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Convidada: CATARINA DUARTE

por Pedro Correia, em 20.09.17

 

O respeito pelo direito à diferença obriga-nos a todos a pensar igual?

  

Os temas são lançados, a grande velocidade, na nossa sociedade: poucas vezes debatidos onde devem ser; muitas vezes falados, com alguma leviandade até, nos cafés do mundo digital, onde se tornam virais. 

Ao longo dos últimos anos, temos vindo a abordar assuntos muito relevantes, alguns deles quase fracturantes, numa sociedade tida como tradicional e conservadora, que permaneceu, durante muitos e muitos anos, fechada sobre si mesma e que se viu, de um momento para o outro, com um mundo inteiro de questões pela frente.

 

Temas como o aborto, o casamento e a adopção por casais do mesmo sexo, temas como a eutanásia, como as barrigas de aluguer, são apenas alguns exemplos das muitas questões que devem ser debatidas de forma séria.

Há quem concorde, há quem coloque dúvidas, há quem não disponha de toda a informação ou de todo o conhecimento necessário para poder opinar com conhecimento de causa mas há também quem, apesar de ter toda a informação do seu lado, simplesmente, não concorde. E estas pessoas, aquelas que não concordam, são, muitas vezes, mal tratadas e perseguidas.

 

Nos cafés virtuais, mas também na vida de todos os dias, ninguém se dedica a perceber a origem dos seus receios, quando é precisamente nessas interrogações que uma sociedade - que ainda está a aprender como funciona isto de ser democrata - evolui.

Qualquer de nós, para qualquer assunto, pode ser a excepção para determinada regra. É, por isso, importante dar voz a todos e a todos dar a oportunidade de pensar e dizer o que, concretamente, pretendem transmitir, sem qualquer tipo de represália, sem qualquer tipo de receio, sem qualquer tipo de censura.

 

Hoje, se quisermos pertencer ao grupo dos fixes, os tais que, nos cafés virtuais, se sentam na mesa do fundo a fumar cigarros e a beber café, a nossa opinião tem que ser a favor do ciclo da sociedade. Caso contrário, somos recambiados para o galão fraquinho e para a torrada com pouca manteiga.

Estamos muito sensibilizados quanto às questões das minorias e, de repente, toda e qualquer opinião passou a ser imposta às maiorias. Impingimos as nossas crenças e os nossos valores, forçamos a igualdade na forma de ser e na forma de estar e, pior, caminhamos para impor a igualdade de pensamento!

 

No final do dia, a perseguição é feita ao homem pelas suas ideias e eu concluo sempre: tanto queremos respeitar o direito à diferença que obrigamos todos a pensar igual.

 

 

Catarina Duarte

(blogue INSENSATEZ)

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Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

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Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 18.09.17

 

A primazia do individual sobre o colectivo

  

A esquerda encontra no Estado resposta para todos os problemas, aumentando sucessivamente a carga fiscal em nome do chamado Estado social, deixando os cidadãos sem metade do salário supostamente para garantir serviços de saúde e educação tendencialmente gratuitos, mas os portugueses continuam a gastar boa parte da outra metade do salário, precisamente em despesas com saúde e educação. Pelo meio vão atendendo aos interesses corporativos instalados, garantindo a chamada paz social, que não serve a todos, mas satisfaz os que têm capacidade de encher as ruas, berrando de megafone em punho.

Alguns radicais culpam o capitalismo e reclamam ainda mais Estado, para colmatar as insuficiências do sistema. Outros mais cínicos afirmam ser possível reformar, mas se cortam um imposto para efeitos propagandísticos ou satisfação da clientela, logo em seguida sobem outro, enquanto aumentam alguns cêntimos pensões e salários, procurando conquistar votos, mas no final o resultado líquido é sempre o mesmo, dívida e carga fiscal não param de crescer. Como se não bastasse, o Estado ainda serve para albergar familiares, amigos e correligionários políticos, auferindo salários acima da média e boa parte deles com emprego para a vida garantido. Enquanto o contribuinte tiver alguma disponibilidade no bolso, imaginação não faltará aos parasitas.

 

Seria suposto o Estado garantir segurança aos cidadãos, mas sobre isso estamos à partida conversados, viu-se agora no Verão o resultado dos incêndios, deixando a nu as ineficiências do Estado.

Em matéria de segurança criminal e justiça ainda é pior. Vários complexos típicos da esquerda tendem a desculpabilizar ou mesmo justificar comportamentos criminosos individuais. Acresce a tudo isto um sistema judicial moroso que ninguém ousa reformar, tornando Portugal um case-study. A memória do Estado Novo ainda não se apagou e há quem pretenda confundir autoridade das forças policiais com repressão. Falam em combater a corrupção, mas comparem o tempo que os EUA precisaram para julgar e condenar Madoff com o tempo que Portugal precisa para sentar um banqueiro ou político no banco dos réus. Apenas infracções de trânsito e evasões fiscais são tratadas de forma célere, muitas vezes demasiado céleres, sem garantir os direitos de defesa, tudo o resto é moroso.

 

Todos concordam na necessidade de descentralizar, aproximar os centros de decisão política dos cidadãos, mas ninguém ousa reformar de forma séria o mapa autárquico. A redução do número de freguesias foi imposta pela troika, ou não teria avançado, o número de municípios permanece intocável e se forem mexer será para aumentar. A não ser talvez, que num futuro não muito distante, Portugal seja obrigado a solicitar novo resgate. Porque há nos partidos militantes a precisarem de emprego como presidentes de câmara, vereadores ou assessores e mais alguns ainda para trabalhar nos diferentes serviços municipais.

Tenho para mim que num país da dimensão de Portugal bastariam cem municípios e talvez umas mil freguesias. Mas alguém acredita que será possível reformar profunda e eficazmente o Estado sem enfrentar uma contestação brutal? Basta encerrar um Tribunal, serviço de hospital, estação de correios ou balcão da CGD para se instalar a berraria.

 

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À direita, em bom rigor poucos se assumem como direita, a maior parte dos políticos nessa área dizem-se sociais-democratas ou democratas-cristãos, para atrair votos da esquerda moderada, o que até não está mal de todo, uma vez que instalados no poder fazem exactamente o mesmo que os socialistas, mas sem contarem com a benevolência de boa parte das redacções nos media ou das corporações. No fundo são versões light do socialismo.

Liberal na economia, conservador nos costumes, ultimamente em Portugal alguma direita traça este auto-retrato. Alguém que pretenda para si Liberdade mas não a conceda aos outros será seguramente um hipócrita, sabendo à partida que da esquerda não se pode esperar muito nesta matéria. É triste constatar que da direita também não.

O nazismo é proibido ou tendencialmente silenciado ao contrário do comunismo. Num contexto de atentados terroristas de inspiração islâmica, não falta à direita quem pretenda colocar barreiras à imigração. Quanto a mim todas as ideologias e religiões devem ser permitidas e toleradas. Pouco me importa que defendam Hitler, Estaline ou Mao. Que adorem Alá, Jesus Cristo ou até o Diabo se preferirem. São os comportamentos criminosos, individuais ou de grupo que devem ser perseguidos e reprimidos, nunca a convicção ou pensamento. A Liberdade tem essa superioridade moral: quem verdadeiramente a ama e pratica, defende-a até dos que pretendem suprimi-la.

 

Também não me revejo nos que à direita se dizem liberais na economia, mas defendem subsídios para a tourada em nome da tradição. Não gosto dos anti-tourada, aliás, não gosto dos anti seja o que for, a tourada existe e deve existir enquanto existirem espectadores. Qual a moral de criticar um subsídio para o cinema, teatro ou qualquer actividade que a esquerda habitualmente considera de interesse público, mesmo que não interesse ao público, forçando que todos a paguem e depois fazer exactamente o mesmo? Não se pode defender o mercado e apregoar suas virtudes apenas às segundas, quartas e sextas.

Se a Liberdade é virtuosa, porque terei que continuar aceitando que o Estado defina as substâncias que posso ou não consumir? Os efeitos do álcool são assim tão diferentes da cannabis ou mesmo cocaína? Conduzir sob efeitos que limitam o comportamento será diferente, porque não somos da via, apenas a partilhamos com outros, fora disso cada um tem o direito de fazer o que quer. Até porque já o faz. Hipocritamente os governos combatem e proíbem a droga, mas alguém que pretende consumir determinada substância não a consegue adquirir?

 

O comportamento sexual de cada um é com cada um. Não quero saber da conversa da esquerda reivindicando direitos para grupos específicos, gostaria sim de ver os que se dizem liberais defendendo a Liberdade plena de todos os indivíduos. Porque a questão de fundo é a primazia do individual sobre o colectivo. A esquerda funciona numa lógica grupal, colectiva, por isso amarra pessoas a rótulos, os conservadores fazem o mesmo, apenas consideram existir grupos bons e grupos maus, oferecendo à esquerda os votos da causa. Esquecem ambos que os direitos não são colectivos, mas individuais.

O insuportável politicamente correcto deve ser combatido porque configura a perda da Liberdade, da individualidade, pretende impor à sociedade uma normalização que por vezes até a faz parecer um rebanho. Nada de novo, o velho socialismo sempre colocou o colectivo acima do indivíduo, obtendo o desastroso resultado que todos conhecemos.

A esquerda não pode ser combatida apontando os seus erros e incompetências, mas defendendo a Liberdade em todas as suas vertentes. Ao contrário do que alguma direita defende, não se podem abrir excepções: a Liberdade precisa ser total e não condicional.

 

 

António de Almeida

(blogue AVENTAR)

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Convidada: CARLA MAIA DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 15.09.17

 

Religações

  

Tenho um cinto de couro que comprei há anos, e tenciono usá-lo até que se gaste e morra de morte natural. Tenho um único cinto; tal como só tenho um par de óculos de sol, um relógio (que não uso), uma gabardine, um guarda-chuva, uma carteira, uma mochila, umas havaianas, um cartão de telemóvel e um carregador de bateria. Não vejo necessidade de acumular acessórios de difícil arrumação e utilidade duvidosa. A ideia de «ir às compras» aborrece-me. Se quiserem torturar-me, convidem-me a passear num centro comercial, em demanda de roupas ou sapatos, e peçam-me opinião sobre a matéria. Em menos de cinco minutos, simularei um ataque de hipoglicemia e sairei da terceira loja com ar desvairado.

 

No último inverno, a presilha soltou-se. Deixei a coisa andar, até que o cinto se começou a parecer com a orelha caída de um basset hound, e achei por bem impor limites à minha preguiça. Procurei um sapateiro e perguntei-lhe se o paciente tinha conserto. O homem, já velhote, disse que sim, que não era grave. Pegou em agulha e linha e pôs-se a coser a presilha, cheio de paciência e vagar.

 

Fazia frio. Começámos a falar sobre comida, para aquecer a alma. Ele contou-me do bife que dava para quatro pessoas, e que a mãe dele desfiava num arroz malandrinho, apaladado com salsa picada e cenoura às rodelas. Eu contei-lhe do rancho que se fazia em casa da minha avó materna, um rancho como nunca mais provei, com bofes e tudo. Então, ele levantou os olhos e perguntou:

— A menina é do norte?

— Sou. Como é que sabe? Não tenho sotaque.

— É que só lá é que se diz «bofes»...

— ... e se tratam as senhoras por «menina».

 

Continuámos a conversa, agora estreitada por laços geográficos. Ao nosso lado, as pessoas entravam e saíam, na voracidade das manhãs urbanas, inquirindo os preços das palmilhas, duplicados de chaves, tacões e meias-solas. Aconcheguei-me no conforto de uma certa invisibilidade temporária.

 

Quando acabou o trabalho, entregou-me o cinto: «Está pronto.» Não aceitou dinheiro. Insisti, sem sucesso. Despedimo-nos com um sorriso, desejei-lhe um bom dia e agradeci-lhe outra vez.

 

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Saí para a rua e atirei-me ao frio como gato a bofe, corajosamente. Tenho a certeza de que o resto do dia me correu bem. Sentia-me animada, grata, ligada ao mundo por um encontro generoso. Registei tudo no meu caderninho preto, cujo título é: «Primeiro a bota, depois a meia» (um dia, também vos conto esta história).

 

O cinto ainda vai durar mais uns anos, aposto. A memória deste encontro durará muito mais. Não é uma opinião, é um sentimento.

 

 

Carla Maia de Almeida

(blogue O JARDIM ASSOMBRADO)

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Convidado: BRUNO SANTOS

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Rosas do abismo

  

Parece que a nova moda entre uma certa inteligência nacional é espalhar a ideia, não só de que Portugal é um país racista, mas também que toda a sua História é uma expressão antiga, intemporal, desse racismo.

Este ataque ao carácter da Nação e ao seu legado é uma forma de revisionismo, de falsificação histórica e ocultação, que pretende apagar da memória colectiva, principalmente da que servirá as novas gerações, o verdadeiro sentido do projecto Português no mundo e os pilares da sua identidade. Pretende, no fundo, armadilhar o futuro, esvaziando o céu de uma terra que há muito perdeu o chão.

Nenhuma das grandes nações da História está isenta de erro e a evolução da Humanidade sobre o planeta tem sido feita à custa de conquistas, de desastres, de luta pela sobrevivência ou pelo poder, de busca da Paz ou da guerra. Mas o contributo dado por Portugal, ao longo de toda a sua História, para a aproximação dos povos, para o conhecimento do Homem pela descoberta do Outro, ficou bem expresso na saga dos Descobrimentos, quando o nosso país liderou um movimento civilizacional de amplitude global, que permitiu a expansão do mundo sobre si mesmo e a abertura de horizontes com os quais a humanidade não sonhava.

O Projecto Áureo português foi bem mais do que a construção de um simples império colonial. Ele representou a expressão plena de um universalismo afectivo e de uma Alma infinita que se contemplava a si própria em qualquer lugar da Terra, do Brasil à Índia, do Tibete a Timor. E ainda que a força do poder e o poder da força tenham muitas vezes sido usados nos diferentes alhures onde chegou a ânsia de conquista - que mais do que do outro, foi a ânsia de conquista de si próprio - o que nesses lugares deixámos de mais importante, porque mais vivo e vivificante, foi a marca indelével de uma comunidade de afectos reunida em torno de uma utopia espiritual. Por isso há hoje portugueses espalhados por todo o mundo. Portugueses de todas as cores, de todas as raças e línguas, de todos os credos e nações. Por isso hoje a Esfera Armilar permanece na bandeira que nos representa, como símbolo de uma vocação fraternal perene e tradução oculta de um lema que fez de Portugal e dos portugueses dignos capitães de uma saga maior, em busca da Verdade, da Justiça e da Paz (Aleph, Daleth, Shin).

 

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Por isso também resiste nos atlânticos Açores a Ave encimando a esfera do Mundo, sobre a Coroa do seu Imperador - a Criança ou o Pobre - trazidos como luz eterna à noite escura do século pela Rainha da Rosa e pelo Rei que nos lavrou na Alma um destino tanto mais belo quanto incompreensível e sofrido. Sabeis novas do meu amigo? Ai Deus e o é?

Vive em todos os povos, porque é constitutivo do humano, a chaga do preconceito, da ignorância e do temor ao outro. Mas poucos foram esses povos, ao longo de séculos e séculos de desventuras, que como os portugueses buscaram nesse outro a razão de si próprios, vendo neles, reflectida como num espelho, a inocência de um Império intraduzível, sem espaço nem tempo, cujo monarca único é o Amor.

Não. Portugal não foi, não é e não será, por muito que os seus detractores o tentem impor, um país racista. Dorme, é verdade, um sono de morte. Um sono fundo, comatoso, povoado de sonhos lúgubres e dantescos, onde ladrões e necromantes dançam e riem em torno dos círculos infernais. É verdade que Portugal é hoje um espectro, uma sombra, um esquecimento. Mas brilha teimosamente no peito desse espectro "uma pequenina luz bruxuleante", um vestígio tenaz da sua Alma Eterna que será, se assim Deus o quiser, quem iluminará o caminho da noite e encherá de rosas o abismo.

 

 

Bruno Santos

(blogue AVENTAR)

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Convidada: ANAMAR

por Pedro Correia, em 11.09.17

 

Em Setembro...

  

O que diria Raul Brandão, se voltasse a este mundo, e visse os queridos lisboetas incomodados com tantos turistas?

São euros, senhores,  são "euro milhões"...

Foi este escritor tão realista como lírico que me ajudou há alguns anos a descobrir o significado da expressão "vai-te embora ó mês de Agosto".

Era uma expressão lá muito de casa, dita pelo meu pai, quando havia alguma contrariedade ou alguém o aborrecia.

Estamos situados na Figueira da Foz, cidade-mãe da que foi considerada, até fins dos anos 70 do século passado, Rainha das Praias de Portugal, praia da Claridade.

Raul Brandão mostrou-me o caminho. Escreveu que considerava os figueirenses pouco hospitaleiros e arrogantes para com os veraneantes, por lhes ocuparem os espaços de casa, pois ao alugar iam viver para anexos, a ocupação de ruas, cafés e esplanadas e tudo o mais que alimenta uma estância balnear e os levava a expressarem-se dessa maneira.

Junho, Julho e Agosto eram plenos, Setembro  trazia os banhistas de alforge, que pela sua simplicidade não traziam mal ao seu "mundinho". (Conhecer a Figueira do século passado é uma riqueza no maravilhoso livro de Jorge de Sena "Sinais de Fogo").

O ADN dos habitantes de uma região é para a vida... Não deixa de ser estranho que os figueirenses, ainda hoje, continuem a pensar da mesma forma, mas em escala menor, na proporção dos banhistas que recebem, que são muito menos, oriundos de Coimbra e Beira Interior, nostálgicos  de um passado que também foi meu, mas não pratico e resumido ao mês de Agosto.

Outrora, alugar casas três meses seguidos era a verdadeira "almofada de conforto" numa cidade de turismo e pesca.

As boas vias de comunicação permitem que as pessoas façam praia e voltem a casa. Mais baratinho...

Bom, este é um "delito de opinião"... que faz de mim uma filha esconjurada pelos detractores da cidade. 

Eu continuo a dizer "vai-te embora ó mês de Agosto", mas porque gosto muito de Setembro. 

 

 

 

Anamar

(blogue MAR À VISTA)

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Convidada: CÁTIA MADEIRA

por Pedro Correia, em 06.09.17

 

Não é feliz? Ai que horror!

  

Vivemos numa espécie de Síndrome de Felicidade, em que o êxtase com o que somos tem de estar sempre num qualquer pináculo de satisfação que pouco se entende.

Quando era miúda não havia redes sociais. Quando só tínhamos quatro canais e a TV por cabo era um privilégio de muito poucos, nesse tempo não se falava de felicidade. Não havia questionários com o nível de felicidade. A publicidade não vendia a bendita de forma tão explicita e nós também não nos preocupávamos tanto com ela.

A vida vivia-se com o que existia. Todos sabiam que havia momentos do “tem de ser”, em que a felicidade está tudo menos presente; os momentos de castigo, os de insatisfação, os de inveja, os de ciúme, os de levar uma lambada na cara e engolir o choro acompanhado de lágrimas fingindo não ter sentido nada. Depois existiam os momentos em que estávamos contentes.

Hoje a felicidade é um objectivo, um projecto, um “goal” (para os que preferem em inglês). Ser feliz é para alguns uma opção, uma escolha. A mim parece-me que aquilo que me tentam fazer assimilar se parece cada vez mais uma obrigação. Sorrir, mesmo em dor.

Parece que todos temos de estar sempre a encontrar motivos para esfregar felicidade em face alheia. Sobrando-nos os momentos do sofrimento colectivo, aqueles em que se colocam sinais de luto no Facebook por conta de uma tragédia nacional. Ou aqueles em que mostramos enraivecidos porque um país alheio escolheu mal o seu presidente.

De resto, tudo no nosso pequeno mundo corre na perfeição, afinal de contas depende apenas das nossas escolhas e da nossa vontade. As restantes frustrações são apenas histórias mal resolvidas.

 

Jamais no tempo de minha mãezinha alguém se lembraria de querer validar a qualidade do valor do leite que vendia pelo nível de felicidade das vacas. Hoje, uma conhecida marca de lacticínios usa exactamente esse rótulo para garantir que o seu produto é o melhor do mercado.

Pergunto-me quem terá feito o questionário às vacas. Penso cá com os meus botões se alguém enviou por e-mail um questionário, ao estilo Marktest, daqueles com mais de 50 perguntas, para que as vacas fizessem uma avaliação ao seu nível de felicidade. Mais uma vez, para quem prefere estrangeirismos, a vaca faria um “assessment”.

A vaca, depois de um dia a dar leite a troco de um fardo de palha, abre o e-mail e depara-se com cinco dezenas de perguntas às quais deve responder de: “mu” a “muuuuuuuuuuuuuuu”, sendo que “mu” corresponde a “discordo completamente” e “muuuuuuuuuuuuuuu” corresponde a “concordo completamente”.

A felicidade serve para vender tudo, até correntes banhadas a ouro com uma pedra pendurada na ponta.

Quando ouço alguém afirmar que a felicidade é uma escolha dou comigo a ruminar: “como será a vida desta pessoa? Que raio de obstáculos terá encontrado?”, é provável que poucos, é possível que nenhuns, ficando no fim da linha a hipótese de ter encontrado uma qualquer espécie de life coach (que são aquelas pessoas que para aí andam a ensinar os outros a viver) que lhe deu a receita mágica.

 

Mas não há nada como olhar para um caso prático. Concordam?

Olhemos então com atenção para a Clotilde Maria.

 

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A Clotilde Maria levanta-se às 5:30 da manhã, come qualquer coisa sem lacticínios e sem glúten. Tira o pijama apesar do frio e veste o equipamento de corrida. Quando saí à rua está um frio de rachar, sente-se tentada a voltar para a cama, mas ontem, sob o sentimento de “motivada” tinha já dito no Facebook que hoje corria logo pela manhã. No fim do seu texto inspiracional estava um #noexcuses.

Ao fim de 3 km já estava arrumada mas castigou o corpo mais um pouco, afinal de contas não se tinha esquecido de ligar a aplicação e podia publicar na sua conta os quilómetros percorridos. No fim, sem estar certa se desmaiaria ou não, publicou o feito. Uma foto do seu relógio xpto para acompanhar. Tirou várias selfies, mas desistiu, em todas estava capaz de vomitar. Assim não seria motivadora. Publicou tudo com um “a sentir-se feliz”, concluindo com um simples #nopainnogain e uma frase “vale tanto a pena começar o dia assim”. Até chegar a casa recebe pelo menos 10 gostos das amigas que a invejam no trabalho, as mesmas que lhe passam o dia a dizer “quem me dera ter coragem”. As que ainda estarão na cama a esta hora.

O dia passa sem nada de bom para contar. Mal viu o filho pequeno que entretanto o marido já deixou no colégio. Não falou com o marido porque este tinha uma reunião cedo e correu para os transportes. O autocarro atrasou-se, o barco esteve em greve e a fila para pedir um café interminável.

Mas chegou ao emprego, ligou o computador, fez 20 gostos nas páginas das amigas e, apesar de estar passada dos carretos, publicou uma imagem retirada do Google onde dizia “a vida é feita de pequenas coisas, aproveita e sê feliz”. Recebeu 100 gostos.

O chefe disse mal do seu trabalho, perdeu dois ficheiros de Excel importantes porque o PC ficou passado, a mãe ligou-lhe a dizer que o pai estava pior, saiu fora de horas do escritório, mais greves, mais autocarros atrasados. Chegou a casa, deu um beijo no filho e foi fazer o jantar. Quando acabou de arranjar tudo para o dia seguinte o filho já tinha adormecido no sofá. Deitou-o e antes de dormir publicou novamente no Facebook: “Ser feliz é a minha escolha, qual é a tua? Boa noite”.

Adormeceu a chorar.

 

Alcançar um momento de júbilo, daqueles que recordamos em velhos, nos serões com amigos, ou já caquéticos no lar, deixou de ser algo que sentimos porque um conjunto de variáveis da vida assim o proporciona. Passou a ser algo que depende inteiramente de nós, independentemente do que a vida nos oferece. Transformou-se num estilo de vida. Uns são budistas, outros são católicos, mil outras religiões e crenças, e depois há os felizes.

Às vezes imagino que quando adormecemos um qualquer neurónio, chefe do gabinete da felicidade, manda chamar todos os outros e, enquanto vira as páginas do seu flipchart, demonstra a evolução que estão a fazer. Ameaça de despedimento os neurónios insatisfeitos e promete promover os que a procuram com verdadeiro empenho.

Há uns meses ouvi uma citação fantástica que sou incapaz de reproduzir mas que, em suma, pretendia transmitir o seguinte: quanto mais perseguimos a felicidade, menos a encontramos. E eu, que escrevo neste blog com nome choninhas, cada vez mais compreendo esta realidade.

A felicidade é um lugar que encontramos a espaços, são momentos, episódios, circunstâncias. A felicidade é a primeira palavra de um filho, uma manhã sem preocupações, uma tarde de sol na praia enquanto os miúdos correm na areia. São coisas pequenas, comuns, que de tão banais parecem poder ser orquestradas, planeadas, mas não podem. A felicidade nasce da espontaneidade do momento e fica gravada na nossa memória.

 

Antes de ir pregar de volta para a minha freguesia, deixo ainda a entrevista feita por um programa alegre à Cláudia Marisa, uma eterna infeliz, só Deus sabe porquê! Já que a apresentadora não entende.

 

Boa tarde a todos, estamos aqui esta tarde para falar com a Dona Cláudia Marisa que nos vem falar um pouco sobre si a propósito de nada, tínhamos de encher o programa com conteúdos.

(risos forçados)

- Boa tarde Cláudia Marisa.

- Boa tarde.

- Então conte-nos um pouco sobre si. É uma mulher feliz?

- Não. Por acaso não sou.

- Não é feliz? Aí que estranho! Mas então porquê?

- Bom, perdi toda a minha família. Os meus pais morreram num acidente de viação e eu fui entregue num orfanato. Quando fiz 18 anos saí e fui trabalhar para ter dinheiro para alugar uma casa. Conheci o meu marido nessa empresa. Casámos. Estávamos felizes...

- Então quer dizer que já foi feliz? Porque não está agora?

- Porque o meu marido teve um acidente de trabalho e morreu.

- Como assim? Conte-nos tudo.

- Deixaram que lhe caíssem em cima várias paletes de latas de salsichas.

- Que horror. Essa empresa funcionava mal em termos de logística.

- Por acaso não. O meu marido não devia estar lá. Descobri depois de ele morrer que me traía com a Jacinta da charcutaria. Estavam a encontrar-se escondidos nesse momento quando as paletes lhes caíram em cima. Ficaram juntos para sempre.

- E depois?

- Depois descobri que estava grávida. Mas perdi o bebé com o stress. Voltei a estar sozinha.

- Mas tem amigos e amigas certamente...

- Não, as pessoas tendem a afastar-se de quem tem muito azar. Gostam mais de pessoas felizes e que atingem objectivos.

- Se calhar a Cláudia Marisa tem pensamentos negativos. Tem, Cláudia, pensamentos negativos? Ou consegue olhar para a frente e ver um futuro brilhante?

- Choro muitas vezes a pensar no que me aconteceu.

- Pois é isso. É isso que impede a sua felicidade. Está tudo na sua mente. Já experimentou mindfullness?

- Não sei o que é. É algum tratamento?

- É um estilo de vida.

- Certo.

- Vai ver que se se encher de força de vontade vai ser feliz.

- Descobri que tenho só tenho seis meses de vida.

- Ora que chatice. E o que é que fez em relação a isso?

- Estou a ser acompanhada por um excelente médico num hospital público.

- Publico, disse?

- Sim.

Hummm. Já experimentou deixar o glúten e os lacticínios?

- Não.

- Pois. Olhe que pode ser isso.

Entretanto alguém fez sinal, o tempo estava a acabar. Terminaram o programa com um “até a amanhã e não se esqueçam de ser felizes”.

As luzes apagaram-se, a Cláudia Marisa voltou para a sua miséria, sobre a qual havia de optar ser feliz. A apresentadora seguiu com os seus compromissos e as suas publicações nas redes sociais; aquelas cujas fotos foram tiradas  sem querer  por um fotógrafo profissional, num momento de profundo júbilo, enquanto corria à beira-mar, ainda maquilhada e com roupa sem um pingo de suor.

 

 

Cátia Madeira

(blogue EM BUSCA DA FELICIDADE)

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Convidada: MARIA ARAÚJO

por Pedro Correia, em 04.09.17

 

O momento certo

  

Há cerca de um ano tive um contratempo com alguém da blogosfera, a propósito de um e-mail que me enviou, e a que não respondi porque a minha frequência no Sapo Mail era praticamente zero. Desde então tento ler, diariamente, a correspondência que recebo. São, maioritariamente, comentários/respostas aos posts.

Hoje, final da tarde, dei uma vista de olhos ao correio e, de repente, um nome que conheço da blogosfera chamou-me a atenção. Reparo no assunto.

Se os meus olhos ficaram petrificados, o meu coração bateu forte com a surpresa do conteúdo.

«Porquê eu?»

«E agora?! O que vou fazer?»

 

Sem a miníma ideia sobre a volta a dar ao assunto, sem conseguir perceber o que levou tão distinta pessoa a fazer-me um convite destes, estava a minha cabeça confusa e os meus olhos liam e reliam o pequeno texto.

Não tinha palavras nem dedos que me levassem ao teclado para dar-lhe uma resposta.

Pensei procurar textos no meu blog que me dessem ideias. Não queria decepcionar este senhor.

Foi então que me lembrei de cumprir o desafio que eu própria lançara a alguém, há algum tempo, e que não cumprira porque estava sem ideias.

No ambiente de trabalho do computador, procurei o documento que guardara para o reler e retribuir no momento certo.

Abri-o e li.

 

Num desabafo (assim o interpretei), o autor do texto transmitia alguma nostalgia de escrever no papel, à moda antiga, de corrigir os erros manualmente, o que a tecnologia agora faz por si.

E fazia a comparação entre o texto publicado, escrito no teclado, sem erros e perceptível, com o original, manuscrito, que vai “esgalhando”, de modo a chegar assim ao leitor.

Os puristas vêem a escrita no teclado como um retrocesso, porque assim não se tem consciência da passagem das ideias do papel para o monitor. Isto levou-me a verificar de que modo a minha escrita no computador e a manuscrita seriam diferentes também.

Peguei no papel e na caneta. Escrevinhei o que me veio à mente.

Risquei, rabisquei, rasguei folhas.

Confesso que senti alguma dificuldade em escrever uma frase.

 

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No teclado, os dedos chegam lá com destreza e os olhos detectam os erros. Percebemos que as ideias estão mal definidas, apagamos, corrigimos, acrescentamos, copiamos, colamos. Perdemos consciência do valor que as rasuras, os rabiscos, o pensamento e as emoções que transmitimos ao papel têm tanto na escrita como na nossa vida.

Isto fez-me voltar atrás no tempo. Foram muitos os manuscritos que guardei nas gavetas físicas das minhas memórias: os de amor, os de família, os de amigos, os do simples prazer de escrever.

No teclado do nosso computador escrevinhamos uma frase, um sentimento, uma opinião, um conceito. E esquecemos.

É como as fotografias. Com as novas tecnologias, deixámos de gravar no papel, de pôr na moldura que decoraria o móvel da sala aquele momento especial. Ficam arquivadas nas muitas pastas do computador até ao dia em que nos lembramos de reviver aquela viagem, aquele dia, aquele momento.

Acabo este este texto com a mesma frase/pensamento que o autor “esgalhou” no seu: “Com os actuais processadores de texto, deixei de ter passado."

 

 

Maria Araújo

(blogue CANTINHO DA CASA)

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Convidado: JOSÉ RICARDO COSTA

por Pedro Correia, em 01.09.17

 

Pequeno devaneio outonal em pleno Verão

  

Embora partilhem a mesma melancólica serenidade, gosto mais de pensar num cemitério como uma espécie de alfarrabista do que num alfarrabista como uma espécie de cemitério, preferindo assim, em ambos, vestígios de vida onde tudo está feito para que prevaleça a morte. É verdade que as prateleiras do alfarrabista mais parecem campas de autores, de títulos, de editoras, ou mesmo de aristocráticos jazigos do que foram outrora valiosas e luxuosas colecções, e que hoje, quando só há tempo para a mais fugaz novidade (dizer “escaparates” nunca foi tão apropriado), jazem, ignotas, na mais desconceituada escuridão, da qual apenas uns bibliófilos ousam resgatar. Mas por muito anémicas, tísicas ou aneurismadas que estejam pelo tempo, basta um par de olhos que saibam ler para os ressuscitar, ainda que como mera curiosidade histórica ou estética. Ora, o mesmo pode acontecer num cemitério. Não com os seus moradores, que dormem o seu tranquilo sono eterno, mas com toda uma retórica fúnebre que, embalada pelo tempo, também por lá foi adormecendo.  

Calhando ir a passar ali perto, resolvi entrar no cemitério da Lapa, mesmo ao lado da igreja onde repousa o liberal coração de D. Pedro IV, para um segundo abraço ao venerável Camilo, durante o qual pressenti de novo o seu lamento por ter aquele ignóbil músculo como vizinho, em vez do irmão inteiro, cuja companhia preferiria. Ter, em pleno mês de Agosto, e num dia em que outras zonas do país iam ardendo sob um Sol impenitente, manhã tão fresca, ainda para mais coberta por um romântico nevoeiro e salpicada por uns inofensivos pingos de chuva, é um luxo meteorológico que não iria desprezar, aproveitando-o para um higiénico e não menos pedagógico passeio de moderno flâneur por aquela ilha de pedra transformada em alfarrabista para quem o procurar.

Só a título de exemplo, veja-se a frase inscrita no túmulo do pintor Silva Porto. Por muito que seja o respeito perante uma ilustre figura que hoje parte, já não é possível uma dedicatória como esta, sendo por isso, letra morta:

 

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Como será impossível, num tempo em que muitos alunos nem sabem os nomes dos professores (são o stôr de Matemática, a stôra de Inglês) esta dedicatória ao antigo professor:

 

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Ou ainda esta informação prestada pelos filhos da baronesa de Fornelos sobre o pedido da mãe relativamente à sua última morada:

 

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Como tantos livros que jazem nas prateleiras dos alfarrabistas, também já ninguém escreve sobre a pedra textos como estes para homenagear os mortos. Não porque não se queira, em virtude do nosso livre-arbítrio, mas porque não se pode. Tal como na Literatura. Sendo a língua a mesma, a portuguesa, poderíamos escrever romances como Herculano ou Camilo, lado a lado com os de Lobo Antunes ou Saramago, ou poesia como a de Maria Browne, João de Lemos ou Bulhão Pato com a mesma naturalidade com que o fazem Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice ou José Miguel Silva. Mas não o fazemos pela mesma razão que não vestimos as suas roupas, não partilhamos a sua sensibilidade moral, não usamos as mesmas expressões ou gestos quotidianos: o tempo, essa camisa de forças que nos prende a uma época, não o permite.

Mas uma coisa é escrever, outra será ler. Se os museus continuam cheios de pintura que já ninguém pinta, se continuamos a ver filmes antigos que já ninguém realiza, se podemos apreciar vestuário antigo que já ninguém veste ou gostar de conhecer usos e costumes que ninguém segue, por que razão temos mais dificuldade com textos velhos? Talvez por falarmos ou escrevermos diariamente com a mesma naturalidade com que respiramos, acabamos por sentir mais o peso da sua antiguidade, a qual, instintivamente, rejeitamos no nosso quotidiano. Olhamos para uma pintura do século XVI ou para um filme mudo dos anos 20, e apesar de já não fazerem parte do nosso quotidiano, não relutamos em aceitá-los, sem que isso cause a menor estranheza. Porquê? Cá está, precisamente por já não fazerem parte desse quotidiano, permitindo uma margem de segurança que nos dá liberdade para gostar deles, sem medo de cairmos no ridículo.

Com a palavra, é muito mais difícil. Mas isso não é justo e nem sequer faz sentido. Gostar de ler Camilo ou Maria Browne não significa ser como eles do mesmo modo que gostar de ver dedicatórias antigas não quer dizer que um dia as façamos iguais. Acontece apenas que não há melhor porta para entrar num espírito antigo do que a palavra. A palavra não tem matéria, forma ou cor como a que vemos num vaso grego, num vestido renascentista ou numa escrivaninha do século XVIII, sendo também por isso que é através dela, seja num alfarrabista de papel ou de pedra, que as almas ainda vivas melhor entram na textura espiritual das que já o foram, resgatando-as mais uma vez da morte.

 

 

José Ricardo Costa

(blogue PONTEIROS PARADOS)

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Convidado: ARMANDO PALAVRAS

por Pedro Correia, em 30.08.17

 

Esboço de uma literatura russa

  

Aos que sofreram nos GULAG soviéticos

as agruras sofridas pelos judeus nos campos de extermínio nazis

e pelos chineses nos campos do deserto de Góbi.

 

 

Enquanto no Ocidente, durante todo o século XIX, autores como Baudelaire e Marx, entre outros, aproveitaram o processo de modernização em desenvolvimento para o usarem como fonte de energia e material criativo, nas áreas geográficas fora do Ocidente a modernização era inexistente. Foi essa a situação da Rússia durante todo o século XIX. A sua economia estagnava, e em alguns casos até regredia. Trotski reconhece-o na sua História da Revolução Russa, no I Volume: “O traço essencial e o mais constante da história da Rússia é a lentidão em que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural."

Este atraso em relação ao Ocidente desempenhou um papel central na politica e na cultura russas, da década de 1820 ao período soviético. Cerca de cem anos. A Rússia, em relação ao Ocidente, no século XIX, foi um arquétipo do Terceiro Mundo no século XX.

 

No inicio do século XX, o país com maior dimensão populacional em quase todos os outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa (exceptuando o Império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-o século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Tchékhov di-lo sarcasticamente na sua peça O Cerejal.

Contudo, esta era do subdesenvolvimento russo produziu, no espaço de duas gerações, uma das maiores literaturas do mundo. E, curiosamente, foi São Petersburgo, a capital imperial, a mais clara expressão de modernidade no solo russo do século XIX. Que iniciou uma tradição literária brilhante com características próprias. Assumida com Puchkine (no seu Cavaleiro de Bronze) e se estendeu a Gogol, Chernyshevski, Dostoievski e Bieli. Nela surge como personagem principal o “homem comum”, cujo destino é sempre o de vitima. Mas uma vitima cada vez mais audaciosa no século XIX, fruto das várias revoluções. Uma vitima que encarna a vida real de alguns dos autores. Dostoievswki, por exemplo, teve a vida moldada por dois acontecimentos. O seu pai morreu quando ele era ainda jovem, provavelmente assassinado por um dos seus servidores. Mais tarde, o autor de Recordações da Casa dos Mortos esteve prestes a ser executado por traição. Foi cruelmente conduzido ao cadafalso e deixado de olhos vendados à beira da morte, antes de ser informado que a pena fora comutada.

E como Dostoievski nenhum poeta, romancista ou dramaturgo russo terá trabalhado em condições normais de liberdade intelectual. Muito menos em condições favoráveis a essa liberdade.

 

A literatura russa é intima, escrita para o leitor russo. Mas mesmo o leitor exterior a esse território com a dimensão de metade da lua consegue perceber o tormento de Pushkin, o desespero de Gogol, a alma dilacerada de Dostoievski na Sibéria, a luta impetuosa de Tolstoi contra a censura e o desalento do extenso rol de assassinados (ou desaparecidos) incrustados nas façanhas literárias russas do século que nos precedeu. A estes podemos juntar Turguénev, Tchecov, Andréev ou Nikolai Leskov, que se tornaram clássicos para as gerações posteriores.

Mas o homem comum torna a aparecer-nos no contexto soviético, após uma revolução que juntamente com os seus companheiros venceu; numa nova ordem onde teoricamente goza de todos os direitos de que necessita. Uma ilusão que pagou cara.

O mítico John Reed, no seu imortal 10 Dias que abalaram o Mundo, descreve-nos em rigor os primeiros dez dias da tomada do poder bolchevique. Só a História da Revolução Russa de Trotski se lhe assemelha, suplantando-o em muitos pontos.

 

As políticas genocidas na Rússia Soviética dos anos 1932-1933 e 1937-1949 estão hoje devidamente documentadas e estudadas. Já Dostoievski, em Demónios, nos transporta às origens do terrorismo moderno. Porque o conceito de “terror em massa” é fulcral em Lenine, fórmula que surge a partir da revolução de 1905. Volta a surgir em força na Primavera e durante o Verão de 1918, estando ainda presente em Abril de 1921. E largamente apoiada por intelectuais como Gorki, sobretudo no que diz respeito à massa de camponeses. Em 1930-31, foram deportados cerca de dois milhões de camponeses.

De repente, o terror de 1793 dos “homens do barrete frígio” é institucionalizado no dia 5 de Setembro de 1918 pelo decreto “sobre o terror vermelho”. De facto, os meses que se seguem caracterizam-se por um clima de violência estatal absolutamente novo. São 15.000 as vítimas do Outono de 1918. Ou seja, foram executados, em dois meses, três vezes mais do que o número total de executados no século anterior pelo terror czarista!

 

Nicolas Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue jorre a rodos!”.

Caracterizado pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos “Amanhãs que cantam!”.

É neste contexto histórico que surge esta literatura, produzida por homens e mulheres que sofreram na pele o terror soviético, cujas personagens das narrativas são, na dimensão humana, os mesmos “deuses” e heróis evocados por Homero, Sófocles, Ésquilo e Euripides. [1]

 

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Ivan Chmeliov (1873-1950) nasceu e foi criado em Moscovo, onde se formou em Direito. Em 1918 instalou-se na Crimeia. Foram anos de fome, medo e humilhação. Em 1920, o filho único do escritor, ex-oficial do Exército Branco, foi preso no hospital e fuzilado.

Emigrou em 1922 para França. A sua obra-prima, onde conta a história da Crimeia do pós-guerra, um testemunho vivo da pavorosa concretização da “grande experiência de transformação” politica e social da Rússia levada a cabo pelo partido bolchevique, foi saudada por Thomas Mann.

Em Março de 1922, 400 mil pessoas passavam fome; 75 mil morreram. Até ao Verão de 1923, 100 mil pessoas morreram de fome.

É sobre esta tragédia que Chmeliov se debruça em O Sol dos Mortos.

  

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Evgueni Zamiatine (1884-1937), escritor por vocação e engenheiro naval por profissão, é um dos primeiros vultos a tratar o homem comum da época soviética nos seus contos. No Ocidente tornou-se famoso com Nós (1924), a pioneira distopia que iria influenciar textos de género como 1984 de Geroge Orwell. Onde denuncia as maluqueiras bolcheviques de 1917, ao intervirem na vida privada, acabando com a instituição família, transformando o espaço doméstico em espaço colectivo onde viviam várias famílias, com dormitórios colectivos e salas próprias para o sexo!

Em 1931 endereça uma corajosa missiva crítica a Estaline.

Os contos de Ziamatine são “um lampejo do que a literatura pós-revolucionária poderia ter sido, se a ditadura não tivesse eliminado totalmente a independência, a ousadia e o individualismo” (Mirra Ginsburg). Nas suas narrativas, impelido pela total liberdade humana de criar, converteu-o num cidadão inconveniente em dois regimes despóticos. O czarismo condenou-o por um ano de exílio; o comunismo baniu-o para sempre.

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Ossip Mandelstam (1891-1938) foi um dos grandes poetas modernos. Escritor profundamente tradicional (da tradição de Petersburgo), na sua novela de 1928, O Selo Egípcio, trata o homem comum como até aqui não havia sido tratado porque nos aparece num contexto soviético, com o seu drama e angústia pós-revolucionários. No final da história Mandelstam faz referência a Moscovo e ao hotel Selecto, através do capitão Kirzzanowski. Moscovo tornara-se o quartel-general de uma nova elite soviética protegida (e chefiada) por uma terrível polícia secreta que actuava a partir da prisão Lubianka, onde o poeta, seis anos depois, seria interrogado e detido.

Dois anos depois da publicação d’O Selo Egípcio, o poeta, juntamente com Nadejada, sua esposa, regressa a Leninegrado, mas os esbirros do partido que estavam ao comando da Sociedade de Escritores e controlavam os empregos e a habitação, expulsaram-nos.

Os Mandelstam regressam a Moscovo. E em 1933, no meio da campanha estalinista pela colectivização das terras, onde perecem mais de quatro milhões de vidas camponesas, e a um passo da Grande Depuração que levaria à morte outras tantas (ou mais), o poeta compôs o poema n.º 286 sobre Estaline.

Embora Mandelstam o não tenha escrito, leu-o em voz alta diversas vezes em reuniões à porta fechada. Um dos que o ouviram denunciou-o à policia secreta. Numa noite de Maio de 1934 foram buscá-lo. Após terríveis sofrimentos físicos e mentais, quatro anos depois morreu num campo de passagem perto de Vladivostoque.

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Isaac Babel (1894-1940), influenciado por Gogol (e Maupassant), nasceu na cidade portuária de Odessa que pertencia ao império russo. Era filho de um vendedor de roupas usadas e de uma judia moldava. O seu tio fora morto num pogrom.

Borges, referindo-se a Babel, dizia que o “clima habitual” da sua vida “seria uma catástrofe”.

As suas principais histórias foram incluídas, mais tarde, em Exército de Cavalaria. Escreveu ainda Contos de Odessa, narrativas de inspiração autobiográfica sobre a sua infância no gueto de Moldavanka, antes e após a revolução.

Em 1930 testemunha, na Ucrânia, a brutalidade e as mortes causadas pela colectivização forçada da agricultura. No Congresso da União de Escritores Soviéticos, em 1934, Babel é já um autor marginalizado pelo realismo socialista. O regime silenciou-o. Em 1935, a sua peça Maria viu a estreia cancelada em Moscovo pela polícia política. Em 1939 foi preso e interrogado sob tortura na prisão do KGB em Moscovo. Segundo a versão oficial teria morrido numa prisão do Gulag em Março de 1941. Os seus manuscritos foram confiscados e destruídos.

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Vassili Grossman (1905-1964) nasceu na cidade de Berdítchev, a “capital judia” da Ucrânia, em 1905. Filho de judeus, o pai era engenheiro e a mãe professora. Embora tenha estudado engenharia, Vassili acabou por se tornar jornalista e escritor.

Como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobriu as batalhas de Moscovo, Estalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga.

Em 1961, os agentes do KGB assaltam-lhe a casa levando-lhe todas as anotações que possuía para Vida e Destino, um volume extraordinário, mas de leitura complexa. Em 1974 um dos originais que sobreviveram é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin e através do físico nuclear Andrei Sákarov e do humorista Vladimir Voinovich, esse manuscrito sai do país para ser editado em vários países em 1980. Em 1988 é publicado na Rússia de Gorbatchov.

Em Vida e Destino, Grossman, além de denunciar as atrocidades nazis, manifesta um profundo desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917. Anna Semiónovna foi uma das vítimas dos pogrom e Evguénia Nikoláevna, perseguida devido às posições políticas do seu marido, Víktor, assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da “confiança do partido”. E procurou guiar-se e “agir segundo a sua consciência”, o melhor que foi dado ao ser humano.

O terror leninista/estalinista, assinalado anteriormente, foi confirmado em obras literárias como Tudo Passa, de Grossman. Um dos seus personagens, um activista convicto, a dado passo diz: “Escorraçámo-los como a um bando de gansos.”

No fim da vida escreve o seu último volume. Uma espécie de reportagem na Arménia. Com o qual tornou a ser molestado por abordar o genocídio arménio. 

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Varlam Chalamov (1907-1982) nasceu em Vologda. Filho de um padre ortodoxo, viveu os seus primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga. São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em Gulag, como Evguenia Guinzbourg, em Le Ciel de La Kolyma, o testemunham.

A este lugar, Varlam chama “o desembarcadouro do inferno” [2]. Num dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso, diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis mensagens.” Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão por dia. 

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Alexandr Soljenitsine (1918-2008) nasceu em Kislovodsk. A grande denúncia sobre o terror soviético surgiu numa obra sua - Arquipélago Gulag. Os gulag [3] eram campos de concentração e de trabalho forçado na antiga União Soviética.

Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi a sua primeira novela. E foi o primeiro testemunho publicado na antiga URSS por um dos presos políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia do Gulag. E para isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht, que há muito sabia dessa tragédia mas continuava a venerar o sanguinário Estaline.

Ivan Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos campos de trabalho forçado, o Gulag, que o regime de Estaline (e Lenine) aproveitaria do tempo dos czares. É, aliás, bem provável que a sua origem esteja na prisão da ilha de Sacalina, à qual Tchécov dedicou um livro sobre o estudo que aí fizera.

Os detalhes são assombrosos. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!

O relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Soljenitsine, à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele próprio, mais tarde Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Só por milagre a detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão de artilharia no Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate. No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um amigo.

Já como prémio Nobel e apenas com um livro publicado (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich), passa à escrita os apontamentos que iriam dar origem a O Arquipélago Gulag, publicado em 1973 no Ocidente. A obra de Soljenitsine é uma narrativa sobre factos presenciados pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, um dos campos do arquipélago, e pelas cartas e relatos de 237 pessoas.

 

Quantos desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais do que os que foram chacinados no holocausto nazi.
Anne Applebaum, em Gulag, trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável.                                    

 

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[1] Porque se trata de um esboço, neste escrito, por receio de lhes não dar a dignidade que merecem, não se reproduz reflexão sobre muitos autores russos, dessa época, que mereciam uma referência tão elevada como aqueles que nos mereceram essa reflexão: Sinyavsky que cumpriu pena em vários campos de trabalho forçado entre 1966 e 1977; Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Joseph Brodsky, Jaan Kross (Estónia) e Chukovskaya, que na sua novela trata de Bilibin e Veksler.

Também não se faz reflexão sobre ficções como O Meteorologista, de Rolin, ou de narrativas como Rumo à Liberdade, do polaco Slavomir Rawicz.

 

[2] José Milhazes diz-nos sobre o assunto:” Ao vaguear na Net deparei com a publicação de um trecho de um livro traduzido por mim em 1990 "Contos de Kolima” num blog chamado "Teor Crítico".

Escrita por Varlam Chalamov, ela exerceu em mim uma grande importância, tendo contribuído fortemente para a revisão de algumas das minhas ideias políticas. É depois de obras como estas, de relatos directos, pessoais, que se conclui que entre os campos de concentração nazis e o Gulag poucas diferenças existiam. Uns diziam matar pela "limpeza da raça", outros pela "classe social"... Descubra a diferença!”. (http://darussia.blogspot.pt/2013/11/contos-de-kolima-excerto.html).

 

[3] GULAG - acrónimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados para prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscovo. Cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse sistema de trabalho escravo, tema do livro Gulag, de Anne Applebaum.

Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Para se proteger da violência, alguns grupos de presos criaram códigos e leis internas que deram origem aos Vory v Zakone – a máfia russa. A quantidade de campos foi reduzida a partir de 1953, logo após a morte de Estaline. Porém, os campos de trabalho forçado para presos políticos duraram até os anos 90.

 

 

Armando Palavras

(blogue TEMPO CAMINHADO)

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Convidado: ROBINSON KANES

por Pedro Correia, em 28.08.17

 

Comuniquem menos mas falem, dialoguem e façam mais

  

Nos últimos tempos temos assistido ao discurso do "comunique mais, fale menos". Aliás, os auto-intitulados grandes comunicadores e muitos seguidores desta tendência apregoam a mesma aos sete ventos como a pedra-de-toque para resolver todos os problemas. A comunicação não vive por si só: funciona como mensageira e tem um objectivo concreto que implica a existência de uma base e de um trabalho de rectaguarda. Não se comunica primeiro e se faz depois, ou simplesmente não se faz. Não estou também a fazer um ataque à comunicação, bem pelo contrário, ou não fosse um acérrimo defensor de uma boa comunicação, seja em que contexto for. Aqui, debater-me-ei em questões práticas do nosso quotidiano, das organizações, e não na óptica publicitária.

Comunicar passou a ser a palavra de ordem, ao invés do falar e, consequentemente, um retrocesso de mentalidades camuflado com um discurso de contemporaneidade. Reparem como chamamos comunicação a muita propaganda. Propaganda traz-nos más memórias, mas basta alterar o conceito e...

Vende-se também a ideia de que todos podemos ser bons comunicadores e que basta dominar as "10 coisas que as pessoas altamente bem sucedidas fazem para comunicar" ou os "10 segredos de Saturno para agradar aos seus anéis" para o sucesso ser garantido. A comunicação é fundamental mas, por si só, não cria nada, todavia, tem um poder infinito para o bem e para o mal.

 

Também podemos sempre adoptar a postura oriental do "Comunicachim Tai Chuan" ou a dos "Monges Palradeiros de Sarnath" e comportarmo-nos como autênticos robôs, desprovidos da nossa personalidade e do nosso eu. Quem é que nunca assistiu a uma palestra ou àqueles seminários onde o conteúdo é carregado de lugares-comuns ou simplesmente não existe, mas os braços do orador, o olhar e a voz parecem uma sessão de break-dance?

Em tempos, assisti a uma conversa em que os aduladores de uma personagem discutiam o movimento da árvore e os ramos bem como a inspiração na natureza com que o alvo da sua adulação assumia o discurso e consequentemente exaltava o seu eu. Discutia-se e acarinhava-se a postura do "grande líder", já o que o mesmo dizia não era importante.

Comunicamos também por SMS, email, ou numa só direcção (por norma, a nossa) mas na realidade quão eficiente será essa comunicação? Será que estamos mesmo a acrescentar valor ou a mudar alguma coisa? Como é que com tantos profissionais da "arte de comunicar" ainda não conseguimos evoluir praticamente nada e no seio das organizações a comunicação continua a ser o maior dilema? Porque se gastam milhões em programas de formação em comunicação e os erros continuam?

De facto, também sugiro que se comecem a escolher os fornecedores destes serviços pelos resultados e não pela comunicação que muitos fazem...

Penso que a questão está mesmo aí: comunicamos demais, preocupamo-nos muito com a embalagem da mensagem, mas esquecemos o fundamental, que é o seu conteúdo e o que leva à mesma.

 

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  William Turner - War. The Exile and the Rock Limpet (Tate Britain)

Fonte da imagem: própria

 

De que me vale ter um discurso altamente trabalhado, mexer os braços como um polvo, atirar ideias para o ar se depois não existe um seguimento nem interacção entre pares?

De que me vale comunicar se o foco está em mim e não nos outros?

Comunicar não é fazer discursos, não são textos altamente burilados ou ocos, não é ser robótico na abordagem, não é achar que o comunicador sou eu, até porque a comunicação tem mais que um sentido. Entendo que a abordagem é utilizar o falar como contraponto ao comunicar e assim criar um novo conceito, mas não estará a comunicação a matar o falar e consequentemente a matar-se a si própria? Nomeadamente a sua essência?

É que tudo isto resulta bem quando estamos a falar numa direcção com um headset colocado na cabeça para uma multidão. Mas no dia-a-dia?

 

De que me vale ter uma brilhante comunicação interna na minha organização, por exemplo, se depois as minhas chefias intermédias não falam com as pessoas?

De que me vale ter standards de apresentações, emails e tudo o mais e os problemas não se resolvem porque ninguém fala?

De que me vale comunicar by the book e com isso nem me dar conta que estou a criar uma ditadura do politicamente correcto esquecendo que os disruptivos podem ser a chave para a inovação ou a solução de muitos problemas?

De que me vale comunicar se nem domino, e muito menos promovo, capacidades como a disciplina, a criatividade, o respeito, a capacidade de síntese (sob o ponto de vista de Howard Gardner, como uma capacidade integradora de várias áreas e disciplinas), a ética, a cooperação, o espírito critico e o pensamento estratégico - acrescentei estes três últimos pontos aos cinco defendidos por Gardner e que citei acima.

 

Nunca se comunicou tanto e já diz o povo que "é a falar que a gente se entende". É nestas coisas que o povo é sábio, porque todos os dias testa na prática a teoria que outros nunca ousaram tirar dos livros, dos discursos atraentes.

Lembro-me de um professor que, perante a pouca vontade dos alunos em fazer um exame, optando por substituir o mesmo por um trabalho de grupo/apresentação, respondeu: "e quando a bomba vos cair nas mãos e tiverem de resolver os problemas, vão dizer esperem aí que vamos fazer um trabalho de grupo?". Não é raro ver indivíduos da “velha-guarda” a falarem e a resolverem um problema no imediato enquanto outros preferem comunicar e levam dias a resolver um problema. Quem me conhece sabe que sou das pessoas que mais se empenham em processos de mudança, mas também tenho de reconhecer que varrer tudo o que está para trás nem sempre é a melhor estratégia.

 

Deixaria a sugestão: façamos mais, falemos e dialoguemos uns com os outros e comuniquemos menos.

Comuniquemos aquilo que fazemos ou queremos sem cair no ridículo, pois não são raras as vezes em que a comunicação se encontra desfasada da realidade e em nada alinhada com o nosso comportamento...

Foquemo-nos no nosso cérebro social (hipótese cientifica que defende que os seres humanos têm um cérebro maior, comparado com outros vertebrados, maioritariamente devido à nossa necessidade de manter um registo e aplicação da nossa interacção social) para desenvolver a nossa comunicação e consequentemente beneficiarmos mais quem nos ouve e menos a nossa pessoa, ou, numa lógica mais solidária, beneficiarmos ambos da mesma forma e com claras implicações com o bem-estar que por cá tende a ser confundido erradamente com wellness.

 

Uma outra nota: deixemos as teorias e o discurso da comunicação ir além daqueles que já estão em posições de chefia ou são patrocinados pelos media. Pode ser que assim possamos adequar esse discurso àqueles que ainda são afastados deste processo. Não podemos defender a nossa teoria se estamos a excluir aqueles que mais podem beneficiar dela... Pode trazer-nos menos retorno nas contas ao final do mês, mas no longo prazo pode ser um activo de valor incalculável.

Deste modo, o segredo do sucesso não está na comunicação, pelo menos para quem não quiser ser oco e comportar-se como uma carapaça de tartaruga sem conteúdo ou como um perfil de LinkedIn vistoso que esconde uma pessoa sem miolo. De facto, a comunicação ajuda, mas se o foco incidir somente sobre esta, corremos o risco de navegar no vazio, aumentar a entropia nos processos, criar um mundo paralelo e no médio prazo perder a confiança daqueles a quem pretendemos fazer chegar a nossa mensagem, ou não fossem célebres as palavras de Lincoln: "É possível enganar toda a gente durante algum tempo, aliás é até possível enganar sempre algumas pessoas, mas não nos será possível enganar sempre toda a gente."

  

 

Robinson Kanes

(blogue NÃO É QUE NÃO HOUVESSE...)

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Convidado: JOÃO FREITAS FARINHA

por Pedro Correia, em 25.08.17

 

Viajar ou o elogio da aventura

 

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Estados Unidos da América, Dezembro de 2015, 2h da madrugada. Conduzíamos rumo a Boston, na única etapa da viagem que não tinha sido planeada. Tinhamos feito cerca de dois terços de uma viagem de 900 km e a neve não dava tréguas. O ponteiro da gasolina estava a descer ainda mais que o da temperatura. Nada de preocupante, o GPS tinha a indicação dos postos de combustível. Primeiro posto - falhámos a saída. Não fazia mal, havia outro, umas dezenas de km mais à frente. Estava fechado. Com a gasolina já na reserva, o GPS não dava indicações de postos próximos. Para ajudar, a estrada tornava-se cada vez mais escura e estreita. Outros carros, nem vê-los.

Com o carro já a funcionar à base de fumos e boa vontade, eis que, qual oásis no meio do deserto, surge a placa com a palavra mágica. "GAS".
Finalmente! Parámos o carro e dirigimo-nos à funcionária da bomba, do outro lado do vidro. Sorriso nos lábios. Estávamos salvos!

— "Please, can we put some gas?"

— "No. This station is closed."

—  "But we came from so far away, please let..."

— "GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY. GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY".

Afinal não. Não íamos pôr gasolina.

No meio do nosso desnorte, ainda tivemos lucidez para olhar em volta. Mesmo ao virar da esquina, havia um hotel. Milagre dos milagres, uma cama, finalmente! A gasolina podia esperar pelo amanhecer...

 

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Viajar também é isto. Vou-me sempre lembrar do gelo a estalar sob os meus pés, ao caminhar num glaciar; da paisagem deslumbrante após uma caminhada de quase 20 quilómetros até à base do Fitz Roy; de ver uma baleia de bossa a brincar com a sua cria; ou do entusiasmo incontido de quando entrei na Euro Disney. Mas também não me vou esquecer daquela vez em que o carro quase ficou sem gasolina no meio do nada. Ou quando ficámos uma semana retidos em Londres, sem malas e em vésperas do Natal, porque um nevão fechou os aeroportos.


Viajar também é vermo-nos em situações que são maiores que nós. Viver algo diferente do que temos em casa. Não no sentido de arriscar, ou ser inconsciente. Mas de dar espaço à espontaneidade e aceitar o imprevisto.

 

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Resorts e excursões. Tanta gente viaja com guião definido ao milímetro. Saltar de monumento em monumento. De fila em fila. Conhece-se uma cidade através de uma montra. E nunca se chega a sair do nosso pequeno mundo.

 

Eu planeio sempre o que vou ver, claro. Os monumentos, os museus, os parques. Compro bilhetes, contrato guias... Mas também adoro a sensação de me perder numa cidade. Saber o destino, sem conhecer o caminho. Andar pelos bairros, sentir o pulso do local. Pedir indicações, falar com quem lá vive.


Viajar é sair dessa nossa bolha. Só conhecemos realmente um sítio se também o virmos através dos olhos dos outros. Mudar a nossa perspectiva, aprender.

O acto de viajar é efémero, mas o que trazemos quando regressamos fica connosco para sempre.

 

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Parque Nacional da Terra do Fogo, Argentina, Outubro de 2015. Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana - Um conjunto de estradas que liga, quase sem interrupções, o Alasca a Ushuaia.

“Aqui finaliza la Ruta N. 3. Buenos Aires 3.063 Km. Alaska 17.848 Km.” - Dizia, em letras amarelas gravadas na madeira.

 

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Seria só uma placa, e não lhe teria dado grande importância, se no dia anterior não nos tivéssemos sentado à mesa de Carlos Alvarez. O Carlos foi guarda florestal durante largos anos. Agora, reformado, gosta de falar desses tempos.

Enquanto nos preparava ovos mexidos e chá para o pequeno almoço, cheio de orgulho e um brilho nos olhos, contava como tinha construído aquela placa com as próprias mãos. Quando nos preparávamos para sair, veio ter connosco. “Não se esqueçam de tirar uma fotografia à minha placa” - disse com um sorriso de orelha a orelha.

Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana. E para nós, nunca seria uma placa qualquer. Era a placa do Carlos.

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João Freitas Farinha

(blogue JOÃO FREITAS FARINHA - FOTOGRAFIA)

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Convidado: F. PENIM REDONDO

por Pedro Correia, em 23.08.17

 

A gaivota

  

Caminhei pela areia durante muito tempo, como faço tantas vezes.
Não era ainda a fornalha do Verão e corria até uma aragem fresca apesar da crueza do sol.
O mar batia à minha esquerda, sem espalhafato, e a ravina subia os seus trinta metros do outro lado, em contorsões de arenito.
Tanto quanto os olhos alcançavam, nem vivalma. Um deserto à minha frente.
Naquela solidão de mar e areia só somos atraídos pelas irregularidades; um barrote que veio na maré, uma pegada estranha ou os restos de uma fogueira em que se aqueceram os pescadores da noite passada.
E foi assim que descobri a gaivota, como uma anormalidade.
Estava pousada a uns vinte metros da linha de água. Mas não estava pousada como pousam os pássaros, sempre prontos a voar. Era como se chocasse uma ninhada.
 
Quando me aproximei nem sequer se agitou. A única coisa que movia era a cabeça, de um lado para o outro, e ao fazê-lo o seu bico era um aparo que escrevia na areia uma caligrafia desesperada.
Cheguei tão perto que podia ver os seus olhos aterrorizados, amarelos, e não sabia como demonstrar a minha compaixão.
(Em toda a minha vida só vi morrer um pássaro, e foi em plena cidade.
Despenhou-se de súbito, estrebuchou mansamente durante algum tempo e depois inteiriçou.)
 
Não me atrevi a tocar na gaivota. Por um lado imaginava o terror do pobre pássaro ao ver-se agarrado, por outro receei agravar o sofrimento daquele corpo que tão pesado jazia na areia. Senti-me inútil e grotesco.
(Confesso que o sofrimento dos bichos me toca bastante pois, ao contrário dos humanos, não podem explicar o que sentem e geralmente morrem desamparados. Por causa disso já várias vezes fui tentado a contrariar essa fatalidade.)
Neste caso não me parecia viável qualquer intervenção. Estava muito longe de qualquer ajuda especializada e desconhecia de todo o que levara a gaivota à desesperada situação em que se encontrava. Doença, acidente ou simplesmente velhice?
(Será que as gaivotas demasiado velhas pousam em praias desertas e ficam olhando o mar até ao último suspiro? Com que direito iria eu interferir num processo desse tipo, carregando desajeitadamente um bicho em sofrimento para o ver morrer num veterinário qualquer?)
 
Fiquei a olhar para ela e ela também olhava para mim. Duvido que soubesse ler no meu rosto a aflição e compaixão que eu sentia. Eu também no rosto dela não via senão os sentimentos que a minha condição humana permite imaginar.
Cheguei a pensar que a gaivota, depois do terror inicial, sentiria pelo menos o alívio de constatar que eu não lhe fazia mal.
Então comecei a recuar sem poder deixar de a olhar, até que a gaivota era apenas uma sombra como outras que resultam das irregularidades da areia.
Caminhei a bom ritmo durante a meia hora que me separava de casa.
 
Embrenhei-me nas rotinas caseiras com mais afinco do que é usual.
Mas quando anoiteceu a gaivota voltou a instalar-se no meu pensamento.
Pressentia-a agora na total escuridão da praia e não sob o sol violento da tarde.
O mar rugia como sempre, mas sem se ver.

Então desejei ansiosamente que a maré subisse e que uma grande vaga cumprisse finalmente o destino.

 

 

Fernando Penim Redondo

(blogue DOTE COME)

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Convidado: ALEXANDRE LUZ

por Pedro Correia, em 21.08.17

 

Regressão civilizacional

 

Tive a sorte, ou o azar, de ter nascido ainda na dita geração X, poucos anos antes da Y, dos millenials. O que na prática quer dizer que ainda me lembro de ver notícias sobre o IRA, sobre a ETA, sobre a União Soviética, e de assistir às notícias da queda do muro de Berlim.

Naquela altura, com 13 anos, lembro-me do orgulho que se sentia com a evolução que o mundo estava a ter. Aliás, ainda três anos antes tínhamos aderido à CEE, hoje União Europeia, o que representava finalmente a entrada de Portugal no mundo desenvolvido.

Na realidade, com alguma ingenuidade à mistura, não deixava de ter razão: aquele tempo foi um tempo de saltos civilizacionais muito positivos. Durante os anos seguintes o comunismo faliu, o Pacto de Varsóvia dissolveu-se e muitos países da antiga Europa de Leste deram os primeiros passos em democracia. 

 

Mesmo a China, após o massacre dos estudantes em Tiananmen, é verdade, começou a abrir-se ao Ocidente. A eterna luta nacional pela independência de Timor conseguiu chegar a bom porto, após o massacre de Santa Cruz. Foi uma causa que mobilizou particularmente os portugueses.

Isto tudo aconteceu à mistura com tantos outros acontecimentos negativos, como o Iraque e os Balcãs, mas a ideia que se tinha era que, apesar de tudo, o terrorismo na Europa estava a diminuir e a democracia finalmente prevalecia sobre os totalitarismos que ainda restavam da 2ª Guerra Mundial.

Hoje, dá-se o impensável.

O terrorismo atingiu novo auge, com o ISIS e outros grupos radicais, que, perante uma vida miserável, acabam por se refugiar na certeza que o Alcorão lhes dá. Tal como já tinha acontecido no passado na Europa, mas na altura por causa de outro livro, a Bíblia.

 

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Por outro lado, se olharmos para a Venezuela, vemos o comunismo regressar na sua pior forma, com o crescente controlo do Estado, mascarado de democracia, e com a desculpa que é para garantir a paz, tal como os soviéticos fizeram no passado. Neste país vemos todos os dias a população a ser reprimida e as instituições democráticas a serem destruídas. Uma espécie de doutrina Brejnev, onde tudo vale. Prender, matar, não é importante, o que importa é que Maduro consiga libertar o seu povo e assim garantir vidas miseráveis para todos. Sim, porque há coisas que não mudam. O comunismo, à semelhança de vários outros ismos, propaga-se bem na miséria.

Nos Estados Unidos, a extrema-direita perdeu a vergonha e assassinou mais uma pessoa. Ali, apesar da crise, não será tanto por causa da miséria, até porque não existir nos EUA um Maduro a arrastar a população para filas intermináveis em busca de bens essenciais, mas terá também muito a ver com a cultura, ou a falta dela.

 

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Como é que depois de terem morrido 416 mil soldados americanos a combater o nazismo, alguém tem coragem de levantar uma suástica nos Estados Unidos? Como é que um indivíduo chamado Peter Cvjetanovic tem a lata de se achar um defensor do nacionalismo branco? Ele é branco, até aí é óbvio, mas tenho muitas dúvidas de que Cvjetanovic seja um nome assim tão típico dos Estados Unidos. Os imigrantes, antepassados deste tonto, corariam de vergonha ao verem o seu descendente fazer esta triste figura.

 

 

Alexandre Luz

(blogue KAPAGÊBÊ)

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Convidado: JOSÉ CATARINO

por Pedro Correia, em 18.08.17

 

O velho Défice, o neto Empréstimo e o burro Pibe

  

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: Como nos receberão nos Mercados?

Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?

Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.

E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para perder as banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!

Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.

Comenta um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.

Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Empréstimo, sobrolho carregado.

Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?

Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.

Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!

E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.

Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?

E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?

E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.

 

 

José Catarino

(blogue JOSÉ CATARINO)

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Convidado: FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

por Pedro Correia, em 16.08.17

 

O tempo sem pessimistas

  

As empregadas da perfumaria, a senhora do expositor de Tupperware, a loja das canetas que tem de vender tabaco para sobreviver, a simpatia do criado do restaurante que garante não ter tempo para ver televisão, os miúdos que vão drogar-se ao fundo do parque de estacionamento, a rapariga que entrou a chorar na carruagem do metro. Há famílias desfeitas por tão pouco. Devia existir aconselhamento psicológico nestas ocasiões, enquanto não vem o regresso de férias. Devia haver acompanhamento, uns psis que contassem anedotas no intervalo das tragédias, ou que compreendessem os fenómenos da época: os eclipses, a mancha de neblina em redor da lua, os livros antigos e as selectas literárias, as mulheres que tatuam os ombros, as ementas muito calóricas, os amigos que evitam divorciar-se e procuram casas nos subúrbios. Coisas para tempos da crise futura: bússolas que indicam o caminho que sai dos dois lados da vida e não empata o trânsito à porta dos centros comerciais nem nas estradas secundárias.

 

O que os aflige é o tempo que falta. O poder ilude facilmente, é uma espécie de droga, de volúpia e luxúria amável de onde não podem ser expulsos (fizemos tanto pela pátria, por que é que não podemos ir ver futebol entre os poderosos?). Uma vitamina para a pobre existência de quem quer mudar o mundo a cada minuto, logo de manhã, a qualquer hora. O problema são os bárbaros, os outros, os que não compreendem o esforço nem a gramática (uma espécie de ginástica que saltita entre as grandes frases e as ninharias que se lhes ouve ao telefone), os que duvidam ou não estão para isso. Eles estão sempre para isso, são modernos e sabem manobrar. Há também os que legislam sobre o mundo a toda a hora (trata-se de mudar o mundo a cada minuto, por decreto se possível), apreciam quem expulsa os piolhos e as marcas de ginja no balcão de zinco e proíbe as velhinhas de fazerem croquetes sem emitir facturas. É um módico de civilização, é isso que é necessário. Fazer tudo em nome dela, da civilização – que há-de ser apressada por medidas estruturantes e estruturais, leis sobre o sexo, barrigas de aluguer, coisas sustentáveis, tudo é sustentável e cidadão — e o tamanho da maçã reineta.

 

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É uma das piores raças: os enochatos. O vinho e a sua temperatura, o copo ideal, a colheita, a cortiça, ah bebi um assim em Valladollid quando ia a caminho de Bilbau (ia visitar o Guggenheim), os jantares de degustação, o Can Fabes (ah, mas eles odeiam Santi Santimaría, tão plebeu) e Ferran Adrià (ah, a tortilla com espuma de batata em vez de batata, que descoberta do caralho, uma espécie de Nestum de batata mas sem açúcar, o pior inimigo da humanidade, o veneno que alimenta todos os outros venenos), aroma de aroma de amora, taninos fortes, um vinho único com explosões de carqueja e final de boca de abacaxi, uma gota extenuante, este para a entrada, aquele para primi piatti, o outro para secondi, por aí fora, palatos que debicam sem avançar pelo corpo fora. Há um restaurante onde oferecem um «menu do bem» (juro) que termina com bulgur e bagas gogi.

 

Grandiloquentes, à esquerda e à direita, é a pior raça, detectável ao primeiro parágrafo – um mestrado. Ouvi-os durante uma vida inteira. Nos jornais, nas redacções, nas escadas, nossos amáveis senadores que falharam na pátria mas continuam a dar conselhos. Padres de um religião plebeia, Torquemadas, sábios, coleccionadores. Hoje nada os separa senão a defesa do que resta, das tropas que ocupam a república e que hão de manter relações com gente dos negócios — fazem-no com naturalidade. Sem dificuldade aparente. Sem remorso. Mas sobretudo sem humor. Os pais têm o retrato pendurado na sede de um banco ou num corredor da faculdade; os tios foram íntimos de um ministro que depois trataram de trair com ligeireza; o avô foi comandante de uma companhia de Dragões durante a República e casou com uma prima cujo dote eram terrenos que ainda hoje rendem bastante. Fazem selfies, amam o povo na sua generosidade, prometem tanto.

 

Um dos meus melhores amigos teve os seus tempos de Enver Hoxha, de Mao, de revolução cultural — e de arrependimento. Felizmente, manteve o humor. Soma, àquela nostalgia adolescente, o peso de um sinal da história; relembra as palavras essenciais: operariado, greve, mulheres, riso, humor. Encontramo-nos para falar de América Latina, das cervejas mexicanas, dos ditadores falhados, dos loucos que destroem Caracas ou dos que resistem em Lima ou em Montevideu. Apaixonamo-nos pelos lugares, temos saudades de outro calor, temos saudades dos amigos. Votamos de maneira diferente, ele não tem remorso, não tem dificuldade, mas tem vida e humor. Tem mundo para lá dos ocupantes da República. Comovo-me. Ficamos dependurados de uma livraria enquanto as pessoas passam, à entrada da noite. O mundo podia ter sido de outra maneira; podia ter sido pior, também. Em tempos jantámos altas horas – eu terminava um romance que não acabava, e aproveitava-lhe as histórias, falávamos de Casablanca. «Como será ter uma casa em Casablanca?» Enver Hoxha, Mao, operariado, greve; o mundo mudou, mas o riso permanece. Os outros também, conheci-os com a mesma determinação e usando outro hemisfério do cérebro. Hoje, os seus amigos estão muito fascinados com as barrigas de aluguer e têm um dicionário de expressões sexistas e misóginas que não usam nem diante do pelotão de fuzilamento. Chegámos ao mesmo ponto vindos de sítios diferentes. Contamos as mesmas anedotas de judeus. Chegámos a um ponto em que vemos a república devorada pelas tropas ocupantes, por funcionários de cozinha. Ambos sabemos que a Albânia nunca existiu; eu já lhe tinha dito.

 

 

Francisco José Viegas

(blogue A ORIGEM DAS ESPÉCIES)

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Convidado: CARLOS FARIA

por Pedro Correia, em 14.08.17

 

Por uma comunicação social local viável e isenta: o caso açoriano

 

Quem lê a imprensa açoriana verifica que as notícias que envolvem o executivo regional possuem quase invariavelmente como fonte o “GaCS”, o acrónimo de “Gabinete de Apoio à Comunicação Social”, a agência noticiosa do Governo dos Açores.

Em princípio nada há de mal num gabinete do género, todavia, ao lermos a mesma notícia em diferentes órgãos de comunicação social logo se descobre que o GaCS não é apenas a fonte da notícia, é também o autor do texto, pois este, por norma, nem varia entre jornais. A partir daqui, o que se deveria ler como uma informação isenta mais não é que o discurso oficial do Governo sobre as matérias em questão. Escusado será dizer que, mesmo na eventualidade de ser redigido por um jornalista, não é a mesma coisa o tratamento noticioso que resulta de uma redacção de jornal face ao que sai directamente dos assessores de imprensa dos gabinetes políticos e distribuído pelo serviço do executivo que tem a função de garantir a divulgação da estratégia comunicacional do Governo. Mas é isto que é replicado ipsis verbis por grande parte dos meios de comunicação social por quase toda uma região sob a alçada desse mesmo Governo.

Num instante, um Serviço Público de apoio à comunicação social transforma-se num Departamento de Propaganda do Governo e pago com os impostos dos destinatários.

 

Pode-se dizer que, por si só, este GaCS não compromete a isenção da comunicação social, pois as notícias por ele veiculadas não são obrigatoriamente publicadas pelos jornais regionais e muito menos se impõe que o sejam na íntegra.

Em teoria é assim, mas quando se teve a experiência das dificuldades por que passam estes órgãos locais situados em ilhas com escassas dezenas de milhares de habitantes facilmente se sente como se pode coagir a liberdade de imprensa com meios legais.

Financeiramente a generalidade destes jornais são deficitários, não só pela escassez de vendas face um reduzido público-alvo, que reduz receitas de publicidade que os suportem, mas também pela impossibilidade de alargar o universo de leitores, pois a descontinuidade geográfica levanta uma barreira psicológica que impede à imprensa escrita uma identidade arquipelágica para além da ilha-sede. Não conheço nenhum jornal sem o “rótulo da ilha” onde está a sua redacção e direcção.

 

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Esta realidade socioeconómica leva a que muitos dos jornais insulares apenas sobrevivam à sombra dos subsídios do mesmo Governo que lhes fornece grande parte das notícias mais impactantes para o seu público, o que é assegurado através de uma estratégia dita transparente de contratos-programa de apoio à comunicação social.

Apesar do atrás referido, isto leva à agudização da dependência e da subserviência dos jornais ao poder político, não assumida na prática, mas fácil de constatar. Os receios de atrasos nos apoios são uma arma que pesa, e muito, sobre veleidades de se investigar e informar de forma diferente ao do conteúdo do comunicado distribuído pelo GaCS. Lembro-me muito bem do sufoco financeiro que foi pertencer à direcção de uma cooperativa detentora de um semanário e da sensação que as justificações dos atrasos de cumprimento dos acordos de financiamento tinham como função dobrar pretensas liberdades de imprensa. Nestes casos, a psicologia do medo pesa muito na decisão.

 

Nunca vi coarctada a presença em jornais de artigos de opinião de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e sociais, mas estes têm sempre um rótulo de enviesamento individual e por isso sem a força da notícia isenta, mas na prática muitas destas são produzidas nos gabinetes do poder e só uma certa maturidade permite apreender esta realidade.

Ultimamente tenho assistido a representantes do poder a criticar em artigos de opinião editoriais de jornais locais que tinham uma análise crítica a situações convenientemente explicadas pela informação oficial, outro sinal que soa a ameaça de quem subsidia o mensageiro.

Na internet têm surgido toda a espécie de sites que pretendem ser noticiosos, num espaço caótico sem controlo e livre de qualquer regra ética, mas será esta a alternativa que resta?

 

Está assim em causa a sobrevivência da livre comunicação social nos meios mais remotos, neste artigo o exemplo insular, mas é sempre algo que deveria preocupar e merecer atenção de quem tem a obrigação de zelar para que a liberdade de imprensa como suporte do Estado de Direito e da Democracia seja igual em todo o território nacional.

Em Trás-os-Montes e Corvo sabem-se as intervenções do poder nas ruas e bairros de Lisboa e Porto, mas aos lisboetas e portuenses pouco lhes é noticiado sobre o que se passa no resto do País que para muitos é paisagem, excepto catástrofes que lá ocorram, e para quem resiste a viver nos territórios longínquos é a imprensa local que cobre esta lacuna, mas até nesta é obrigação do Estado assegurar que sobreviva livre e isenta do poder político.

 

 

Carlos Faria

(blogue MENTE LIVRE)

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Convidado: PAULO GUINOTE

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

Fazer velho dizendo que é novo

 

As políticas educativas em Portugal são sempre um sucesso para quem as implementa e um fracasso para quem quer justificar novas reformas. A verdade é que raramente são avaliadas de uma forma independente, pois as escassas instâncias que temos para fazer esse tipo de avaliação (Universidades, Conselho Nacional de Educação) estão completamente contaminadas por muitos daqueles que, em seu tempo, estiveram associados à preparação ou implementação dessas mesmas políticas. A endogamia académica é uma evidência neste sector e são muito poucos os casos em que as “investigações” não fazem lembrar aquelas outras em que os “estudos” que aconselham determinado tipo de medicação foram patrocinados pelas empresas farmacêuticas com interesse directo na comercialização de um dado “remédio”. A teia estabelecida entre centros de investigação e o Ministério da Educação são evidentes para quem conhece um pouco dos seus meandros, embora para a opinião pública se faça passar a noção de que é tudo “independente”. O mesmo se passa com o próprio Conselho Nacional de Educação, cuja presidência raramente é entregue a alguém que não tenha sido ou venha a ser Ministro da Educação ou muito próximo de um determinado lobby político activo no sector, conforme os ciclos eleitorais. E a coisa nem melhora com o recurso a entidades internacionais, sendo que a OCDE é a preferida para o Estado português encomendar estudos ou recomendações durante os governos do Partido Socialista, tendo preferido o governo PSD/CDS recorrer ao FMI nos tempos da troika. Raramente se encontram recomendações que não encaixem nos programas pré-existentes, assim como não é nada estranho que os dados usados em tais estudos, em especial os comparativos, sejam os fornecidos pelas entidades nacionais de uma forma nem sempre muito transparente. E quando os dados não são completamente dóceis, são martelados ou desvalorizados como secundários (caso do progresso do desempenho dos alunos portugueses em todos os testes internacionais, dos PISA aos TIMMS, que é subalternizado quando um novo ciclo eleitoral “exige” mais uma vaga de “reformas” e/ou de “inovação”).

 

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Escrevo isto a propósito de estarmos a experimentar mais uma vaga reformista no ensino não-superior que se tem organizado em torno de uma retórica que critica o ensino português por estar parado no século XX ou mesmo XIX (embora com resultados a melhorar de forma consistente no século XXI) e ser uma necessidade inadiável adaptá-lo ao século XXI e a um novo conjunto de “competências” destinadas a criar um “perfil” de aluno para os novos tempo, no que se apresenta como sendo uma “inovação” que só empedernidos conservadores não podem apoiar e aplaudir. Perante uma apatia quase generalizada, fruto do cansaço que este tipo de ímpetos reformistas produzem na classe docente, bem como da percepção que é inútil tentar um debate racional e fundamentado quando a posição de uma das partes se apresenta, à partida, como moralmente superior e só disponível para alterar vírgulas ou advérbios e nunca para reconsiderar algo de substantivo, o “debate público” das medidas é feito em circuito fechado e com pontas-de-lança na comunicação social e blogosfera, beneficiando de uma cada vez menor capacidade de cotejo e análise crítica dos factos.

 

Quase tudo o que agora se apresenta como sendo um “novo” projecto de “autonomia e flexibilidade” na gestão do currículo do Ensino Básico já foi preparado e experimentado há cerca de duas décadas e não correu bem. Quase tudo o que os governantes do sector aparecem a defender como sendo um imperativo da modernidade é a recauchutagem do que foi tentado na segunda metade dos anos 90 do século XX, mas como se escreve na obra A receptividade à mudança e à inovação pedagógica (Ana Paula Cardoso, Edições Asa, 2002, p. 21) a inovação é muitas vezes relativa, pois “pode ser considerada pelos actores como inovação, mesmo que já tenha sido conduzida, de maneira quase idêntica, noutros lugares e ao mesmo tempo ou noutros tempos”. Entre 1996 e 1998 já se fez um debate muito alargado sobre estas matérias que deu origem ao despacho 4848/97 de 30 de Julho e a uma experiência-piloto com uma dezena de escolas. Menos de um ano depois  o despacho 9590/99 de 14 de Maio regulamentaria a generalização do que ficaria conhecido como a “gestão flexível do currículo”, existindo abundante bibliografia sobre o assunto, nomeadamente a publicação das comunicações ao Fórum Escola, Diversidade e Currículo (ME, 1999), entre as quais temos o testemunho da então secretária de Estado da Educação Ana Benavente que declararia que “temos de passar de um ensino/aprendizagem centrado nos programas e nos saberes, para um ensino/aprendizagem centrado nos resultados dos alunos no que diz respeito às competências que eles constroem, ou seja (…) a competência que cada criança, cada jovem, constrói e que lhe permite continuar a aprender”. Anunciava-se “uma enorme e imensa revolução que vai obrigar a trabalhar de um modo diferente, de definir o que se pretende e depois desenhar o caminho para lá chegar” (p. 28).

 

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Tudo o que agora se anuncia com estrépito mediático e ar ufano, mais não é do que retomar algo com 20 anos e que foi abandonado em poucos anos no que tinha de mais importante, apesar de agora aparecerem a defender esta solução representantes de quase todas as forças partidárias que governaram a Educação em Portugal nos últimos 30 anos, incluindo ministros, secretários de Estado, especialistas académicos ou apenas cortesãos do poder.

Era importante perceber-se porque foi essa reforma um fracasso antes de a requentar e servir de novo, como se de coisa inédita se tratasse. Eu tenho algumas ideias sobre as causas do fracasso e, infelizmente, encontro-as de novo presentes, agravadas com tudo o que no entretanto se passou e desmobilizou as “escolas” para encarar este tipo de medidas com entusiasmo e vontade de uma colaboração activa. Deixando de parte as questões de ordem sócio-profissional, gostaria de aqui recordar que este foi o período em que para tudo começou a ser necessário ter um documento a comprovar que o que tinha sido feito tinha mesmo sido feito. Em que a burocracia soterrou a pedagogia e em que a representação dos actos pedagógicos passou a ocupar muito do tempo que deveria ser usado nos actos em si. Foi o tempo em que o palavreado cerrado que o ministro da altura crismou como “eduquês” se tornou dominante e feriu quase de morte a essência do trabalho dos professores.

 

Em 2017 está tudo de volta, como em 1997. Os erros repetidos, a retórica recuperada, a terminologia decalcada, as metodologias clonadas, a superioridade moral da fórmula mágica e que se pretende única para o “sucesso” amplamente despejada sobre quem ousa contestar a bondade ou adequação da solução única da imposição rígida da “flexibilidade” numa lógica top-down de uma pretensa “autonomia das escolas”, enterrada em paralelo através do esvaziamento das suas competências para as autarquias. Mas essa é toda uma outra conversa.

A História não se repete, a menos que seja como Farsa.

Mas sempre como Sucesso.

 

 

Paulo Guinote

(blogue O MEU QUINTAL)

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Convidado: JOÃO MARCHANTE

por Pedro Correia, em 09.08.17

 

Histórias de bibliófilos

 

Ainda sou do tempo em que entrando em qualquer boa casa portuguesa logo se avistavam livros. Nalguns casos, com direito a livraria (fórmula pela qual era designada a biblioteca particular, antes do comércio se ter apropriado totalmente da palavra). Hoje em dia, pelo contrário, são escondidos nos corredores, quando existem. A mudança deu-se numa só geração.

Dizem-me agora que os livros já não têm valor e que ocupam muito espaço. Assim, viúvas e filhos quase que pagam para se verem livres dos livros deixados por quem muitas vezes levou uma vida inteira a coleccioná-los.

Nestas andanças, um coleccionador designa-se por bibliófilo — alguém que tem amizade aos livros. Movido por esta amizade, que logo passa a paixão e culmina em amor, o bibliófilo não resiste a parar e entrar em todo e qualquer sítio que tenha o objecto do seu desejo, desde a livraria comercial, com as últimas novidades nos escaparates, até — e principalmente — aos velhos alfarrabistas, que contêm as obras antigas e raras, ou apenas arredadas do mercado, pois que cada vez mais, na sua febre de lucro, as lojas reenviam para as editoras os livros não vendidos, após uma ou duas semanas, para darem rapidamente lugar a outros acabados de vir a lume; e, assim, pouco depois, como que por artes mágicas, os primeiros aparecem nos livreiros-alfarrabistas. Esta velocidade pode mesmo ser alucinante.

Certa vez, aconteceu-me receber um convite para o lançamento de um livro, ao qual não pude comparecer. No dia seguinte, à hora do almoço, passei num alfarrabista e aí estava essa monografia à venda, com dedicatória e tudo! Alguém lá foi, o comprou (ou recebeu como oferta do autor), recolheu o autógrafo do escritor, leu-o na diagonal ao serão, e de imediato o empandeirou na manhã seguinte.

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Mais triste do que isto só mesmo quando me deparo com livros à venda marcados por ex-libris de pessoas com quem convivi e admirei e sei terem descendentes directos, os quais optaram portanto por nem sequer dividi-los entre si nas partilhas. Às tantas, mais valendo isto, porque possibilita um bibliófilo criterioso comprar essa biblioteca, ou núcleos dela com interesse, fazendo-a até chegar a uma instituição pública nacional, onde todos os que gostam de ler possam ter acesso às obras, do que ir a casa de alguém e ver nas prateleiras, à laia da biblots, ao sabor das cores das encadernações, livros dispersos de obras em vários volumes — uma enciclopédia, a obra completa de um escritor, etc.

Para rematar estas histórias trágico-cómicas, não resisto a contar aqui a melhor que presenciei: estando eu numa loja dum conhecido livreiro-alfarrabista, vejo entrar uma emproada criatura de meia-idade, toda aperaltada, que dispara para a jovem que lá estava a trabalhar: «Tem livros antigos de Direito?». Responde a rapariga: «Que autores procura?» Vocifera a serigaita: «O que eu quero são boas encadernações, para o escritório do meu marido». Conclui a empregada, revelando-se bibliófila: «Enganou-se no sítio, isto aqui não é uma loja de decoração».

Bibliófilo é pois alguém que tem um profundo respeito pelos livros, como entes amados, e dedica grande parte do tempo ao seu convívio — procurando-os, mirando-os, namorando-os, acariciando-os, cheirando-os, conquistando-os, aprendendo com eles, guardando-os perto de si. Note-se que o bibliófilo tem em princípio e por princípio um género preferencial ao qual dedica as suas apaixonadas energias de busca e aquisição; por exemplo: Poesia inglesa, ou História de Portugal, ou Romance francês do século XIX, ou Incunábulos, ou primeiras edições de Camilo e Eça, ou Livros de Arte, etc. e tal.

Ah!, e há ainda, por estranho que pareça, um pequeno nada que é tudo: o bibliófilo lê os seus livros.

Por fim, contrariamente a outros amores, este pode e deve ser partilhado. Surgem assim as tertúlias literárias, que têm como principal tema os livros e que servem para despertar ou consolidar amizades entre pessoas com afinidades culturais. Aí se partilham experiências, se mostram livros, se fala sobre eles, e muitas vezes surgem projectos comuns. Também estes encontros, infelizmente, se têm vindo a perder, invocando alguns membros destes grupos a famigerada «falta de tempo», que faz pendant com a «falta de espaço», a tal que leva a expulsar os livros de casa.

 

 

João Marchante

(blogue ETERNAS SAUDADES DO FUTURO)

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Convidado: PAULO FERRERO

por Pedro Correia, em 07.08.17

 

Lisboa, dez anos "capital da demolição"

 

Feitas as contas do balanço autárquico do decénio 2007-2017 (mandato intercalar 2007-2009 mais os dois mandatos seguintes de quatro anos cada) em termos de reabilitação urbana, é pena que sejam apenas isso: contas. Estatística para inglês ver.

Com efeito, por detrás dos números pomposos apresentados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em tudo quanto é fórum internacional, há uma cidade do faz-de-conta em que, regra geral, os prédios intervencionados se tornaram apenas fachadas (e mesmo aí adulteradas com janelas e portas medonhas em alumínio/pvc - como se a Lisboa fosse proibido resistir à intempérie com a madeira, como os atrasados “tropicais” das ilhas britânicas ou da Escandinávia o fazem, onde se teima em manter como obrigatória a madeira nos perfis das janelas, o ferro nas portas e por aí fora), esventrados que foram nos seus interiores (fazendo desaparecer estuques, frescos, materiais nobres, etc.) e impermeabilizados os seus logradouros, com os inevitáveis “apartamentos” para os popós, que o Plano Director Municipal teima em privilegiar.

E é pena redobrada se pensarmos no imenso esforço que a CML fez, e muito bem, durante esses mesmos 10 anos no pelouro respectivo (Urbanismo), ao sarar a chaga da corrupção e dos escândalos de dimensões colossais em que a CML se atolara desde meados dos anos 90 … ou, em pelouros diferentes, nas tentativas, muitas vezes ciclópicas, de dignificação do espaço público sem nexo nem gosto (a abertura de esplanadas, o aproveitamento dos miradouros, o relançamento dos mercados emblemáticos, o programa Uma Praça em Cada Bairro - este apesar de todos os defeitos de “esterilização” dos locais-alvo, por via de uma inadequada estética “Pólis”, indigna de Lisboa.

 

Alargando o espectro, a CML também se portou bem noutras áreas ciclicamente esquecidas (com ou sem propósito), ao apostar na “mobilidade suave” (mais espaços pedonais, ciclovias, etc.), ou, mais recentemente, o grande feito que foi lançar o programa Lojas com História, âncora legal e operacional fundamental para a salvaguarda, recuperação, divulgação e viabilização do comércio de carácter e tradição que ainda existe na cidade.

É por isso que ainda custa mais assistir-se à confrangedora propaganda de algo que não existe, porque a reabilitação urbana tem-se pautado pelo total desrespeito pela Carta do Património, anexa ao Plano Director Municipal, e, portanto, esse desrespeito tem tradução prática no incumprimento das várias cláusulas de um articulado que os mais incautos considerarão como imaculado (no que se refere à estrita obrigação de preservar os interiores, os materiais, os vãos, as métricas, etc., dos edifícios que estejam listados nesse inventário, já para não falar nos que são classificados como de interesse público ou que estão nas zonas de protecção destes últimos, o que ainda é mais grave).

Pois não é nem tem sido nestes últimos 10 anos e não se prevê que venha a ser diferente tão cedo, talvez mesmo quando já nada houver a salvaguardar.

Com efeito não há palácios, palacetes, antigas moradias, prédios antigos, conventos, hospitais, quartéis ou antigas instalações industriais que estejam a salvo do camartelo. Ele há mesmo “nichos de mercado” que são verdadeiros filões.

 

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 Rua Barata Salgueiro, 21 (foto de 2017)

 

Veja-se o caso dos prédios de rendimento de finais de XIX, princípios de XX, onde Lisboa era rica, à nossa escala, e onde há bairros e artérias emblemáticos que pura e simplesmente estão irreconhecíveis e reduzidos, quanto muito, a fachadas: o outrora belíssimo Bairro Barata Salgueiro, por exemplo, tem sido disso mártir (10 prédios na R. Rosa Araújo, 1 R. Castilho, 3 Rua Rodrigo da Fonseca, 1 R. Barata Salgueiro, 1 R. Duque de Palmela, 1 R. Alexandre Herculano), bem como as Avenidas Novas, os bairros das Picoas e de Camões (zona da Av. Duque de Loulé), a Estefânia, a Almirante Reis, Campo de Ourique, Lapa, enfim.

Tem sido um fartar vilanagem no que toca a essa época construtiva, graças, por um lado, e desde logo, às características originais desse edificado: prédios baixo (3-4 andares) e menos apartamentos, gigantescos para os nossos dias (uma combinação explosiva se aliada aos “mitos urbanos”, irrevogáveis, dos prédios antigos, a cair, de que ninguém já gosta, recuperá-los é caro e moroso, etc.), com logradouros com árvores e não pátios para estacionamento, etc.

 

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 Ruínas de uma moradia Arte-Nova na Rua Bernardo Lima (foto de 2013)

 

E, por outro lado, graças à estratégia consciente da CML em “reabilitar” o edificado decrépito (por anos e anos de incúria permitida aos proprietários, na sua esmagadora maioria fundos especulativos) por via da construção nova com manutenção das fachadas, ampliação dos 2-3 andares para efeitos de recolha de taxas e, claro, contando com a tradicional inoperância e permissividade dos serviços do Igespar/DGPC, os mortíferos “licenciamento zero”, projectos PIN e projectos de “interesse excepcional”, leia-se, acima da lei. Isso tudo e, como é natural, a marca de autor – nada mais seguro para uma aprovação de lesa-património do que um projecto de arquitecto de firma reconhecida.

Desenganemo-nos, é puro divertimento esta noção de reabilitação urbana que consta do site da CML «Reabilitação urbana é a forma de intervenção integrada sobre o tecido urbano existente, em que o património urbanístico e imobiliário é mantido, no todo ou em parte substancial…».

A expressão não passa de um chavão. As estatísticas, para inglês ver, ou seja, para revista republicar a incauto acreditar.

E se a coisa não resultar à primeira, porque fulano esteve atento e votou contra, sicrano pôs uma areia na “engrenagem” ou beltrano, pura e simplesmente, disse o que outros calaram, há sempre um remédio para que resulte à segunda.

Há que agilizar processos, criar comissões, quem sabe, mais protocolos. Em última instância faz-se o projecto aprovado trocar de mãos, revende-se o edifício, assegura-se a mais-valia (até se “emite moeda”, como alguém em quem confiei dizia), ou uma alteração durante a obra, à socapa (por ex., o que era para ser hotel, e por isso ficou isento de alguns pareceres e etapas administrativas, passa a prédio de habitação e escritórios.

 

Está tudo muito bem pensado, reconheça-se. Além de que contam com a indiferença do comum dos mortais, e também das élites, se é que as há. A sociedade civil é desorganizada, e quando se organiza é imediatamente catalogada disto e daquilo. Por fim, a lei é muito escrita e cheia de palavas caras, mas a verdade é que ninguém a faz cumprir (por ex., alguém sabe por que razão a CML não faz cumprir a obrigação legal de obras de conservação cada 8 anos? Ou até isso já se foi?), além de que a figura de “crime urbanístico” é comprovadamente imberbe.

O atraso é geracional e só se agrava. Daqui por 10 anos, do património de transição restarão apenas alguns exemplos pontuais, talvez só mesmo os edifícios classificados, um punhado de bravos resistentes, para memória futura. Daqui por 10 anos estarão na calha os edifícios Déco (aliás, já estão a ser esventrados, só que mais low profile. Depois, seguir-se-ão os modernistas.

Só aos dos anos 60-70-80-90 é que ninguém deita abaixo. Lá para 2117? Oxalá.

 

 

Paulo Ferrero

(blogue CIDADANIA LX)

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Convidado: JOÃO TÁVORA

por Pedro Correia, em 04.08.17

 

Mais uma crónica na Estação Tola

 

Se há altura do ano em que a conversa fiada e a especulação sobre a bola é legítima e até recomendável é nesta época estival, também conhecida como tola, em que as equipas se preparam e os adeptos se enchem de expectativas para as competições que tardam em recomeçar. Na verdade por estes dias o calendário futebolístico inicia-se cada vez mais cedo, um fenómeno que também vem acontecendo com o ano lectivo que roubou o mês de Setembro aos nossos miúdos que nem sonham como era ocioso e estruturante o longo Verão dos seus pais. Este ano o Campeonato Nacional que modernamente se chama “Liga” (os portugueses são peritos em mudar os nomes às coisas convencidos que dessa forma as mudam) começa na primeira semana de Agosto, entrando pelas nossas férias adentro, quando os adeptos deviam estar, não nas bancadas dos estádios, mas à beira-mar a ler preguiçosamente novidades sobre reforços milagrosos e as tácticas inexpugnáveis que dizimarão os nossos adversários, atrasando a leitura do clássico que estava prometida para estas férias.

 

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Mas a verdadeira e grande novidade da época futebolística que se avizinha é sem dúvida o vídeo-árbitro. Este novo actor, mais do que revolucionar o futebol que passará a ter mais uma ou outra paragem inócua, que estou convencido trará mais justiça e transparência à disputa, acima de tudo promete incendiar ainda mais a indústria do comentário futebolístico em grande expansão nos canais da televisão por cabo. A coisa promete, pela simples razão de que muitas das decisões dos árbitros, mesmo com a ajuda do vídeo, continuarão a ser subjectivas e falíveis, dependendo da perspectiva (da cor da camisola) do observador: o milímetro a mais ou a menos do fora de jogo indefinido, a bola na mão ou a mão na bola dentro da grande área - ou a milímetros do seu limite; já para não falar da apreciação à intensidade do contacto do defesa que derruba – ou não - o atacante e da (in)justiça do consequente castigo máximo. Com a agravante das decisões de agora em diante provirem de uma análise ponderada. Por isso não vão faltar teorias da conspiração e toda a sorte de condenações e pressões sobre… o vídeo-árbitro. Se é previsível que o uso das tecnologias irá beneficiar a justeza das decisões em campo e o futebol atacante em geral, o vídeo-árbitro passará ele próprio a ser mais um inevitável protagonista do espectáculo, condenado umas vezes, exaltado outras tantas, em debates insanos por essas televisões afora.
Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza. O seu prolongamento será feito à maneira antiga, ao vivo e com alma, à boa conversa ao balcão do café com os vizinhos, ou com os amigos numa aprazível esplanada. Venha daí então o campeonato que desta vez é que vamos ganhar.

 

 

João Távora

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidado: FRANCISCO M. VALADA

por Pedro Correia, em 02.08.17

 

Susceptibilidades e rigor científico

 

 

Algernon: Nothing annoys people so much as not receiving invitations.

— Oscar Wilde, “The Importance of Being Earnest”

 

De vez em quando, há quem seja paladino do rigor científico, aniquilando-o em simultâneo. Isso aconteceu recentemente num texto do jornalista Daniel Oliveira, acerca das controversas declarações de Gentil Martins:

De outras refregas e escrutínios, é sabido que, por aquelas bandas, por única e exclusiva culpa da direcção do Expressoo rigor tem dias.

Por isso mesmo, não fiquei agradavelmente surpreendido ao ler "susceptíveis", pois adivinhei logo o resto do enredo, com a esperada presença no texto de insuportáveis obscenidades científicas como "correto" (uma espécie de coreto com dois erres) ou "coação" (a lembrar, por exemplo, o agora extremamente ambíguo acto de coar).

Convém deixar temas complexos como o "rigor científico" – em abstracto ou até mesmo em concreto, como nos casos do artigo enquanto subclasse fundamental do determinante  e  da electrodinâmica quântica  – a quem faz da ciência forma de vida.

A simples menção “rigor científico”, num jornal que impôs, aos seus profissionais e leitores, um código cientificamente denunciado na praça pública, é, no mínimo, engraçada.

 

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Lamentavelmente, esta mixórdia é o pão nosso de cada dia – não só no Expresso, mas, de forma geral, em qualquer publicação que se meta nestas aventuras ortográficas, sendo o Diário da República o meu exemplo de eleição, por razões que já expliquei. Todavia, em relação ao Diário da República, o Expresso tem, no mínimo, uma agravante: não foi intimado por ninguém a adoptar o quer que fosse. O Expresso adoptou o Acordo Ortográfico de 1990 porque quis fugir para a frente e o resultado está à vista.

A atitude do Expresso perante o fenómeno ortográfico em curso não serve de exemplo a ninguém. Aliás, a silenciosa e irresponsável resistência do jornal A Bola  também não. Mas não nos dispersemos. Concentremo-nos no mau exemplo do Expresso. Obviamente, em nome do rigor. Efectivamente.

 

Nótula: Há convites irrecusáveis, imediatamente aceites e ainda por cima com todo o gosto. Um deles é o que o Pedro Correia me fez: escrever um texto como convidado especial do DELITO DE OPINIÃO. Está escrito. Obrigado, Pedro.

 

 

Francisco Miguel Valada

(blogue AVENTAR)

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Convidado: SAMUEL DE PAIVA PIRES

por Pedro Correia, em 31.07.17

 

Da incapacidade crónica para debater civilizadamente

 

Há uns dias, André Freire escreveu um artigo intitulado “Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas”. O artigo tece várias críticas à gestão camarária da capital, dando particular relevância às questões das obras públicas e da mobilidade, não se enredando em querelas ideológicas ou partidárias. Ainda assim, numa época em que as redes sociais potenciam o efeito de câmara de eco e contribuem para o entrincheiramento de partes em contenda ideológica e/ou partidária, que não se coíbem de fazer concursos de ortodoxia, passar certificados de pureza ou impureza ideológica e protagonizar purgas dos impuros que apresentem qualquer desvio ao que deva ser a linha orientadora da respectiva tribo política, não deixaram de surgir críticas ao artigo, em especial no mural do autor no Facebook, assentes em argumentos como os seguintes: “isto não é de todo uma postura de esquerda e fundamentada que nos tem feito crer como sendo a sua orientação”; “Esta gente de esquerda deviam (sic) ter cuidado no que escreve. Parece que estou a ouvir a cristas (sic)”; “O Sr. André Freire a fazer a política da direita! O povo não dorme e lhe irá dar a resposta em 1 Outubro de 2017...”

 

Dir-me-ão que, vindas de perfeitos desconhecidos, e atendendo aos níveis reduzidos de cultura democrática e pluralista e de preparação para o debate político civilizado do cidadão médio (se dúvidas houvesse a este respeito, as caixas de comentários dos blogs e jornais e as redes sociais esclareceram-nas), estas críticas não assumem especial relevo. Afinal, é pública e notória a hemiplegia moral, nas palavras de Ortega y Gasset, de que muitos sofrem, tornando-os incapazes de manter um debate civilizado com aqueles que perfilham outros pontos de vista (o mesmo Ortega y Gasset adoptava o perspectivismo, ou seja, a lógica tópica aristotélica, revitalizada no século XX pelo jurista alemão Theodor Viehweg, segundo a qual os diferentes pontos de vista sobre uma mesma realidade são complementares e as diferenças e peculiaridades, ao invés de obstaculizarem a procura da verdade, permitem captar certas porções da realidade). Contudo, às tantas surge uma conhecida historiadora, Irene Pimentel, que demole o artigo de André Freire não com argumentos, mas com esta prosa: “detesto todo o artigo, discordo dele, e nem percebo o interesse...”. Instada por André Freire a produzir argumentos, seguiu-se uma discussão em que Irene Pimentel passou o certificado de impureza, “Agora não me venha dizer que é de esquerda. Aliás fartei-me...”, ao que o autor do artigo replicou “já cá faltava essa da proprietária exclusiva e que passa certidões a dizer quem é e não é de esquerda!... passe bem minha senhora!”, e a historiadora treplicou “idiota mal criado. Sim, sou de esquerda. E deixe de me convidar para apresentar livros seus, por favor... Não se esqueça que eu tenho memória. Mas que mal educado, arrogante. Não passe bem. Vou eliminá-lo.”

 

Portanto, alicerçada na sua preferência ideológica ou partidária, Irene Pimentel sentiu-se no direito de purgar André Freire da sua tribo política, de o insultar e de revelar publicamente um convite privado que este lhe terá dirigido. Estamos a falar de alguém que, por defeito, deveria ter a capacidade de debater com elevação e não cair no insulto fácil. Infelizmente, parece-me que John Gray está certo ao considerar que a acepção oakeshottiana da política, que a entende como uma conversação, uma forma de acomodação de diferentes perspectivas, foi quase totalmente perdida. De facto, aquilo que Oakeshott classificava como política racionalista, a política do livro ou da cartilha ideológica, impera na política contemporânea, complementada por uma forte personalização da política que leva a que as tribos imponham ortodoxias, censurem heterodoxias, escondam e desculpem os defeitos dos seus membros e exaltem os dos membros das tribos opostas, sendo capazes de criticar ou defender uma mesma decisão ou atitude consoante a pertença ideológica ou partidária de quem a toma – como diria Sir Humphrey Appleby, “Where one stands depends upon where one sits”.

 

Existirá, porventura, alguma razão para que alguns partam para a discussão no debate público ou político a partir de um pedestal de superioridade moral a que se alcandoram? Creio que não. Alguns, à esquerda, ainda acreditam na possibilidade de uma ideologia científica, que julgam ser aquela que professam; outros, à direita, crêem que o alegado fim da história de Fukuyama lhes deu razão; muitos pensam estar do lado certo da história (como se esta fosse a Força do universo Star Wars); mas a esmagadora maioria considera-se moralmente superior apenas por mera convicção individual, um viés cognitivo que o neurologista Robert Burton explora em On Being Certain.

Infelizmente, na época em que vivemos, a humildade e a honestidade intelectual parecem não assistir a indivíduos que as deveriam fomentar e que, assim, acabam por se barricar em redutos assentes em racionalismos ideológicos ou meras convicções pessoais. O mesmo é dizer que em vez de utilizarem a força da razão, recorrem à razão da força. E como escrevi há uns anos, do debate num espaço público caracterizado pela cacofonia, onde a discussão é quase sempre dominada por surdos que sofrem de hemiplegia moral, (…) aos gritos uns com os outros, não pode surgir razão alguma.

 

 

Samuel de Paiva Pires

(blogue ESTADO SENTIDO)

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Convidado: JOSÉ MARIA MONTENEGRO

por Pedro Correia, em 28.07.17

 

Um dó li tá

 

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.

Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.

Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

 

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).

Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

 

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

 

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Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

 

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.

Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

 

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».

Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

 

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.

Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

 

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

 

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

 

 

José Maria Montenegro

(blogue O PALACETE)

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Convidado: LUÍS MOREIRA

por Pedro Correia, em 26.07.17

 

Levantados do chão

 

Em Pedrógão Grande, por iniciativa de uma mãe que perdeu um filho na tragédia dos fogos, nasceu uma Comissão para esclarecer o que não está esclarecido, não deixar esquecer e apurar responsabilidades.

Não move essa mãe coragem qualquer sentimento de vingança, mas tão só obrigar de uma vez o Estado e a sociedade civil local a arrostar com as suas responsabildades de nada terem feito para evitar a tragédia.
Não, não está tudo esclarecido como pretende o primeiro-ministro. Os vivos não se vão deixar calar com ofertas e promessas em memória dos seus. Os vivos querem esclarecer tudo e não vão deixar que os amordacem com a "central de comunicação". Com informação filtrada por uma das partes responsáveis.
Comandantes de bombeiros que operam no terreno entre a vida e a morte são agora tratados como irresponsáveis, como bocas grandes que não sabem comunicar. Fraco argumento. Se alguém que comanda não sabe comunicar é o próprio exercício de comandar que está em dúvida.
Ou é isso mesmo o que o governo quer transmitir à sociedade? Estão encontrados os responsáveis? É para aí que nos empurra o governo na covardia sem fim de quem vai de férias enquanto morrem inocentes? Salvam-se da irresponsabilidade os boys e as girls que nada sabem de fogos e que atafulham os gabinetes do Terreiro do Paço mas que são a voz do dono?
Levantados do chão, os vivos honrarão os seus mortos.

 

 

Luís Moreira

(blogue BANDA LARGA)

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Convidado: A. PINHO CARDÃO

por Pedro Correia, em 24.07.17

 

O deplorável teatro da geringonça

 

A monocórdica picareta falante, transmigrada de um seu ilustre avatar para a geringonça, modernizou-se, aumentou potência e cobertura, funciona agora em vários canais estereofónicos, e passou a dar voz e grito a nova e vasta sorte de malabaristas, prestidigitadores e contorcionistas, em fantasiosos teatros de circo e rua. A geringonça tornou-se na suprema arte de perder tempo, mas não se pode ter tudo, exotismo e governação capaz.

Se fosse uma peça de teatro, a geringonça poderia ser uma comédia. Poderia, mas a trama é tão medíocre que, de farsa em comédia, se foi tornando numa palhaçada. Se na comédia são os erros de percepção mútua, mal-entendidos e enganos entre os comediantes que provocam o riso e quem se ri é o público, já na palhaçada geringôncica quem é enganado é o público e quem se fica a rir são os comediantes. Jovens boys e velhos farsantes que nunca do palco saíram, o palco foi sempre a sua vida, eternos funcionários do palco à custa alheia.

Quando, o que é frequente, a peça não corresponde ao cartaz, o encenador-mor faz entrar em cena a troupe ilusionista a distrair os espectadores, que vão aplaudindo gato por lebre, mal pensando que se tornaram os bombos e os bobos do espectáculo.

Na mais recente representação em que, num primeiro acto, os comediantes penosamente dialogavam sobre um assalto ao principal forte das munições do país, a trama foi radicalmente alterada pelo encenador, mal regressado de férias. E o episódio terminou na apoteose de um hino aos heróis que prestaram o insigne serviço de despejar o forte, poupando incómodos à tropa e despesas de abate ao país. O forte era mera concentração de lixo e obviamente não se assaltam caixotes de lixo. Tancos nunca existiu, nem sequer no mapa, fim da peça.

Também houve Pedrógão, e mais de sessenta pessoas queimadas vivas. A Delegada da geringonça chegou e chorou no palco da tragédia, porventura como forma de melhor coordenação e comando. E do palco do fogo, saindo pela esquerda baixa, logo o encenador, bem de mansinho, se afastou para férias, deixando à boca de cena os principais personagens em diálogos homicidas, atribuindo uns aos outros todas as culpas sem ninguém se dar como responsabilizado. No fim, as forças da natureza, a trovoada seca, o raio da árvore, o downburst e a própria estrada, os deuses, como na tragédia grega, contra quem até é perigoso lutar, foram a explicação do sucedido. E assim apaziguados, fora das vistas do palco, no recato dos camarins, os farsantes maiores da geringonça resolveram fazer uma sondagem à popularidade das suas representações.

Enquanto isto, no teatro escolar, os alunos podem passar sem saber qualquer das suas falas, com quatro, cinco, seis ou sete negativas, mais um êxito da geringonça a bem da teatral fantochada educativa que insiste em representar. E, magnânimo e conformado, o Director do Instituto de Avaliação Educativa diz que o sistema está feito de modo a premiar a mediania…

Em matéria económica, com o inevitável fracasso da proclamada estratégia alternativa, a geringonça faz como o cuco, cantando êxitos em ninhos alheios que usurpou e para os quais em nada contribuiu.  

De farsa a comédia, de comédia a drama, de drama a tragédia, de tragédia a palhaçada, eis a geringonça em todo o seu esplendor. E é ela que, assim desgovernada, diz que nos governa. E há quem aplauda.

 

 

António Pinho Cardão

(blogue QUARTA REPÚBLICA)

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Convidado: VÍTOR CUNHA

por Pedro Correia, em 21.07.17

 

O país das mimosas púdicas

 

O termo “politicamente correcto” entrou com força no discurso comum e, consequentemente, no discurso político. Contudo, como acontece naturalmente com todos os termos cuja utilização se banaliza, o valor semântico manteve-se, por muito tempo, obscurecido. “Politicamente correcto” implica ortodoxia, não especial sensibilidade inclusiva como normalmente se pretende. Esta dissonância entre sintaxe e semântica leva a que a expressão comece a ser percepcionada como designação para discurso anódino, uma palha floreada para engordar sintaticamente conteúdo simples — e.g. “portuguesas e portugueses” para “portugueses” —, não como cortesia enfática para que cada ouvinte ou leitor se encontre no discurso, uma espécie de ‘encontre o Wally’ da oratória. “Politicamente correcto” é uma expressão que tem origem numa piada soviética popular nos anos 30 do século XX, que sublinha que o interesse do partido deve ser encarado como uma realidade acima da própria realidade1:

— Camarada, a tua afirmação é factualmente incorrecta.
— Sim, é. Mas é politicamente correcta.

 

A Mimosa pudica é uma planta da família das ervilhas que recolhe as folhas quando tocada ou na presença de calor. Este curioso fenómeno denomina-se por sismonastia e pode ser encontrado de forma mais exuberante na (proclamada) Direita portuguesa, que se recolhe não só com o toque mas também com o mais leve suspiro emanado da Esquerda. A proclamada Direita (doravante denominada simplesmente por “Direita” por abuso de linguagem) receia o calor, bastando o mais ténue bafo da Esquerda para que siga a ortodoxia discursiva, a do superior interesse da realidade do partido, a tal realidade mais real que a própria realidade. Quem pensa que Portugal não é um país extremamente politizado por simples observação de valores da abstenção em eleições está redondamente enganado: a politização dos indivíduos não se manifesta nas urnas e sim na facilidade com que estes adquirem o discurso formatado pelas universidades marxistas através da propagação mediática de terminologia emanada do socialismo científico e materialismo dialético.

A luta de classes é um conceito de venda difícil no século XXI. O capitalismo e o seu desenvolvimento tecnológico permitiu que operários — mantendo a terminologia marxista — se rendessem ao aburguesamento que um computador portátil e um smartphone com ligação à rede permitem. Adaptando-se à nova realidade, a realidade da posse de coisas2, tornou-se necessária a mutação de colectiva luta de classes para a esfera pessoal e individual, a dos comportamentos e costumes. Não é de surpreender que trotskyistas fossem os primeiros marxistas a adaptarem-se, motivando o sucesso do Bloco de Esquerda e similares noutros países europeus. Recentemente, dominando toda a agenda com terminologia de casta — e.g. “direitos dos homossexuais” em vez de “direitos humanos”; “combate ao preconceito” em vez de “classe oprimida” —, o ideário marxista recauchutado, inspirado nas tradições religiosas, adaptou o conceito de “pecado” em fobias múltiplas — e.g. homofobia, islamofobia, xenofobia — e o conceito de “virtude” na acção purificadora levada a cabo pelos múltiplos combates a discriminações por acção directa do governo, a elite informada para uma “sociedade mais justa”, eufemismo para o Homem Novo — e.g. “combater a homofobia”; “combater a xenofobia”.

Como todas as guerras inevitáveis, mais valia que começasse mais cedo do que mais tarde. Infelizmente, graças à sismonastia da Direita nacional, já foi içada a bandeira branca de rendição de forma preventiva, antes que alguém começasse a ter ideias. A consequência será mais uma década de destruição criativa até à silenciosa extinção dos resquícios de civilização ocidental em Portugal, a extinção que, quando finalizada, aparentará a tranquila sensação de que o país foi sempre assim desde o início dos tempos.

 

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1The Rise of Political Correctness”, Angelo M. Codevilla, Claremont Review of Books, 2016.
2“Communism doesn’t work because people like to own stuff”, Frank Zappa.

 

 

Vítor Cunha

(blogue BLASFÉMIAS)

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Convidado: OCTÁVIO DOS SANTOS

por Pedro Correia, em 19.07.17

 

Mulheres de(s)arma(da)s

 

Muito se tem falado, discutido, argumentado, justificada mas infelizmente, nos últimos anos – décadas! – sobre a calamidade dos incêndios em Portugal, e que atingiu um trágico, revoltante, apogeu no passado mês de Junho em Pedrógão Grande, com a morte de (pelo menos) 64 pessoas. Uma calamidade que tem muito de criminalidade – bastantes (se não a maioria) dos fogos são ateados por incendiários que apenas sofrem reduzidas, ridículas punições – e que só parece não ter fim porque todos os governos – enfim, o Estado – têm falhado na sua mais básica função, a de proteger a integridade do território, privilegiando a vigilância, a coordenação, o reforço e a aplicação de meios, humanos, financeiros e técnicos onde são mais necessários. Não é difícil, apenas requer vontade e trabalho.

 

Porém, existe outra – continuada – calamidade no nosso país, esta indubitável e exclusivamente de índole criminal, e que já causou, no mesmo período de tempo, muitas mais vítimas do que os incêndios; aliás, um estudo divulgado em Novembro de 2016 indicou que, nos 12 anos anteriores, registaram-se mais de 450 homicídios (ou «femicídios»…) concretizados… e 526 tentados! Mais especificamente de mulheres, vítimas da fúria machista, da raiva revanchista de ex-namorados e de ex-maridos. Que, quantas vezes, tiram igualmente a vida a outros, familiares e amigos, que têm o azar de estarem, no momento e no local errados, na companhia do alvo principal do seu ódio.

Falar nisto como «violência doméstica» não é suficiente. O que mais surpreende neste assunto gravíssimo, que é sem dúvida o pior dos escândalos numa nação em que eles abundam, é o (quase) silêncio… sobre algo que constitui um padrão preocupante, alarmante, com características de um massacre permanente, de assassínios em série, quase que se diria… de genocídio. Que suscita, como habitual, repetida reacção, uma impotente, inútil consternação. Onde estão as feministas, sempre prontas a reclamar contra a «sociedade patriarcal», a «masculinidade tóxica» e outros disparates do mesmo… género, mas que neste âmbito se mantêm incomodamente caladas e inactivas, quiçá rezando para que esta semana nenhuma outra mulher seja assassinada? À semelhança de Catarina Martins, que, agora que existe um governo que ela apoia, já não exige a demissão de ministros por causa dos incêndios mas que se limita a esperar que chova?

 

Esta maré de matança misógina não é, não tem de ser, um fenómeno fatal, «natural», inevitável. Há soluções, respostas, para o problema. No entanto, são um pouco «radicais»… para um país que «progressivamente» se tornou demasiado contemporizador para com a criminalidade, chegando ao cúmulo de ter como pena máxima 25 anos de prisão… independentemente do número de homicídios que se cometa – o castigo é idêntico, quer se mate um, dez, cem ou mil!

Não é, pois, de estranhar que os que matam as ex-esposas ou as ex-namoradas, e quando não se suicidam a seguir, invariavelmente se entregam na esquadra de polícia mais próxima – eles sabem, sentem, que o tempo que gastarão na prisão será mais do que compensado pela satisfação de terem «lavado» a sua honra. Repare-se que muitas, a maioria, das vítimas já haviam sido ameaçadas de morte pelos seus futuros carrascos, já tinham sido objecto de agressões, físicas e psicológicas, pelo que o perigo já era conhecido, previsível.

 

Que fazer, então? É muito simples: a essas mulheres confirmadamente em risco devem ser dadas armas de fogo, pistolas, talvez espingardas, e o treino para melhor as usarem e se (legitimamente) defenderem se e quando for preciso. Obviamente, pela polícia, em colaboração com a polícia. Porque esta, evidentemente, não pode, não consegue, mesmo que queira, estar sempre a montar guarda junto daquelas mulheres nas suas casas, nem acolhê-las nas esquadras. Estas nem sempre, ou nunca, estão situadas ao lado das casas das potenciais vítimas. Por mais rápidos, eficientes, corajosos, competentes que sejam, os agentes da autoridade raramente, se é que alguma vez, chegam a tempo de evitar os crimes «passionais». Logo, as «presas» têm de se tornar «predadoras». Em vez de desarmadas, as mulheres têm de passar a ser… de armas.

 

 

Octávio dos Santos

(blogue OCTANAS)

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Convidada: JOANA MARQUES

por Pedro Correia, em 17.07.17

 

Lisboa a preto e branco

 

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Joana Marques

(blogue QUIOSQUE DA JOANA)

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Convidado: J. J. AMARANTE

por Pedro Correia, em 14.07.17

 

O esquerdista acidental

 

Na vida das sociedades existem duas tendências antagónicas, para a mudança e para preservar o que se alcançou.

Poderíamos dizer que a primeira é progressista e a segunda conservadora. Mas trata-se de classificações apressadas porque por vezes as mudanças são feitas para regressar a situações anteriores enquanto o progresso se faz encontrando soluções inovadoras.

Existe outro par de tendências antagónicas que corresponde melhor à distinção entre esquerda e direita. Enquanto a esquerda sublinha a igualdade essencial de todos os seres humanos a direita sublinha as diferenças entre seres humanos, que também são essenciais à humanidade. Somos todos iguais mas também todos diferentes.

 

A origem da classificação esquerda/direita vem da Revolução Francesa, em que os deputados do lado esquerdo da assembleia davam prioridade à igualdade enquanto os do lado direito davam prioridade às diferenças vincadas entre as classes sociais que existiam no anterior regime.

Como a distribuição da riqueza era então muito desigual em relação à contribuição de cada um, a esquerda foi conotada em toda a parte com o desejo de mudança enquanto a direita com a manutenção do statu quo.

Mas quando após muitos anos as mudanças introduzidas pela esquerda começaram a ser consideradas excessivas nalguns países, observou-se uma maior apetência pela mudança pela parte da direita enquanto a esquerda se batia pela manutenção das regras entretanto estabelecidas.

 

Talvez tenha sido a revolução industrial ocorrida na Europa que criou condições para uma partilha da riqueza muito mais equitativa do que a que existira na Idade Média. Em Portugal a revolução industrial foi muito tímida, devido à nossa situação periférica, à catástrofe pombalina da educação (de repente 20.000 alunos do “secundário” ficaram sem professores devido à expulsão dos Jesuítas), às lutas entre absolutistas e liberais no século XIX. Na primeira metade do século XX tão pouco houve grandes progressos em Portugal, tendo chegado a 1950, metade do século XX, com uma pobreza confrangedora e uma taxa de analfabetismo de 42% (fonte: António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, mostrada na tabela a seguir), um valor único e inacreditável na Europa a que alegadamente pertencíamos!

 

Ano   Analfabetismo Variação

1900           73%             -----

1911           69%             -4%

1920           65%             -4%

1930           60%             -5%

1940           52%             -8%

1950           42%           -10%

1960           33%             -9%

1970           26%             -7%

1981           21%             -5%

1991           11%           -10%

2001             9%             -2%

 

Devido a esta herança de falta de formação, temos tido dificuldade em encontrar profissionais competentes quer na prestação de serviços quer na manutenção de máquinas, sendo preferida a solução de deitar fora e comprar novo, muitas vezes representando um desperdício de capital.

Mesmo agora sofremos deste handicap, quer na manutenção quer nas despesas de funcionamento corrente, como por exemplo no sistema de videovigilância dos paióis de Tancos que estava há dois anos avariado antes do roubo de há dias, no SIRESP que tem má performance nas situações de crise em que teria maior utilidade, na falta de verba para manutenção e funcionamento dos aparelhos de ar condicionado das escolas reabilitadas no programa da Parque Escolar, etc.

 

Claro que o esforço na formação deu os seus frutos. A qualidade e consistência de muitos serviços melhoraram imenso nestes últimos 40 anos, como por exemplo no serviço nacional de saúde, no ensino, no fornecimento da electricidade, da água, do gás, dos telefones do acesso à internet, no saneamento, no tratamento do lixo e em tantos outros sectores que costumam ser noticiados apenas quando ocorrem grandes problemas.

Mas partindo tão atrasado, o país continua na cauda da Europa em muitos indicadores e uma pessoa com tendências conservadoras como eu, que aprecia ver as coisas a funcionar consistentemente bem, não se pode dar por satisfeita apenas com o que se alcançou, vendo-se forçada a apoiar mudanças para uma distribuição mais equitativa da riqueza, que ainda está mais desigual do que a média da União Europeia, sendo a razão principal do nosso atraso.

Ou numa frase: para ser conservador era preciso que o país estivesse muito melhor.

 

É o que me torna num esquerdista acidental.

 

 

J. J. Amarante

(blogue IMAGENS COM TEXTO)

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Convidado: JOÃO FERREIRA DIAS

por Pedro Correia, em 12.07.17

 

O género da discussão

 

O género é um dos temas inquietantes da Antropologia. Talvez por isso seja desagradável darmos com confusões entre Direitos das Mulheres/Igualdade entre Homens e Mulheres e Igualdade de Género. Esta confusão voltou a terreno, por estes dias, no Festival de Cannes, em que a propósito da igualdade entre homens e mulheres no cinema, assim como noutros sectores, foi discutida sobre a lapela da "igualdade de género". Este facto resulta de um problema histórico em que o género emergia culturalmente da distinção do que se concebia por dados biológicos: masculino e feminino como macho e fêmea.
Este pressuposto resultou numa atribuição cultural de significados de género a objectos, lugares da casa, elementos vários do quotidiano, como destacava Bourdieu em The Logic of Practice. Ora, esta ideia não traduz a complexidade cultural do corpo como produto sociológico, no qual se jogam memórias culturais, sentidos de identidade e expectativas normativas e alternativas por contestação.
A religião enquanto instituição que imprime códigos de conduta e moral nos sujeitos não está independente deste processo de construção de papéis sociais, de normatividades tendencialmente estanques, que se desejam eternas por sua intenção cultural de fixarem-se como contínuo social. Por outras palavras, a religião, partindo de um conjunto de padrões morais, pretende a sociedade como uma renovação desse conjunto de pressupostos, considerando as alternativas como contra-normativas. 
 
O que temos, portanto, é um conjunto de ideias acerca do corpo e do seu uso social e sexual, em que os jeitos de ser homem e mulher resultam da sociedade, mas é nela que se reciclam e permitem ressignificar-se. Assim, quando falamos de género precisamos reconhecer que este é um conceito complexo e dinâmico, em permanente reflexão, fruto de reformas sociais, como os movimentos feminista e LGBT. É, então, perigoso confinar o conceito à distinção entre homens e mulheres, pois que há mulheres cujo género é masculino, e vice-versa, e há, inclusive, novas formas de género e trânsitos entre géneros como formas de constituição de identidade.
Se em lugares remotos do nosso Portugal ser homem se constrói nos cafés, nos trabalhos pesados, e o ser mulher se edifica nas actividades domésticas, esse Portugal é apenas uma paisagem entre as várias, porque as fronteiras são muito mais diluídas, e um pai de família pode-se trajar de mulher para um perfil falso numa rede social qualquer, e uma mãe de família, na calada da noite, assistir a pornografia lésbica. Porque a sociedade é a movimentação permanente, ideias conservadoras tendem a reportar a intenções políticas mais do que a fatos sociais. 

 

 

João Ferreira Dias

(blogue A MORADA DOS DIAS)

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Convidado: EDUARDO LOURO

por Pedro Correia, em 10.07.17

 

Paradoxos

 

A comunicação é provavelmente o maior instrumento de relação ao serviço das sociedades. Sempre foi assim, mesmo quando, por dificuldades de circulação, por falta de acessos e de veículos, e até por excessos de policiamento do tráfego, disso se não dava conta.

Hoje a comunicação circula a uma velocidade estonteante, em auto-estradas de quarta geração, sem limites de faixas nem de velocidade. Sem constrangimentos de qualquer espécie - nem polícias, nem semáforos, nem rotundas, nem filas - em veículos de alta cilindrada. Toda a gente dá por ela, toda a gente percebe a sua importância.

Paradoxalmente, quando tem condições como nunca teve para se exponenciar como instrumento de relação, e mecanismo de aprofundamento da vida em sociedade, revela-se, como nunca, uma arma estratégica de destruição massiva. Literalmente. Uma poderosa arma de guerra de que ninguém abdica, em nome de coisa nenhuma.

As estratégias de comunicação sobrepõem-se a tudo e a todas as outras. Tanto mais quanto mais insondáveis forem os objetivos que se destinem a servir. Tanto mais quanto maior for a ambição de manipular, condicionar e enganar…

É assim, em especial, na política e no futebol, mas também em muitas outas áreas da sociedade. Não importa o que se faz, importa o que se diz. Os factos já não contam, contam – e cantam-se – os factos alternativos. O virtual toma conta e sobrepõe-se ao real. A substância é oca e a verdade esvazia-se na opulência da pós-verdade. Mais que reescrever a História, reescreve-se o próprio conhecimento.

É o tempo das fake news, dos Abrantes e dos Sebastiões. Dos directores de comunicação como peças centrais nas estruturas organizacionais. O tempo de cavar trincheiras à volta de dogmas, de levantar muros à volta de crenças. De semear ódios, de acentuar clivagens e de explorar o que mais primário há em cada ser humano.

Não era isto que seria suposto a comunicação servir. Não deveria ser para isto que deveriam ser utilizadas as auto-estradas que temos à mão, cheias de gente vazia de ética e auto-desobrigada dos mínimos deontológicos. Mas os dias de hoje também não são muito mais do que isso: uma sucessão de paradoxos.

 

 

Eduardo Louro

(blogue QUINTA EMENDA)

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Convidado: FRANCISCO FREIMA

por Pedro Correia, em 07.07.17

 

Recordar Eminescu

 

Deparei-me com a obra de Mihai Eminescu durante a minha estadia em Brăila, na Roménia. Um dia estava na Biblioteca Panait Istrati quando por lá apareceu um velhote que queria conhecer os novos voluntários. Pelo apelido, o Sr. Furtuna seria um falso amigo (furtuna significa tempestade em romeno), mas a verdade é que a sua erudição albergava autênticos tesouros. Na altura nem deu para falar muito, tinha começado a aprender o idioma e a única língua estrangeira que o Sr. Furtuna dominava era o russo. Desejei ser Zorba, o bom demónio de Nikos Kazantzaki, para expressar através da dança tudo aquilo que eu fora até esse momento. Felizmente, nos primeiros tempos havia a tradutora Alina.

 

Apesar da barreira linguística, o acaso levou a que trouxesse consigo uma antiga edição de Luceafărul para nós vermos. «Alguém aqui gosta de poesia?», perguntou o Sr. Furtuna. A Alina, que já me ia conhecendo, apontou para mim e disse que eu escrevia. «Serios?» Retirei o caderno da mochila e mostrei-lhe alguns rascunhos de sonetos. Claro que ele não entendeu nada, mas deu para perceber que ficara satisfeito. A Alina disse-me depois que o Sr. Furtuna estimava muito as palavras escritas à mão, e que os sonetos eram o seu género preferido.

 

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Aquela edição de Luceafărul tinha páginas enormes e ilustrações belíssimas, nas quais o poema adquiria a dignidade devida a uma das obras-primas do Romantismo. Escusado dizer, esse primeiro contacto produziu algum efeito em mim. Por outra feliz coincidência, morava num apartamento alugado à viúva de um professor de Romeno. As estantes da sala estavam forradas de livros, que me incentivavam a descobrir mais acerca daquela língua, parente afastada da nossa. Nomes como os de Ion Creangă, Tudor Arghezi ou Lucian Avramescu tomavam a minha imaginação, tornando-me escravo dos sons que entoava sem compreender. Mas a semente fora plantada: o primeiro a descobrir haveria de ser Eminescu.

 

Lembro-me dos passeios junto ao Danúbio, das horas perdidas no Grădina Mare a ler poemas que desde então associo ao Outono valáquio, naquele que foi o período mais feliz da minha vida. A paixão eminesciana foi tanta que traduzi alguns poemas dele para português, embora hoje veja as falhas desse insensato ardor. Importa referir que a poesia dele funde-se na perfeição com aquelas paisagens, onde a natureza exerce bastante influência sobre o espírito dos homens.

 

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 Placa comemorativa em Timișoara: «Esta placa recorda que o poeta Mihai Eminescu veio a Timișoara, em 1867, ver o seu irmão Nicolae, e em 1868 com a companhia teatral de Mihail Pascaly.»

 

 

Na minha segunda incursão pelos Cárpatos, tive a oportunidade de pisar o palco do Teatro Mihai Eminescu, em Oraviţa. Numa placa, uma data perdida do século XIX, a celebrar o facto de o poeta ter passado por ali enquanto promotor de uma companhia de actores. Por toda a Roménia existem indicações destas, adensando o mito em torno da figura de Eminescu, que foi também um jornalista notável.

 

De tudo isto, ficam as recordações e a esperança de que no futuro a poesia de Mihai Eminescu seja mais conhecida em Portugal.

 

 

Francisco Freima

(blogue ZIBALDONE)

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Convidado: ARNALDO GONÇALVES

por Pedro Correia, em 06.07.17

 

O fim do sonho democrático em Hong Kong

 

Fui um das centenas que acompanharam a visita de Xi Jinping a Hong Kong e a entronização de Carrie Lam, a secretária-chefe de C.Y. Leung, como quarta Chefe do Executivo de Hong Kong. Assisti à parada, às celebrações milimetricamente coreografadas com aquele tom de pastiche démodé que os chineses são prolixos naquilo que organizam. Depois do discurso de Xi Jinping, um enorme exercício de intimidação às forças democráticas no território no sul da China, não consegui reprimir um arrepio. Como se me sentisse a perguntar a mim próprio: outra vez? Temos aí, uma vez mais, aquele sabor amargo da ditadura que se estende como uma praga e corrói tudo por onde passa. Muito provavelmente o 1 de Julho de 2017 ficará para a história da região e do mundo com o enterro de Um País, Dois Sistemas, a promessa da convivência entre um regime capitalista de amplas liberdades civis no Sul e o regime totalitário, comunista, autoritário que estende a sua garra e aplana.

Estou fortemente pessimista e tenho a sensação de que a burguesia intelectualizada local irá assobiar para o lado quando a repressão cair sobre os jovens contestatários do regime chinês em Hong Kong pela mão de Carrie Lam. Todos os regimes autoritários tiveram os seus próprios homens de mão que fizeram aquilo que lhes mandaram fazer, fosse qual fosse o seu custo. Uma católica, oriunda de família pobre, educada numa escola religiosa, apresta-se a esse papel confrangedor e lamentável.

 

Há também algo de simbólico que tem escapado à atenção dos que acompanham Hong Kong e a situação na China. Carrie Lam é a quarta chefe do executivo e a primeira mulher a desempenhar o cargo. Quatro em chinês é “si”, o carácter 四, cuja fonia é exactamente igual à palavra “morte”, “si”, embora o carácter seja diferente .

Na tradição chinesa, quatro é um número pouco venturoso e por essa razão evitado desde as matrículas dos carros aos andares de residência. A acreditar na superstição chinesa, o mandato de Carrie Lam será tudo menos fácil e venturoso.

 

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 Carrie Lam, nova chefe do Executivo de Hong Kong, com o Presidente chinês, Xi Jinping

 

Seria importante que a ex-potência administrante, a Grã-Bretanha, acompanhasse de perto e fizesse soar os avisos vermelhos quando a política musculada do governo de Hong Kong cair sobre os partidários da independência de Hong Kong, os quais, do ponto de vista de Xi Jinping e do Partido Comunista, são traidores à pátria chinesa e partidários da sedição. O aviso foi dado na tomada de posse de Carrie Lam.

Nas palavras do sexagenário líder da China, “qualquer tentativa de fazer perigar a soberania e a segurança da China, desafiar o poder do governo central e a autoridade da Lei Básica de Hong Kong ou usar Hong Kong para promover a infiltração e actividades de sabotagem contra a pátria, é um acto que atravessa a linha vermelha e portanto inadmissível”.

A mensagem não podia ter sido mais clara e suscita um conjunto de questões para já sem resposta. Será o uso da liberdade de expressão ou de crítica do Governo Central e dos seus líderes um acto “inadmissível”? Será o exercício do combate parlamentar quando ataque o governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong e as suas políticas um acto inadmissível? Será o apoio político às forças democráticas que exigem do regime comunista chinês uma ampla reforma democrática um acto inadmissível? E quais são as consequências para os agentes que praticam actos inadmissível? Devem ser perseguidos juridicamente nos tribunais de Hong Kong por actos de subversão, traição e sedição contra a Republica Popular da China?

Mas isso enfrenta um vazio legal. O artigo 23.º da Lei Básica de Hong Kong estipula isto: “A Região Administrativa Especial de Hong Kong determina que o Governo da RAEHK aprovará leis próprias para proibir qualquer acto de traição, secessão, sedição e subversão contra o Governo Central ou furto de segredos de Estado, proibindo organizações estrangeiras ou outras entidades de desenvolverem actividades políticas na região e proibirem organizações políticas ou entidades da região de estabelecerem laços com organizações políticas ou outros entes estrangeiros.” Este artigo nunca foi regulamentado por oposição firme das forças democráticas de Hong Kong, que na rua bloquearam as iniciativas impulsionadas pelo governo de C.Y. Leung. A posição da ordem dos advogados local tem sido unívoca: na maioria das áreas as leis em vigor em Hong são suficientes para proibir os actos referidos no artigo 23.º. Torna-se assim despicienda tal regulamentação.

Não terá passado em claro que a posição de Xi Jinping é absolutamente oposta e não passará muito tempo em que uma instrução directa do Governo Central surja, incentivando Carrie Lam a avançar com o processo.

 

Para os optimistas crónicos, nos quais se incluem alguns jornalistas da imprensa ocidental em Hong Kong e Macau, esta tomada de posição do Presidente da China é tida por meramente retórica e sem consequências práticas. Nestes dias a seguir ao discurso, vamos assistindo a um cortejo de desvalorizações que têm como objectivo lançar uma coluna de fumo sobre as movimentações que se preparam, tendentes a retirar autonomia de manobra ao governo da região administrativa, subordinando-o à garra de aço do governo central.

Não me admiraria que os 50 anos de transição para o regime socialista em Hong Kong - que deverão terminar em 2047 - sejam abreviados e Hong Kong se torne antes disso em mais uma província no sistema socialista chinês. Os sinais irão multiplicar-se nos próximos cinco anos.

 

 

Arnaldo Gonçalves

(blogue EXÍLIO DE ANDARILHO)

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Convidado:CARLOS GUIMARÃES PINTO

por Pedro Correia, em 05.07.17

 

Movimento Independentista Lisboeta

 

Aproveito este convite para expor uma causa que sei ser impopular, mas apenas por nunca ter sido defendida apropriadamente: a independência de Lisboa.
 
A existência de um país exige um sentido de comunidade. Mas, vamos ser honestos, a maioria dos lisboetas não tem uma grande ligação ao resto do país. Alguns mais aventureiros lembram-se de um dia terem passado pelo Porto e terem gostado muito daquela ponte de ferro. E do Sheraton, claro. O Sheraton do Porto é maravilhoso. E ainda comeram metade daquela sanduiche com molho de tomate, cujo nome não me recordo agora. Mas a verdade é que não fora a água quentinha de Portimão (futuro território ultramarino da República Democrática de Lisboa) e o lisboeta típico nem precisaria de sair do eixo Saldanha-Loja das Meias durante toda a sua vida.
 
Mas o principal motivo para a existência deste movimento é a forma como o resto do país sobrecarrega Lisboa com responsabilidades. Quando o país decide criar um novo instituto, uma nova agência, um novo evento, empurra-se logo tudo para Lisboa. Já não chega todos os ministérios, secretarias de estado, sedes de empresas públicas e privadas existentes, ainda querem empurrar tudo o que é criado de novo para Lisboa. Com novas organizações públicas vêm mais empresas privadas, mais trânsito, rendas mais altas e esplanadas mais cheias. Enquanto o resto do país continua verde, barato e viçoso, o trânsito de Lisboa enche-nos os pulmões de dióxido de carbono e as rendas esvaziam-nos a carteira. Também sobrecarregam o nosso aeroporto que, como toda a gente sabe, está sobrelotado desde 2007. Em conluio com a TAP, andam a desviar passageiros do resto do país para Lisboa ao ponto de nos forçarem a construir um novo aeroporto ou, pior, obrigarem-nos a sentar no lugar do meio em muitos vôos.
 

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Depois de sobrecarregarem Lisboa com tudo o que é sede de organização e instituto público, ainda nos vêm roubar os empregos. Todos os anos o resto do país envia milhares de jovens qualificados para roubar os nossos empregos. A ideia, claro, é abusarem dos nossos recursos durante algum tempo, roubarem os nossos empregos, desgastarem a nossa cidade para depois voltarem para as suas terras novinhas, sem poluição nem trânsito. Dói o coração de qualquer lisboeta ver os parasitas que chegam do resto do país no Alfa à segunda-feira de manhã para nos sugarem os recursos durante a semana e depois voltarem ao fim-de-semana para os seus pastos verdes mais a norte. Mas pior são os que escolhem ficar, desvirtuando culturalmente a cidade. Ainda há dias observei cinco jovens a conversar num restaurante. Todos se diziam lisboetas, mas nem um percebia que a palavra "rio" é um monossílabo. Nem um!
 
Finalmente, resta falar na forma como o resto do país deixa Lisboa em permanente instabilidade política. Nos jornais, já se fala de Medina ser o próximo líder do PS (e, consequentemente, primeiro-ministro). Seria o quarto líder dos últimos 6 a terminar o mandato mais cedo para ir liderar o país, deixando Lisboa em permanente reboliço. Chega! Arranjem os vossos próprios líderes, porra! Parem de desviar as atenções dos filhos da cidade para os vossos problemas.
 
Chegamos a uma situação limite que só se resolve com a independência de Lisboa. Chegou a altura do resto do país aprender uma lição e perceber o que é ter que organizar os seus próprios eventos, ter as suas próprias instituições públicas e eleger os seus próprios líderes. Quero ver como é que se safam sem se poderem aproveitar mais da amabilidade e disponibilidade dos lisboetas para levar o país às costas.

 

 

Carlos Guimarães Pinto

(blogue O INSURGENTE)

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 03.07.17

 

Porto turbulento

 

Rui Moreira apresentou no sábado a sua recandidatura à Câmara Municipal do Porto. É um mero formalismo, pois o autarca portuense há muito que assumira esse propósito.

Rui Moreira foi eleito em 2013 por um movimento que teve a sua base na burguesia liberal da cidade, nos homens de negócios endinheirados da Foz e de Nevogilde, o meio de onde é oriundo o próprio autarca. A isso juntou o apoio mais ou menos discreto de Rui Rio, seu antecessor, tendo beneficiado, ainda, do facto de grande parte da cidade se ter mobilizado para travar a candidatura populista de Luís Filipe Menezes (PSD), que tinha deixado em Gaia um rasto de despesismo, endividamento e alguma leviandade.

A vitória de Rui Moreira, contudo, não foi suficiente para governar em maioria, pelo que o novel presidente teve de procurar quem lhe desse a mão. Manuel Pizarro (PS), que ficara em segundo lugar nas eleições, decidiu viabilizar essa aliança, contra muitas vozes no interior do seu partido, que já então se interrogavam sobre a situação em que ficaria o PS nas eleições de 2017. A aliança entre o PS e o movimento de Rui Moreira encontrou pontos de vista comuns e os socialistas acabaram a assumir dois pelouros determinantes para a cidade, habitação social e urbanismo, nas mãos de Manuel Pizarro e do prestigiado Arq. Correia Fernandes.

 

Tudo parecia um mar de rosas na relação entre Pizarro e Moreira, de tal modo que o PS, talvez inebriado pelo exercício do poder, precipitou-se no apoio à recandidatura de Rui Moreira, sem qualquer negociação prévia de políticas e de lugares na vereação. Estava visto que as coisas só poderiam acabar mal, como por várias vezes antecipei.

Rui Moreira, aliás, está longe de ser inquestionável e unânime – o processo Selminho, que envolve uma empresa imobiliária do presidente e da sua família, aí está a fazer o seu caminho, os tiques persecutórios em relação à imprensa fazem lembrar os piores tempos de Rui Rio, a obra pública teima em ver a luz do dia, a proliferação de jobs for the boys é evidente na Câmara e nas empresas municipais (com lugares de destaque entregues a pessoas que vão do número dois e putativo sucessor de Valentim Loureiro em Gondomar até quadros com elevadas responsabilidades na gestão de Menezes em Gaia…) – pelo que nunca compreendi o cheque em branco que o PS passava a Rui Moreira. Só para garantir alguns lugares à mesa da vereação?

 

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Depois de declarado o apoio, de cada vez que o PS se referia à recandidatura de Moreira ou algum responsável do partido reivindicava uma participação forte nas listas, como seria natural face aos resultados de 2013, logo surgia uma personagem secundária do movimento presidencialista a dizer “alto e pára o baile”. Como escrevi em determinada altura, o PS parecia "estar prisioneiro do caminho que seguiu e completamente nas mãos de Rui Moreira e dos seus primeiros apoiantes, que olham de soslaio para tudo o que seja socialista".

Na verdade, Rui Moreira e o seu movimento inorgânico deitaram mão de argumentos serôdios para romper a aliança com o PS. No fundo, creio eu, foi o que sempre pretenderam, depois de manietarem Manuel Pizarro e de diminuírem as possibilidades de êxito do PS.

O vereador socialista e presidente da Federação Distrital do PS deslumbrou-se e foi ingénuo na forma como deixou que o PS fosse capturado pelos interesses de Rui Moreira. A sua posição como candidato é agora demasiado frágil para poder almejar a vitória. Resta saber como reagirá, no futuro, no caso de Rui Moreira voltar a ganhar sem maioria, como prevejo.

 

E o PSD? Perante a dificuldade de encontrar um candidato forte para disputar umas eleições consideradas perdidas à partida, avança com Álvaro Almeida, um universitário desconhecido do grande público e antigo responsável pela Entidade Reguladora da Saúde, que se limitará a procurar reunir os votos do eleitorado mais fiel ao partido. O apoio público que Rui Rio lhe concedeu vale pouco se traduzido em votos.

Nos sectores mais à esquerda, a CDU apresenta a experiente Ilda Figueiredo, que não terá dificuldade em renovar um lugar no executivo municipal, e o Bloco de Esquerda viu-se obrigado, por razões de saúde, a trocar o ex-líder João Semedo pelo repetente João Teixeira Lopes. Com este triste desenlace, o Bloco viu-se privado de um candidato que estaria em condições privilegiadas para alcançar o primeiro mandato do Bloco na Câmara Municipal e os portuenses perderam a possibilidade de contar com um excelente vereador.

 

 

José Carlos Pereira

(blogue INCURSÕES)

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Convidado: RODRIGO MOITA DE DEUS

por Pedro Correia, em 30.06.17

 

Os independentes

 

Vamos ter uma “comissão técnica independente” para perceber o que correu mal nos incêndios. A ideia é boa. A iniciativa, por si, diz muito mais do que parece. Demonstra que os deputados perderam a fé em comissões parlamentares de inquérito. E demonstra que os deputados não confiam nos deputados para fiscalizar o governo e garantir o bom funcionamento do Estado. Mas vamos ter técnicos. O que é bom. Seis nomeados pela Assembleia da República. Seis nomeados pelo Conselho de Reitores. Ainda não conheço os nomes. Mas o perfil e a forma de nomeação explicam que serão doze funcionários públicos. Portanto… Estado a fiscalizar o Estado. Gente certamente dotada e respeitável. Mas a receber do Orçamento do Estado. Com chefes a receberem do Estado e propostos para fiscalizar o Estado. Mas desta vez com aquela nuance… como são professores em universidades do Estado são “independentes”.

 

 

Rodrigo Moita de Deus

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidado: F. SEIXAS DA COSTA

por Pedro Correia, em 29.06.17

 

O amuleto

 

Os fins de tarde, naquele bar, são por regra uma hora bem sossegada. Tirando encontros furtivos de casais episódicos ou alguma conversa de negócios ou da política, só alguns espontâneos em busca de uma última bebida, antes do jantar, ocasionalmente por ali surgem, quase sempre ficando-se pelo balcão, em conversa com o empregado.
Naquele dia dos anos 90, só por lá havia dois amigos, na "mesa dois", fazendo horas. Ouviu-se a campainha, o Juvenal foi abrir a porta e um novo cliente dirigiu-se ao balcão. Os da mesa olharam-no e ele saudou-os.
"Aquela cara não me é estranha ", disse um para o outro. O nome surgiu logo, e era vagamente conhecido de ambos. "Pois é, é ele mesmo!" 
"O homem está ali sozinho. E se lhe disséssemos para vir sentar-se aqui?" Assim fizeram e o novo cliente, já com o copo na mão, trazido do balcão, sentou-se na "dois".
 
Por alguns minutos, a conversa animou-se, alargou-se a vários temas e pessoas. Foi então que o nome de uma certa personalidade feminina veio à baila. A imprensa de escândalos trouxera, por esses dias, relatos de um envolvimento amoroso dessa pessoa, num registo por alguma razão polémico.
"Nunca percebi o encanto dessa mulher! Para mim, é uma das mulheres mais feias do mundo, um verdadeiro amuleto contra a luxúria", brincou um dos ocupantes originais da mesa, com uma sonora gargalhada.
O amigo que o acompanhava não só concordou como juntou mesmo uma acha mais para a fogueira: "E, se vocês estiverem com atenção, verão que ela até cheira mal..." 
 
(Por esta altura, imagino que alguns leitores possam estar intimamente a reagir ao inaceitável tom machista da conversa. Aceito que podem ter razão, mas a realidade dos factos, que são verdadeiros, foi aquela e não outra, qualquer que seja os juízos que ela nos motive.)
 
O tom da conversa, como se observa, ia já muito longe, mas, aparentemente, não o suficiente para convocar a concordância do terceiro parceiro de mesa, que se mantinha silencioso, com um sorriso enigmático. "Você não acha?", perguntou um dos outros, testando a sua adesão ao juízo devastador que acabava de ser feito sobre a senhora.
Foi então que este, com serenidade e sem nunca perder o sorriso, reagiu: "Não estou de acordo! Pelo contrário, é uma mulher muito interessante. Tem mesmo um sorriso muito bonito. Essa foi também uma das razões que me levaram a casar com ela..."
 
O peso do silêncio que deflagrou sobre a mesa, com o olhar encavacado dos dois ocupantes originais a cruzar-se, em busca de uma impossível tábua de salvação, pareceu calar a música retro, que fazia de som ambiente. O recente parceiro de mesa, veio depois a saber-se, havia sido casado, já há uns bons anos, com a referida senhora e, por indeclinável dever, decidira "ir a jogo" para ajudar salvar a sua honra. 
A conversa, claro!, terminou ali, não havendo saída "honorable" para a gaffe, quando tudo fora já longe demais. "Ó Juvenal, traga uma nova rodada!", foi a reação possível. 
E esta ficou a ser uma das histórias mais famosas da "mesa dois" do Procópio. E é obra, porque ele há tantas...

 

 

Francisco Seixas da Costa

(blogue DUAS OU TRÊS COISAS)

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Convidado: MARCELO C. RIBEIRO

por Pedro Correia, em 27.06.17

 

O rescaldo

 

Enterraram-se os mortos e, agora, há que cuidar dos vivos como mandava o temível mas eficaz marquês de Pombal. E cuidar dos vivos não significa, mais outra vez, umas vagas ajudas, duas palmadinhas nas costas, boas palavras e uma selfie com o Senhor Presidente (mesmo se os seus encorajamentos tenham sido oportunos, pelo menos desta vez).

Cuidar dos vivos significa apurar as necessidades, prevenir o futuro e tratar de saber a quem cabe a responsabilidade.

Comecemos por esta última tarefa que, não sendo a mais preocupante, convém não esquecer.

À primeira vista, todos somos responsáveis, por acção, por omissão, pelo silêncio, pelos votos naqueles que não fizeram o trabalho de casa. Todavia, de nada nos valerá – como já li algures – vir disparar sobre o defunto dr. Salazar por ter sido ele quem, primeiro, mandou reflorestar o país. Mandou e mandou bem mesmo se, com os meios da altura (e aí se inclui a incapacidade de os povos se rebelarem), bem se poderia ter pensado em que espécies arbóreas se devia apostar. Apostou-se no pinheiro bravo (e depois no eucalipto) por duas razões: crescem em toda a parte, produzem lucros ao fim de poucos anos e quase não exigem cuidados.

Porém, aumentam a vulnerabilidade da floresta mediterrânica por serem facilmente presa do fogo.

 

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Voltando aos responsáveis, toda a gente está de acordo que o abandono das terras agricultáveis, o despovoamento daí resultante, o crescimento descontrolado de “mato”, conjugam-se para tornar extensas zonas em alvo fácil das chamas. Junte-se-lhe o abandono de caminhos rurais e teremos uma situação mais complicada.

No entanto, o abandono do interior foi potenciado por múltiplos factores dos quais o menor não é seguramente o facto de em grande parte do interior a parca agricultura que existia ser de mera subsistência, permitindo que a miséria rondasse cada lar e, desde há séculos(!), empurrasse multidões de camponeses para a emigração. Assim se fez o Brasil, alguma (pouca) África colonial e quase toda a industrialização do país. As cidades, sobretudo as do litoral, cresceram e crescem com transmontanos, beirões e alentejanos. E mesmo as cidades do interior concentraram, também elas, muita gente das aldeias em redor.

Isso terá tido como consequência a perda ou a não actualização do cadastro florestal. Heranças que se foram dividindo e subdividindo, terras abandonadas, perda dos marcos etc., tornaram a selva do interior mais misteriosa do que a Amazónia.

Também não é menos verdade que, hoje em dia, ninguém vai “roçar” mato para arranjar lenha para as lareiras, cama para os gados ou material para produzir adubo. O mesmo e já falado despovoamento fez desaparecer os rebanhos, mormente de cabras que limpavam eficientemente o terreno mais maninho. (Também é verdade, mas ninguém se lembra – ou se quer lembrar...- que muitos fogos ocorriam devido à incúria de pastores que tentavam queimar mato para obter pasto para o gado).

 

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Um velho, querido e saudoso amigo que já lá vai dizia que a terra é um bem finito e que, por isso, todos a queriam e ninguém vendia. É verdade e essa ideia antiquíssima que funda na propriedade da terra a ideia da dignidade do camponês foi durante séculos, e hoje ainda é, uma ideia força que venceu todos os ideólogos da “reforma agrária” ou da nacionalização forçada da terra. Mesmo nas situações mais violentas (desde a Rússia bolchevique à China) a apropriação estadual da terra foi progressivamente forçada a conviver com os talhões individuais, com a propensão à propriedade privada e, finalmente, com o derrube do chamado “socialismo real” de que ainda cá subsistem uns vagos defensores. (E lembremos que, no centro e no norte do país, nunca os estatizantes defenderam sem mais o esbulho dos proprietários aliás quase sempre pequenos e pequeníssimos.)

Isto, por muito que não seja politicamente correcto, significa que os fogos também se devem a muitos dos lesados, mesmo se seja verdade que na maioria das vezes se trata de gente idosa, analfabeta, empobrecida que não pode custear a desmatação, a limpeza dos seus parcos terrenos.

Sabe-se, igualmente, que, em toda a Europa a que pertencemos, a média de floresta pertença do Estado ronda os 40% da superfície total. Em Portugal, a floresta pública atinge com dificuldade os 2%!...

 

Tudo isto, e é muito, é gigantesco, não pode, porém, fazer esquecer, perdoar, ignorar que há uma coisa chamada “responsabilidade política”. Quem é ministro deveria saber ao que se arrisca quando aceita o cargo (tanto mais que ninguém é obrigado). Há dúzia e meia de anos, caiu uma ponte em Entre-os-Rios. Era ministro do Equipamento Social um cavalheiro que perante a evidência de meia centena de mortes declarou (honra lhe seja) que a culpa não podia morrer solteira. E demitiu-se irrevogavelmente.

Actualmente, vagueia por aí, uma senhora, seguramente muito meritória, cheia de estudos, que neste momento faz de ministra. Antes disso, e isso é importante sublinhar, fora adjunta duas ou três vezes de ministros da Administração Interna. Ou seja, sabe, ou devia saber, como é que as coisas se passam. Vimo-la, com ar melancólico, na zona dos incêndios, ouvimo-la, depois, dizer umas vacuidades simpáticas sobre a tragédia (felizmente, honradamente, não pôs no seu cenário um cadáver como com certa jornalista da TVI...).

Que um responsável político vá uma vez ao local da tragédia mesmo se nada pode fazer não me causa repugnância. Que ele assente arraiais no sítio sem ter competências específicas que o tornem útil no combate às chamas é que já me parece demais.

A senhora ministra deveria saber (ou pelo menos pensar) que não era ali que poderia ser mais útil. Era lá em Lisboa, a reunir com gente que a pudesse aconselhar. Com esses desafortunados especialistas que andam desde há anos (que digo?, desde há décadas...) a fazer o diagnóstico das sucessivas situações e a propor os meios de as evitar.

 

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À Sr.ª Ministra pedem-se políticas mesmo se caia bem o seu natural ar compungido e merencório. A quem está no terreno pedem-se coisas tremendamente práticas. Apagar o fogo, salvar vidas e bens (árvores, casas, animais, ia a dizer memórias e afectos mas espero que isso esteja implícito).

Sª Excelência não é bombeira, não é médica, não é psicóloga, não é enfermeira, não parece ser escuteira ou pertencer a uma ONG, à Misericórdia ou ao Banco Alimentar. Também não é sacerdote, sacristã, coveira ou irmã da caridade.

É ministra, raios! Ministra! Tem de governar. Não precisa andar com um colete de bombeiro, sapatilhas e ar (sempre melancólico) grave e solidário. Que os ministros, os deputados, os autarcas e o resto das paisanos em me que incluo estão solidários é um mínimo, um sinal de civilização, de cidadania de honradez pessoal. Não é preciso repeti-lo a todo o momento.

Para beijos, abraços e afectos já basta o Senhor Presidente que, cada vez mais, para o melhor e para o pior, se assume como o 4º Pastorinho de Fátima. Mas o Senhor Presidente não governa, não tem de estar a todo o tempo a estudar o essencial que é tornar certo e evidente, hoje, o NUNCA MAIS. Nunca mais isto, esta infâmia, esta vergonha, este desespero, este modo tão português de impotência e irresponsabilidade.

É por isso, Ex.ª Senhora Ministra, que, com alguma tristeza mas com toda a convicção, me permito dizer-Lhe, mesmo já fora de tempo, que ficaria bem pôr o Seu lugar à disposição. Nem me atrevo a sugerir-Lhe uma demissão irrevogável (das irrevogáveis como a de Jorge Coelho e não das irrevogáveis passageiras que imortalizaram um político agora felizmente na reserva (e, vá lá, em relativo silêncio).

 

 

Marcelo Correia Ribeiro

(blogue INCURSÕES)

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Convidada: LUÍSA CORREIA

por Pedro Correia, em 26.06.17

 

A culpa foi do gato

 

Eu sei que deveria ter falado em francês com os meus filhos quando eram pequenos. Se o francês quase foi para mim uma segunda língua materna, que aprendi muito cedo, no desempenho da minha função de filha de emigrantes no tempo das malas de cartão, eu deveria, chegada ao papel de mãe de família, ter tirado proveito desta condição e ter ensinado os meus filhos a falar francês tornando-os bilingues. Mas não fui capaz. Uma estranha força impeliu-me a só falar com eles em português, como se não fosse natural o uso simultâneo do francês.

Era uma força que me acompanhava desde criança, muito antes do apelo irresistível da terra ter trazido a minha família de volta a Portugal. Bons emigrantes que éramos, não falhávamos as férias grandes, em julho ou agosto e, depois de dois mil quilómetros de estrada, com o banco de trás do Simca 1500 cor de vinho do meu pai todo para mim, chegávamos com as malas cheias de presentes para as tias e para as primas, peças de pano compradas nas Galerias Lafayette para se costurarem os vestidos da moda, lenços de pescoço estampados com a torre Eiffel e o Sacré Coeur, e muitas saudades para matar ao calor do nosso verão algarvio.

Assim que eu punha o pé em Portugal, a minha boca só se abria para falar em português. A passagem da fronteira desligava em mim a língua do país de acolhimento e a única excepção a essa aparente avaria apenas se dava se a conversa fosse com a minha prima mais nova já nascida em terras gaulesas e que, durante muitos anos, embora tudo entendendo, se recusou a pronunciar uma palavra que fosse em português.

Certo dia, a minha prima francesa que não falava em português, brincava no pátio de uma das nossas muitas tias e, sentindo fome, pediu um pedaço de bolo. Du gâteau, pedia ela. E a tia que bem se esforçava por entendê-la, ouvindo várias vezes gâteau, gâteau, lá conseguiu agarrar no gato que andava por ali para o entregar à pequena, certa de que esta queria fazer umas festinhas ao bichano.

A história ainda hoje me faz sorrir e chego a pensar que a tal força que sempre me impeliu a falar por cá exclusivamente em português, o que, reconheço, prejudicou boa parte da minha condição de educadora, deve ter alguma relação com o caso do lanche falhado da minha prima e do tal gato que, claro está, não se chamava bolo.

 

 

Luísa Correia

(blogue À ESQUINA DA TECLA)

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Convidado: HENRIQUE P. SANTOS

por Pedro Correia, em 22.06.17

 

"Mas isso dos eucaliptos vais ter de me explicar melhor"

 

Quando me disseram, a rir, que eu parecia um novo consenso nacional, a propósito das reacções que fui tendo ao que escrevi sobre fogos, confesso que pensei na reacção dos que me conhecem há mais tempo e sabem da minha maneira abrasiva e excessiva de discutir.

Quando Pedro Correia me pediu para escrever um texto para aqui, sobre o que quisesse, resolvi que era a altura de repor as coisas no seu devido lugar e aproveitar para responder à frase final de um elogio que fizeram a uma das minhas intervenções e que serve de título ao post.

Há pessoas que até me dizem que compreendem essa coisa da propensão do país para o fogo, dadas as suas características geográficas, percebem isso das cabras, entendem que realmente talvez seja mais importante discutir porque não para um fogo que saber como começa, mas lá eu dizer que para gerir os fogos é irrelevante plantar eucalipto ou não, isso é que já não pode ser.

 

Em primeiro lugar gostaria de dizer que nem sempre pensei como penso hoje: como qualquer conservacionista clássico, como é o meu caso, o eucalipto estava para lá da ideia que um muçulmano tem do toucinho.

Depois comecei a olhar para o assunto com mais atenção, e a questão pode sistematizar-se nos seguintes pontos:

  1. O relevante para a evolução do fogo não é a lenha grossa mas os combustíveis finos, aquilo que, ardendo rapidamente, faz progredir o fogo. No fundo, pelas mesmas razões que ninguém acende uma lareira com tronco grossos, mas com gravetos, pinhas, carumas e coisas que tal. Esta é a base teórica;
  2. Quem estudou empiricamente o assunto (Paulo Fernandes, sobretudo, mas também José Miguel Cardoso Pereira), verifica que não há qualquer preferência relevante do fogo pelas áreas de eucalipto, pelo contrário, por ordem de preferência do fogo, temos os matos, os carvalhais, os pinhais e só depois os eucaliptais. Deve ter-se cuidado com a interpretação dos resultados no que diz respeito aos carvalhais já que a amostra é pequena e, muito provavelmente (aí a especulação é minha), boa parte dos carvalhais são carvalhais jovens que se comportam como matos altos, e não carvalhais maduros cujo ensombramento permite o controlo dos matos;
  3. Dentro dos eucaliptais há uma grande gama de situações, desde eucaliptais intensamente geridos até eucaliptais sem gestão, e o seu comportamento face ao fogo é muito mais uma função da estrutura dos matos e folhada do sub-bosque, que propriamente das árvores;
  4. Estritamente do ponto de vista económico, a fileira do eucalipto é das mais prejudicadas pelos fogos, embora largamente ultrapassada pela fileira do pinho, não havendo qualquer racionalidade económica, nem para o produtor, nem para o comprador, em queimar (isto é, fazer a mercadoria perder valor) para a vender (ou comprar, no caso do madeireiro): o preço da madeira ardida é mais baixo porque a mercadoria vale menos;
  5. A alternativa real, não a idealizada, ao eucalipto, em muitas regiões, é o abandono, não é nada de substancialmente útil para a gestão do fogo (pelo contrário, são os matos que mais ardem).

 

Dito isto, dizem-me que eu deveria defender os carvalhos com unhas e dentes, porque a sua sombra permite o controlo de matos e tudo seria mais simples. O problema com esta ideia é que raramente me explicam como se pretende passar de matos para carvalhais sem que pelo meio haja fogos que atrasem o processo.

Portanto, e pedindo desculpa aos que fiquem abalados nas suas convicções, infelizmente não é o eucalipto a desculpa mais convincente para os fogos.

Se fosse, para além da consciência tranquila, seria fácil acabar com os fogos eliminando os eucaliptos. Mas infelizmente a vida não é assim tão simples.

 

 

Henrique Pereira dos Santos

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidada: CRISTINA TORRÃO

por Pedro Correia, em 21.06.17

 

Lendas e mitos

 

Lendas, mitos e milagres fazem parte da cultura e da identidade de um povo. Durante muito tempo, quando o estudo da História não possuía ainda carácter científico, acreditava-se na sua veracidade. Os próprios cronistas medievais difundiram este tipo de narrativas e crenças, pois normalmente escreviam ao serviço do rei ou de algum membro da alta nobreza e havia que exaltar as qualidades do seu patrono, assim como de toda a sua dinastia. Também génios literários como Shakespeare e Camões contribuíram para que muitas inverdades se instalassem no imaginário colectivo. O caso mais relevante será mesmo da responsabilidade do dramaturgo mais famoso do mundo, pelo mito criado à volta do rei inglês Ricardo III, uma das mais maléficas personagens da Literatura e cujo carácter tem vindo a ser reabilitado pelos historiadores, nas últimas décadas. Embora surgissem, no século XIX, historiadores que deram uma nova dinâmica à investigação histórica (caso de Alexandre Herculano, em Portugal), só a partir do século XX o estudo da História se começou a basear em métodos científicos, tanto no que respeita à datação laboratorial dos achados arqueológicos, como na interpretação crítica de crónicas e outros escritos, baseada na interdisciplinaridade e na verificação exaustiva de factos.

No nosso país, porém, esta evolução foi estrangulada por uma ditadura que perdurou até 1974. O alimentar e o exaltar de certos mitos serviam os propósitos do Estado Novo, nomeadamente, o conferir de uma aura divina, a intervenção da “Mão de Deus”, a certos acontecimentos marcantes do nosso percurso. Esta mentalidade criou raízes profundas no nosso imaginário colectivo e, mesmo depois da Revolução dos Cravos, custou ao Professor José Mattoso impor-se como historiador, ao contrariar, por exemplo, a predestinação divina da formação do reino de Portugal, mostrando que o processo que a ela levou era anterior ao próprio D. Afonso Henriques e se enquadrava perfeitamente na evolução da Reconquista Ibérica.

Infelizmente, ainda hoje os manuais escolares carecem de actualização em muitos aspectos, apesar dos esforços de certos historiadores e investigadores como o Professor Moisés de Lemos Martins da Universidade do Minho, o trio de historiadoras Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria e a investigadora e docente Marta Araújo da Universidade de Coimbra.

Vem tudo isto a propósito de um poema inserido num livro de leitura obrigatória para o sexto ano de escolaridade (embora na capa do livro esteja a indicação de “leitura obrigatória”, nos sites da Wook e da Bertrand vem com a indicação suplementar: “livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada”, o que causa bastante confusão):

 

De um lado o chão e a raiz

do outro o mar e o seu cântico.

Era uma vez um país

entre a Espanha e o Atlântico.

Tinha por rei D. Dinis

que gostava de cantar.

Mas o reino era tão pouco

que se pôs a perguntar:

- E se o mar fosse um caminho

deste lado para o outro?

E da flor de verde pinho

das trovas do seu trovar

mandou plantar um pinhal.

Depois a flor foi navio.

E lá se foi Portugal

caravela a navegar.

 

Manuel Alegre, em ‘As Naus de Verde Pinho’.

 

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Não contesto a sua beleza, nem a sua qualidade literária, e respeito muito o seu autor, recente vencedor do Prémio Camões, mas não posso deixar de referir que este poema contém duas falsidades.

Em primeiro lugar, D. Dinis não mandou plantar o pinhal de Leiria, quando muito, mandou substituir o pinheiro manso pelo bravo, que cresce mais depressa, tentando assim colmatar a falta de madeira, consumida em quantidades exorbitantes na época medieval, muito antes da febre das caravelas. A madeira usava-se na construção de travejamentos, tectos, soalhos, móveis, utensílios domésticos, estábulos, adegas, espigueiros, moinhos e aprestos agrícolas (desde forquilhas, ao carro e ao arado) e era ainda o principal combustível, já que, sem lenha, não havia pão, alimentos cozinhados, nem um mínimo de conforto no Inverno.

Como se sabe, os pinhais travam igualmente o avanço da areia das praias, permitindo, naquela época, ganhar-se mais terrenos para a agricultura, por isso se pensa que D. Dinis terá ordenado a substituição dos pinheiros em várias partes do reino. O pinhal de Leiria ficaria como símbolo desta política talvez pela intervenção dos monges cistercienses de Alcobaça no Paul de Ulmar, uma vasta extensão de terrenos pantanosos que se estendia ao longo do rio Lis até à foz. Travadas as areias, os cistercienses transformaram esses terrenos em campos de cultivo, pois eram verdadeiros peritos em abrir, valar e enxugar pântanos.

Em segundo lugar, D. Dinis podia ser muita coisa (e era: um excelente poeta, político, diplomata e legislador), mas não era adivinho. E, embora os pinheiros bravos tivessem dado muito jeito na construção das caravelas, ele, que morreu cerca de cem anos antes da conquista de Ceuta, não previu os Descobrimentos!

O historiador J. A. Sotto Mayor Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (Temas e Debates 2008), insurge-se contra esta “fama”, da qual o Rei Lavrador não se livra, muito alimentada pelo Estado Novo, a fim de conferir predestinação divina aos Descobrimentos portugueses. Cito da página 263 da referida obra:

 

“Ainda dos autores quinhentistas uma breve referência a Pedro de Mariz (…), porque me parece o responsável pelo tão decantado mito do Pinhal de Leiria. Com efeito, creio que foi o primeiro autor que valorizou a sua importância e, o que é mais, dando à acção dionisina contornos premonitórios:

«Mandou plantar o grande Pinhal de Leiria, sem o qual era impossível poder-se conservar a navegação da Índia (…). Pelo que não me parece sem mistério, inspirar Deus no coração deste Rei, que tão de antemão desse princípio a tamanha coisa.»”

 

Sotto Mayor Pizarro volta à carga na página 333:

 

“Mas se concordo inteiramente com aquele cognome [Rei Poeta], não posso deixar de manifestar o meu mais veemente desacordo - quase diria indignação - pelo de rei Lavrador. Aliás, creio que nenhum outro monarca português foi tão injustiçado por um cognome como D. Dinis, amarrado, é o termo, durante gerações ao malfadado pinhal de Leiria.”

 

Sei que, no caso de ‘As Naus de Verde Pinho’ (o próprio título dá continuação ao mito), se trata de uma obra literária, com lugar para a imaginação. Porém, tratando-se de um livro aconselhado para o sexto ano de escolaridade, num altura em que se empreendem esforços para se corrigirem erros do passado, apetece-me dizer que, assim, não passamos da cepa torta!

 

 

Cristina Torrão

(blogue ANDANÇAS MEDIEVAIS)

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Convidada: MARIA DULCE FERNANDES

por Pedro Correia, em 19.06.17

 

Pauperes commilitones Christi Templique Solomonici

 

Em Dezembro passado a família, por sugestão da historiadora de serviço, juntou-se em passeio que teve como tema a conhecida Rota dos Templários.


Tomar, Almourol, Ourém,  Constância, não necessariamente por esta ordem, mas nas pegadas de uma das maiores e  mais famosas ordens religiosas da história. E como a história conta, esta ordem religiosa e militar teve papel preponderante na reconquista cristã na Península Ibérica e foi extinta em 1312 por exigência de Filipe o Belo a Clemente V. Os Templários, considerados possuidores de tesouros incalculáveis, foram, na sua maioria, perseguidos, detidos e executados.
Também é sabido que encontraram santuário em Portugal,  em terras que possuíam, recebidas de D. Afonso Henriques  como agradecimento pela conquista de Santarém onde construiram o Castelo de Tomar,  onde também mais tarde D. Dinis deu luz verde à ordem de Cristo, que é finalmente reconhecida pela Santa Sé como Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, mantendo a mesma filosofia que guiava a Ordem anteriormente extinta.
 
Isto tudo é História de Portugal. 

Em Dezembro passado, lamentei até por escrito o estado degradado e descuidado em que se encontrava o Convento de Cristo. Património da humanidade, é exemplo indubitável de que a humanidade em geral, os portugueses em particular, não são grandes defensores ou sequer guardiões do seu património histórico.

Falamos para aí dos Budas de Bayman, da cidade de Palmira e da barbárie…
 

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Que dizer então d' O  Homem que matou D. Quixote, de Terry Gilliam (um realizador que considero pessoa esclarecida, com alguns filmes de que gostei bastante, como por exemplo, Fisher King e Monty Python and the Holly Grail), filmado no Convento de Cristo, alugado para o efeito pela produtora e que foi literalmente vandalizado na sua essência para meia dúzia de cenas de um filme supostamente “de culto”?
Rodam-se filmes pelo mundo fora e tenho a certeza que o aluguer das locações é sujeito a rigorosas obrigações contratuais. O que os curadores destas propriedades patrimoniais estarão a pensar quando lhes acenam com cifrões transcende a minha imaginação. 


Nem sei como me espanto e me insurjo quando um qualquer guia de um qualquer país da Europa de Leste me afirma peremptoriamente que lamenta a vida dos portugueses em Lisboa, que vivem em casas de madeira sem saneamento básico, se quem tem autoridade para projectar Portugal no mundo trata do aluguer de um monumento nacional património mundial para a rodagem de um qualquer filme com a mesma displicência como se se tratasse de África Adeus.

 

 

Maria Dulce Fernandes

(blogue A CONTAR VINDO DO CÉU)

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Convidado: FERNANDO LOPES

por Pedro Correia, em 16.06.17

 

Eternamente jovem

 

O aumento da esperança de vida, o prolongamento da vida académica, a forma como envelhecemos mais tarde e de um modo mais suave, arrastam consigo um prolongamento da infância para idades bem para lá dos 30, num processo que me causa estranheza. Entre mestrados e doutoramentos, muito por consequência do desemprego, mas também porque um mestrado passou a ser «habilitação mínima» num universo de licenciaturas curtas, a constituição tardia de família passou a ser norma.

Hoje todos achamos que alguém que faleceu para lá dos 70 anos ainda era novo. Há trinta anos, sete décadas era uma idade vetusta. Somos pais pela primeira vez aos 40, jovens quadros promissores aos 45, aos 55 é-nos pedida a jovialidade de alguém 20 anos mais novo.

Bem na meia-idade, não sinto que seja velho, mas em muitas coisas o meu tempo já não é deste tempo. Esperam de mim um entusiasmo quase inocente, quando há muito o perdi, e uma visão distante, muitas vezes cínica, é o que me caracteriza. Noutros tempos, a capacidade de comunicar só era valorizada se existisse substância; hoje a forma exerce primado sobre o conteúdo. Importa mais parecê-lo que sê-lo.

Nós, cinquentões, estamos encalhados em terra de ninguém. Esperam que tenhamos a energia, a mundivisão da gente nova, enquanto nos consideram demasiado velhos para algum tipo de progressão, profissional ou outra; esperam que dancemos as coreografias em vigor mesmo que para elas não tenhamos paciência ou vocação; que tenhamos o aspecto dos 30, a maturidade dos 40 e a energia dos 20.

Sempre dancei conforme a minha música, não pela que me queriam impor.

Hoje em dia ser assim, assumir a idade, não brincar aos eternamente jovens, é aceitar um estatuto de pária. Assim seja.

 

 

Fernando Lopes

(blogue DIÁRIO DO PURGATÓRIO)

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Convidada: GABRIELA

por Pedro Correia, em 14.06.17

 

Muito depende da música que se ouve

 

Como escrever um texto para o Delito de Opinião se não costumo expressar qualquer opinião ou o faço apenas com um gosto (o “like” no FB poderia ter sido inventado para mim)

Descobri a blogosfera há anos e criei um blogue por ter pensado que era necessário para comentar em outro blogue (quando bastaria ter criado o perfil).

Tento normalmente seguir o lema da mãe do Tambor do Bambi - para a eventualidade, pouco provável de alguém o desconhecer, será algo como: se só tiver coisas desagradáveis a dizer, o melhor é ficar calado – procedi depois a um upgrade e fico também bastante calada quando é para dizer algo agradável e quase não passo do gosto ou gosto muito.

Continuo por aqui porque gosto de interagir na blogosfera e sou pela inclusão (o que alguém especial para mim traduzia como “quantos mais macacos melhor a festa”, sem pretender, sublinhe-se desde já, chamar macaco a ninguém) e para partilhar pequenos textos.

 

Isto assente e para humildemente justificar a ocupação deste outro espaço blogosférico, depois de durante o fim-de-semana me ter interrogado sobre o que escrever, ocorreu-me que poderia, ao invés de expressar uma opinião, inclinar-me para o delito.

Não pretendendo ocupar mais que alguns parágrafos, elegi os delitos estradais e durante o trajecto entre cidade onde moro e cidade local de trabalho, consegui desenvolver duas teorias absolutamente científicas que poderão levar à diminuição significativa não só dos delitos, como de acidentes.

Primeiro, ponderei que uma vez que o limite de velocidade se fica pelos 120 km/hora é incompreensível existirem veículos que o podem exceder. Assim sendo, bastaria ampliar a responsabilidade contra-ordenacional e também criminal (nos homicídios e ofensas negligentes) aos concessionários que vendessem viaturas capazes de exceder a velocidade máxima permitida.

Aqui iríamos também conseguir criar novos postos de trabalho. Como? Pelo aparecimento de empresas nacionais que instalariam nos automóveis importados os mecanismos que os impediriam de ultrapassar os 120 km/hora.

Os interessados poderiam continuar a adquirir Audi, BMW, Ferrari, etc., mas antes de poderem circular no nosso território teriam de instalar o tal mecanismo e depois poderiam andar por aí com segurança, não excedendo nunca os 120 km/hora.

Segundo, parti para experiências no campo, actuando simultaneamente como cobaia e observadora, e pude constatar que a minha condução enquanto escutava:

 

 

era completamente distinta do que quando ouvia:

 

transformando-me numa condutora muito mais fofinha.

 

Assim, também para diminuir a conflituosidade na condução, bastaria obrigar todos os condutores a escutarem isto. Ou os condutores que tivessem cometido uma infracção teriam por exemplo de escutar este mesmo CD ininterruptamente de dois meses a dois anos, conforme a gravidade da violação.

E pronto, como não me lembro para já de mais nenhuma outra teoria, vou aproveitar para sair agora com cuidado para não tropeçar no tapete vermelho…

 

 

Gabriela

(blogue DONA-REDONDA)

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Convidada: PSICOGATA

por Pedro Correia, em 12.06.17

 

Terrorismo psicológico, a pior das guerras

 

Durante anos vivemos apenas com uma imagem da guerra, sabíamos a história, havíamo-la estudado nos livros e visto nos filmes, a Segunda Grande Guerra tem papel de destaque, em Portugal ouvimos, algumas vezes na primeira pessoa, relatos da Guerra de Ultramar, chegaram-nos relatos da Guerra do Golfo, a ameaça da bomba atómica, mas o medo depressa dissipou, a guerra sempre foi algo distante e longínquo, anos e anos de paz psicológica.

Até ao dia em que o mundo parou enquanto assistia atónito ao embate de dois aviões nas torres gémeas: 11 de Setembro de 2001, o dia em que a paz psicológica foi afetada. Seguiram-se os atentados de Madrid a 11 de Março de 2004 e de Londres a 7 de Julho de 2005. Entre estes três acontecimentos, ocorrem diversos, demasiados, atentados revindicados pela organização terrorista al-Qaeda, mas quase todos a uma distância confortável, a uma distância que nos fazia sentir seguros.

 

Com a morte de Osama bin Laden, alegado líder da organização, a nuvem da al-Qaeda dissipou-se, mas para dar lugar a uma série de eventos ainda mais aterrorizadores.

O Velho Continente, tantas vezes palco central da guerra, encontra-se novamente sob a mira do terrorismo, do Daesh, dos Jiahistas, do EI, o nome não é relevante, mas sim o propósito, acabar com a nossa paz.

A Guerra, a Fome, a Miséria que durante anos e anos conhecíamos à distância está agora à nossa porta, de mãos-dadas. Caminham juntas, culpam os migrantes pela guerra, eles não trazem a guerra, a guerra persegue-os.

Será que acordamos tarde de mais do sonho? Efetivamente nunca existiu paz.

Será que estamos a pagar pelo extenso tempo de olhos fechados? Desviamos sempre o olhar para a realidade mais conveniente.

 

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Hoje, é impossível ignorar, a guerra está na Europa, não é um conflito armado com bombas, mísseis e tanques, é uma guerra tácita, uma guerra psicológica imposta pelo terrorismo.

Ataques concertados e cirúrgicos que mais do que matar pessoas em escala, visam matar ideologias e liberdades, o objetivo é assustar-nos, é fazer-nos sentir medo na nossa própria casa.

O terrorismo psicológico é a maior arma do EI e a mais perigosa, é a que tem efeitos maiores a longo prazo, a Europa precipita-se a uma mudança de estratégia, de ideologia, que nos encaminha perigosamente para uma guerra diferente, para uma guerra de extremos, onde não há razão, apenas conflito.

Não deixaremos nós europeus de viver a nossa vida normalmente, é a mensagem que transmitimos.

Mas quem não pensa duas vezes em selecionar um destino de férias hipoteticamente mais seguro?

Quem não olha por cima do ombro enquanto caminha numa grande cidade?

Quem não equaciona deixar de ir a um evento com muitas pessoas?

Mais importante, quem não equaciona estar presente na guerra, fazê-los pagar pelo mal que causam, pagar-lhes na mesma moeda?

 

Demorará quanto tempo a estalar uma guerra interna?

O tempo que os nossos valores persistirem, o tempo que demorarem a ser estilhaçados em pedaços e a serem substituídos por outros nascidos da raiva e do ódio.

Não faltarão oportunistas para apanhar os pedaços e edificar os seus castelos de vãs ilusões grandiosas, de soluções tão irreais como as dos seus inimigos. Tentarão manipular-nos como soldados, peões numa guerra que lutaremos como nossa, mas que é só deles.

O terrorismo pior é o que nos afeta psicologicamente, o que nos faz mudar rotinas por mais pequenas e insignificantes que possam parecer, o que nos transforma lentamente o pensamento, o que nos substitui ideias e valores, o que nos quebra o espírito.

Na guerra o instinto de sobrevivência fala mais alto, mas a guerra só é digna de luta se defendermos o que acreditamos e não o que nos querem fazer acreditar.

 

É nas dificuldades que se mede a resistência do carácter e do espírito, é na resiliência em fazer prevalecer os valores da Europa que demonstramos a nossa força, a nossa certeza e que, em última instância, provamos que somos diferentes porque acreditamos que a diferença nos enriquece e nos torna mais fortes.

A liberdade é a causa mais nobre da humanidade, a única que justifica uma guerra. Continuemos assim todos diferentes, com direitos iguais e, sobretudo, continuemos livres.

 

 

Psicogata

(blogue LÍNGUA AFIADA)

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Convidado: EDUARDO SARAIVA

por Pedro Correia, em 09.06.17

 

O Fundão está em festa

 

Hoje, o Fundão comemora 270 anos da criação do Concelho. Por isso, o Fundão está em festa.

Não sendo possível, com precisão, indicar em que época o Fundão teve a sua existência de povoação, com vida própria, o mais antigo texto que refere a aldeia do Fundão é “a inquirição de D. Diniz, de cerca de 1314.

Também o Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e Algarve, no respeitante à diocese da Guarda, refere que em 1321, a igreja de S. Martinho do Fundão era taxada em 50 libras.

O Catálogo que testava as rendas eclesiásticas, um dos mais seguros indicadores da importância das povoações, refere que entre as localidades do termo da Covilhã, o lugar do Fundão, só se lhe avantajando Aldeia de Joanne, lugar tão próximo que é quasi o prolongamento daquele, e Castelo Novo, vila com foral e porventura alguma igreja das Ordem de Cristo taxadas em conjunto”.

Podemos afirmar que o Fundão já existia, em condições de desenvolvimento, no reinado de D. Dinis.

O Alvará de 15 de Janeiro de 1569, que destaca a pretensão dos fundanenses, regista a importância que a terra continuava a ter no século XVI.

Ali se refere que os oficiais do lugar do Fundão apresentavam, como fundamento, o que ao Rei pediam, ser o mesmo lugar “mui grande de mais de 500 vizinhos” e de muito grande trato e a mais honrada aldeia que no reino há”.

Pelas transcrições, constatamos que os fundanenses não deixavam os seus créditos por mãos alheias, ao procurarem a emancipação da sua vizinha Covilhã, como vieram a conseguir em Carta Régia, de 23 de Dezembro de 1746, da Chancelaria de D. João V, que refere sou servido mandar se crie de novo em vila ao lugar de Fundão”.

Não admira que os fundanenses, como sempre o mostraram, se orgulhem da sua linda terra. Por isso, não surpreende que o Vilão, no Auto da Festa de Gil Vicente, ao apresentar-se ante a Verdade, a auscultá-la sobre a sua apelação se apressasse a declarar-lhe:

Eu sou de cima da Beira

lá de junto do Fundão

 

Em 10 de Maio de 1747, é publicada Nova Carta Régia, a Carta de erecção e criação do dito lugar em Vila.

Em sequência da Nova Carta Régia, no dia 9 de Junho, desse ano, realiza-se a primeira reunião dos Vereadores da Câmara.

Neste aniversário, é de inteira justiça recordarmos e homenagearmos os homens que deram corpo à primeira Vereação – o Presidente, Dr. Henrique Rozalles Barreiros e os Vereadores Diogo de Brito Homem; João Filipe Pereira da Câmara e Oliveira e Manuel Alvares Palhou, assim como todos os cidadãos que integraram as vereações seguintes, até aos dias de hoje.

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 Edifício da Câmara Municipal do Fundão em épocas diferentes

 

O Fundão está em festa. É importante comemorarmos e recordarmos esta efeméride, numa altura em que as comunidades assumem um papel decisivo na nossa Sociedade. Uma sociedade, cada vez mais globalizada onde, o tempo presente, temos que reconhecer, é um tempo de mudança, onde tudo se altera a um ritmo vertiginoso que, não raras vezes deixa perturbado os indivíduos, os grupos e as instituições.

Neste tempo de mudança, há que reconhecer que essa mutação tem uma dimensão civilizacional profunda, com origem na revolução que a ciência, a técnica e a tecnologia vêm, sucessivamente, assumindo.

E, porventura, a principal referência desta mudança civilizacional é a exaltação do conhecimento, convertido em base única do progresso individual, comunitário e regional.

Por tudo isto, ao comemorarmos os 270 anos do Concelho do Fundão, envolvo todos os homens e mulheres da nossa terra num abraço fraterno e formulo votos para que todos os cidadãos, que desempenham funções nos mais diversos órgãos da Comunidade, continuem a pugnar pelo desenvolvimento da nossa região.

Temos que saber agir. Quem não agir a tempo, atrasa-se, irremediavelmente, na caminhada para o futuro. Não podemos perder o futuro e o Fundão tem que saber estar no futuro.

É uma exigência dos nossos antepassados e dos nossos filhos.

 

 

António Eduardo Correia Saraiva

(blogue O ANDARILHO)

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Convidada: EUGÉNIA VASCONCELLOS

por Pedro Correia, em 07.06.17

 

A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, o cão e eu

 

Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.

 

No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.

Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. A bicicleta. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe, sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço... Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.

 

Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as que me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós... Só percebi quando os vi a arrancar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Era mais barato assim e como não o matavam, se apanhados, a pena seria menor.

 

Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta - qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d' Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma velha construção nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A natureza a dar show e eu espectadora feliz. Volto a olhar para a direita. Encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?

 

Já não moro no paraíso. O meu querido Cão morreu - se hoje chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro, dois narizes no vidro. 

Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos. 

 

 

Eugénia de Vasconcellos

(blogue CABEÇA DE CÃO)

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Convidado: JOÃO ESPINHO

por Pedro Correia, em 05.06.17

 

Beja merece +

 

Ora cá estou a aceitar o repto do Pedro Correia para pisar a passadeira vermelha do DELITO.

É com agrado que aqui regresso.

Espero que os habituais leitores do D.O. não saiam defraudados.

Quem há muito frequenta a blogosfera já deve ter passado pela minha Praça, a da República, em Beja.

Sim, quem diria que a província, nesse Alentejo profundo, para além de bom vinho, pão de categoria superior e um dos melhores azeites do planeta, para além de um sol ardente, poetas e cantores – e muito principalmente cantadores, de gentes afáveis com aparência por vezes rude e ar entristecido, quem diria que esta terra que tem quase tudo, também em tempos pariu um blog que persiste em sobreviver e em viver lá no seu cantinho resguardado numa terra que há quem queira mandar para o abandono.

Disse-vos atrás que nós, aqui os de Beja, temos quase tudo. O que nos falta então?

Talvez gente aguerrida, destemida, sem receios de lutar pela sua terra.

 

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Isto vem a propósito do quê?

Bem, quem queira vir a Beja tem várias alternativas. Por terra, onde as estradas estão velhas e onde as auto-estradas são uma miragem que tem dificuldade em concretizar-se. Iniciadas as obras, a troika e quem manda neste país logo decidiram suspender as mesmas. São viadutos e quilómetros de terra esventrada, à espera de anos eleitorais para que as obras possam avançar mais um ou dois quilómetros.

Por via aérea também seria uma possibilidade, mas o aeroporto – sim, temos um aeroporto – teima em não descolar. Ora por isto, ora por aquilo, o facto é que o Aeroporto Internacional de Beja (como eu gosto deste pomposo nome) não recebe passageiros. Estavam previstos milhares, muitos milhares, de pessoas a aterrar e a descolar na planície, mas… plof! Nesta terra quase tudo não passa de um grande plof.

 

Mas a via mais aconselhável é a ferroviária. É uma aventura, um passeio turístico inigualável. Se sair de Lisboa, pode contar com uma paragem obrigatória em Casa Branca. A nossa, a alentejana, onde deverá mudar de comboio. Isto é, abandona o Intercidades (linha electrificada) e entra para uma composição dos anos 50 – a CP tem uma atracção pelo vintage – pois a linha até Beja não comporta comboios e carruagens de geração recente e em bom estado. Antes de vos contar como são as diesel onde embarcamos para a capital de Distrito, convém realçar que o transbordo do IC para a carroça pode demorar algum tempo, muito tempo, pois a carroça está, normalmente, avariada, e temos que esperar que venha outra automotora que, também ela, pode avariar. A espera faz-se numa estação sem condições, onde os passageiros ficam à mercê de ventos, chuvas e frios (no Inverno) ou de temperaturas escaldantes, como só o Alentejo conhece no Verão.

Embarcados na automotora, tudo pode acontecer. É uma aventura digna de um filme de Lynch. Carruagens climatizadas? É mentira! Um serviço de mini-bar para tentar matar a fome ou a sede, é uma miragem. Os vidros, por estarem todos grafitados, não permitem que se aprecie a paisagem. As luzes estão em constante intermitência. Há ruídos que ninguém sabe identificar. A qualquer momento espera-se o pior. Sugiro que vejam os 20 segundos deste vídeo. Estou quase a terminar, até porque a viagem está a chegar ao fim. Invariavelmente com atraso significativo, o que acontece quase diariamente. E nos dois sentidos.

 

Perguntam os leitores: e por que razão não apresentam queixa? Pois é, julgo que largas centenas de reclamações foram já feitas à CP, REFER, DECO, etc…

Respostas? Nada, zero!

Termino com o lema que nos une num movimento: #bejamerece +

Oxalá alguém nos dê atenção. Beja merece!

 

 

João Espinho

(blogue PRAÇA DA REPÚBLICA)

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Convidada: ZÉLIA PARREIRA

por Pedro Correia, em 02.06.17

 

As contas da cultura

 

Com o poder público rendido a Salvador Sobral, o cantor foi à Assembleia da República reivindicar mais investimento para a cultura. É quase certo que o Salvador se referia ao apoio às artes, ao investimento no aparecimento de novos talentos, à aposta na diversidade cultural essencial a uma sociedade que defenda a liberdade de expressão e pensamento.

Mas eu vou aproveitar descaradamente a intervenção do Salvador para falar de outros investimentos na cultura: o sector cultural do Estado.

 

Bem sei que somos bombardeados com a ideia de investimentos avultadíssimos nas jóias da coroa: o Museu dos Coches, o Museu Nacional de Arte Antiga, o CCB ou a Fundação de Serralves. Os orçamentos são ambiciosos mas têm resultados positivos. A Cultura, esse sector eternamente encarado como de segunda prioridade, um bem de luxo que nunca chegou a beneficiar de 1% do orçamento, é afinal um dos sectores mais lucrativos na esfera de administração directa do Estado, especialmente se considerarmos o impacto que tem no Turismo. E estamos a falar apenas em termos económicos, já que o bem maior resultante da actividade cultural nem sequer é contabilizado: a formação de cidadãos conscientes, informados, capazes de gerir o conhecimento que lhes é disponibilizado e de o utilizar em benefício próprio e em benefício da sociedade.

Mas, por trás do brilho oficial, os organismos culturais nacionais limitam-se a sobreviver, em sofrimento constante. Sempre dependentes da novidade que cada ciclo político insiste em introduzir mal toma posse, nunca sabem por quanto tempo a estrutura com que trabalham se vai manter. Falar em delinear estratégias neste quadro é mera utopia.

 

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O panorama dos recursos humanos é dramático. Os constrangimentos que impedem a entrada de gente na função pública estrangulam estruturas patrimoniais, museus, bibliotecas e arquivos. Supostamente há gente disponível em mobilidade, mas não detêm a formação necessária para ocupar os lugares existentes. A escolha está entre esgotar os recursos disponíveis, sujeitando-os a horários de trabalho suplementares (sem qualquer compensação monetária) ou aceitar trabalhadores que nunca quiseram trabalhar nesta área e que não têm qualquer motivação ou sensibilidade para lidar com o público, aos quais ainda é necessário dar formação em contexto de trabalho (e portanto, não credenciada). Para que isso aconteça, é preciso que haja gente disponível, e não há. Não há.

No entanto, o problema mais grave originado pela não admissão de recursos humanos é outro e já começa a fazer-se sentir: não há transmissão de conhecimento. Não há integração na missão de serviço público, não há passagem de testemunho, não há renovação. Os recursos vão inevitavelmente esgotar-se e depois vamos assistir a uma entrada súbita de pessoal não qualificado – a exigência de qualificações é mal vista e encarada como corporativismo – sem qualquer espírito de missão ou cultura de serviço público e todo o conhecimento acumulado de gerações estará irremediavelmente perdido.

De orçamentos nem vale a pena falar. De 2000 em diante, foi sempre a descer. A cultura e os funcionários públicos sempre foram os primeiros alvos a abater em tempos de austeridade e estes serviços conseguem agregar os dois. Não há escapatória possível: corte-se!

 

E de quem é a culpa de tudo isto? De ninguém. Na verdade, é de todos. É de todos os que, tendo voz activa, nunca souberam defender a relevância e a especificidade da cultura. É de todos os que delinearam medidas a regra e esquadro, no ar condicionado dos gabinetes, sem o mínimo cuidado em verificar os seus efeitos no terreno. É de quem opta por regras inflexíveis que estrangulam o funcionamento dos serviços por não ter a coragem de assumir a tomada de decisões. É dos que insistem em deixar a sua marca pessoal e movem serviços como se fossem peças de xadrez, sem a preocupação de conhecer previamente o que estão a destruir. É dos que furam as regras e gritam escândalos nos jornais para serem beneficiados sob o olhar protector da indignação pública. É dos que encolhem os ombros, confundindo lealdade institucional com falta de verticalidade. É dos que, vítimas da sua própria falta de cultura, recusam compreender o que a falta de investimento na cultura fará à nossa sociedade amanhã.

Sei que temos vivido tempos difíceis nos últimos dez anos, pelo menos. Durante esse tempo, todos nós (ou pelo menos a maioria) aguentou o barco, manteve-o à tona. Contámos para isso com a colaboração e apoio inestimável de todos os trabalhadores da área que compreenderam que, em tempos de crise, só os mais fortes e perseverantes sobrevivem. Nós quisemos ser fortes e perseverantes, e conseguimos. Mas não aguentamos mais, os serviços estão esgotados. É necessário repensar as estruturas, rentabilizar os recursos e sim, há que dizê-lo sem medo, ter a coragem de investir na Cultura.

 

 

Zélia Parreira

(blogue AÇÚCAR AMARELO)

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