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Convidado: MARCELO C. RIBEIRO

por Pedro Correia, em 27.06.17

 

O rescaldo

 

Enterraram-se os mortos e, agora, há que cuidar dos vivos como mandava o temível mas eficaz marquês de Pombal. E cuidar dos vivos não significa, mais outra vez, umas vagas ajudas, duas palmadinhas nas costas, boas palavras e uma selfie com o Senhor Presidente (mesmo se os seus encorajamentos tenham sido oportunos, pelo menos desta vez).

Cuidar dos vivos significa apurar as necessidades, prevenir o futuro e tratar de saber a quem cabe a responsabilidade.

Comecemos por esta última tarefa que, não sendo a mais preocupante, convém não esquecer.

À primeira vista, todos somos responsáveis, por acção, por omissão, pelo silêncio, pelos votos naqueles que não fizeram o trabalho de casa. Todavia, de nada nos valerá – como já li algures – vir disparar sobre o defunto dr. Salazar por ter sido ele quem, primeiro, mandou reflorestar o país. Mandou e mandou bem mesmo se, com os meios da altura (e aí se inclui a incapacidade de os povos se rebelarem), bem se poderia ter pensado em que espécies arbóreas se devia apostar. Apostou-se no pinheiro bravo (e depois no eucalipto) por duas razões: crescem em toda a parte, produzem lucros ao fim de poucos anos e quase não exigem cuidados.

Porém, aumentam a vulnerabilidade da floresta mediterrânica por serem facilmente presa do fogo.

 

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Voltando aos responsáveis, toda a gente está de acordo que o abandono das terras agricultáveis, o despovoamento daí resultante, o crescimento descontrolado de “mato”, conjugam-se para tornar extensas zonas em alvo fácil das chamas. Junte-se-lhe o abandono de caminhos rurais e teremos uma situação mais complicada.

No entanto, o abandono do interior foi potenciado por múltiplos factores dos quais o menor não é seguramente o facto de em grande parte do interior a parca agricultura que existia ser de mera subsistência, permitindo que a miséria rondasse cada lar e, desde há séculos(!), empurrasse multidões de camponeses para a emigração. Assim se fez o Brasil, alguma (pouca) África colonial e quase toda a industrialização do país. As cidades, sobretudo as do litoral, cresceram e crescem com transmontanos, beirões e alentejanos. E mesmo as cidades do interior concentraram, também elas, muita gente das aldeias em redor.

Isso terá tido como consequência a perda ou a não actualização do cadastro florestal. Heranças que se foram dividindo e subdividindo, terras abandonadas, perda dos marcos etc., tornaram a selva do interior mais misteriosa do que a Amazónia.

Também não é menos verdade que, hoje em dia, ninguém vai “roçar” mato para arranjar lenha para as lareiras, cama para os gados ou material para produzir adubo. O mesmo e já falado despovoamento fez desaparecer os rebanhos, mormente de cabras que limpavam eficientemente o terreno mais maninho. (Também é verdade, mas ninguém se lembra – ou se quer lembrar...- que muitos fogos ocorriam devido à incúria de pastores que tentavam queimar mato para obter pasto para o gado).

 

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Um velho, querido e saudoso amigo que já lá vai dizia que a terra é um bem finito e que, por isso, todos a queriam e ninguém vendia. É verdade e essa ideia antiquíssima que funda na propriedade da terra a ideia da dignidade do camponês foi durante séculos, e hoje ainda é, uma ideia força que venceu todos os ideólogos da “reforma agrária” ou da nacionalização forçada da terra. Mesmo nas situações mais violentas (desde a Rússia bolchevique à China) a apropriação estadual da terra foi progressivamente forçada a conviver com os talhões individuais, com a propensão à propriedade privada e, finalmente, com o derrube do chamado “socialismo real” de que ainda cá subsistem uns vagos defensores. (E lembremos que, no centro e no norte do país, nunca os estatizantes defenderam sem mais o esbulho dos proprietários aliás quase sempre pequenos e pequeníssimos.)

Isto, por muito que não seja politicamente correcto, significa que os fogos também se devem a muitos dos lesados, mesmo se seja verdade que na maioria das vezes se trata de gente idosa, analfabeta, empobrecida que não pode custear a desmatação, a limpeza dos seus parcos terrenos.

Sabe-se, igualmente, que, em toda a Europa a que pertencemos, a média de floresta pertença do Estado ronda os 40% da superfície total. Em Portugal, a floresta pública atinge com dificuldade os 2%!...

 

Tudo isto, e é muito, é gigantesco, não pode, porém, fazer esquecer, perdoar, ignorar que há uma coisa chamada “responsabilidade política”. Quem é ministro deveria saber ao que se arrisca quando aceita o cargo (tanto mais que ninguém é obrigado). Há dúzia e meia de anos, caiu uma ponte em Entre-os-Rios. Era ministro do Equipamento Social um cavalheiro que perante a evidência de meia centena de mortes declarou (honra lhe seja) que a culpa não podia morrer solteira. E demitiu-se irrevogavelmente.

Actualmente, vagueia por aí, uma senhora, seguramente muito meritória, cheia de estudos, que neste momento faz de ministra. Antes disso, e isso é importante sublinhar, fora adjunta duas ou três vezes de ministros da Administração Interna. Ou seja, sabe, ou devia saber, como é que as coisas se passam. Vimo-la, com ar melancólico, na zona dos incêndios, ouvimo-la, depois, dizer umas vacuidades simpáticas sobre a tragédia (felizmente, honradamente, não pôs no seu cenário um cadáver como com certa jornalista da TVI...).

Que um responsável político vá uma vez ao local da tragédia mesmo se nada pode fazer não me causa repugnância. Que ele assente arraiais no sítio sem ter competências específicas que o tornem útil no combate às chamas é que já me parece demais.

A senhora ministra deveria saber (ou pelo menos pensar) que não era ali que poderia ser mais útil. Era lá em Lisboa, a reunir com gente que a pudesse aconselhar. Com esses desafortunados especialistas que andam desde há anos (que digo?, desde há décadas...) a fazer o diagnóstico das sucessivas situações e a propor os meios de as evitar.

 

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À Sr.ª Ministra pedem-se políticas mesmo se caia bem o seu natural ar compungido e merencório. A quem está no terreno pedem-se coisas tremendamente práticas. Apagar o fogo, salvar vidas e bens (árvores, casas, animais, ia a dizer memórias e afectos mas espero que isso esteja implícito).

Sª Excelência não é bombeira, não é médica, não é psicóloga, não é enfermeira, não parece ser escuteira ou pertencer a uma ONG, à Misericórdia ou ao Banco Alimentar. Também não é sacerdote, sacristã, coveira ou irmã da caridade.

É ministra, raios! Ministra! Tem de governar. Não precisa andar com um colete de bombeiro, sapatilhas e ar (sempre melancólico) grave e solidário. Que os ministros, os deputados, os autarcas e o resto das paisanos em me que incluo estão solidários é um mínimo, um sinal de civilização, de cidadania de honradez pessoal. Não é preciso repeti-lo a todo o momento.

Para beijos, abraços e afectos já basta o Senhor Presidente que, cada vez mais, para o melhor e para o pior, se assume como o 4º Pastorinho de Fátima. Mas o Senhor Presidente não governa, não tem de estar a todo o tempo a estudar o essencial que é tornar certo e evidente, hoje, o NUNCA MAIS. Nunca mais isto, esta infâmia, esta vergonha, este desespero, este modo tão português de impotência e irresponsabilidade.

É por isso, Ex.ª Senhora Ministra, que, com alguma tristeza mas com toda a convicção, me permito dizer-Lhe, mesmo já fora de tempo, que ficaria bem pôr o Seu lugar à disposição. Nem me atrevo a sugerir-Lhe uma demissão irrevogável (das irrevogáveis como a de Jorge Coelho e não das irrevogáveis passageiras que imortalizaram um político agora felizmente na reserva (e, vá lá, em relativo silêncio).

 

 

Marcelo Correia Ribeiro

(blogue INCURSÕES)

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Convidada: LUÍSA CORREIA

por Pedro Correia, em 26.06.17

 

A culpa foi do gato

 

Eu sei que deveria ter falado em francês com os meus filhos quando eram pequenos. Se o francês quase foi para mim uma segunda língua materna, que aprendi muito cedo, no desempenho da minha função de filha de emigrantes no tempo das malas de cartão, eu deveria, chegada ao papel de mãe de família, ter tirado proveito desta condição e ter ensinado os meus filhos a falar francês tornando-os bilingues. Mas não fui capaz. Uma estranha força impeliu-me a só falar com eles em português, como se não fosse natural o uso simultâneo do francês.

Era uma força que me acompanhava desde criança, muito antes do apelo irresistível da terra ter trazido a minha família de volta a Portugal. Bons emigrantes que éramos, não falhávamos as férias grandes, em julho ou agosto e, depois de dois mil quilómetros de estrada, com o banco de trás do Simca 1500 cor de vinho do meu pai todo para mim, chegávamos com as malas cheias de presentes para as tias e para as primas, peças de pano compradas nas Galerias Lafayette para se costurarem os vestidos da moda, lenços de pescoço estampados com a torre Eiffel e o Sacré Coeur, e muitas saudades para matar ao calor do nosso verão algarvio.

Assim que eu punha o pé em Portugal, a minha boca só se abria para falar em português. A passagem da fronteira desligava em mim a língua do país de acolhimento e a única excepção a essa aparente avaria apenas se dava se a conversa fosse com a minha prima mais nova já nascida em terras gaulesas e que, durante muitos anos, embora tudo entendendo, se recusou a pronunciar uma palavra que fosse em português.

Certo dia, a minha prima francesa que não falava em português, brincava no pátio de uma das nossas muitas tias e, sentindo fome, pediu um pedaço de bolo. Du gâteau, pedia ela. E a tia que bem se esforçava por entendê-la, ouvindo várias vezes gâteau, gâteau, lá conseguiu agarrar no gato que andava por ali para o entregar à pequena, certa de que esta queria fazer umas festinhas ao bichano.

A história ainda hoje me faz sorrir e chego a pensar que a tal força que sempre me impeliu a falar por cá exclusivamente em português, o que, reconheço, prejudicou boa parte da minha condição de educadora, deve ter alguma relação com o caso do lanche falhado da minha prima e do tal gato que, claro está, não se chamava bolo.

 

 

Luísa Correia

(blogue À ESQUINA DA TECLA)

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Convidado: HENRIQUE P. SANTOS

por Pedro Correia, em 22.06.17

 

"Mas isso dos eucaliptos vais ter de me explicar melhor"

 

Quando me disseram, a rir, que eu parecia um novo consenso nacional, a propósito das reacções que fui tendo ao que escrevi sobre fogos, confesso que pensei na reacção dos que me conhecem há mais tempo e sabem da minha maneira abrasiva e excessiva de discutir.

Quando Pedro Correia me pediu para escrever um texto para aqui, sobre o que quisesse, resolvi que era a altura de repor as coisas no seu devido lugar e aproveitar para responder à frase final de um elogio que fizeram a uma das minhas intervenções e que serve de título ao post.

Há pessoas que até me dizem que compreendem essa coisa da propensão do país para o fogo, dadas as suas características geográficas, percebem isso das cabras, entendem que realmente talvez seja mais importante discutir porque não para um fogo que saber como começa, mas lá eu dizer que para gerir os fogos é irrelevante plantar eucalipto ou não, isso é que já não pode ser.

 

Em primeiro lugar gostaria de dizer que nem sempre pensei como penso hoje: como qualquer conservacionista clássico, como é o meu caso, o eucalipto estava para lá da ideia que um muçulmano tem do toucinho.

Depois comecei a olhar para o assunto com mais atenção, e a questão pode sistematizar-se nos seguintes pontos:

  1. O relevante para a evolução do fogo não é a lenha grossa mas os combustíveis finos, aquilo que, ardendo rapidamente, faz progredir o fogo. No fundo, pelas mesmas razões que ninguém acende uma lareira com tronco grossos, mas com gravetos, pinhas, carumas e coisas que tal. Esta é a base teórica;
  2. Quem estudou empiricamente o assunto (Paulo Fernandes, sobretudo, mas também José Miguel Cardoso Pereira), verifica que não há qualquer preferência relevante do fogo pelas áreas de eucalipto, pelo contrário, por ordem de preferência do fogo, temos os matos, os carvalhais, os pinhais e só depois os eucaliptais. Deve ter-se cuidado com a interpretação dos resultados no que diz respeito aos carvalhais já que a amostra é pequena e, muito provavelmente (aí a especulação é minha), boa parte dos carvalhais são carvalhais jovens que se comportam como matos altos, e não carvalhais maduros cujo ensombramento permite o controlo dos matos;
  3. Dentro dos eucaliptais há uma grande gama de situações, desde eucaliptais intensamente geridos até eucaliptais sem gestão, e o seu comportamento face ao fogo é muito mais uma função da estrutura dos matos e folhada do sub-bosque, que propriamente das árvores;
  4. Estritamente do ponto de vista económico, a fileira do eucalipto é das mais prejudicadas pelos fogos, embora largamente ultrapassada pela fileira do pinho, não havendo qualquer racionalidade económica, nem para o produtor, nem para o comprador, em queimar (isto é, fazer a mercadoria perder valor) para a vender (ou comprar, no caso do madeireiro): o preço da madeira ardida é mais baixo porque a mercadoria vale menos;
  5. A alternativa real, não a idealizada, ao eucalipto, em muitas regiões, é o abandono, não é nada de substancialmente útil para a gestão do fogo (pelo contrário, são os matos que mais ardem).

 

Dito isto, dizem-me que eu deveria defender os carvalhos com unhas e dentes, porque a sua sombra permite o controlo de matos e tudo seria mais simples. O problema com esta ideia é que raramente me explicam como se pretende passar de matos para carvalhais sem que pelo meio haja fogos que atrasem o processo.

Portanto, e pedindo desculpa aos que fiquem abalados nas suas convicções, infelizmente não é o eucalipto a desculpa mais convincente para os fogos.

Se fosse, para além da consciência tranquila, seria fácil acabar com os fogos eliminando os eucaliptos. Mas infelizmente a vida não é assim tão simples.

 

 

Henrique Pereira dos Santos

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidada: CRISTINA TORRÃO

por Pedro Correia, em 21.06.17

 

Lendas e mitos

 

Lendas, mitos e milagres fazem parte da cultura e da identidade de um povo. Durante muito tempo, quando o estudo da História não possuía ainda carácter científico, acreditava-se na sua veracidade. Os próprios cronistas medievais difundiram este tipo de narrativas e crenças, pois normalmente escreviam ao serviço do rei ou de algum membro da alta nobreza e havia que exaltar as qualidades do seu patrono, assim como de toda a sua dinastia. Também génios literários como Shakespeare e Camões contribuíram para que muitas inverdades se instalassem no imaginário colectivo. O caso mais relevante será mesmo da responsabilidade do dramaturgo mais famoso do mundo, pelo mito criado à volta do rei inglês Ricardo III, uma das mais maléficas personagens da Literatura e cujo carácter tem vindo a ser reabilitado pelos historiadores, nas últimas décadas. Embora surgissem, no século XIX, historiadores que deram uma nova dinâmica à investigação histórica (caso de Alexandre Herculano, em Portugal), só a partir do século XX o estudo da História se começou a basear em métodos científicos, tanto no que respeita à datação laboratorial dos achados arqueológicos, como na interpretação crítica de crónicas e outros escritos, baseada na interdisciplinaridade e na verificação exaustiva de factos.

No nosso país, porém, esta evolução foi estrangulada por uma ditadura que perdurou até 1974. O alimentar e o exaltar de certos mitos serviam os propósitos do Estado Novo, nomeadamente, o conferir de uma aura divina, a intervenção da “Mão de Deus”, a certos acontecimentos marcantes do nosso percurso. Esta mentalidade criou raízes profundas no nosso imaginário colectivo e, mesmo depois da Revolução dos Cravos, custou ao Professor José Mattoso impor-se como historiador, ao contrariar, por exemplo, a predestinação divina da formação do reino de Portugal, mostrando que o processo que a ela levou era anterior ao próprio D. Afonso Henriques e se enquadrava perfeitamente na evolução da Reconquista Ibérica.

Infelizmente, ainda hoje os manuais escolares carecem de actualização em muitos aspectos, apesar dos esforços de certos historiadores e investigadores como o Professor Moisés de Lemos Martins da Universidade do Minho, o trio de historiadoras Ana Maria Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria e a investigadora e docente Marta Araújo da Universidade de Coimbra.

Vem tudo isto a propósito de um poema inserido num livro de leitura obrigatória para o sexto ano de escolaridade (embora na capa do livro esteja a indicação de “leitura obrigatória”, nos sites da Wook e da Bertrand vem com a indicação suplementar: “livro recomendado para o 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada”, o que causa bastante confusão):

 

De um lado o chão e a raiz

do outro o mar e o seu cântico.

Era uma vez um país

entre a Espanha e o Atlântico.

Tinha por rei D. Dinis

que gostava de cantar.

Mas o reino era tão pouco

que se pôs a perguntar:

- E se o mar fosse um caminho

deste lado para o outro?

E da flor de verde pinho

das trovas do seu trovar

mandou plantar um pinhal.

Depois a flor foi navio.

E lá se foi Portugal

caravela a navegar.

 

Manuel Alegre, em ‘As Naus de Verde Pinho’.

 

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Não contesto a sua beleza, nem a sua qualidade literária, e respeito muito o seu autor, recente vencedor do Prémio Camões, mas não posso deixar de referir que este poema contém duas falsidades.

Em primeiro lugar, D. Dinis não mandou plantar o pinhal de Leiria, quando muito, mandou substituir o pinheiro manso pelo bravo, que cresce mais depressa, tentando assim colmatar a falta de madeira, consumida em quantidades exorbitantes na época medieval, muito antes da febre das caravelas. A madeira usava-se na construção de travejamentos, tectos, soalhos, móveis, utensílios domésticos, estábulos, adegas, espigueiros, moinhos e aprestos agrícolas (desde forquilhas, ao carro e ao arado) e era ainda o principal combustível, já que, sem lenha, não havia pão, alimentos cozinhados, nem um mínimo de conforto no Inverno.

Como se sabe, os pinhais travam igualmente o avanço da areia das praias, permitindo, naquela época, ganhar-se mais terrenos para a agricultura, por isso se pensa que D. Dinis terá ordenado a substituição dos pinheiros em várias partes do reino. O pinhal de Leiria ficaria como símbolo desta política talvez pela intervenção dos monges cistercienses de Alcobaça no Paul de Ulmar, uma vasta extensão de terrenos pantanosos que se estendia ao longo do rio Lis até à foz. Travadas as areias, os cistercienses transformaram esses terrenos em campos de cultivo, pois eram verdadeiros peritos em abrir, valar e enxugar pântanos.

Em segundo lugar, D. Dinis podia ser muita coisa (e era: um excelente poeta, político, diplomata e legislador), mas não era adivinho. E, embora os pinheiros bravos tivessem dado muito jeito na construção das caravelas, ele, que morreu cerca de cem anos antes da conquista de Ceuta, não previu os Descobrimentos!

O historiador J. A. Sotto Mayor Pizarro, autor da biografia de D. Dinis (Temas e Debates 2008), insurge-se contra esta “fama”, da qual o Rei Lavrador não se livra, muito alimentada pelo Estado Novo, a fim de conferir predestinação divina aos Descobrimentos portugueses. Cito da página 263 da referida obra:

 

“Ainda dos autores quinhentistas uma breve referência a Pedro de Mariz (…), porque me parece o responsável pelo tão decantado mito do Pinhal de Leiria. Com efeito, creio que foi o primeiro autor que valorizou a sua importância e, o que é mais, dando à acção dionisina contornos premonitórios:

«Mandou plantar o grande Pinhal de Leiria, sem o qual era impossível poder-se conservar a navegação da Índia (…). Pelo que não me parece sem mistério, inspirar Deus no coração deste Rei, que tão de antemão desse princípio a tamanha coisa.»”

 

Sotto Mayor Pizarro volta à carga na página 333:

 

“Mas se concordo inteiramente com aquele cognome [Rei Poeta], não posso deixar de manifestar o meu mais veemente desacordo - quase diria indignação - pelo de rei Lavrador. Aliás, creio que nenhum outro monarca português foi tão injustiçado por um cognome como D. Dinis, amarrado, é o termo, durante gerações ao malfadado pinhal de Leiria.”

 

Sei que, no caso de ‘As Naus de Verde Pinho’ (o próprio título dá continuação ao mito), se trata de uma obra literária, com lugar para a imaginação. Porém, tratando-se de um livro aconselhado para o sexto ano de escolaridade, num altura em que se empreendem esforços para se corrigirem erros do passado, apetece-me dizer que, assim, não passamos da cepa torta!

 

 

Cristina Torrão

(blogue ANDANÇAS MEDIEVAIS)

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Convidada: MARIA DULCE FERNANDES

por Pedro Correia, em 19.06.17

 

Pauperes commilitones Christi Templique Solomonici

 

Em Dezembro passado a família, por sugestão da historiadora de serviço, juntou-se em passeio que teve como tema a conhecida Rota dos Templários.


Tomar, Almourol, Ourém,  Constância, não necessariamente por esta ordem, mas nas pegadas de uma das maiores e  mais famosas ordens religiosas da história. E como a história conta, esta ordem religiosa e militar teve papel preponderante na reconquista cristã na Península Ibérica e foi extinta em 1312 por exigência de Filipe o Belo a Clemente V. Os Templários, considerados possuidores de tesouros incalculáveis, foram, na sua maioria, perseguidos, detidos e executados.
Também é sabido que encontraram santuário em Portugal,  em terras que possuíam, recebidas de D. Afonso Henriques  como agradecimento pela conquista de Santarém onde construiram o Castelo de Tomar,  onde também mais tarde D. Dinis deu luz verde à ordem de Cristo, que é finalmente reconhecida pela Santa Sé como Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, mantendo a mesma filosofia que guiava a Ordem anteriormente extinta.
 
Isto tudo é História de Portugal. 

Em Dezembro passado, lamentei até por escrito o estado degradado e descuidado em que se encontrava o Convento de Cristo. Património da humanidade, é exemplo indubitável de que a humanidade em geral, os portugueses em particular, não são grandes defensores ou sequer guardiões do seu património histórico.

Falamos para aí dos Budas de Bayman, da cidade de Palmira e da barbárie…
 

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Que dizer então d' O  Homem que matou D. Quixote, de Terry Gilliam (um realizador que considero pessoa esclarecida, com alguns filmes de que gostei bastante, como por exemplo, Fisher King e Monty Python and the Holly Grail), filmado no Convento de Cristo, alugado para o efeito pela produtora e que foi literalmente vandalizado na sua essência para meia dúzia de cenas de um filme supostamente “de culto”?
Rodam-se filmes pelo mundo fora e tenho a certeza que o aluguer das locações é sujeito a rigorosas obrigações contratuais. O que os curadores destas propriedades patrimoniais estarão a pensar quando lhes acenam com cifrões transcende a minha imaginação. 


Nem sei como me espanto e me insurjo quando um qualquer guia de um qualquer país da Europa de Leste me afirma peremptoriamente que lamenta a vida dos portugueses em Lisboa, que vivem em casas de madeira sem saneamento básico, se quem tem autoridade para projectar Portugal no mundo trata do aluguer de um monumento nacional património mundial para a rodagem de um qualquer filme com a mesma displicência como se se tratasse de África Adeus.

 

 

Maria Dulce Fernandes

(blogue A CONTAR VINDO DO CÉU)

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Convidado: FERNANDO LOPES

por Pedro Correia, em 16.06.17

 

Eternamente jovem

 

O aumento da esperança de vida, o prolongamento da vida académica, a forma como envelhecemos mais tarde e de um modo mais suave, arrastam consigo um prolongamento da infância para idades bem para lá dos 30, num processo que me causa estranheza. Entre mestrados e doutoramentos, muito por consequência do desemprego, mas também porque um mestrado passou a ser «habilitação mínima» num universo de licenciaturas curtas, a constituição tardia de família passou a ser norma.

Hoje todos achamos que alguém que faleceu para lá dos 70 anos ainda era novo. Há trinta anos, sete décadas era uma idade vetusta. Somos pais pela primeira vez aos 40, jovens quadros promissores aos 45, aos 55 é-nos pedida a jovialidade de alguém 20 anos mais novo.

Bem na meia-idade, não sinto que seja velho, mas em muitas coisas o meu tempo já não é deste tempo. Esperam de mim um entusiasmo quase inocente, quando há muito o perdi, e uma visão distante, muitas vezes cínica, é o que me caracteriza. Noutros tempos, a capacidade de comunicar só era valorizada se existisse substância; hoje a forma exerce primado sobre o conteúdo. Importa mais parecê-lo que sê-lo.

Nós, cinquentões, estamos encalhados em terra de ninguém. Esperam que tenhamos a energia, a mundivisão da gente nova, enquanto nos consideram demasiado velhos para algum tipo de progressão, profissional ou outra; esperam que dancemos as coreografias em vigor mesmo que para elas não tenhamos paciência ou vocação; que tenhamos o aspecto dos 30, a maturidade dos 40 e a energia dos 20.

Sempre dancei conforme a minha música, não pela que me queriam impor.

Hoje em dia ser assim, assumir a idade, não brincar aos eternamente jovens, é aceitar um estatuto de pária. Assim seja.

 

 

Fernando Lopes

(blogue DIÁRIO DO PURGATÓRIO)

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Convidada: GABRIELA

por Pedro Correia, em 14.06.17

 

Muito depende da música que se ouve

 

Como escrever um texto para o Delito de Opinião se não costumo expressar qualquer opinião ou o faço apenas com um gosto (o “like” no FB poderia ter sido inventado para mim)

Descobri a blogosfera há anos e criei um blogue por ter pensado que era necessário para comentar em outro blogue (quando bastaria ter criado o perfil).

Tento normalmente seguir o lema da mãe do Tambor do Bambi - para a eventualidade, pouco provável de alguém o desconhecer, será algo como: se só tiver coisas desagradáveis a dizer, o melhor é ficar calado – procedi depois a um upgrade e fico também bastante calada quando é para dizer algo agradável e quase não passo do gosto ou gosto muito.

Continuo por aqui porque gosto de interagir na blogosfera e sou pela inclusão (o que alguém especial para mim traduzia como “quantos mais macacos melhor a festa”, sem pretender, sublinhe-se desde já, chamar macaco a ninguém) e para partilhar pequenos textos.

 

Isto assente e para humildemente justificar a ocupação deste outro espaço blogosférico, depois de durante o fim-de-semana me ter interrogado sobre o que escrever, ocorreu-me que poderia, ao invés de expressar uma opinião, inclinar-me para o delito.

Não pretendendo ocupar mais que alguns parágrafos, elegi os delitos estradais e durante o trajecto entre cidade onde moro e cidade local de trabalho, consegui desenvolver duas teorias absolutamente científicas que poderão levar à diminuição significativa não só dos delitos, como de acidentes.

Primeiro, ponderei que uma vez que o limite de velocidade se fica pelos 120 km/hora é incompreensível existirem veículos que o podem exceder. Assim sendo, bastaria ampliar a responsabilidade contra-ordenacional e também criminal (nos homicídios e ofensas negligentes) aos concessionários que vendessem viaturas capazes de exceder a velocidade máxima permitida.

Aqui iríamos também conseguir criar novos postos de trabalho. Como? Pelo aparecimento de empresas nacionais que instalariam nos automóveis importados os mecanismos que os impediriam de ultrapassar os 120 km/hora.

Os interessados poderiam continuar a adquirir Audi, BMW, Ferrari, etc., mas antes de poderem circular no nosso território teriam de instalar o tal mecanismo e depois poderiam andar por aí com segurança, não excedendo nunca os 120 km/hora.

Segundo, parti para experiências no campo, actuando simultaneamente como cobaia e observadora, e pude constatar que a minha condução enquanto escutava:

 

 

era completamente distinta do que quando ouvia:

 

transformando-me numa condutora muito mais fofinha.

 

Assim, também para diminuir a conflituosidade na condução, bastaria obrigar todos os condutores a escutarem isto. Ou os condutores que tivessem cometido uma infracção teriam por exemplo de escutar este mesmo CD ininterruptamente de dois meses a dois anos, conforme a gravidade da violação.

E pronto, como não me lembro para já de mais nenhuma outra teoria, vou aproveitar para sair agora com cuidado para não tropeçar no tapete vermelho…

 

 

Gabriela

(blogue DONA-REDONDA)

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Convidada: PSICOGATA

por Pedro Correia, em 12.06.17

 

Terrorismo psicológico, a pior das guerras

 

Durante anos vivemos apenas com uma imagem da guerra, sabíamos a história, havíamo-la estudado nos livros e visto nos filmes, a Segunda Grande Guerra tem papel de destaque, em Portugal ouvimos, algumas vezes na primeira pessoa, relatos da Guerra de Ultramar, chegaram-nos relatos da Guerra do Golfo, a ameaça da bomba atómica, mas o medo depressa dissipou, a guerra sempre foi algo distante e longínquo, anos e anos de paz psicológica.

Até ao dia em que o mundo parou enquanto assistia atónito ao embate de dois aviões nas torres gémeas: 11 de Setembro de 2001, o dia em que a paz psicológica foi afetada. Seguiram-se os atentados de Madrid a 11 de Março de 2004 e de Londres a 7 de Julho de 2005. Entre estes três acontecimentos, ocorrem diversos, demasiados, atentados revindicados pela organização terrorista al-Qaeda, mas quase todos a uma distância confortável, a uma distância que nos fazia sentir seguros.

 

Com a morte de Osama bin Laden, alegado líder da organização, a nuvem da al-Qaeda dissipou-se, mas para dar lugar a uma série de eventos ainda mais aterrorizadores.

O Velho Continente, tantas vezes palco central da guerra, encontra-se novamente sob a mira do terrorismo, do Daesh, dos Jiahistas, do EI, o nome não é relevante, mas sim o propósito, acabar com a nossa paz.

A Guerra, a Fome, a Miséria que durante anos e anos conhecíamos à distância está agora à nossa porta, de mãos-dadas. Caminham juntas, culpam os migrantes pela guerra, eles não trazem a guerra, a guerra persegue-os.

Será que acordamos tarde de mais do sonho? Efetivamente nunca existiu paz.

Será que estamos a pagar pelo extenso tempo de olhos fechados? Desviamos sempre o olhar para a realidade mais conveniente.

 

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Hoje, é impossível ignorar, a guerra está na Europa, não é um conflito armado com bombas, mísseis e tanques, é uma guerra tácita, uma guerra psicológica imposta pelo terrorismo.

Ataques concertados e cirúrgicos que mais do que matar pessoas em escala, visam matar ideologias e liberdades, o objetivo é assustar-nos, é fazer-nos sentir medo na nossa própria casa.

O terrorismo psicológico é a maior arma do EI e a mais perigosa, é a que tem efeitos maiores a longo prazo, a Europa precipita-se a uma mudança de estratégia, de ideologia, que nos encaminha perigosamente para uma guerra diferente, para uma guerra de extremos, onde não há razão, apenas conflito.

Não deixaremos nós europeus de viver a nossa vida normalmente, é a mensagem que transmitimos.

Mas quem não pensa duas vezes em selecionar um destino de férias hipoteticamente mais seguro?

Quem não olha por cima do ombro enquanto caminha numa grande cidade?

Quem não equaciona deixar de ir a um evento com muitas pessoas?

Mais importante, quem não equaciona estar presente na guerra, fazê-los pagar pelo mal que causam, pagar-lhes na mesma moeda?

 

Demorará quanto tempo a estalar uma guerra interna?

O tempo que os nossos valores persistirem, o tempo que demorarem a ser estilhaçados em pedaços e a serem substituídos por outros nascidos da raiva e do ódio.

Não faltarão oportunistas para apanhar os pedaços e edificar os seus castelos de vãs ilusões grandiosas, de soluções tão irreais como as dos seus inimigos. Tentarão manipular-nos como soldados, peões numa guerra que lutaremos como nossa, mas que é só deles.

O terrorismo pior é o que nos afeta psicologicamente, o que nos faz mudar rotinas por mais pequenas e insignificantes que possam parecer, o que nos transforma lentamente o pensamento, o que nos substitui ideias e valores, o que nos quebra o espírito.

Na guerra o instinto de sobrevivência fala mais alto, mas a guerra só é digna de luta se defendermos o que acreditamos e não o que nos querem fazer acreditar.

 

É nas dificuldades que se mede a resistência do carácter e do espírito, é na resiliência em fazer prevalecer os valores da Europa que demonstramos a nossa força, a nossa certeza e que, em última instância, provamos que somos diferentes porque acreditamos que a diferença nos enriquece e nos torna mais fortes.

A liberdade é a causa mais nobre da humanidade, a única que justifica uma guerra. Continuemos assim todos diferentes, com direitos iguais e, sobretudo, continuemos livres.

 

 

Psicogata

(blogue LÍNGUA AFIADA)

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Convidado: EDUARDO SARAIVA

por Pedro Correia, em 09.06.17

 

O Fundão está em festa

 

Hoje, o Fundão comemora 270 anos da criação do Concelho. Por isso, o Fundão está em festa.

Não sendo possível, com precisão, indicar em que época o Fundão teve a sua existência de povoação, com vida própria, o mais antigo texto que refere a aldeia do Fundão é “a inquirição de D. Diniz, de cerca de 1314.

Também o Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e Algarve, no respeitante à diocese da Guarda, refere que em 1321, a igreja de S. Martinho do Fundão era taxada em 50 libras.

O Catálogo que testava as rendas eclesiásticas, um dos mais seguros indicadores da importância das povoações, refere que entre as localidades do termo da Covilhã, o lugar do Fundão, só se lhe avantajando Aldeia de Joanne, lugar tão próximo que é quasi o prolongamento daquele, e Castelo Novo, vila com foral e porventura alguma igreja das Ordem de Cristo taxadas em conjunto”.

Podemos afirmar que o Fundão já existia, em condições de desenvolvimento, no reinado de D. Dinis.

O Alvará de 15 de Janeiro de 1569, que destaca a pretensão dos fundanenses, regista a importância que a terra continuava a ter no século XVI.

Ali se refere que os oficiais do lugar do Fundão apresentavam, como fundamento, o que ao Rei pediam, ser o mesmo lugar “mui grande de mais de 500 vizinhos” e de muito grande trato e a mais honrada aldeia que no reino há”.

Pelas transcrições, constatamos que os fundanenses não deixavam os seus créditos por mãos alheias, ao procurarem a emancipação da sua vizinha Covilhã, como vieram a conseguir em Carta Régia, de 23 de Dezembro de 1746, da Chancelaria de D. João V, que refere sou servido mandar se crie de novo em vila ao lugar de Fundão”.

Não admira que os fundanenses, como sempre o mostraram, se orgulhem da sua linda terra. Por isso, não surpreende que o Vilão, no Auto da Festa de Gil Vicente, ao apresentar-se ante a Verdade, a auscultá-la sobre a sua apelação se apressasse a declarar-lhe:

Eu sou de cima da Beira

lá de junto do Fundão

 

Em 10 de Maio de 1747, é publicada Nova Carta Régia, a Carta de erecção e criação do dito lugar em Vila.

Em sequência da Nova Carta Régia, no dia 9 de Junho, desse ano, realiza-se a primeira reunião dos Vereadores da Câmara.

Neste aniversário, é de inteira justiça recordarmos e homenagearmos os homens que deram corpo à primeira Vereação – o Presidente, Dr. Henrique Rozalles Barreiros e os Vereadores Diogo de Brito Homem; João Filipe Pereira da Câmara e Oliveira e Manuel Alvares Palhou, assim como todos os cidadãos que integraram as vereações seguintes, até aos dias de hoje.

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 Edifício da Câmara Municipal do Fundão em épocas diferentes

 

O Fundão está em festa. É importante comemorarmos e recordarmos esta efeméride, numa altura em que as comunidades assumem um papel decisivo na nossa Sociedade. Uma sociedade, cada vez mais globalizada onde, o tempo presente, temos que reconhecer, é um tempo de mudança, onde tudo se altera a um ritmo vertiginoso que, não raras vezes deixa perturbado os indivíduos, os grupos e as instituições.

Neste tempo de mudança, há que reconhecer que essa mutação tem uma dimensão civilizacional profunda, com origem na revolução que a ciência, a técnica e a tecnologia vêm, sucessivamente, assumindo.

E, porventura, a principal referência desta mudança civilizacional é a exaltação do conhecimento, convertido em base única do progresso individual, comunitário e regional.

Por tudo isto, ao comemorarmos os 270 anos do Concelho do Fundão, envolvo todos os homens e mulheres da nossa terra num abraço fraterno e formulo votos para que todos os cidadãos, que desempenham funções nos mais diversos órgãos da Comunidade, continuem a pugnar pelo desenvolvimento da nossa região.

Temos que saber agir. Quem não agir a tempo, atrasa-se, irremediavelmente, na caminhada para o futuro. Não podemos perder o futuro e o Fundão tem que saber estar no futuro.

É uma exigência dos nossos antepassados e dos nossos filhos.

 

 

António Eduardo Correia Saraiva

(blogue O ANDARILHO)

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Convidada: EUGÉNIA VASCONCELLOS

por Pedro Correia, em 07.06.17

 

A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, o cão e eu

 

Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.

 

No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.

Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. A bicicleta. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe, sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço... Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.

 

Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as que me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós... Só percebi quando os vi a arrancar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Era mais barato assim e como não o matavam, se apanhados, a pena seria menor.

 

Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta - qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d' Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma velha construção nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A natureza a dar show e eu espectadora feliz. Volto a olhar para a direita. Encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?

 

Já não moro no paraíso. O meu querido Cão morreu - se hoje chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro, dois narizes no vidro. 

Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos. 

 

 

Eugénia de Vasconcellos

(blogue CABEÇA DE CÃO)

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Convidado: JOÃO ESPINHO

por Pedro Correia, em 05.06.17

 

Beja merece +

 

Ora cá estou a aceitar o repto do Pedro Correia para pisar a passadeira vermelha do DELITO.

É com agrado que aqui regresso.

Espero que os habituais leitores do D.O. não saiam defraudados.

Quem há muito frequenta a blogosfera já deve ter passado pela minha Praça, a da República, em Beja.

Sim, quem diria que a província, nesse Alentejo profundo, para além de bom vinho, pão de categoria superior e um dos melhores azeites do planeta, para além de um sol ardente, poetas e cantores – e muito principalmente cantadores, de gentes afáveis com aparência por vezes rude e ar entristecido, quem diria que esta terra que tem quase tudo, também em tempos pariu um blog que persiste em sobreviver e em viver lá no seu cantinho resguardado numa terra que há quem queira mandar para o abandono.

Disse-vos atrás que nós, aqui os de Beja, temos quase tudo. O que nos falta então?

Talvez gente aguerrida, destemida, sem receios de lutar pela sua terra.

 

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Isto vem a propósito do quê?

Bem, quem queira vir a Beja tem várias alternativas. Por terra, onde as estradas estão velhas e onde as auto-estradas são uma miragem que tem dificuldade em concretizar-se. Iniciadas as obras, a troika e quem manda neste país logo decidiram suspender as mesmas. São viadutos e quilómetros de terra esventrada, à espera de anos eleitorais para que as obras possam avançar mais um ou dois quilómetros.

Por via aérea também seria uma possibilidade, mas o aeroporto – sim, temos um aeroporto – teima em não descolar. Ora por isto, ora por aquilo, o facto é que o Aeroporto Internacional de Beja (como eu gosto deste pomposo nome) não recebe passageiros. Estavam previstos milhares, muitos milhares, de pessoas a aterrar e a descolar na planície, mas… plof! Nesta terra quase tudo não passa de um grande plof.

 

Mas a via mais aconselhável é a ferroviária. É uma aventura, um passeio turístico inigualável. Se sair de Lisboa, pode contar com uma paragem obrigatória em Casa Branca. A nossa, a alentejana, onde deverá mudar de comboio. Isto é, abandona o Intercidades (linha electrificada) e entra para uma composição dos anos 50 – a CP tem uma atracção pelo vintage – pois a linha até Beja não comporta comboios e carruagens de geração recente e em bom estado. Antes de vos contar como são as diesel onde embarcamos para a capital de Distrito, convém realçar que o transbordo do IC para a carroça pode demorar algum tempo, muito tempo, pois a carroça está, normalmente, avariada, e temos que esperar que venha outra automotora que, também ela, pode avariar. A espera faz-se numa estação sem condições, onde os passageiros ficam à mercê de ventos, chuvas e frios (no Inverno) ou de temperaturas escaldantes, como só o Alentejo conhece no Verão.

Embarcados na automotora, tudo pode acontecer. É uma aventura digna de um filme de Lynch. Carruagens climatizadas? É mentira! Um serviço de mini-bar para tentar matar a fome ou a sede, é uma miragem. Os vidros, por estarem todos grafitados, não permitem que se aprecie a paisagem. As luzes estão em constante intermitência. Há ruídos que ninguém sabe identificar. A qualquer momento espera-se o pior. Sugiro que vejam os 20 segundos deste vídeo. Estou quase a terminar, até porque a viagem está a chegar ao fim. Invariavelmente com atraso significativo, o que acontece quase diariamente. E nos dois sentidos.

 

Perguntam os leitores: e por que razão não apresentam queixa? Pois é, julgo que largas centenas de reclamações foram já feitas à CP, REFER, DECO, etc…

Respostas? Nada, zero!

Termino com o lema que nos une num movimento: #bejamerece +

Oxalá alguém nos dê atenção. Beja merece!

 

 

João Espinho

(blogue PRAÇA DA REPÚBLICA)

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Convidada: ZÉLIA PARREIRA

por Pedro Correia, em 02.06.17

 

As contas da cultura

 

Com o poder público rendido a Salvador Sobral, o cantor foi à Assembleia da República reivindicar mais investimento para a cultura. É quase certo que o Salvador se referia ao apoio às artes, ao investimento no aparecimento de novos talentos, à aposta na diversidade cultural essencial a uma sociedade que defenda a liberdade de expressão e pensamento.

Mas eu vou aproveitar descaradamente a intervenção do Salvador para falar de outros investimentos na cultura: o sector cultural do Estado.

 

Bem sei que somos bombardeados com a ideia de investimentos avultadíssimos nas jóias da coroa: o Museu dos Coches, o Museu Nacional de Arte Antiga, o CCB ou a Fundação de Serralves. Os orçamentos são ambiciosos mas têm resultados positivos. A Cultura, esse sector eternamente encarado como de segunda prioridade, um bem de luxo que nunca chegou a beneficiar de 1% do orçamento, é afinal um dos sectores mais lucrativos na esfera de administração directa do Estado, especialmente se considerarmos o impacto que tem no Turismo. E estamos a falar apenas em termos económicos, já que o bem maior resultante da actividade cultural nem sequer é contabilizado: a formação de cidadãos conscientes, informados, capazes de gerir o conhecimento que lhes é disponibilizado e de o utilizar em benefício próprio e em benefício da sociedade.

Mas, por trás do brilho oficial, os organismos culturais nacionais limitam-se a sobreviver, em sofrimento constante. Sempre dependentes da novidade que cada ciclo político insiste em introduzir mal toma posse, nunca sabem por quanto tempo a estrutura com que trabalham se vai manter. Falar em delinear estratégias neste quadro é mera utopia.

 

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O panorama dos recursos humanos é dramático. Os constrangimentos que impedem a entrada de gente na função pública estrangulam estruturas patrimoniais, museus, bibliotecas e arquivos. Supostamente há gente disponível em mobilidade, mas não detêm a formação necessária para ocupar os lugares existentes. A escolha está entre esgotar os recursos disponíveis, sujeitando-os a horários de trabalho suplementares (sem qualquer compensação monetária) ou aceitar trabalhadores que nunca quiseram trabalhar nesta área e que não têm qualquer motivação ou sensibilidade para lidar com o público, aos quais ainda é necessário dar formação em contexto de trabalho (e portanto, não credenciada). Para que isso aconteça, é preciso que haja gente disponível, e não há. Não há.

No entanto, o problema mais grave originado pela não admissão de recursos humanos é outro e já começa a fazer-se sentir: não há transmissão de conhecimento. Não há integração na missão de serviço público, não há passagem de testemunho, não há renovação. Os recursos vão inevitavelmente esgotar-se e depois vamos assistir a uma entrada súbita de pessoal não qualificado – a exigência de qualificações é mal vista e encarada como corporativismo – sem qualquer espírito de missão ou cultura de serviço público e todo o conhecimento acumulado de gerações estará irremediavelmente perdido.

De orçamentos nem vale a pena falar. De 2000 em diante, foi sempre a descer. A cultura e os funcionários públicos sempre foram os primeiros alvos a abater em tempos de austeridade e estes serviços conseguem agregar os dois. Não há escapatória possível: corte-se!

 

E de quem é a culpa de tudo isto? De ninguém. Na verdade, é de todos. É de todos os que, tendo voz activa, nunca souberam defender a relevância e a especificidade da cultura. É de todos os que delinearam medidas a regra e esquadro, no ar condicionado dos gabinetes, sem o mínimo cuidado em verificar os seus efeitos no terreno. É de quem opta por regras inflexíveis que estrangulam o funcionamento dos serviços por não ter a coragem de assumir a tomada de decisões. É dos que insistem em deixar a sua marca pessoal e movem serviços como se fossem peças de xadrez, sem a preocupação de conhecer previamente o que estão a destruir. É dos que furam as regras e gritam escândalos nos jornais para serem beneficiados sob o olhar protector da indignação pública. É dos que encolhem os ombros, confundindo lealdade institucional com falta de verticalidade. É dos que, vítimas da sua própria falta de cultura, recusam compreender o que a falta de investimento na cultura fará à nossa sociedade amanhã.

Sei que temos vivido tempos difíceis nos últimos dez anos, pelo menos. Durante esse tempo, todos nós (ou pelo menos a maioria) aguentou o barco, manteve-o à tona. Contámos para isso com a colaboração e apoio inestimável de todos os trabalhadores da área que compreenderam que, em tempos de crise, só os mais fortes e perseverantes sobrevivem. Nós quisemos ser fortes e perseverantes, e conseguimos. Mas não aguentamos mais, os serviços estão esgotados. É necessário repensar as estruturas, rentabilizar os recursos e sim, há que dizê-lo sem medo, ter a coragem de investir na Cultura.

 

 

Zélia Parreira

(blogue AÇÚCAR AMARELO)

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Convidado: FILIPE NUNES VICENTE

por Pedro Correia, em 31.05.17

 

Agincourt no estádio

 

Muito elogiada é a equipa que ataca pelos flancos, explorando as faixas laterais, ao invés daquela que afunila o seu jogo ofensivo. Ora, militarmente falando, flanco significa lado; a vantagem de que os agressores gozam, num ataque assim, reside no facto de os defensores adversários se terem de dividir. Com efeito, se se flanqueia ao mesmo tempo que se continua a ocupar a zona central, a concentração e disciplina dos defensores são afectadas. Isto pode ser observado em qualquer jogo de futebol: o lateral/extremo galopa até à linha de fundo e os centrais adversários tentam adivinhar a intenção precisa do malandro ao mesmo tempo que tentam controlar as rapaces que vão aparecendo na grande-área; por exemplo, os Jonas, os Ronaldos, os Nenés.

Agincourt, na temporada de 1415/16, foi um bom exemplo das virtudes do ataque pelos flancos ainda que noutro tipo de palco: Henrique V derrotou os franceses não obstante a inferioridade de efectivos (cinco para um a favor de Carlos VI). Este tipo de ofensiva introduz um elemento de desordem, no caso do futebol, na marcação esforçada e honesta; é insidioso e releva da ilusão. Pode ser utilizada  em superioridade ou igualdade numérica e constitui uma manobra ao dispor tanto da poderosa squadra como do Arrasquinha FC; habita, enfim, um universo popular e democrático.

O sucesso dos ingleses em Agincourt resultou do alargamento da chamada zona de morte, como explica John Keegan, que é definida pela extensão da arma prevalecente. Do ponto de vista da infantaria, trata-se, claro, da zona onde se travam os principais combates homem a homem. Em Agincourt a zona de morte foi alargada desde a frente da defesa francesa até aos seus flancos, permitindo às tropas de Henrique V um ataque envolvente. O resultado foi devastador no exército de Carlos VI (que era doido, ou talvez não, por isso não esteve na batalha).  

 

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A História está alagada de casos similares, desde Aníbal, inexorável com as tribos da Occitânia e do Ródano, ao longo da sua marcha sobre Roma, até ao flanquear da Linha Maginot pela tropa nazi. Curioso é observar, no caso do futebol, como o temperamento dos povos imagina formas diversas deste tipo de ofensiva. Bem sei que os tempos mudaram, as diferenças esbateram-se, mas podemos ainda imaginar diferenças de berço. Os britânicos e os nórdicos, quais soldados disciplinados, procuram os centros rectilíneos para a grande-área, que terminam em cabeceamentos certeiros; os sul-americanos e os latinos optam a maior parte das vezes por descobrir diferentes centímetros quadrados de relva, parando a meio, quando esperávamos que acelerassem, acelerando quando já nem os julgávamos lá. Como, por exemplo, Messi.

 

 

Filipe Nunes Vicente

(blogue DEPRESSÃO COLECTIVA)

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Convidado: MAURÍCIO BARRA

por Pedro Correia, em 29.05.17

 

Delitos de opinião

 

 

Primeiro Delito

Após a Comissão Europeia recomendar que Portugal deve sair do Procedimento por Défice Excessivo, encerrou-se simbolicamente o período que Portugal levou a recuperar (vá lá, ainda está no recobro) da gestão danosa, incompetente, irresponsável e (alegadamente) criminosa de Sócrates, que, enquanto foi primeiro-ministro, nos levou à beira do abismo da bancarrota.

O mérito desta saída, diz-se, foi do governo de Passos Coelho, que trouxe o défice de 12% para os 3%, e do governo de António Costa "que prosseguiu com sucesso esta caminhada histórica" (sic SIC)

Ora bem, este mérito não é uma estatística.

Este mérito foi uma obrigação.

Que durou oito anos.

E quem a pagou fomos todos nós, os portugueses.

Com o PSD, por um lado, e o PS, por outro lado, a imporem-nos as suas receitas que deveríamos cumprir para as pagarmos.

Mas, ao que parece, vamos ser obrigados a continuar a pagar.

Porque nenhum deles, nas funções de Estado para que foram eleitos, procedeu ao ajustamento estrutural do défice da República.

 

 

Segundo Delito

O ajustamento estrutural do défice, as famosas reformas estruturais, não se fizeram, nem se fazem, porque não interessam ao “centrão de interesses políticos e económicos” que se revezam e ocupam alternadamente a “mesa do Estado”.

Vivemos num sistema político endogâmico, que já vai na terceira geração, com uma lógica de ocupação do poder por parte de grupos de afinidades com um único objectivo: controlar o orçamento de Estado, compartilhar os interesses económicos, estar por “dentro “ das decisões financeiras (um caso exemplar foi a saída do Ministro Álvaro Santos Pereira do governo de Passos Coelho: enquanto estávamos todos distraídos com o rigor económico de Vítor Gaspar, o grande inimigo a abater era o verdadeiro reformista desse governo que queria uma economia de mercado a funcionar normalmente, com regulação, escrutínio, investimento em novos sectores estratégicos, sem protecção aos monopólios rendeiros da economia portuguesa. Foi corrido. Paulo Portas fez o seu “número” e o tempo, que entretanto passou, demonstrou os resultados que se pretendia com a sua ridícula irrevogabilidade).

Somos um país pequeno, com uma economia de mercado limitada, onde poucas grandes empresas controlam os vectores essenciais da economia (energia, combustíveis e comunicações), onde as PME’s (sobretudo P’s) ora investem, criam emprego, exportam e alimentam o mercado interno, ora estão muitas vezes descapitalizadas dependendo de apoios “distribuídos” pelo Estado, com uma miríade de micro empresas familiares que são as veias capilares desta economiazinha, com um sistema financeiro em grande parte arguido e em trânsito para ser julgado, que tenta, qual fénix, ressurgir do pântano imoral e antiético em que se afundou, com um quadro legislativo que em parte resulta das relações espúrias de grupos parlamentares permissíveis a interesses particulares, com uma pequena economia paralela que garante a parca sobrevivência e os últimos resquícios de dignidade de trabalho a quem pouco ou quase nada tem, um país onde três milhões setecentos e oitenta e dois mil portugueses se levantam todos os dias para ir trabalhar para sustentarem as suas famílias e as receitas do Estado, e seiscentos e sessenta e três mil funcionários do Estado têm emprego garantido com benefícios por motivos eleitorais (com a excepção merecida dos que trabalham na saúde, emergência, protecção civil e segurança interna e externa)*

*Dados Pordata para 2016

 

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Terceiro Delito

E assim vamos continuar?

Talvez não por muito mais tempo. Mais do que alguns desejam, menos do que alguns quereriam.

A sociedade civil que se interessa sobre a sua vida e a vida dos outros, a grande franja de moderados que não se sentem representados, os democratas que não querem que o país caia em projectos radicais que ponham em causa o seu conforto económico, social e de segurança, os que abominam e se envergonham da corrupção endémica que hoje está perfeitamente investigada e identificada, são os novos agentes de mudança e já começaram a participar nos diferentes níveis da actividade cívica. Vão querer decidir o seu próprio destino.

Ou o PSD e o PS compreendem e se adaptam ao tempo que passa, ou os eleitores desvinculam-se progressivamente. Porque eles, por si só, já mudaram.

É o Novo Centro, democrata e humanista, que despreza o “centrão”.

Nas eleições autárquicas, verificou-se isso claramente.

Nas eleições presidenciais, brutalmente.

Porque começam a estar fartos.

Estão fartos das limitações desta democracia que é uma rotunda da qual não saímos e voltamos sempre ao mesmo sítio, fartos dos complexos de esquerda e direita que estão sempre ao lado dos problemas contra as soluções, fartos das mesmas receitas ideológicas de sempre que futebolizaram e infantilizaram o combate político.

São portugueses europeus.

Não querem continuar a ser um "Portugal dos Pequeninos".

 

 

Quarto Delito

Já repararam que, se vivêssemos num regime presidencialista, o actual sistema partidário estava todo esfrangalhado?

 

 

 

Maurício Barra

(blogue GRANDE HOTEL)

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Convidado: JOÃO LISBOA

por Pedro Correia, em 26.05.17

 

Utopias

 

Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho – , alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”.

Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava “L’Atlas des Utopies”, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita “Utopia” – acerca de cujo autor os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à “República”, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Umberto Eco, por exemplo, em “Serendipities: Language and Lunacy”, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável raccord com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que  "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

 

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Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no “Alfabeto de Ben Sirach”. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático esse, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

 

 

João Lisboa

(blogue PROVAS DE CONTACTO)

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Convidada: ANA

por Pedro Correia, em 24.05.17

 

As crianças de hoje

 

Dei catequese durante anos numa paróquia muito dividida em termos de classes sociais. Crianças muito, muito pobres, e, no outro extremo crianças com muitas posses. O comum entre a maioria delas? A Hiperatividade diagnosticada e comprovada cientificamente.
Lidar com crianças hiperativas pode ser esgotante, desgastante, frustrante. Sabemos que não podemos ir a qualquer local público, pois não sabemos que comportamento elas poderão vir a demonstrar. Pode chegar mesmo a ser humilhante para os adultos que as acompanham, sendo pais ou não.
No início do ano de catequese, e com um grupo novo, coloquei-me à prova, tentei desvendar o que poderia estar por trás deste comportamento. Eu não acredito que as crianças nasçam hiperativas só porque sim, sempre acreditei que existem diversos motivos para que este comportamento se desencadeie. E não me enganei. Vou apenas enumerar alguns exemplos, infelizmente reais:
 
 
- Crianças que viveram na rua até aos 3 anos de idade – Não se recordam da maior parte das coisas, mas há três memórias fundamentais e que as irão acompanhar para a vida: a sensação de insegurança, a fome e o frio;
- Crianças que assistiram à morte de um dos familiares perpetrada por outros, ou seja, pessoas em quem confiavam;
- Crianças que apareciam com a marca do cinto no rosto, nos braços, e sempre que me arriscava a levantar um pouco a camisola a algum, as lágrimas tendiam a cair tal a crueldade, a violência a que tinham sido sujeitas;
- Crianças que destruíam os vidros ao murro por se sentirem presas, por não sentirem a liberdade tão desejada;
- Crianças que não tinham o mínimo acompanhamento em casa, uma palavra de carinho, força e confiança. A sua companhia eram os gadgets eletrónicos, os telemóveis topo de gama, as consolas de inúmeras formas e feitios;
- Crianças “depositadas” na catequese, como se de um ATL se tratasse;
- Crianças sem estrutura familiar;
- Crianças que à pergunta “O que queres ser quando fores grande?”, respondiam “Quero ser pai, quero ter muitas mulheres, que vou matando à medida que tenho filhos.”
  

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Todos estes exemplos indicados como hiperativos ou mesmo psicopatas (num dos casos). O acompanhamento que tinham a nível psicológico? Nenhum! Como é que a sociedade quer integrar estas crianças? Qual o papel da escola, das assistentes sociais no seu desenvolvimento?
Classificar as crianças como hiperativas é fácil, o difícil é mudar mentalidades, o difícil é fazer com que ultrapassem certas vivências, o difícil é fazer esquecer… No fundo, o difícil é agir e ajudar!
 
A catequese era assim uma hora semanal em que se falava da Igreja, de princípios e valores que lhes custava a interiorizar, mas acima de tudo era um espaço em que eles desabafavam, um espaço em que se sentiam seguros, um espaço onde podiam abraçar e beijar sem medo, um espaço onde podiam ser crianças e interagir com os outros, brincar sem maldade associada. Um espaço que ia deixando a teoria da Igreja cada vez mais para trás, um espaço que se tornou o espaço deles, o espaço em que deixei um pedacinho do meu coração a cada semana.
 
Quando conhecerem uma criança identificada / diagnosticada com alguns destes sintomas, tentem perceber a sua história de vida e não a classifiquem logo como irritante, provocadora, briguenta, intolerável. Pode ter suportado em poucos anos de vida aquilo que nenhum adulto suportaria. E estas crianças merecem ser ajudadas!
Numa semana em que se comemorou o Dia do Abraço, lembrem-se: este simples gesto pode curar meses de sofrimento.

 

 

Ana

(blogue CHIC' ANA)

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Convidado: DIOGO OURIQUE

por Pedro Correia, em 22.05.17

 

Ases Indomáveis

 

– Mamã, que aviões grandes são aqueles?

– São aviões militares americanos, filho.

– Americanos? Mas os americanos não estavam a sair da nossa base?

– Pois, parecia que sim. Mas têm agora um presidente novo que, pelos vistos, os quer manter por cá.

– Aquele senhor cor-de-laranja?

– Sim, filho, aquele senhor cor-de-laranja.

– É por isso que têm passado muitos aviões pelo nosso aeroporto nestes dias?

– Sim.

– E isso é bom ou mau, mamã?

– Não sei, filho… Sinceramente, não sei.

– Mas não devia ser bom? A nossa professora de inglês diz que os americanos contribuíram muito para o desenvolvimento das nossas ilhas.

– E quantos anos tem a tua professora?

– Sessenta e tal, não sei bem.

– Pois, é normal, filho. A tua professora já está numa idade em que é bastante comum ter-se uma memória selectiva.

– O que é isso, mamã?

– Memória selectiva? É quando, por exemplo, tu nunca te esqueces de levar o equipamento para as aulas de Educação Física, mas esqueces-te sempre dos TPC que tens para fazer.

– Mas não foram os americanos que nos trouxeram músicas e filmes novos, e que deram muito dinheiro às nossas ilhas?

– Sim, filho, mas… Explico-te da seguinte forma: gostas muito da tia Teresa, não gostas?

– Sim, claro! E do Tomás, e da Marta, e…

– Pois. Agora imagina que a tia Teresa, o Tomás e a Marta vinham viver para nossa casa durante muitos e muitos anos. E, com eles, vinha o resto da família toda. Até pagavam renda e compravam umas coisinhas para a casa; só que deixavam tudo sujo, nunca saíam da casa-de-banho, usavam os teus brinquedos e escondiam bombinhas de mau cheiro debaixo dos tapetes. Bombinhas que, ao longo dos anos, deixavam a terra e as nossas plantinhas doentes.

– Credo, mamã! Porque é que iam fazer isso tudo?

– Porque sim, filho. Porque estavam a pagar, e achavam que o dinheiro justificava tudo. É mais ou menos assim que os americanos funcionam.

– Então e porque é que não alugamos a casa a outras pessoas, se eles são assim tão maus?

– Porque eles não deixam. Porque já não vivem cá a tempo inteiro, mas, pelos vistos, continuam a pagar. Só vêm nas férias, ou então quando há guerra.

– E estes aviões todos? Vêm de férias, agora que está a ficar calor? Ou vêm para a guerra?

– Não faço ideia, filho. Mas, normalmente, os aviões militares não transportam pessoas que vêm de férias.

 

 

Diogo Ourique

(blogue QUERIA? JÁ NÃO QUER?)

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Convidados: NELSON REPREZAS

por Pedro Correia, em 19.05.17

 

Bruscamente, debaixo do chuveiro

 

Tenho andado entra e sai, em casa, por motivos vários. Ao mesmo tempo, a minha filha pediu-me para lhe ficar com as duas gatinhas enquanto ela se ausentou por um par de dias.

Anteontem entro em casa, ligo mecanicamente o televisor para quebrar a paz e o silêncio, as gatas ronronavam num maple e fui para o duche. Eis senão quando, oiço miadelas estridentes, correrias, barulho de um par de coisas a cair e a estilhaçarem-se… mais correrias, choques com portas e é aí que, debaixo do chuveiro, me pergunto se estarei a ser assaltado. Molhado e nu não é propriamente a melhor maneira de resistir a assaltantes, salvo especialíssimas circunstâncias… mas enchi-me de coragem, enrolei-me na toalha e segui para o hall. Olhei para a sala, não vi nada, vou à cozinha e vejo as gatinhas assustadas, muito encolhidas e enroscadas, junto ao fogão. Que coisa, pensei eu… serão mesmo assaltantes?

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E é neste ponto que oiço uma gritaria que, por motivos claros, não provinha das gatas, Vou à sala, procuro identificar o ruído, mais ou menos semelhante a um grupo de carpideiras bem pagas, talvez, ainda, uma vaca que um dia vi o meu irmão veterinário ajudar a parir e deparo com a imagem do Manuel Serrão, na TV, no “Prolongamento”, a imitar (!!!!????!!!!) o Salvador. Pensei sobre que diabo se estaria a passar. Curioso, aproximei-me e na ininteligibilidade dos lances canoros da criatura, percebo que havia uma tentativa de uma letra. O homem imitava o Salvador, o que percebi pelos gestos, naturalmente não pela música. Mas a letra, meu Deus… só percebi Poooooorto… peeeeeenta e qualquer coisa que rimava com penta. Não era pimenta, mas algo por lá perto e que não consegui definir. Insisti E quando julgava que a letra continuava, o homem insistia… peeeeeenta….. pimeeeeeeeeeeeeenta…. (acho) e fiquei-me por aqui. 

Volto à cozinha e olhei, enternecido e solidário com as gatinhas. Pequei no “remote” e calei o Serrão. As gatas olharam para mim, embevecidas e agradecidas. Peguei nelas, fiz-lhe um mimo e elas deitaram-se de novo no maple. Voltei ao chuveiro e  prolonguei aquele jacto quente e gostoso até me desaparecer aquela rima estranha de …peeeeeenta…..pimenta…
Mesmo assim, quando me deitei, e cada vez que fechava os olhos… é… aquela sensação que todos nós certamente temos e que faz com que não consigamos deixar de trautear mentalmente uma canção… lá estava ela. Só que desta vez era mais grave. Além do peeeeenta, pimeeeeeenta mesmo de olhos fechados eu tinha a visão festivaleira do Manuel Serrão e de gatas assustadas, tal como se nota na foto.
Tomei um Dormonoct. 

 

 

Nelson Reprezas

(blogue ESPUMADAMENTE)

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Convidado: JOSÉ DA XÃ

por Pedro Correia, em 17.05.17

 

Palavra de médico

 

Desculpem este à-vontade ao entrar assim, de supetão, numa casa que, não sendo minha, visito amiúde, para dizer somente que um homem não é de ferro. Nem de madeira ou silicone (se bem quem haja por aí quem use, mas enfim…).

O que trago aqui é aquele imbecil sentimento de impotência perante a classe médica. É mais ou menos consensual que os médicos são um tanto corporativistas, lavando quantas vezes as mãos com as velhas desculpas já de todos sobejamente conhecidas.

Partindo deste pressuposto, reconheço que não tenho qualquer hipótese de ser convenientemente tratado, porque cada profissional que consulto anuncia, para os mesmos sintomas denunciados, diferentes palpites de doenças, consoante a sua especialidade.

 

Passemos assim aos factos.

Um destes dias surgiu-me uma dor intensa no pé direito. A dor apesentava-se com tamanha intensidade que quando me deslocava mais parecia um ancião de provecta idade.

Consultei então um médico muito simpático que avançou com o primeiro palpite: gota! E disse-o de forma peremptória. Palavra de médico.

Uma série de questões formuladas levou-o a concluir que o problema tivera origem na pinga do fim de semana. Prescrição de análises, sangue tirado para a cabidela e o resultado veio finalmente, dizendo: não tem nada que justifique essa dor!

No entanto insiste numa medicação específica e numa dieta pormenorizada. Pílulas azuis, verdes, amarelas, tudo para combater o tal… nada.

Não convencido, procuro outro especialista. Mais exames, pílulas de outras cores, mas sem evidentes melhoras. Diz o médico actual que deverão ser artroses. Artolas sou eu em lhes dar crédito.

Todavia com este último médico há uma evidente melhoria… acabou-se a dieta! O que há duas semanas era veneno agora deixou de o ser.

Palavra de médico.

 

Não gosto de servir de bola de ténis… passa para cá, devolve para lá… Mas deve ser do meu mau feitio, assumo.

Neste dérbi médico verificou-se uma espécie de empate. Definitivamente como não aprecio indecisões, eis-me na busca de outro especialista. Conclusão rápida e quiçá assertiva: isso é coluna! Palavra de médico.

Desta vez com pior prognóstico: tinha de ser operado.

Havia agora uma derrota e por goleada, o que, digamos, não é nada agradável. E muito menos desejável.

 

Vai daqui procurei um velho amigo, que não sendo médico vai endireitando alguns ossos. Após análise do meu problema, pergunta-me:

- Tu não bateste em lado nenhum com o pé?

Fui ao meu disco interno e procurei na memória eventuais episódios. Finalmente respondo:

- Há uns tempos dei uma pantufada numa pedra, lá na aldeia. Porém na altura pouco me doeu…

- Pois… já deves ter percebido que não és de ferro. Desconfio que partiste o pé.

Incrédulo com a revelação, ainda pergunto:

- E nos exames não dava para ver?

Após um breve silêncio, o meu amigo respondeu:

- Provavelmente até dava, mas não era a especialidade deles.

Pronto… batido aos pontos. Palavra de não-médico!

 

 

José da Xã

(blogue LADO A/B)

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Convidado: LUÍS NOVAES TITO

por Pedro Correia, em 15.05.17

 

Arte urbana

 

Ao irrecusável convite de Pedro Correia, que reabre a porta do DELITO DE OPINIÃO aos seus camaradas dos blogs seis anos depois, respondo presente embora os anos tenham feito rarear a vontade de escrever na Barbearia onde já desunhei imaginação, a torto e a direito, para suavizar olheiras e escanhoar bochechas imberbes deitando, não poucas vezes, cal na água sempre que pretenderam deixar as paredes da loja no esquife.

 

Volto ao DELITO com uma reflexão sobre a última obra-graça de Bansksy.

Um homem de macaco, provavelmente um imigrado em Inglaterra - porque só esses andam de macaco e pendurados em escadas na terra de sua majestade - a desconstruir a estrela dos ilhéus deixando no seu lugar o vazio que se pressente ser o futuro do Continente cada vez mais deserto de autóctones.

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Não foi difícil chegar aqui. Na grande ilha nunca se guiou pela direita, nunca se trocou a libra esterlina pelo marco travestido de moeda única, nunca se contrariou a dinâmica americana em favor da solidariedade da União e, tirando a amizade pelas calientes águas mediterrâneas e atlânticas vizinhas do Al-Maghrib e pelo Oporto, nunca se levaram a sério as línguas românicas que, no dizer do Flying Dutchman dos tempos calvino-penitenciais em voga, só servem para gáudio dos prazeres da carne e da gula dos éteres.

Também não foi difícil lá chegar porque os continentais estrelados foram perdendo o gás e, em menos tempo do que qualquer outra constelação, murcharam em sabedoria e ideais e fizeram-se joguetes invertebrados dominados pelo medo, que dizem não ter, a burocratas e banqueiros que lhes extorquem o que resta da sua dignidade e condição histórica.

 

Volto ao homem de fato-macaco, alegadamente um migrante, neste espaço europeu que as gentes do norte do Douro poderiam designar por “morcão” e as do Sul do Seine por “Marcon” e onde os social-democratas abandonaram o social à sua sorte e os democratas-cristãos evoluíram para o ateísmo, para analisar mais fino a arte de Bansksy.

O operário, embora de balde à cintura, não usa o queirosiano pano encharcado em benzina (transportando Eça para o actual contexto europeu repleto de Abranhos), nem tão pouco repinta a estrela murcha com o azul do fundo. Prefere representar o proletário de marreta e escopro na mão a sacar nacos de tinta sem ferir o estuque de uma bandeira que tem por hino a nona de Ludwig, An die Freude, adaptada por Herbert para que todos os povos do Norte e do Sul o cantem afinados, dirigidos no ritmo pela batuta alemã.

 

E é isto, Pedro. Um barbeiro a fazer de crítico de arte, um analista a fazer de escritor.

Paz e saúde.

 

 

Luís Novaes Tito

(blogue A BARBEARIA DO SENHOR LUÍS)

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Convidada: ALICE ALFAZEMA

por Pedro Correia, em 12.05.17

 

Balancé

 

Faz este ano precisamente dezassete anos que a minha mãe morreu, era Maio, o Dia da Mãe calhou num domingo dia sete e ela foi na terça dia nove. Foi levada pelo sono da tarde, nem uma expressão de dor, apenas ficou o frio extremo que eu jamais pensei existir.

Os meus avós eram pescadores, o meu pai também, pessoas habituadas ao risco e conhecedoras da morte. A minha mãe tinha uma doença incapacitante que a podia devorar a qualquer momento, no entanto ela era uma animadora de espíritos, isso fascinava-me. Como podemos viver em consciência lado a lado com a Vida e a Morte? Afinal não é isso o que fazemos todos os dias sem o notarmos? Sabemos apenas que existimos.

A consciência da sua finitude e uma fé imensa davam-lhe uma energia e um amor incondicional àquilo a que vulgarmente se chama de Amor pela Vida. A sua vontade férrea naquilo que queria conhecer, as coisas que não ficaram por dizer. Os abraços que demos e as vezes que chorámos como forma de alívio. Não deixámos nada para amanhã, foi tudo feito num hoje único. Vivemos coisas simples, apreciámos coisas simples, coisas banais, como o barulho da chuva, a cor de uma joaninha, a surpresa de ver a erva a crescer. Rimos muito, rimos quando havia motivo para rir e rimos também quando nos apetecia chorar, quando nos apetecia desistir.

A morte faz balancé na vida. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, mais rápido, mais devagar, parado, a começar, a acabar. O que fizemos juntas nesse balancé ficou em mim, às vezes vem de mansinho, em sonhos, em cheiros, em paladares. Não são coisas palpáveis, são coisas minhas.

 

 

Alice Alfazema

(blogue ALICE ALFAZEMA)

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Convidado: TIAGO CABRAL

por Pedro Correia, em 10.05.17

 

Ficar para último

 

Ao longe a luz do sol, quieta continuas a observar essa luz que te acorda. Já estás velha, rugosa, encarquilhada, as costas sofrem com dores que nunca irão acabar. Tomas comprimidos sem saber para que servem, pegas na primeira caixa que vês, só queres que acabe aquela dor nas costas, no corpo todo. Sentas-te à beira da tua casa, sozinha. Não esperas por ninguém, todos os que poderiam chegar já morreram, o teu homem, irmãos, cunhados, genros e até um filho. Sobras tu. Velha.

 

Depressa morro, depressa isto acaba. As recordações são confusas, de ontem nada, almocei? Não importa. Lembras-te há 60 anos, casa cheia, trabalho muito para lá do sol a sol, moira carregada, analfabeta, nunca consegui tirar as cartas, tivesse eu as cartas e ia sozinha cortar o cabelo, a casa cheia, filhos, da barriga e os emprestados a quem nunca deixaste chamar mãe. A aldeia cheia de gente morta, mas com uma igreja bem-posta, limpa, cheia de adornos dourados, com boa escadaria para os mendigos da bendita caridade. Há missa e não vais, nunca foste, havia sacas para carregar às costas, essas que agora te fazem sofrer, agarras à noite o terço e murmuras a ladainha, avé Maria cheia de graça, a televisão já não funciona, já não é só ligar no botão, não sabes como funciona, não interessa, ligo o rádio e fico a ouvir sem perceber nada, mas é a minha companhia.

 

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Ficas sentada à tua porta, na pedra torta onde já se sentou o teu marido que morreu a arder, com os pés enfiados na lareira sem sentir nada, e ainda se levantou, tenho frio, muito frio. Quem te resta mora longe, a avó velha cheira mal, eu não quero ir à avó velha. Eu sei que cheiro mal, o banho é ao domingo, sei lá que dia é hoje, se já passou domingo. Já não cozinho, essas putas que agora aqui vêm e sem pudor falam de mim comigo presente, coitadinha dela, ande venha a comer, olhe aqui o que lhe trouxemos, ande prove este peixinho, ao jantar é massa com carne, aos vossos pais matei eu muita fome. Tanta boca que alimentei nesta desgraçada pobreza, nesta aldeia cheia de fome, gente explorada que nunca se levantou, sempre rente ao chão, espezinhada, já sabes ou tiras o chapéu e dobras a espinha, nem que seja ao mais novinho de quem manda quando passar por ti, ou aqui não trabalhas e morres de fome.

 

Está a acabar, sabes tão bem e bem melhor que todos os outros, depressa morro, depressa isto acaba. A aldeia deserta, o vazio inteiro de dias e dias que são apenas um ininterrupto esperar, aguardar por nada, por ninguém. Eu queria ir ao chão, as minhas pitas que as mataram, já não tenho a minha tapada, as saudades de trabalhar a terra, os carreiros da água, fecha em cima com o sacho, desvia a água para o outro carreiro, apanhar a azeitona, já nem azeite tenho, as furdas com os porcos sempre a aguardar a vianda que levava no caldeiro, esperar por Dezembro para a matança, casa cheia, hoje vazia, tenho que a limpar, os quartos vazios, mas limpos, vou mudar os sofás de lugar, já não posso, não consigo. Vou para a porta esperar, sentada por detrás das fitas, escondida dos olhares de ninguém olha para a aldeia deserta, nada mais há para olhar que o silêncio, o largo empedrado já sem o cheiro a terra molhada, os sons do campo que tanto cativam os de fora não lhe dizem nada, sempre os ouviu. Mais um dia que vai passar, lento, como a solidão de ser sozinha é.

 

Levantar, vestir e esperar. Passa alguém, bons dias, bons dias, quem é esta que me fala? Já não conheço ninguém. Depressa morro.

 

 

Tiago Cabral

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

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Convidada: VÂNIA CUSTÓDIO

por Pedro Correia, em 08.05.17

 

Todas as promessas perdidas

 

Naquele momento em que tudo se apaga, naquele último sopro de vida que se esvai no peito, o sonho sobrepõe-se à angústia e ao medo que leva ao desespero de desistir? O que leva um adolescente, com tanto para viver, a baixar os braços? Durante muito tempo, não se falava de suicídio na imprensa. Havia um código de ética e deontologia que se arrepiava e acreditava no efeito perverso do comportamento de imitação que podia advir deste tipo de notícias. Hoje o suicídio dos jovens é o tema mais quente do momento, seja pela jogo Baleia Azul ou pela série Por 13 razões, a passar na Netflix.

De repente, somos obrigados a encarar a realidade que foi escondida durante tanto tempo. Alguns não aguentam. E não aguentam o quê? Todos sabemos o quê. Todos passámos por lá. A transição da infância para a idade adulta é um caminho complicado, difícil e angustiante. Não é por acaso que se ouvem notícias de mil estudantes "expulsos" de Espanha das férias de Páscoa. E não, não estamos a misturar temas. A aceitação do grupo é o busílis de tudo. Numa altura em que ainda não sabemos quem somos, sem personalidade verdadeiramente definida, o medo tolda as decisões e pode de facto ser mau conselheiro. Se para sentirmos que há mais quem seja como nós, temos de nos anular em comportamentos de grupo, por que não deixarmo-nos ir? É tão mais fácil quando a nossa própria convicção ainda não encontrou uma linha de pensamento e acção que a mantém segura. Mais ainda quando toda esta angústia se afoga num estado depressivo de quem ainda há tão pouco tempo só conhecia dias felizes.

É tão difícil crescer. O que sente um adolescente que desiste? Quem de nós, por uns minutos que fosse, não chegou a desistir? E o que acontece quando não conseguimos encontrar o tal grupo que consegue levar-nos ao colo, mesmo que à boleia de muitas parvoíces, gargalhadas e algumas experiências limite? O chamado ciclo do animal-noivo, o processo de passagem à vida adulta existe e não pode continuar a ser ignorado. Pais, médicos, familiares e amigos, todos temos um papel importante a desempenhar. E o mais importante de todos talvez seja mesmo o de reconhecer que este é um caminho que tem de ser percorrido. A sós, mas não necessariamente sozinhos.

Quantas vidas e sonhos de libertação desse peso e angústia que a adolescência carrega não teriam sido salvos com apenas uma palavra amiga? Alguém que explicasse o processo e fizesse ver a luz ao fundo do túnel. Estaremos assim tão alheados que já não nos lembramos de como foi?

 

 

Vânia Custódio

(blogue CAIXA DOS SEGREDOS)

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Convidada: JOANA LOPES

por Pedro Correia, em 04.05.17

 

Por terras da Abissínia

 

Ser turista é limitativo, eu sei. Preferia ser «viajante», sem prazos nem restrições físicas e financeiras, mas não é possível. Turista portanto me assumo e, como tal, tenho tentado conhecer um pouco dos cinco continentes deste pequeno mundo.

Perguntam-me, frequentemente, qual foi a minha viagem preferida, ou o «top 5» das que já fiz, mas deixei de ser capaz de responder. Escolho uma, sem lhe atribuir nenhum privilégio, mas porque me marcou de um modo especial. Talvez por ter nascido em África, talvez porque é o continente que menos conheço.

 

Há quatro anos passei duas semanas na Etiópia, pouco mais do que nada para ficar com ideias vagas sobre o segundo maior país africano em extensão. Parecia então ser um oásis naquele Corno de África, entre vizinhos em permanente conflito, e centro de onde irradiavam esperanças de conciliação e de progresso. Tristíssimo que tenha chegado a sua vez de contrariar expectativas, esperemos que não por muito tempo.

Percorri algumas centenas de quilómetros onde quase tudo é totalmente verde e fértil, com montes e vales bem cultivados (o celeiro etíope) e milhares de cabeças de gado que tornam o país praticamente autossuficiente em termos de alimentação. Mas falta tudo o resto e a pobreza é por isso extrema, as estradas e muitas outras infraestruturas são quase inexistentes ou muito rudimentares. Como mais do que rudimentares são os instrumentos usados na agricultura, numa terra onde «quem trabalha são as mulheres e os burros» – burros que são mesmo um ícone, tão grande é a sua quantidade, tão importantes as funções que exercem como meio de transporte de pessoas e de mercadorias.

 

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O país depende cada vez mais de investimentos chineses e turcos, exporta algodão e têxteis, carne de várias espécies animais e, evidentemente, café. Aliás, reza a lenda ou a História (nem sempre é fácil perceber-se em que plano se está exactamente) que foi aqui que o café foi descoberto. Como? Uma cabra ter-se-á mostrado tão excitada depois de comer repetidamente a respectiva planta que os donos decidiram seguir-lhe o exemplo, descobrindo assim as suas potencialidades. A Etiópia é governada há quase trinta anos praticamente em regime de partido único, com as inevitáveis consequências em termos de corrupção, e a moeda nacional é tão fraca que tudo o que tem de vir do exterior tem um peso difícil de suportar. Em todo o caso, aparentemente vai-se (ou ia-se?) progredindo, por exemplo através de um interessante e muito louvável sistema de cooperativas. E, ao contrário dos vizinhos da Eritreia e da Somália, tem sido raro que multidões de etíopes fujam por essa África abaixo para se afogarem às portas da Europa.

Há também um povo altivo, orgulhoso da sua etnia («a Norte temos os árabes, a Sul os negros, nós estamos no meio»); orgulhoso também pelo facto de nunca ter sido verdadeiramente colonizado e de ter uma História rica, sem fronteiras muito nítidas que a separem de um extenso conjunto de lendas – uma realidade estranha, mas fascinante, para as nossas cabeças cartesianamente formatadas.

 

Axum, no Norte, é um paraíso para os arqueólogos, tantos são os rastos de civilizações antiquíssimas já descobertos e os muitos que há ainda por explorar. Conta a lenda que um filho de Noé, pai de todos os povos de pele castanha, era avô de Etiopos que foi enterrado em Axum e deu o nome a todos os habitantes do país. Seja como for, sabe-se hoje que as origens da civilização etíope remontam ao século X a.c. Os etíopes reivindicam ter em Axum a «verdadeira» Arca da Aliança e «veneram» a rainha de Saba que, segundo as crónicas, teria regressado de uma viagem a Jerusalém grávida de um filho do rei Salomão, criança que viria a ser o célebre rei Menelik, fundador da dinastia Salomónica que perduraria na Etiópia até ao século XX e a ter, como último representante, o imperador Haile Selassie (tio avô de um dos elementos da troika que por aqui andou…).

 

Há também a Cidade Imperial de Gondar, um conjunto de seis castelos construídos seguindo técnicas introduzidas pelos portugueses no século XVI, implantados numa grande cerca que chegou a ter doze portas. E, acima de tudo, as igrejas de Lalibela, a «Nova Jerusalém» da Etiópia, cravada numa região árida e agreste. Não há palavras que possam dar uma ideia, mesmo que aproximada, do que são esses doze templos, escavados na rocha e em muitos casos ligadas por túneis, distribuídos por dois conjuntos separados por um rio, estando fisicamente afastado o décimo primeiro: último a ser construído e o mais espectacular, com a sua forma em cruz, enterrado, e com quinze metros de altura. As escavações começaram em pleno século XII e todo o conjunto foi construído em apenas vinte e quatro anos, o que é quase inacreditável! Terão estado implicados nas obras, usando instrumentos mais do que rudimentares, 40.000 homens e conta a lenda que trabalhavam enquanto havia Sol e que os anjos faziam o turno da noite… As igrejas de Lalibela, Património da Humanidade segundo a UNESCO, são um dos grandes motivos de orgulho dos etíopes – e com toda a razão.

 

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Não falei de Addis Abeba? Nada de especial a assinalar, a não ser dois museus e um gigantesco e caótico mercado que tem nada menos do que 103 hectares e onde se vende tudo o que imaginar se possa.

Gostava de voltar à Etiópia? Talvez, mas é pouco provável. Até porque repetir viagens não é a minha praia: temo que não haja amor como o primeiro.

 

 

Joana Lopes

(blogue ENTRE AS BRUMAS DA MEMÓRIA)

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Convidado: JOSÉ AUGUSTO LEITE

por Pedro Correia, em 02.05.17

 

A importância de ter memória

 

Após baixar, entre 2006 e 2008, umas centenas de fotos antigas da cidade de Lisboa a partir do site do Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa, e da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, na plataforma FLICKR, comecei a questionar-me se existiria alguma forma de as utilizar, além do simples deleite pessoal e simples arquivamento.

Não tendo ainda sequer um blog - e pouca ideia fazia do que era na altura - reparei que não existia praticamente nada na internet que recordasse a história de Portugal desde o século XVIII até 1974, referente à Indústria, Comércio, Hotelaria, Cinema e Teatro, Transportes, Equipamentos, etc, etc. Apenas começavam a ser disponibilizadas fotos pelos já mencionados Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Arquivo Fotográfico da CML, além de jornais e revistas antigas que começavam a ser digitalizados pela Hemeroteca Digital de Lisboa.

Questionei-me porquê. Fácil! Ainda existia um certo preconceito, receio, ou vergonha de muitos em falar, escrever e recordar o que de bom Portugal construíu e criou antes de 1974. Para outros tudo tinha sido mau … Daí pensei que os grandes e pequenos arquitectos, industriais, comerciantes, médicos, engenheiros, artistas, etc. que foram construindo o nosso país ao longo dos últimos séculos não mereciam continuar no esquecimento.

E lá me decidi em 2009, a criar um blog para esse fim, abrangendo o maior número de regiões de Portugal, e o maior número de temas diversificados, que as fontes mo permitissem, apesar de escassas tanto a nível fotográfico como textual. Devagar, devagarinho, como bom português, lá fui andando…

 

 

Não pretendo com o que vou escrever aproveitar este espaço para publicitar o meu trabalho, sobejamente conhecido, mas apenas demonstrar e chamar a atenção que, por vezes, vale a pena empreendermos numa tarefa cultural e socialmente útil, mesmo que não obtenhamos qualquer dividendo da mesma. O que muita gente já apelidou de outro tipo de “serviço público”.

O sucesso desta "empreitada" ao longo dos últimos sete anos foi para mim gratificante tendo conseguido ser mais uma nova fonte de consulta para muitos estudantes, investigadores, organismos oficiais, etc. O meu modesto contributo baseado apenas em pesquisa na internet, alguns livros e revistas antigas foi consumindo "apenas" sete horas por dia em seis dias por semana.

Sabendo todos os visitantes, seguidores e leitores, que os temas eram exclusivamente de antes 25 de Abril de 1974, e abrangendo maioritáriamente o período entre 1900 e 1974, com enfoque principal no período do Estado Novo, nunca uma voz crítica se levantou, antes pelo contrário. Fiquei surpreendido mas o número de visitantes (2.300.000) e páginas vistadas (6.770.000) alcançado veio-me demonstrar e confirmar a "sede" e vontade de saber acerca desse período, que durante algumas décadas foi evitado sequer falar.

Mas muito pouco ainda damos importância à nossa história, até quando a mesma poderia ser um atributo de grande valia publicitário. Um exemplo: de entre algumas curiosidades que me impressionaram pela negativa foi o facto de, por exemplo, alguns hotéis históricos de Lisboa não referirem sequer o seu ano de fundação nos seus sites, que deveria ser motivo de orgulho (penso eu). Um deles, depois de visitar um artigo que escrevi, acerca do mesmo no meu blog, lá viria a colocar o ano de fundação (1875) mas acompanhado de um erro histórico clamoroso, apelidando-se de “Primeiro Hotel em Lisboa”, em vez de mencionar “Hotel mais antigo de Lisboa ainda em funcionamento”, enfim…

 

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Ao terminar, apraz-me registar, com satisfação, que vão aparecendo cada vez mais fontes de consulta online, e as que já existem vão-se aprimorando e desenvolvendo o seu meritório trabalho em prol da comunidade, ávida de saber e de cultura independentemente da época. A par, vão aparecendo grupos de Facebook direccionados para Lisboa antiga, Porto antigo, Arte e Monumentos etc., assim como alguns blogs históricos de qualidade, que só vêm enriquecer o nosso panorama cultural, tornando-se em mais fontes de consulta e pesquisa.

Repito: os grandes e pequenos arquitectos, industriais, comerciantes, médicos, engenheiros, artistas, etc. que foram construindo o nosso país ao longo dos últimos séculos não merecem ser esquecidos.

Os “fantasmas”, preconceitos e outras coisas mais vão-se diluindo com o tempo e desaparecerão por completo. Como tudo na vida é preciso que uns comecem… e que outros continuem.

 

 

José Augusto Leite

(blogue RESTOS DE COLECÇÃO)

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Convidado: LUÍS MILHEIRO

por Pedro Correia, em 28.04.17

 

Viver na estrada ou morrer no estádio...

 

Às vezes pensa que mais valia ter morrido no estádio.

Nunca mais seria esquecido, nem duvidavam dele quando afirmava que era fulano tal, esse mesmo que jogara no meio campo do “Belém”. E que só por não ter tido muito juízo, é que andava agora com uma camioneta a distribuir pão, aqui e ali.

Raramente é reconhecido. E quando isso acontece chega a ser deprimente, pois só alguns “doentes da bola”, dos que fazem todas as colecções de cromos, o enchem de palmadas nas costas. É por isso que lhes mente quase sempre, diz que é engano, que não é esse cromo do Belenenses, que lhe faltou numa colecção qualquer.

Pode parecer contraditório, mas as coisas da fama são mesmo assim, é como o amor, só gostas de quem te vira as costas, de quem não fica à tua espera na esquina.

Um dia, num completo desespero, dias depois de se divorciar da segunda mulher, queimou tudo o que tinha em casa dessa outra vida, fotografias, camisolas, calções, etc.

Os troféus teve o cuidado de os levar para a casa dos pais, dias antes. Foi por isso que escaparam a mais aquela crise de identidade, assim como os álbuns de fotografia dos tempos de solteiro e os recortes que o pai foi coleccionando ao longo da carreira.

Mas a “destruição” não mudou nada, parece que os álbuns de retratos continuam lá todos por casa, com as louras platinadas bem entrancadas e o inesquecível Lamborguini azul marinho, que lhe venderam como se fosse a sua cara. Não devia pensar nisso, até porque as louras hoje devem estar todas encarquilhadas e o desportivo está na sucata há muitos anos…

Estava ali a almoçar, com aqueles homens cansados de trabalhar como escravos, com vontade de fazer uma revolução, pelo menos de palavras. Ele nem isso. Continuava às voltas com o passado, tão mal resolvido…

Ali ninguém o reconhecia e ainda bem. Ainda lhe chamavam parvo, por ter deitado tanta coisa fora… por ser agora também “escravo” nesta sua última vida. Foi então que, à boa maneira portuguesa, se tentou confortar, “lambendo as feridas” e dizendo para os seus botões que ganhava uma miséria e não gostava nem um pouco do que fazia, mas pelo menos tinha trabalho.

Olhou o relógio, pagou a despesa e despediu-se da malta, pois tinha de se fazer à estrada, na velha Transit, cada vez menos voadora…

 

 

Luís Milheiro

(blogue LARGO DA MEMÓRIA)

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Convidado: RUI ÂNGELO ARAÚJO

por Pedro Correia, em 26.04.17

 

Criar o futuro

 

Há talvez vinte anos, um fornecedor de produtos informáticos tentava convencer-nos de que a ausência de cedilhas e acentos no processador de texto do software que nos vendia não representava nenhuma limitação, já que no futuro, um futuro luminoso ali ao virar da esquina, esses detalhes da língua desapareceriam. Com o uso generalizado da informática, uma novilíngua agramatical impor-se-ia com naturalidade e júbilo, contra os info-excluídos velhos do restelo. Contudo, a empresa fabricante, apesar de estrangeira, não tinha as mesmas ideias visionárias do seu representante na província lusa: não tardou a haver actualizações do software que incluíam dicionário em português, com a vetusta cedilha e tudo.

 

O Público de há uns dias trazia um artigo de mais um destes seres tecnológicos ávidos de futuro, agora um espécime que, com espantosa presciência e originalidade, declara a morte do livro.

Não vale a pena perder muito tempo com o texto em si, a estultícia intrínseca da argumentação é suficiente para fazer dele um nado-morto. Interessa-me, porém, na medida em que um cadáver interessa a um médico-legista ou a um epidemiologista — ou talvez na medida em que interessa a um taxidermista —, interessa-me perder um minuto a identificar o gérmen de que se contamina a prosa e a determinar o instinto primitivo que leva alguém a cometer textos assim.

 

O preclaro articulista é designer e isso não diz nada sobre ele, porque nenhuma formação académica ou profissão determinam o brilhantismo ou a burrice do utilizador. Mas a malícia trouxe-me à memória aquelas revistas artísticas e literárias de gosto gráfico vanguardista que no dealbar do século XXI faziam sair do prelo páginas por vezes curiosas mas ilegíveis, como se na redacção se digladiassem o editor literário e um designer gráfico revanchista e este levasse a melhor. Não falo de experiências comemorativas do centenário modernista, com ideias futuristas de tipografia ou de mancha de texto, mas sim de ornamentação barroca, sobreposição e mescla de imagem, texto e formas geométricas, colorações infelizes e sem contraste, escalas inadequadas e caprichos afins que nas melhores das hipóteses pediam lupa e excelente iluminação e nas piores não deixavam de todo o ler o texto, caso ele fosse para ler.

 

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Quando o designer é em simultâneo amante de literatura sabe que nos livros e revistas, independentemente do suporte, o seu espaço de trabalho fica nas margens do texto, mas já nem sequer como nos fólios medievais, que a página precisa de respirar. Tirando tipografia, capas, folhas de rosto, índices, marcas de capítulos, etc., não há muito a fazer, quem lê não quer perturbações no seu campo visual, e quem escreve — a não ser que esteja em fase Apollinaire ou Mallarmé, ou pretenda ter o seu momento de fusão disciplinar, de importação gráfica de meios comunicacionais contemporâneos — também não quer dar ao seu leitor mais trabalho do que o de mergulhar no texto.

 

Mas atrevo-me a dizer que para o articulista do Público o livro não está a morrer por incompatibilidade com as novas realidades e interesses do design digital ou tecnológico. O livro morre porque os opressores devem morrer. É a emancipação da mediania (ou da mediocridade), por perversão democrática, que exige a condenação do livro. O autor, ao contrário do que diz e possivelmente acredita, não prevê o fim de uma época, mas exprime o desejo de um mundo à sua medida. Adivinha-se pelo artigo que a sua relação com o livro é a de vítima, não de cúmplice ou amante. Vítima por ter sido em algum momento do seu desenvolvimento traumático obrigado a pegar num contra a vontade. Vítima por o torturar a mera ideia de permanecer em silêncio algumas horas com um livro na mão. Vítima por ter intuído a sua condição de plebeu perante uma certa aura aristocracia dos literatos (uma classe na verdade hoje decadente ou pouco influente, mas que ainda provoca ódios e rancores, nem que seja pela memória do seu antigo ascendente social — o ressentimento, já se sabe, exige retroactivos e transmite-se por via genética).

 

Como o meu vendedor de software de há vinte anos, o cidadão médio, de que o nosso designer parece distinto exemplar, sonha com um mundo à sua imagem, sem cedilhas ou outras extravagâncias intelectuais que atrapalhem a irrequietude púbere e impaciente do frenético admirável mundo novo. Sonha com um mundo em que todos têm um só olho e ninguém é rei. É decerto fã do Got Talent.

 

Num outro texto, de 2014 (sim, dei-me ao trabalho de procurar outros cometimentos do articulista), o designer, ignorando o dicionário, enuncia translucidamente a sua condição, mas não da forma que imagina:

 

«Gosto de acreditar que, nós designers, somos “futurologistas”. Ou seja, somos peritos a criar o futuro, ou pelo menos a prever ou a antever os tempos ...» [Sublinhado meu.]

 

A chave está de facto em criar o futuro, não em prevê-lo. Designers ou sapateiros (a profissão é irrelevante), o wishful thinking que estes indivíduos tomam por pensamento filosófico e visionário transforma-se em gesto criador quando decidem não ler livros. E o gesto criador ascende a verdadeiro Genesis quando toda uma multidão decide eleger os seus iguais, confundindo democracia com mediocracia.

 

 

Rui Ângelo Araújo

(blogue OS CANHÕES DE NAVARONE)

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Convidado: RICARDO ANTÓNIO ALVES

por Pedro Correia, em 24.04.17

 

Versos

 

Nem pensar pagar a camaradagem do Pedro Correia com prosa sobre actualidades, ou delitos semelhantes. Para isso, tenho lá o meu sítio; por isso, em bom espírito de bloga, compartilho com os leitores do DELITO DE OPINIÃO um punhado de versos, que, infelizmente, não são meus, mas de que me apropriei desde que os li pela primeira vez. Foi uma escolha difícil.

Aqui ficam, por ordem alfabética e sem repetição de autoria, que é referida no fim.

Boa leitura, de preferência demorada.

 

A beleza sim mais uma vez

Não por adorno mas instinto fundo (1)

 

a noite ergue-se num continente envelhecido (2)

 

bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar (3)

 

Coisas, e a morte que existe nelas, (4)

 

da poética só o pó, só a ética. (5)

 

É a vida a dar socos na porta. (6)

 

É só com sangue que se escrevem versos. (7)

 

É tarde, muito tarde na noite, (8)

 

Havia no ar um prazer de livro lido (9)

 

Jogue a dama na cama, que ela fica. (10)

 

Marta! Marta! / A minha ânsia de te morder, embriaga-me! (11)

 

O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto! (12)

 

Olha-me a estante em cada livro que olha. (13)

 

Os teus versos sabem mais de literatura do que tu, (14)

 

pode um desejo humano ser divino? (15)

 

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite, (16)

 

Sem Jeito Para o Negócio (17)

 

Seu amor é um céu católico e distante… (18)

  

Viesses tu, Poesia,

e o mais estava certo. (19)

 

 

(1) Alberto de Lacerda

(2) João Paulo Monteiro (Ângelo Novo)

(3) Ruy Belo

(4) Murilo Mendes

(5) amadeu liberto fraga

(6) José Régio

(7) Saul Dias

(8) Jorge de Sena

(9) Fernando Grade

(10) Homero Homem

(11) João Rosado (Horácio ou O’Racio)

(12) Cesário Verde

(13) Pedro Kilkerry

(14) Rui Almeida

(15) Vasco Graça Moura

(16) Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos

(17) Mário Cesariny

(18) Gomes Leal

(19) Sebastião da Gama

 

 

Ricardo António Alves

(blogue ABENCERRAGEM)

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Convidado: JOSÉ MEIRELES GRAÇA

por Pedro Correia, em 20.04.17

 

Victor Lustig dos pequeninos

 

Sabe-se que o governo resulta de um imaginativo golpe de rins do PM, que trocou uma possível luta de faca nos dentes dentro do PS, decorrente da sua surpreendente derrota eleitoral, pelo poder de distribuir lugares no governo e no aparelho do Estado, que garante o sossego e a unanimidade das hostes. Fê-lo com o expediente simples, e inesperado, de atrelar comunistas a uma maioria parlamentar.

A jogada não havia sido prevista, e menos ainda discutida, na campanha, e não tinha precedentes. E como o PCP sempre se distinguiu, desde há quarenta anos, pela sua adaptação meramente táctica à democracia parlamentar, que aliás nos seus textos doutrinários continua a desprezar; nem se nota qualquer quebra de disciplina entre o seu pessoal político, que é inteiramente recrutado nas suas coudelarias privativas, que asseguram a opacidade e a reprodução do pessoal político por cissiparidade - são todos iguais: resulta que trazer comunistas para o poder não foi cousa pouca.

Acharam muitos, e eu também, que um governo destes não podia durar: António Costa, e com ele a camarilha dirigente do PS, não tem, sobre o governo do país, ideias substancialmente diferentes das que tinha Sócrates; a negociação permanente com o PCP e as vedetas bolivarianas do BE só podia reforçar o pendor despesista, estatista e terceiro-mundista da situação; e a UE cedo cortaria cerce as veleidades no derrapar da despesa, no aumento do défice e na continuação do financiamento.

O Orçamento confirmou as presunções: era inexequível sem agravamento do défice, não continha medidas sérias de reforma do Estado que facilitassem o crescimento e, cria-se, Bruxelas não o deixaria passar.

Mas deixou, com reservas e vigilância. O Orçamento foi o segundo golpe de rins de Costa, e desta vez duplo: aldrabou os patrões europeus pelo expediente de garantir o cumprimento das metas, custasse o que custasse, com a consciência de a UE não querer, por estar ela própria periclitante, dar as mesmas provas de intransigência que deu aquando do programa da tróica; e obteve aprovação dos seus parceiros apresentando-lhes um orçamento incompatível com as metas que traçava, que depois adulterou comprimindo as despesas mais caras à esquerda, aumentando os impostos que a mesma esquerda considera mais injustos, e dando um bodo fiscal às empresas, sob a forma de perdão fiscal e reavaliações. Para garantir o apoio da massa dos votantes retocou pensões e salários da função pública, mesmo ficando sempre aquém da propaganda que uma imprensa obsequiosa veicula, e estancou a redução de pessoal empregado no Estado.

Com isto, mais cativações e aldrabices menores, às quais de resto os governos da democracia sempre recorreram, apresentou o menor défice da democracia. Não foi, claro: O Conselho de Finanças Públicas acha que não, mas o que o eleitor vê e ouve todos os dias não é aquele Conselho, nem os discursos cépticos de economistas sérios, nem a Oposição que ainda há pouco deprimia toda a gente por não prometer um futuro radioso. O que vê é o optimismo nas declarações oficiais, a taxa de desemprego que baixa, a paz nas ruas que a CGTP garante e os bancos que recomeçaram a dar crédito ao consumo.

Jogada de mestre. Tão de mestre que eu, se fosse comunista, começava a perguntar aos meus botões se não estava a pagar caro demais o apoio: as sondagens mostram que o PS sobe nas intenções de voto e Costa, se tiver uma maioria absoluta, não hesitará em reverter, à menor pressão europeia, as cedências que já fez aos bandos à sua esquerda, porque não tem mais norte do que seja o interesse público do que as galinhas, que entendem que aquele interesse é onde estiver o milho.

 

António Costa e Mário Centeno, na Assembleia da República. Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

 

Entretanto, a dívida pública continua a derrapar. E suponho que os Centenos, Trigos Pereira, mais a vasta floresta de académicos e funcionários que servem o poder do dia, muito devem coçar as pensativas cabeças sobre como aldrabar este indicador, que não cola com o resto. Se houver alguma maneira, encontrá-la-ão. E têm para isso suporte teórico: não é verdade que a economia vive da confiança e das expectativas? Pois então, dourar os números é, bem vistas as coisas, quase um dever patriótico. Sê-lo-ia, também, o trabalho de explicar como é possível que a dívida pública cresça mais do que o défice, mas os economistas ditos de direita têm-se poupado, que eu saiba, a esse excessivo trabalho, decerto por não terem acesso a números que estão escondidos nalgumas gavetas.

Estamos assim. E como a população só vê ao perto, e não tem nem quer ter óculos para ver ao longe; como a Europa finge que é míope, porque corrigir as dioptrias causaria de momento alguma perturbação noutros órgãos; e como a comunistada ou foi apanhada na sua própria armadilha ou aposta que quanto pior a prazo, melhor:

Portugal hoje está um torpor, tanto que Costa pode talvez durar. Para mim, isto é uma grande maçada, não tanto por estar excessivamente preocupado com as futuras e garantidas desgraças dos meus concidadãos - têm o que merecem - mas porque me enganei.

A União Europeia, o PCP, o Bloco, a maioria dos eleitores e eu - somos muita gente a ser enganada. Este homem ou é um génio, ou um crápula, ou um crápula de génio.

Génio não creio, porque lhe falta esta estatura.

 

José Meireles Graça

(blogue GREMLIN LITERÁRIO)

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Convidado: ALEXANDRE BORGES

por Pedro Correia, em 17.04.17

 

O som da televisão aos domingos

 

De vez em quando, acontece uma pequena coisa que nos lembra quem somos.

Um tipo nasce um calhau, depois vai sendo esculpido e depois levam-no a passear, põem-no em exposição, tiram-lhe fotografias, penduram-lhe coisas ao pescoço, dão-lhe o suposto mundo, e, às tantas, uma pessoa já não sabe se é a pedra original, a estátua – por mais bruta ou primária – nela esculpida, ou tudo quanto lhe puseram em cima. É a diferença entre o excesso que se tirou e o supérfluo acrescentado.

Às vezes, esquecemo-nos, mas o que somos é o que está ali no meio.

Como tivemos a sorte de viver até ver o dia de hoje – e, tudo correndo bem, também o de amanhã – foi-nos pedido em contrapartida que tivéssemos bastante mais elasticidade do que aqueles que nos precederam. Viajaríamos mais, veríamos mais, leríamos mais, ouviríamos mais, provaríamos mais, conheceríamos mais – também tínhamos de compreender mais.

E assim me tornei um liberal. Acima de tudo, liberdade para todos. Liberdade para se ser quem se é, para se viver com quem se quiser viver, para viver do que se quiser até quando se quiser, e onde se quiser, com os líderes políticos que se escolheu, rezando ao deus que se ouviu ou julgou ouvir, assumindo a responsabilidade, sem outro poder qualquer sempre a intrometer-se no caminho entre um homem ou uma mulher e as suas escolhas.

 

Até que se me deu uma espécie de epifania.

Ao contrário do que talvez se esperasse, era auditiva, não visual, mas sucedeu num domingo, como convém. Estava este vosso escriba em casa, dividido entre a preguiça dominical, a metafísica dos afazeres da loiça e da roupa e um trabalho intelectual qualquer à espera de conclusão no computador aberto… quando ressoou pela casa, sereno e claro, o som da televisão ao domingo.

O som da televisão ao domingo emitindo para ninguém. Falando para o boneco na sala ou na cozinha. Dando filmes propositadamente escritos, financiados, interpretados e produzidos para serem emitidos ao domingo e, portanto, não serem vistos por ninguém. Ou por ninguém que esteja acordado. Ou ao menos sentado, olhando para eles. Televisão propositadamente feita para o tédio, a inutilidade, o sentimento de absurdo, o nada.

E, de repente, veio aquele conforto das velhas certezas. Do calor do sol do regresso a casa tocando-nos no rosto: sim, o que nós realmente somos é uns conservadorões sem remédio.

Debaixo dos adornos, a estátua, ou calhau polido, revelava-se: sim, ó cafés chiques que saem nas revistas, rooftops trendy no topo das pesquisas. Sim, ó turistas de toda a parte, gente de todas tribos trocando mimos entre todos os sexos, em todas as línguas. Bem-vindas ciclovias e piqueniques electrónicos, brunches para os retardados e delícias em versão fast food gourmet. Vinde, ó entretenimento portátil empacotado no smartphone, manias do running e inaugurações múltiplas. Vinde, que há lugar para todos, ó empreendedores, ó iniciativa privada, ó venture capitalists, ó startups, ó founders – a vida é vossa, mesmo que eu tema pelo dia em que se passe directamente de CEO a sem-abrigo.

 

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Bem-vindos todos, sem amargor nem ironia, mas há mesmo dias em que só apetece fugir de tudo e arrastar-se, no roupão mais coçado, pela casa, ao som da televisão de domingo. Fugir para o café mais banal, uma das 25 pastelarias de fabrico próprio todas iguais acerca das quais a Time Out nunca fará um artigo. Esconder-se no café mais banal do mundo, sem gente nem mundo nem nada particularmente que o recomende, só uma máquina de café e uma daquelas instalações artísticas feitas com garrafas de whisky e Porto e latas de iced tea na montra. Fugir para umas ruelas quaisquer, onde ainda se consiga ouvir o sino de uma igreja badalando ao domingo, não porque sequer se vá entrar na igreja, mas apenas para nos dizer que algumas coisas continuam lá, exactamente iguais ao que sempre foram, indiferentes à febre da estação. Fugir para um livro e um chá banal de infusão, para o que se é, mesmo que se esteja nos subúrbios do assunto, ou da moda, ou do nosso tempo. E não ter vergonha de o dizer segunda-feira. E bater palmas aos outros que não foram à inauguração e não estiveram no evento e não viram e não provaram. A Expo 98 acabou em 98 – já não precisamos todos de andar a recolher carimbos no passaporte para provar que se esteve e se viveu. Mesmo sabendo que o mundo agora já é da gente para quem esta referência não tem absolutamente sentido algum.

 

Respiro fundo e sorrio, reencontrado. Passam agora os créditos finais do filme que nunca vi e me parece ter salvo a vida. Encerrada a aparição, porém, um instante de sobressalto: como resolver aquela aparente esquizofrenia? Como conciliar o liberalismo adquirido com o conservadorismo inato? Um momento volvido, porém, o suspiro de alívio… Havia uma resposta.

Sou um liberal. Um liberal a toda a prova. Acredito que, no mundo, há lugar para todos os povos, todas as religiões, todas as gerações, todas as opções sexuais, para toda a gente. Até para nós, empedernidos, teimosos, intratáveis, irredutíveis conservadores.

 

Alexandre Borges

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidada: CRISTINA NOBRE SOARES

por Pedro Correia, em 12.04.17

 

Zé Inácio

 

Zé Inácio fazia por estar de bem com todos. Que ele não andava neste mundo para fazer zaragatas, até para garantir que não levava ressentimentos para onde fosse depois de morrer. Já basta a alma de uma pessoa andar a penar, quanto mais estar de mal com as outras uma eternidade inteira. Por isso quando lhe perguntavam a opinião sobre alguma coisa, fosse sobre uma zanga de extremas ou sobre uma notícia no jornal, safava-se sempre com um sorriso, que os outros tomavam por franco, ou com um provérbio popular que, mesmo que não viesse a propósito, soava sempre a sabedoria da velha, daquela que não se compromete com nada.

Esta maneira esquiva de estar na vida ganhou-lhe a fama de homem de tino e juízo certo. Que é uma coisa diferente de bom homem, que tino e o saber viver nem sempre andam a paredes meias com a bondade, pois quem sabe viver é esperto e os espertos sabem que bondade a mais é coisa de gente tonta.

Diziam os outros que ele era um homem de juízo certo e sem vícios. Fama que ele cuidava que nunca se manchasse, que um homem sem vícios tem sempre mais razão que os outros, mesmo que não tenha razão nenhuma. E por isso Zé Inácio desde cedo, porque nascera velho, cuidou com esmero sobre o que dele pensavam, pois sabia que a verdade que se conta acerca de um homem nem sempre é o que realmente se passou, mas mais o jeito de como disso se fala. E assim garantia que a verdade que os outros contavam dele seria sempre boa. Zé Inácio fazia por estar de bem com todos, porque não andava nesta vida para arranjar zaragatas mas acima de tudo porque acreditava que mais importante que a vida que realmente se vive é a vida que de nós se fala e conta.

 

Cristina Nobre Soares

(blogue EM LINHA RECTA)

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Convidado: JOSÉ P. TEIXEIRA

por Pedro Correia, em 05.04.17

 

Torna-viagem

 

(Vir aqui botar no Delito de Opinião é um até mais-que-prazer, a mais lembrar-me de que já fui residente, depois partido aquando um qualquer histriónico haddockismo meu. E a agradecer o convite mas a remoer “de que irei eu falar?” nesta visita ao grão-blog. De amigos, respondo-me, “coisa mais preciosa no mundo não há” alguém cantou.)

 

Um tipo emigra. Fica duas décadas imigrado, já adulto, envelhecendo, e nisso se apresta aos cinquentas. Nesse entretanto rodeia-se, reconfigura-se. Mudam-se-lhe interesses e modos. Condicentes com o local onde se aboletou, com toda a certeza. A mim, lá no sul que me acolheu, tornaram-se uns mais rudes e os outros mais profundos. Para estes despertado muito pelos (muito) amigos construídos nesse caminho, gente de biografias densas e rugosas, de atenções múltiplas, a fazerem um ambiente bem mais intenso do que o salão luso, o “Terreiro do Paço” de Minho ao Algarve onde tudo parece, se visto lá de longe, algo coreografado.

 

Nessas décadas se entre os nossos, patrícios, sempre foi comum o lamento, até lamúria, com a perspectiva do regresso à (cada vez menos) casa. Se por lá se anunciava e praticava o convívio fácil, desinibido, a entreajuda, o “amigo de amigo…”, mesmo que quantas vezes desiludindo, a cada um que tinha que regressar ao país, ou mesmo a cada visita de férias, se somavam as conversas sobre o gelo português, a solidão da vida que aqui ocorre. O anúncio, temor, que na “pátria”, por mais “amada” que seja, o ombrear escasseia. Os que iam voltando, os que já haviam voltado e depois revoltado, deixa(va)m sempre o aviso, em Portugal nada e ninguém é como lá fora. Pois por poucos anos que tenham passado os amigos de ontem desaparecem, quanto muito uns jantares no regresso, quais comités de recepção, e depois o silêncio. Nem tecer nem cerzir comunhões. Pois a vida não o permite, vão as pessoas amargas com as crises – essa afinal singular, há pelos menos quinze anos que sempre gemida pelos residentes.

Quem volta(va) às pequenas cidades queixando-se do vazio, da modorra, das polémicas e entusiasmos/irritações por coisas nada, em país de tantas facilidades. Os caídos em Coimbra logo azedos com aquele nicho de homo academicus provinciano, castrador. Os aportados ao Porto notando ainda assim mais cálidos os de lá, mas resmungando o quão estratificada é a cidade, nisso fechada a quem ali se quer acolher, coisas decerto do velho burgo de burgueses. E sobre Lisboa nem falar, cidade de gente ácida, desabrida, pois já urbe. E julgando-se sem tempo para si e para os outros, lesta a desamigar-se dos velhos amigos, inepta para os novos, devido ao trânsito, arrabaldes, condomínios, às distâncias que também são estatutos, importâncias. E impaciências. Ou, sempre eu o disse, à malvada idade. Com tudo isso, por lá cada antevisão do regresso vinha com arrepio.

 

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Depois calhou-me a mim assumir-me o temido “torna-viagem”. Caído nesta mesma capital, agreste e superficial. E desarvorado de utilidade, daquela que me habituara, pois sem o manancial de informações a partilhar, de conhecimentos peculiares para difundir ou contactos para recomendar. Nem emprego para brandir nem a mesa farta, e até burilada, que me havia acompanhado. E a bolsa muito leve. Assim um “torna-viagem” basso, deshumorado, verve trôpega. Os meses foram passando, até os anos já, impávido o tempo. Os amigos, antigos, alguns até imenso, outros novos, sempre aparecem, desafiam, almoçam, adoecem, discutem, curam-se, jantam, aguentam, lêem, riem-se, morrem, propõem, bebem, preocupam-se, preocupam-me. Vivem-me, vivo-os.

Afinal era mentira aquela ladainha, entoada lá longe. Cantávamo-la como exorcismo. Das saudades. Deste ombreio. Saibam disto os que lá estão longe.

 

José Pimentel Teixeira

(blogue COURELAS)

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Convidado: CARLOS NATÁLIO

por Pedro Correia, em 29.03.17

 

Violência indomesticada

 

Desculpem-me se vos escrevo a partir de uma terra secreta. Se vos falo com a voz ingénua, voz simplista, voz naufragada, por uma visão qualquer de alguém que já não vê terra há muito, que já só procura o oásis ou a ilha deserta cheia da manga madura e carnuda e da sombra recortada pelas asas dos pássaros, irrequietos pincéis a desenhar a tarde de sol. É daí que vos escrevo para vos dizer que já há muito perdi noção dos dias, da resolução correcta dos problemas da chamada «vida real», do tempo em que é suposto vivermos - feito de resgates, transacções indevidas, muros, bombas e olhares funestos. Tempos houve em que lia com respeito e dedicação os fundamentos do direito, as bases da justiça e sua concretização num ordenamento jurídico, a luta entre o castigo e a censura do direito, a culpa, o crime, o dolo, e a «mente criativa» e retórica do senhor jurista.

 

Tudo isto já faz parte de um passado relativamente distante, em que na minha cabeça o idealismo ainda se fundia às séries de televisão nas quais, no final, o justo, o inocente, a vítima sempre levavam a melhor. Entretanto, os papéis burocráticos acumularam-se na minha mente e essa tal de «vida real» veio ter ao meu encontro - como comboio apressado a entrar na gare e a levar todos os passageiros desprevenidos - e conduziu-me para essoutro país feito de opiniões inocentes, desprotegidas, de quem fala como quem ama ou se indigna com o mundo, sem nada mais. É nesse espaço inocente, à beira bar plantado, feito de quem sente o justo (mas que também sabe como, quase sempre, o justo é injusto), que leio diariamente, como se se acumulasse à previsão do tempo ou ao signo astral, que «mulher tal foi morta pelo marido». Morta em Barcelos, morta em Lisboa, morta em Famalicão. Parecem notícias de Marte, mas são da Terra. Pior, da nossa terra.

 

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No outro dia, em consequência de mais um massacre, que os jornais mostram com a avidez errada - menos da denúncia e mais do prazer mórbido da publicidade - dei por mim a voltar ao passado. Estava indignado. Como pode isto ser assim, de forma recorrente e impune - homens a pegar em facas, a pegar em revólveres, a pegar nos punhos e em palavras indevidas e a massacrar mulheres inocentes (ou mulheres culpadas, pouco importa). Abri o Código Penal, um livro que tantos «prazeres e penas» já me proporcionou, e naveguei até algumas «ilhas distantes»: o homicídio simples e sua pena, o homicídio qualificado e sua pena (pais e filhos matam-se com mais censura jurídica do que cônjuges, ao que parece), o homicídio privilegiado (que coisa tão bela, o ordenamento sensível ao temor do ciúme - misturado muitas vezes com o álcool, adiante-se -, às irreverências e desvarios do amor e da paixão que na literatura sempre fizeram tombar os corpos com graciosidade e que aqui também procuram acamar com penas as tragédias. Finalmente, o fatídico crime de «Maus Tratos e Infracção de Regras de Segurança», nome já tão adequado à violência doméstica (mas quem disse que o código penal tinha de comungar da poesia?) Artigo tão belo como poucos haverá, o art. 152, do qual resulta que, no pior dos casos, se matares a tua mulher terás 10 anos de prisão, quase o mínimo aplicável ao homicídio simples. Daí a «grande máxima» milenar: se é para matar, mata antes aqueles que conheces.

 

Sei que me dirão, sobretudo advogados de profissão, que se trata de uma leitura simplista (quiçá incorrecta) da forma como a justiça encara o problema da violência doméstica. Talvez. Não é que não vos avisasse desta minha imprecisão. Mas depois lemos coisas como: todas as dias 14 mulheres são vítimas de um crime de violência, em média 100 por semana. Os números da APAV também serão simplistas? Mas o meu ponto é este. Sempre existiram desde tempos imemoriais, e continuarão a existir, os chamados "crimes passionais" motivados pelos furores do amor, da paixão, do ciúme. Mas a questão, parece-me, é até filosófica: a violência é por natureza selvagem e «indomesticada» (mesmo a mais premeditada e dolosa). O equívoco está em vivermos numa sociedade que parece valorar o adjectivo «doméstico», quando chamado a qualificar a violência, como algo de menor importância, mais desculpável, uma violência de trazer por casa. Neste sentido, a violência doméstica seria uma menor violência porque a sociedade considera que nesses casos há muitos factores que interferem com as acções do agressor. Contudo, quanto mais não seja pelos números, pelas penas suspensas, pelas recorrências, por um certo sentido de impunidade, percebemos o preço que pagamos por valorar a violência doméstica como «violenciazinha», ao invés de fazer o contrário. A natureza indomesticada da violência no espaço doméstico ganha proporções ainda mais vorazes e selvagens, isto é, o facto desta violência se verificar no espaço da casa deveria ser tido não como factor desculpabilizante, mas sim agravante.

 

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Enfim, gosto pouco de textos indignados e não é de todo o meu papel. Mas gosto ainda menos de viver numa sociedade que vai «desculpando» a gravidade destes crimes; numa sociedade em que se encoraja os homens a mostrar quem «manda lá em casa», quem é o chefe da família, ou quem «veste as calças»; uma sociedade machista e abrutalhada na qual a intimidade é um factor desculpabilizante e não agravante; uma sociedade do futebol e dos copos na qual as mulheres são aconselhadas a ter paciência quando o Benfica lá perde um pontito ou o seu homem chega a casa de grão na asa; em que os homens não sabem, ou não querem, proporcionar orgasmos às suas mulheres; numa cultura da submissão, do medo e do jantarinho pronto; numa vida de invasão de privacidade, do «vestes-te assim ou assado», do deixa ver a tua carteira, o telemóvel, o computador; uma cultura de estaladas, de berros, de empurrões; uma cultura do «onde é que passaste a tarde?», do ontem à noite fui às meninas; uma cultura de mulheres aconselhadas a vestirem-se como putas para segurar os maridos, uma cultura de costelas de Adão, de divórcios fechados à lei da bala, de humilhações sexuais e penas suspensas; uma cultura do «tenha paciência», do «aguente só mais um bocadinho»; uma cultura do fechar a boquinha e do abrir a boquinha; uma cultura do «uma lady na mesa, uma louca na cama»; uma cultura das nódoas negras, dos grunhos traidores que não admitem traição, das facas na garganta, dos berros constantes; uma cultura do «entre marido e mulher não se mete a colher», do «isto é normal», do «isto é mesmo assim», do olho à belenenses, da prepotência patriarcal do cidadão, do legislador, que vai achando tudo isto normal...

 

Tenho pouco jeito para textos indignados e disse-vos que vos escrevo a partir de uma terra secreta. Espero portanto que estas palavras vos encontrem bem e vos inspirem a pensar sobre o que é na verdade uma casa, o que deve ser um espaço doméstico, a pensar sobre essas 14 mulheres, essas 100 mulheres, essas casas em Barcelos, em Lisboa, no planeta Marte ou no meio do mar. Ingenuamente vos digo - e essa ingenuidade é um espaço intocado que conquistei escavando, resistindo, às matemáticas legalistas do Direito - contra a violência indomesticada só há uma coisa a fazer. Impedi-la, por todos os meios - leis, braços, palavras - já.

 

Carlos Natálio

(blogue ORDET)

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 28.03.17

Como alguns leitores atentos já terão percebido, retomámos uma iniciativa com muito êxito que mantivemos aqui durante mais de um ano, entre Maio de 2010 e Junho de 2011, convidando colegas de outros blogues para escrever connosco um texto inteiramente à escolha de cada um.

Nessa primeira série, a rubrica "Os nossos convidados" contou com a adesão de 223 companheiros - alguns dos quais são hoje nossos colegas no DELITO: Ana Lima, Francisca Prieto, João André, José António Abreu, José Maria Pimentel, José Navarro de Andrade, Luís Menezes Leitão, Luís Naves, Patrícia Reis, Rui Herbon e Tiago Mota Saraiva.

Revisitando essa lista, encontro lá cinco escritores consagrados, dez colunistas hoje com presença regular nos órgãos de informação, um presidente de câmara de uma capital de distrito, um embaixador, um gestor bancário, três professores universitários, um deputado, dois conhecidos advogados, duas figuras cimeiras de agências de comunicação, dois membros actuais de direcções de jornal, um assessor parlamentar e o ex-ministro José Medeiros Ferreira, cuja memória guardarei sempre com apreço e saudade. 

A nova série, iniciada há uma semana, teve o pontapé de saída a cargo do Luís Robalo, do blogue Redondo Vocábulo. Amanhã escreverá connosco o Carlos Natálio, do blogue Ordet.

Desde já lhe dou as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS ROBALO

por Pedro Correia, em 22.03.17

 

Copos e gajas, de preferência boas

 

De manhã se começa o dia, dizia a minha querida avó, mulher avisada, que vestia de preto, tinha um buço pronunciado e gostava da pinga às escondidas.

Como quem sai aos seus, aos seus sai, já enfiei dois medronhos, para dar energia a enfrentar o dia que dá trabalho, e até chegar ao fim, é uma peregrinação quase religiosa ao botequim do chico. Pelo menos tenho fé em ir lá, é uma espécie de purificação do meu interior.

Agora só bebo sininhos, estou em dieta alcoólica, só pequenas quantidades (de cada vez claro). Não se pode dizer que saia caro. Cada sininho são 30 cêntimos. Um copo de três, cinquenta cêntimos. Apesar de alguém desavisado poder estar em desacordo (está longe, não vê, está mal informado), sou uma pessoa poupada: só bebo um de cada vez.

Se descontar de todos os que bebo, as ofertas, os brindes às efemérides de cada parceiro que frequenta o botequim, e os que o Chico se esquece de cobrar, gasto realmente muito pouco. Sou portanto no Sul, um dos homens mais poupados (mas há quem esteja ainda mais abaixo. O Sul não acaba aqui).

 

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Nunca fui de esbanjar dinheiro, na verdade nunca o tive. Comecei a trabalhar bem cedo na terra, sem tempo para estudos nem letras. Depois alguém disse que era melhor deixar de trabalhar a terra. Não valia a pena, pagavam para ficarmos em casa. Só a partir daí é que comecei a ter algum dinheiro para gastar.

Como nunca pude aturar um ajuntamento de mulheres - só para o truca-truca, e mesmo assim apesar de eles acharem, está longe de ser todos os dias - e como é em casa que elas se juntam, para ocupar o tempo livre comecei a frequentar a tasca do chico. Entretinha-me a jogar as cartas, ao dominó e a ver os bonecos do “Correio da Manhã”, posto que não sei ler convenientemente: o pouco que leio, não entendo.

Ora para uma pessoa se entreter tem que consumir, o chico não alimenta a família com ar, é do negócio da venda de bebidas espirituosas, torresmos e sandes de bifanas em vinha-d’alhos.

Não sei o que aconteceu, mas ultimamente só se ouve falar de nós, do medronho, do tinto e das gajas. Isto é uma aldeia pacata. O medronho e o tinto para nós é água e não chamamos gajas às mulheres, chamamos mulheres, e apesar de falarem até à exaustão, gostamos delas não as tratamos como gajas.

 

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De repente vieram para aí jornalistas e televisões, a fazerem perguntas, e sinceramente não entendo o alarido. Nós matamos a sede com prazer e gostamos à nossa maneira das mulheres, não andamos a roubar, a mentir, nem a beber bebidas finas com borbulhas nos salões onde eles vão todos aperaltados apalpar as mulheres dos outros quando vão à casa de banho retocar os beiços, e depois fazem negócios com eles, como se fossem amigos do peito.

Um dia destes ainda fecham a porta do Chico e aí quero ver como vamos matar as horas do dia: só se for sentados à beira da estrada, a ver ninguém passar, que aqui não vem ninguém. Para quê, se isto é um amontoado de velhos e mulheres com bigode?

 

Luís Robalo

(blogue REDONDO VOCÁBULO)

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Os nossos convidados (balanço)

por Pedro Correia, em 11.06.11

 

Em Maio do ano passado, quando nos lembrámos de pedir textos a colegas da blogosfera, das mais diversas tendências políticas, nunca imaginei que esta iniciativa durasse tanto e ultrapassasse em muito o plano inicial. A ideia era termos um convidado por mês, depois um convidado por semana. Mas rapidamente percebi, pelas respostas prontas aos convites, que não fazia sentido haver intervalos tão longos de publicação. A passadeira vermelha do DELITO DE OPINIÃO passou a desenrolar-se, salvo raríssimas excepções, de segunda a sexta. Recebendo convidados das mais diversas tendências políticas e com os mais diversos estilos literários. Cada qual abordando temas à sua livre escolha, como aliás ficou desde logo estabelecido: a única regra era não haver regras. Houve quem optasse por um desenho, por exemplo. Ou por um vídeo. Ou por textos enormes. Ou por textos muito curtos.

Lembro aqui, ao correr da pena, os nossos dez primeiros convidados: Tomás Vasques, Rita Barata Silvério, Afonso Azevedo Neves, Joana Lopes, Nelson Reprezas, Rui Bebiano, Rui Costa Pinto, Ana Paula Fitas, João Sousa André e Ana Lima. Convidados com personalidades diferentes, com blogues de características muito diferentes. Como diferente era também a atitude de cada um deles: houve quem estabelecesse intenso diálogo com os leitores nas caixas de comentários, outros limitavam-se a uma sucinta referência. A piada destas coisas é também verificar estas diferenças. Quase todos reproduziram os textos nos seus blogues, o que multiplicou de alguma forma o intercâmbio entre nós. Era também isso que se pretendia.

E assim passou um ano: vários de nós íamos fazendo convites e as respostas surgiam quase sempre com uma nota suplementar de simpatia. Devo confessar que a qualidade da esmagadora maioria das colaborações excedeu as nossas expectativas, que já eram elevadas. E a quantidade de respostas afirmativas também surpreendeu: foram raras as recusas e quase todas bem justificadas. Uma delas envolveu mesmo um toque de humor: era um período muito quente de Verão e o calor convidava pouco à escrita. Aceitei com um sorriso, claro: estas coisas devem ser encaradas com bonomia. Alguns autores, entretanto, não receberam convite por falta absoluta de contacto: ainda há blogues que vivem praticamente blindados ao mundo exterior.

Recusei apenas um texto - e por um motivo mais que justificável. Era um texto que me criticava duramente e exigia uma resposta igualmente dura da minha parte. Como expliquei à pessoa em causa, há limites para a hospitalidade: gosto de ser cordial mas detesto a falta de chá. Aliás a cordialidade só produz efeitos práticos se funcionar nos dois sentidos.

Foi, como era de prever, um caso isolado. Outro caso isolado, mas de sinal contrário, foi o de alguém que, não tendo sido convidado, se fez convidar enviando-me um texto que não hesitei em publicar. Achei imensa graça a este exemplo de voluntarismo, prova evidente de que a iniciativa se justificava. A tal ponto que alguns dos nossos convidados se tornaram também membros do DELITO: a Ana Lima, a Cláudia Köver (que entretanto estava sem blogue, o que justifica que seja a única sem linque na lista aqui em baixo), o José António Abreu, o José Maria Pimentel e a Patrícia Reis.

Agora, que terminou, deixo aqui - por ordem alfabética - os nomes dos 223 convidados que desfilaram na passadeira. Agradecendo-lhes, uma vez mais, a colaboração que nos prestaram.

 

A

Abel Soares Rosa. Afonso Azevedo Neves. Afonso Ferreira. Alda Telles. Alexandre Borges. Alexandre Guerra. Alexandre Homem Cristo. Ana Cássia Rebelo. Ana Clara. Ana Cristina Leonardo. Ana Gabriela Fernandes. Ana Lima. Ana Matos Pires. Ana Paula Fitas. André Abrantes Amaral. André Azevedo Alves. André Miguel. Andrea Carvalho Rosa. António Agostinho. António Balbino Caldeira. António de Almeida. António Eça de Queirós. António Figueira. António Godinho Gil. António Luís. António Nogueira Leite. António Pais. António Pedro Neto. António Pinho Cardão. Ariel.

B

Bernardo Pires de Lima. Bruno Faria Lopes. Bruno Vieira Amaral.

C

Carla Ferreira. Carlos Azevedo. Carlos Carvalho. Carlos Faria. Carlos Manuel Castro. Catarina Reis da Fonseca. Cláudia Köver. Cristina Nobre Soares. Cristina Torrão.

D

Daniel Santos. David Levy. Diogo Belford Henriques.

E

Eduardo Freitas. Eduardo Louro. Eduardo Saraiva. Ega. Eufrázio Filipe. Eugénia de Vasconcellos.

F

Fátima Mégre. Fernanda Candeias. Fernando Moreira de Sá. Fernando Penim Redondo. Fernando Torres. Filipe Anacoreta. Filipe Moura. Filipe Nunes Vicente. Filipe Tourais. Filomena Naves. Francisca Prieto. Francisco Almeida Leite. Francisco Castelo Branco. Francisco Curate. Francisco Proença de Carvalho. Francisco Seixas da Costa. Francisco Teixeira.

G

Gabriel Silva. Gonçalo Correia. Grande Jóia.

H

Helder Robalo. Helena Araújo. Helena Ferro de Gouveia. Helena Fernandes. Helena Matos. Henrique Burnay. Henrique Raposo.

I

Inês de Barros Baptista. Inês Teotónio Pereira. Isabel Teixeira da Mota. Ivone Costa.

J

Jansenista. Joana Lopes. João Caetano Dias. João Carvalho Fernandes. João Espinho. João Ferreira Dias. João Gomes de Almeida. João Lisboa. João Marchante. João Maria Condeixa. João Paulo Craveiro. João Pedro Pimenta. João Pedro Santos. João Severino. João Sousa André. João Távora. João Teago Figueiredo. João Tunes. João Villalobos. Joaquim Carlos. Jorge Costa. Jorge Fonseca Dias. José Adelino Maltez. José Aguiar. José António Abreu. José Carlos Pereira. José Catarino. José Costa e Silva. José Couto Nogueira. José Luiz Sarmento. José Manuel Arrobas. José Manuel Faria. José Maria Pimentel. José Mário Teixeira. José Medeiros Ferreira. José Moura Pereira. José Navarro de Andrade. José Pedro Lopes Nunes. José Pimentel Teixeira. José Reis Santos. José Simões. Jumento.

L

Leonel Vicente. Lourenço Cordeiro. Luís Aguiar-Conraria. Luís Bonifácio. Luís de Aguiar Fernandes. Luís Melo. Luís Menezes Leitão. Luís Milheiro. Luís Naves. Luís Novaes Tito. Luís Paixão Martins. Luís Rocha. Luís Serpa. Luísa. Luísa.

M

Manuel Pinheiro. Manuel S. Fonseca. Margarida. Margarida Corrêa de Aguiar. Maria Isabel Goulão. Maria João Caetano. Maria João Marques. Maria João Nogueira. Maria N. Maria Teresa Loureiro. Marisa. Marta Costa Reis. Marta Romão. Massano Cardoso. Miguel Cardina. Miguel Félix António. Miguel Madeira. Miguel Marujo. Miguel Noronha. Miguel Serras Pereira. Miguel Vaz. Mr Brown.

N

Nelson Reprezas. Nicolina Cabrita. Nuno Caldeira da Silva. Nuno Costa Santos. Nuno Dias da Silva. Nuno Gouveia. Nuno Pombo.

O

Orlando Nascimento.

P

Patrícia Reis. Patti. Paulo Almeida. Paulo de Morais. Paulo Ferreira. Paulo Guinote. Paulo Marcelo. Paulo Pinto Mascarenhas. Paulo Sousa. Paulofski. Pedro Adão e Silva. Pedro Coimbra. Pedro Magalhães. Pedro Norton. Pedro Quartin Graça. Pedro Rolo Duarte. Pedro Soares Lourenço. Pedro Vieira. Priscila Rêgo.

R

Ricardo AlvesRicardo António Alves. Ricardo Gross. Ricardo Rio. Ricardo Sardo. Ricardo Vicente. Rita Barata Silvério. Rita Ferro. Rita de Vasconcellos. Rodrigo Moita de Deus. Rodrigo Saraiva. Rui Bebiano. Rui Carmo. Rui Castro. Rui Costa Pinto. Rui Herbon. Rui Passos Rocha.

S

Samuel de Paiva Pires. Samuel Filipe. Sara Coelho. Sarah Adamapoulos. Sérgio Lavos. Sofia Bragança Buchholz. Sónia Morais Santos.

T

Teresa Leandro. Tiago Moreira Ramalho. Tiago Mota Saraiva. Tomás Belchior. Tomás Vasques. Torquato da Luz.

V

Vasco Campilho. Vasco Lobo Xavier. Vítor Cunha. Vítor Matos.

Z

Zélia Parreira.

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Convidada: CLÁUDIA KÖVER

por Pedro Correia, em 03.06.11

 

O nascer do riso

 

A fragmentação da obra de três compositores contemporâneos, cuja sonoridade não embale todo e qualquer ouvido, e a sua reconstrução numa nova palete de sons e passagens, serviu de inspiração a este conceito. Admito ter cortado e recolado a obra alheia - à qual eu própria muitas vezes não dou ouvidos - e tê-la refeito a meu gosto, servindo agora de embrulho a esta crónica. No entanto, neste processo, jogou-se também a dança das influências entre a música e a escrita - e as letras acabaram por se adaptar à sua melodia. Tudo isto com o único objectivo de não aborrecer. Infelizmente, poderei ter falhado redondamente nesse aspecto mas, ao menos, espero ter fundido duas baladas aborrecidas numa só música.

 

 

Cláudia Köver

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 03.06.11

Hoje, último dia da campanha eleitoral, é também o último dia em que estendemos a passadeira vermelha a um convidado. Foram mais de 200 que por aqui passaram durante um ano: em breve terei ocasião de agradecer a cada um deles quando fizer o balanço desta iniciativa, que julgo ser inédita na blogosfera portuguesa. Felizmente a esmagadora maioria das pessoas que contactámos acedeu escrever aqui: as recusas foram residuais e quase sempre justificadas. Mas isso, como já referi, fica para outro dia. Agora é a vez de anunciar a nossa última convidada - a Cláudia Köver. Uma blogger neste momento sem blogue, o que é uma forma original de encerrar esta série que já nos deixa saudades. Mas julgo que ela não ficará sem blogue por muito tempo.

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Convidada: ALDA TELLES

por Pedro Correia, em 02.06.11

 

 Os heróis da retirada

 

Cualquier destino, por largo y complicado que sea, consta en realidad de un solo momento: el momento en el que el hombre sabe para siempre quien es. Jorge Luis Borges

 

 “Não há porque não está na moda, porque na Europa não se tolera, também não há forças militares para isso - provavelmente não estariam para se maçar e meterem-se num sarilho muito grande,  mas eu temo que se cami… eu temeria que se caminhasse para uma situação dessas se houvesse forças para isso. Porque a sociedade portuguesa está muito muito descontente”

Medina Carreira, em declarações à Antena 1, no dia 27 de Maio de 2011.

Esta ideia de um golpe de estado em Portugal tem sido sibilada, com pudor, nos últimos meses. No sentido “mediático-democrático” do termo - passe o oxímoro – assim tem sido entendida a campanha ad hominem contra a figura de  José Sócrates, repetida ad nauseam por políticos – de esquerda e de direita, comentadores e jornalistas. De tanto repetida, a “necessária eliminação de Sócrates” parece estar prestes a atingir a sua legitimação.

O expoente máximo do processo em curso foram estas declarações de Medina Carreira que, curiosamente, ou talvez não, pouco eco ou nenhum recolheram nos meandros dos blogues e dos analistas políticos. Na realidade, Medina Carreira disse aquilo que tem estado subliminarmente plasmado na maioria dos discursos políticos: se não sair a bem, terá de sair a mal. A qualquer preço. E esta é a definição básica de golpe de estado.

O único aparente anacronismo no desejo mal contido de Medina é a invocação da necessidade de forças militares para esse golpe. Quanto ao resto, está certo. E remeteu-me imediatamente para o interessante “Anatomia de um instante”, de Javier Cercas (D.Quixote, 2010), sobre o golpe militar de 23 de Fevereiro de 1981 no Congresso dos Deputados em Espanha.

Guinada no leme, golpe cirúrgico, mudança de rumo: era esta a temível terminologia que desde o Verão de 1980 impregnava as conversas dos corredores do Congresso, os jantares, os almoços e os debates políticos e os artigos de imprensa na pequena Madrid do poder. Essas expressões eram simples eufemismos ou, melhor dizendo, conceitos vazios, que cada qual preenchia consoante o seu interesse e que, além das ressonâncias golpistas que evocavam, tinham apenas um ponto comum: tanto para os franquistas como para os democratas, tanto para os extremistas de direita de Blas Piñar como para os socialistas de Felipe González e para muitos comunistas de Santiago Carrilho e muitos centristas do próprio Suárez, o único responsável daquela crise era Adolfo Suárez, e a primeira condição para acabar com a crise era tirá-lo do governo. (…) A partir do verão de 1980 políticos, empresários, dirigentes sindicais e eclesiásticos e jornalistas tinham exagerado até ao delírio a gravidade da situação, entretendo-se diariamente com soluções duvidosamente constitucionais que faziam vacilar o já de si vacilante governo, inventando atalhos extraparlamentares, ameaçando encravar a nova engrenagem institucional e criando uma embrulhada que constituía o carburante ideal do golpismo.”

Isto foi há precisamente 30 anos, numa Espanha ainda em processo de aprendizagem da democracia. Portugal, nessa altura, tinha curiosamente o seu processo consolidado e experienciava o seu curto VII Governo Constitucional, constituído pela coligação formada por PSD, CDS e PPM.

 

A tragédia grega é a nossa opera buffa

E enquanto a futilidade, a ambição de poder e a imaturidade grassam no país, focadas num arbusto, o nosso olhar entre o condescendente e o perplexo sobre a explosiva situação grega (“os gregos falharam” é a água que tentamos sacudir do capote) faz temer, pior que um golpe de estado, um harakiri.

Uma análise de Jorge Nascimento Rodrigues, jornalista e escritor com uma rara visão geo-estratégica de Portugal e do mundo, resume o que realmente se passa: “O que é que nos ensina a Grécia? Provisoriamente (como hipótese de trabalho) quatro  coisas: a) mesmo governos de maioria como é o do PASOK não seguram a situação; b) o modelo de plano de resgate está em falência acelerada (e por aqui ainda andam a discutir, naturalmente, o que o Poul e o BCE deixaram na versão A ou B já ecofinizada); c) a fadiga social (um eufemismo para falar do nível em que as sociedades aguentam processos de "austerização" quando não têm élan mobilizador para os suportar) acumula-se e um dia estoirará; d) como me dizia um amigo meu, se a estratégia da zona euro falhar, não "me admiraria de um dia destes ver estados falhados nas barbas da Europa".

Golpe de estado, golpes de estado, perfilam-se de facto na Europa. Por via da falência de um sistema financeiro global e de um insustentável  modelo de (des)governo europeu  que sobre ela se abateu. Portugal, país sui generis na sua visão trágico-cartoonizada do mundo e da sua própria condição, foca-se, como a Espanha democrática titubeante de 1981, num alvo fragilizado e meramente instrumental. Eventualmente, num musiliano “homem sem qualidades”.

No fim, ficará um instante, como aquele gesto de coragem absoluta de Suárez, a única pessoa que não obedeceu às ordens dos golpistas naquele 23 de Fevereiro e não se refugiou debaixo de um assento parlamentar (esperando talvez a morte). Um gesto eventualmente absurdo, ou “um gesto de redenção individual e talvez colectiva” como o caracterizou Cercas. Esse instante acontecerá às 20 horas do próximo dia 5 de Junho. O primeiro dia de mais um resto das nossas vidas.

 

Alda Telles

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 02.06.11

É com muito gosto que anuncio a chegada, mais daqui a pouco, da nossa convidada de hoje: a Alda Telles, do blogue Lugares Comuns.

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Convidado: JOSÉ REIS SANTOS

por Pedro Correia, em 01.06.11

 

Last mile

 

Entrámos na última semana de campanha eleitoral. E tudo está em disputa. PS e PSD, quais gatos siameses, não se largam. A contenda está ao rubro, com décimas a separarem os dois principais partidos para o desejado primeiro prémio.

Há um mês esta situação não se adivinhava. O PSD parecia a caminho de uma vitória certa; o que quer dizer que a campanha permitiu verificar que a muito anunciada ‘morte política’ de José Sócrates e do seu projecto foi, como tantas outras, prematuramente anunciada. Muito por culpa das ambiguidades públicas do PSD, é verdade, mas também porque de facto, e comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista. E os portugueses sabem disso.

Por outro lado, o PSD não conseguiu sustentar a vantagem adquirida na pior fase do consulado Sócrates, desperdiçou capital político com um conjunto de más decisões e arrisca-se hoje a perder as eleições justamente por não conseguir apresentar um Partido e um líder que dêem garantias de governação.

Os debates, que se poderiam julgar decisivos, acabaram por não o ser, antes pelo contrário ajudaram a adensar as dúvidas no eleitorado, até porque nenhum líder se destacou particularmente.

Temos assim, em expectativa, uma interessantíssima última semana de campanha eleitoral, momento em que PS e PSD terão de jogar as suas cartas finais e tentar descolar nas intenções de voto. E será interessante acompanhar o comportamento dos principais actores políticos e verificar que estratégias seguirão.

Mas, independentemente do que aconteça, é óbvio antecipar um sistema parlamentar de 2 + 1 + 2 (PS, PSD + CDS + PCP, BE), não sendo de esperar que algum partido a solo obtenha maioria no hemiciclo.  

E isso pode ser um problema, pois Cavaco afirmou, explicitamente, que deseja empossar um governo maioritário o que, caso o PS vença, o Presidente terá algumas dificuldades em conseguir.

O que acontecerá então? Sócrates já afirmou, naturalmente, que apresentará proposta de Governo caso ganhe. Passos diz que não o fará caso não ganhe as eleições. Portas que não se coligará com Sócrates. Jerónimo admite a coligação com o PS caso Sócrates rasgue o acordo com a troika (o que não é de todo expectável e seria uma loucura), e Louçã parece mais preocupado com procurar suster a previsível hemorragia eleitoral do Bloco que apresentar-se como possível parceiro governamental.

Parece-me assim evidente que Cavaco procurou condicionar esta campanha, usando de forma abusiva o seu cargo institucional, indirectamente passando a mensagem que só Passos poderá ser primeiro-ministro de um governo de apoio maioritário; o que será, julgo, uma das armas de campanha da malta da São Caetano à Lapa para esta última semana.

Infelizmente vivemos ainda, em Portugal, num caldo político que entende de forma esquizofrénica o nosso sistema eleitoral e constitucional. É que, em teoria, deveríamos estar confortáveis com coligações, mas na prática estas só acontecem à direita, o que é uma natural deturpação das intenções originais dos nossos ‘Pais Fundadores’.

Neste sistema, o PS encontra-se na posição mais difícil, pois sabe de antemão que não tem parceiros naturais de governo. Neste sentido, as palavras do Presidente só podem ser lidas de duas formas: ou Cavaco pretendeu apresentar o PSD como única possibilidade governativa, ou o Presidente procurou mandar um recado para dentro dos partidos da troika para estes não desconsiderarem quaisquer possibilidades coligatórias.

Se assumirmos a primeira leitura, estamos perante um inaceitável abuso de poder por parte do Presidente e uma chantagem inadmissível e intolerante.  Se, por outro lado, considerarmos a segunda hipótese, então tanto Passos como Portas têm de abandonar o discurso e as birras anti-Sócrates e afirmarem que respeitarão as decisões de 5 de Junho, mesmo que isso queira dizer aceitarem coligar-se com o PS. 

Em todo o caso, este é, para mim, o tema-chave à entrada da last mile da campanha, e um assunto que espero suficientemente esclarecido por parte de todos os actores políticos, Cavaco incluindo. Para mais, o país não está em condições para aturar caprichos ou teimosias de gente que deve saber assumir as responsabilidades do momento. E refiro-me a Passos Coelho e Paulo Portas, que devem assumir a responsabilidade de considerar que pode vir a ser necessário contar com o PS como parceiro governamental. 

Ao não o fazerem apenas se apresentam como actores de ‘política pequena’, sem dimensão ou sentido de Estado, preparados apenas para a pequena intriga e jogo de soundbite. O país, hoje, requer mais. Saibam os actores políticos nacionais, então, dar-nos mais. Surpreendam-nos por uma vez. E refiro-me a todos. Porque não estamos em tempos de soluções milagrosas ou individuais.

 

José Reis Santos

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 01.06.11

Recebemos daqui a pouco, com a devida passadeira vermelha, o José Reis Santos. Dos blogues Política de Vinil e Blogue de Esquerda. A passadeira tem hoje um duplo simbolismo: faz precisamente um ano que iniciámos esta série de convites aos colegas da blogosfera para virem escrever connosco.

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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 31.05.11

Vem hoje escrever connosco o José Carlos Pereira, do blogue Incursões, a quem dou desde já as boas-vindas.

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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 30.05.11

Vem hoje escrever connosco o Luís de Aguiar Fernandes. Do blogue Manifestação Espontânea.

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Convidado: CARLOS CARVALHO

por Pedro Correia, em 27.05.11

 

  Triunvirato

 

– “Troika não. Triunvirato” – corrigiu-me o João, numa destas noites em que costumamos jogar conversa fora no bar do António. Fã confesso de Paulo Portas, não vale a pena retorquir-lhe com a sensibilidade variável de Portas aos estrangeirismos consoante a sua geografia. “Troika” não que é feio (é russo e basta), mas vai-se ao seu manifesto eleitoral e lá encontramos, a espaços é certo, americanices tão fashionable como “cluster”, “outsourcing”, “task force” e “benchmark”. Inglês técnico, passemos à frente.

 

– “Triunvirato não, pá, que me lembras os romanos, com aquelas togas e tudo” – respondo, por sobre a música, ao mesmo tempo que procurava imaginar a efígie de Poul Thomsen com uma daquelas pencas à Júlio César plantadas no meio da cara. Não, ainda não estou assim tão bêbado.

 

– “Triunvirato? Estão a falar do quê?” – intromete-se o Pedro, que tem este hábito ligeiramente irritante de entrar nas conversas a meio – “Ah, de economia. Que parvoíce a minha. Como ouvi falar em romanos pensei que estivessem a falar daquele período imediatamente antes do fim da República.”

 

Caramba, será que o Paulo Portas tem razão?

 

Carlos Carvalho

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 27.05.11

A passadeira do DELITO estende-se hoje para receber condignamente o Carlos Carvalho. Do blogue César & Dama.

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Convidada: MARGARIDA CORRÊA AGUIAR

por Pedro Correia, em 26.05.11

 

Humanidade e sensibilidade social precisam-se...

 

 “O Ministério dos Negócios Estrangeiros suspendeu desde Janeiro o pagamento de complementos de reforma a viúvas de ex-embaixadores e antigos funcionários. Em resultado, cerca de vinte ex-embaixatrizes — a quem era reconhecido um trabalho de utilidade pública — ficaram reduzidas a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros.

 “MNE suspende pensão a viúvas de embaixadores” (Expresso, 16.4.2011)

 

Miserável, é a única palavra que me vem ao espírito para condenar a atitude tomada pelos meritíssimos juízes do Tribunal de Contas na extinção das pobres pensões de sobrevivência das viúvas dos nossos embaixadores, aquelas que ainda teimam em viver com idades na casa dos 90-100 anos. E miserável é, também, o silêncio do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

 

Sim, a notícia é verdadeira. Só agora escrevo este apontamento pois tive o cuidado de indagar para saber de onde partira. E partiu de um grupo de juízes do Tribunal de Contas que avaliam os dinheiros gastos pelo Estado, bem ou mal gastos, no caso concreto, parece que mal gastos, um desperdício inaceitável em tempos de crise.    

Estas senhoras pensionistas eram afinal “falsas pensionistas”, o que simplesmente significa que estavam a usurpar o que não lhes era devido, portanto a lesar o Estado. Já só eram 20 porque tinham vindo, entretanto, a desaparecer de forma natural. Começaram por ficar sem nada, quando enviuvaram, porque nada estava previsto e assim viveram durante muitos anos, até surgir alguém que achou estar-se perante uma situação indecorosa e aviltante, tanto para elas como para o país. O Ministro dos Negócios Estrangeiros à época interessou-se pela situação e instituiu um fundo destinado às futuras pensões das viúvas, fundo este alimentado por emolumentos dos nossos consulados. A ideia foi aceite e fez-se justiça, as viúvas foram compensadas, tarde e a más horas, se bem que parcamente, e a situação desonrosa e degradante de certo modo branqueada.

Mas Portugal está em crise e o dinheiro há que o ir buscar onde quer que exista, e ali, naquele fundo, estavam 10.000 euros mensais, para repartir por 20 viúvas. Numa “acção de controlo” levada a cabo pelo Tribunal de Contas eis que o dito fundo foi descoberto; um fundo “desprotegido”, porquanto nunca ninguém se lembrara de o legalizar. A acção foi rápida e eficiente como raramente sucede na recuperação de dinheiros mal parados. Nem uma palavra do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Moral da história: faça-a quem quiser! Na certeza que este miserabilismo a que já nos habituámos parece não ter fim e faz vítimas. Neste caso, são as viúvas dos embaixadores cujo crime cometido foi viverem no Estado Novo, Estado esse que, aliás, nada lhes deixou; viúvas ignoradas por um Novo Estado - que se diz Social e que é o nosso - e agora reduzidas, segundo reza a notícia do Expresso “...a pensões de sobrevivência de valor muito escasso, que em alguns casos não alcançam mais de 70 euros”.

A situação é violenta e degradante. E ninguém se interessou por publicamente a denunciar. Porquê é a pergunta que se impõe. Porque elas, as viúvas, já são apenas 20 e o que lhes resta de vida é já pouco. Falar sobre isto para quê? O silêncio e o esquecimento são a melhor forma de tratar assuntos como estes. Até porque entre nós tudo não passará de um mero fait divers, como tantos outros, inconsequentes e rapidamente esquecidos.  

 

Margarida Corrêa de Aguiar

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Os nossos convidados

por Pedro Correia, em 26.05.11

Tenho o maior gosto em anunciar a chegada iminente da nossa convidada de hoje: Margarida Corrêa de Aguiar, do blogue Quarta República.

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