolar nas intenções de voto. E será interessante acompanhar o comportamento dos principais actores políticos e verificar que estratégias seguirão.

Mas, independentemente do que aconteça, é óbvio antecipar um sistema parlamentar de 2 + 1 + 2 (PS, PSD + CDS + PCP, BE), não sendo de esperar que algum partido a solo obtenha maioria no hemiciclo.  

E isso pode ser um problema, pois Cavaco afirmou, explicitamente, que deseja empossar um governo maioritário o que, caso o PS vença, o Presidente terá algumas dificuldades em conseguir.

O que acontecerá então? Sócrates já afirmou, naturalmente, que apresentará proposta de Governo caso ganhe. Passos diz que não o fará caso não ganhe as eleições. Portas que não se coligará com Sócrates. Jerónimo admite a coligação com o PS caso Sócrates rasgue o acordo com a troika (o que não é de todo expectável e seria uma loucura), e Louçã parece mais preocupado com procurar suster a previsível hemorragia eleitoral do Bloco que apresentar-se como possível parceiro governamental.

Parece-me assim evidente que Cavaco procurou condicionar esta campanha, usando de forma abusiva o seu cargo institucional, indirectamente passando a mensagem que só Passos poderá ser primeiro-ministro de um governo de apoio maioritário; o que será, julgo, uma das armas de campanha da malta da São Caetano à Lapa para esta última semana.

Infelizmente vivemos ainda, em Portugal, num caldo político que entende de forma esquizofrénica o nosso sistema eleitoral e constitucional. É que, em teoria, deveríamos estar confortáveis com coligações, mas na prática estas só acontecem à direita, o que é uma natural deturpação das intenções originais dos nossos ‘Pais Fundadores’.

Neste sistema, o PS encontra-se na posição mais difícil, pois sabe de antemão que não tem parceiros naturais de governo. Neste sentido, as palavras do Presidente só podem ser lidas de duas formas: ou Cavaco pretendeu apresentar o PSD como única possibilidade governativa, ou o Presidente procurou mandar um recado para dentro dos partidos da troika para estes não desconsiderarem quaisquer possibilidades coligatórias.

Se assumirmos a primeira leitura, estamos perante um inaceitável abuso de poder por parte do Presidente e uma chantagem inadmissível e intolerante.  Se, por outro lado, considerarmos a segunda hipótese, então tanto Passos como Portas têm de abandonar o discurso e as birras anti-Sócrates e afirmarem que respeitarão as decisões de 5 de Junho, mesmo que isso queira dizer aceitarem coligar-se com o PS. 

Em todo o caso, este é, para mim, o tema-chave à entrada da last mile da campanha, e um assunto que espero suficientemente esclarecido por parte de todos os actores políticos, Cavaco incluindo. Para mais, o país não está em condições para aturar caprichos ou teimosias de gente que deve saber assumir as responsabilidades do momento. E refiro-me a Passos Coelho e Paulo Portas, que devem assumir a responsabilidade de considerar que pode vir a ser necessário contar com o PS como parceiro governamental. 

Ao não o fazerem apenas se apresentam como actores de ‘política pequena’, sem dimensão ou sentido de Estado, preparados apenas para a pequena intriga e jogo de soundbite. O país, hoje, requer mais. Saibam os actores políticos nacionais, então, dar-nos mais. Surpreendam-nos por uma vez. E refiro-me a todos. Porque não estamos em tempos de soluções milagrosas ou individuais.

 

José Reis Santos

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 01.06.11

Recebemos daqui a pouco, com a devida passadeira vermelha, o José Reis Santos. Dos blogues Política de Vinil e Blogue de Esquerda. A passadeira tem hoje um duplo simbolismo: faz precisamente um ano que iniciámos esta série de convites aos colegas da blogosfera para virem escrever connosco.

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.05.11

Vem hoje escrever connosco o José Carlos Pereira, do blogue Incursões, a quem dou desde já as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 30.05.11

Vem hoje escrever connosco o Luís de Aguiar Fernandes. Do blogue Manifestação Espontânea.

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Convidado: CARLOS CARVALHO

por Pedro Correia, em 27.05.11

 

  Triunvirato

 

– “Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.

 

– “Triunvirato não, pá, que me lembras os romanos, com aquelas togas e tudo” – respondo, por sobre a música, ao mesmo tempo que procurava imaginar a efígie de Poul Thomsen com uma daquelas pencas à Júlio César plantadas no meio da cara. Não, ainda não estou assim tão bêbado.

 

– “Triunvirato? Estão a falar do quê?” – intromete-se o Pedro, que tem este hábito ligeiramente irritante de entrar nas conversas a meio – “Ah, de economia. Que parvoíce a minha. Como ouvi falar em romanos pensei que estivessem a falar daquele período imediatamente antes do fim da República.”

 

Caramba, será que o Paulo Portas tem razão?

 

Carlos Carvalho

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 27.05.11

A passadeira do DELITO estende-se hoje para receber condignamente o Carlos Carvalho. Do blogue César & Dama.

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Convidada: MARGARIDA CORRÊA AGUIAR

por Pedro Correia, em 26.05.11

 

Humanidade e sensibilidade social precisam-se...

 

 “O Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu desde Janeiro o pagamento de complementos de reforma a viúvas de ex-embaixadores e antigos funcionários. Em resultado, cerca de vinte ex-embaixatrizes — a quem era reconhecido um trabalho de utilidade pública — ficaram reduzidas a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros.

 “MNE suspende pensão a viúvas de embaixadores” (Expresso, 16.4.2011)

 

Miserável, é a única palavra que me vem ao espírito para condenar a atitude tomada pelos meritíssimos juízes do Tribunal de Contas na extinção das pobres pensões de sobrevivência das viúvas dos nossos embaixadores, aquelas que ainda teimam em viver com idades na casa dos 90-100 anos. E miserável é, também, o silêncio do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

 

Sim, a notícia é verdadeira. Só agora escrevo este apontamento pois tive o cuidado de indagar para saber de onde partira. E partiu de um grupo de juízes do Tribunal de Contas que avaliam os dinheiros gastos pelo Estado, bem ou mal gastos, no caso concreto, parece que mal gastos, um desperdício inaceitável em tempos de crise.    

Estas senhoras pensionistas eram afinal “falsas pensionistas”, o que simplesmente significa que estavam a usurpar o que não lhes era devido, portanto a lesar o Estado. Já só eram 20 porque tinham vindo, entretanto, a desaparecer de forma natural. Começaram por ficar sem nada, quando enviuvaram, porque nada estava previsto e assim viveram durante muitos anos, até surgir alguém que achou estar-se perante uma situação indecorosa e aviltante, tanto para elas como para o país. O Ministro dos Negócios Estrangeiros à época interessou-se pela situação e instituiu um fundo destinado às futuras pensões das viúvas, fundo este alimentado por emolumentos dos nossos consulados. A ideia foi aceite e fez-se justiça, as viúvas foram compensadas, tarde e a más horas, se bem que parcamente, e a situação desonrosa e degradante de certo modo branqueada.

Mas Portugal está em crise e o dinheiro há que o ir buscar onde quer que exista, e ali, naquele fundo, estavam 10.000 euros mensais, para repartir por 20 viúvas. Numa “acção de controlo” levada a cabo pelo Tribunal de Contas eis que o dito fundo foi descoberto; um fundo “desprotegido”, porquanto nunca ninguém se lembrara de o legalizar. A acção foi rápida e eficiente como raramente sucede na recuperação de dinheiros mal parados. Nem uma palavra do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Moral da história: faça-a quem quiser! Na certeza que este miserabilismo a que já nos habituámos parece não ter fim e faz vítimas. Neste caso, são as viúvas dos embaixadores cujo crime cometido foi viverem no Estado Novo, Estado esse que, aliás, nada lhes deixou; viúvas ignoradas por um Novo Estado - que se diz Social e que é o nosso - e agora reduzidas, segundo reza a notícia do Expresso “...a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros”.

A situação é violenta e degradante. E ninguém se interessou por publicamente a denunciar. Porquê é a pergunta que se impõe. Porque elas, as viúvas, já são apenas 20 e o que lhes resta de vida é já pouco. Falar sobre isto para quê? O silêncio e o esquecimento são a melhor forma de tratar assuntos como estes. Até porque entre nós tudo não passará de um mero fait divers, como tantos outros, inconsequentes e rapidamente esquecidos.  

 

Margarida Corrêa de Aguiar

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 26.05.11

Tenho o maior gosto em anunciar a chegada iminente da nossa convidada de hoje: Margarida Corrêa de Aguiar, do blogue Quarta República.

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Convidado: EGA

por Pedro Correia, em 25.05.11

 

Os Passos Perdidos

 

Depois de uma década de governação perdida, que culminou na iminente bancarrota do Estado e na necessidade de o país ser resgatado pelas instâncias financeiras internacionais, o povo português, chamado a pronunciar-se em julgamento político soberano, foi a eleições no dia 5 de Junho de 2011. Eivado do sentido de responsabilidade que lhe é sobejamente reconhecido, no dia do sufrágio o povo acorreu em massa às praias e esplanadas de todo o país, face ao belíssimo dia de sol e calor que lhe fora ofertado.

Das eleições resultou um empate entre PSD e PS. Em consequência de uma votação histórica do CDS, constituiu-se um governo de coligação entre o PSD e o CDS, com o apoio parlamentar maioritário dos respectivos grupos parlamentares.

 

 

Após um período de cerca de 12 meses de governação PSD/CDS, marcado por vários incidentes entre o Ministro das Finanças do PSD e alguns ministros do CDS, e por grande contestação pública, devido às medidas de austeridade entretanto aplicadas e às pequenas reformas feitas, começaram a surgir na imprensa diversas e graves acusações ao Primeiro-Ministro, nomeadamente o de ter sido apanhado a beber uma caipirinha XXL no Bairro Alto num sábado à noite, de ter afirmado publicamente que apreciava carne mal passada e desprezava a comida vegetariana, quase tanto como desprezava os Abba, e bem como de não ter pago uma multa de estacionamento. O episódio mais grave aconteceu quando foi apanhado pelas câmaras de televisão a obsequiar a chanceler alemã com um objecto de cerâmica das Caldas, sendo imediatamente acusado de ter rebaixado e submetido o país à Alemanha. Entretanto, na rua, o povo manifestava-se em massa contra as políticas de direita levadas a cabo pelo governo de coligação. Grupos de anarquistas e fãs dos Abba, elementos do PNR e dos movimentos contra os transgénicos e contra os bifes mal passados começaram a juntar-se a tais manifestações, expressando a sua ira através da queima de pneus e lixo na via pública, da destruição de material público e privado, incluindo ainda a troca de mimos com a polícia, tudo à boa maneira magrebina.

Além disso, os constantes atritos com muitos dos dirigentes dos organismos públicos na directa dependência do Governo (direcções gerais, institutos e fundações públicas, etc.), fruto das extensas nomeações de gente da confiança do PS nos anos anteriores, e que faziam uma oposição camuflada à política executiva do governo, levaram à quase inoperância da administração pública portuguesa.

Com toda esta instabilidade, a gota de água chegou com a demissão do Presidente da Assembleia da República, em desacordo com a política seguida pelo Governo, e da posterior falta de entendimento parlamentar para a eleição de novo Presidente da Assembleia. Em face de tal situação política, e perante o cenário existente de grande contestação política e social, o Presidente da República decidiu demitir o governo e dissolver a Assembleia República, marcando novas eleições legislativas.

Nessas eleições apresentou-se a sufrágio José Sócrates, pelo PS, imbuído de um espírito messiânico nunca antes visto, anunciando-se como portador de uma solução de confiança e optimismo para o país, e visando o fim imediato das políticas de direita que estavam a matar o estado social, esventrando a segurança social, asfixiando a magnífica e exemplar escola pública portuguesa, e destruindo o eficiente serviço nacional de saúde.

Com este discurso, e ajudado pela forte queda do PSD (alvo de divisões intestinas, travava uma guerra interna entre as correntes socialistas e liberais, pontuando ainda nas suas fileiras não poucos que nutriam uma admiração secreta pelo D. Sebastião que ora surgira), José Sócrates conseguiu obter duas maiorias absolutas, uma logo em 2012, outra no final de 2016.

Durante os primeiros anos de governação, o governo, carregado de esperança e optimismo, reintroduziu um plano maciço de obras públicas, construindo-se em tempo recorde uma nova auto-estrada Lisboa-Porto, o novo Aeroporto de Lisboa, o TGV Madrid-Lisboa,  um porto de águas profundas na Nazaré, e um gigantesco novo centro de congressos  em Lisboa (o maior do mundo para dizer a verdade).

Para combater o desemprego estabeleceu-se uma política de contratação pública, assente no princípio de que para um posto de trabalho na função pública, dois trabalhadores, um para trabalhar e outro para dar apoio moral, de modo a manter-se sempre em cima os valores de confiança e optimismo.

Novos programas de formação e ensino foram criados: a “licenciatura na hora”; o “mestrex”; e o “doutoramento electrónico”. Em pouco mais de cinco anos Portugal ultrapassou o Japão em número de licenciados e doutorados por habitante. No entanto, continuava a ser um dos países com maior taxa de analfabetismo no mundo.

Na energia, prosseguiu-se a forte aposta nas eólicas, tornando-se Portugal na maior potência eólica do mundo, tendo para isso renunciando à sua bela paisagem e natureza selvagem. Devido aos preços exorbitantes da electricidade (dos mais elevados do mundo), começou a ressurgir em Portugal a indústria de velas e candeias de azeite. Podíamos não produzir automóveis, aviões, comboios, nem barcos (os poucos que fizemos ninguém os quis comprar), mas pelo menos produzíamos eólicas com fartura (que entretanto deixaríamos de exportar, uma vez que a China começou a produzir unidades mais baratas).

Entrementes, com a indústria arruinada e sem nada produzir de valor, o país acabou por perder os únicos monopólios que ainda detinha no mundo: o da produção de cortiça e o da produção de palitos. Isto, fruto, em grande parte, da extinção da floresta autóctone em consequência dos sucessivos incêndios e da sua substituição por culturas arborícolas de rápido crescimento.

Em 2017 foi abandonada a linha de TGV Lisboa-Madrid, face à descida do preço do petróleo e ao subsequente abaixamento das tarifas áreas, visto que a ferrovia – com bilhetes cinco vezes mais caros e uma viagem cinco vezes mais demorada – não conseguia concorrer com o transporte aéreo. Nesse sentido foi decidido pelo Governo construir um novo aeroporto em Lisboa, localizado nos antigos terrenos do aeroporto da Portela (que tiveram de ser expropriados por milhões), entretanto desactivado e transformado em urbanizações de luxo, ficando a capital a funcionar com dois aeroportos, o da Ota para voos low cost e charters, e o da Nova Portela para os voos regulares.

 

 

Passados alguns anos, e já depois do segundo resgate financeiro da década, ocorrido em 2016, em 2019 apenas a China se disponibilizou para financiar o Estado Português. Porém, como garantias, o Estado deu de penhor toda a banca portuguesa, pública e privada, a estátua do Cristiano Ronaldo em ouro entretanto erigida junto ao Cristo Rei, e ficou obrigado, dali em diante, a importar pelos menos 80% de todos os bens e serviços que importava a partir da China.

Um triunvirato composto por elementos do Partido Comunista Chinês, da chancelaria alemã e do FMI passou, desde essa altura, a governar de facto o país. A União Europeia há muito se tornara uma mera organização simbólica de confraternização; a França ainda estava ocupada com bombardeamentos cirúrgicos na Líbia, alimentando o velho sonho de Napoleão de dominar o mar Mediterrâneo; e o Reino Unido deixara de participar nas reuniões das instituições europeias, queixando-se da insuportável sobranceria alemã.

Sócrates manteve um governo fantoche, constituído por 34 ministros e 392 secretários de estado, tendo direito às regalias e pompas todas que tivera até então.  Dirigia-se ao povo, em directo dos três canais, todas as semanas aos domingos à noite, propagando confiança e optimismo. Era ainda responsável pela organização do congresso anual do PS, que juntava cerca de um milhão de pessoas durante 15 dias seguidos, com espectáculos do Tony Carreira e do Quim Barreiros, uma meia-maratona “José Sócrates”, jogos de computador em rede LAN com os Magalhães (num dos congressos foi, aliás, batido o recorde do Guinness de maior número de portáteis ligados ao mesmo tempo entre si, durante as qualificações para o jogo de estratégia “Socrates Politics Manager”), e incontáveis barracas a servir de borla panados de tofu e cerveja sem álcool.

 

Em finais de 2020, José Sócrates, aparecendo de lágrimas nos olhos em directo da Sala dos Passos Perdidos na Assembleia da República, comunicou ao país que, em sacrifício próprio, dotado do espírito democrático que sempre lhe foi reconhecido, e de modo a operar-se uma renovação política no país, não se ira candidatar ao cargo de Primeiro- Ministro nas próximas eleições legislativas.

 

Nota: agora que estamos quase a meio do ano 2021, e as eleições se aproximam, achei por bem fazer esta breve síntese, muito incompleta e imperfeita, da vida política portuguesa dos últimos dez anos.

 

Ega

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 25.05.11

Vem hoje escrever connosco o nosso amigo Ega. Do blogue Metafísica do Esquecimento.

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Convidado: CARLOS MANUEL CASTRO

por Pedro Correia, em 24.05.11

 

O grande terramoto político

 

Apesar dos momentos actuais conduzirem a nossa atenção para a importante eleição legislativa nacional de 5 de Junho, a detenção de Dominique Strauss-Kahn (DSK) em Nova Iorque, com um profundo impacto na França e repercussão em todo o mundo, é merecedora de atenção, pois está muito mais em jogo do que podemos pensar, tanto para a França, como para Portugal, como para a UE no seu todo.

Não vou pronunciar-me acerca do caso, mas do que esta saída da corrida presidencial de DSK pode provocar em França e como isso pode ser perigoso para todos nós, europeus.

A imprensa gaulesa, antes de noticiar a detenção do Director do FMI, dava DSK como o grande favorito das presidenciais francesas de Maio de 2012. Desde há meses que o antigo Ministro de Mitterrand e Jospin, sem ter anunciado a candidatura presidencial, batia aos pontos os seus adversários, tanto internamente, no PS francês, como no confronto com a direita. A sua caminhada parecia imbatível. E eram vários os pontos positivos de DSK: além de ser o francês neste momento com melhor noção de que mundo vivemos e de quais as melhores respostas a dar, decorrente das suas funções no FMI, DSK é um dos políticos mais experientes e que granjeava apoios tanto à esquerda como à direita.

Qual castelo de cartas, toda esta imagem, que também conta(va) com alguns episódios pessoais menos abonatórios, tomba num sopro.

Os franceses são abalados por este terramoto político e as cartas voltam a ser baralhadas: tudo está em aberto nas presidenciais de 2012. E é aqui que o assunto começa a ser muito delicado.

 

 

Nos últimos anos, a política francesa tem vindo a transformar-se num campo de batalha de egos e traições, e todo este cenário só tem beneficiado a candidatura da extrema-direita, de Marine Le Pen, que já surge como a segunda candidata mais creditada na corrida ao Eliseu, quase sempre à frente de Sarkozy e atrás de DSK.

Quanto ao actual Presidente francês, uma das maiores desilusões políticas da actualidade, por ter surgido, em 2007, como o novo rosto da França pujante, todo o seu mandato fica marcado pelo incumprimento do que prometera nas últimas eleições presidenciais. Pouco mudou e nada evoluiu.

Não bastasse o mandato falhado, no seu campo político surgem potenciais candidaturas que apenas se movem contra a sua candidatura e triunfam com a derrota de Sarkozy: Villepin, o seu arqui-inimigo e ex-Primeiro-Ministro de Jacques Chirac; e, Jean-Louis Borloo, ex-Ministro de Sarkozy e líder da formação radical, que acaba de sair do UMP. São sempre uns votos, talvez os suficientes para prejudicar Sarkozy de não alcançar a segunda volta.

Não bastasse a fragmentação da direita francesa, a esquerda, com a saída de DSK de cena (à qual, aliás, ainda nem tinha subido), apresenta candidaturas que traduzem a divisão que tem marcado o PSF nos últimos anos: François Hollande e, muito possivelmente, Ségolène Royal e Martine Aubry.

É, pois, com todo este turbilhão, e passando pelos pingos da chuva, que aparece a “imaculada” Marine Le Pen.

A filha do carismático líder da extrema-direita, Jean-Marie Le Pen, tem vindo a subir nas sondagens com grande sustentabilidade. A adaptação dos princípios do pai ao momento presente, mas com uma imagem mais fresca e moderna, trabalhada de modo a que a comunicação das ideias, por mais incongruentes que sejam, passe e conquiste apoios.

O caminho que Marine tem feito, de acordo com os estudos de opinião, tem sido muito favorável à Frente Nacional.

Com o seu engenho de propalar a moral e bons costumes nacionais, tendo nos estrangeiros, no projecto europeu e na globalização todos os males de França, a extrema-direita faz com que Marine surja como o rosto mais credível, face às desavenças da esquerda e direita democráticas, mais enredadas nas questões internas do que nos problemas do país.

 

 

O que hoje parece algo sem grande impacto, rapidamente pode transformar-se numa hipótese muito preocupante. Um breve exercício de memória lembrar-nos-á o que se passou em 2002, quando a França e a Europa acordaram, em choque, no dia a seguir à primeira volta das presidenciais, com Jean-Marie Le Pen a passar à segunda volta e a defrontar Chirac. Depois de em 2000 a extrema-direita ter chegado ao poder na Áustria. Pois é muito provável que Marine Le Pen chegue à segunda volta das presidenciais de 2012 e já esteve mais longe a certeza de que a sua candidatura podia perder.

E é fácil compreender como os ventos sopram a favor do extremismo. O actual descrédito dos candidatos dos partidos-referência, a detenção de DSK é mais uma contribuição, e a desilusão de parte significativa do eleitorado, que se vai rendendo, em França como noutros países europeus, à extrema-direita, tornam o nosso futuro mais inseguro do que incerto.

A retirada da França do euro e o reerguer das fronteiras na UE, entre outras medidas que Marine Le Pen apregoa, e muitos franceses apreciam, não mais seria que o descalabro europeu, a sentir-se, em primeiro lugar, em países como o nosso. 

Pensava eu, até há poucos dias, que DSK seria a pessoa que iria resgatar a França e a UE do actual marasmo. Vai-se esta grande esperança, oxalá outra possa surgir no horizonte.

Dentro de um ano verifique-se este escrito, desejando estar completamente errado no que ao sucesso da extrema-direita diz respeito.

 

Carlos Manuel Castro

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 24.05.11

Dou as boas-vindas ao nosso convidado de hoje: é o Carlos Manuel Castro, do blogue Câmara de Comuns.

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Convidada: HELENA FERNANDES

por Pedro Correia, em 23.05.11

 

Amor postal

 

As idas aos sótãos têm sempre um efeito nostálgico. Uma saudade bastante empoeirada e menos romântica do que nos filmes, ainda assim. As teias são reais e nunca se sabe quando uma aranha simpática nos salta para cima, em jeito de nos desejar as boas-vindas ao seu lar.

De toda a tralha que habita no sótão, entre brinquedos, bugigangas inúteis e as pilhas de dossiês com fotocópias e rabiscos tirados nas aulas, que provavelmente hoje não perceberei, há uma caixinha especial que, volta e meia, gosto de visitar - a caixa das cartas.

É uma pena que os mais novos não partilhem dessa experiência. Hoje é tudo mais rápido e mais simples, mais automático. Eles têm a tecnologia, mas não têm a emoção.

Lembro-me bem do papel com cheiro e desenhos românticos. Para aqueles mais sérios havia o papel de carta normal (ainda existem blocos de papel de carta?) e as canetas cuja tinta exalava um aroma amendoado.

Receber e escrever cartas às amigas era sempre uma grande emoção. Sempre que iam de férias, sabia que ia receber uma idiotice em forma de postal. Então, os postais da adolescência eram o máximo! Parecia que elas não sabiam que o carteiro os podia ler.

Mas as cartas mais divertidas eram sem dúvida as cartas de amor. Escrevi várias, nunca mandei nenhuma. Sempre fui orgulhosa demais. Ainda assim, empenhava toda a minha criatividade no desenho de corações e florezinhas, como se isso compensasse o facto de sempre ter sido péssima a expressar as minhas emoções.

 

 

Bom, bom mesmo, era receber uma carta de amor. Oh, se era! Mandavam-nas por amigas, ou arranjavam maneira de elas aparecerem num dos nossos livros e depois ficavam ao longe, meio escondidos, meio à espreita, a observarem a nossa reacção; e como se o rubor na face não fosse o suficiente para os denunciar, ainda eram vítimas das macacadas dos amigos. Éramos uns tolos alegres. Que saudades!

Infelizmente, para os meus pretendentes, e felizmente para mim, porque ainda hoje me rio à custa deles, o seu Português era sempre péssimo e a imaginação também não abonava a seu favor. A maior parte deles ia directo ao assunto. O que conta é a intenção, não é? Mas um, só um, disse que eu era a musa dele, a deusa de não-sei-o-quê e o não-sei-quantos do pôr-do-sol. Por isso, ainda hoje me lembro dele. É uma pena que a minha repulsa pelos erros tenha sido mais forte do que aqueles lindos olhos azuis.

Com o tempo, perdeu-se o hábito. Foi substituído por palavras mal escritas e símbolos idiotas em mensagens de texto, porque escrever ”amo-te” dá mais trabalho do que “<3”. Foi-se a escrita, foi-se o romantismo. Ficaram os corações matemáticos que insinuam que o amor é melhor a três. Valem-nos as recordações que ficaram no papel, que nenhum curto-circuito, ou chip, ou atalho de teclas pode eliminar, só mesmo o tempo.

Foto: Ana Silva

 Helena Fernandes

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 23.05.11

A Helena Fernandes, do blogue A Conspirata, é a nossa convidada de hoje. Aposto que vão gostar do que ela escreve. Eu já li - e gostei.

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Convidado: MIGUEL SERRAS PEREIRA

por Pedro Correia, em 21.05.11

 

Um importante alerta de Fidel sobre a eventual intervenção da NATO contra o Governo de Madrid

 

Noticiava o Público.es de 25.05.2011:

 

El expresidente cubano, Fidel Castro, califica de "combativo pueblo" a los españoles por las manifestaciones de estos días.

 

El expresidente cubano, Fidel Castro, se ha referido (…) a las manifestaciones que en los últimos días han convocado a miles de personas en las principales ciudades españolas y se ha preguntado si la respuesta a las mismas serán los bombardeos de la OTAN, como ha ocurrido en Libia.

 



"¿Qué pasará en España donde las masas protestan en las ciudades principales del país porque hasta el 40% de los jóvenes están desempleados, para citar solo una de las causas de las manifetaciones de ese combativo pueblo?", pregunta.

 



"¿Es que acaso van a iniciarse los bombardeos a ese país de la OTAN?", añade, en una aparente referencia a la operación que la Alianza está llevando a cabo sobre Libia contra el régimen de Muamar Gadafi por la represión que esté llevó a cabo de las protestas en su contra.

 

Resta-nos esperar que —  talvez inspirado embora pelo temor de ver o povo cubano retomar as suas qualidades combativas contra a ditadura oligárquica que governa a Ilha e o seu recente PEC — Fidel tenha razão,  apesar de tudo, e que vejamos a NATO, assumindo perante o 15M que abala o Reino de Espanha a mesma atitude que adoptou perante o governo de Kadhafi,  apoiar os manifestantes, fazer seu o Manifesto dos Insubmissos, dissuadir pela força o governo de Madrid no caso de este optar pela repressão policial e/ou militar, reclamar a abdicação de Juan Carlos,  e, sobretudo, concertar-se para o efeito com o comando, e colocar-se sob a direcção, da auto-organização dos cidadãos que reclamam a democracia participativa.

 

Miguel Serras Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 21.05.11

Tenho o prazer de anunciar que hoje vem escrever connosco o Miguel Serras Pereira. Do blogue Vias de Facto.

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Convidado: TIAGO MOTA SARAIVA

por Pedro Correia, em 20.05.11

 

Em política não há decisões inevitáveis

 

O calendário marcava o ano de 1985 e Portugal entrava para a Comunidade Económica Europeia (CEE). Com a adesão de Espanha, dizia-se que não podíamos ficar de fora. Tínhamos que “entrar na Europa”, e quem defendesse o fortalecimento dos laços económico-culturais com os países lusófonos era tido como um conservador que se opunha ao progresso do país.

Com a adesão foi chegando muito dinheiro. Investiu-se na construção estimulando um mercado habitacional a partir do crédito bancário, no desenvolvimento infra-estrutural do país a partir de auto-estradas e no financiamento de grandes superfícies dedicadas ao consumo. A partir destas três áreas de negócio, que tantas vezes se cruzaram, constituíram-se as principais fortunas dos mais ricos de Portugal.

Como moeda de troca, os países que iam patrocinando este desenvolvimento foram exigindo medidas que os favorecessem a médio prazo. Desta forma foi sendo financiado o abate da nossa frota pesqueira ou as destrutivas plantações de eucalipto e fomos sendo coagidos a subscrever as sucessivas políticas agrícolas que nos prejudicavam.

A partir de 1999, com a entrada em vigor do Euro e das políticas de redução do défice, Portugal afundou-se em sucessivas crises. O aumento das importações de bens de primeira necessidade, o gorar das expectativas da equiparação do valor dos salários com outros países da Europa ao mesmo tempo que o valor dos bens de consumo iam disparando ou a impossibilidade de accionar medidas financeiras como a desvalorização da moeda para facilitar as exportações, fizeram com que Portugal ficasse economicamente dependente de terceiros e na situação que hoje bem conhecemos.

 

Todos os que, nos últimos anos, combateram estas opções políticas foram sendo ostracizados e ridicularizados pelo furor mediático que louva, ano após ano, o brilhantismo da nova paixão de Portas, a noção de progresso do não-político Cavaco ou a resiliência de Sócrates. O que é ainda mais extraordinário é que, depois de 35 anos de políticas que nos conduziram ao precipício histórico em que vivemos, chegamos a umas eleições em que os de sempre se preparam para dividir novamente o pote, construindo o seu discurso em torno de três afirmações que não precisam de demonstrar:

1. A rejeição do pedido de resgate levar-nos-ia a uma situação de bancarrota;

2. A renegociação da dívida implicaria o agravamento da crise;

3. A análise à dívida pública para que dela se purgue a dívida privada é uma ideia que não merece ser discutida.

Quanto mais tempo deixarmos que a acção política se resuma a uma gestão de inevitabilidades, mais estaremos a contribuir para que o país se afunde. Para se perceber o estado em que ficará o país com um futuro governo PS/PSD/CDS não é preciso ir muito longe. Basta olhar para o estado da Grécia ou da Irlanda, em que as políticas têm sido muito semelhantes. Não é difícil de prever que, com a tríade do costume, dentro de um ano, estaremos a renegociar a dívida e o resgate e serão anunciados mais cortes e impostos.

 

Portugal precisa de sobressaltar a Europa, tal como fez o Chipre - com excelentes resultados para o seu povo - e como tem feito a Islândia. Nas eleições que se aproximam, votar à esquerda é decidir por quem pode ameaçar e combater as tentativas de ingerência externa. Votar à esquerda é dar força ao combate contra a acção especulativa sobre a dívida soberana e ter a certeza que a dívida pública não será engordada por aventuras e prejuízos de privados. Votar à esquerda é ter a certeza que se está a contribuir para que os cidadãos sejam colocados no centro das decisões políticas fundamentais e que processos como o Tratado de Lisboa ou a moeda única serão, sempre, objecto de referendo. Votar à esquerda é rasgar uma luz no fundo do túnel de uma Europa de políticas medíocres feita por políticos-papagaios de interesses instalados.


Tiago Mota Saraiva

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 20.05.11

Hoje, quinto dia útil da semana, recebemos no DELITO o Tiago Mota Saraiva. Do blogue 5 Dias.

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Convidado: RUI CASTRO

por Pedro Correia, em 19.05.11

 

Promessas e realidades

 

“A am in politics because of the conflict between good and evil, and I believe that in the end good will triumph" (Margaret Thatcher)

 

Fui, desde o início, muito crítico relativamente a Sócrates e ao seu Governo. Reporto-me, naturalmente, a 2005, aquando da sua primeira eleição.

Muitos, porventura escaldados com a penosa experiência AD (Durão Barroso/Paulo Portas), que terminou com a fuga de Durão para Bruxelas num momento em que o país clamava por decisões difíceis e reformas estruturais, deram o benefício da dúvida a quem apareceu com uma imagem austera e convicções firmes.

Sócrates, para os mais ingénuos, prometia: sobranceiro na forma como tratava a comunicação social e implacável a afrontar o corporativismo (farmácias, classe médica, professores, etc.). Não foram poucos os que nele viram a coragem necessária para equiparar Portugal aos parceiros europeus.

Na oposição, descontando os partidos – PCP e BE – que insistem em estar fora do sistema e, por conseguinte, da solução, perante um Governo forte e com uma comunicação profissional e eficaz, constatámos a incapacidade do PSD em encontrar um líder à altura de Sócrates, susceptível de convencer os portugueses do logro que o primeiro-ministro já então corporizava. O CDS, por outro lado, estava mais preocupado em reabilitar Portas, após a reconquista de poder ocorrida em 2007.

 

À medida que nos fomos aproximando do termo da legislatura, o cenário, porém, alterou-se radicalmente. No país real, tornaram-se visíveis os sinais da crise, apesar das tentativas do Governo em esconder os seus efeitos. Os números teimam em contrariar o optimismo dos ministros. O desemprego aumenta, a Justiça definha, o investimento estrangeiro decresce e os mercados começam a desconfiar.

Ao mesmo tempo, os escândalos em redor de José Sócrates avolumavam-se, nunca tendo este conseguido esclarecer cabalmente as suspeitas que sobre si recaíram em casos como os do Freeport, Face Oculta, licenciatura, projectos da Câmara da Guarda, falsificação de um documento na AR, compra da casa na Rua Castilho, etc.

Na oposição, as coisas começavam a compor-se, com um CDS mais forte e um PSD com uma líder que assumia a imagem de seriedade e credibilidade que o eleitorado parecia exigir. O clima era propício a uma derrota nas urnas e foi assim que entrámos na campanha para as legislativas de 2009.

Ao contrário das expectativas, no entanto, rapidamente se percebeu que as coisas nem sempre são o que parecem e, mercê de circunstâncias muito especiais, a verdade é que Sócrates demonstrou que estava ainda longe da sua morte política.

Perante uma comunicação socialista impecável e a falta de jeito e surpreendente amadorismo do PSD, a imagem de Ferreira Leite rapidamente se degrada, incapaz de convencer os portugueses da bondade do seu discurso.

O PS, por seu turno, clama de peito aberto que a crise já lá vai e, em final de mandato, o Governo aumenta pensões e funcionários públicos, avançando a todo o vapor com as grandes obras e promessas de um futuro risonho para todos.

Não foi, assim, com surpresa que Sócrates, apesar de tudo, voltou a ganhar as eleições, apesar de não conseguir reeditar uma nova maioria absoluta.

 

 

Poucas semanas após as eleições, percebe-se a farsa montada pelo PS: os números avançados pela máquina socialista estavam longe de corresponder à realidade. O país começa, então, a ser confrontado com a dura realidade das contas públicas e da profunda crise em que se encontra.

Como de costume, o Governo assobia para o ar e responsabiliza a crise internacional e a recusa da oposição em negociar pelo estado a que o país chegou. O que se passou, então, até hoje está ainda bem fresco na memória de todos.

O país, entretanto, entrou em bancarrota, está em recessão, o desemprego aumentou exponencialmente e, incapaz de solver as suas dívidas, Portugal teve que recorrer à ajuda externa.

Vamos, por isso, viver nos próximos anos reféns de quem aceitou emprestar-nos dinheiro, com a nossa soberania suspensa e o futuro dos nossos filhos sem passar de uma incógnita. Tudo por causa de uma governação incompetente, mentirosa e desligada daquilo que era a realidade do país.

Perante este cenário dantesco, o primeiro-ministro atreveu-se recentemente, a balbuciar duas frases que revelam a desonestidade com que sempre encarou os destinatários dos seus discursos e das suas políticas:

 

"Pergunto-me como foi possível fazerem isto ao país"

e

"Eu tenho orgulho naquilo que fizemos por este país" 

 

Estas duas frases são demonstrativas daquilo que Paulo Portas disse no debate da semana passada com José Sócrates: “O primeiro-ministro não vive neste mundo.” Eu diria mais: José Sócrates toma-nos a todos por parvos.

Considero, por isso, que os portugueses têm uma oportunidade única, no próximo dia 5 de Junho, para mostrarem aos senhores que nos governam que não vale tudo.

Tenho para mim que o CDS pode – e deve – assumir a alternativa de que o país necessita. Quanto aos demais, seja no CDS seja noutro partido qualquer, importa é que não fiquem em casa. Para evitar que a História se repita. Não se esqueçam que as sequelas são sempre piores do que o original.

 

Rui Castro

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 19.05.11

Hoje vem escrever connosco o Rui Castro. Dos blogues Rua Direita e Blogue de Direita.

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Convidado: SAMUEL FILIPE

por Pedro Correia, em 18.05.11

 

Perder a memória

 

Acertámos o encontro para o final da tarde. Enquanto caminhámos nas ruas do centro da cidade José J. manteve-se no mais escrupuloso silêncio. Dirigimo-nos à zona ribeirinha, onde podíamos conversar tranquilamente passeando entre os contentores e o rio. Era o melhor amigo de José J. e ele queria deixar-me ao corrente dos planos que tinha para os anos vindouros, os últimos anos de vida, aqueles em que já não era indispensável trabalhar. O projecto de fundo pareceu-me desde logo assombroso. Tencionava perder a memória.

 

De imediato, e perante a minha incredulidade, acrescentou que estava na plena posse das suas faculdades e como eu próprio podia atestar não tinha razões nenhumas para sofrer depressões ou inquietações. Não pretendia esquecer determinadas épocas do passado nem necessitava anular certos episódios menos felizes. Procurava apagar directamente a memória, qualquer que ela fosse. A de ontem, do mês passado, de há vinte anos. Baralhar o continuum temporal. Obscurecer progressivamente as recordações, misturando-as e adensando-as para na fase seguinte decompô-las em substratos. Condensar ínfimas partes, alcançando uma mistura pictórica, tal como pode ser apreciada nas pinturas de Gustav Klimt, embora alterando a percepção corpórea. Estariam delimitados o tronco e os membros, funcionais, perceptíveis através de linhas suaves, encimados por uma cabeça difusa, alargada e alongada, composta por um número ilimitado de partículas elementares. O método para alcançar o objectivo estava traçado. Dependia de um conjunto de exercícios mentais formulados por um investigador alemão em neuropsiquiatria a quem se ofereceu como sujeito experimental. Para que se produzissem alterações corticais os exercícios deviam ser rigorosamente adoptados e colocados em prática diariamente ao longo de dois anos. Pretendia-se reduzir ao mínimo quaisquer efeitos secundários e por isso estavam completamente fora de questão os electrochoques ou a ingestão de fármacos. Esse era um procedimento que recusava. Não queria perder a capacidade de se emocionar. Queria inclusivamente melhorá-la, provê-la de crescente espontaneidade. Queria chorar e rir. Acções apenas fruto do instante; tentava-se que a aprendizagem voltasse a estar reduzida ao mínimo, que um momento não envolvesse uma ligação com o anterior. Não queria perder a capacidade de entusiasmo, e se possível regressar a um estado anterior ao conhecimento, do tipo tábua rasa, uma certa pureza de espírito. E queria continuar a beber álcool (porque também facilitava estados amnésicos). Para atingir o enfraquecimento do córtex, naturalmente, algumas decisões definitivas marcariam o processo. Devia abandonar por completo a leitura. Um homem corrigido, sem passado, que apenas mantivesse as habilidades motoras intactas. Perguntei-me se um doente de Alzheimer conseguia andar de bicicleta.

 

O meu amigo mostrava-se bastante seguro do que explicava: a memória constituía a base da identidade mas ele tinha perdido o interesse em aferrar-se à sua. E não queria fingir que não se lembrava. Queria primeiro suspender e depois suprimir o armazenamento de experiência. Dizia-me que o exercício do poder, a traição ou a negação da realidade, quando sistemáticos, eram os melhores exemplos da falta de memória mas eram caminhos impraticáveis para quem, como ele, tentava resgatar, ao mesmo tempo, sentimentos genuínos. Viver somente o dia presente e experimentar fugazes dividendos narcisistas que, segundo ele, seriam intensos e impulsionadores de renovados desaparecimentos de largas porções de memória. As coisas comuns são debatidas e catalogadas até à exaustão - continuava o discurso - a raridade não atravessa a barreira ora do surpreendente ora do preocupante. Vemos a vontade de adivinhar o passo, o lamento da fala que não correspondeu ao prognóstico doutoral, a bruxa adivinha. O controlo, uma certa aflição por prever, instala-se com maior solidez à medida que os anos vão passando. O homem inseguro é o que repete várias vezes o mesmo gesto, não por alguma dedicação especial, mas porque é apaziguador. Despertei para a leviandade dos últimos anos e a melhor forma de seguir vários caminhos ao mesmo tempo e não escolher nenhum é perder para sempre a memória. Podia poupar-me a todo este longo processo - ao ver a minha cara de espanto o meu amigo tentava aligeirar o ambiente - se agora mesmo tropeçasse e batesse com a cabeça. Mas a zona do córtex afectada teria que ser forçosamente o hipocampo e isso é impossível de controlar num simples acidente.

 

Fiquei meio atordoado com a descrição de todos aqueles propósitos e, instintivamente, olhei à volta procurando pedras ou depressões no chão. O piso perfeitamente plano anulava todas as hipóteses de queda e foi o único momento desde o início do encontro em que respirei com alívio.

 

Samuel Filipe

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 18.05.11

Tenho o prazer de dar as boas-vindas a mais um convidado: hoje é o Samuel Filipe, do blogue Bater com a cabeça.

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Convidado: FRANCISCO ALMEIDA LEITE

por Pedro Correia, em 17.05.11

 

O velho lobo

 

A aparição de Fernando Nogueira na campanha do PSD foi mais do que um simples fait-divers. Muitos rapazolas que de repente comentam em tudo o que é media, destilam ódios e amores nos blogues e dão conselhos a gente de peso não se lembram sequer da personagem. O que fez, o que representou e o porquê deste regresso, meio atabalhoado na forma e com um alvo chamado Paulo Portas. É uma questão de geração, mas não só. Falta a memória, o interesse e o conhecimento.

Nogueira esteve fora deste mundo e do outro durante 15 anos, é certo, mas não se lhe pode chamar, por exemplo, "cavaquista". Tendo estado muito envolvido na subida de Cavaco Silva ao poder em 1985, no célebre congresso da Figueira da Foz que deu a vitória sobre João Salgueiro, Nogueira cedo se solidificou nos vários governos laranja como o verdadeiro braço-direito do primeiro-ministro e presidente do PSD de então.

Como ministro, dividiu o poder com Manuel Dias Loureiro no Governo e no partido, tendo remetido este para um papel mais próximo do aparelho, ficando com a aura do delfim. E não se lhe pode chamar "cavaquista" pelo simples facto de estar de relações cortadas com o actual Presidente da República desde a célebre época do tabu da ida ou não às presidenciais de 1996. Nogueira sentiu-se atraiçoado e deixou a política na sequência da derrota nas legislativas de 1995, ganhas por António Guterres. E nunca mais voltou, até ontem. Nunca ninguém lhe arrancou uma entrevista, uma declaração de apoio a este ou àquele candidato nestes anos todos. Remeteu-se à sua vida profissional no BCP e andou por Paris e Luanda. Volta agora, para apoiar Pedro Passos Coelho, que, recorde-se, não o apoiou na congresso do Coliseu dos Recreios (ao contrário de Miguel Relvas, que, antes de ser "passista" e "barrosista", foi um eminente "nogueirista").

 

 

Voltou como voltou, numa acção de pré-campanha em Sintra, com uma ida à Periquita para comer uns travesseiros. À saída, perante dezenas de jovens que não faziam uma pequena ideia de quem se tratava, Nogueira apontou baterias a... Paulo Portas. E não foi ao acaso, mas algo que talvez só Freud possa explicar. O antigo ministro adjunto do primeiro-ministro, dos Assuntos Parlamentares, da Presidência, da Justiça e da Defesa não é já um político destes tempos. Das várias televisões, jornais e rádios, dos blogues e dos tablets. Podendo ter optado por dizer qualquer coisa que justificasse o seu regresso breve para apoiar Passos, o antigo líder do PSD preferiu desferir um golpe contraproducente em Paulo Portas, deixando José Sócrates como um alvo secundário na sua mira: "Fiquei algo mal impressionado com o doutor Paulo Portas, que me parece que está a ficar com uns tiques socráticos, uma vez que ele próprio se arvora a posição de candidato a primeiro-ministro. Isto é o reino do faz de conta, ninguém acredita que Paulo Portas possa ser primeiro-ministro, porque é impossível, tinha de haver um cataclismo eleitoral".

A comunicação social, e bem, agarrou esta frase e outras do mesmo género, apesar de me parecer que não era esta a intenção do convite para aparecer na pré-campanha. Ao falar como falou de Portas, Nogueira deu-lhe palco e avalizou a sua candidatura de terceira via a primeiro-ministro, que, como muitos sabem, não passa de uma estratégia de marketing eleitoral muito bem montada. Nogueira deu-lhe a peça que faltava no seu puzzle: credibilizou essa hipótese, falando dela, diabolizando-a, mas no fundo deixando bem à vista um certo recalcamento por tudo o que Portas lhe fez enquanto director d' O Independente nos idos dos anos 80 e 90. É que muitos cavaquistas, que ainda o são hoje em dia, aprenderam a lidar com Portas. Perdoaram-no, estiveram com ele na Alternativa Democrática de Marcelo, nos governos de Durão Barroso e Santana ou na ascensão e conquista da Presidência da República por parte de Cavaco Silva. Nogueira não. Nunca mais teve nenhum cargo, nenhuma intervenção. Não esteve em comissões de honra, não foi designado conselheiro de Estado, não é comentador político ou articulista de imprensa. Regressa agora quase como saiu. E o mundo mudou, entretanto. Saiu da política quando Paulo Portas se assumiu como político no grupo parlamentar do PP de Manuel Monteiro, volta com a figura que antes odiava como líder de um CDS com mais força que nunca.

O velho lobo do cavaquismo, entretanto tornado em proscrito do cavaquismo e anti-cavaquista, voltou com as melhores intenções. Contava fazer a diferença, só que o timing não foi o ideal. Quanto à forma, pior ainda. Em vez de uma acção recatada onde revelasse os seus conhecidos dotes de orador ou de pensador, foi atirado aos outros lobos, os dos media, que caçam em matilha. Gostava antes de ter ouvido Nogueira falar das oportunidades perdidas em 16 anos de governação, desde que ele próprio perdeu para Guterres e o País entrou na espiral de loucura que se conhece. De bom aluno da Europa o País passou para calão em pouco tempo, mas também a escolaridade obrigatória aumentou... Será que ainda vai a tempo de fazer melhor figura?

 

Francisco Almeida Leite

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 17.05.11

O nosso convidado chega hoje mais cedo, já daqui a pouco. É o Francisco Almeida Leite, do blogue Albergue Espanhol.

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Convidada: PATRÍCIA REIS

por Ana Vidal, em 16.05.11

 

O meu terceiro filho

 

Ter um filho é ter o coração fora do corpo e, muitas vezes, escrever um livro é associado a esta ideia de maternidade. Ontem chegou um livro novo à feira do livro e hoje estará nas livrarias. Foi o meu terceiro filho (os outros são mesmo de carne e osso) durante três anos e muitos meses. Escrevi e reescrevi. Deixei de molho como o bacalhau. Vi com algumas amigas. Voltei atrás e à frente.
Escrevi, desde o início, para deixar uma mensagem ao meu filho mais velho e, em resumo, a ideia é que vivemos numa vertigem terrível onde a tecnologia predomina, onde os valores humanos se podem perder. Ser amigo por sms não é o mesmo que abraçar um amigo, digo tantas vezes. Mas a vida e o tempo atropela-nos e, curiosamente, parece que não dominamos a vida que queremos ter. Estamos sempre atrasados, temos emails para responder, mandamos mensagens com abreviaturas e esquecemo-nos de dizer todos os dias: Como estás? Amo-te. Estás triste? O que precisas?

 


Por Este Mundo Acima é, então, uma peregrinação futurista em Lisboa, levando-nos aos valores mais básicos de sobrevivência e a todos os que nos definem como seres humanos. Num cenário de destruição, que é apenas a moldura que serve de pretexto para contar a história, um velho editor interroga-se: como sobreviveu? Para quê? Recorda a sua vida, os amigos, a força de algumas ideias, os traumas e os segredos. Por fim, a redenção chega através de um manuscrito e de uma criança. A tecnologia é inexistente. Regressámos ao século XIV, mas os valores: o certo e o errado, o bem e o mal, esses, continuam e prevalecem. Somos solidários com os nossos filhos em tudo, até nos disparates. Com um livro a diferença é apenas uma: este novo livro é mais um que acrescentamos ao caminho da escrita e isso reflecte quem e o que somos de momento. Sem pretensões.

 

Patrícia Reis

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 16.05.11

Dou desde já as boas-vindas à Patrícia Reis, escritora que hoje recebemos com todo o gosto nesta casa - que a partir de hoje é também a casa dela. Do blogue Patrícia Reis.

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Convidado: MANUEL PINHEIRO

por Pedro Correia, em 13.05.11

 

O bombeiro pirómano

 

Entram-nos pela porta juros punitivos da Europa e juros razoáveis do FMI, tudo ao contrário do que seria expectável se tomássemos por base a narrativa do nosso inacreditável PM Sócrates. O que a Europa nos diz com este número é que não aceita o argumento segundo o qual Portugal seria uma espécie de vítima indefesa de uma exterior crise financeira.

Se assim fosse, o que existiria para punir? Sem mecanismos e sem força neste passado recente para impedir preventivamente crises desta natureza, a Europa castiga a posteriori, sinalizando aos países que, se seguirem, como nós seguimos, políticas económicas que nos encostam à parede, não sairão dela sem dor.

 

Do lado do FMI não surpreende a narrativa do PM, porque já nada surpreende nele. Mas ainda surpreende a facilidade com que não é desmentido nos media. O FMI importa-se menos que a Europa no lado punitivo da questão. Essa é aliás a grande crítica que lhe é feita, sobretudo à direita. Robert Barro, um famoso economista de Harvard, sugeriu recentemente que o FMI deveria alterar o seu nome de IMF para IMH - Institute for Moral Hazard - porque, em resumo, o que o FMI faria seria "premiar" má governação económica com empréstimos a taxas simpáticas. A relativa certeza da existência deste mecanismo funcionaria como indutor de risco quer nos governos quer nos bancos, de certa forma acelerando aquilo que se deveria evitar.

 

O que Sócrates nos tentou vender foi o inverso disto, apresentando aquele que é uma espécie de bombeiro financeiro global, o FMI, numa reencarnação do Fahrenheit 451, em que o departamento de bombeiros tinha como missão atear fogos em vez de apagá-los. E o mundo, num delírio auto-destrutivo, compulsivamente chamaria o FMI para dentro das suas portas, suponho. É que, apenas para se ter uma ideia, só no universo de países em vias de desenvolvimento, quase todos receberam pelo menos um empréstimo do FMI. Mesmo do lado da relação entre principais variáveis económicas e intervenção do FMI, estatisticamente o debate não favorece Sócrates. Quando entra o FMI existem um conjunto de condições económicas de crise pelas quais o FMI não pode ser responsabilizado (a não ser marginalmente, se aceitarmos o argumento de Barro), pelo que a relação, por exemplo, entre crescimento económico e FMI só pode ser feita expurgando estas condições. Têm sido feitas algumas tentativas e o sentido delas é que existe uma relação pouco significativa no agregado entre estas duas variáveis, embora puxe para o negativo. Posto tudo na balança (liquidez, estrutura macro, regulação, abertura ao exterior, etc.), a balança pende para o FMI face às alternativas, daí a adesão maciça dos países.

 

A Europa, sem mecanismos preventivos que significariam uma profunda aceleração política na União, e ainda às voltas com a cláusula de "no bailout", tem a vida mais complicada na construção dos seus "pacotes".

Ainda assim, quer a UE quer o FMI vão razoavelmente cumprindo as funções que delas se espera. Já olhando para o nosso PM Sócrates, e contrastando o que deveriam ser as suas funções com os resultados, descobrimos que afinal o verdadeiro bombeiro pirómano foi ele.

 

Manuel Pinheiro

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 13.05.11

Hoje volta a fumar-se cachimbo no DELITO DE OPINIÃO: vamos receber a visita do Manuel Pinheiro. Do blogue Cachimbo de Magritte.

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Convidada: INÊS TEOTÓNIO PEREIRA

por Pedro Correia, em 12.05.11

 

Partido de massas

 

Uma das grandes vantagens de Portugal ter quase 900 anos de História é os portugueses considerarem-se invencíveis, indestrutíveis, irredutíveis, como os gauleses da aldeia do Astérix. Por mais dificuldades, crises ou privações que aqui passem, nós sabemos - aliás, temos a certeza absoluta - de que amanhã ainda cá estamos, que Portugal não acaba e que as crises, as privações e as dificuldades são assim como os romanos: passam. Nós, o país e o povo, somos superiores a eles. É não ligar.

É por isso que em Portugal nada é muito urgente, muito grave ou muito dogmático; é tudo relativo, brando e sereno. Sabemos que fazemos pouca diferença em tantos anos de História, de heroísmos, de epopeias, etc. Vivemos bem dentro da lógica do deixa andar que temos andado bem.

Por aqui as revoluções não têm sangue porque ninguém acredita que o país esteja mesmo em causa; as crises não são encaradas com a gravidade devida porque não vimos mal nenhum em “arrendar” a nossa soberania por uns aninhos a troco de biliões - está mais que visto que nossa soberania nunca se ausenta por muito tempo. Os portugueses não se acham suficientemente especiais, não se consideram com competência suficiente para estoirar definitivamente com um país que sempre existiu. Não somos assim tão bons.

O facto de José Sócrates ter mais 0,005% nas sondagens (os votos da família dele, de Silva Pereira e da família de Silva Pereira) só pode ser por causa desta noção de eternidade dos portugueses. Os portugueses não qualificam de dramático o facto de José Sócrates ser primeiro-ministro. Podem achar mal, podem achar menos mal, mas não consideram este fenómeno uma tragédia, apesar de ser um enorme tragédia. Não estão, vá, em pânico.

Portugal está ligado à máquina por causa de seis anos de governação de José Sócrates. Seis anos apenas. Sócrates mostrou, contrariando a natureza dos portugueses, que tem competência para estoirar com um país; por outro lado, Passos Coelho já nos garantiu que não tem competência para desarmar a bomba. Os portugueses ainda não viram bem o filme, ou já teriam aderido em massa ao CDS. 

 

Inês Teotónio Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 12.05.11

Hoje vem escrever connosco a Inês Teotónio Pereira. Dos blogues A 1 metro do chão e Rua Direita.

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Convidado: MASSANO CARDOSO

por Pedro Correia, em 11.05.11

 

Esperança

 

Gosto de ensinar porque aprendo. Aprender é o meu modo de estar na vida. Refugio-me no conhecimento, na reflexão e tento interpretar o que me cerca, procurando muitas coisas, coisas que nem eu sei o que são, só sei que existem. De quando em vez tropeço nalgumas, que, gentilmente, me abraçam para logo de seguida fugirem rindo-se da minha ingenuidade. Olho e sinto que fico mais rico e mais pobre. Rico de conhecimento e pobre de esperança. Uma estranha associação, quando aumenta um diminui a outra. Mais vale o contrário, ser-se rico de esperança e pobre de conhecimento, a recordar a expressão bíblica “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”. Mas eu não quero ir para o céu, porque não consigo imaginá-lo, e para que serve uma coisa que não se consegue imaginar? Para nada. Aprendi que estou condenado a aprender cada vez mais e a viver cada dia que passa com menos esperança. Resta-me alguma esperança? Claro que ainda tenho uma reserva, pequena, decerto, o suficiente para permitir que embriague os meus sentidos através da leitura, da arte, da contemplação, do trabalho, das vidas de outros, muito mais sofredores do que eu e menos exigentes, quanto a felizes, já não sei, mas, também, não importa. Como qualquer sofredor que se preze, tenho que encontrar uma forma opiácea para mascarar a dor. Afinal é simples e viciante, ouvir e contar histórias. Sento-me com amigos, conhecidos, interlocutores ocasionais e, de repente, uma frase, um acontecimento, uma lembrança desperta o revoltar de cérebros inquietos, e as histórias fluem, lindas, dramáticas, dolorosas, alegres, percorrendo todo o espetro dos sentimentos e emoções humanas. É então que consigo ver o que um ser humano mais deseja, contar, ouvir histórias, e viver a sua própria história, livremente.

O tema das últimas histórias andou ao redor do tempo em que falar era perigoso. Como é que se contavam as histórias se não se podia falar à-vontade? Só às escondidas e com muitas cautelas, e, mesmo assim, as consequências podiam ser terríveis. Há dias ouvi: - Temos de começar a ser mais cautelosos em contar as histórias. - Por quê? Não estamos num país livre! - Pois estamos, mas já não se pode dizer o que queremos. - Não?! - Não, senão podemos sofrer consequências. Veja o que aconteceu a fulano que se pôs a contar a história do antepassado de um superior, que até foi verdade, ninguém pode negar. A história tinha o seu quê de rocambolesco rural, mas foi o suficiente para o contador ter sido prejudicado. A partir daqui o tema parecia uma verdadeira cerejeira carregada de pequenas histórias que íamos consumindo umas atrás de outras, sempre com o mesmo denominador, falar começa a ser perigoso. Não foi difícil de concluir, e transmiti-lhe enfaticamente: - Sabe, meu amigo, ainda não perdi a esperança de um dia ser detido por delito de opinião; para quem tem baixa reserva de esperança é muito preocupante, confesso. Entretanto refugio-me no conhecimento, se é que isso serve para alguma coisa...

 

Massano Cardoso

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 11.05.11

É hora de saudar a chegada do nosso convidado de hoje: Massano Cardoso, do blogue Quarta República.

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Convidada: FILOMENA NAVES

por Pedro Correia, em 10.05.11

 

Desperdício

 

Era um dos miúdos mais pobres da aldeia, mas não foi por isso que deixou uma impressão indelével na jovem professora, que em início de carreira, nos anos 50, tinha sido colocada naquele fim de mundo, perdido no meio da serra. “Foi o meu melhor aluno”, contava ela, muitos anos mais tarde. “O Orlando aprendia com uma facilidade como nunca vi, era extraordinário”. Tão extraordinário que ela tentou por todos os meios que a criança continuasse a estudar depois de ter feito a quarta classe. Infelizmente, apesar de todos os seus esforços e diligências – “sei lá com quantas pessoas falei”, recordava – Orlando ficou por ali. A hipótese do seminário era demasiado longínqua e irreal numa família para a qual mais um par de braços no campo podia ser a diferença entre comer e não comer.

A professora nunca esqueceu o aluno extraordinário, que apesar da apetência e da curiosidade, da rara capacidade de aprendizagem e do seu próprio desejo, tinha ficado pelo caminho. Orlando era uma espécie de derrota dos seus sonhos de jovem professora, recordava-o sempre com alguma mágoa. E sempre dizendo que tinha sido o seu melhor aluno, mesmo depois de muitos anos a ensinar numa escola perto de Lisboa e de muitas outras crianças terem passado pela sua sala de aula.

Então, um dia, aconteceu uma coisa inesperada. Um homem com os seus trinta e pouco anos, acompanhado de uma mulher jovem e de uma criança que não teria mais do que dois ou três anos, bateu-lhe à porta. “Venho visitá-la, senhora professora”, disse o jovem com um grande sorriso. Passada a primeira surpresa, ela não precisou de muito tempo para reconhecer o garoto de quem falava tantas vezes. “Fiz o sétimo ano, a trabalhar e a estudar”, contou-lhe nessa tarde, enquanto segurava o filho nos braços, e sorria feliz. E ela, outra vez professora de Orlando, mas já sem aquela mágoa nos olhos, respondia-lhe, “então agora é a universidade, Orlando, tu tens tantas capacidades”. Ele ria-se. “Isso é mais difícil, com o miúdo e tudo. Vamos ver, vamos ver”.

Não sei se Orlando chegou a fazer a universidade, ele não voltou a casa da antiga professora. Mas também não precisava. O essencial estava cumprido: tinha continuado a estudar, procurara-a para lho dizer, a professora podia ficar tranquila. E sei que ficou, conheci-a bem. Mas lembrei-me desta história no outro dia, quando me contaram que há jovens numa zona industrial do centro do país a anular as matrículas no ensino secundário. Os pais ficaram desempregados, com a falência de várias empresas na região, e eles precisam de procurar trabalho para ajudar as famílias. Uma professora não escondia a angústia por as novas situações de pobreza obrigarem estes adolescentes a abandonar a escola e falava com mágoa do enorme desperdício, perante o qual se sentia impotente. Talvez um dia, daqui a uns anos, essa professora receba a visita inesperada de um jovem adulto, para lhe contar que conseguiu completar o 12º ano, à custa de um esforço, que hoje, 37 anos depois do 25 de Abril, não devia ser uma necessidade. Ou talvez isso não chegue sequer a acontecer.

 

Filomena Naves

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 10.05.11

Hoje recebemos a visita da Filomena Naves, do blogue Emoções Básicas. Bem-vinda!

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 09.05.11

Dou as boas-vindas à nossa convidada de hoje: é a Francisca Prieto, do blogue Albergue Espanhol.

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Convidado: RUI CARMO

por Pedro Correia, em 06.05.11

 

A Primavera árabe

 

É à primeira vista a concretização de vários sonhos: o sonho conservador: depois do Iraque, caem os regimes seculares mais ou menos déspotas; e vários sonhos liberais através da “escolha interna” da democracia, do  “rule of law” e  do primado do mercado na economia. A ideia de um mercado livre de Marrocos à Indonésia podia ser um desejável culminar destes sonhos. Embora a teoria psico-analítica os possa explicar, aqueles sonhos não são mais do que uma caricatura em traços desajeitados da realidade. O primeiro choque ocorre quando, por força da gravidade que nos cola à Terra, se abandona a ideia que todos os movimentos, países e povos pretendem alcançar os mesmos objectivos e da mesma forma. O segundo alerta passa por perceber como pode a democracia, tal como o Ocidente a concebe, nascer, crescer, florescer e frutificar quando se encontra dependente da existência de um clero apoiado pelos exércitos (ou vice-versa), capaz de administrar a lei e governar. Provavelmente além das transições políticas. Nem todas as revoluções têm como base os interesses corporativos que levaram ao nosso 25 de Abril. E passando os olhos pela história das revolucões francesa, russa ou americana, percebe-se que são  raras as revoluções pacíficas. E as que “aconteceram” resultaram na introdução das democracias nos estado-nação em 1848, no renascimento do capitalismo em 1968 e no fim do comunismo em 1989.

O certo é que desde Marrocos até ao Irão assiste-se a uma onda de instabilidade, potenciada pela crise económica e desespero quanto ao futuro de uma larga faixa das populações de Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egipto, Síria, Irão e Yémen. Em comum estes povos, importa lembrar, têm a não existência de “direitos” políticos e económicos – e por eles aspiram e insurgem-se. Todos aqueles países (ou quase) foram beber inspiração estrutural no socialismo soviético.  Destas “revoluções” não se espere uma mudança tal que leve a uma transformação radical do islão político.

A primeira conclusão a que se pode chegar é que estes “movimentos” são uma resposta aos ex-revolucionários que  governam, não só por parte da “juventude” desiludida que foi a primeira a enfrentar as prisões e as balas mas por todo o resto do povo. A segunda conclusão é que sairão vencedores aqueles “novos revolucionários” que mesmo sendo uma minoria se apresentem bem organizados. Imaginando mas não desejando que de algumas destas revoluções acabem por subir ao poder os islamitas, é possível pensar que as gerações futuras irão tirá-las do poder, tal como aconteceu com o comunismo. Com que custos? No caso,  só Deus e os próprios saberão o que estão dispostos a pagar...

A terceira conclusão é que a Primavera árabe não teve início na imolação de um desempregado mas nos acontecimentos do Líbano em 2005. Assistimos à plantação de  algumas sementes. O tempo dirá se frutificaram e quais as de melhor sabor e qualidade.

 

Rui Carmo

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 06.05.11

Tenho o prazer de anunciar que hoje vamos receber a visita do Rui Carmo, do blogue O Insurgente.

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Convidado: PEDRO ADÃO E SILVA

por Pedro Correia, em 05.05.11

 

A pobreza da opinião

 

Sou um consumidor compulsivo de informação e, como sempre me acontece quando passo grandes temporadas fora de Portugal, não demora muito tempo até passar a seguir dois ciclos noticiosos com a mesma atenção. Mas, tendo vivido em Inglaterra e em Itália, nunca como agora que estou nos EUA senti tanta diferença entre o que leio cá e o que leio de Portugal. Como é natural, as diferenças são evidentes nos artigos sobre política internacional ou até no menor número de notícias tratadas nos noticiários televisivos (mas, também, cada uma delas mais aprofundadas). Mas onde encontro maiores diferenças é na opinião.

A análise pode ser enviesada porque, no essencial, leio dois jornais todos os dias, o Washington Post e o New York Times e, com menor atenção, vou lendo coisas através do realclearpolitics e do realclearworld. Acontece que não passa um dia sem que aprenda alguma coisa com a opinião que leio aqui; já com a que leio em Portugal, fico apenas a saber a opinião (aliás, previsível) do autor. Contra mim falo, pois sou beneficiário activo do sistema protegido que impera entre nós. Em Portugal, as colunas de opinião ou assentam na ideia estrambólica de que quem escreve opinião tem de ter rasgo literário (o que explica a sobrevivência de colunistas onde o brilhantismo estilístico serve para esconder a preguiça intelectual) ou limitam-se a um conjunto de afirmações que dispensam sustentação ou, pior ainda, dependem de um par de trocadilhos combinados com uma ou duas frases de belo efeito, preferivelmente no registo engraçadinho que tem feito escola. Quando a opinião deveria partir da defesa de um argumento com base em factos, ideias ou conhecimento disponível (por exemplo académico), o que nos é oferecido em Portugal é, frequentemente, um exercício preguiçoso baseado na fulanização, em processos de intenção e na desvalorização da capacidade de raciocínio.

 

 

Da esquerda à direita, nos EUA é possível ler todos os dias artigos que preenchem todos estes requisitos. Por exemplo, David Brooks, mais à direita, no NY Times, faz um trabalho notável de sistematização de conhecimento científico nas ciências sociais, mostrando a sua relevância para o debate da actualidade (não seria possível alguém fazer o mesmo em Portugal?). Nicholas D. Kristof ou Thomas Friedman, ambos no NY Times, que normalmente estão literalmente no epicentro geográfico dos acontecimentos, mostram as vantagens de opinar sobre o que se conhece de facto (bem sei, uma impossibilidade nos media portugueses, onde os recursos são escassos e todos os dias cresce a importância do jornalismo de secretária, baseado em dois ou três telefonemas para politólogos, feitos por jornalistas com salários abaixo dos mil euros). Anne Applebaum, David Ignatius ou Dana Milibank no Washington Post têm sempre ângulos analíticos informados, que depois tendem a desenvolver em livros de maior fôlego. Já para não falar da New York Review of Books que, no seu cosmopolitismo, sofisticação intelectual e argumentativa, é, como com justiça escreveu Tony Judt, um dos três principais activos norte-americanos (os outros são o Thomas Jefferson e o Chuck Berry). Estes são apenas alguns exemplos, mas há naturalmente muito mais. Pode parecer uma constatação algo ingénua, mas para quem se alimenta da curiosidade intelectual há uma diferença entre aprender com a opinião, principalmente com aquela de que se discorda, como me acontece aqui nos EUA, e todos os dias, quando leio na net os jornais portugueses, ficar entristecido com a pobreza intelectual do debate no espaço público em Portugal. 

Há, é evidente, boas explicações para as diferenças. A primeira é cultural: pura e simplesmente o espaço público em Portugal não beneficiou da influência anglo-saxónica e da cultura analítica que lhe está associada. Há também um problema de escala (somos demasiado pequenos) que se traduz em limitações materiais: não há recursos para investir na profissionalização do jornalismo, quanto mais da opinião. Contudo, não estamos perante desculpas suficientes.

Hoje, por exemplo, fico com a impressão que se um alienígena visitasse Portugal não deixaria de ficar surpreendido com a centralidade que Sócrates ocupa na opinião. E, quando digo centralidade de Sócrates, não falo das suas políticas, dos seus erros ou falhanços, mas dele próprio. É, por exemplo, uma tarefa hercúlea encontrar uma análise baseada em critérios racionais sobre a política portuguesa que inclua o primeiro-ministro. O que nos é oferecido é fulanização da opinião, apenas mais um sintoma da pobreza do debate. Dir-me-ão: Sócrates é responsável por o clima actual, no qual ele se tornou o centro de tudo. Peço desculpa, mas atribuir as responsabilidades deste contexto a Sócrates talvez seja conceder-lhe uma importância que um primeiro-ministro não pode ter, ao mesmo tempo que se desvaloriza dinâmicas bem mais estruturais que a alegada centralidade de Sócrates procurar esconder. Na verdade, há dias em que temo pelo futuro profissional daqueles que hoje vivem obcecados com Sócrates, mas, pensando bem, têm o futuro assegurado. Quando Sócrates deixar de estar no centro do mundo político português, passarão a dedicar igual atenção a outro protagonista. Quanto a quem é leitor, pode ficar com uma certeza, a pobreza do debate reproduzir-se-á.

 

Pedro Adão e Silva

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 05.05.11

Vem dos Estados Unidos o nosso convidado de hoje. É o Pedro Adão e Silva, do blogue Léxico Familiar, a quem tenho o prazer de dar já as boas-vindas.

 

ADENDA: Este é o texto número 200 que publicamos nesta série, iniciada em Junho de 2010. Uma série de que nos podemos orgulhar, pois é única na blogosfera portuguesa: pela longevidade, pela diversidade dos autores e pela qualidade dos textos.

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Convidado: EDUARDO SARAIVA

por Pedro Correia, em 04.05.11

 

Planeta Terra - a nossa casa

 

Na minha vida, por “culpa” do meu primo Félix Correia [pai do Pedro Correia], abracei a profissão associada ao desporto e a causa da Natureza. O Félix, que foi um grande desportista, desde cedo me incutiu o gosto pelo desporto e, simultaneamente, com os passeios pela Serra da Gardunha, sensibilizou-me para a defesa da Natureza.

Acedendo ao convite do Pedro, escolhi o tema Planeta Terra - A Nossa Casa, deixando algumas considerações e um convite.

“O mundo está a aproximar-se velozmente do fim”, assim disse o arcebispo de Wulfstan, num sermão proferido em York, no ano de 1014. Passados 997 anos, estas palavras parecem estar actuais. Este mundo em que vivemos, no princípio do século XXI, será realmente diferente do que foi em outras épocas?

Estou convencido que sim e tenho fortes razões para pensar que estamos a viver um período histórico de transição muito importante.

A poluição, o meio ambiente, a ecologia são temas que há pouco tempo prenderam a atenção dos cientistas. Por vezes, os homens, apesar de terem consciência das ameaças que os rodeiam, continuam desconfiados das consequências que daí podem resultar.

Depois de termos assistido ao homem a pisar o solo lunar (passaram 42 anos sobre essa maravilhosa “aventura” cientifica) onde, presentemente, a ida dos foguetões à Lua parece entrar no dia-a-dia das pessoas, é importante que o homem tome consciência do seu meio ambiente.

Jim Lovell, tripulante da Apolo 8, em 1968, ao regressar à Terra, declarou: “Por um instante, a Terra dá a noção de como somos insignificantes, frágeis e felizes por termos um lugar que nos permite aproveitar o céu, as árvores e a água.”

No espaço, a visão mais impressionante é a do grande Planeta Azul, como se ele se desse a conhecer, verdadeiramente, pela primeira vez. Pouco mais de uma dezena de privilegiados, nos últimos anos, tiveram acesso a esse “encontro a sós”. Mas todos são unânimes. . . é o nosso grande único bem.

 

 

Por isso, a realização da reunião internacional que permitiu o acordo para o Protocolo de Quioto teve um papel importante para se alcançar o equilíbrio para esta nossa casa, que é o Planeta Terra. O Protocolo constitui-se de um Tratado de âmbito internacional com compromissos mais rígidos para a redução da emissão dos gases que provocam o efeito estufa, considerados na maioria das investigações cientificas como causa do “aquecimento global e das actuais mudanças climáticas”.

Até hoje, houve países que ratificaram o tratado de Quioto; países que o ratificaram, mas ainda não cumpriram o Protocolo; países que não ratificaram e países que não assumiram nenhuma posição.

Na última reunião do G8 começou a vislumbrar-se uma luz ao fundo do túnel. Esperamos que essa luz possa, em breve, iluminar todo o túnel.

Em minha opinião, acho que é preciso uma grande harmonização mundial. Na Europa há um défice de líderes fortes que façam frente a interesses pessoais e individuais, em defesa dos valores humanistas, pois a União Europeia, hoje um espaço com 27 Estados membros, tem que defender valores que permitam ao Homem não entrar em “guerra” com a Natureza.

Sou Presidente dos Caminheiros da Gardunha – Grupo de Interesse pela Natureza (Fundão) onde um dos objectivos é proteger e preservar o meio ambiente e defender a Gardunha, usufruindo do contacto com a Natureza em saudáveis caminhadas e passeios pedestres.

“A Serra da Gardunha é o pulmão verde da nossa cidade” é o slogan mais utilizado pelos caminheiros.

Creio ser um princípio que espelha muito bem a acção desta colectividade, à qual me orgulho de pertencer. Tentamos estar sempre atentos à preservação do ecossistema da nossa região.

A defesa do Planeta é um combate que vale a pena travar, pois pode ser a garantia de um futuro diferente e melhor, de forma a contrariarmos as palavras do arcebispo Wulfstan e a previsão de Louis Armond: “O futuro avança contra nós.”

Deixem-me lembrar um provérbio índio:

“Nós não herdámos a terra dos nossos antepassados, pedimo-la emprestada aos nossos filhos."

 

 

Por tudo isto, quero estar no futuro, defendendo e assumindo-me como um “militante” na defesa do Planeta Terra – a nossa casa.

Acompanhem-me nesta militância, e deixo-vos o seguinte convite:

No próximo dia 22 de Maio, os Caminheiros da Gardunha organizam o 8º Encontro Nacional de Caminheiros com o tema “Passeio nas Cerejeiras”, período em que, no Fundão, a “cereja é rainha”. A caminhada, de 8 Km, realiza-se nas faldas da Gardunha e permitirá um contacto directo com as cerejas e proporcionará, também, o contacto com uma diversificada flora – castanheiros, pinheiros, carqueja, urze, tojo, mimosas e o contacto agradável com a água corrente.

Não fiquem em casa. Venham confraternizar e “papar léguas” com os Caminheiros da Gardunha.

 

Eduardo Saraiva

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