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Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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Convidado: JOAQUIM A. RODRIGUES

por Pedro Correia, em 15.11.17

 

Há sempre qualquer coisa

 

Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está p'ra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está p'ra acontecer” no mundo.

 

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia.
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.
 

 

 

 

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

 

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.
A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

 

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.
 
 
Nota:
Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím,
e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

 

 

Joaquim Alexandre Rodrigues

(blogue OLHO DE GATO)

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Convidado: AUGUSTO MOITA DE DEUS

por Pedro Correia, em 13.11.17

 

Aprender e compreender

 

Há assuntos delicados de abordar e um deles é o racismo, tema que tem ganho crescente notoriedade na opinião pública nacional em tempos recentes, nomeadamente através de uma série de artigos no Público, bem como devido a notícias como a da polémica em torno da estátua do Pe. António Vieira, ou o caso dos seguranças do Urban Beach. É um tópico que continua na ordem do dia nos EUA, mesmo através de ângulos surpreendentes. Veja-se a revelação recente de campanhas especiais de agitação da opinião pública americana envolvendo Pokemons Go, orquestradas a partir de São Petersburgo. Para além de delicado, este é um tema arriscado, pois ao falar pode-se desencadear o tipo de reacções que se pretendem minorar, numa espécie de efeito boomerang. Mas falar é importante. Compreender é fundamental.

 

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Existe racismo em Portugal? Claro que sim. Como o combater? Pelo desenvolvimento duma cultura de hiper-consciencialização racial? Será que não pode dar-se o azar de termos uma espécie de gato de Schrödinger, em que ao abrir a caixa de Pandora da polémica racial, podemos estar a matar o dito gato? Nos EUA faz-se a categorização das etnias (African American, Hispanic, White, Native American, etc) e isso até pode ter uma boa intenção subjacente, mas tais medidas consciencializam algo que deveria ser tão irrelevante e opaco para a nossa interacção mútua quanto o nosso grupo sanguíneo.

 

Há medidas de carácter proactivo que podem ser tomadas? Claro que sim, mas de preferência atacando os problemas na raiz e não de uma forma superficial, skin deep. Veja-se por exemplo as condições de aprendizagem das populações mais desfavorecidas. Não sou sociólogo, mas é óbvio que há desigualdade de oportunidades para a generalidade das populações de certos bairros, independentemente da origem étnica (com diferentes incidências, admita-se). Trata-se na base de uma questão em larga medida de natureza económica. Esses miúdos têm acesso a boas condições de estudo, apoio escolar, ou um ambiente em casa que favoreça a aprendizagem? É também um problema de organização escolar, visto que os estabelecimentos de ensino desses bairros têm de lidar com problemas complexos (de segurança, por exemplo), que dificultam o cumprimento da sua missão educativa.

 

Mas existe também um problema de compreensão e de crença: não tenho estatísticas para citar, mas tenho fortes suspeitas que, a montante, professores das escolas dos bairros desfavorecidos frequentemente deixam de acreditar nos seus alunos, esquecendo-se que cada nova geração de crianças e jovens que recebem no início do ano é… isso mesmo, nova, uma multidão de pedras preciosas em bruto, cada uma delas um potencial caso de sucesso escolar e pessoal. A educação é uma batalha que se trava corpo-a-corpo, aluno-a-aluno. Cada aluno é diferente, não se podendo generalizar a partir de eventuais maus resultados anteriores. Por outro lado, a jusante, quando aparecem jovens que têm propensão para os estudos, o que sucede? O que dizer da pressão de grupo sofrida para que esses jovens não se destaquem nas notas? Noutros casos, em especial no caso das raparigas, será que é fácil estudar quando ao fim dum dia de escola, a tarefa principal é cuidar dos familiares mais novos? Quem defende e ajuda estes jovens?

 

O que nos traz de volta à questão económica, que condena certos bairros ao ostracismo social, o que obviamente entronca no racismo, pois a percentagem dos grupos étnicos varia de bairro para bairro e as decisões respeitantes a esse tipo de profiling já foram tomadas infelizmente há muitos anos atrás. Neste respeito é contudo útil observar certas subtilezas. Hoje em dia dizer uma piada racista suscita uma reacção imediata das redes sociais e da opinião pública em geral, e bem. Mas o que dizer daquelas graçolas que dão uma conotação negativa a certas zonas economicamente mais deprimidas? Por que isso não é igualmente denunciado? Há uns tempos alguém dizia que a Madonna numa certa foto parecia uma cabeleireira da Damaia. Se fosse uma cabeleireira de Oeiras, já não teria piada, certo?

 

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A questão não é censurar o humor, mas sim compreender porque é que para algumas pessoas isso sequer tem graça. Aliás, um caso ainda mais notável eram as constantes chalaças em torno do facto de Pedro Passos Coelho morar em Massamá e passar férias na Manta Rota. Se ele morasse na Quinta da Marinha e fosse a banhos na Quinta do Lago, isso nem sequer era assunto.

 

Em suma, na questão do racismo é preciso atacar as causas de fundo, económicas, educacionais. Dar oportunidades e mudar mentalidades. Urge aprender e compreender.

 

 

Augusto Moita de Deus

(blogue 31 DA ARMADA)

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Convidado: DAVID MARINHO

por Pedro Correia, em 10.11.17

 

Newton à portuguesa, século XXI

 

A terceira lei de Newton diz-nos que qualquer acção tem uma reacção com a mesma intensidade e direcção, no entanto, em sentidos apostos. Ora, aplicando estupidamente esta lei ao que aconteceu no Urban Beach, parece-me que peca por tardia.
É que, após dezenas de queixas-crime por violência ou actos discriminatórios no Urban Beach, foi preciso um vídeo, violentamente gravado na vertical, fazer despoletar uma acção política sobre esta casa de diversão nocturna. Impressionante como o facto de chegar a mais gente faça mover as opiniões e as ações definitivas para as coisas, não bastando o assunto em si, porque é preciso causar ruído. E coisas como o Urban existem ao pontapé na política portuguesa (falando nesta, claro), porque nunca se soa um alarme se a casa não ardeu por completo. É esta a estratégia que devemos tomar? Envergonhar as instituições e/ou pessoas na praça pública para que se calem com a solução do problema?
E agora sei o que vai acontecer. Os seguranças privados irão para uma reunião admitir que a vida está difícil, farão greve se for preciso, as discotecas/bares, etc não poderão abrir e daqui a qualquer coisa como dois meses aparecerá a notícia a dizer que o negócio da noite está a cair a pique. E com isto aproveita-se um célebre sketch dos Gato Fedorento, o "Lusco-Fusco" que serviria para colmatar o problema da noite, e assim eles voltam à ribalta. Com jeitinho ainda dizem que são como os Simpsons, que prevêem coisas e que elas se tornam ridiculamente iguais. É isto, não é? (E com isto previ eu o futuro e receberei os louros por isso. Se não acontecer, esqueçam, está bem?).
O meu ponto é: a violência, seja ela qual for, deve ser punida e é punida por lei. Não têm de bater duas ou três vezes até acontecer, deve-se actuar logo. E actuar significa, antes de tudo, haver queixa, seja de quem vê, seja de quem leva. Nada disto é científico e até percebo a questão das represálias que podem advir da queixa por parte do agressor e que a violência seja maior a partir daí. Mas a política, a discussão pública, deve incidir na segurança que devemos ter todos quando nos queixamos, e que a acção sobre a mesma deve existir desde o momento que é provado (porque na maioria das vezes é fácil de provar).

 

 

David Marinho

(blogue DOMINGO À TARDE)

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Convidada: MARGARIDA C. AGUIAR

por Pedro Correia, em 08.11.17

 

Envelhecimento demográfico, um desafio à inovação

 

Nas economias mais desenvolvidas, o fenómeno do envelhecimento demográfico é uma realidade inexorável que está a entrar, cada vez mais, pela casa adentro. Por cá, o assunto não tem merecido a atenção que exige, não apenas pela dificuldade que temos demonstrado de descolarmos do curto prazo, mas também pela falta de visão necessária para o desenho de políticas públicas com objectivos que no médio e longo prazos operem os efeitos desejáveis.

O envelhecimento demográfico é considerado por muitos um problema para o futuro. E não deixa de ter razão quem assim pensa numa sociedade que não é capaz de pensar de forma diferente. A primeira transformação a fazer é cultural. Não sendo possível inverter o envelhecimento demográfico, o que verdadeiramente importa é sermos capazes de encontrar soluções que se adaptem às novas realidades.

Com efeito, o fenómeno do envelhecimento não é novo – todos sabemos. Os números são sobejamente conhecidos e as projecções têm uma probabilidade elevada de se concretizarem, bastando para tal olhar para o passado e o presente. Há muito que a estatística nacional e que estatísticas e estudos de instâncias e centros de investigação europeus vêm chamando a atenção para as trajectórias inversas da curva de natalidade e da curva de longevidade. A primeira em movimento descendente e a segunda, pelo contrário, em movimento crescente. A população total está a reduzir-se e estamos a envelhecer. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo. Os números não oferecem dúvidas. Estes, ao contrário de muitos outros, não têm discussão.

 

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Vivermos mais tempo é motivo para nos deixar mais felizes. Seria expectável que esta perspectiva de bem-estar nos obrigasse a pensar e a actuar no sentido de criarmos condições para que a boa notícia do aumento da esperança de vida possa ser vivida com dignidade e qualidade de vida.

Políticas públicas e sociedade civil deveriam conjugar esforços para remar ambas para o mesmo lado, complementando-se e articulando-se na definição de estratégias nacionais integradas e transversais, intertemporalmente consistentes, fortemente apostadas no investimento na inovação, identificando caminhos para os quais deve ser canalizado o esforço.

É muito importante que as populações tomem consciência do envelhecimento. Não basta saberem que vivem mais anos: é fundamental que compreendam as políticas públicas do envelhecimento e participem nelas, se organizem enquanto sociedade civil, de modo a criar um clima favorável às transformações da economia e organização social. Temos toda a vantagem em sermos protagonistas da mudança. Antecipar caminhos, dispor de uma estratégia para lidar com as boas e as más notícias é a única via. O pior que nos pode acontecer é o futuro bater à nossa porta e não estarmos preparados para o receber.

 

Portugal não está ainda preparado para a complexa realidade trazida pelas alterações demográficas, com reflexos, entre outros, na economia, nos hábitos de poupança, na equidade intergeracional, na gestão do ciclo de vida, na organização do trabalho e da sociedade, no emprego, na ocupação do tempo e no entretenimento, nas redes familiares e sociais.

O envelhecimento demográfico tem impactos significativos na despesa pública com os sistemas de pensões e de cuidados de saúde ou na gestão da dívida pública.

Com a população activa a reduzir-se, temos pela frente um desafio superior que é o de sermos capazes de aproveitar as capacidades das pessoas mais velhas, contribuindo não apenas para melhorar a produtividade, mas também para humanizar a sociedade, erguendo pontes entre as gerações mais novas e as gerações mais velhas.

O caminho passa por as populações dos países envelhecidos tomarem consciência da relação entre a solução dos problemas criados pelo envelhecimento e a existência de uma cultura pró-inovação. Portugal está dentro deste "barco". Está em causa uma transformação cultural que, evidentemente, se vai fazendo. Mas precisamos de agir com antecedência, de modo a, com tempo, nos organizarmos.

 

 

Margarida Corrêa de Aguiar

(blogue QUARTA REPÚBLICA)

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Convidado: PEDRO AZEVEDO

por Pedro Correia, em 02.11.17

 

O valor dos actos

 

As Farpas foram publicações assinadas por Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz entre 1871 e 1872, e somente pelo primeiro até 1883.
 
Esta prosa, um inovador conceito de jornalismo para a época, trouxe novas ideias e uma admirável crítica social.
 
Naquilo que era uma sátira “política, das letras e dos costumes” destacou-se Ramalho Ortigão. Sobre o mérito, Ramalho afirmou que "ninguém é grande nem pequeno neste mundo pela vida que teve, pomposa ou obscura. A categoria em que temos de classificar a importância dos Homens deduz-se do valor dos actos que praticam, das ideias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes”.
 
Vem isto a propósito de um estudo de 2015, extraído de uma analise a seis empresas, desenvolvido por oito investigadores e promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que concluiu que o mérito não tem grande relevância na evolução profissional dos portugueses. No mesmo trabalho são indicados como preponderantes para o sucesso factores como as ligações pessoais, a partidos políticos e, pelo menos num dos casos, a organizações católicas e a associações secretas.
 
Dá que pensar!
 
Acreditando eu que os homens são todos iguais aos olhos de Deus e que a salvação é a Sua graça, não deixo de achar relevante a obra que realizamos na nossa curta passagem por este mundo. Como dizia o Marquês de Maricá, “os homens sem mérito algum, brochados de insígnias e de ouro, são comparáveis aos maus livros ricamente encadernados”.

 

 

Pedro Azevedo

(blogue ÉS A NOSSA FÉ)

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Convidado: JOSÉ MANUEL FARIA

por Pedro Correia, em 31.10.17

 

Medidas urgentes de combate aos fogos

 

Dezenas de anos de políticas de abandono das florestas. Dezenas de anos de subordinação dos governos de direita e de esquerda às celuloses.
  
O povo está chocado e indignado com as tragédias que se abateram sobre diversos concelhos do interior do País a 17 de Junho e 15 de Outubro, e que horrorizaram e enlutaram o País. É o resultado de dezenas de anos de políticas de abandono das florestas e de desprezo pelas populações rurais, de políticas de desordenamento e desertificação do interior, de políticas de desmantelamento dos serviços públicos (Serviços Florestais), de políticas de floresta “desenhadas” à medida e no interesse das celuloses — por parte dos sucessivos governos.
Estes sucessivos governos, de direita e de esquerda, são os principais responsáveis.
 
Pode-se aceitar que se subordine o património florestal, aos interesses das celuloses, colocando, inclusivamente, em risco os bens e a vida das pessoas? Não. Os interesses das populações e a vida das pessoas estão em primeiro lugar!
O que se espera dos deputados é que, com carácter de urgência, deliberem no sentido de exigir ao Governo de António Costa que assuma o compromisso escrito, visando:
‣ Suprir, até ao final de 2017, os recursos financeiros, a todas as populações atingidas, que lhes permitam reconstituir, integralmente, o respectivo património, total ou parcialmente, destruído;
‣ Reabertura dos serviços públicos encerrados, nas cidades e vilas do interior;
‣ Medidas que garantam o escoamento dos produtos agrícolas e florestais a preços justos, nomeadamente do material lenhoso queimado;
‣ Revogação da lei que liberaliza a plantação de eucaliptos;
‣ Proibição do aumento da área de eucaliptal; 
‣ Atribuição da propriedade e gestão, tanto dos baldios como dos terrenos abandonados, às comunidades locais, para seu usufruto exclusivo;
‣ Proibição da permuta de eucaliptais ou de qualquer outra forma de concentração;
‣ Criação de incentivos compensatórios aos produtores florestais que plantem espécies autóctones, resistentes ao fogo, para protecção dos bens e da vida das populações; 
‣ Abertura de corredores de acesso às florestas e criação de faixas de protecção entre a floresta, as estradas e o meio urbano;
‣ Reactivação dos Serviços Florestais, repondo os efectivos do corpo de guardas florestais, recolocando-os no terreno em acções de prevenção, fiscalização e vigilância;
‣ Criação das equipas de sapadores florestais em falta e construção/reparação das redes viárias primárias e secundárias que garantam, às populações, acessibilidades em segurança.

 

 

José Manuel Faria

(blogue RUPTURA VIZELA)

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Convidado: FILIPE MOURA

por Pedro Correia, em 27.10.17

 

O PSD não é social-democrata

 

Na corrida para a liderança do PSD, há uma discussão sobre “ideologia” que me parece colocada em termos equivocados. Parece que há quem ache que o PSD deve voltar a ser “social-democrata”. José Eduardo Martins escreveu mesmo um manifesto contra os “tecnocratas” que têm liderado o partido e conduziram a política do anterior governo.
Ninguém duvida de que o PSD, com Passos Coelho na liderança, foi diferente (mais à direita) do PSD tradicional. Mas nunca no seu passado o PSD foi social-democrata. O partido que em Portugal tem aplicado políticas social-democratas (mais ou menos à esquerda, consoante o líder e o contexto histórico) é o PS. Social-democracia é centro-esquerda, coisa que o PSD nunca foi. O PS oscila entre o centro-esquerda e a tecnocracia. O PSD, entre a tecnocracia e a direita. Durante a liderança de Passos, uma direita assumida e orgulhosa de o ser. Todas as medidas que marcaram o seu mandato tinham um propósito ideológico: diminuir drasticamente a presença do Estado na sociedade portuguesa, através de privatizações e cortes. Não havia “tecnocracia” nenhuma.
Para este equívoco de classificar as políticas do anterior governo como “tecnocráticas” contribui o discurso da “TINA” – “there is no alternative”. O ex-ministro Vítor Gaspar, já como quadro do FMI, chegou mesmo a lamentar que as políticas nacionais interfiram na política económica, que pelos vistos é algo que deve ser reservado a “sábios” e ficar fora do escrutínio democrático. Este discurso pode parecer tecnocrático, mas é uma certa ideologia levada ao extremo. Faz parte das ideologias extremistas considerarem-se “científicas” e portadoras da única “solução correta”. Lembro-me de discutir com um apoiante de Passos Coelho sobre o liberalismo enquanto ideologia. O meu interlocutor não aceitava que o liberalismo fosse classificado como ideologia – considerava-o acima disso.
Não me cabe a mim decidir o futuro do PSD. Apenas aponto, em resumo, dois factos. O que causa a diferença entre este PSD de Passos e o PSD a que estávamos habituados não é a falta de ideologia – é talvez o excesso. O PSD tem de decidir se quer mais ou menos ideologia, mas se optar por mais ideologia não será com certeza para ser parecido com o PS, pelo que talvez devesse mudar de nome.

 

 

Filipe Moura

(blogue ESQUERDA REPUBLICANA)

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Convidada: RITA I CARREIRA

por Pedro Correia, em 25.10.17

 

Extraordinariamente normal

 

Na sequência dos incêndios de 15 de Outubro, foi noticiado que a Caixa Geral de Depósitos, onde estão depositadas partes dos donativos que os portugueses fizeram para apoiar as vítimas de Pedrógão Grande, irá doar cerca de meio milhão de euros aos hospitais de Coimbra para ajudar as pessoas afectadas pelos incêndios. Sendo Portugal um país onde há um sistema de saúde financiado pelos impostos pagos pelos portugueses, deve-se concluir que o Governo acha que pode tratar os donativos como um substituto de impostos.

Quando as pessoas fizeram estes donativos, decerto pensavam que o dinheiro iria ser directamente entregue às vítimas para as ajudar a reconstruir parte da vida que perderam – isto daria um bom inquérito aos portugueses, se houvesse algum meio de comunicação social para aí virado. Em vez disso, o governo achou por bem aumentar a capacidade dos hospitais de Coimbra em responder a incêndios. Um investimento em capital fixo permanente não faz sentido do ponto de vista de gestão dos hospitais, se o que se observou este ano é completamente anormal e fruto de vicissitudes meteorológicas combinadas com um excesso de optimismo na gestão dos recursos actuais.

Mas se o que se observou este ano deixar de ser uma situação considerada extraordinária, para ser encarada como normal porque não há “solução mágica”, como disse o Primeiro Ministro, em que o Governo espera que todos os anos haja incêndios que causem feridos suficientes para justificar este investimento, então a decisão do governo parece ser lógica. Digo parece ser porque não é necessário que seja.

 

Na gestão de recursos alocados a uma potencial tragédia há sempre uma escolha entre gastar o dinheiro em medidas reactivas ou medidas preventivas. Não me recordo de ver noticiado que os hospitais tenham tido capacidade insuficiente para lidar com as vítimas dos incêndios de Junho e agora com os de Outubro; mas, segundo própria admissão do ex-Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, há, ao nível da administração local, recursos insuficientes que requerem que os próprios cidadãos não contem com a protecção do estado, tendo dito “Não podemos ficar todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver o problema”. Ou seja, há sítios onde aplicar o dinheiro de forma a aumentar a capacidade de se prevenir o tamanho da tragédia.

Na quinta-feira antes dos incêndios de Outubro, que foi também o dia em que o relatório da comissão de peritos foi entregue no Parlamento, uma entrevista a Nádia Piazza, da Associação de Apoio às Vítimas de Pedrógão Grande, foi publicada no jornal i. Nela, a usurpação do poder pelo governo central e administrações regionais, que impedem os municípios de agir, é dada como uma das causas para a pouca resiliência do interior do país aos incêndios. Só que estes últimos incêndios demonstraram que mesmo em locais urbanos no litoral, como por exemplo Braga, um motor de crescimento do país, não há plano para manter a cidade segura. Outros factores apontados são um quadro legislativo caótico, havendo também medidas que poderiam ter resultados, mas que por não serem implementadas não surtem efeitos.

Relativamente ao financiamento de projectos, Nádia Piazza aponta que a administração do território florestal depende da existência de fundos comunitários, o que indica que não é uma prioridade governativa nacional. É como se Portugal deferisse para a União Europeia o esforço de administrar o seu próprio território, numa auto-demissão das suas responsabilidades básicas.

 

Para o ano, o orçamento do Ministério da Administração Interna irá aumentar 11% face a 2017, atingindo o valor máximo dos últimos 10 anos, o que foi anunciado após os incêndios de Outubro; no entanto, de notar que as despesas com os incêndios poderão ficar fora da contabilidade do défice para 2018, pois o Comissário Europeu Pierre Moscovici considera tais custos excepcionais, o que contradiz as declarações do Primeiro Ministro, que acha que os incêndios devem ser assumidos pelos portugueses como uma situação normal – subentende-se então que esta crença do Primeiro Ministro é a justificação do aumento de investimento nos hopitais de Coimbra, discutido acima.

Dada a importância que o governo associou ao défice para demonstrar a sua boa gestão do país, dá jeito haver estas tragédias, de vez em quando, pois abrem folga nos critérios de contabilização do défice, até porque ninguém liga ao nível da dívida pública. E dá jeito o governo ter uma cassete para Bruxelas e outra para Portugal.

 

 

Rita I Carreira

(blogue A DESTREZA DAS DÚVIDAS)

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Convidada: VERA GOMES

por Pedro Correia, em 23.10.17

 

Cada dia com uma doença auto-imune é uma batalha

 

Um almoço de grupo igual a tantos outros, não fossem os rolos de papel higiénico em cima das mesas. Poderia ser uma despedida de solteiro, quiçá, antecipadas as festividades para a hora de almoço. Mas não. Um grupo de pessoas unidas por algo que as assola e que as tenta vergar, umas vezes com mais sucesso do que outras.

Entre sorrisos, dietas, piadas e trocas de experiências, este grupo assemelha-se a qualquer outro que festeja um aniversário, um almoço de Natal, ou outro qualquer que imponha celebração. Cortesia de uma doença invisível aos olhos do comum dos mortais, mas bem presente para quem tem que lidar diariamente até ao fim dos dias da sua vida. Tal e qual um casamento. Só que desta vez imposto e sem poder de escolha do "parceiro" com quem TODA a vida será partilhada.

Uns pensam que é mentira, que é preguiça, que são "queixinhas" crónicos ou até hipocondríacos. Imaginem se um dos membros do grupo apenas explicasse sem grande detalhe um dia da sua vida. Ou lhe faziam uma estátua, ou bajulavam-no pelo seu heroísmo! Na verdade, cada uma das pessoas que partilha este repasto é um lutador, um herói, o expoente máximo da resiliência. Mau estar, desconforto, dores 24/7 até ao fim da vida: não é fácil de aceitar, enfrentar e gerir. Há dias em que o mundo é demasiado pequeno para amenizar, escutar, confortar ou aliviar. Há dias que são maiores para noutros dias se enfrentar a cruel realidade de um corpo que não acompanha o que a mente deseja alcançar.

Cada dia com uma doença auto-imune é uma batalha. Um constante processo de tomada de decisão que jamais vê o fim. "Ora, tenho 10 barras de energia, tenho esta lista de tarefas que precisa de 12 barras de energia. O que deixar para amanhã?"

 

Nunca na vida as palavras do Variações fizeram tanto sentido: "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga!" Se não é pelo dosear da energia, é por aquela comida que nos faz salivar só de ser mencionada, mas que o corpo nem sempre aceita. Claramente Deus nem sempre perdoa o mal que faz, pelo bem que sabe. Que Deus cruel! Aliás, quem é o Deus, que supostamente é amor e afins, que faz alguém passar por tamanha provação?

A Doença Inflamatória do Intestino (vulgo DII, ou Síndrome de Chron, ou - os diferentes tipos - Colite Ulcerosa) assola mais de 15 mil almas só em Portugal – e o número não pára de aumentar. Esta doença consiste numa resposta exarcebada do sistema imunitário, que ataca o sistema digestivo. Chron, Colite Ulcerosa ou Indeterminada: está relacionado com a sintomologia e com as zonas afectadas.

No caso da Doença de Crohn, ocorre uma inflamação em qualquer parte do tubo digestivo, desde a boca até ao ânus. A colite ulcerosa ataca o revestimento interno do intestino grosso causando inflamação, ulceração e hemorragia.

 

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 Foto: Cristiana Reis

 

Os sintomas incluem: dor abdominal, cólicas, diarreia, hemorragia, perda de apetite, perda de peso, fraqueza, fadiga, náuseas, vómitos, cansaço, febre e anemia. A cirurgia pode ser necessária, mas não cura a doença inflamatória intestinal.

Depois temos as pérolas extra das DII: os sintomas extra-intestinais. Dentro desses sintomas, destacam-se a artrite; úlceras orais; febre; olhos avermelhados, doridos e sensíveis à luz; erupções cutâneas; osteoporose, entre muitos outros. Acreditem: numa doença-auto imune, nem a imaginação é limite.

Para que estejamos todos na mesma página: a doença inflamatória do intestino NÃO tem cura. Portanto, dispensamos toda e qualquer sugestão que venha como milagrosa para uma cura (inexistente). Beber sumos xpto, comer um ingrediente importado de Marte, ou fazer yoga dia e noite não vão curar nada! Será muito mais produtivo e gentil que nos escutem quando precisamos de falar do que estamos a passar. Não nos julguem, não digam que somos exagerados, não digam que somos hipocondríacos ou que temos a mania das doenças. Porque, acreditem, se tivéssemos escolha, não escolheríamos isto!

 

Querem ajudar? Ora, porque não, num dia em que a fadiga teima em ficar, fazerem as compras do supermercado para nós? Ou trazerem-nos comida? Ou fazerem-nos sorrir nos momentos em que parece que o mundo desaba sobre as nossas cabeças? Porque não serem gentis quando não conseguimos ir à vossa festa porque passámos a noite no wc em vez de dormir? Ou animarem-nos quando mais um tratamento não resultou? Ou irem-nos buscar ao hospital depois de mais uma dose de medicação ou de um exame médico?

Almoços com rolos de papel higiénico em cima da mesa, de um grupo de pessoas que não se conhecem a não ser numa das redes sociais da moda, acontecem por uma simples razão: ninguém julga. Todos escutam.

Quando é que tu irás também escutar?

 

 

Vera Gomes

(blogue ESCADINHAS DO QUEBRA-COSTAS)

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Convidado: MANUEL S. FONSECA

por Pedro Correia, em 20.10.17

 

O chumbo e o livro

 

A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

 

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

 

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos melhor do que eu que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

 

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O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, página a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

 

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

 

 

Manuel S. Fonseca

(blogue ESCREVER É TRISTE)

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Convidado: ANTÓNIO AGOSTINHO

por Pedro Correia, em 12.10.17

 

É fundamental proteger a orla costeira

 

A protecção da orla costeira portuguesa é uma necessidade de primeira ordem. Ninguém duvida de que o processo de erosão costeira assume aspectos preocupantes numa percentagem significativa do nosso litoral continental.

Atente-se no estado em que se encontra a duna logo a seguir ao chamado “Quinto Molhe”, a sul da Praia da Cova [concelho da Figueira da Foz].

Por vezes, ao centrar-se a atenção sobre o acessório, perde-se a oportunidade de resolver o essencial...

 

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  Foto de Pedro Agostinho Cruz

 

O professor Filipe Duarte Santos, coordenador do Grupo de Trabalho do Litoral, visitou em 2015 o by-pass da Gold Coast, na Austrália, destacando aquela tecnologia como solução para a transposição de sedimentos na barra da Figueira da Foz.

 

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Esta é a posição, há muitos anos, do movimento cívico SOS Cabedelo (que surgiu da urgência em salvar uma onda que é um dos ex-líbris da cidade), que tem publicamente defendido a construção de um by-pass (um túnel para deslocação contínua das areias das praias a norte para as a sul).

Filipe Duarte Santos considera que o caso da Figueira da Foz “é dos mais gritantes” no que respeita à erosão costeira e defende que “não há incompatibilidade entre ter um porto e uma praia que não seja exageradamente grande, como a que existe actualmente”, desde que seja encontrada e posta em prática uma solução. “E não tem nada de extraordinário, basta o transporte das areias a Norte para Sul”, resumiu. Concluindo: “Na Austrália, num caso semelhante mas mais complicado em termos de traçado, a solução do by-pass resultou. O que é preciso é que os poderes públicos tenham em sua posse estudos fiáveis e se disponibilizem a fazer análises de custo-benefício e a implementar a melhor solução."

Na sua opinião, o by-pass fixo é mesmo a melhor resposta a longo prazo. "E Portugal tem uma longa tradição de engenharia costeira."

Ainda no seu entender, “estão reunidas as condições para avançar”, uma vez que, acredita, “há verbas comunitárias” disponíveis.

Então o que tem faltado?

Vontade política e financiamento.

 

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Todavia, em época de campanhas eleitorais, como aconteceu recentemente nos debates que se realizaram tendo em vista as autárquicas 2017, se houve temas abrangentes a todas as candidaturas que se apresentaram a sufrágio, foram a erosão costeira, o porto da Figueira e o by-pass...

 

 

António Agostinho

(blogue OUTRA MARGEM)

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Convidado: PEDRO ROLO DUARTE

por Pedro Correia, em 05.10.17

 

Amêijoas com os olhos em bico

 

(Nos últimos tempos, pelas mais diversas razões, a menor das quais não será o desinteresse pela rasteira vida politica portuguesa, ensaio contos baseados em factos reais, notícias de jornal, e procuro com isso tentar a ficção, por um lado, e olhar o país e os portugueses, por outro. Ofereço ao Delito de Opinião um desses ensaios. Não o levem a sério – quem sempre escreveu sobre a realidade tem sempre dificuldade em inventar por cima dela...)

 

Os homens perdem-se pela mais básica das tentações, já sabemos. Quase todas, diz quem quer generalizar. Mas o Sargento Barreto costuma afirmar, lá na messe, que nada o faz desviar da sua rota. A não ser... amêijoas! Os colegas gozam, riem, desafiam-no, mas há dez anos que ninguém o ouve dizer outra coisa no Quartel dos Bombeiros Sapadores de Vila Franca de Aguiar, onde presta serviço. Podem criticar-lhe muita coisa, mas falta de coerência é que não...

Barreto, 45 anos, é um homem alto e forte, mãos grossas e seguras, pouco cabelo numa cabeça luzidia e avermelhada, uma vida dedicada à corporação, passagens breves pelos bombeiros locais, e até um estágio em Lisboa. Por onde foi passando, o hábito nunca se perdeu: começar por descobrir a tasca, o restaurante, a cervejaria, onde a amêijoa “à bolhão pato” – mergulhada num mistura de alho, coentros, limão, azeite e temperos a gosto, e cozida até os bichos abrirem a concha e revelarem as suas “intimidades” ... – se apresentava do seu agrado. Chegou a comprar um bloco de apontamentos pequeno, dos que cabem numa algibeira da farda, para anotar as melhores mesas para aquela delicia, que lhe transformava momentos azedos em dias felizes. Contava, tentando explicar a tentação, que mesmo depois de confrontado com os mais selvagens incêndios, ou com imagens hediondas de cadáveres desfeitos, perdia a fome para o jantar dedicadamente feito pela sua Olímpia (que implicava com as “minudências” do seu homem...), mas não resistia a umas amêijoas, se as encontrasse por perto.

Há uns anos, porém, Barreto começou a notar uma ligeira mudança nas mesas dos restaurantes, especialmente nos da sua zona, ali mesmo junto ao Tejo. Cada vez havia mais amêijoa, mas o bivalve parecia-lhe diferente, talvez até alterado: a casca cada vez mais clara, raiada, o sabor desmaiado, como se o bicho sofresse de anemia, e um caldo final sem graça. Parecia que tudo tinha sido reduzido a uma sopa de alho. Ao mesmo tempo, começou a ouvir falar do negócio da “amêijoa japónica”, uma espécie importada dos países asiáticos, que teria a vantagem de se reproduzir mais rapidamente, e de se adaptar a qualquer tipo de ambiente, ainda que pudesse constituir perigo para a saúde publica, se não fossem salvaguardadas as devidas medidas de prevenção.

 

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O Sargento começou a perguntar aos seus amigos, donos de restaurantes, onde andavam eles a comprar aquela “espécie de amêijoa”, e aos poucos lá foi descobrindo que a praga estava em plena expansão: centenas de pessoas, cujos recursos eram escassos, recorriam à apanha da “japónica”, para ganhar a vida, calculando-se que chegavam diariamente às 15 toneladas de bivalves desta “raça” capturados sem qualquer controlo. Sachos, facas de mariscar, enxadas e tesouras, tudo servia para a apanha, sempre num jogo de gato e rato com as autoridades – a que Barreto pertencia, é certo, mas integrado numa brigada mais urbana e pouco ou nada ligada ao rio.

Em conversa com o dono do “Pão de Forno”, um dos seus tascos favoritos, Barreto tentou convencer quem o ouvia a não alinhar naquele crime – que além de ilegal e perigoso, dava cabo do sabor da sua única tentação. As respostas eram sempre as mesmas: a “japónica” é mais barata, o cliente nem dá pela diferença, e o desemprego ajuda a caucionar as alternativas. Além disso, esta amêijoa, ainda que seja proibida em Portugal, era bem valorizada em Espanha, para onde se vendia boa parte do stock de cada apanha.

Vencido pelo cansaço e pela argumentação dos que o rodearam na conversa com o Silva do “Pão de Forno”, Barreto não teve outro remédio. Na manhã seguinte, apresentou-se no Posto e disse ao Comandante Peralta que queria trocar a ronda da cidade pela caça aos apanhadores do Tejo. Apesar da falta de agilidade física não recomendar tal ousadia, o chefe percebeu o sentido profundo do pedido. Passou-lhe a guia de marcha.

Dois dias depois, os primeiros 683 quilos de “amêijoa japónica”, no valor de 2000 euros, estavam apreendidos nos armazéns da GNR de Vila Franca de Aguiar. E a guerra não parou mais. Até ao dia em que Barreto se sentou à mesa do “Pão de Forno” e voltou a sentir o aroma incontornável da “sua” amêijoa de sempre, a “amêijoa boa”, que não se chama assim por ser apenas boa, mas por ser a melhor que os apanhadores encontram nas baías, nos estuários, nas lagoas.

- Ah, agora sim, temos amêijoa no prato...

A missão estava cumprida, o fogo estava apagado.

 

 

Pedro Rolo Duarte

(blogue PEDRO ROLO DUARTE)

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Convidado: RUI ALBUQUERQUE

por Pedro Correia, em 03.10.17

 

Esquerda e direita

 

I

Paulo Trigo Pereira, um dos gurus da política económica do actual governo do PS e referência incontornável da esquerda portuguesa, concedeu, há dias, uma entrevista ao Público, da qual, só por estar profundamente entorpecida e desatenta, a nossa direita não soube retirar o devido aproveitamento. O ponto mais importante do que aí foi dito está num comentário feito a propósito da política orçamental para 2018 e da possível redução da carga fiscal em vigor, em que Trigo Pereira afirma o seguinte: «O desagravamento fiscal não deve ser a bandeira da esquerda. É a bandeira da direita».

Esta afirmação encerra, de facto, o essencial que distingue, desde sempre, a esquerda da direita ou, para sermos mais rigorosos, toda a esquerda de alguma direita liberal: a convicção de que a justiça social e o progresso são apenas atingíveis pela intervenção do estado na distribuição da riqueza socialmente gerada.

 

II

É verdade que existem socialistas em muitos partidos, movimentos e think tanks de direita. Friedrich Hayek dedicou, sintomaticamente, a sua histórica obra The Road to Serfdom «aos socialistas de todos os partidos». Não o fez por acaso, mas porque boa parte da direita – a do seu tempo, a do tempo anterior ao seu e a do tempo que se lhe seguiu – acredita que os valores sociais mais elevados da liberdade e da justiça social são inatingíveis pela interacção e cooperação humanas.

Conservadores e pessimistas, estruturalmente hobbesianos no seu DNA, os que assim pensam descreem nas virtudes do individualismo e olham para cada homem, em relação com os outros, como um perigo e não um aliado e um parceiro natural. Para eles, a ordem espontânea social e de mercado – a catalaxia – é uma falácia literária, inexequível no mundo dos homens, sendo necessário que o estado intervenha para dar sentido às coisas. Mas se muita direita ainda pensa assim, onde só existem socialistas, que assim pensam, é, inquestionavelmente, na esquerda. E Paulo Trigo Pereira, com elevação e honestidade intelectual, disse-o claramente naquela sua frase: a direita (alguma direita) pugna pelo desagravamento fiscal, mas a esquerda não deve fazê-lo, porque defende a virtude do imposto como mecanismo necessário para uma melhor distribuição da riqueza, a fim de alcançar a tal justiça social, de outra forma considerada inatingível.

 

III

Ora esta é, precisamente, a fronteira que deve fixar a distinção entre esses dois pólos da histórica dicotomia. Não se trata de querer manter a divisão geográfica que vem da velha Assembleia Nacional francesa e que depois se transmitiu, embora com importantes nuances, para a Convenção parlamentar que lhe sucedeu, tão pouco pretender preservar blocos ideologicamente homogéneos, entre si higienicamente separados.

Repetimos: à direita multiplicam-se os socialistas; mas o território natural do socialismo é a esquerda, como Paulo Pinto Pereira bem frisou, e este é o ponto significativo. Do que se trata, portanto, é que existem valores que alguma direita ainda defende e que nenhuma esquerda jamais reclamará como seus. Esses valores são os que estruturam o pensamento liberal. Vejamos quais são.

 

IV

Em primeiro lugar, a crença no indivíduo possuidor de direitos naturais, inerentes à sua condição humana, e não no indivíduo apenas detentor desses direitos se e enquanto cidadão, isto é, como integrante de uma comunidade política estruturada num estado que lhos reconhecerá e conferirá. De modo algum encontraremos no pensamento socialista a convicção de um direito natural inerente ao indivíduo, que o estado tem de respeitar, mas, quando muito, a de direitos individuais que o estado promoverá e deverá garantir.

O direito natural é uma crença liberal, mas não de todo o liberalismo, e uma convicção da direita, mas não de toda a direita. À esquerda, nunca o será.

 

V

Daqui decorre, em segundo lugar, a convicção de que o liberalismo tem a liberdade como um resultado da interação estabelecida entre todos quantos compõem uma comunidade, acreditando que eles são capazes de comporem os seus interesses e de criarem as instituições que os assegurem ou reponham quando ameaçados ou postos em causa, ao passo que, à esquerda, a liberdade é somente assegurada pela comunidade transformada em status político, no fim de contas, pelo direito à coerção de alguns sobre todos os outros.

Falamos, no fim de contas, nas duas ideias basilares do liberalismo e do socialismo: o mercado e o estado; a ordem social espontânea e a ordem social intervencionada por insuficiência própria. Alguma direita acredita na primeira. Nenhuma esquerda será capaz de fazer o mesmo.

 

VI

Depois, corolário necessário dos dois anteriores postulados, a solene certeza de que existe sempre uma elite dirigente que zela por todos nós, que intervém para corrigir o que de mal fazemos e que cuida da nossa felicidade. A esquerda e o socialismo partem sempre da necessidade, muito platónica, de um «governo de sábios», a confiar com algumas restrições, enquanto que a direita prefere a máxima popperiana de um «governo de homens», a manter sob absoluta reserva. A esquerda confia aos «sábios» a felicidade dos povos, porque considera que os homens não a conseguem, por si mesmos, atingir, enquanto a direita desconfia dessas boas intenções e, por isso, prefere que os «sábios» sejam vistos apenas homens comuns, sujeitos às tentações e fraquezas de todos os outros.

 

VII

Em consequência de tão grande convicção nas virtudes do governo, e avancemos para mais uma diferença substantiva, a esquerda considera o Direito e a Lei como instrumentos iluminados de ordenação social vertical, que devem ser apenas por si mesmos limitados: «Quod placuit principi, legis habet vigorem», assim se citava Ulpiano nas Institutas de Justiniano, máxima sempre invocada por quem defendeu a estatização dos países da Europa Continental. Primeiro como direito divino dos soberanos, depois como direito racional de déspotas iluminados, por fim, com a Revolução Francesa, como direito das assembleias representativas da volonté générale.

À esquerda, o direito e a lei serão, assim, sempre vistos como instrumentos de governação, para atingirem os elevados fins da res-publica, enquanto que, nalguma direita, o direito deverá ser a ordenação natural da coisa comum, a revelação das normas de convivência pacífica na Grande Sociedade e os meios para a contenção do grande Leviathan.

 

VIII

Deste conjunto de convicções distintas e separadas resultará, para os socialistas de esquerda e de direita, que todos os direitos individuais são necessariamente limitados por aquilo que, momento a momento, o legislador e o poder soberano entenderem ser o bem público, isto é, o interesse geral, exceptuando-se algumas normas constitucionais de rigidez cada vez mais atenuada. Em contrapartida, para todos os verdadeiros liberais, que, quanto mais não seja, por exclusão de partes, só poderão estar à direita, a propriedade de cada um sobre si mesmo, os resultados que cada indivíduo atingir por si próprio, ao longo da vida, são sagrados e devem ser intocáveis, porque incorporam a sua personalidade e representam a dignidade do esforço e do trabalho individual, noutras palavras, a própria vida humana. Por conseguinte, a esquerda vê no imposto, tão mais alto quanto as necessidades declaradas pelo soberano assim o exigirem, o seu instrumento principal de justiça social. A direita liberal considera o imposto um mal, quase sempre inevitável, porque sempre reduzirá o incentivo à produção e porque é sempre uma severa limitação ao direito de cada um dispor de si mesmo, embora o possa admitir em certas e limitadas circunstâncias, se obedecendo a limites rigorosos, limites esses que, desde a Magna Carta de 1215, os povos civilizados vêm impondo aos seus governantes.

 

IX

Fica aqui por esclarecer o que distingue a ideia de justiça social à esquerda e à direita. Deixando enfaticamente de lado aquela nefasta treta de que «o coração está à esquerda e a carteira à direita» - como se o socialismo tivesse o monopólio dos bons sentimentos e das boas intenções -, assentemos num princípio: todos queremos o melhor para os nossos concidadãos e para as comunidades onde vivemos.

 

X

Assim sendo, o que nos distingue, então? Mais uma vez, a crença no indivíduo: a esquerda entende que só com um intermediário soberano – o estado – se pode redistribuir a riqueza, indo buscá-la a quem a produz e entregando-a a quem a não tem; a direita liberal afirma que só se pode distribuir o que existe e que para produzir a riqueza e bem-estar o sistema capitalista de livre-mercado é o mais eficaz, porque incentiva a produção, distribui melhor e mais igualitariamente os bens e serviços produzidos, gerando, desse modo, mais prosperidade para um número maior de seres humanos.

Porquê? Por muitas e diversas razões. Mas, essencialmente, porque a estrutura da economia capitalista exige o crescimento da riqueza e a sua distribuição por aqueles que serão os consumidores que a vão manter e fazer crescer. Porque a falácia da «concentração capitalista» de Marx é um disparate que nem nas economias estáticas seria possível conceber, quanto mais em economias de mercado, onde a competição pelas escolhas dos consumidores leva necessariamente ao aprimoramento dos produtos e da produção, à inovação e à criatividade, obrigando a investimentos sucessivos e constantes no sector produtivo, isto é, à redistribuição do capital. Porque a concorrência não manipulada por governos e políticos, pelo «capitalismo» de compadres dos amigos do BES, faz necessariamente baixar preços e elevar a qualidade. Porque só o incentivo geral do lucro legítimo, isto é, o obtido no livre-mercado – o lucro de quem produz, que quer ganhar mais, e de quem compra e consome, que quer pagar menos e ter melhor – pode fazer crescer uma economia, uma sociedade e, consequentemente, um país.

 

XI

Em contrapartida, a célebre economia de tributos altos, na qual Paulo Trigo Pereira acredita, desincentiva quem investe, afeta recursos a quem nada contribuiu para criar riqueza – políticos, burocratas e clientelas partidárias, principalmente -, entrega-os a governos que os utilizam, inúmeras vezes, em destinos de que as pessoas não carecem ou, pelo menos, não têm necessidade naquele momento, mas que eles imaginam que lhes rendem simpatias e votos.

A racionalidade da decisão política, não o esqueçamos, é o poder, não é o crescimento. De resto, bastará olharmos para a realidade nacional, para concluirmos que a subida de impostos dos últimos anos, ao contrário das intenções sempre declaradas, se fez acompanhar, não de um aumento geral do bem-estar, mas do aumento da pobreza, do desemprego, de precariedade laboral e de salários de miséria. Um país que cativa uma tão elevada percentagem da riqueza nacional produzida anualmente teria que ter melhor destino, a cumprirem-se os vaticínios das políticas económicas socialistas.

Isto, obviamente, para já não falarmos na apropriação indevida das riquezas cobradas aos portugueses, pela via tributária, por políticos e banqueiros desonestos, que lhe têm acesso fácil. Infelizmente, também aqui não têm faltado, nos últimos anos, exemplos flagrantes.

 

XII

Poderíamos prosseguir, mas estes são já bons argumentos para mantermos a dicotomia «esquerda-direita» e para dizermos que o liberalismo se deve situar na segunda e nunca na primeira.

Não nos referimos, entenda-se, ao liberalismo histórico francês e afrancesado ou ao actual «liberalismo» americano, que eram e são manifestações de estatismo pueril, no primeiro caso, e de social-democracia moderna, no segundo. Referimo-nos a um liberalismo que se projecta no indivíduo, na propriedade, na cooperação, na criação e distribuição de riqueza sempre à margem ou para além do intervencionismo do estado, na justiça e numa igualdade social que advêm de uma sociedade mais próspera, mais rica e com mais oportunidades para um cada vez maior número de pessoas.

À esquerda nunca encontraremos quem defenda o conjunto destes valores. À direita ainda encontramos. Pensem nisso.

 

 

Rui Albuquerque

(blogue BLASFÉMIAS)

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Convidado: JOÃO AFONSO MACHADO

por Pedro Correia, em 28.09.17

 

António Costa - o governo que merecemos

 

Aquelas duas entrevistas a Ferro Rodrigues em que, pressurosamente, ele alertava para o calendário pós-eleitoral e lembrava «primeiro se escolheria o presidente da AR», já diziam tudo. Costa, depois da sua tribunícia punhalada em Seguro, ou subia ao Poder ou, em definitivo, morria para a política.

Depois foi a pobreza dos debates, semanas a fio, confundindo a legitimidade política com a legitimidade jurídica (como antes a revolucionária ccom a democrática), e Costa a negociar os seus acordos à esquerda, enquanto ordenava às suas milícias pelejassem e calassem os argumentos contestatários da Direita.

E a Direita, incapaz de se reconhecer na Oposição, lamurienta, premonitória – qual Velho do Restelo – invocando até a vinda próxima do Diabo, tornava-se alvo fácil da chacota da Esquerda e do eleitorado em geral.

Tudo porque António Costa é o maior político português. No mais biltre sentido que ao termo se possa atribuir, claro. Não lhe foi dificil, portanto, congeminar o esquema pelo qual se colocou à cabeceira do Conselho de Ministros.

Costa sabe que a Esquerda leninista-trotskista não transige na sua missão dialéctica de votar o oposto da Direita. Por muito pouco, assim, consegue um qualquer desaguisado parlamentar para, em permanência, ter contra si o PSD/CDS e, a favor, a CDU/BE. Palhaçadas e encenações à parte – incondicionalmente.

Sabe também que somos um País virado para o futebol (e, entretanto, até para o Eurofestival), muito mais do que para a política. Ama-se Pinto da Costa, Bruno Carvalho, Luis Filipe Vieira, como se acredita piamente na inocência de Sócrates. É tudo uma questão clubística... Algo muito importante do ponto de vista eleitoral, tão importante que Costa não teme a desconfiança de quem vota, eventuais comparações com o seu antecessor, de quem, aliás, foi ministro.

Não há de que nos queixarmos, pois.

 

A política portuguesa já se fez de meritocratas, geralmente recrutados no sector privado, que partiam para a governação no mais puro espírito de missão. Agora ela é monopólio dos funcionários dos partidos, desses que faltavam às aulas para dactilografar comunicados lá na sede, a rapaziada das comissões e dos relatórios e do “aparelho”. Uns incontornáveis desempregados se afastados da burocracia e das tricas intestinas.

Costa nasceu assim. Alguém o imaginará a advogar, por exemplo?

É tal a sua percepção e o seu à-vontade neste estranho mundo português que Costa jamais perde o sorriso, por muito comprometedora que seja a situação. Nem uma faúlha o tocou na mortandade e no braseiro florestal deste Verão.

Não há, realmente, de que nos queixarmos.

 

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Até porque – e Costa está atento a isso – metade dos eleitores sequer vota. E se passar a votar fá-lo-á em Costa e na Esquerda Unida, nas poucas patacas que supostamente auferem a mais, por troca com uma subida da tributação indirecta – que não sabem, nem pretendem saber, o que é.

O mesmo se diga do agravamento da dívida pública (que foi uma das principais armas de arremesso de Costa conra a PaF nas pretéritas eleições) e das famigeradas “cativações”. A Saúde e o Ensino em Portugal deterioraram-se por completo. Mas quantos perceberão porquê? Não fora a insegurança que corre os tradicionais paraísos de lazer, não fora o ocasional boom turístico com que a sorte nos contemplou, por que baixos andariam as optimistas contas públicas do Governo?

Mas tudo são conexões que a maioria dos portugueses não alcança. Por isso Costa permanece, e permanecerá, no seu estado de graça. O tempo cavalga, as próximas eleições já não tardam, e ele é o provável vencedor.

 

Merecêmo-lo.

Merecêmo-lo ainda porque a Direita não sabe fazer oposição. Ocorrem-me Eça e Ramalho e o seu contributo para a desmistificação do caduco Rotativismo. E, no passado recente e no presente, Medina Carreira, Pulido Valente, Caiado Guerreiro, António Barreto... Portugal necessita urgentemente de uma IV República (a antecâmara da Monarquia, mas isso é uma história a guardar para outro dia) e ela só é possível mediante a análise crítica destes e doutros e de uma seta – a ironia - apontada ao calcanhar do Aquiles Costa – o próprio Costa, ele e a sua atrapalhação quando é enfrentado a sério. Tudo a deixar bem exposto o ridículo em que vivemos sob o comando dos partidocratas e o paternal encorajamento da Europa rica.

 

 

João Afonso Machado

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidada: ALEXANDRA G.

por Pedro Correia, em 26.09.17

 

A pauta, as pautas

 

As ligações de sangue, outrora, como agora, constituem ainda a maior, não necessariamente a melhor, de todas as pautas, que é de relações humanas que aqui se trata. Crescemos com bases de referência, algumas das quais perdurarão para sempre, mesmo que manchadas por episódios de falta de diálogo, de tolerância, de excesso de exigência. Existe a solidez, a liquidez e a parte gasosa, aquela que cedo aprendemos a remeter ao limbo por, definitivamente, se ter cedo revelado o zero absoluto (uma pedra sem a forma de coração baleia ou nuvem ou aquela prima, enfim, diferença alguma).

Depois, crescemos, etc., vocês sabem, o mundo todo começa a envolver-nos, mas desse mundo não estão excluídas as relações de sangue, não todas. Tem início o prazer de reconhecermos com clareza que existe a empatia, as afinidades, mais ou menos cultivadas, regadas ou não, diariamente, mas que persistem, as irritações, nem sempre capazmente explicadas (era o que faltava, ter que explicar tudo!), a indiferença, a percepção das traições, mas quase sempre optamos pelo afastamento, a excessiva generosidade de alguém que, afinal, quer retirar-te tudo para que, esvaziado, olhes naquela direcção, onde tudo se assemelha à traição, ao roubo perpetrado com falta de requinte.

Um dia, tens então/também aquele tio crente, um tio referência durante toda a tua infância, o tio dos chocolates suíços, que gasta € 3,000.00 numa campa de granito, onde a infância das flores é colocada todas as semanas, colorida, sobre as raízes de osso da tia, sabendo tu que se enamorou por um anjo loiro com menos três décadas que ele, que se torna naquilo que sempre foi, o gabarolas de serviço, agora com vestígios alarmantes de Parkinson, mas ainda capaz de movimentar, pelo menos, a conta milionária, dando abrigo ao anjo loiro e tornando-a sua herdeira universal, coberta d’oiros, um guarda-roupa exuberante, uma altivez camuflada de amabilidade em figura de garrafas de vinho do Porto e um meio bolo caseiro, comprando-te a atenção, cativando-te como se foras o ramo de flores sobre a campa da tia Flor de Ossos.

A(s) pauta(s) que rege(m) as relações humanas evolui para auto, autos, coisa séria, dos mais diversos, quando sentes que uma pessoa, aos 85 anos, mesmo considerado todo o dever de respeito que lhe deves, e à sua liberdade, que a tem, se tornou no cachorrinho de abanar a tola colocado sobre o tampo do porta-bagagens do Ford Cortina da tua infância, lembras-te, aquelas idas à praia, os passeios à terra das tias velhas?, e sentes, não pena, mas desprezo, pelo ridículo inconsequente, o interior do porta-bagagens perdendo nas curvas o conteúdo, a música da tua infância transformada na queda rolante das memórias que nunca pensaste poder perder.

E começas a apreciar o silêncio.

 

 

Alexandra G.

(blogue IMPRECISÕES)

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Convidada: HELENA FERRO GOUVEIA

por Pedro Correia, em 24.09.17

 

Merkel, a esfinge

 

Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler, que há doze anos comanda os desígnios da Alemanha, é a ausência de gobbledygook no seu discurso. Angela Dorothea Merkel é uma mulher não dada a complicações,  terra-a-terra, a quem coube em sorte alguns dos desafios mais complexos da história contemporânea teutónica e europeia. Quando o Muro caiu, a 9 de Novembro de 1989, a física era uma desconhecida, sem ambição política. Ninguém ousaria prever que se tornaria na mulher mais poderosa do mundo e na Mutti, mãezinha, dos alemães.

Pode pensar-se nela como uma maratonista que não desperdiça esforços em sprintes para impressionar a bancada. O que exaspera membros do seu governo, da oposição e alguns líderes europeus.  Angela Merkel não é movida pela ideologia, toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos. Convém acentuar a palavra factos. “O meu pai [o pastor luterano luterano Horst Kasner] atribuia muita importância à lógica e à clareza dos argumentos."

Se hoje ela é uma pessoa extraordinariamente controlada e discreta, características que a tornam para muitos estranha, pouco previsível, esfíngica,  isso é resultante de uma vida entre dois mundos, duas Alemanhas. Conhecendo-se a história da divisão alemã entende-se: nada é simples, nada é linear, não há lugar para maniqueísmos. “É muito difícil do ponto de vista actual compreender e tornar compreensível como nós vivíamos. Onde se situavam as fronteiras do compromisso que cada um devia encontrar para si próprio?”

 

Porque não conhecemos Angela Merkel?

Muito da vida de Angela Merkel no lado oriental do Muro de Berlim continua a ser uma incógnita. Já em 1991 o diário Süddeutsche Zeitung perguntava “porque não conhecemos Angela Merkel?”. “Sim, foi uma grande vantagem ter aprendido a manter-me calada nos tempos da RDA. À época foi uma das estratégias de sobrevivência e continua a sê-lo hoje."

Rainer Eppelmann, dissidente do regime da República Democrática Alemã (RDA), conheceu Merkel nos dias seguintes à queda do Muro e recusa apontar-lhe o dedo. “As pessoas, na sua maioria, apenas sussurravam. Nunca diziam o que pensavam, o que sentiam, do que tinham medo. Até hoje, não temos plena consciência do efeito sobre os  indivíduos.” Acrescenta: “para ser fiel às suas esperanças, ambições, crenças e sonhos, era preciso ser-se herói 24 horas por dia. Ninguém consegue.”

A vida da futura chanceler numa ditadura foi tão “normal” quanto possível. Nunca usou roupa da RDA, mas sempre da Alemanha ocidental, por uma razão bem prosaica. “O meu pai tinha um salário baixo. Seiscentos marcos por mês. Não era muito para vestir todos os filhos (…) e a nossa família em Hamburgo enviava-nos roupa.”

“Nunca senti a RDA como meu país natal”, afirmou à fotógrafa alemã Herlinde Koelbl em 1991. “Tenho um espírito relativamente ensolarado e sempre tive a expectativa de que a minha trajectória de vida seria também relativamente ensolarada, a despeito do que acontecesse. Nunca me permiti ser amarga. Sempre me vali da margem de liberdade que a RDA me permitia. […] Não havia sombra sobre a minha infância. E, mais tarde, agi de maneira tal a não me colocar em permanente conflito com o Estado.”

Com um perfil o mais distante possivel do típico político alemão – visite-se a Haus der Geschichte e a galeria dos retratos de presidentes e chanceleres no pós-guerra, todos homens, apenas uma mulher: Angela Merkel –  fez uma carreira vertiginosa,  sem paralelo na Alemanha, tornando-se na líder incontestada da Nação e na chefe de Governo mais antiga da União Europeia. Isto na tripla qualidade de mulher, do Leste, divorciada e sem filhos.

 

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Ter coragem no momento certo

Recuemos no tempo. Durante uma aula de natação, quando tinha 12 anos, Angela Merkel ficou parada na extremidade da prancha de mergulho cerca de 45 minutos antes de reunir a coragem necessária para saltar para a piscina. “Tenho coragem no momento certo. Mas preciso de um considerável tempo de preparação e de pesar todos os riscos.”

Na escola, na universidade, nem colegas, nem professores, apesar da excepcional inteligência, alguma vez viram na recatada Merkel um potencial de liderança. Foi o destino que lhe pregou uma partida ou foi ela que traçou o seu destino?

Contrariamente à maioria dos políticos de primeira linha dos democratas-cristãos, ela não seguiu o caminho tradicional – a filiação na juventude democrata-cristã, envolvimento na política local, construção de redes e contactos. Estava do outro lado do Muro. Como se explica a ascensão do “nada político”, de alguém com um perfil o mais distante possível do clássico, a mulher mais poderosa da Alemanha? Por uma conjugação de qualidades pessoais e de acasos biográficos e de uma constelação histórica ímpar.

O dia determinante para a carreira política de Angela Merkel é 30 de Setembro de 1990, quatro dias antes da reunificação alemã, o dia em que conheceu Helmut Kohl, que seria o seu ídolo, mestre e com quem aprendeu aquilo que os alemães denominam “Willen zur Macht”, o desejo de poder, a mola inicial, o princípio do salto.

Kohl, o historiador, considerava que o Gabinete Federal devia reflectir a nova realidade política alemã. Por isso uma mulher do Leste, jovem, ainda para mais protestante, encaixava-se no puzzle do poder. Por outro lado, o chanceler da reunificação queria rodear-se de pessoas que lhe fossem absolutamente reconhecidas.

O encontro entre Merkel e Kohl não foi obra do acaso, mas aconteceu por iniciativa de Merkel. Dias antes das comemorações da unificação alemã,  decorreu em Hamburgo o congresso de “reunificação” da  União Democrata Cristã  (CDU)  com os movimentos democráticos de raízes cristãs da  antiga RDA. Nesse congresso, Merkel era um dos delegados do Demokratischen Aufbruch. Aproveitando a ocasião, a política pediu a um conhecido para a apresentar a Kohl. Tiveram uma longa conversa, que impressionou positivamente o chanceler. Voltariam a encontrar-se em Bona, nos finais de Novembro, em vésperas das primeiras legislativas da Alemanha reunificada, que se realizaram a 2 de Dezembro. Depois de ler as actas da Stasi relativas a Angela Merkel, limpas, Helmut Kohl convenceu-se de que ela deveria integrar o Governo. Que o novo ministério da Juventude e Condição Feminina fosse quase esvaziado de competências fazia parte dos cálculos do presidente da CDU. O animal político Kohl farejou a substância de que Merkel era feita e queria que ela amadurecesse para outros voos. O que ele não poderia imaginar é que  nove anos  mais tarde a dama faria xeque-mate ao rei.

Num artigo publicado no Frankfurter Allgemeine Zeitung, a 22 de Dezembro de 1999,  com o partido mergulhado na maior profunda crise da sua história em virtude do escândalo em torno do financiamento partidário, Angela Merkel comete “parricídio”.

Sem estados de alma, a  então secretária-geral do partido acusa Kohl de prejudicar a CDU ao silenciar o nome dos doadores que alimentaram a contabilidade paralela dos democratas cristãos. “A credibilidade de Kohl, a credibilidade da CDU e dos partidos políticos estão em jogo”, escreveu na altura. O artigo levaria o ex-chanceler a renunciar à presidência honorária do partido. Os doadores, esses, continuam incógnitos. Wolfgang Schäuble, o eterno príncipe herdeiro de Helmut Kohl, vê-se envolvido no escândalo e a escapar-se-lhe entre os dedos a possibilidade de um dia se tornar chanceler.

Merkel publicou o artigo sem avisar Schäuble, o então presidente da CDU.  Num gesto que combinava virtude protestante com crueldade, a “Mädchen” (menina) de Kohl cortava o cordão umbilical do seu pai político. “Ela espetou a faca nas costas dele e girou duas vezes”, afirma Karl Feldmeyer, jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung . Foi o momento em, que pela primeira vez, muitos alemães se deram conta da existência de Angela Merkel.

Alguns anos mais tarde, Michael Naumann – que ocupou a pasta da cultura no gabinete do social-democrata Gerhard Schröder –  questionou Helmut Kohl: “O que é ela quer de facto?” “Poder”,  terá a resposta cortante. A um outro amigo, o chanceler da reunificação contou que seu apoio à jovem  Angela Merkel tinha sido o maior erro da sua vida: “enrolei a cobra no braço.”

A jogada de Angela Merkel deu certo. Mergulhados na maior crise da sua história, os democratas-cristãos precisam de alguém imaculado, fora do “sistema Kohl”, alguém insuspeito, alguém de Leste. Empurrada pelas bases como uma Joana d”Arc, Merkel é eleita presidente da CDU, em Abril de 2000, no congresso de Essen, com uma votação “soviética”: 96 por cento.

Seria a primeira mulher a ocupar este cargo num dos dois grandes partidos alemães, como também já havia sido pioneira no de secretária-geral. Na sequência dos remoques do cardeal de Colónia, Joachim Meisner, que considerava pouco edificante a líder de um partido cristão viver em união de facto, casaria, em Dezembro de 2000, na intimidade, com o químico e professor universitário Joachim Saeuer. Ninguém fora informado. Nem os pais de Merkel. Há poucas fotos do casal: as das visitas anuais ao festival de Bayreuth e em algumas cerimónias oficiais. Para ela, a esfera privada é inviolável. Joachim Sauer nunca será um “primeiro-marido”.

 

Da crise a líder do mundo livre

Reforça a imagem de ser feita de gelo com a resposta à crise financeira global e à crise do euro, após o colapso do Lehman Brothers. Torna-se numa figura odiada por um largo sector da opinião pública europeia. Ao seu ritmo de pequenos passos acabaria por ultrapassar as hesitações. “Merkel, que duvidou durante longos meses de que a Grécia conseguisse algum dia assumir a disciplina inerente à participação numa moeda única, acabou por reconhecer que os custos para os outros países da sua saída do euro – resultantes do efeito de contágio – seriam muitíssimo superiores aos benefícios”.

“Se o euro fracassar, fracassa a Europa”, dirá em Outubro de 2011. Enquanto ia acumulando derrotas nas eleições regionais, a chanceler foi somando vitórias nos palcos da crise do euro. Mantendo um discurso pró-Europa, Angela Merkel não abdicou da austeridade e impôs aos seus pares um caderno de encargos da sua lavra. Por momentos, receou-se que a sua paciência com Atenas se esgotasse. Mas não, até aí se manteve firme na convicção europeia. De resto, Merkel não sucumbiu aos que pediam flexibilidade e tempo no combate à crise.

O ano de 2012 será lembrado como o ano em que a moeda única foi salva da implosão a que parecia condenada pela crise da dívida europeia. Foi a decisão da chanceler de manter a Grécia no euro e, mais ainda, de assumir os custos associados que o permitiu fazer.

Ganhou entre os alemães a aura da salvadora do euro a custos mínimos e o cognome de Mutti. O ano de 2012 seria também o ano da afirmação do poder incontornável da Alemanha, da fragilidade da França e da mais evidente e perigosa deriva do Reino Unido em relação à Europa.

Mesmo tendo em consideração todos os riscos políticos que a decisão acarretava, decidiu  abrir, a 4 Setembro de 2015, as fronteiras alemãs a todos os refugiados sírios que queiram procurar refúgio em solo alemão. No dia seguinte chegariam a Munique, de hora a hora, comboios cheios de refugiados. As centenas depressa se tornaram milhares e nos cais vivem-se momentos comoventes. Milhares de alemães trazem brinquedos, vestuário, água, guloseimas.  Dão, eufóricos, as boas vindas. As cenas repetem-se nas estações ferroviárias de Frankfurt am Main e Dortmund.

A maior emergência humanitária desde 1945, a crise dos refugiados transformou aos olhos da opinião pública e publicada a vilã impiedosa numa  heroína global. E transformou para sempre a Alemanha. “A chanceler alemã está do lado certo da história. Num mundo global a solução não é construir muros”, sublinhou Barack Obama.

Em 2015 a revista Time elegeu-a como a personalidade do ano. “Por pedir mais do seu país do que a maioria dos políticos ousaria, por enfrentar de forma firme a tirania, bem como o oportunismo e por oferecer uma liderança moral firme num mundo onde esta é escassa, Angela Merkel é a pessoa do ano da Time”.

No Guardian, o historiador britânico Titmothy Garton Ash, profundo conhecedor da Alemanha, dizia: “A expressão ‘líder do mundo livre’ é normalmente aplicada ao Presidente dos Estados Unidos, e raramente sem ironia. Estou tentado a dizer que a líder do mundo livre é agora Angela Merkel.”

Quem é a chanceler? De onde veio a dama que fez xeque-mate a todos os reis no seu caminho? Como cresceu? De que gosta? Como é a pessoa para além da política? O que a faz mover?

Perguntas que, desde 1991, altura em que Merkel  se tornou pela primeira vez ministra, ocupam jornalistas, analistas e biógrafos. Talvez uma das melhores respostas que encontrei foi a de Bernd Ulrich, no Die Zeit. “Wer ist Merkel? Die Kanzlerin. Was will sie wirklich? Kanzelerin sein.”(Quem é Merkel? A chanceler. O que pretende realmente? Ser chanceler).

 

 

Helena Ferro de Gouveia

(blogue DOMADORA DE CAMALEÕES)

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Convidada: CARLA ROMUALDO

por Pedro Correia, em 22.09.17

 

Tântalos

 

Uma das histórias (“Will-o’the-Whisp”) de Sum: Tales from the Afterlives (uma compilação de contos breves sobre possíveis vidas depois da morte escritos pelo neurocientista David Eagleman) descreve um Paraíso que inclui uma sala repleta de monitores. Aí, o recém-morto descobre, para seu grande espanto e euforia, que poderá seguir tudo, rigorosamente tudo o que vai acontecendo aos vivos. Vai saltando de câmara em câmara e acompanhando o que sucede ao seu legado: as alegrias e infortúnios dos filhos e netos, de que modo é evocado por quem o conheceu, a evolução dos projectos que criou ou de que fez parte, as crianças que trepam à árvore que plantou, os novos habitantes da casa que foi sua, etc.

Rapidamente fica viciado nessa actividade. Corre todas as manhãs para os monitores e aí passa o dia até ao encerramento da sala. Quer sempre ver mais, saber mais, sofre e alegra-se com quanto vê mas nunca fica saciado. É como se a vida, a sua vida, ainda lhe pertencesse. A visão que possui agora da complexa rede de acontecimentos e suas consequências é múltipla, profunda, total; mas está impossibilitado de qualquer tipo de intervenção. Não há mensagens sussurradas em sessões de mesas de pé-de-galo, nem aparições fantasmagóricas, nem sinais de espécie alguma. Tudo verá e nada poderá fazer. Apesar disso, o morto – cada vez menos recente – regressa todos os dias à sala com igual sofreguidão.

O acesso à sala dos monitores, porém, tem um prazo de validade. Em algum momento, o cartão de acesso deixará de funcionar e o morto ficará de fora, a olhar os portões que outros transpõem mas ele não, e reparará que do lado de fora há outros como ele, a rondar, à espera de uma oportunidade para iludir a segurança e regressar à sala, coisa que nunca mais ocorrerá.

O prazo de validade do cartão de acesso não é aleatório. Cada recém-chegado tem a sua vida escrutinada. Os que fizeram sobretudo boas acções são os que primeiro perdem o acesso à sala dos monitores. A esses, como recompensa, é poupado o conhecimento de um futuro que não viverão.

 

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Tendo por certo que a memória tem os seus caprichos, ninguém estranhará que me tenha lembrado deste conto, assim como da história de Tântalo, quando me vi frente à fonte de Trevi, em certa tarde de Verão. É que Tântalo, filho de Zeus, foi condenado a nunca saciar a fome e a sede, apesar de permanentemente mergulhado em água até ao queixo e à sombra de ramos carregados de frutos. Quando tenta alcançá-los, a água escapa-se e os ramos afastam-se. E a Tântalo, garanto-vos, assemelham-se os polícias que vigiam a fonte. Quando, saídos de umas quantas voltas por ruelas pouco prometedoras, se nos depara a luminosa Trevi, insolitamente ali, como se acabada de materializar-se, o primeiro que ouvimos são os frenéticos apitos. Em seguida, as vozes e risos da multidão. E só depois, muito depois, quando os ouvidos se habituam a tanta dissonância, a água.

Tardamos em descobri-los entre a multidão, mas aí estão, os polícias das fontes, acalorados, reluzentes de suor, muito morenos, a camisa demasiado justa para tão ampla curva da barriga, visivelmente irritados, ei-los, os guardiões do património, zelando para que nenhum turista com delírios de Ekberg se lance aos pés de Neptuno.

Não, enquanto eles aqui estiverem não haverá mergulhos, nem rabos sentados no mármore, nem pés nus a chapinhar, nem se lavarão rostos, cabelos, mãos, chapéus ou bandanas, nenhum gesto de desrespeito pelo património que constituem agora as fontes, ordem da presidente da Câmara. E aqui estamos, 42 graus à sombra, sedentos, sem poder avançar por entre uma multidão de turistas com câmaras, tantos são os paus de selfies ao alto que mais parece a rendição de Breda, aqui estamos frente à miragem luminosa da fonte onde Mastroianni, cheio de frio, já um pouco bêbedo, porque a produção tentou aquecê-lo com whisky, mergulhou atrás de uma deusa nórdica a quem as águas pareceram cálidas. O sensual quadro que guardávamos na memória transformou-se em cena absurda, ainda que italianíssima. O estrépito dos três, nada menos que três apitos – do lado esquerdo, no centro e do lado direito – enerva, mas a energia repreendedora dos agentes tem uma comicidade irresistível. Gesticulam, zangam-se, sopram o apito, mandam desencostar da fonte com gestos exagerados, vigiam o ritual do lançamento das três moedas por cima do ombro, um costume que um guia imaginativo garante provir do general Agripa, como se não soubéssemos que o devemos a Frank Sinatra.

 

 

Neptuno, a Abundância, a Fertilidade, a Colheita, cavalos alados resfolegantes, tritões ensandecidos – frente a nós está a vida, caótica, aos borbotões, mas não devemos tocar-lhe. Tampouco o farão os três homens. Quanto dariam os guardiões para poder cometer o delito que têm por missão prevenir…

E então, estourados, lábios a arder, pernas doridas, sandálias empoeiradas, voltamos costas a Trevi, com pena, e anunciamos bem alto que não, não desejaremos uma eternidade contemplativa com vista para o que não podemos provar.

Apitam os três em uníssono, como quem diz ámen, e cai o pano na tarde romana.

 

 

Carla Romualdo

(blogue AVENTAR)

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Convidada: CATARINA DUARTE

por Pedro Correia, em 20.09.17

 

O respeito pelo direito à diferença obriga-nos a todos a pensar igual?

  

Os temas são lançados, a grande velocidade, na nossa sociedade: poucas vezes debatidos onde devem ser; muitas vezes falados, com alguma leviandade até, nos cafés do mundo digital, onde se tornam virais. 

Ao longo dos últimos anos, temos vindo a abordar assuntos muito relevantes, alguns deles quase fracturantes, numa sociedade tida como tradicional e conservadora, que permaneceu, durante muitos e muitos anos, fechada sobre si mesma e que se viu, de um momento para o outro, com um mundo inteiro de questões pela frente.

 

Temas como o aborto, o casamento e a adopção por casais do mesmo sexo, temas como a eutanásia, como as barrigas de aluguer, são apenas alguns exemplos das muitas questões que devem ser debatidas de forma séria.

Há quem concorde, há quem coloque dúvidas, há quem não disponha de toda a informação ou de todo o conhecimento necessário para poder opinar com conhecimento de causa mas há também quem, apesar de ter toda a informação do seu lado, simplesmente, não concorde. E estas pessoas, aquelas que não concordam, são, muitas vezes, mal tratadas e perseguidas.

 

Nos cafés virtuais, mas também na vida de todos os dias, ninguém se dedica a perceber a origem dos seus receios, quando é precisamente nessas interrogações que uma sociedade - que ainda está a aprender como funciona isto de ser democrata - evolui.

Qualquer de nós, para qualquer assunto, pode ser a excepção para determinada regra. É, por isso, importante dar voz a todos e a todos dar a oportunidade de pensar e dizer o que, concretamente, pretendem transmitir, sem qualquer tipo de represália, sem qualquer tipo de receio, sem qualquer tipo de censura.

 

Hoje, se quisermos pertencer ao grupo dos fixes, os tais que, nos cafés virtuais, se sentam na mesa do fundo a fumar cigarros e a beber café, a nossa opinião tem que ser a favor do ciclo da sociedade. Caso contrário, somos recambiados para o galão fraquinho e para a torrada com pouca manteiga.

Estamos muito sensibilizados quanto às questões das minorias e, de repente, toda e qualquer opinião passou a ser imposta às maiorias. Impingimos as nossas crenças e os nossos valores, forçamos a igualdade na forma de ser e na forma de estar e, pior, caminhamos para impor a igualdade de pensamento!

 

No final do dia, a perseguição é feita ao homem pelas suas ideias e eu concluo sempre: tanto queremos respeitar o direito à diferença que obrigamos todos a pensar igual.

 

 

Catarina Duarte

(blogue INSENSATEZ)

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Convidados: TIAGO NENÉ

por Pedro Correia, em 19.09.17

 

Três poemas

  

 

O que tenta ensaiar esta beleza

na sua violência prematura, nas linhas do seu submundo.

Observo-a como um guarda nocturno

numa fábrica de relógios, procuro-a

com uma fome que me isola de mim. E os vidros e as vidas

desta fábrica tornam-se um sequestro da mesma realidade

que entre o futuro e o futuro do futuro

espreita o cruzamento de todo o tempo.

 

Sob a estrela cadente o céu atravessa todos os nomes,

não sei se faz vento interior ou sobram átomos

de matérias que procuram a inutilidade das coisas.

Escuto uma lua de açúcar pela garganta das nuvens,

não estou do lado de fora da memorização da espera

e do eco soterrado de um pó evanescente.

 

Que membros húmidos recebem o hálito do caminho,

que vertigens sobre o torpor das janelas.

Sinto a eficácia mecânica das emoções,

cada sintonizador absorvendo os limites

de uma fissura de luz.

 

 ....................................................

 

O que se descreve é como cotovelos no parapeito,

pode ser tão sombrio

quanto uma interrogação em círculo,

tão viril quanto este caminho mau,

tão minucioso quanto esta perspectiva não infinita.

E onde começa o esquecimento

termina o que a ilha de sono denuncia,

o que o intervalo do vento alcança

quando descende do infindável

onde tudo é calmo e sereno.

E então, que te administrem menos memória,

a ti cujos olhos abrangem

um botão que te desperta do que pensas ver em voz alta,

do que se transforma como um eco

exactamente igual a ti.

 

 ....................................................

 

Talvez tenha faltado ao meu próprio encontro,

e na dor que persiste sinto naturalmente

os últimos suspiros do crepúsculo nos primeiros arrepios da madrugada,

um cutelo na memória, a porta que bate com estrondo,

um relógio com tentáculos,

por vezes estranhas figuras que nascem e desaparecem,

deixando as metamorfoses da sua ilusão e realidade.

 

Pois nesta dor que persiste sinto naturalmente

todos os cheiros do céu e dos astros, o canto de um galo,

apertos de mão numa fogueira extinta,

eixos de uma dúvida incapacitante.

 

Mas não me coibo de pensar o que seria de mim

se não tivesse faltado ao meu próprio encontro,

se não seria agora uma retórica feliz na praia,

uma estrela em movimento sobre o mar,

os pulmões de milhões de seres,

um rio escondido na extensão dos cabelos.

 

 

Tiago Nené

(autor do livro ESTE OBSCURO OBJECTO DO DESEJO)

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Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 18.09.17

 

A primazia do individual sobre o colectivo

  

A esquerda encontra no Estado resposta para todos os problemas, aumentando sucessivamente a carga fiscal em nome do chamado Estado social, deixando os cidadãos sem metade do salário supostamente para garantir serviços de saúde e educação tendencialmente gratuitos, mas os portugueses continuam a gastar boa parte da outra metade do salário, precisamente em despesas com saúde e educação. Pelo meio vão atendendo aos interesses corporativos instalados, garantindo a chamada paz social, que não serve a todos, mas satisfaz os que têm capacidade de encher as ruas, berrando de megafone em punho.

Alguns radicais culpam o capitalismo e reclamam ainda mais Estado, para colmatar as insuficiências do sistema. Outros mais cínicos afirmam ser possível reformar, mas se cortam um imposto para efeitos propagandísticos ou satisfação da clientela, logo em seguida sobem outro, enquanto aumentam alguns cêntimos pensões e salários, procurando conquistar votos, mas no final o resultado líquido é sempre o mesmo, dívida e carga fiscal não param de crescer. Como se não bastasse, o Estado ainda serve para albergar familiares, amigos e correligionários políticos, auferindo salários acima da média e boa parte deles com emprego para a vida garantido. Enquanto o contribuinte tiver alguma disponibilidade no bolso, imaginação não faltará aos parasitas.

 

Seria suposto o Estado garantir segurança aos cidadãos, mas sobre isso estamos à partida conversados, viu-se agora no Verão o resultado dos incêndios, deixando a nu as ineficiências do Estado.

Em matéria de segurança criminal e justiça ainda é pior. Vários complexos típicos da esquerda tendem a desculpabilizar ou mesmo justificar comportamentos criminosos individuais. Acresce a tudo isto um sistema judicial moroso que ninguém ousa reformar, tornando Portugal um case-study. A memória do Estado Novo ainda não se apagou e há quem pretenda confundir autoridade das forças policiais com repressão. Falam em combater a corrupção, mas comparem o tempo que os EUA precisaram para julgar e condenar Madoff com o tempo que Portugal precisa para sentar um banqueiro ou político no banco dos réus. Apenas infracções de trânsito e evasões fiscais são tratadas de forma célere, muitas vezes demasiado céleres, sem garantir os direitos de defesa, tudo o resto é moroso.

 

Todos concordam na necessidade de descentralizar, aproximar os centros de decisão política dos cidadãos, mas ninguém ousa reformar de forma séria o mapa autárquico. A redução do número de freguesias foi imposta pela troika, ou não teria avançado, o número de municípios permanece intocável e se forem mexer será para aumentar. A não ser talvez, que num futuro não muito distante, Portugal seja obrigado a solicitar novo resgate. Porque há nos partidos militantes a precisarem de emprego como presidentes de câmara, vereadores ou assessores e mais alguns ainda para trabalhar nos diferentes serviços municipais.

Tenho para mim que num país da dimensão de Portugal bastariam cem municípios e talvez umas mil freguesias. Mas alguém acredita que será possível reformar profunda e eficazmente o Estado sem enfrentar uma contestação brutal? Basta encerrar um Tribunal, serviço de hospital, estação de correios ou balcão da CGD para se instalar a berraria.

 

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À direita, em bom rigor poucos se assumem como direita, a maior parte dos políticos nessa área dizem-se sociais-democratas ou democratas-cristãos, para atrair votos da esquerda moderada, o que até não está mal de todo, uma vez que instalados no poder fazem exactamente o mesmo que os socialistas, mas sem contarem com a benevolência de boa parte das redacções nos media ou das corporações. No fundo são versões light do socialismo.

Liberal na economia, conservador nos costumes, ultimamente em Portugal alguma direita traça este auto-retrato. Alguém que pretenda para si Liberdade mas não a conceda aos outros será seguramente um hipócrita, sabendo à partida que da esquerda não se pode esperar muito nesta matéria. É triste constatar que da direita também não.

O nazismo é proibido ou tendencialmente silenciado ao contrário do comunismo. Num contexto de atentados terroristas de inspiração islâmica, não falta à direita quem pretenda colocar barreiras à imigração. Quanto a mim todas as ideologias e religiões devem ser permitidas e toleradas. Pouco me importa que defendam Hitler, Estaline ou Mao. Que adorem Alá, Jesus Cristo ou até o Diabo se preferirem. São os comportamentos criminosos, individuais ou de grupo que devem ser perseguidos e reprimidos, nunca a convicção ou pensamento. A Liberdade tem essa superioridade moral: quem verdadeiramente a ama e pratica, defende-a até dos que pretendem suprimi-la.

 

Também não me revejo nos que à direita se dizem liberais na economia, mas defendem subsídios para a tourada em nome da tradição. Não gosto dos anti-tourada, aliás, não gosto dos anti seja o que for, a tourada existe e deve existir enquanto existirem espectadores. Qual a moral de criticar um subsídio para o cinema, teatro ou qualquer actividade que a esquerda habitualmente considera de interesse público, mesmo que não interesse ao público, forçando que todos a paguem e depois fazer exactamente o mesmo? Não se pode defender o mercado e apregoar suas virtudes apenas às segundas, quartas e sextas.

Se a Liberdade é virtuosa, porque terei que continuar aceitando que o Estado defina as substâncias que posso ou não consumir? Os efeitos do álcool são assim tão diferentes da cannabis ou mesmo cocaína? Conduzir sob efeitos que limitam o comportamento será diferente, porque não somos da via, apenas a partilhamos com outros, fora disso cada um tem o direito de fazer o que quer. Até porque já o faz. Hipocritamente os governos combatem e proíbem a droga, mas alguém que pretende consumir determinada substância não a consegue adquirir?

 

O comportamento sexual de cada um é com cada um. Não quero saber da conversa da esquerda reivindicando direitos para grupos específicos, gostaria sim de ver os que se dizem liberais defendendo a Liberdade plena de todos os indivíduos. Porque a questão de fundo é a primazia do individual sobre o colectivo. A esquerda funciona numa lógica grupal, colectiva, por isso amarra pessoas a rótulos, os conservadores fazem o mesmo, apenas consideram existir grupos bons e grupos maus, oferecendo à esquerda os votos da causa. Esquecem ambos que os direitos não são colectivos, mas individuais.

O insuportável politicamente correcto deve ser combatido porque configura a perda da Liberdade, da individualidade, pretende impor à sociedade uma normalização que por vezes até a faz parecer um rebanho. Nada de novo, o velho socialismo sempre colocou o colectivo acima do indivíduo, obtendo o desastroso resultado que todos conhecemos.

A esquerda não pode ser combatida apontando os seus erros e incompetências, mas defendendo a Liberdade em todas as suas vertentes. Ao contrário do que alguma direita defende, não se podem abrir excepções: a Liberdade precisa ser total e não condicional.

 

 

António de Almeida

(blogue AVENTAR)

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Convidada: CARLA MAIA DE ALMEIDA

por Pedro Correia, em 15.09.17

 

Religações

  

Tenho um cinto de couro que comprei há anos, e tenciono usá-lo até que se gaste e morra de morte natural. Tenho um único cinto; tal como só tenho um par de óculos de sol, um relógio (que não uso), uma gabardine, um guarda-chuva, uma carteira, uma mochila, umas havaianas, um cartão de telemóvel e um carregador de bateria. Não vejo necessidade de acumular acessórios de difícil arrumação e utilidade duvidosa. A ideia de «ir às compras» aborrece-me. Se quiserem torturar-me, convidem-me a passear num centro comercial, em demanda de roupas ou sapatos, e peçam-me opinião sobre a matéria. Em menos de cinco minutos, simularei um ataque de hipoglicemia e sairei da terceira loja com ar desvairado.

 

No último inverno, a presilha soltou-se. Deixei a coisa andar, até que o cinto se começou a parecer com a orelha caída de um basset hound, e achei por bem impor limites à minha preguiça. Procurei um sapateiro e perguntei-lhe se o paciente tinha conserto. O homem, já velhote, disse que sim, que não era grave. Pegou em agulha e linha e pôs-se a coser a presilha, cheio de paciência e vagar.

 

Fazia frio. Começámos a falar sobre comida, para aquecer a alma. Ele contou-me do bife que dava para quatro pessoas, e que a mãe dele desfiava num arroz malandrinho, apaladado com salsa picada e cenoura às rodelas. Eu contei-lhe do rancho que se fazia em casa da minha avó materna, um rancho como nunca mais provei, com bofes e tudo. Então, ele levantou os olhos e perguntou:

— A menina é do norte?

— Sou. Como é que sabe? Não tenho sotaque.

— É que só lá é que se diz «bofes»...

— ... e se tratam as senhoras por «menina».

 

Continuámos a conversa, agora estreitada por laços geográficos. Ao nosso lado, as pessoas entravam e saíam, na voracidade das manhãs urbanas, inquirindo os preços das palmilhas, duplicados de chaves, tacões e meias-solas. Aconcheguei-me no conforto de uma certa invisibilidade temporária.

 

Quando acabou o trabalho, entregou-me o cinto: «Está pronto.» Não aceitou dinheiro. Insisti, sem sucesso. Despedimo-nos com um sorriso, desejei-lhe um bom dia e agradeci-lhe outra vez.

 

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Saí para a rua e atirei-me ao frio como gato a bofe, corajosamente. Tenho a certeza de que o resto do dia me correu bem. Sentia-me animada, grata, ligada ao mundo por um encontro generoso. Registei tudo no meu caderninho preto, cujo título é: «Primeiro a bota, depois a meia» (um dia, também vos conto esta história).

 

O cinto ainda vai durar mais uns anos, aposto. A memória deste encontro durará muito mais. Não é uma opinião, é um sentimento.

 

 

Carla Maia de Almeida

(blogue O JARDIM ASSOMBRADO)

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Convidado: BRUNO SANTOS

por Pedro Correia, em 13.09.17

 

Rosas do abismo

  

Parece que a nova moda entre uma certa inteligência nacional é espalhar a ideia, não só de que Portugal é um país racista, mas também que toda a sua História é uma expressão antiga, intemporal, desse racismo.

Este ataque ao carácter da Nação e ao seu legado é uma forma de revisionismo, de falsificação histórica e ocultação, que pretende apagar da memória colectiva, principalmente da que servirá as novas gerações, o verdadeiro sentido do projecto Português no mundo e os pilares da sua identidade. Pretende, no fundo, armadilhar o futuro, esvaziando o céu de uma terra que há muito perdeu o chão.

Nenhuma das grandes nações da História está isenta de erro e a evolução da Humanidade sobre o planeta tem sido feita à custa de conquistas, de desastres, de luta pela sobrevivência ou pelo poder, de busca da Paz ou da guerra. Mas o contributo dado por Portugal, ao longo de toda a sua História, para a aproximação dos povos, para o conhecimento do Homem pela descoberta do Outro, ficou bem expresso na saga dos Descobrimentos, quando o nosso país liderou um movimento civilizacional de amplitude global, que permitiu a expansão do mundo sobre si mesmo e a abertura de horizontes com os quais a humanidade não sonhava.

O Projecto Áureo português foi bem mais do que a construção de um simples império colonial. Ele representou a expressão plena de um universalismo afectivo e de uma Alma infinita que se contemplava a si própria em qualquer lugar da Terra, do Brasil à Índia, do Tibete a Timor. E ainda que a força do poder e o poder da força tenham muitas vezes sido usados nos diferentes alhures onde chegou a ânsia de conquista - que mais do que do outro, foi a ânsia de conquista de si próprio - o que nesses lugares deixámos de mais importante, porque mais vivo e vivificante, foi a marca indelével de uma comunidade de afectos reunida em torno de uma utopia espiritual. Por isso há hoje portugueses espalhados por todo o mundo. Portugueses de todas as cores, de todas as raças e línguas, de todos os credos e nações. Por isso hoje a Esfera Armilar permanece na bandeira que nos representa, como símbolo de uma vocação fraternal perene e tradução oculta de um lema que fez de Portugal e dos portugueses dignos capitães de uma saga maior, em busca da Verdade, da Justiça e da Paz (Aleph, Daleth, Shin).

 

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Por isso também resiste nos atlânticos Açores a Ave encimando a esfera do Mundo, sobre a Coroa do seu Imperador - a Criança ou o Pobre - trazidos como luz eterna à noite escura do século pela Rainha da Rosa e pelo Rei que nos lavrou na Alma um destino tanto mais belo quanto incompreensível e sofrido. Sabeis novas do meu amigo? Ai Deus e o é?

Vive em todos os povos, porque é constitutivo do humano, a chaga do preconceito, da ignorância e do temor ao outro. Mas poucos foram esses povos, ao longo de séculos e séculos de desventuras, que como os portugueses buscaram nesse outro a razão de si próprios, vendo neles, reflectida como num espelho, a inocência de um Império intraduzível, sem espaço nem tempo, cujo monarca único é o Amor.

Não. Portugal não foi, não é e não será, por muito que os seus detractores o tentem impor, um país racista. Dorme, é verdade, um sono de morte. Um sono fundo, comatoso, povoado de sonhos lúgubres e dantescos, onde ladrões e necromantes dançam e riem em torno dos círculos infernais. É verdade que Portugal é hoje um espectro, uma sombra, um esquecimento. Mas brilha teimosamente no peito desse espectro "uma pequenina luz bruxuleante", um vestígio tenaz da sua Alma Eterna que será, se assim Deus o quiser, quem iluminará o caminho da noite e encherá de rosas o abismo.

 

 

Bruno Santos

(blogue AVENTAR)

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Convidada: ANAMAR

por Pedro Correia, em 11.09.17

 

Em Setembro...

  

O que diria Raul Brandão, se voltasse a este mundo, e visse os queridos lisboetas incomodados com tantos turistas?

São euros, senhores,  são "euro milhões"...

Foi este escritor tão realista como lírico que me ajudou há alguns anos a descobrir o significado da expressão "vai-te embora ó mês de Agosto".

Era uma expressão lá muito de casa, dita pelo meu pai, quando havia alguma contrariedade ou alguém o aborrecia.

Estamos situados na Figueira da Foz, cidade-mãe da que foi considerada, até fins dos anos 70 do século passado, Rainha das Praias de Portugal, praia da Claridade.

Raul Brandão mostrou-me o caminho. Escreveu que considerava os figueirenses pouco hospitaleiros e arrogantes para com os veraneantes, por lhes ocuparem os espaços de casa, pois ao alugar iam viver para anexos, a ocupação de ruas, cafés e esplanadas e tudo o mais que alimenta uma estância balnear e os levava a expressarem-se dessa maneira.

Junho, Julho e Agosto eram plenos, Setembro  trazia os banhistas de alforge, que pela sua simplicidade não traziam mal ao seu "mundinho". (Conhecer a Figueira do século passado é uma riqueza no maravilhoso livro de Jorge de Sena "Sinais de Fogo").

O ADN dos habitantes de uma região é para a vida... Não deixa de ser estranho que os figueirenses, ainda hoje, continuem a pensar da mesma forma, mas em escala menor, na proporção dos banhistas que recebem, que são muito menos, oriundos de Coimbra e Beira Interior, nostálgicos  de um passado que também foi meu, mas não pratico e resumido ao mês de Agosto.

Outrora, alugar casas três meses seguidos era a verdadeira "almofada de conforto" numa cidade de turismo e pesca.

As boas vias de comunicação permitem que as pessoas façam praia e voltem a casa. Mais baratinho...

Bom, este é um "delito de opinião"... que faz de mim uma filha esconjurada pelos detractores da cidade. 

Eu continuo a dizer "vai-te embora ó mês de Agosto", mas porque gosto muito de Setembro. 

 

 

 

Anamar

(blogue MAR À VISTA)

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Convidada: CÁTIA MADEIRA

por Pedro Correia, em 06.09.17

 

Não é feliz? Ai que horror!

  

Vivemos numa espécie de Síndrome de Felicidade, em que o êxtase com o que somos tem de estar sempre num qualquer pináculo de satisfação que pouco se entende.

Quando era miúda não havia redes sociais. Quando só tínhamos quatro canais e a TV por cabo era um privilégio de muito poucos, nesse tempo não se falava de felicidade. Não havia questionários com o nível de felicidade. A publicidade não vendia a bendita de forma tão explicita e nós também não nos preocupávamos tanto com ela.

A vida vivia-se com o que existia. Todos sabiam que havia momentos do “tem de ser”, em que a felicidade está tudo menos presente; os momentos de castigo, os de insatisfação, os de inveja, os de ciúme, os de levar uma lambada na cara e engolir o choro acompanhado de lágrimas fingindo não ter sentido nada. Depois existiam os momentos em que estávamos contentes.

Hoje a felicidade é um objectivo, um projecto, um “goal” (para os que preferem em inglês). Ser feliz é para alguns uma opção, uma escolha. A mim parece-me que aquilo que me tentam fazer assimilar se parece cada vez mais uma obrigação. Sorrir, mesmo em dor.

Parece que todos temos de estar sempre a encontrar motivos para esfregar felicidade em face alheia. Sobrando-nos os momentos do sofrimento colectivo, aqueles em que se colocam sinais de luto no Facebook por conta de uma tragédia nacional. Ou aqueles em que mostramos enraivecidos porque um país alheio escolheu mal o seu presidente.

De resto, tudo no nosso pequeno mundo corre na perfeição, afinal de contas depende apenas das nossas escolhas e da nossa vontade. As restantes frustrações são apenas histórias mal resolvidas.

 

Jamais no tempo de minha mãezinha alguém se lembraria de querer validar a qualidade do valor do leite que vendia pelo nível de felicidade das vacas. Hoje, uma conhecida marca de lacticínios usa exactamente esse rótulo para garantir que o seu produto é o melhor do mercado.

Pergunto-me quem terá feito o questionário às vacas. Penso cá com os meus botões se alguém enviou por e-mail um questionário, ao estilo Marktest, daqueles com mais de 50 perguntas, para que as vacas fizessem uma avaliação ao seu nível de felicidade. Mais uma vez, para quem prefere estrangeirismos, a vaca faria um “assessment”.

A vaca, depois de um dia a dar leite a troco de um fardo de palha, abre o e-mail e depara-se com cinco dezenas de perguntas às quais deve responder de: “mu” a “muuuuuuuuuuuuuuu”, sendo que “mu” corresponde a “discordo completamente” e “muuuuuuuuuuuuuuu” corresponde a “concordo completamente”.

A felicidade serve para vender tudo, até correntes banhadas a ouro com uma pedra pendurada na ponta.

Quando ouço alguém afirmar que a felicidade é uma escolha dou comigo a ruminar: “como será a vida desta pessoa? Que raio de obstáculos terá encontrado?”, é provável que poucos, é possível que nenhuns, ficando no fim da linha a hipótese de ter encontrado uma qualquer espécie de life coach (que são aquelas pessoas que para aí andam a ensinar os outros a viver) que lhe deu a receita mágica.

 

Mas não há nada como olhar para um caso prático. Concordam?

Olhemos então com atenção para a Clotilde Maria.

 

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A Clotilde Maria levanta-se às 5:30 da manhã, come qualquer coisa sem lacticínios e sem glúten. Tira o pijama apesar do frio e veste o equipamento de corrida. Quando saí à rua está um frio de rachar, sente-se tentada a voltar para a cama, mas ontem, sob o sentimento de “motivada” tinha já dito no Facebook que hoje corria logo pela manhã. No fim do seu texto inspiracional estava um #noexcuses.

Ao fim de 3 km já estava arrumada mas castigou o corpo mais um pouco, afinal de contas não se tinha esquecido de ligar a aplicação e podia publicar na sua conta os quilómetros percorridos. No fim, sem estar certa se desmaiaria ou não, publicou o feito. Uma foto do seu relógio xpto para acompanhar. Tirou várias selfies, mas desistiu, em todas estava capaz de vomitar. Assim não seria motivadora. Publicou tudo com um “a sentir-se feliz”, concluindo com um simples #nopainnogain e uma frase “vale tanto a pena começar o dia assim”. Até chegar a casa recebe pelo menos 10 gostos das amigas que a invejam no trabalho, as mesmas que lhe passam o dia a dizer “quem me dera ter coragem”. As que ainda estarão na cama a esta hora.

O dia passa sem nada de bom para contar. Mal viu o filho pequeno que entretanto o marido já deixou no colégio. Não falou com o marido porque este tinha uma reunião cedo e correu para os transportes. O autocarro atrasou-se, o barco esteve em greve e a fila para pedir um café interminável.

Mas chegou ao emprego, ligou o computador, fez 20 gostos nas páginas das amigas e, apesar de estar passada dos carretos, publicou uma imagem retirada do Google onde dizia “a vida é feita de pequenas coisas, aproveita e sê feliz”. Recebeu 100 gostos.

O chefe disse mal do seu trabalho, perdeu dois ficheiros de Excel importantes porque o PC ficou passado, a mãe ligou-lhe a dizer que o pai estava pior, saiu fora de horas do escritório, mais greves, mais autocarros atrasados. Chegou a casa, deu um beijo no filho e foi fazer o jantar. Quando acabou de arranjar tudo para o dia seguinte o filho já tinha adormecido no sofá. Deitou-o e antes de dormir publicou novamente no Facebook: “Ser feliz é a minha escolha, qual é a tua? Boa noite”.

Adormeceu a chorar.

 

Alcançar um momento de júbilo, daqueles que recordamos em velhos, nos serões com amigos, ou já caquéticos no lar, deixou de ser algo que sentimos porque um conjunto de variáveis da vida assim o proporciona. Passou a ser algo que depende inteiramente de nós, independentemente do que a vida nos oferece. Transformou-se num estilo de vida. Uns são budistas, outros são católicos, mil outras religiões e crenças, e depois há os felizes.

Às vezes imagino que quando adormecemos um qualquer neurónio, chefe do gabinete da felicidade, manda chamar todos os outros e, enquanto vira as páginas do seu flipchart, demonstra a evolução que estão a fazer. Ameaça de despedimento os neurónios insatisfeitos e promete promover os que a procuram com verdadeiro empenho.

Há uns meses ouvi uma citação fantástica que sou incapaz de reproduzir mas que, em suma, pretendia transmitir o seguinte: quanto mais perseguimos a felicidade, menos a encontramos. E eu, que escrevo neste blog com nome choninhas, cada vez mais compreendo esta realidade.

A felicidade é um lugar que encontramos a espaços, são momentos, episódios, circunstâncias. A felicidade é a primeira palavra de um filho, uma manhã sem preocupações, uma tarde de sol na praia enquanto os miúdos correm na areia. São coisas pequenas, comuns, que de tão banais parecem poder ser orquestradas, planeadas, mas não podem. A felicidade nasce da espontaneidade do momento e fica gravada na nossa memória.

 

Antes de ir pregar de volta para a minha freguesia, deixo ainda a entrevista feita por um programa alegre à Cláudia Marisa, uma eterna infeliz, só Deus sabe porquê! Já que a apresentadora não entende.

 

Boa tarde a todos, estamos aqui esta tarde para falar com a Dona Cláudia Marisa que nos vem falar um pouco sobre si a propósito de nada, tínhamos de encher o programa com conteúdos.

(risos forçados)

- Boa tarde Cláudia Marisa.

- Boa tarde.

- Então conte-nos um pouco sobre si. É uma mulher feliz?

- Não. Por acaso não sou.

- Não é feliz? Aí que estranho! Mas então porquê?

- Bom, perdi toda a minha família. Os meus pais morreram num acidente de viação e eu fui entregue num orfanato. Quando fiz 18 anos saí e fui trabalhar para ter dinheiro para alugar uma casa. Conheci o meu marido nessa empresa. Casámos. Estávamos felizes...

- Então quer dizer que já foi feliz? Porque não está agora?

- Porque o meu marido teve um acidente de trabalho e morreu.

- Como assim? Conte-nos tudo.

- Deixaram que lhe caíssem em cima várias paletes de latas de salsichas.

- Que horror. Essa empresa funcionava mal em termos de logística.

- Por acaso não. O meu marido não devia estar lá. Descobri depois de ele morrer que me traía com a Jacinta da charcutaria. Estavam a encontrar-se escondidos nesse momento quando as paletes lhes caíram em cima. Ficaram juntos para sempre.

- E depois?

- Depois descobri que estava grávida. Mas perdi o bebé com o stress. Voltei a estar sozinha.

- Mas tem amigos e amigas certamente...

- Não, as pessoas tendem a afastar-se de quem tem muito azar. Gostam mais de pessoas felizes e que atingem objectivos.

- Se calhar a Cláudia Marisa tem pensamentos negativos. Tem, Cláudia, pensamentos negativos? Ou consegue olhar para a frente e ver um futuro brilhante?

- Choro muitas vezes a pensar no que me aconteceu.

- Pois é isso. É isso que impede a sua felicidade. Está tudo na sua mente. Já experimentou mindfullness?

- Não sei o que é. É algum tratamento?

- É um estilo de vida.

- Certo.

- Vai ver que se se encher de força de vontade vai ser feliz.

- Descobri que tenho só tenho seis meses de vida.

- Ora que chatice. E o que é que fez em relação a isso?

- Estou a ser acompanhada por um excelente médico num hospital público.

- Publico, disse?

- Sim.

Hummm. Já experimentou deixar o glúten e os lacticínios?

- Não.

- Pois. Olhe que pode ser isso.

Entretanto alguém fez sinal, o tempo estava a acabar. Terminaram o programa com um “até a amanhã e não se esqueçam de ser felizes”.

As luzes apagaram-se, a Cláudia Marisa voltou para a sua miséria, sobre a qual havia de optar ser feliz. A apresentadora seguiu com os seus compromissos e as suas publicações nas redes sociais; aquelas cujas fotos foram tiradas  sem querer  por um fotógrafo profissional, num momento de profundo júbilo, enquanto corria à beira-mar, ainda maquilhada e com roupa sem um pingo de suor.

 

 

Cátia Madeira

(blogue EM BUSCA DA FELICIDADE)

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Convidada: MARIA ARAÚJO

por Pedro Correia, em 04.09.17

 

O momento certo

  

Há cerca de um ano tive um contratempo com alguém da blogosfera, a propósito de um e-mail que me enviou, e a que não respondi porque a minha frequência no Sapo Mail era praticamente zero. Desde então tento ler, diariamente, a correspondência que recebo. São, maioritariamente, comentários/respostas aos posts.

Hoje, final da tarde, dei uma vista de olhos ao correio e, de repente, um nome que conheço da blogosfera chamou-me a atenção. Reparo no assunto.

Se os meus olhos ficaram petrificados, o meu coração bateu forte com a surpresa do conteúdo.

«Porquê eu?»

«E agora?! O que vou fazer?»

 

Sem a miníma ideia sobre a volta a dar ao assunto, sem conseguir perceber o que levou tão distinta pessoa a fazer-me um convite destes, estava a minha cabeça confusa e os meus olhos liam e reliam o pequeno texto.

Não tinha palavras nem dedos que me levassem ao teclado para dar-lhe uma resposta.

Pensei procurar textos no meu blog que me dessem ideias. Não queria decepcionar este senhor.

Foi então que me lembrei de cumprir o desafio que eu própria lançara a alguém, há algum tempo, e que não cumprira porque estava sem ideias.

No ambiente de trabalho do computador, procurei o documento que guardara para o reler e retribuir no momento certo.

Abri-o e li.

 

Num desabafo (assim o interpretei), o autor do texto transmitia alguma nostalgia de escrever no papel, à moda antiga, de corrigir os erros manualmente, o que a tecnologia agora faz por si.

E fazia a comparação entre o texto publicado, escrito no teclado, sem erros e perceptível, com o original, manuscrito, que vai “esgalhando”, de modo a chegar assim ao leitor.

Os puristas vêem a escrita no teclado como um retrocesso, porque assim não se tem consciência da passagem das ideias do papel para o monitor. Isto levou-me a verificar de que modo a minha escrita no computador e a manuscrita seriam diferentes também.

Peguei no papel e na caneta. Escrevinhei o que me veio à mente.

Risquei, rabisquei, rasguei folhas.

Confesso que senti alguma dificuldade em escrever uma frase.

 

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No teclado, os dedos chegam lá com destreza e os olhos detectam os erros. Percebemos que as ideias estão mal definidas, apagamos, corrigimos, acrescentamos, copiamos, colamos. Perdemos consciência do valor que as rasuras, os rabiscos, o pensamento e as emoções que transmitimos ao papel têm tanto na escrita como na nossa vida.

Isto fez-me voltar atrás no tempo. Foram muitos os manuscritos que guardei nas gavetas físicas das minhas memórias: os de amor, os de família, os de amigos, os do simples prazer de escrever.

No teclado do nosso computador escrevinhamos uma frase, um sentimento, uma opinião, um conceito. E esquecemos.

É como as fotografias. Com as novas tecnologias, deixámos de gravar no papel, de pôr na moldura que decoraria o móvel da sala aquele momento especial. Ficam arquivadas nas muitas pastas do computador até ao dia em que nos lembramos de reviver aquela viagem, aquele dia, aquele momento.

Acabo este este texto com a mesma frase/pensamento que o autor “esgalhou” no seu: “Com os actuais processadores de texto, deixei de ter passado."

 

 

Maria Araújo

(blogue CANTINHO DA CASA)

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Convidado: JOSÉ RICARDO COSTA

por Pedro Correia, em 01.09.17

 

Pequeno devaneio outonal em pleno Verão

  

Embora partilhem a mesma melancólica serenidade, gosto mais de pensar num cemitério como uma espécie de alfarrabista do que num alfarrabista como uma espécie de cemitério, preferindo assim, em ambos, vestígios de vida onde tudo está feito para que prevaleça a morte. É verdade que as prateleiras do alfarrabista mais parecem campas de autores, de títulos, de editoras, ou mesmo de aristocráticos jazigos do que foram outrora valiosas e luxuosas colecções, e que hoje, quando só há tempo para a mais fugaz novidade (dizer “escaparates” nunca foi tão apropriado), jazem, ignotas, na mais desconceituada escuridão, da qual apenas uns bibliófilos ousam resgatar. Mas por muito anémicas, tísicas ou aneurismadas que estejam pelo tempo, basta um par de olhos que saibam ler para os ressuscitar, ainda que como mera curiosidade histórica ou estética. Ora, o mesmo pode acontecer num cemitério. Não com os seus moradores, que dormem o seu tranquilo sono eterno, mas com toda uma retórica fúnebre que, embalada pelo tempo, também por lá foi adormecendo.  

Calhando ir a passar ali perto, resolvi entrar no cemitério da Lapa, mesmo ao lado da igreja onde repousa o liberal coração de D. Pedro IV, para um segundo abraço ao venerável Camilo, durante o qual pressenti de novo o seu lamento por ter aquele ignóbil músculo como vizinho, em vez do irmão inteiro, cuja companhia preferiria. Ter, em pleno mês de Agosto, e num dia em que outras zonas do país iam ardendo sob um Sol impenitente, manhã tão fresca, ainda para mais coberta por um romântico nevoeiro e salpicada por uns inofensivos pingos de chuva, é um luxo meteorológico que não iria desprezar, aproveitando-o para um higiénico e não menos pedagógico passeio de moderno flâneur por aquela ilha de pedra transformada em alfarrabista para quem o procurar.

Só a título de exemplo, veja-se a frase inscrita no túmulo do pintor Silva Porto. Por muito que seja o respeito perante uma ilustre figura que hoje parte, já não é possível uma dedicatória como esta, sendo por isso, letra morta:

 

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Como será impossível, num tempo em que muitos alunos nem sabem os nomes dos professores (são o stôr de Matemática, a stôra de Inglês) esta dedicatória ao antigo professor:

 

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Ou ainda esta informação prestada pelos filhos da baronesa de Fornelos sobre o pedido da mãe relativamente à sua última morada:

 

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Como tantos livros que jazem nas prateleiras dos alfarrabistas, também já ninguém escreve sobre a pedra textos como estes para homenagear os mortos. Não porque não se queira, em virtude do nosso livre-arbítrio, mas porque não se pode. Tal como na Literatura. Sendo a língua a mesma, a portuguesa, poderíamos escrever romances como Herculano ou Camilo, lado a lado com os de Lobo Antunes ou Saramago, ou poesia como a de Maria Browne, João de Lemos ou Bulhão Pato com a mesma naturalidade com que o fazem Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice ou José Miguel Silva. Mas não o fazemos pela mesma razão que não vestimos as suas roupas, não partilhamos a sua sensibilidade moral, não usamos as mesmas expressões ou gestos quotidianos: o tempo, essa camisa de forças que nos prende a uma época, não o permite.

Mas uma coisa é escrever, outra será ler. Se os museus continuam cheios de pintura que já ninguém pinta, se continuamos a ver filmes antigos que já ninguém realiza, se podemos apreciar vestuário antigo que já ninguém veste ou gostar de conhecer usos e costumes que ninguém segue, por que razão temos mais dificuldade com textos velhos? Talvez por falarmos ou escrevermos diariamente com a mesma naturalidade com que respiramos, acabamos por sentir mais o peso da sua antiguidade, a qual, instintivamente, rejeitamos no nosso quotidiano. Olhamos para uma pintura do século XVI ou para um filme mudo dos anos 20, e apesar de já não fazerem parte do nosso quotidiano, não relutamos em aceitá-los, sem que isso cause a menor estranheza. Porquê? Cá está, precisamente por já não fazerem parte desse quotidiano, permitindo uma margem de segurança que nos dá liberdade para gostar deles, sem medo de cairmos no ridículo.

Com a palavra, é muito mais difícil. Mas isso não é justo e nem sequer faz sentido. Gostar de ler Camilo ou Maria Browne não significa ser como eles do mesmo modo que gostar de ver dedicatórias antigas não quer dizer que um dia as façamos iguais. Acontece apenas que não há melhor porta para entrar num espírito antigo do que a palavra. A palavra não tem matéria, forma ou cor como a que vemos num vaso grego, num vestido renascentista ou numa escrivaninha do século XVIII, sendo também por isso que é através dela, seja num alfarrabista de papel ou de pedra, que as almas ainda vivas melhor entram na textura espiritual das que já o foram, resgatando-as mais uma vez da morte.

 

 

José Ricardo Costa

(blogue PONTEIROS PARADOS)

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Convidado: ARMANDO PALAVRAS

por Pedro Correia, em 30.08.17

 

Esboço de uma literatura russa

  

Aos que sofreram nos GULAG soviéticos

as agruras sofridas pelos judeus nos campos de extermínio nazis

e pelos chineses nos campos do deserto de Góbi.

 

 

Enquanto no Ocidente, durante todo o século XIX, autores como Baudelaire e Marx, entre outros, aproveitaram o processo de modernização em desenvolvimento para o usarem como fonte de energia e material criativo, nas áreas geográficas fora do Ocidente a modernização era inexistente. Foi essa a situação da Rússia durante todo o século XIX. A sua economia estagnava, e em alguns casos até regredia. Trotski reconhece-o na sua História da Revolução Russa, no I Volume: “O traço essencial e o mais constante da história da Rússia é a lentidão em que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural."

Este atraso em relação ao Ocidente desempenhou um papel central na politica e na cultura russas, da década de 1820 ao período soviético. Cerca de cem anos. A Rússia, em relação ao Ocidente, no século XIX, foi um arquétipo do Terceiro Mundo no século XX.

 

No inicio do século XX, o país com maior dimensão populacional em quase todos os outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa (exceptuando o Império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-o século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Tchékhov di-lo sarcasticamente na sua peça O Cerejal.

Contudo, esta era do subdesenvolvimento russo produziu, no espaço de duas gerações, uma das maiores literaturas do mundo. E, curiosamente, foi São Petersburgo, a capital imperial, a mais clara expressão de modernidade no solo russo do século XIX. Que iniciou uma tradição literária brilhante com características próprias. Assumida com Puchkine (no seu Cavaleiro de Bronze) e se estendeu a Gogol, Chernyshevski, Dostoievski e Bieli. Nela surge como personagem principal o “homem comum”, cujo destino é sempre o de vitima. Mas uma vitima cada vez mais audaciosa no século XIX, fruto das várias revoluções. Uma vitima que encarna a vida real de alguns dos autores. Dostoievswki, por exemplo, teve a vida moldada por dois acontecimentos. O seu pai morreu quando ele era ainda jovem, provavelmente assassinado por um dos seus servidores. Mais tarde, o autor de Recordações da Casa dos Mortos esteve prestes a ser executado por traição. Foi cruelmente conduzido ao cadafalso e deixado de olhos vendados à beira da morte, antes de ser informado que a pena fora comutada.

E como Dostoievski nenhum poeta, romancista ou dramaturgo russo terá trabalhado em condições normais de liberdade intelectual. Muito menos em condições favoráveis a essa liberdade.

 

A literatura russa é intima, escrita para o leitor russo. Mas mesmo o leitor exterior a esse território com a dimensão de metade da lua consegue perceber o tormento de Pushkin, o desespero de Gogol, a alma dilacerada de Dostoievski na Sibéria, a luta impetuosa de Tolstoi contra a censura e o desalento do extenso rol de assassinados (ou desaparecidos) incrustados nas façanhas literárias russas do século que nos precedeu. A estes podemos juntar Turguénev, Tchecov, Andréev ou Nikolai Leskov, que se tornaram clássicos para as gerações posteriores.

Mas o homem comum torna a aparecer-nos no contexto soviético, após uma revolução que juntamente com os seus companheiros venceu; numa nova ordem onde teoricamente goza de todos os direitos de que necessita. Uma ilusão que pagou cara.

O mítico John Reed, no seu imortal 10 Dias que abalaram o Mundo, descreve-nos em rigor os primeiros dez dias da tomada do poder bolchevique. Só a História da Revolução Russa de Trotski se lhe assemelha, suplantando-o em muitos pontos.

 

As políticas genocidas na Rússia Soviética dos anos 1932-1933 e 1937-1949 estão hoje devidamente documentadas e estudadas. Já Dostoievski, em Demónios, nos transporta às origens do terrorismo moderno. Porque o conceito de “terror em massa” é fulcral em Lenine, fórmula que surge a partir da revolução de 1905. Volta a surgir em força na Primavera e durante o Verão de 1918, estando ainda presente em Abril de 1921. E largamente apoiada por intelectuais como Gorki, sobretudo no que diz respeito à massa de camponeses. Em 1930-31, foram deportados cerca de dois milhões de camponeses.

De repente, o terror de 1793 dos “homens do barrete frígio” é institucionalizado no dia 5 de Setembro de 1918 pelo decreto “sobre o terror vermelho”. De facto, os meses que se seguem caracterizam-se por um clima de violência estatal absolutamente novo. São 15.000 as vítimas do Outono de 1918. Ou seja, foram executados, em dois meses, três vezes mais do que o número total de executados no século anterior pelo terror czarista!

 

Nicolas Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue jorre a rodos!”.

Caracterizado pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos “Amanhãs que cantam!”.

É neste contexto histórico que surge esta literatura, produzida por homens e mulheres que sofreram na pele o terror soviético, cujas personagens das narrativas são, na dimensão humana, os mesmos “deuses” e heróis evocados por Homero, Sófocles, Ésquilo e Euripides. [1]

 

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Ivan Chmeliov (1873-1950) nasceu e foi criado em Moscovo, onde se formou em Direito. Em 1918 instalou-se na Crimeia. Foram anos de fome, medo e humilhação. Em 1920, o filho único do escritor, ex-oficial do Exército Branco, foi preso no hospital e fuzilado.

Emigrou em 1922 para França. A sua obra-prima, onde conta a história da Crimeia do pós-guerra, um testemunho vivo da pavorosa concretização da “grande experiência de transformação” politica e social da Rússia levada a cabo pelo partido bolchevique, foi saudada por Thomas Mann.

Em Março de 1922, 400 mil pessoas passavam fome; 75 mil morreram. Até ao Verão de 1923, 100 mil pessoas morreram de fome.

É sobre esta tragédia que Chmeliov se debruça em O Sol dos Mortos.

  

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Evgueni Zamiatine (1884-1937), escritor por vocação e engenheiro naval por profissão, é um dos primeiros vultos a tratar o homem comum da época soviética nos seus contos. No Ocidente tornou-se famoso com Nós (1924), a pioneira distopia que iria influenciar textos de género como 1984 de Geroge Orwell. Onde denuncia as maluqueiras bolcheviques de 1917, ao intervirem na vida privada, acabando com a instituição família, transformando o espaço doméstico em espaço colectivo onde viviam várias famílias, com dormitórios colectivos e salas próprias para o sexo!

Em 1931 endereça uma corajosa missiva crítica a Estaline.

Os contos de Ziamatine são “um lampejo do que a literatura pós-revolucionária poderia ter sido, se a ditadura não tivesse eliminado totalmente a independência, a ousadia e o individualismo” (Mirra Ginsburg). Nas suas narrativas, impelido pela total liberdade humana de criar, converteu-o num cidadão inconveniente em dois regimes despóticos. O czarismo condenou-o por um ano de exílio; o comunismo baniu-o para sempre.

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Ossip Mandelstam (1891-1938) foi um dos grandes poetas modernos. Escritor profundamente tradicional (da tradição de Petersburgo), na sua novela de 1928, O Selo Egípcio, trata o homem comum como até aqui não havia sido tratado porque nos aparece num contexto soviético, com o seu drama e angústia pós-revolucionários. No final da história Mandelstam faz referência a Moscovo e ao hotel Selecto, através do capitão Kirzzanowski. Moscovo tornara-se o quartel-general de uma nova elite soviética protegida (e chefiada) por uma terrível polícia secreta que actuava a partir da prisão Lubianka, onde o poeta, seis anos depois, seria interrogado e detido.

Dois anos depois da publicação d’O Selo Egípcio, o poeta, juntamente com Nadejada, sua esposa, regressa a Leninegrado, mas os esbirros do partido que estavam ao comando da Sociedade de Escritores e controlavam os empregos e a habitação, expulsaram-nos.

Os Mandelstam regressam a Moscovo. E em 1933, no meio da campanha estalinista pela colectivização das terras, onde perecem mais de quatro milhões de vidas camponesas, e a um passo da Grande Depuração que levaria à morte outras tantas (ou mais), o poeta compôs o poema n.º 286 sobre Estaline.

Embora Mandelstam o não tenha escrito, leu-o em voz alta diversas vezes em reuniões à porta fechada. Um dos que o ouviram denunciou-o à policia secreta. Numa noite de Maio de 1934 foram buscá-lo. Após terríveis sofrimentos físicos e mentais, quatro anos depois morreu num campo de passagem perto de Vladivostoque.

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Isaac Babel (1894-1940), influenciado por Gogol (e Maupassant), nasceu na cidade portuária de Odessa que pertencia ao império russo. Era filho de um vendedor de roupas usadas e de uma judia moldava. O seu tio fora morto num pogrom.

Borges, referindo-se a Babel, dizia que o “clima habitual” da sua vida “seria uma catástrofe”.

As suas principais histórias foram incluídas, mais tarde, em Exército de Cavalaria. Escreveu ainda Contos de Odessa, narrativas de inspiração autobiográfica sobre a sua infância no gueto de Moldavanka, antes e após a revolução.

Em 1930 testemunha, na Ucrânia, a brutalidade e as mortes causadas pela colectivização forçada da agricultura. No Congresso da União de Escritores Soviéticos, em 1934, Babel é já um autor marginalizado pelo realismo socialista. O regime silenciou-o. Em 1935, a sua peça Maria viu a estreia cancelada em Moscovo pela polícia política. Em 1939 foi preso e interrogado sob tortura na prisão do KGB em Moscovo. Segundo a versão oficial teria morrido numa prisão do Gulag em Março de 1941. Os seus manuscritos foram confiscados e destruídos.

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Vassili Grossman (1905-1964) nasceu na cidade de Berdítchev, a “capital judia” da Ucrânia, em 1905. Filho de judeus, o pai era engenheiro e a mãe professora. Embora tenha estudado engenharia, Vassili acabou por se tornar jornalista e escritor.

Como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobriu as batalhas de Moscovo, Estalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga.

Em 1961, os agentes do KGB assaltam-lhe a casa levando-lhe todas as anotações que possuía para Vida e Destino, um volume extraordinário, mas de leitura complexa. Em 1974 um dos originais que sobreviveram é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin e através do físico nuclear Andrei Sákarov e do humorista Vladimir Voinovich, esse manuscrito sai do país para ser editado em vários países em 1980. Em 1988 é publicado na Rússia de Gorbatchov.

Em Vida e Destino, Grossman, além de denunciar as atrocidades nazis, manifesta um profundo desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917. Anna Semiónovna foi uma das vítimas dos pogrom e Evguénia Nikoláevna, perseguida devido às posições políticas do seu marido, Víktor, assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da “confiança do partido”. E procurou guiar-se e “agir segundo a sua consciência”, o melhor que foi dado ao ser humano.

O terror leninista/estalinista, assinalado anteriormente, foi confirmado em obras literárias como Tudo Passa, de Grossman. Um dos seus personagens, um activista convicto, a dado passo diz: “Escorraçámo-los como a um bando de gansos.”

No fim da vida escreve o seu último volume. Uma espécie de reportagem na Arménia. Com o qual tornou a ser molestado por abordar o genocídio arménio. 

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Varlam Chalamov (1907-1982) nasceu em Vologda. Filho de um padre ortodoxo, viveu os seus primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga. São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em Gulag, como Evguenia Guinzbourg, em Le Ciel de La Kolyma, o testemunham.

A este lugar, Varlam chama “o desembarcadouro do inferno” [2]. Num dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso, diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis mensagens.” Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão por dia. 

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Alexandr Soljenitsine (1918-2008) nasceu em Kislovodsk. A grande denúncia sobre o terror soviético surgiu numa obra sua - Arquipélago Gulag. Os gulag [3] eram campos de concentração e de trabalho forçado na antiga União Soviética.

Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi a sua primeira novela. E foi o primeiro testemunho publicado na antiga URSS por um dos presos políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia do Gulag. E para isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht, que há muito sabia dessa tragédia mas continuava a venerar o sanguinário Estaline.

Ivan Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos campos de trabalho forçado, o Gulag, que o regime de Estaline (e Lenine) aproveitaria do tempo dos czares. É, aliás, bem provável que a sua origem esteja na prisão da ilha de Sacalina, à qual Tchécov dedicou um livro sobre o estudo que aí fizera.

Os detalhes são assombrosos. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!

O relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Soljenitsine, à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele próprio, mais tarde Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Só por milagre a detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão de artilharia no Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate. No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um amigo.

Já como prémio Nobel e apenas com um livro publicado (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich), passa à escrita os apontamentos que iriam dar origem a O Arquipélago Gulag, publicado em 1973 no Ocidente. A obra de Soljenitsine é uma narrativa sobre factos presenciados pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, um dos campos do arquipélago, e pelas cartas e relatos de 237 pessoas.

 

Quantos desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais do que os que foram chacinados no holocausto nazi.
Anne Applebaum, em Gulag, trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável.                                    

 

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[1] Porque se trata de um esboço, neste escrito, por receio de lhes não dar a dignidade que merecem, não se reproduz reflexão sobre muitos autores russos, dessa época, que mereciam uma referência tão elevada como aqueles que nos mereceram essa reflexão: Sinyavsky que cumpriu pena em vários campos de trabalho forçado entre 1966 e 1977; Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Joseph Brodsky, Jaan Kross (Estónia) e Chukovskaya, que na sua novela trata de Bilibin e Veksler.

Também não se faz reflexão sobre ficções como O Meteorologista, de Rolin, ou de narrativas como Rumo à Liberdade, do polaco Slavomir Rawicz.

 

[2] José Milhazes diz-nos sobre o assunto:” Ao vaguear na Net deparei com a publicação de um trecho de um livro traduzido por mim em 1990 "Contos de Kolima” num blog chamado "Teor Crítico".

Escrita por Varlam Chalamov, ela exerceu em mim uma grande importância, tendo contribuído fortemente para a revisão de algumas das minhas ideias políticas. É depois de obras como estas, de relatos directos, pessoais, que se conclui que entre os campos de concentração nazis e o Gulag poucas diferenças existiam. Uns diziam matar pela "limpeza da raça", outros pela "classe social"... Descubra a diferença!”. (http://darussia.blogspot.pt/2013/11/contos-de-kolima-excerto.html).

 

[3] GULAG - acrónimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados para prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscovo. Cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse sistema de trabalho escravo, tema do livro Gulag, de Anne Applebaum.

Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Para se proteger da violência, alguns grupos de presos criaram códigos e leis internas que deram origem aos Vory v Zakone – a máfia russa. A quantidade de campos foi reduzida a partir de 1953, logo após a morte de Estaline. Porém, os campos de trabalho forçado para presos políticos duraram até os anos 90.

 

 

Armando Palavras

(blogue TEMPO CAMINHADO)

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Convidado: ROBINSON KANES

por Pedro Correia, em 28.08.17

 

Comuniquem menos mas falem, dialoguem e façam mais

  

Nos últimos tempos temos assistido ao discurso do "comunique mais, fale menos". Aliás, os auto-intitulados grandes comunicadores e muitos seguidores desta tendência apregoam a mesma aos sete ventos como a pedra-de-toque para resolver todos os problemas. A comunicação não vive por si só: funciona como mensageira e tem um objectivo concreto que implica a existência de uma base e de um trabalho de rectaguarda. Não se comunica primeiro e se faz depois, ou simplesmente não se faz. Não estou também a fazer um ataque à comunicação, bem pelo contrário, ou não fosse um acérrimo defensor de uma boa comunicação, seja em que contexto for. Aqui, debater-me-ei em questões práticas do nosso quotidiano, das organizações, e não na óptica publicitária.

Comunicar passou a ser a palavra de ordem, ao invés do falar e, consequentemente, um retrocesso de mentalidades camuflado com um discurso de contemporaneidade. Reparem como chamamos comunicação a muita propaganda. Propaganda traz-nos más memórias, mas basta alterar o conceito e...

Vende-se também a ideia de que todos podemos ser bons comunicadores e que basta dominar as "10 coisas que as pessoas altamente bem sucedidas fazem para comunicar" ou os "10 segredos de Saturno para agradar aos seus anéis" para o sucesso ser garantido. A comunicação é fundamental mas, por si só, não cria nada, todavia, tem um poder infinito para o bem e para o mal.

 

Também podemos sempre adoptar a postura oriental do "Comunicachim Tai Chuan" ou a dos "Monges Palradeiros de Sarnath" e comportarmo-nos como autênticos robôs, desprovidos da nossa personalidade e do nosso eu. Quem é que nunca assistiu a uma palestra ou àqueles seminários onde o conteúdo é carregado de lugares-comuns ou simplesmente não existe, mas os braços do orador, o olhar e a voz parecem uma sessão de break-dance?

Em tempos, assisti a uma conversa em que os aduladores de uma personagem discutiam o movimento da árvore e os ramos bem como a inspiração na natureza com que o alvo da sua adulação assumia o discurso e consequentemente exaltava o seu eu. Discutia-se e acarinhava-se a postura do "grande líder", já o que o mesmo dizia não era importante.

Comunicamos também por SMS, email, ou numa só direcção (por norma, a nossa) mas na realidade quão eficiente será essa comunicação? Será que estamos mesmo a acrescentar valor ou a mudar alguma coisa? Como é que com tantos profissionais da "arte de comunicar" ainda não conseguimos evoluir praticamente nada e no seio das organizações a comunicação continua a ser o maior dilema? Porque se gastam milhões em programas de formação em comunicação e os erros continuam?

De facto, também sugiro que se comecem a escolher os fornecedores destes serviços pelos resultados e não pela comunicação que muitos fazem...

Penso que a questão está mesmo aí: comunicamos demais, preocupamo-nos muito com a embalagem da mensagem, mas esquecemos o fundamental, que é o seu conteúdo e o que leva à mesma.

 

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  William Turner - War. The Exile and the Rock Limpet (Tate Britain)

Fonte da imagem: própria

 

De que me vale ter um discurso altamente trabalhado, mexer os braços como um polvo, atirar ideias para o ar se depois não existe um seguimento nem interacção entre pares?

De que me vale comunicar se o foco está em mim e não nos outros?

Comunicar não é fazer discursos, não são textos altamente burilados ou ocos, não é ser robótico na abordagem, não é achar que o comunicador sou eu, até porque a comunicação tem mais que um sentido. Entendo que a abordagem é utilizar o falar como contraponto ao comunicar e assim criar um novo conceito, mas não estará a comunicação a matar o falar e consequentemente a matar-se a si própria? Nomeadamente a sua essência?

É que tudo isto resulta bem quando estamos a falar numa direcção com um headset colocado na cabeça para uma multidão. Mas no dia-a-dia?

 

De que me vale ter uma brilhante comunicação interna na minha organização, por exemplo, se depois as minhas chefias intermédias não falam com as pessoas?

De que me vale ter standards de apresentações, emails e tudo o mais e os problemas não se resolvem porque ninguém fala?

De que me vale comunicar by the book e com isso nem me dar conta que estou a criar uma ditadura do politicamente correcto esquecendo que os disruptivos podem ser a chave para a inovação ou a solução de muitos problemas?

De que me vale comunicar se nem domino, e muito menos promovo, capacidades como a disciplina, a criatividade, o respeito, a capacidade de síntese (sob o ponto de vista de Howard Gardner, como uma capacidade integradora de várias áreas e disciplinas), a ética, a cooperação, o espírito critico e o pensamento estratégico - acrescentei estes três últimos pontos aos cinco defendidos por Gardner e que citei acima.

 

Nunca se comunicou tanto e já diz o povo que "é a falar que a gente se entende". É nestas coisas que o povo é sábio, porque todos os dias testa na prática a teoria que outros nunca ousaram tirar dos livros, dos discursos atraentes.

Lembro-me de um professor que, perante a pouca vontade dos alunos em fazer um exame, optando por substituir o mesmo por um trabalho de grupo/apresentação, respondeu: "e quando a bomba vos cair nas mãos e tiverem de resolver os problemas, vão dizer esperem aí que vamos fazer um trabalho de grupo?". Não é raro ver indivíduos da “velha-guarda” a falarem e a resolverem um problema no imediato enquanto outros preferem comunicar e levam dias a resolver um problema. Quem me conhece sabe que sou das pessoas que mais se empenham em processos de mudança, mas também tenho de reconhecer que varrer tudo o que está para trás nem sempre é a melhor estratégia.

 

Deixaria a sugestão: façamos mais, falemos e dialoguemos uns com os outros e comuniquemos menos.

Comuniquemos aquilo que fazemos ou queremos sem cair no ridículo, pois não são raras as vezes em que a comunicação se encontra desfasada da realidade e em nada alinhada com o nosso comportamento...

Foquemo-nos no nosso cérebro social (hipótese cientifica que defende que os seres humanos têm um cérebro maior, comparado com outros vertebrados, maioritariamente devido à nossa necessidade de manter um registo e aplicação da nossa interacção social) para desenvolver a nossa comunicação e consequentemente beneficiarmos mais quem nos ouve e menos a nossa pessoa, ou, numa lógica mais solidária, beneficiarmos ambos da mesma forma e com claras implicações com o bem-estar que por cá tende a ser confundido erradamente com wellness.

 

Uma outra nota: deixemos as teorias e o discurso da comunicação ir além daqueles que já estão em posições de chefia ou são patrocinados pelos media. Pode ser que assim possamos adequar esse discurso àqueles que ainda são afastados deste processo. Não podemos defender a nossa teoria se estamos a excluir aqueles que mais podem beneficiar dela... Pode trazer-nos menos retorno nas contas ao final do mês, mas no longo prazo pode ser um activo de valor incalculável.

Deste modo, o segredo do sucesso não está na comunicação, pelo menos para quem não quiser ser oco e comportar-se como uma carapaça de tartaruga sem conteúdo ou como um perfil de LinkedIn vistoso que esconde uma pessoa sem miolo. De facto, a comunicação ajuda, mas se o foco incidir somente sobre esta, corremos o risco de navegar no vazio, aumentar a entropia nos processos, criar um mundo paralelo e no médio prazo perder a confiança daqueles a quem pretendemos fazer chegar a nossa mensagem, ou não fossem célebres as palavras de Lincoln: "É possível enganar toda a gente durante algum tempo, aliás é até possível enganar sempre algumas pessoas, mas não nos será possível enganar sempre toda a gente."

  

 

Robinson Kanes

(blogue NÃO É QUE NÃO HOUVESSE...)

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Convidado: JOÃO FREITAS FARINHA

por Pedro Correia, em 25.08.17

 

Viajar ou o elogio da aventura

 

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Estados Unidos da América, Dezembro de 2015, 2h da madrugada. Conduzíamos rumo a Boston, na única etapa da viagem que não tinha sido planeada. Tinhamos feito cerca de dois terços de uma viagem de 900 km e a neve não dava tréguas. O ponteiro da gasolina estava a descer ainda mais que o da temperatura. Nada de preocupante, o GPS tinha a indicação dos postos de combustível. Primeiro posto - falhámos a saída. Não fazia mal, havia outro, umas dezenas de km mais à frente. Estava fechado. Com a gasolina já na reserva, o GPS não dava indicações de postos próximos. Para ajudar, a estrada tornava-se cada vez mais escura e estreita. Outros carros, nem vê-los.

Com o carro já a funcionar à base de fumos e boa vontade, eis que, qual oásis no meio do deserto, surge a placa com a palavra mágica. "GAS".
Finalmente! Parámos o carro e dirigimo-nos à funcionária da bomba, do outro lado do vidro. Sorriso nos lábios. Estávamos salvos!

— "Please, can we put some gas?"

— "No. This station is closed."

—  "But we came from so far away, please let..."

— "GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY. GO AWAAAAY. I'LL CALL THE POLICE. GO AWAAAAAAAAAY".

Afinal não. Não íamos pôr gasolina.

No meio do nosso desnorte, ainda tivemos lucidez para olhar em volta. Mesmo ao virar da esquina, havia um hotel. Milagre dos milagres, uma cama, finalmente! A gasolina podia esperar pelo amanhecer...

 

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Viajar também é isto. Vou-me sempre lembrar do gelo a estalar sob os meus pés, ao caminhar num glaciar; da paisagem deslumbrante após uma caminhada de quase 20 quilómetros até à base do Fitz Roy; de ver uma baleia de bossa a brincar com a sua cria; ou do entusiasmo incontido de quando entrei na Euro Disney. Mas também não me vou esquecer daquela vez em que o carro quase ficou sem gasolina no meio do nada. Ou quando ficámos uma semana retidos em Londres, sem malas e em vésperas do Natal, porque um nevão fechou os aeroportos.


Viajar também é vermo-nos em situações que são maiores que nós. Viver algo diferente do que temos em casa. Não no sentido de arriscar, ou ser inconsciente. Mas de dar espaço à espontaneidade e aceitar o imprevisto.

 

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Resorts e excursões. Tanta gente viaja com guião definido ao milímetro. Saltar de monumento em monumento. De fila em fila. Conhece-se uma cidade através de uma montra. E nunca se chega a sair do nosso pequeno mundo.

 

Eu planeio sempre o que vou ver, claro. Os monumentos, os museus, os parques. Compro bilhetes, contrato guias... Mas também adoro a sensação de me perder numa cidade. Saber o destino, sem conhecer o caminho. Andar pelos bairros, sentir o pulso do local. Pedir indicações, falar com quem lá vive.


Viajar é sair dessa nossa bolha. Só conhecemos realmente um sítio se também o virmos através dos olhos dos outros. Mudar a nossa perspectiva, aprender.

O acto de viajar é efémero, mas o que trazemos quando regressamos fica connosco para sempre.

 

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Parque Nacional da Terra do Fogo, Argentina, Outubro de 2015. Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana - Um conjunto de estradas que liga, quase sem interrupções, o Alasca a Ushuaia.

“Aqui finaliza la Ruta N. 3. Buenos Aires 3.063 Km. Alaska 17.848 Km.” - Dizia, em letras amarelas gravadas na madeira.

 

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Seria só uma placa, e não lhe teria dado grande importância, se no dia anterior não nos tivéssemos sentado à mesa de Carlos Alvarez. O Carlos foi guarda florestal durante largos anos. Agora, reformado, gosta de falar desses tempos.

Enquanto nos preparava ovos mexidos e chá para o pequeno almoço, cheio de orgulho e um brilho nos olhos, contava como tinha construído aquela placa com as próprias mãos. Quando nos preparávamos para sair, veio ter connosco. “Não se esqueçam de tirar uma fotografia à minha placa” - disse com um sorriso de orelha a orelha.

Terminámos a nossa caminhada junto a uma placa de madeira, à saída do parque. Marcava o final da Rota Panamericana. E para nós, nunca seria uma placa qualquer. Era a placa do Carlos.

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João Freitas Farinha

(blogue JOÃO FREITAS FARINHA - FOTOGRAFIA)

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Convidado: F. PENIM REDONDO

por Pedro Correia, em 23.08.17

 

A gaivota

  

Caminhei pela areia durante muito tempo, como faço tantas vezes.
Não era ainda a fornalha do Verão e corria até uma aragem fresca apesar da crueza do sol.
O mar batia à minha esquerda, sem espalhafato, e a ravina subia os seus trinta metros do outro lado, em contorsões de arenito.
Tanto quanto os olhos alcançavam, nem vivalma. Um deserto à minha frente.
Naquela solidão de mar e areia só somos atraídos pelas irregularidades; um barrote que veio na maré, uma pegada estranha ou os restos de uma fogueira em que se aqueceram os pescadores da noite passada.
E foi assim que descobri a gaivota, como uma anormalidade.
Estava pousada a uns vinte metros da linha de água. Mas não estava pousada como pousam os pássaros, sempre prontos a voar. Era como se chocasse uma ninhada.
 
Quando me aproximei nem sequer se agitou. A única coisa que movia era a cabeça, de um lado para o outro, e ao fazê-lo o seu bico era um aparo que escrevia na areia uma caligrafia desesperada.
Cheguei tão perto que podia ver os seus olhos aterrorizados, amarelos, e não sabia como demonstrar a minha compaixão.
(Em toda a minha vida só vi morrer um pássaro, e foi em plena cidade.
Despenhou-se de súbito, estrebuchou mansamente durante algum tempo e depois inteiriçou.)
 
Não me atrevi a tocar na gaivota. Por um lado imaginava o terror do pobre pássaro ao ver-se agarrado, por outro receei agravar o sofrimento daquele corpo que tão pesado jazia na areia. Senti-me inútil e grotesco.
(Confesso que o sofrimento dos bichos me toca bastante pois, ao contrário dos humanos, não podem explicar o que sentem e geralmente morrem desamparados. Por causa disso já várias vezes fui tentado a contrariar essa fatalidade.)
Neste caso não me parecia viável qualquer intervenção. Estava muito longe de qualquer ajuda especializada e desconhecia de todo o que levara a gaivota à desesperada situação em que se encontrava. Doença, acidente ou simplesmente velhice?
(Será que as gaivotas demasiado velhas pousam em praias desertas e ficam olhando o mar até ao último suspiro? Com que direito iria eu interferir num processo desse tipo, carregando desajeitadamente um bicho em sofrimento para o ver morrer num veterinário qualquer?)
 
Fiquei a olhar para ela e ela também olhava para mim. Duvido que soubesse ler no meu rosto a aflição e compaixão que eu sentia. Eu também no rosto dela não via senão os sentimentos que a minha condição humana permite imaginar.
Cheguei a pensar que a gaivota, depois do terror inicial, sentiria pelo menos o alívio de constatar que eu não lhe fazia mal.
Então comecei a recuar sem poder deixar de a olhar, até que a gaivota era apenas uma sombra como outras que resultam das irregularidades da areia.
Caminhei a bom ritmo durante a meia hora que me separava de casa.
 
Embrenhei-me nas rotinas caseiras com mais afinco do que é usual.
Mas quando anoiteceu a gaivota voltou a instalar-se no meu pensamento.
Pressentia-a agora na total escuridão da praia e não sob o sol violento da tarde.
O mar rugia como sempre, mas sem se ver.

Então desejei ansiosamente que a maré subisse e que uma grande vaga cumprisse finalmente o destino.

 

 

Fernando Penim Redondo

(blogue DOTE COME)

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Convidado: ALEXANDRE LUZ

por Pedro Correia, em 21.08.17

 

Regressão civilizacional

 

Tive a sorte, ou o azar, de ter nascido ainda na dita geração X, poucos anos antes da Y, dos millenials. O que na prática quer dizer que ainda me lembro de ver notícias sobre o IRA, sobre a ETA, sobre a União Soviética, e de assistir às notícias da queda do muro de Berlim.

Naquela altura, com 13 anos, lembro-me do orgulho que se sentia com a evolução que o mundo estava a ter. Aliás, ainda três anos antes tínhamos aderido à CEE, hoje União Europeia, o que representava finalmente a entrada de Portugal no mundo desenvolvido.

Na realidade, com alguma ingenuidade à mistura, não deixava de ter razão: aquele tempo foi um tempo de saltos civilizacionais muito positivos. Durante os anos seguintes o comunismo faliu, o Pacto de Varsóvia dissolveu-se e muitos países da antiga Europa de Leste deram os primeiros passos em democracia. 

 

Mesmo a China, após o massacre dos estudantes em Tiananmen, é verdade, começou a abrir-se ao Ocidente. A eterna luta nacional pela independência de Timor conseguiu chegar a bom porto, após o massacre de Santa Cruz. Foi uma causa que mobilizou particularmente os portugueses.

Isto tudo aconteceu à mistura com tantos outros acontecimentos negativos, como o Iraque e os Balcãs, mas a ideia que se tinha era que, apesar de tudo, o terrorismo na Europa estava a diminuir e a democracia finalmente prevalecia sobre os totalitarismos que ainda restavam da 2ª Guerra Mundial.

Hoje, dá-se o impensável.

O terrorismo atingiu novo auge, com o ISIS e outros grupos radicais, que, perante uma vida miserável, acabam por se refugiar na certeza que o Alcorão lhes dá. Tal como já tinha acontecido no passado na Europa, mas na altura por causa de outro livro, a Bíblia.

 

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Por outro lado, se olharmos para a Venezuela, vemos o comunismo regressar na sua pior forma, com o crescente controlo do Estado, mascarado de democracia, e com a desculpa que é para garantir a paz, tal como os soviéticos fizeram no passado. Neste país vemos todos os dias a população a ser reprimida e as instituições democráticas a serem destruídas. Uma espécie de doutrina Brejnev, onde tudo vale. Prender, matar, não é importante, o que importa é que Maduro consiga libertar o seu povo e assim garantir vidas miseráveis para todos. Sim, porque há coisas que não mudam. O comunismo, à semelhança de vários outros ismos, propaga-se bem na miséria.

Nos Estados Unidos, a extrema-direita perdeu a vergonha e assassinou mais uma pessoa. Ali, apesar da crise, não será tanto por causa da miséria, até porque não existir nos EUA um Maduro a arrastar a população para filas intermináveis em busca de bens essenciais, mas terá também muito a ver com a cultura, ou a falta dela.

 

Delito de Opinião2.jpg

 

Como é que depois de terem morrido 416 mil soldados americanos a combater o nazismo, alguém tem coragem de levantar uma suástica nos Estados Unidos? Como é que um indivíduo chamado Peter Cvjetanovic tem a lata de se achar um defensor do nacionalismo branco? Ele é branco, até aí é óbvio, mas tenho muitas dúvidas de que Cvjetanovic seja um nome assim tão típico dos Estados Unidos. Os imigrantes, antepassados deste tonto, corariam de vergonha ao verem o seu descendente fazer esta triste figura.

 

 

Alexandre Luz

(blogue KAPAGÊBÊ)

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Convidado: JOSÉ CATARINO

por Pedro Correia, em 18.08.17

 

O velho Défice, o neto Empréstimo e o burro Pibe

  

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: Como nos receberão nos Mercados?

Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?

Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.

E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para perder as banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!

Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.

Comenta um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.

Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Empréstimo, sobrolho carregado.

Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?

Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.

Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!

E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.

Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?

E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?

E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.

 

 

José Catarino

(blogue JOSÉ CATARINO)

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Convidado: FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

por Pedro Correia, em 16.08.17

 

O tempo sem pessimistas

  

As empregadas da perfumaria, a senhora do expositor de Tupperware, a loja das canetas que tem de vender tabaco para sobreviver, a simpatia do criado do restaurante que garante não ter tempo para ver televisão, os miúdos que vão drogar-se ao fundo do parque de estacionamento, a rapariga que entrou a chorar na carruagem do metro. Há famílias desfeitas por tão pouco. Devia existir aconselhamento psicológico nestas ocasiões, enquanto não vem o regresso de férias. Devia haver acompanhamento, uns psis que contassem anedotas no intervalo das tragédias, ou que compreendessem os fenómenos da época: os eclipses, a mancha de neblina em redor da lua, os livros antigos e as selectas literárias, as mulheres que tatuam os ombros, as ementas muito calóricas, os amigos que evitam divorciar-se e procuram casas nos subúrbios. Coisas para tempos da crise futura: bússolas que indicam o caminho que sai dos dois lados da vida e não empata o trânsito à porta dos centros comerciais nem nas estradas secundárias.

 

O que os aflige é o tempo que falta. O poder ilude facilmente, é uma espécie de droga, de volúpia e luxúria amável de onde não podem ser expulsos (fizemos tanto pela pátria, por que é que não podemos ir ver futebol entre os poderosos?). Uma vitamina para a pobre existência de quem quer mudar o mundo a cada minuto, logo de manhã, a qualquer hora. O problema são os bárbaros, os outros, os que não compreendem o esforço nem a gramática (uma espécie de ginástica que saltita entre as grandes frases e as ninharias que se lhes ouve ao telefone), os que duvidam ou não estão para isso. Eles estão sempre para isso, são modernos e sabem manobrar. Há também os que legislam sobre o mundo a toda a hora (trata-se de mudar o mundo a cada minuto, por decreto se possível), apreciam quem expulsa os piolhos e as marcas de ginja no balcão de zinco e proíbe as velhinhas de fazerem croquetes sem emitir facturas. É um módico de civilização, é isso que é necessário. Fazer tudo em nome dela, da civilização – que há-de ser apressada por medidas estruturantes e estruturais, leis sobre o sexo, barrigas de aluguer, coisas sustentáveis, tudo é sustentável e cidadão — e o tamanho da maçã reineta.

 

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É uma das piores raças: os enochatos. O vinho e a sua temperatura, o copo ideal, a colheita, a cortiça, ah bebi um assim em Valladollid quando ia a caminho de Bilbau (ia visitar o Guggenheim), os jantares de degustação, o Can Fabes (ah, mas eles odeiam Santi Santimaría, tão plebeu) e Ferran Adrià (ah, a tortilla com espuma de batata em vez de batata, que descoberta do caralho, uma espécie de Nestum de batata mas sem açúcar, o pior inimigo da humanidade, o veneno que alimenta todos os outros venenos), aroma de aroma de amora, taninos fortes, um vinho único com explosões de carqueja e final de boca de abacaxi, uma gota extenuante, este para a entrada, aquele para primi piatti, o outro para secondi, por aí fora, palatos que debicam sem avançar pelo corpo fora. Há um restaurante onde oferecem um «menu do bem» (juro) que termina com bulgur e bagas gogi.

 

Grandiloquentes, à esquerda e à direita, é a pior raça, detectável ao primeiro parágrafo – um mestrado. Ouvi-os durante uma vida inteira. Nos jornais, nas redacções, nas escadas, nossos amáveis senadores que falharam na pátria mas continuam a dar conselhos. Padres de um religião plebeia, Torquemadas, sábios, coleccionadores. Hoje nada os separa senão a defesa do que resta, das tropas que ocupam a república e que hão de manter relações com gente dos negócios — fazem-no com naturalidade. Sem dificuldade aparente. Sem remorso. Mas sobretudo sem humor. Os pais têm o retrato pendurado na sede de um banco ou num corredor da faculdade; os tios foram íntimos de um ministro que depois trataram de trair com ligeireza; o avô foi comandante de uma companhia de Dragões durante a República e casou com uma prima cujo dote eram terrenos que ainda hoje rendem bastante. Fazem selfies, amam o povo na sua generosidade, prometem tanto.

 

Um dos meus melhores amigos teve os seus tempos de Enver Hoxha, de Mao, de revolução cultural — e de arrependimento. Felizmente, manteve o humor. Soma, àquela nostalgia adolescente, o peso de um sinal da história; relembra as palavras essenciais: operariado, greve, mulheres, riso, humor. Encontramo-nos para falar de América Latina, das cervejas mexicanas, dos ditadores falhados, dos loucos que destroem Caracas ou dos que resistem em Lima ou em Montevideu. Apaixonamo-nos pelos lugares, temos saudades de outro calor, temos saudades dos amigos. Votamos de maneira diferente, ele não tem remorso, não tem dificuldade, mas tem vida e humor. Tem mundo para lá dos ocupantes da República. Comovo-me. Ficamos dependurados de uma livraria enquanto as pessoas passam, à entrada da noite. O mundo podia ter sido de outra maneira; podia ter sido pior, também. Em tempos jantámos altas horas – eu terminava um romance que não acabava, e aproveitava-lhe as histórias, falávamos de Casablanca. «Como será ter uma casa em Casablanca?» Enver Hoxha, Mao, operariado, greve; o mundo mudou, mas o riso permanece. Os outros também, conheci-os com a mesma determinação e usando outro hemisfério do cérebro. Hoje, os seus amigos estão muito fascinados com as barrigas de aluguer e têm um dicionário de expressões sexistas e misóginas que não usam nem diante do pelotão de fuzilamento. Chegámos ao mesmo ponto vindos de sítios diferentes. Contamos as mesmas anedotas de judeus. Chegámos a um ponto em que vemos a república devorada pelas tropas ocupantes, por funcionários de cozinha. Ambos sabemos que a Albânia nunca existiu; eu já lhe tinha dito.

 

 

Francisco José Viegas

(blogue A ORIGEM DAS ESPÉCIES)

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Convidado: CARLOS FARIA

por Pedro Correia, em 14.08.17

 

Por uma comunicação social local viável e isenta: o caso açoriano

 

Quem lê a imprensa açoriana verifica que as notícias que envolvem o executivo regional possuem quase invariavelmente como fonte o “GaCS”, o acrónimo de “Gabinete de Apoio à Comunicação Social”, a agência noticiosa do Governo dos Açores.

Em princípio nada há de mal num gabinete do género, todavia, ao lermos a mesma notícia em diferentes órgãos de comunicação social logo se descobre que o GaCS não é apenas a fonte da notícia, é também o autor do texto, pois este, por norma, nem varia entre jornais. A partir daqui, o que se deveria ler como uma informação isenta mais não é que o discurso oficial do Governo sobre as matérias em questão. Escusado será dizer que, mesmo na eventualidade de ser redigido por um jornalista, não é a mesma coisa o tratamento noticioso que resulta de uma redacção de jornal face ao que sai directamente dos assessores de imprensa dos gabinetes políticos e distribuído pelo serviço do executivo que tem a função de garantir a divulgação da estratégia comunicacional do Governo. Mas é isto que é replicado ipsis verbis por grande parte dos meios de comunicação social por quase toda uma região sob a alçada desse mesmo Governo.

Num instante, um Serviço Público de apoio à comunicação social transforma-se num Departamento de Propaganda do Governo e pago com os impostos dos destinatários.

 

Pode-se dizer que, por si só, este GaCS não compromete a isenção da comunicação social, pois as notícias por ele veiculadas não são obrigatoriamente publicadas pelos jornais regionais e muito menos se impõe que o sejam na íntegra.

Em teoria é assim, mas quando se teve a experiência das dificuldades por que passam estes órgãos locais situados em ilhas com escassas dezenas de milhares de habitantes facilmente se sente como se pode coagir a liberdade de imprensa com meios legais.

Financeiramente a generalidade destes jornais são deficitários, não só pela escassez de vendas face um reduzido público-alvo, que reduz receitas de publicidade que os suportem, mas também pela impossibilidade de alargar o universo de leitores, pois a descontinuidade geográfica levanta uma barreira psicológica que impede à imprensa escrita uma identidade arquipelágica para além da ilha-sede. Não conheço nenhum jornal sem o “rótulo da ilha” onde está a sua redacção e direcção.

 

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Esta realidade socioeconómica leva a que muitos dos jornais insulares apenas sobrevivam à sombra dos subsídios do mesmo Governo que lhes fornece grande parte das notícias mais impactantes para o seu público, o que é assegurado através de uma estratégia dita transparente de contratos-programa de apoio à comunicação social.

Apesar do atrás referido, isto leva à agudização da dependência e da subserviência dos jornais ao poder político, não assumida na prática, mas fácil de constatar. Os receios de atrasos nos apoios são uma arma que pesa, e muito, sobre veleidades de se investigar e informar de forma diferente ao do conteúdo do comunicado distribuído pelo GaCS. Lembro-me muito bem do sufoco financeiro que foi pertencer à direcção de uma cooperativa detentora de um semanário e da sensação que as justificações dos atrasos de cumprimento dos acordos de financiamento tinham como função dobrar pretensas liberdades de imprensa. Nestes casos, a psicologia do medo pesa muito na decisão.

 

Nunca vi coarctada a presença em jornais de artigos de opinião de pessoas dos mais variados quadrantes políticos e sociais, mas estes têm sempre um rótulo de enviesamento individual e por isso sem a força da notícia isenta, mas na prática muitas destas são produzidas nos gabinetes do poder e só uma certa maturidade permite apreender esta realidade.

Ultimamente tenho assistido a representantes do poder a criticar em artigos de opinião editoriais de jornais locais que tinham uma análise crítica a situações convenientemente explicadas pela informação oficial, outro sinal que soa a ameaça de quem subsidia o mensageiro.

Na internet têm surgido toda a espécie de sites que pretendem ser noticiosos, num espaço caótico sem controlo e livre de qualquer regra ética, mas será esta a alternativa que resta?

 

Está assim em causa a sobrevivência da livre comunicação social nos meios mais remotos, neste artigo o exemplo insular, mas é sempre algo que deveria preocupar e merecer atenção de quem tem a obrigação de zelar para que a liberdade de imprensa como suporte do Estado de Direito e da Democracia seja igual em todo o território nacional.

Em Trás-os-Montes e Corvo sabem-se as intervenções do poder nas ruas e bairros de Lisboa e Porto, mas aos lisboetas e portuenses pouco lhes é noticiado sobre o que se passa no resto do País que para muitos é paisagem, excepto catástrofes que lá ocorram, e para quem resiste a viver nos territórios longínquos é a imprensa local que cobre esta lacuna, mas até nesta é obrigação do Estado assegurar que sobreviva livre e isenta do poder político.

 

 

Carlos Faria

(blogue MENTE LIVRE)

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Convidado: PAULO GUINOTE

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

Fazer velho dizendo que é novo

 

As políticas educativas em Portugal são sempre um sucesso para quem as implementa e um fracasso para quem quer justificar novas reformas. A verdade é que raramente são avaliadas de uma forma independente, pois as escassas instâncias que temos para fazer esse tipo de avaliação (Universidades, Conselho Nacional de Educação) estão completamente contaminadas por muitos daqueles que, em seu tempo, estiveram associados à preparação ou implementação dessas mesmas políticas. A endogamia académica é uma evidência neste sector e são muito poucos os casos em que as “investigações” não fazem lembrar aquelas outras em que os “estudos” que aconselham determinado tipo de medicação foram patrocinados pelas empresas farmacêuticas com interesse directo na comercialização de um dado “remédio”. A teia estabelecida entre centros de investigação e o Ministério da Educação são evidentes para quem conhece um pouco dos seus meandros, embora para a opinião pública se faça passar a noção de que é tudo “independente”. O mesmo se passa com o próprio Conselho Nacional de Educação, cuja presidência raramente é entregue a alguém que não tenha sido ou venha a ser Ministro da Educação ou muito próximo de um determinado lobby político activo no sector, conforme os ciclos eleitorais. E a coisa nem melhora com o recurso a entidades internacionais, sendo que a OCDE é a preferida para o Estado português encomendar estudos ou recomendações durante os governos do Partido Socialista, tendo preferido o governo PSD/CDS recorrer ao FMI nos tempos da troika. Raramente se encontram recomendações que não encaixem nos programas pré-existentes, assim como não é nada estranho que os dados usados em tais estudos, em especial os comparativos, sejam os fornecidos pelas entidades nacionais de uma forma nem sempre muito transparente. E quando os dados não são completamente dóceis, são martelados ou desvalorizados como secundários (caso do progresso do desempenho dos alunos portugueses em todos os testes internacionais, dos PISA aos TIMMS, que é subalternizado quando um novo ciclo eleitoral “exige” mais uma vaga de “reformas” e/ou de “inovação”).

 

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Escrevo isto a propósito de estarmos a experimentar mais uma vaga reformista no ensino não-superior que se tem organizado em torno de uma retórica que critica o ensino português por estar parado no século XX ou mesmo XIX (embora com resultados a melhorar de forma consistente no século XXI) e ser uma necessidade inadiável adaptá-lo ao século XXI e a um novo conjunto de “competências” destinadas a criar um “perfil” de aluno para os novos tempo, no que se apresenta como sendo uma “inovação” que só empedernidos conservadores não podem apoiar e aplaudir. Perante uma apatia quase generalizada, fruto do cansaço que este tipo de ímpetos reformistas produzem na classe docente, bem como da percepção que é inútil tentar um debate racional e fundamentado quando a posição de uma das partes se apresenta, à partida, como moralmente superior e só disponível para alterar vírgulas ou advérbios e nunca para reconsiderar algo de substantivo, o “debate público” das medidas é feito em circuito fechado e com pontas-de-lança na comunicação social e blogosfera, beneficiando de uma cada vez menor capacidade de cotejo e análise crítica dos factos.

 

Quase tudo o que agora se apresenta como sendo um “novo” projecto de “autonomia e flexibilidade” na gestão do currículo do Ensino Básico já foi preparado e experimentado há cerca de duas décadas e não correu bem. Quase tudo o que os governantes do sector aparecem a defender como sendo um imperativo da modernidade é a recauchutagem do que foi tentado na segunda metade dos anos 90 do século XX, mas como se escreve na obra A receptividade à mudança e à inovação pedagógica (Ana Paula Cardoso, Edições Asa, 2002, p. 21) a inovação é muitas vezes relativa, pois “pode ser considerada pelos actores como inovação, mesmo que já tenha sido conduzida, de maneira quase idêntica, noutros lugares e ao mesmo tempo ou noutros tempos”. Entre 1996 e 1998 já se fez um debate muito alargado sobre estas matérias que deu origem ao despacho 4848/97 de 30 de Julho e a uma experiência-piloto com uma dezena de escolas. Menos de um ano depois  o despacho 9590/99 de 14 de Maio regulamentaria a generalização do que ficaria conhecido como a “gestão flexível do currículo”, existindo abundante bibliografia sobre o assunto, nomeadamente a publicação das comunicações ao Fórum Escola, Diversidade e Currículo (ME, 1999), entre as quais temos o testemunho da então secretária de Estado da Educação Ana Benavente que declararia que “temos de passar de um ensino/aprendizagem centrado nos programas e nos saberes, para um ensino/aprendizagem centrado nos resultados dos alunos no que diz respeito às competências que eles constroem, ou seja (…) a competência que cada criança, cada jovem, constrói e que lhe permite continuar a aprender”. Anunciava-se “uma enorme e imensa revolução que vai obrigar a trabalhar de um modo diferente, de definir o que se pretende e depois desenhar o caminho para lá chegar” (p. 28).

 

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Tudo o que agora se anuncia com estrépito mediático e ar ufano, mais não é do que retomar algo com 20 anos e que foi abandonado em poucos anos no que tinha de mais importante, apesar de agora aparecerem a defender esta solução representantes de quase todas as forças partidárias que governaram a Educação em Portugal nos últimos 30 anos, incluindo ministros, secretários de Estado, especialistas académicos ou apenas cortesãos do poder.

Era importante perceber-se porque foi essa reforma um fracasso antes de a requentar e servir de novo, como se de coisa inédita se tratasse. Eu tenho algumas ideias sobre as causas do fracasso e, infelizmente, encontro-as de novo presentes, agravadas com tudo o que no entretanto se passou e desmobilizou as “escolas” para encarar este tipo de medidas com entusiasmo e vontade de uma colaboração activa. Deixando de parte as questões de ordem sócio-profissional, gostaria de aqui recordar que este foi o período em que para tudo começou a ser necessário ter um documento a comprovar que o que tinha sido feito tinha mesmo sido feito. Em que a burocracia soterrou a pedagogia e em que a representação dos actos pedagógicos passou a ocupar muito do tempo que deveria ser usado nos actos em si. Foi o tempo em que o palavreado cerrado que o ministro da altura crismou como “eduquês” se tornou dominante e feriu quase de morte a essência do trabalho dos professores.

 

Em 2017 está tudo de volta, como em 1997. Os erros repetidos, a retórica recuperada, a terminologia decalcada, as metodologias clonadas, a superioridade moral da fórmula mágica e que se pretende única para o “sucesso” amplamente despejada sobre quem ousa contestar a bondade ou adequação da solução única da imposição rígida da “flexibilidade” numa lógica top-down de uma pretensa “autonomia das escolas”, enterrada em paralelo através do esvaziamento das suas competências para as autarquias. Mas essa é toda uma outra conversa.

A História não se repete, a menos que seja como Farsa.

Mas sempre como Sucesso.

 

 

Paulo Guinote

(blogue O MEU QUINTAL)

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Convidado: JOÃO MARCHANTE

por Pedro Correia, em 09.08.17

 

Histórias de bibliófilos

 

Ainda sou do tempo em que entrando em qualquer boa casa portuguesa logo se avistavam livros. Nalguns casos, com direito a livraria (fórmula pela qual era designada a biblioteca particular, antes do comércio se ter apropriado totalmente da palavra). Hoje em dia, pelo contrário, são escondidos nos corredores, quando existem. A mudança deu-se numa só geração.

Dizem-me agora que os livros já não têm valor e que ocupam muito espaço. Assim, viúvas e filhos quase que pagam para se verem livres dos livros deixados por quem muitas vezes levou uma vida inteira a coleccioná-los.

Nestas andanças, um coleccionador designa-se por bibliófilo — alguém que tem amizade aos livros. Movido por esta amizade, que logo passa a paixão e culmina em amor, o bibliófilo não resiste a parar e entrar em todo e qualquer sítio que tenha o objecto do seu desejo, desde a livraria comercial, com as últimas novidades nos escaparates, até — e principalmente — aos velhos alfarrabistas, que contêm as obras antigas e raras, ou apenas arredadas do mercado, pois que cada vez mais, na sua febre de lucro, as lojas reenviam para as editoras os livros não vendidos, após uma ou duas semanas, para darem rapidamente lugar a outros acabados de vir a lume; e, assim, pouco depois, como que por artes mágicas, os primeiros aparecem nos livreiros-alfarrabistas. Esta velocidade pode mesmo ser alucinante.

Certa vez, aconteceu-me receber um convite para o lançamento de um livro, ao qual não pude comparecer. No dia seguinte, à hora do almoço, passei num alfarrabista e aí estava essa monografia à venda, com dedicatória e tudo! Alguém lá foi, o comprou (ou recebeu como oferta do autor), recolheu o autógrafo do escritor, leu-o na diagonal ao serão, e de imediato o empandeirou na manhã seguinte.

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Mais triste do que isto só mesmo quando me deparo com livros à venda marcados por ex-libris de pessoas com quem convivi e admirei e sei terem descendentes directos, os quais optaram portanto por nem sequer dividi-los entre si nas partilhas. Às tantas, mais valendo isto, porque possibilita um bibliófilo criterioso comprar essa biblioteca, ou núcleos dela com interesse, fazendo-a até chegar a uma instituição pública nacional, onde todos os que gostam de ler possam ter acesso às obras, do que ir a casa de alguém e ver nas prateleiras, à laia da biblots, ao sabor das cores das encadernações, livros dispersos de obras em vários volumes — uma enciclopédia, a obra completa de um escritor, etc.

Para rematar estas histórias trágico-cómicas, não resisto a contar aqui a melhor que presenciei: estando eu numa loja dum conhecido livreiro-alfarrabista, vejo entrar uma emproada criatura de meia-idade, toda aperaltada, que dispara para a jovem que lá estava a trabalhar: «Tem livros antigos de Direito?». Responde a rapariga: «Que autores procura?» Vocifera a serigaita: «O que eu quero são boas encadernações, para o escritório do meu marido». Conclui a empregada, revelando-se bibliófila: «Enganou-se no sítio, isto aqui não é uma loja de decoração».

Bibliófilo é pois alguém que tem um profundo respeito pelos livros, como entes amados, e dedica grande parte do tempo ao seu convívio — procurando-os, mirando-os, namorando-os, acariciando-os, cheirando-os, conquistando-os, aprendendo com eles, guardando-os perto de si. Note-se que o bibliófilo tem em princípio e por princípio um género preferencial ao qual dedica as suas apaixonadas energias de busca e aquisição; por exemplo: Poesia inglesa, ou História de Portugal, ou Romance francês do século XIX, ou Incunábulos, ou primeiras edições de Camilo e Eça, ou Livros de Arte, etc. e tal.

Ah!, e há ainda, por estranho que pareça, um pequeno nada que é tudo: o bibliófilo lê os seus livros.

Por fim, contrariamente a outros amores, este pode e deve ser partilhado. Surgem assim as tertúlias literárias, que têm como principal tema os livros e que servem para despertar ou consolidar amizades entre pessoas com afinidades culturais. Aí se partilham experiências, se mostram livros, se fala sobre eles, e muitas vezes surgem projectos comuns. Também estes encontros, infelizmente, se têm vindo a perder, invocando alguns membros destes grupos a famigerada «falta de tempo», que faz pendant com a «falta de espaço», a tal que leva a expulsar os livros de casa.

 

 

João Marchante

(blogue ETERNAS SAUDADES DO FUTURO)

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Convidado: PAULO FERRERO

por Pedro Correia, em 07.08.17

 

Lisboa, dez anos "capital da demolição"

 

Feitas as contas do balanço autárquico do decénio 2007-2017 (mandato intercalar 2007-2009 mais os dois mandatos seguintes de quatro anos cada) em termos de reabilitação urbana, é pena que sejam apenas isso: contas. Estatística para inglês ver.

Com efeito, por detrás dos números pomposos apresentados pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em tudo quanto é fórum internacional, há uma cidade do faz-de-conta em que, regra geral, os prédios intervencionados se tornaram apenas fachadas (e mesmo aí adulteradas com janelas e portas medonhas em alumínio/pvc - como se a Lisboa fosse proibido resistir à intempérie com a madeira, como os atrasados “tropicais” das ilhas britânicas ou da Escandinávia o fazem, onde se teima em manter como obrigatória a madeira nos perfis das janelas, o ferro nas portas e por aí fora), esventrados que foram nos seus interiores (fazendo desaparecer estuques, frescos, materiais nobres, etc.) e impermeabilizados os seus logradouros, com os inevitáveis “apartamentos” para os popós, que o Plano Director Municipal teima em privilegiar.

E é pena redobrada se pensarmos no imenso esforço que a CML fez, e muito bem, durante esses mesmos 10 anos no pelouro respectivo (Urbanismo), ao sarar a chaga da corrupção e dos escândalos de dimensões colossais em que a CML se atolara desde meados dos anos 90 … ou, em pelouros diferentes, nas tentativas, muitas vezes ciclópicas, de dignificação do espaço público sem nexo nem gosto (a abertura de esplanadas, o aproveitamento dos miradouros, o relançamento dos mercados emblemáticos, o programa Uma Praça em Cada Bairro - este apesar de todos os defeitos de “esterilização” dos locais-alvo, por via de uma inadequada estética “Pólis”, indigna de Lisboa.

 

Alargando o espectro, a CML também se portou bem noutras áreas ciclicamente esquecidas (com ou sem propósito), ao apostar na “mobilidade suave” (mais espaços pedonais, ciclovias, etc.), ou, mais recentemente, o grande feito que foi lançar o programa Lojas com História, âncora legal e operacional fundamental para a salvaguarda, recuperação, divulgação e viabilização do comércio de carácter e tradição que ainda existe na cidade.

É por isso que ainda custa mais assistir-se à confrangedora propaganda de algo que não existe, porque a reabilitação urbana tem-se pautado pelo total desrespeito pela Carta do Património, anexa ao Plano Director Municipal, e, portanto, esse desrespeito tem tradução prática no incumprimento das várias cláusulas de um articulado que os mais incautos considerarão como imaculado (no que se refere à estrita obrigação de preservar os interiores, os materiais, os vãos, as métricas, etc., dos edifícios que estejam listados nesse inventário, já para não falar nos que são classificados como de interesse público ou que estão nas zonas de protecção destes últimos, o que ainda é mais grave).

Pois não é nem tem sido nestes últimos 10 anos e não se prevê que venha a ser diferente tão cedo, talvez mesmo quando já nada houver a salvaguardar.

Com efeito não há palácios, palacetes, antigas moradias, prédios antigos, conventos, hospitais, quartéis ou antigas instalações industriais que estejam a salvo do camartelo. Ele há mesmo “nichos de mercado” que são verdadeiros filões.

 

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 Rua Barata Salgueiro, 21 (foto de 2017)

 

Veja-se o caso dos prédios de rendimento de finais de XIX, princípios de XX, onde Lisboa era rica, à nossa escala, e onde há bairros e artérias emblemáticos que pura e simplesmente estão irreconhecíveis e reduzidos, quanto muito, a fachadas: o outrora belíssimo Bairro Barata Salgueiro, por exemplo, tem sido disso mártir (10 prédios na R. Rosa Araújo, 1 R. Castilho, 3 Rua Rodrigo da Fonseca, 1 R. Barata Salgueiro, 1 R. Duque de Palmela, 1 R. Alexandre Herculano), bem como as Avenidas Novas, os bairros das Picoas e de Camões (zona da Av. Duque de Loulé), a Estefânia, a Almirante Reis, Campo de Ourique, Lapa, enfim.

Tem sido um fartar vilanagem no que toca a essa época construtiva, graças, por um lado, e desde logo, às características originais desse edificado: prédios baixo (3-4 andares) e menos apartamentos, gigantescos para os nossos dias (uma combinação explosiva se aliada aos “mitos urbanos”, irrevogáveis, dos prédios antigos, a cair, de que ninguém já gosta, recuperá-los é caro e moroso, etc.), com logradouros com árvores e não pátios para estacionamento, etc.

 

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 Ruínas de uma moradia Arte-Nova na Rua Bernardo Lima (foto de 2013)

 

E, por outro lado, graças à estratégia consciente da CML em “reabilitar” o edificado decrépito (por anos e anos de incúria permitida aos proprietários, na sua esmagadora maioria fundos especulativos) por via da construção nova com manutenção das fachadas, ampliação dos 2-3 andares para efeitos de recolha de taxas e, claro, contando com a tradicional inoperância e permissividade dos serviços do Igespar/DGPC, os mortíferos “licenciamento zero”, projectos PIN e projectos de “interesse excepcional”, leia-se, acima da lei. Isso tudo e, como é natural, a marca de autor – nada mais seguro para uma aprovação de lesa-património do que um projecto de arquitecto de firma reconhecida.

Desenganemo-nos, é puro divertimento esta noção de reabilitação urbana que consta do site da CML «Reabilitação urbana é a forma de intervenção integrada sobre o tecido urbano existente, em que o património urbanístico e imobiliário é mantido, no todo ou em parte substancial…».

A expressão não passa de um chavão. As estatísticas, para inglês ver, ou seja, para revista republicar a incauto acreditar.

E se a coisa não resultar à primeira, porque fulano esteve atento e votou contra, sicrano pôs uma areia na “engrenagem” ou beltrano, pura e simplesmente, disse o que outros calaram, há sempre um remédio para que resulte à segunda.

Há que agilizar processos, criar comissões, quem sabe, mais protocolos. Em última instância faz-se o projecto aprovado trocar de mãos, revende-se o edifício, assegura-se a mais-valia (até se “emite moeda”, como alguém em quem confiei dizia), ou uma alteração durante a obra, à socapa (por ex., o que era para ser hotel, e por isso ficou isento de alguns pareceres e etapas administrativas, passa a prédio de habitação e escritórios.

 

Está tudo muito bem pensado, reconheça-se. Além de que contam com a indiferença do comum dos mortais, e também das élites, se é que as há. A sociedade civil é desorganizada, e quando se organiza é imediatamente catalogada disto e daquilo. Por fim, a lei é muito escrita e cheia de palavas caras, mas a verdade é que ninguém a faz cumprir (por ex., alguém sabe por que razão a CML não faz cumprir a obrigação legal de obras de conservação cada 8 anos? Ou até isso já se foi?), além de que a figura de “crime urbanístico” é comprovadamente imberbe.

O atraso é geracional e só se agrava. Daqui por 10 anos, do património de transição restarão apenas alguns exemplos pontuais, talvez só mesmo os edifícios classificados, um punhado de bravos resistentes, para memória futura. Daqui por 10 anos estarão na calha os edifícios Déco (aliás, já estão a ser esventrados, só que mais low profile. Depois, seguir-se-ão os modernistas.

Só aos dos anos 60-70-80-90 é que ninguém deita abaixo. Lá para 2117? Oxalá.

 

 

Paulo Ferrero

(blogue CIDADANIA LX)

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Convidado: JOÃO TÁVORA

por Pedro Correia, em 04.08.17

 

Mais uma crónica na Estação Tola

 

Se há altura do ano em que a conversa fiada e a especulação sobre a bola é legítima e até recomendável é nesta época estival, também conhecida como tola, em que as equipas se preparam e os adeptos se enchem de expectativas para as competições que tardam em recomeçar. Na verdade por estes dias o calendário futebolístico inicia-se cada vez mais cedo, um fenómeno que também vem acontecendo com o ano lectivo que roubou o mês de Setembro aos nossos miúdos que nem sonham como era ocioso e estruturante o longo Verão dos seus pais. Este ano o Campeonato Nacional que modernamente se chama “Liga” (os portugueses são peritos em mudar os nomes às coisas convencidos que dessa forma as mudam) começa na primeira semana de Agosto, entrando pelas nossas férias adentro, quando os adeptos deviam estar, não nas bancadas dos estádios, mas à beira-mar a ler preguiçosamente novidades sobre reforços milagrosos e as tácticas inexpugnáveis que dizimarão os nossos adversários, atrasando a leitura do clássico que estava prometida para estas férias.

 

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Mas a verdadeira e grande novidade da época futebolística que se avizinha é sem dúvida o vídeo-árbitro. Este novo actor, mais do que revolucionar o futebol que passará a ter mais uma ou outra paragem inócua, que estou convencido trará mais justiça e transparência à disputa, acima de tudo promete incendiar ainda mais a indústria do comentário futebolístico em grande expansão nos canais da televisão por cabo. A coisa promete, pela simples razão de que muitas das decisões dos árbitros, mesmo com a ajuda do vídeo, continuarão a ser subjectivas e falíveis, dependendo da perspectiva (da cor da camisola) do observador: o milímetro a mais ou a menos do fora de jogo indefinido, a bola na mão ou a mão na bola dentro da grande área - ou a milímetros do seu limite; já para não falar da apreciação à intensidade do contacto do defesa que derruba – ou não - o atacante e da (in)justiça do consequente castigo máximo. Com a agravante das decisões de agora em diante provirem de uma análise ponderada. Por isso não vão faltar teorias da conspiração e toda a sorte de condenações e pressões sobre… o vídeo-árbitro. Se é previsível que o uso das tecnologias irá beneficiar a justeza das decisões em campo e o futebol atacante em geral, o vídeo-árbitro passará ele próprio a ser mais um inevitável protagonista do espectáculo, condenado umas vezes, exaltado outras tantas, em debates insanos por essas televisões afora.
Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza. O seu prolongamento será feito à maneira antiga, ao vivo e com alma, à boa conversa ao balcão do café com os vizinhos, ou com os amigos numa aprazível esplanada. Venha daí então o campeonato que desta vez é que vamos ganhar.

 

 

João Távora

(blogue CORTA-FITAS)

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Convidado: FRANCISCO M. VALADA

por Pedro Correia, em 02.08.17

 

Susceptibilidades e rigor científico

 

 

Algernon: Nothing annoys people so much as not receiving invitations.

— Oscar Wilde, “The Importance of Being Earnest”

 

De vez em quando, há quem seja paladino do rigor científico, aniquilando-o em simultâneo. Isso aconteceu recentemente num texto do jornalista Daniel Oliveira, acerca das controversas declarações de Gentil Martins:

De outras refregas e escrutínios, é sabido que, por aquelas bandas, por única e exclusiva culpa da direcção do Expressoo rigor tem dias.

Por isso mesmo, não fiquei agradavelmente surpreendido ao ler "susceptíveis", pois adivinhei logo o resto do enredo, com a esperada presença no texto de insuportáveis obscenidades científicas como "correto" (uma espécie de coreto com dois erres) ou "coação" (a lembrar, por exemplo, o agora extremamente ambíguo acto de coar).

Convém deixar temas complexos como o "rigor científico" – em abstracto ou até mesmo em concreto, como nos casos do artigo enquanto subclasse fundamental do determinante  e  da electrodinâmica quântica  – a quem faz da ciência forma de vida.

A simples menção “rigor científico”, num jornal que impôs, aos seus profissionais e leitores, um código cientificamente denunciado na praça pública, é, no mínimo, engraçada.

 

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Lamentavelmente, esta mixórdia é o pão nosso de cada dia – não só no Expresso, mas, de forma geral, em qualquer publicação que se meta nestas aventuras ortográficas, sendo o Diário da República o meu exemplo de eleição, por razões que já expliquei. Todavia, em relação ao Diário da República, o Expresso tem, no mínimo, uma agravante: não foi intimado por ninguém a adoptar o quer que fosse. O Expresso adoptou o Acordo Ortográfico de 1990 porque quis fugir para a frente e o resultado está à vista.

A atitude do Expresso perante o fenómeno ortográfico em curso não serve de exemplo a ninguém. Aliás, a silenciosa e irresponsável resistência do jornal A Bola  também não. Mas não nos dispersemos. Concentremo-nos no mau exemplo do Expresso. Obviamente, em nome do rigor. Efectivamente.

 

Nótula: Há convites irrecusáveis, imediatamente aceites e ainda por cima com todo o gosto. Um deles é o que o Pedro Correia me fez: escrever um texto como convidado especial do DELITO DE OPINIÃO. Está escrito. Obrigado, Pedro.

 

 

Francisco Miguel Valada

(blogue AVENTAR)

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Convidado: SAMUEL DE PAIVA PIRES

por Pedro Correia, em 31.07.17

 

Da incapacidade crónica para debater civilizadamente

 

Há uns dias, André Freire escreveu um artigo intitulado “Sete razões para não votar Fernando Medina nas autárquicas”. O artigo tece várias críticas à gestão camarária da capital, dando particular relevância às questões das obras públicas e da mobilidade, não se enredando em querelas ideológicas ou partidárias. Ainda assim, numa época em que as redes sociais potenciam o efeito de câmara de eco e contribuem para o entrincheiramento de partes em contenda ideológica e/ou partidária, que não se coíbem de fazer concursos de ortodoxia, passar certificados de pureza ou impureza ideológica e protagonizar purgas dos impuros que apresentem qualquer desvio ao que deva ser a linha orientadora da respectiva tribo política, não deixaram de surgir críticas ao artigo, em especial no mural do autor no Facebook, assentes em argumentos como os seguintes: “isto não é de todo uma postura de esquerda e fundamentada que nos tem feito crer como sendo a sua orientação”; “Esta gente de esquerda deviam (sic) ter cuidado no que escreve. Parece que estou a ouvir a cristas (sic)”; “O Sr. André Freire a fazer a política da direita! O povo não dorme e lhe irá dar a resposta em 1 Outubro de 2017...”

 

Dir-me-ão que, vindas de perfeitos desconhecidos, e atendendo aos níveis reduzidos de cultura democrática e pluralista e de preparação para o debate político civilizado do cidadão médio (se dúvidas houvesse a este respeito, as caixas de comentários dos blogs e jornais e as redes sociais esclareceram-nas), estas críticas não assumem especial relevo. Afinal, é pública e notória a hemiplegia moral, nas palavras de Ortega y Gasset, de que muitos sofrem, tornando-os incapazes de manter um debate civilizado com aqueles que perfilham outros pontos de vista (o mesmo Ortega y Gasset adoptava o perspectivismo, ou seja, a lógica tópica aristotélica, revitalizada no século XX pelo jurista alemão Theodor Viehweg, segundo a qual os diferentes pontos de vista sobre uma mesma realidade são complementares e as diferenças e peculiaridades, ao invés de obstaculizarem a procura da verdade, permitem captar certas porções da realidade). Contudo, às tantas surge uma conhecida historiadora, Irene Pimentel, que demole o artigo de André Freire não com argumentos, mas com esta prosa: “detesto todo o artigo, discordo dele, e nem percebo o interesse...”. Instada por André Freire a produzir argumentos, seguiu-se uma discussão em que Irene Pimentel passou o certificado de impureza, “Agora não me venha dizer que é de esquerda. Aliás fartei-me...”, ao que o autor do artigo replicou “já cá faltava essa da proprietária exclusiva e que passa certidões a dizer quem é e não é de esquerda!... passe bem minha senhora!”, e a historiadora treplicou “idiota mal criado. Sim, sou de esquerda. E deixe de me convidar para apresentar livros seus, por favor... Não se esqueça que eu tenho memória. Mas que mal educado, arrogante. Não passe bem. Vou eliminá-lo.”

 

Portanto, alicerçada na sua preferência ideológica ou partidária, Irene Pimentel sentiu-se no direito de purgar André Freire da sua tribo política, de o insultar e de revelar publicamente um convite privado que este lhe terá dirigido. Estamos a falar de alguém que, por defeito, deveria ter a capacidade de debater com elevação e não cair no insulto fácil. Infelizmente, parece-me que John Gray está certo ao considerar que a acepção oakeshottiana da política, que a entende como uma conversação, uma forma de acomodação de diferentes perspectivas, foi quase totalmente perdida. De facto, aquilo que Oakeshott classificava como política racionalista, a política do livro ou da cartilha ideológica, impera na política contemporânea, complementada por uma forte personalização da política que leva a que as tribos imponham ortodoxias, censurem heterodoxias, escondam e desculpem os defeitos dos seus membros e exaltem os dos membros das tribos opostas, sendo capazes de criticar ou defender uma mesma decisão ou atitude consoante a pertença ideológica ou partidária de quem a toma – como diria Sir Humphrey Appleby, “Where one stands depends upon where one sits”.

 

Existirá, porventura, alguma razão para que alguns partam para a discussão no debate público ou político a partir de um pedestal de superioridade moral a que se alcandoram? Creio que não. Alguns, à esquerda, ainda acreditam na possibilidade de uma ideologia científica, que julgam ser aquela que professam; outros, à direita, crêem que o alegado fim da história de Fukuyama lhes deu razão; muitos pensam estar do lado certo da história (como se esta fosse a Força do universo Star Wars); mas a esmagadora maioria considera-se moralmente superior apenas por mera convicção individual, um viés cognitivo que o neurologista Robert Burton explora em On Being Certain.

Infelizmente, na época em que vivemos, a humildade e a honestidade intelectual parecem não assistir a indivíduos que as deveriam fomentar e que, assim, acabam por se barricar em redutos assentes em racionalismos ideológicos ou meras convicções pessoais. O mesmo é dizer que em vez de utilizarem a força da razão, recorrem à razão da força. E como escrevi há uns anos, do debate num espaço público caracterizado pela cacofonia, onde a discussão é quase sempre dominada por surdos que sofrem de hemiplegia moral, (…) aos gritos uns com os outros, não pode surgir razão alguma.

 

 

Samuel de Paiva Pires

(blogue ESTADO SENTIDO)

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Convidado: JOSÉ MARIA MONTENEGRO

por Pedro Correia, em 28.07.17

 

Um dó li tá

 

Sento-me no sofá, de comando na mão, ainda sem canal de destino.

Por defeito (no sentido supletivo do termo), a televisão abre o sinal com os desenhos animados.

Um dó li tá, ouvia-se de fundo.

 

Hesito entre os canais de notícias e de debate político – que tendencialmente se dirigem a mim – e os de desenhos animados – que tendencialmente se dirigem aos meus filhos (certo de que a segunda opção preenche os desejos destes, e com enormes dúvidas de que a primeira preencha os meus).

Um dó li tá (ficou a ressoar na minha cabeça).

 

Política ou desenhos animados? De repente dou por mim a pensar que não será assim tão grande a distância entre uma e outra opção. Sintomática e preocupantemente, há uma sintonia entre as diferentes sintonias. Se de um lado me oferecem a patrulha pata com a missão de defender o bem, do outro impõem-nos diferentes patrulhas com a missão de defender os seus (e, francamente, não sei se o bem).

 

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Preocupa-me a bolha cada vez mais nítida e distante em que habitam os políticos que nos dirigem e «representam». A cada episódio, a cada debate, a cada declaração, o fenómeno acentua-se. O modo infantil como somos tratados talvez seja o mais embaraçante. Mas a forma mais ou menos contorcida como a verdade nos é apresentada, a sensação indisfarçável de que quem nos fala de voz grossa está condicionado e é pouco livre, não augura nada de bom e devia preocupar-nos a sério.

 

Tanto nos contam (como quem conta) que tudo se deveu a um raio, como nos dizem que «se fez tudo o que era possível». Tanto nos oferecem demissões em barda de chefias menores, como nos prometem que não foi nada de especial e que o material roubado estava fora de validade. Tanto nos garantem que não houve cortes e que se batem recordes de défices mínimos, como nos enganam com termos pomposos que representam a mesma sorte (cativações, dizem). Tanto nos asseguram dignificar as vítimas com as respostas completas, como nos escondem testes prioritários de popularidade. Tanto, tanto, tanto.

Um dó li tá (não deixa de me ressoar).

 

Tratam-nos como se fôssemos criancinhas, sem capacidade para discernir, permeáveis apenas ao argumento de autoridade. Cada declaração, cada promessa ou explicação, transpiram falta de verdade, de pudor até, e de inteligência. Porque é pouco inteligente presumir-nos incapazes de perceber. E ainda é menos inteligente desprezar a degradação do ambiente entre «eles» e «nós». Sobra sempre a sensação de que não são livres. Para a transparência, para a verdade, para a seriedade dos «crescidos».

Um dó li tá (raios, que não me sai da cabeça).

 

Sinceramente, para ser tratado como criança prefiro o original.

Fico-me pelos desenhos animados e entrego-me, para gáudio dos meus filhos.

 

Um dó li tá, quem está livre, livre está (ouço agora a frase completa).

 

Parece uma declaração política. Pois. Não é assim tão grande a distância entre a política e os desenhos animados.

 

 

José Maria Montenegro

(blogue O PALACETE)

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Convidado: LUÍS MOREIRA

por Pedro Correia, em 26.07.17

 

Levantados do chão

 

Em Pedrógão Grande, por iniciativa de uma mãe que perdeu um filho na tragédia dos fogos, nasceu uma Comissão para esclarecer o que não está esclarecido, não deixar esquecer e apurar responsabilidades.

Não move essa mãe coragem qualquer sentimento de vingança, mas tão só obrigar de uma vez o Estado e a sociedade civil local a arrostar com as suas responsabildades de nada terem feito para evitar a tragédia.
Não, não está tudo esclarecido como pretende o primeiro-ministro. Os vivos não se vão deixar calar com ofertas e promessas em memória dos seus. Os vivos querem esclarecer tudo e não vão deixar que os amordacem com a "central de comunicação". Com informação filtrada por uma das partes responsáveis.
Comandantes de bombeiros que operam no terreno entre a vida e a morte são agora tratados como irresponsáveis, como bocas grandes que não sabem comunicar. Fraco argumento. Se alguém que comanda não sabe comunicar é o próprio exercício de comandar que está em dúvida.
Ou é isso mesmo o que o governo quer transmitir à sociedade? Estão encontrados os responsáveis? É para aí que nos empurra o governo na covardia sem fim de quem vai de férias enquanto morrem inocentes? Salvam-se da irresponsabilidade os boys e as girls que nada sabem de fogos e que atafulham os gabinetes do Terreiro do Paço mas que são a voz do dono?
Levantados do chão, os vivos honrarão os seus mortos.

 

 

Luís Moreira

(blogue BANDA LARGA)

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Convidado: A. PINHO CARDÃO

por Pedro Correia, em 24.07.17

 

O deplorável teatro da geringonça

 

A monocórdica picareta falante, transmigrada de um seu ilustre avatar para a geringonça, modernizou-se, aumentou potência e cobertura, funciona agora em vários canais estereofónicos, e passou a dar voz e grito a nova e vasta sorte de malabaristas, prestidigitadores e contorcionistas, em fantasiosos teatros de circo e rua. A geringonça tornou-se na suprema arte de perder tempo, mas não se pode ter tudo, exotismo e governação capaz.

Se fosse uma peça de teatro, a geringonça poderia ser uma comédia. Poderia, mas a trama é tão medíocre que, de farsa em comédia, se foi tornando numa palhaçada. Se na comédia são os erros de percepção mútua, mal-entendidos e enganos entre os comediantes que provocam o riso e quem se ri é o público, já na palhaçada geringôncica quem é enganado é o público e quem se fica a rir são os comediantes. Jovens boys e velhos farsantes que nunca do palco saíram, o palco foi sempre a sua vida, eternos funcionários do palco à custa alheia.

Quando, o que é frequente, a peça não corresponde ao cartaz, o encenador-mor faz entrar em cena a troupe ilusionista a distrair os espectadores, que vão aplaudindo gato por lebre, mal pensando que se tornaram os bombos e os bobos do espectáculo.

Na mais recente representação em que, num primeiro acto, os comediantes penosamente dialogavam sobre um assalto ao principal forte das munições do país, a trama foi radicalmente alterada pelo encenador, mal regressado de férias. E o episódio terminou na apoteose de um hino aos heróis que prestaram o insigne serviço de despejar o forte, poupando incómodos à tropa e despesas de abate ao país. O forte era mera concentração de lixo e obviamente não se assaltam caixotes de lixo. Tancos nunca existiu, nem sequer no mapa, fim da peça.

Também houve Pedrógão, e mais de sessenta pessoas queimadas vivas. A Delegada da geringonça chegou e chorou no palco da tragédia, porventura como forma de melhor coordenação e comando. E do palco do fogo, saindo pela esquerda baixa, logo o encenador, bem de mansinho, se afastou para férias, deixando à boca de cena os principais personagens em diálogos homicidas, atribuindo uns aos outros todas as culpas sem ninguém se dar como responsabilizado. No fim, as forças da natureza, a trovoada seca, o raio da árvore, o downburst e a própria estrada, os deuses, como na tragédia grega, contra quem até é perigoso lutar, foram a explicação do sucedido. E assim apaziguados, fora das vistas do palco, no recato dos camarins, os farsantes maiores da geringonça resolveram fazer uma sondagem à popularidade das suas representações.

Enquanto isto, no teatro escolar, os alunos podem passar sem saber qualquer das suas falas, com quatro, cinco, seis ou sete negativas, mais um êxito da geringonça a bem da teatral fantochada educativa que insiste em representar. E, magnânimo e conformado, o Director do Instituto de Avaliação Educativa diz que o sistema está feito de modo a premiar a mediania…

Em matéria económica, com o inevitável fracasso da proclamada estratégia alternativa, a geringonça faz como o cuco, cantando êxitos em ninhos alheios que usurpou e para os quais em nada contribuiu.  

De farsa a comédia, de comédia a drama, de drama a tragédia, de tragédia a palhaçada, eis a geringonça em todo o seu esplendor. E é ela que, assim desgovernada, diz que nos governa. E há quem aplauda.

 

 

António Pinho Cardão

(blogue QUARTA REPÚBLICA)

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Convidado: VÍTOR CUNHA

por Pedro Correia, em 21.07.17

 

O país das mimosas púdicas

 

O termo “politicamente correcto” entrou com força no discurso comum e, consequentemente, no discurso político. Contudo, como acontece naturalmente com todos os termos cuja utilização se banaliza, o valor semântico manteve-se, por muito tempo, obscurecido. “Politicamente correcto” implica ortodoxia, não especial sensibilidade inclusiva como normalmente se pretende. Esta dissonância entre sintaxe e semântica leva a que a expressão comece a ser percepcionada como designação para discurso anódino, uma palha floreada para engordar sintaticamente conteúdo simples — e.g. “portuguesas e portugueses” para “portugueses” —, não como cortesia enfática para que cada ouvinte ou leitor se encontre no discurso, uma espécie de ‘encontre o Wally’ da oratória. “Politicamente correcto” é uma expressão que tem origem numa piada soviética popular nos anos 30 do século XX, que sublinha que o interesse do partido deve ser encarado como uma realidade acima da própria realidade1:

— Camarada, a tua afirmação é factualmente incorrecta.
— Sim, é. Mas é politicamente correcta.

 

A Mimosa pudica é uma planta da família das ervilhas que recolhe as folhas quando tocada ou na presença de calor. Este curioso fenómeno denomina-se por sismonastia e pode ser encontrado de forma mais exuberante na (proclamada) Direita portuguesa, que se recolhe não só com o toque mas também com o mais leve suspiro emanado da Esquerda. A proclamada Direita (doravante denominada simplesmente por “Direita” por abuso de linguagem) receia o calor, bastando o mais ténue bafo da Esquerda para que siga a ortodoxia discursiva, a do superior interesse da realidade do partido, a tal realidade mais real que a própria realidade. Quem pensa que Portugal não é um país extremamente politizado por simples observação de valores da abstenção em eleições está redondamente enganado: a politização dos indivíduos não se manifesta nas urnas e sim na facilidade com que estes adquirem o discurso formatado pelas universidades marxistas através da propagação mediática de terminologia emanada do socialismo científico e materialismo dialético.

A luta de classes é um conceito de venda difícil no século XXI. O capitalismo e o seu desenvolvimento tecnológico permitiu que operários — mantendo a terminologia marxista — se rendessem ao aburguesamento que um computador portátil e um smartphone com ligação à rede permitem. Adaptando-se à nova realidade, a realidade da posse de coisas2, tornou-se necessária a mutação de colectiva luta de classes para a esfera pessoal e individual, a dos comportamentos e costumes. Não é de surpreender que trotskyistas fossem os primeiros marxistas a adaptarem-se, motivando o sucesso do Bloco de Esquerda e similares noutros países europeus. Recentemente, dominando toda a agenda com terminologia de casta — e.g. “direitos dos homossexuais” em vez de “direitos humanos”; “combate ao preconceito” em vez de “classe oprimida” —, o ideário marxista recauchutado, inspirado nas tradições religiosas, adaptou o conceito de “pecado” em fobias múltiplas — e.g. homofobia, islamofobia, xenofobia — e o conceito de “virtude” na acção purificadora levada a cabo pelos múltiplos combates a discriminações por acção directa do governo, a elite informada para uma “sociedade mais justa”, eufemismo para o Homem Novo — e.g. “combater a homofobia”; “combater a xenofobia”.

Como todas as guerras inevitáveis, mais valia que começasse mais cedo do que mais tarde. Infelizmente, graças à sismonastia da Direita nacional, já foi içada a bandeira branca de rendição de forma preventiva, antes que alguém começasse a ter ideias. A consequência será mais uma década de destruição criativa até à silenciosa extinção dos resquícios de civilização ocidental em Portugal, a extinção que, quando finalizada, aparentará a tranquila sensação de que o país foi sempre assim desde o início dos tempos.

 

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1The Rise of Political Correctness”, Angelo M. Codevilla, Claremont Review of Books, 2016.
2“Communism doesn’t work because people like to own stuff”, Frank Zappa.

 

 

Vítor Cunha

(blogue BLASFÉMIAS)

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Convidado: OCTÁVIO DOS SANTOS

por Pedro Correia, em 19.07.17

 

Mulheres de(s)arma(da)s

 

Muito se tem falado, discutido, argumentado, justificada mas infelizmente, nos últimos anos – décadas! – sobre a calamidade dos incêndios em Portugal, e que atingiu um trágico, revoltante, apogeu no passado mês de Junho em Pedrógão Grande, com a morte de (pelo menos) 64 pessoas. Uma calamidade que tem muito de criminalidade – bastantes (se não a maioria) dos fogos são ateados por incendiários que apenas sofrem reduzidas, ridículas punições – e que só parece não ter fim porque todos os governos – enfim, o Estado – têm falhado na sua mais básica função, a de proteger a integridade do território, privilegiando a vigilância, a coordenação, o reforço e a aplicação de meios, humanos, financeiros e técnicos onde são mais necessários. Não é difícil, apenas requer vontade e trabalho.

 

Porém, existe outra – continuada – calamidade no nosso país, esta indubitável e exclusivamente de índole criminal, e que já causou, no mesmo período de tempo, muitas mais vítimas do que os incêndios; aliás, um estudo divulgado em Novembro de 2016 indicou que, nos 12 anos anteriores, registaram-se mais de 450 homicídios (ou «femicídios»…) concretizados… e 526 tentados! Mais especificamente de mulheres, vítimas da fúria machista, da raiva revanchista de ex-namorados e de ex-maridos. Que, quantas vezes, tiram igualmente a vida a outros, familiares e amigos, que têm o azar de estarem, no momento e no local errados, na companhia do alvo principal do seu ódio.

Falar nisto como «violência doméstica» não é suficiente. O que mais surpreende neste assunto gravíssimo, que é sem dúvida o pior dos escândalos numa nação em que eles abundam, é o (quase) silêncio… sobre algo que constitui um padrão preocupante, alarmante, com características de um massacre permanente, de assassínios em série, quase que se diria… de genocídio. Que suscita, como habitual, repetida reacção, uma impotente, inútil consternação. Onde estão as feministas, sempre prontas a reclamar contra a «sociedade patriarcal», a «masculinidade tóxica» e outros disparates do mesmo… género, mas que neste âmbito se mantêm incomodamente caladas e inactivas, quiçá rezando para que esta semana nenhuma outra mulher seja assassinada? À semelhança de Catarina Martins, que, agora que existe um governo que ela apoia, já não exige a demissão de ministros por causa dos incêndios mas que se limita a esperar que chova?

 

Esta maré de matança misógina não é, não tem de ser, um fenómeno fatal, «natural», inevitável. Há soluções, respostas, para o problema. No entanto, são um pouco «radicais»… para um país que «progressivamente» se tornou demasiado contemporizador para com a criminalidade, chegando ao cúmulo de ter como pena máxima 25 anos de prisão… independentemente do número de homicídios que se cometa – o castigo é idêntico, quer se mate um, dez, cem ou mil!

Não é, pois, de estranhar que os que matam as ex-esposas ou as ex-namoradas, e quando não se suicidam a seguir, invariavelmente se entregam na esquadra de polícia mais próxima – eles sabem, sentem, que o tempo que gastarão na prisão será mais do que compensado pela satisfação de terem «lavado» a sua honra. Repare-se que muitas, a maioria, das vítimas já haviam sido ameaçadas de morte pelos seus futuros carrascos, já tinham sido objecto de agressões, físicas e psicológicas, pelo que o perigo já era conhecido, previsível.

 

Que fazer, então? É muito simples: a essas mulheres confirmadamente em risco devem ser dadas armas de fogo, pistolas, talvez espingardas, e o treino para melhor as usarem e se (legitimamente) defenderem se e quando for preciso. Obviamente, pela polícia, em colaboração com a polícia. Porque esta, evidentemente, não pode, não consegue, mesmo que queira, estar sempre a montar guarda junto daquelas mulheres nas suas casas, nem acolhê-las nas esquadras. Estas nem sempre, ou nunca, estão situadas ao lado das casas das potenciais vítimas. Por mais rápidos, eficientes, corajosos, competentes que sejam, os agentes da autoridade raramente, se é que alguma vez, chegam a tempo de evitar os crimes «passionais». Logo, as «presas» têm de se tornar «predadoras». Em vez de desarmadas, as mulheres têm de passar a ser… de armas.

 

 

Octávio dos Santos

(blogue OCTANAS)

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Convidada: JOANA MARQUES

por Pedro Correia, em 17.07.17

 

Lisboa a preto e branco

 

joanamarques.jpg

 

 

 

Joana Marques

(blogue QUIOSQUE DA JOANA)

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Convidado: J. J. AMARANTE

por Pedro Correia, em 14.07.17

 

O esquerdista acidental

 

Na vida das sociedades existem duas tendências antagónicas, para a mudança e para preservar o que se alcançou.

Poderíamos dizer que a primeira é progressista e a segunda conservadora. Mas trata-se de classificações apressadas porque por vezes as mudanças são feitas para regressar a situações anteriores enquanto o progresso se faz encontrando soluções inovadoras.

Existe outro par de tendências antagónicas que corresponde melhor à distinção entre esquerda e direita. Enquanto a esquerda sublinha a igualdade essencial de todos os seres humanos a direita sublinha as diferenças entre seres humanos, que também são essenciais à humanidade. Somos todos iguais mas também todos diferentes.

 

A origem da classificação esquerda/direita vem da Revolução Francesa, em que os deputados do lado esquerdo da assembleia davam prioridade à igualdade enquanto os do lado direito davam prioridade às diferenças vincadas entre as classes sociais que existiam no anterior regime.

Como a distribuição da riqueza era então muito desigual em relação à contribuição de cada um, a esquerda foi conotada em toda a parte com o desejo de mudança enquanto a direita com a manutenção do statu quo.

Mas quando após muitos anos as mudanças introduzidas pela esquerda começaram a ser consideradas excessivas nalguns países, observou-se uma maior apetência pela mudança pela parte da direita enquanto a esquerda se batia pela manutenção das regras entretanto estabelecidas.

 

Talvez tenha sido a revolução industrial ocorrida na Europa que criou condições para uma partilha da riqueza muito mais equitativa do que a que existira na Idade Média. Em Portugal a revolução industrial foi muito tímida, devido à nossa situação periférica, à catástrofe pombalina da educação (de repente 20.000 alunos do “secundário” ficaram sem professores devido à expulsão dos Jesuítas), às lutas entre absolutistas e liberais no século XIX. Na primeira metade do século XX tão pouco houve grandes progressos em Portugal, tendo chegado a 1950, metade do século XX, com uma pobreza confrangedora e uma taxa de analfabetismo de 42% (fonte: António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, mostrada na tabela a seguir), um valor único e inacreditável na Europa a que alegadamente pertencíamos!

 

Ano   Analfabetismo Variação

1900           73%             -----

1911           69%             -4%

1920           65%             -4%

1930           60%             -5%

1940           52%             -8%

1950           42%           -10%

1960           33%             -9%

1970           26%             -7%

1981           21%             -5%

1991           11%           -10%

2001             9%             -2%

 

Devido a esta herança de falta de formação, temos tido dificuldade em encontrar profissionais competentes quer na prestação de serviços quer na manutenção de máquinas, sendo preferida a solução de deitar fora e comprar novo, muitas vezes representando um desperdício de capital.

Mesmo agora sofremos deste handicap, quer na manutenção quer nas despesas de funcionamento corrente, como por exemplo no sistema de videovigilância dos paióis de Tancos que estava há dois anos avariado antes do roubo de há dias, no SIRESP que tem má performance nas situações de crise em que teria maior utilidade, na falta de verba para manutenção e funcionamento dos aparelhos de ar condicionado das escolas reabilitadas no programa da Parque Escolar, etc.

 

Claro que o esforço na formação deu os seus frutos. A qualidade e consistência de muitos serviços melhoraram imenso nestes últimos 40 anos, como por exemplo no serviço nacional de saúde, no ensino, no fornecimento da electricidade, da água, do gás, dos telefones do acesso à internet, no saneamento, no tratamento do lixo e em tantos outros sectores que costumam ser noticiados apenas quando ocorrem grandes problemas.

Mas partindo tão atrasado, o país continua na cauda da Europa em muitos indicadores e uma pessoa com tendências conservadoras como eu, que aprecia ver as coisas a funcionar consistentemente bem, não se pode dar por satisfeita apenas com o que se alcançou, vendo-se forçada a apoiar mudanças para uma distribuição mais equitativa da riqueza, que ainda está mais desigual do que a média da União Europeia, sendo a razão principal do nosso atraso.

Ou numa frase: para ser conservador era preciso que o país estivesse muito melhor.

 

É o que me torna num esquerdista acidental.

 

 

J. J. Amarante

(blogue IMAGENS COM TEXTO)

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Convidado: JOÃO FERREIRA DIAS

por Pedro Correia, em 12.07.17

 

O género da discussão

 

O género é um dos temas inquietantes da Antropologia. Talvez por isso seja desagradável darmos com confusões entre Direitos das Mulheres/Igualdade entre Homens e Mulheres e Igualdade de Género. Esta confusão voltou a terreno, por estes dias, no Festival de Cannes, em que a propósito da igualdade entre homens e mulheres no cinema, assim como noutros sectores, foi discutida sobre a lapela da "igualdade de género". Este facto resulta de um problema histórico em que o género emergia culturalmente da distinção do que se concebia por dados biológicos: masculino e feminino como macho e fêmea.
Este pressuposto resultou numa atribuição cultural de significados de género a objectos, lugares da casa, elementos vários do quotidiano, como destacava Bourdieu em The Logic of Practice. Ora, esta ideia não traduz a complexidade cultural do corpo como produto sociológico, no qual se jogam memórias culturais, sentidos de identidade e expectativas normativas e alternativas por contestação.
A religião enquanto instituição que imprime códigos de conduta e moral nos sujeitos não está independente deste processo de construção de papéis sociais, de normatividades tendencialmente estanques, que se desejam eternas por sua intenção cultural de fixarem-se como contínuo social. Por outras palavras, a religião, partindo de um conjunto de padrões morais, pretende a sociedade como uma renovação desse conjunto de pressupostos, considerando as alternativas como contra-normativas. 
 
O que temos, portanto, é um conjunto de ideias acerca do corpo e do seu uso social e sexual, em que os jeitos de ser homem e mulher resultam da sociedade, mas é nela que se reciclam e permitem ressignificar-se. Assim, quando falamos de género precisamos reconhecer que este é um conceito complexo e dinâmico, em permanente reflexão, fruto de reformas sociais, como os movimentos feminista e LGBT. É, então, perigoso confinar o conceito à distinção entre homens e mulheres, pois que há mulheres cujo género é masculino, e vice-versa, e há, inclusive, novas formas de género e trânsitos entre géneros como formas de constituição de identidade.
Se em lugares remotos do nosso Portugal ser homem se constrói nos cafés, nos trabalhos pesados, e o ser mulher se edifica nas actividades domésticas, esse Portugal é apenas uma paisagem entre as várias, porque as fronteiras são muito mais diluídas, e um pai de família pode-se trajar de mulher para um perfil falso numa rede social qualquer, e uma mãe de família, na calada da noite, assistir a pornografia lésbica. Porque a sociedade é a movimentação permanente, ideias conservadoras tendem a reportar a intenções políticas mais do que a fatos sociais. 

 

 

João Ferreira Dias

(blogue A MORADA DOS DIAS)

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Convidado: EDUARDO LOURO

por Pedro Correia, em 10.07.17

 

Paradoxos

 

A comunicação é provavelmente o maior instrumento de relação ao serviço das sociedades. Sempre foi assim, mesmo quando, por dificuldades de circulação, por falta de acessos e de veículos, e até por excessos de policiamento do tráfego, disso se não dava conta.

Hoje a comunicação circula a uma velocidade estonteante, em auto-estradas de quarta geração, sem limites de faixas nem de velocidade. Sem constrangimentos de qualquer espécie - nem polícias, nem semáforos, nem rotundas, nem filas - em veículos de alta cilindrada. Toda a gente dá por ela, toda a gente percebe a sua importância.

Paradoxalmente, quando tem condições como nunca teve para se exponenciar como instrumento de relação, e mecanismo de aprofundamento da vida em sociedade, revela-se, como nunca, uma arma estratégica de destruição massiva. Literalmente. Uma poderosa arma de guerra de que ninguém abdica, em nome de coisa nenhuma.

As estratégias de comunicação sobrepõem-se a tudo e a todas as outras. Tanto mais quanto mais insondáveis forem os objetivos que se destinem a servir. Tanto mais quanto maior for a ambição de manipular, condicionar e enganar…

É assim, em especial, na política e no futebol, mas também em muitas outas áreas da sociedade. Não importa o que se faz, importa o que se diz. Os factos já não contam, contam – e cantam-se – os factos alternativos. O virtual toma conta e sobrepõe-se ao real. A substância é oca e a verdade esvazia-se na opulência da pós-verdade. Mais que reescrever a História, reescreve-se o próprio conhecimento.

É o tempo das fake news, dos Abrantes e dos Sebastiões. Dos directores de comunicação como peças centrais nas estruturas organizacionais. O tempo de cavar trincheiras à volta de dogmas, de levantar muros à volta de crenças. De semear ódios, de acentuar clivagens e de explorar o que mais primário há em cada ser humano.

Não era isto que seria suposto a comunicação servir. Não deveria ser para isto que deveriam ser utilizadas as auto-estradas que temos à mão, cheias de gente vazia de ética e auto-desobrigada dos mínimos deontológicos. Mas os dias de hoje também não são muito mais do que isso: uma sucessão de paradoxos.

 

 

Eduardo Louro

(blogue QUINTA EMENDA)

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