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Contos ínfimos (20)

por Ana Vidal, em 07.03.14

A PRIMEIRA DAMA

 

Tão ambicioso quanto limitado, dedicou uma vida inteira a tentar chegar a presidente da Junta de Freguesia. No dia em que foi eleito vogal, esfusiante, apresentou finalmente a mulher. Ninguém estranhou que fosse uma consoante. Muda.

 

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Conto ínfimo de Natal (19)

por Ana Vidal, em 27.12.12

 

Era uma ovelha de presépio insuportável, achava-se a maior do rebanho. Descobriram que ia beber água ao lago dos patos. O espelho era de aumentar.

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contos ínfimos (18)

por Ana Vidal, em 15.05.12

SÍSIFO


Depois da notícia arrasadora, o homem obrigou-se a subir, sem uma única paragem, os dezanove lanços da escada de serviço. Foi aumentando o ritmo da escalada até ficar sem fôlego. Precisava de se aturdir, de dar ao coração uma outra razão para bater como uma bomba em contagem decrescente. Mas não bastou. Chegou ao topo com vontade de recomeçar tudo, uma e outra vez. Espreitou o elevador. Desceria nele e retomaria a penosa marcha da subida tantas vezes quantas fossem precisas para que o cansaço vencesse a angústia que o esmagava. Havia de conseguir ter paz. O elevador estava no rés-do-chão, podia ver-lhe o tecto sujo no fundo do fosso imenso, escuro. Hesitou um segundo, não mais. Não premiu o botão. E foi por ali mesmo que desceu, afinal.

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LONG SHOT

 

A mulher olhou o homem demoradamente. Escorria pelo sofá abaixo, descomposto, de comando na mão e olhos fixos no écran da televisão. "Se algum dia deixar de te amar, é porque morri". Afirmara ele um dia, pomposo, ainda príncipe encantado. Quantos anos passados? Tantos, tantos. Não sabia porque se lembrara agora daquilo. Olhou-o de novo, quase condoída, mas não resistiu ao masoquismo do teste. Sentou-se ao lado dele e abriu o baile, com voz doce:

- Qual é a minha cor preferida?

- O quê? - nem a surpresa da pergunta o fez desviar os olhos da televisão.

- A minha cor preferida. Perguntei-te qual era.

- Hummm... branco?

- Não. Azul. E o meu prato preferido?

- Ah, deixa-te disso. Sei lá.

- Qual é o perfume que eu uso? - continuou, impiedosa.

- Mas o que é que tu queres com essas perguntas idiotas? - ele começava a impacientar-se.

- Nada de especial. Sabes qual é o nome do perfume ou não?

- Não me lembro.

- E qual é... -  a pergunta foi serrada ao meio por um grito dele.

- Mas tu deixas-me em paz com essas merdas?? Diz o que queres, de uma vez por todas. É dinheiro?

- Pronto, já acabei. Não te maço mais. E não, não quero dinheiro. Queria só ter a confirmação de uma suspeita.

- Qual suspeita?

- A de que vivo há anos sem fim com um morto.

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Contos ínfimos (16)

por Ana Vidal, em 24.04.12

FELICIDADE I

 

"A felicidade que dura faz-se de pequenos nadas", dizia o categórico cartaz, que exibia a imagem de um casal sorridente e de expressão ligeiramente apatetada. Que disparate, pensou. A felicidade faz-se de grandes tudos, o que duram é pouco.

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Contos ínfimos (15)

por Ana Vidal, em 17.04.12

UM AMOR E UMA CABANA

 

Eram um casal tão romântico, tão romântico, que só tinham de seu o amor e uma cabana. Passaram meia vida a gastar o amor, e outra meia a dividir a cabana.

 

 

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Contos ínfimos (14)

por Ana Vidal, em 10.04.12

FACELIFE

 

Fez as malas e foi viver para o facebook. Encontrou mil novos amigos de infância, o amor virtual da sua vida, gente famosa para conviver tu-cá-tu-lá. Povoou quintas, cidades e castelos, deixou likes e smiles em timelines alheios, cuscou o que os amigos andavam a fazer. Partilhou músicas, poemas e citações, aderiu a eventos e causas, assinou petições, postou fotografias de poentes sobre o mar e lolou muito com piadas em inglês. Uma vida em grande, sempre em festa. Um dia, o telefone tocou. Surpreendida, levantou o auscultador, abriu a boca com esforço e tentou articular um "sim?". Nada. Forçou as cordas vocais, uma e outra vez, mas não emitiram um único som. Tinha emudecido.

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Contos ínfimos (13)

por Ana Vidal, em 03.04.12

LIVE AND LET

 

Com o tempo, as bravatas foram dando lugar à acalmia. Praticante de muitos anos de um live and let die que aplicava a torto e a direito e lhe trouxera muitos dissabores, foi passando placidamente ao live and let live e por fim, já pacificado e feliz no conforto do seu promontório, rendeu-se ao leave and let live. Até que chegou a hora do seu próprio die and let live.

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Contos ínfimos (12)

por Ana Vidal, em 27.03.12

BATALHA NAVAL


Durante anos a fio ele foi um imponente porta-aviões. Poderoso, exibia-se pelos mares em que navegava, e eram muitos. Disparava a eito certeiros tiros de canhão, atirando-a mil vezes para um naufrágio triste de que só ela acreditava poder salvar-se.
Ela era tímida, doce, ingénua. Tudo o que queria era tocá-lo, mas, por mais que tentasse, o seu alvo era sempre e só a água. Não lhe aflorava sequer o convés.
Um dia, vá lá saber-se porquê, amotinou-se e afinou a pontaria. E quando tudo acabou, surpreendeu-se com o som da sua própria voz, com uma frieza que desconhecia ter: submarino ao fundo.


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Contos ínfimos (11)

por Ana Vidal, em 20.03.12

FEITIÇO

 

Era uma vez um príncipe tão feio e tão triste, que foram precisos muitos séculos até que uma rã especialmente generosa o beijasse. Liberto enfim do terrível feitiço da realeza, voltou à sua verde e reluzente condição de sapo, casou com ela e foram felizes para sempre no sapal mais próximo.

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Contos ínfimos (10)

por Ana Vidal, em 13.03.12

EGOS

 

Em tempos, temera os egos desmesurados. Mais tarde, desprezara-os militantemente. Estava agora no ponto de achá-los dignos de pena, e na esperança de chegar um dia a conseguir ignorá-los.

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Contos ínfimos (9)

por Ana Vidal, em 06.03.12

ARTIGO DEFINIDO


Percebeu que ele era culto, quando disse gostar dos Carmina Burana e não da Carmina Burana. Percebeu que era snob, quando acrescentou: "mas na versão de Clemencic, e não nessa reconstrução quase desinteressante de Carl Orff".

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Contos ínfimos (8)

por Ana Vidal, em 29.02.12

THE END

 

Casaram e foram muito felizes.
Ele, a babar-se com as empregadinhas do shopping.
Ela, a fazer plásticas até parecer-se com uma empregadinha do shopping.

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Contos ínfimos (7)

por Ana Vidal, em 22.02.12

VERDADE

 

Ela merecia tudo, sabia-o desde o primeiro minuto. Por isso a olhou nos olhos e afirmou, convicto: "Às tuas perguntas, meu amor, responderei com a mais pura, luminosa e bela das verdades. Nem que para isso tenha de inventá-la".

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Contos ínfimos (6)

por Ana Vidal, em 13.02.12

LETRA

 

- Desculpa a minha letra, é ilegível.
- Pelo contrário, leio muito bem a tua letra.
- A sério?
- A sério. Ilegível és tu.

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Contos ínfimos (5)

por Ana Vidal, em 06.02.12

LIÇÃO DE GRAMÁTICA

Zap, zap, a mão estalou na cara do rapaz.
- Então? Qual é o antónimo de paz?
E o rapaz, numa súbita inspiração:
- É… é zap!

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Contos ínfimos (4)

por Ana Vidal, em 30.01.12

REDES

 

A carta dizia apenas: "Vem. A vida é um arame sem rede". Ela sorriu e foi, porque sabia que a rede é um arame sem vida.

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Contos ínfimos (3)

por Ana Vidal, em 23.01.12

VOZES

 

Tinha dentro de si um coro de vozes dissonantes, sem pauta nem maestro que pudesse harmonizá-las, e todas com a secreta ambição de uma carreira a solo. Até que, um dia, só o silêncio subiu ao palco.

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Contos ínfimos (2)

por Ana Vidal, em 16.01.12

FUGA

 

De tanto ouvir Bach, acabou por especializar-se na arte da fuga. A última foi de si próprio.

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Contos ínfimos (1)

por Ana Vidal, em 09.01.12

CARPE DIEM,

tinha ela escrito na t-shirt, em letras fluorescentes. Mas o latim não era o seu forte, traduzira mal o lema: tudo o que fazia dos seus dias, era carpi-los.

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