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Feliz Natal!

por Bandeira, em 24.12.16

Não é fácil ser-se o presumível pai de oito crianças (eram sete mas uma não resistiu) por alturas do Natal, sobretudo quando se está desempregado numa firma que paga tão pouco quanto a minha – uma startup ostentando digníssima inscrição na porta, no espaço livre entre as citações judiciais, com os dizeres “Emprendendo desde 2017”. Por várias vezes chamei a atenção para a falta de um “e” no enunciado; do economato respondem invariavelmente que a pouca tinta que circula ainda nas veias da velha impressora está reservada para coisas verdadeiramente importantes, como fotos de gatinhos tiradas do Instagram, bilhetes para a ópera (excepto o Don Carlos) e notas de banco, não forçosamente por esta ordem.

 

Procurei uma lojinha de brinquedos no centro comercial Pandemónio e solicitei à menina atrás do balcão – onde se escondia, soube-o depois, por não ter “nada para vestir” – que me aconselhasse uma prenda para oito crianças entre os três meses e os nove anos de idade; igual para todas, claro, porque eu jamais aceitaria favorecimentos à vista de toda a gente. Conversámos um pouco sobre como era engraçado que ela, com um doutoramento em Astrofísica e duas idas à Lua no currículo, tivesse acabado numa loja de brinquedos. “Todos os anos tenho dado o mesmo aos miúdos”, disse-lhe então (não sem dificuldade porquanto a menina, gemendo, batia com a máquina Multibanco na cabeça), “Licor Beirão para os mais novos e vodka para os mais velhos, para eles misturarem com o que quiserem e dessa forma incentivar o seu espírito de iniciativa; mas este ano faltam-me os meios e, além disso, queria variar um bocadinho”. “Cigarros são uma boa alternativa”, respondeu a astrofísica entre soluços, “os mais velhos de certeza que já fumam e os mais novos gostam sempre de ver os bonecos”.

 

É preciso algum cuidado com os conselhos de pessoas que vivem na Lua. Ainda assim, comprei uma garrafa de CRF e um pacote de Definitivos que encontrei num alfarrabista. Tenciono telefonar à minha mulher e convidá-la a aparecer, na condição de não trazer o Gelsão com ela. A família toda reunida, outra vez. Vai ser uma festa.

 

Rufino

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Fúria

por Patrícia Reis, em 02.09.16

 

Há aquele momento estranho que antecede a chegada. Há um barulho nas escadas, a porta do elevador, os passos na laje. Um aperto, uma quase dor. Prevendo o pior, ainda na esperança do melhor, ela deixa-se estar de costas para a porta, na cozinha, a barriga húmida da água que escoa do lavatório. Depois há duas hipóteses: ou ele se chega, bem disposto, a mão na porta do frigorífico, e uma frase qualquer, desgarrada, como se estivessem a falar há muito; ou a mão na porta do frigorífico e o silêncio a romper o gelo no copo alto. Um aperto, uma quase dor.

São segundos que definem a noite. Manchas de peso que alastram pela casa, propagando a aflição no peito, o bater do coração descompassado, deslocado, a meio do pescoço, prestes a deixar o corpo. Se o coração não estivesse preso, embrulhado nas cordas e no tubo de dez centímetros que é a traqueia, talvez conseguisse gritar. Um grito por ela, de terror por aguentar, de aviso, de guerra. Mas ela está assim, interdita, as mãos na água, as pulsações a contabilizar o medo e o medo a dominar tudo.

Julga-se protegida por não terem tido filhos. Seria pior. Tenta acreditar nisso. Muitas vezes acredita. Defende-se sem habilidade quando lhe perguntam porque é não tiveram, porque é que não cumpriu o seu papel, a coisa grandiosa da maternidade que confere sentido de vida mesmo ao que não terá nunca sentido. Para a esquerda? Para a direita? Como definir um sentido? As pessoas encaram-na com uma certa pena. Como se não fosse mulher o suficiente, como se dependesse dela. Nessas ocasiões sorri e olha para longe e espera que passe, sabendo de antemão que falta uma resposta e que do seu silêncio nascerá apenas desconforto, constrangimento e, por fim, outra vez pena.

Ele não julga nada porque a vida não lhe ensinou isso. Ensinou-lhe as coisas básicas da sobrevivência: o trabalho é para trabalhar. Um homem não deixa e não faz um rol de coisas que não importa agora nomear. Um homem fuma e bebe, não chora nem pede. Paga as contas e verifica o dinheiro. Fecha a porta da casa de banho. Sempre. Compra roupa uma vez por ano. Usa o mesmo tipo de sapatos. Arranja as coisas em casa. Procura não pensar. Nada de sonhos, nada de fantasias.

 

Larga essas revistas, que porra!

 

Ela sonha com as extensões de cabelo da apresentadora do concurso da televisão; sente as dores da outra que foi trocada pelo marido seis meses depois de um casamento majestoso numa quinta qualquer; comove-se com o nascimento da modelo; tenta imitar a actriz da telenovela da noite. Tudo isto antes de fazer o jantar, as revistas escondidas do olhar dele. A mesa está posta e ele arrasta-se com o copo na mão até ao sofá gasto. Ela atreve-se

 

Um dia vou mudar de sofá.

 

Nem penses, este já tem o buraco do meu cu.

 

São coisas assim. Coisas que a limitam, aprisionam, desfiguram. Ele torna-a um conjunto de coisas sem nome. Ela sabe e sabe melhor quando vê as horas a serem comidas pelas telenovelas e o ouve roncar de álcool no sofá. A cozinha está arrumada, não lhe resta mais nada, a luz da televisão a engolir-lhe a tristeza e ela a perder a noção de si, pronta para ser uma princesa, alguém outro que ninguém conhece. Uma mulher, por fim.

Nessa sexta-feira fazia calor. Era tarde. Não lhe apetecia carregá-lo para a cama, ouvi-lo na sua voz empastada a dizer asneiras, a chamar-lhe nomes, a agressividade nos olhos, os gestos de guerra, a guerra dos dois. Quando começou? Já nem se lembra. Um dia, a mão no frigorífico, o gelo e o copo, sempre o mesmo copo. Começou assim e não importa se foi ontem ou há dez anos porque nada mais mudou. Há uma sucessão de desenganos e pequenas tristezas que convergem lentamente para um final que ela entende como um castigo: a mão no cotovelo dele a endireitar o corpo, rumo ao quarto, a mão dele na blusa dela, os dedos grossos

 

Nunca foste boa. Podias ser boa.

 

O corpo dele, por fim, na colcha de salmão brilhante e os sapatos a não querer sair, as calças a prender, a força de o levantar um pouco mais, ele a gritar

 

Deixa-me estar, porra.

 

Ela, paciente, silenciosa, a trabalhar com as mãos, os botões da camisa, o fecho do casaco de malha. As coisas no corpo dele. Podia despi-lo de tudo o resto. Não é capaz sequer de pensar nisso. Despi-lo da pequenez, da falta de mundo, da bebida, da vida. Podia até matá-lo, como viu numa série policial. Podia isso tudo e naquela sexta-feira imaginou que sim porque na televisão uma senhora pequenina, com um xaile pelos ombros, disparou olhando-a nos olhos, só a ela.

Na imensidão da noite, dentro daquela luz branco azulada do ecrã, a escritora virou-se para ela e disse

 

As mulheres pequenas inspiram um sentimento de vaga hostilidade, como se pertencessem a uma raça diferente. (*)

 

 

E naquele momento, como uma vocação, encarou o marido no sofá, o copo em cima da mesa de acrílico, junto ao cinzeiro imundo, a paisagem da sala por inteiro, como uma novidade, e considerou que era verdade, a escritora tinha razão. Ela, como outras, era de uma raça diferente. E, sem fúria, já calma nos seus ímpetos de fuga, optou por deixar o marido no sofá de cornucópias. Fez a cama de lavado, uns lençóis brancos de algodão puro, suaves e menineiros, e deitou-se nua no calor da noite. Repetiu alto a frase de Agustina Bessa-Luís sobre as mulheres pequenas e a diferença.

Sentiu-se bem.

Pela primeira vez, depois de muito tempo, de tanto tempo, sentiu-se bem.

 

*

Agustina Bessa-Luís, As Fúrias, página 47.

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A morte viaja a cavalo

por Rui Herbon, em 17.05.16

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Ao entardecer, sentado na cadeira de couro, o avô julgou ver uma estranha figura, negra, frágil e alada, voando em direcção ao sol. Aquele presságio fez-lhe recordar a própria morte. Levantou-se com calma e entrou na sala. E com um gesto firme, no qual se adivinhava contudo certa resignação, pegou na espingarda pendurada sobre a lareira. Montada num cavalo negro, pelo caminho estreito paralelo ao rio, avançava a morte num frenético e quase cego galopar. O avô reconheceu a silhueta do inimigo. Entrincheirou-se atrás da janela, aprontou a arma e cravou o olhar no coração do verdugo. Besta e cavaleiro atravessaram a linha imaginária do pátio. E o avô, que havia aguardado desde sempre aquele momento, disparou. O cavalo parou de repente e o cavaleiro, com o peito perfurado, abriu os braços, dobrou-se sobre si mesmo e caiu de frente, com a cara enterrada no pó. A detonação interrompeu as nossas tarefas quotidianas, ressoou na casa e inquietou os nossos corações. Saímos para o pátio e, como se tivéssemos estabelecido um acordo prévio, rodeamos em semicírculo a figura caída. O meu tio avançou, despojou-se do chapéu, e inclinado sobre o corpo ainda quente daquele desconhecido, virou-o. Então vimos, iluminado pelos reflexos cinza do entardecer, o rosto sereno e sem vida do avô.

 

[Imagem: Fotograma de The Night of the Hunter, de Charles Laughton, 1955]

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Eu, Cristiano

por Patrícia Reis, em 12.01.15

 

 Bom dia, como está? Isto é um pouco constrangedor. Desculpe. Foi o Cristiano Ronaldo quem me mandou. Tem conhecimento? Óptimo. A minha história? Quer que lhe conte a minha história? Para isso tenho de começar lá atrás. Se tem tempo... Obrigado. Uma garrafa de água, por favor.

Bom. A minha história começa assim:

O meu pai chamava-se Martunis.

Era um homem sério, religioso, algumas pessoas diziam que estava sempre com a cara cheia de problemas. Eu nunca o vi assim, tenho outra ideia. No sítio onde nasci, em Bali, acreditamos que os deuses estão acima da montanha e que o mal está no mar. O meu pai nunca compreendeu os turistas, os surfistas, a vontade de ir à praia. Respeitava e temia o mar. Para sermos honestos, tinha todas as razões para encarar o mar como um inimigo. O mar virou-se contra ele. Sim, é uma história que correu o mundo. Enfim, o meu pai não teve uma vida fácil. Para explicar melhor, tenho de contar que ele era muito novo quando as ilhas foram devastadas pelo tsunami. Isto foi em 2004. Não se recorda? Bom, eu sei quase tudo o que há para saber sobre o tsunami. Infelizmente.

Era o dia 26 de Dezembro, pelas oito da manhã. Foi um abalo de 8,9 na escala de Richter e depois de nove graus. Foi o sismo mais violento em anos. Morreram mais de duzentas e vinte mil pessoas, milhares ficaram desalojadas, muitas desaparecidas. A única informação que existe é pouco conhecida. Aquele a que acho alguma graça é que, como resultado, a duração dos dias tenha diminuido. Seis microssegundos. Não é incrível? Ou seja, a rotação do planeta Terra passou a ser mais rápida. A maioria das pessoas não liga a estes pormenores, eu acho fascinante. Tenho quase a certeza de que passámos todos a viver mais depressa por causa do tsunami. É apenas uma ideia, claro.

Desculpe. Não vim aqui para falar de geografia, tem toda a razão. O que importa é que este evento mudou a vida da minha família. Eu ainda não tinha nascido, naturalmente. Todas as histórias sobre o tsunami, fui-as ouvindo enquanto crescia. Vários tipos de histórias, mas nenhuma como a de um menino chamado Martunis. Logo a seguir ao vosso Natal, o meu pai esteve desaparecido durante vinte e um vinte e dias. Quando foi encontrado por uma equipa de reportagem inglesa, estava desidratado, e a única coisa que trazia no corpo era uma camisola da selecção portuguesa. Sim, é verdade. Esta imagem, do meu pai, muito pequeno, com sete anos, com a camisola portuguesa, ainda se pode encontrar com facilidade. É, ainda hoje, comovente. Um menino perdido. Foi-se alimentando de coisas que o mar lhe trazia, estava muito magro, mas sobrevivia, sempre com a camisola. Quando chegou ao hospital, foi preciso algum tempo para o convencer a despir a camisola. Pelo menos era o que ele contava. E contava com orgulho.

Devo dizer que o herói do meu pai era o Cristiano Ronaldo. Foi assim que, quando nasci, não houve qualquer dúvida quanto ao nome que me dariam. A minha mãe não teve hipótese de escolha. Vingou-se na minha irmã, acho eu. Escolheu o nome da mãe. O meu pai não gostava muito da minha avó. Coisas de famílias numerosas. A mãe também escolheu o nome da minha outra irmã e do meu irmão, ambos mais novos. Não lhe importa nada disto, de certeza. O que lhe quero dizer é que trago comigo uma homenagem ao maior atleta de todos os tempos. O meu pai, durante o Mundial de 2014, dizia-me muitas vezes:

 

“Filho, estás a ver? Observa bem a forma como ele se move em campo. Não é apenas a sua capacidade física ou a inteligência nas jogadas. O Cristiano não é somente futebolista, é um atleta completo. Quando era miúdo, na Madeira, era muito pobre e jogava com uma bola de trapos numa rua íngreme, tinha de correr muito, percebes? Quando começou a jogar num campo plano, imaginas a surpresa do Cristiano? Corria como poucos.”

O meu pai admirava-o fervorosamente. Sabia todos os golos, todas as jogadas, as críticas que lhe foram feitas por outros jogadores, pelo presidente da FIFA antes de ter ganhado a segunda bola de ouro. Podiam perguntar, fosse o que fosse, sobre o Cristiano? Sim, o meu pai sabia tudo e se fosse a um concurso sobre futebol tenho quase a certeza de que ganharia com facilidade. Era uma enciclopédia ambulante no que respeita ao jogo-rei. Além de ter uma fotografia com o seu jogador de eleição - a mesma fotografia que fiz questão de levar para o seu enterro -, o meu pai colou na parede da nossa sala de jantar uma fotografia enorme da família Aveiro. Todos juntos e sorridentes, em pose. Quando havia qualquer desavença, uma troca de palavras mais aguerrida, o meu pai, sempre silencioso, olhava para aquela imagem, apontava para ela como alguns apontam em reverência para santos ou deuses. A mãe de Cristiano Ronaldo, a Dona Dolores Aveiro, foi o modelo do meu pai. Ele dizia:

 

“Toda a educação está em saber qual dos nossos filhos pode ser vencedor, e a Dona Dolores sabia. Mandou o menino para Lisboa, para a academia de futebol, e ele chorava todos os dias. Ao telefone, a mãe garantia que tudo iria passar, que o Cristiano era o único que podia fazer alguma coisa da vida, que podia não ser pedreiro. Pelo menos foi a história que eu li.”

Estas histórias — e outras — foram acompanhando a minha existência desde que me lembro. Quando fiz cinco anos, já tinha uma camisola da selecção portuguesa com as cinco quinas. Há uma fotografia desse dia de aniversário, parece que sou uma menina com aquela coisa enorme vestida. Tem graça. Como pode calcular, não era muito comum, muito menos em Bali, esta devoção pela equipa portuguesa. Ainda bem que me pergunta isso... É fácil de responder. É que, repare, historicamente, a ligação entre a Indonésia e Portugal tem várias mágoas. Timor-Leste e a invasão do governo de Jacarta em 1975 era a pedra no sapato do meu pai. Ele queria que a relação entre os dois países fosse como todos os bons desportistas: leal, transparente, constante, recíproca. Com o tempo, os dois países conseguiram estabelecer uma ponte de diálogo e de entendimento. Foram precisos muitos anos. Hoje existem boas relações, felizmente. E Timor-Leste é um país independente desde 1999. Desculpe lá esta história ser tão comprida, mas a verdade é que eu também sou um coleccionador de informação. Acho que me está no sangue. O meu pai era assim. Até a minha mãe adoptou a expressão portuguesa: “Tal pai, tal filho”. Vou voltar à minha história, então. Tenha paciência e desculpe-me se demoro muito. Não o quero fazer perder muito tempo.

Bom, então nesse caso, se não tem pressa, eu conto como deve ser. Em 2004, quando a grande onda moveu a terra e devastou tudo e tantas pessoas no Sudoeste Asiático, a imagem de um miúdo desaparecido com uma camisola da selecção portuguesa correu mundo. O meu pai. Estou a repetir-me? Desculpe. Seja como for, poucos anos mais tarde, conheceu o seu herói. Foi um encontro fundamental na vida do meu pai. Ouvi tudo isto vezes sem fim e com um único intuito: ir atrás da bola. Ser um segundo Cristiano Ronaldo. Ser um exemplo.

Ser um exemplo não é fácil, e mesmo o futebolista português fez a sua quantidade de asneiras. Quando o dinheiro começou a entrar, os clubes passaram a disputá-lo, e era evidente que ele era o melhor. Então, algumas coisas subiram-lhe à cabeça. Depois foi crescendo e aprendendo a valorizar o que importa, o que é prioritário. Aqui entre nós, as asneiras que fez são muito poucas, e sempre foi contido. O meu pai dizia:

“Repara que, com todas as possibilidades de fazer o que quisesse e com dinheiro para isso, nunca deixou de se rodear pela família”.

E, mais uma vez, lá estava eu a ver o livro de recortes que o meu pai fazia. Tinha de tudo um pouco. Crónicas de comentadores desportivos, entrevistas ao jogador, fotografias. Gostava especialmente de me apontar a imagem de Dona Dolores, a mãe, sempre lá, com o neto ao colo, aquele que tem o meu nome. Temos de concordar que a senhora sempre foi uma mãe que esteve ao lado do filho. Nos momentos bons e maus. Sim, porque o Cristiano Ronaldo também teve momentos maus. Acusações, namoradas que apareciam em revistas, comentários mais tendenciosos. O talento gera muita inveja, e as pessoas são, na essência, capazes de criticar pela negativa com a mesma facilidade com que conseguem respirar. Ele aprendeu com isso.

E quando foi pai percebeu que ter um filho é ter o coração fora do corpo. Vejo que tem aí fotografias de uma criança. Pois. Imagine o coração de Dona Dolores. O coração dela deixou-o voar para Lisboa, para o livrar de um destino marcado pela pobreza. Reza a história que, quando ganhou pela primeira vez algum dinheiro, terá feito o que a maioria dos miúdos faria: gastou tudo em doces. Mais tarde, é o que dizem, com o dinheiro da primeira transferência para o clube inglês Manchester United comprou uma casa para a mãe. Não sei se é verdade, mas parece-me plausível. Uma mãe que é capaz de apostar tudo num filho é também um exemplo. E sem descurar as irmãs e o irmão. Em todos os jogos, os Aveiro, faziam claque e sempre foram defensores do menino prodígio. Contra tudo e todos. A família sempre unida. Não sei a razão que me leva a contar-lhe tudo isto, é sobejamente conhecida a história do atleta. Para ser honesto, o Cristiano é a origem do meu nome, a camisola das quinas salvou o meu pai e eu fiquei com este nome.

Então, em 2030, eu fiz onzeonze anos. Não sabia que a minha vida iria mudar. Radicalmente. O meu pai convencera a minha mãe. Imagine, tudo organizado sem o meu conhecimento. Vi-me dentro de um avião, numa viagem sem fim, horas dentro daquele aparelho. Nunca tinha voado, estava cheio de medo das turbulências, com a mão vincada no braço do meu pai. A minha mãe ficou para trás, com a minha irmã, a chorar em silêncio. Ninguém me explicou nada. Quando cheguei à Academia do Cristiano Ronaldo, tinha, exactamente, onze anos, quatro dias e sete horas. Lembro-me de fazer as contas. A mesma idade que ele tinha quando ingressou na Academia do Sporting., certo? Ele, um menino da ilha da Madeira. Eu, um menino da ilha de Bali.

Vi o meu pai deixar-me ali, depois de várias conversas, de eu ter percebido que há muito que tudo estava planeado e que o meu pai trabalhara dois turnos no hotel, havia anos, para ter a certeza de me conseguir mandar para a Academia que o atleta fundou depois de se retirar da vida profissional. A vida na academia? É uma pergunta que me deixa sempre a pensar. É que não foi uma época fácil. Aprender português, mudar os hábitos alimentares, ter aulas e treinos todos os dias. É preciso uma disciplina férrea. A maioria das pessoas não tem ideia do que é. Mas adiante. Levei muito tempo até ver o Cristiano Ronaldo. Lembro-me como se fosse ontem. Era o dia do meu aniversário, estava a sentir muita pena de mim mesmo, queria fugir. As saudades da minha família, dos meus amigos, eram uma dor permanente que eu trazia, parecia que tinha um sufoco preso no peito. Como disse há pouco, não foi fácil.

Jogar à bola na escola é uma coisa, na rua, com os amigos, é uma coisa. Jogar todos os dias, treinar o corpo e a cabeça para jogos sérios, aprender tácticas, perceber a inteligência e beleza do jogo, isso é diferente. Tudo isso foi feito com muito sacrifício, por mim e por outros. Não é fácil, nunca será fácil. Bom, eu fazia doze anos, e, de repente, na cantina, o Cristiano Ronaldo, com a mesma cara de sempre, apareceu-me a sorrir e com uma prenda debaixo do braço. Trazia consigo o filho consigo e ainda os sobrinhos. O meu português não era rudimentar, não era maravilhoso. Recordo-me de corar e de não conseguir dizer nada.

“Então, não abres a tua prenda?”

Abri o pacote. Era vermelho e tinha uns floreados e um grande laço branco. Não queria acreditar. Adivinhe lá o que foi a minha prenda. Pois, é difícil. Era um fato de treino da selecção portuguesa. Não era novo e ficava-me enorme, caso tivesse ideia de o vestir. À primeira, confesso, não percebi. Ele riu-se e acrescentou:

“Cristiano, não fiques triste. É o meu fato da selecção do mundial de 2014. Achei que tu, mais do que qualquer outra pessoa, irias gostar de ficar com ele.”

Sim, quando percebi a magnitude do gesto, agarrei-me a ele, parecia ainda um gigante para mim que era tão miúdo, e abracei-o com força. Aquele fato tinha sido dele e agora era meu. Não o guardara para o filho ou para o museu que decidira abrir para exibir os seus troféus na cidade do Funchal, na Madeira. Nada disso. Era meu. Só meu. O fato passou a representar o mesmo que a camisola das quinas representava para o meu pai: sobreviver, ir a algum lado, ser um exemplo, fazer mais e melhor, não desistir. Neste caso, como disse, a ideia pode resumir-se assim: ir atrás da bola. Nesse ano, quando o Mundial começou, vi todos os jogos com o fato ao meu lado, como um amuleto. A fama de que os futebolistas são supersticiosos precede-nos e não representa qualquer exagero. Não acreditamos na sorte, queremos que ela acredite em nós. Em 2030, Portugal teve um desempenho extraordinário e chegou à final. Sofri com uma alma lusitana que desconhecia possuir, uma alma que me cresceu aqui.

Seis anos mais tarde, obtive o meu primeiro contrato como profissional. Consegui que a minha família viesse para Lisboa. O Cristiano Ronaldo ajudou-me a agilizar o processo, e o filho dele também foi impecável. Agora estamos em 2039, e eu gostaria de pedir a nacionalidade portuguesa. Quer saber porquê? Quero que em 2042, no Mundial, haja outro Cristiano Ronaldo no campo com a camisola das cinco quinas. Sim, já sei que dizem que sou arrogante. O meu mentor diz que é da idade. O meu pai já cá não está para me dizer nada. A minha mãe preocupa-se e dá-me conselhos. O melhor conselho? Isso é fácil:

“Cristiano, quando entrares em campo, deixa de pensar, concentra-te apenas no jogo. Pensa no teu pai.”

A minha mãe acabou por substituir o meu pai na construção deste sonho de ver o filho a jogar à bola. Se alguma vez teve dúvidas, nunca o disse. O meu pai, infelizmente, morreu com complicações cardíacas. Exaltava-se muito com algumas coisas que eram menores, sem importância. Era quase bizarro, vindo de um homem tão calmo. Irritou-se no trabalho, não se sentiu bem, em duas horas estava morto. Voltámos a Bali, fizemos tudo o que uma família hindu faz para homenagear os mortos. Pensei em não regressar. A minha mãe recusou-se.

Já não há nada aqui para nós. A nossa vida é em Portugal, e o teu futuro está lá.

Portanto, é simples: Portugal sempre foi o meu futuro, o da minha família. Mesmo para a minha irmã. Assim que cá chegou, iniciou os estudos académicos e hoje é especialista em gestão desportiva. É a maior adepta da selecção nacional que conheço. Mas isso é o que dizemos todos. As famílias são refúgios muito importantes. O maior consolo. A minha irmã avisou-me várias vezes sobre a comunicação social. O Cristiano Ronaldo, agora que já não usa dois brincos, diz que não tem idade para isso.

— Tenho cinquenta e três anos, pá. Essa época já passou.

E sorri. Como sempre sorriu. Com uma cara de menino, vejo-o a gerir a academia com punho de ferro, a fazer comentários desportivos com uma acutilância que, julgo, poucos têm. Hoje é respeitado por todos, é um herói nacional. Apesar desse estatuto, não fica quieto. Opta por dar bolsas de estudo para quem quer estudar, recebe miúdos como eu, vindos do mundo inteiro, que querem aprender futebol. Talvez tenha mudado um pouco. Mas continua a ser um homem grande, bem-posto, que treina todos os dias. Recentemente, fizeram-lhe uma sessão de fotografias lá na Academia, e posso dizer que a sua boa forma provoca inveja a muitos jovens que andam por aí.

Algumas pessoas acusaram-no de ser arrogante. Nunca o entendi assim. E, mesmo que fosse o caso, o meu pai provar-me-ia, como tantas vezes fez, que o Cristiano Ronaldo não foi apenas um jogador de futebol. É, ainda agora, um atleta completo, exigente, extremamente trabalhador. Um homem que percebeu as suas limitações e que tudo fez para as diminuir. Um homem que aparecia em festas com brincos de diamante. Sim, também é esse jovem das fotografias e imagens antigas. Hoje talvez seja mais interessante conhecê-lo. No ano em que abandonou a carreira, com quarenta e dois anos, dedicava-se oito horas por dia a vários tipos de treino e já tinha incorporado o ioga na sua rotina há mais de dez anos. Percebeu que o ioga o ajudava a respirar de outra forma. Um dia, contou-me que tivera uma conversa extraordinária com o jogador galês Ryan Giggs. É de salientar que, com quarenta anos, Giggs ainda jogava no Manchester United. O jogador estava convicto de que a longevidade da sua carreira se devia ao ioga e ao pilates, outras técnicas para trabalhar o corpo. O Cristiano era muito novo quando conheceu Ryan Giggs, mas não se esqueceu. Anos mais tarde, além de tudo o que fazia fora dos treinos de campo, optou por experimentar as opções do galês. E com sucesso, como se sabe. Fez uma longa carreira. Hoje mantém-se em forma, e eu vejo-o muitas vezes. Ele pergunta:

“Manténs o ioga? A meditação? “

“Sempre, mestre, sempre.”

Trato-o assim, por mestre, por não ter conseguido arranjar uma palavra melhor. Ele vem ver os treinos, faz recomendações, almoça connosco. Não é pessoa difícil de abordar, pelo contrário. E digo-lhe: se o Cristiano Ronaldo der com uma criança a olhá-lo com admiração, é ele que a chama. Não se importa de tirar fotografias com miúdos, acho que é um dos momentos preferidos dele. Há qualquer coisa nele que nos garante que é possível. Muitas pessoas podem estar convictas de que se trata de carisma. Pode ser. Ele é um homem que entra numa sala e dá-se uma espécie de mudança de atmosfera. Sim, eu sei que sou um fã incondicional, há quem me goze por causa disso. Existem outros jogadores de quem gosto muito, e sou um privilegiado por jogar no clube onde jogo há dois anos. Tratam-me bem. Sou respeitado. Os meus colegas estão comigo, e eu com eles. A união é importante para a dinâmica de grupo, é o que o mister está sempre a repetir. Já o disse ao Cristiano, e ele perguntou-me:

“Mas tens alguma dúvida? Achas que é possível fazer um jogo sozinho? Não:, o jogo é a equipa, a equipa é o jogo. Essa é a beleza do futebol. Sermos uns para os outros em campo.”

“Mesmo que uns brilhem mais que outros?”

“Precisamente para uns brilharem mais do que outros, é assim, não há nada a fazer. Se metes um golo, metes um golo, mas a pergunta que deves fazer é: quem é que te ajudou a conseguir aquele resultado? Percebes? Isso é a equipa, e a equipa é como uma família. Para uns crescerem, outros amparam.”

Pela minha saúde, isto são as palavras dele. Sem tirar, nem pôr. Nunca me esqueço do que me diz. Nunca. E tomo nota. E, pode parecer estúpido, mas mantenho o arquivo que o meu pai tinha começado. Tenho um arquivo sobre o número sete que o senhor nem imagina. A minha namorada, é da cidade de Évora, chama-se Maria do Céu, nome que herdou da avó, diz que às vezes se interroga sobre o meu amor por ela, se consigo amá-la quando amo o futebol com esta garra e força. Claro que é apenas uma brincadeira, não há limites para o amor, não concorda comigo?

Não sei se o senhor doutor, como advogado, precisa de mais razões para o meu pedido de nacionalidade. O clube diz que apoia, tenho a certeza de que os adeptos também. Raramente vou à Indonésia, a minha casa é esta. E o meu sonho? O Mundial. A única coisa de que gostaria, e não sei se consigo, confesso, é vestir uma camisola com o número sete. Isso faria o meu pai muito feliz. Onde ele estiver. E, olhe, devo dizer-lhe que, se os uniformes ainda fossem os mesmos, garanto-lhe que vestiria o fato que o Cristiano Ronaldo vestiu em 2014. Lembra-se desse ano? Que ano. Ele ganhou a segunda bota de ouro, logo a seguir ao grande Eusébio falecer. Portugal vivia um período conturbado, de austeridade, com problemas económicos sérios.

O futebol sempre contribuiu para alegrar e para unir as pessoas. Um povo revê-se nos seus heróis. O meu pai, com sete anos, sobreviveu ao tsunami por ter uma camisola das quinas. Era a sua crença, acreditava no poder protector das cinco quinas. Quem sou eu para o desmentir? Diga-me lá, acha que o pedido de nacionalidade é um processo complicado? Ah. Ainda bem. É que o meu coração é como o do Cristiano Ronaldo: português.

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conto de fim de ano

por Patrícia Reis, em 31.12.14

Caro Manuel

Escrevo-lhe da praça do Muro das Lamentações em Jerusalém. Perdoe-me. Não estarei para a Consoada. Agradeço-lhe o convite, sabe que sim, sei que não se esquece de mim. Devo ser uma espécie de sem-abrigo afectivo na sua vida, condição altamente recomendável para um viúvo e, sabendo que não desdenho as fatias paridas e o bacalhau com couves da nossa Cecília, a verdade é que fugi dessa coisa natalícia, artificial e luzente que não compreendo. Ou já não compreendo.
Tempos houve que saía de casa para ver as luzes na avenida, espreitar as decorações, o cheiro do frio de Dezembro, a conversa das prendas e toda a organização das festas. Fazia o presépio no primeiro domingo de Dezembro. Fazia-o com cuidado, comprava musgo na florista, desvendava cada figura guardada em papel de jornal, conseguia algumas diferenças na composição de ano para ano, mas coisa pouca.
Não tenho força para nada disso, descer à arrecadação, procurar os enfeites de natal e viver esse momento, julgo ter perdido o sentido da vida, de estar e ser com os outros. Respiro apenas, meu amigo. Respiro e o coração bate sem emoção. Isto não é vida. É outra coisa. Quando comecei a ver o carro carregado com as iluminações, as gruas e os homens a preparem o natal, percebi que não conseguiria ficar indiferente.
Como uma espécie de tortura, optei por viajar e escolhi, de todos os lugares do mundo, imagine, Israel. E agora aqui estou no lugar fundador de tudo, na estranheza desse princípio que está no nosso código genético, no nosso imaginário.

Está frio, sabe, que entra nos ossos. Talvez seja apenas a velhice. Digo-lhe que isto do frio é muito limitador. Ando pelas ruas a esfregar as mãos. Fiz o percurso dos tristes, desses turistas que surgem com guias a debitar informação, guarda-chuvas erguidos como uma placa sinalizadora de presença, americanos lamentavelmente ruidosos, nipónicos sem expressão, grupos de peregrinos italianos que murmuram orações enquanto fazem a Via Sacra.
Vou, sem destino, como uma sombra na perseguição dos outros. Tenho no quarto de hotel um guia, o melhor, o American Express; páginas repletas de informações sucintas, apenas o essencial. Ainda não o abri. Penso que não quero saber. A história, as religiões monoteístas, os monumentos. Nada disso me interessa.

Ando pelas ruas há dois dias. A velha cidade de Jerusalém é maior do que a China. Parece-me diferente todos os dias, como um mar atormentado que se transfigura num espelho de acalmia para depois voltar a uma certa fúria. Do bairro judeu ao árabe, a fronteira desenha-se na pedra, nos cheiros, na arrumação que se opõe ao caos de uma espécie de souk. Fascina-me esta divisão. A ordem e limpeza dos judeus são admiráveis e, talvez não me faça compreender como gostaria, caro Manuel, mas a verdade é que é um pouco assustador.
Passei há pouco o detector de metais para chegar aqui, ao Muro das Lamentações. Descobri ontem que estou contra a minha educação, as minhas raízes. Não sinto qualquer comoção no Santo Sepulcro. Devo ser um mau cristão. Sempre suspeitei ser um pobre cristão, indigno e fatalmente obtuso para os mistérios maiores. Aqui, no Muro, sento-me numa cadeira de plástico, no lado reservado aos homens, e consigo ouvir as mulheres do outro lado, mulheres que de pé se encostam ao muro e rezam alto, como uma cantilena, um choro triste e repetido. Deus abandonou-nos. Estamos sozinhos. Ele não está no muro, na igreja, na mesquita. Escapou-nos. Há quanto tempo? Desde sempre, parece-me.  
Não o quero ofender, Manuel, sei da sua devoção. Perdoe este seu amigo. Li algures que nada mata mais do que a solidão, sobretudo se estamos mesmo sozinhos. Talvez esteja aquém da salvação, do entendimento, de uma ideia melhor. Terá Deus um propósito específico para mim? Sim, sei que devo acreditar na Sua bondade. Um dia talvez O reencontre.
Decidi agora que não lhe mandarei esta carta, meu amigo, vou deixá-la numa fresta do Muro das Lamentações, numa pequena reentrância entre pedras de outra memória, a sua carta e milhares de orações, pedidos, agradecimentos que só consigo imaginar com enorme esforço.
Desejo-lhe um Santo Natal.
Um abraço,
Eduardo

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Pequeno conto experimental

por Luís Naves, em 30.08.14

Se quiser sorrir um pouco e tiver paciência para 20 minutos de leitura, siga este link.

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O conto

por Rui Herbon, em 19.04.14

A meio da tarde o homem senta-se na sua secretária, pega numa folha de papel em branco, coloca-a na máquina e começa a escrever. A frase inicial sai-lhe de imediato. A segunda também. Entre a segunda e a terceira há uns segundos de hesitação.

 

Enche uma página, saca a folha do carro da máquina e deixa-a de um lado, com a face em branco virada para cima. A esta primeira folha acrescenta outra, e depois outra. De vez em quando relê o que escreveu, rasura palavras, muda a ordem dentro das frases, elimina parágrafos, lança folhas inteiras para o caixote. De repente afasta a máquina, pega na pilha de folhas escritas, volta-a do direito e com uma caneta rasura, muda, acrescenta, suprime. Coloca a pilha de folhas corrigidas à direita, volta a aproximar a máquina e reescreve a história do princípio ao fim. Uma vez terminada, volta a corrigi-la à mão e a reescrevê-la à máquina. Já entrada a noite relê pela enésima vez. É um conto. Agrada-lhe. Tanto que chora de alegria. É feliz. Talvez seja o melhor conto que alguma vez escreveu. Parece-lhe quase perfeito. Quase, porque lhe falta o título. Ocorre-lhe um. Escreve-o numa folha, para ver o que lhe parece. Não funciona. Bem visto, não funciona em absoluto. Rasura-o. Pensa noutro. Quando o relê também o rasura.

 

Todos os títulos que se lhe ocorrem destroçam o conto: ou são óbvios ou fazem a história cair num surrealismo que destrói a sua simplicidade. Ou são insensatezes que o deitam a perder. Por um instante pensa em chamá-lo "Sem título", mas isso estraga-o ainda mais. Pensa também na possibilidade de não lhe pôr título e deixar em branco o espaço que se lhe reserva. Mas esta solução é a pior de todas: talvez haja algum conto que não necessite de título, mas não é este; este pede um muito preciso: o título que, de conto quase perfeito, o converteria num conto totalmente perfeito, o melhor que alguma vez escreveu.

 

Ao amanhecer dá-se por vencido: não há nenhum título suficientemente perfeito para esse conto tão perfeito que nenhum título é bom o bastante para ele, o que impede que seja perfeito de todo. Resignado (e sabendo que não pode fazer outra coisa), pega nas folhas onde escreveu o conto, rasga-as pela metade e rasga as metades pela metade; e assim sucessivamente até fazê-lo em fanicos.

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O encontro

por Rui Herbon, em 06.04.14

Hesita quanto ao que vestir. Como hesita, pensa que adiantará serviço se vestir a camisola interior e os slips. Procura uns brancos, com riscas azuis. Comprova que não têm nenhum buraco. Veste-os. Por outro lado, quando tem a camisola interior na mão parece-lhe que talvez seja melhor não a usar, e guarda-a na gaveta. Abre outra porta do armário e contempla as camisas. Há uma branca, italiana, de algodão, que comprou há umas semanas e que lhe agrada especialmente. Pega no cabide pelo gancho e observa a camisa; o tacto agrada-lhe. Mas o branco fá-lo mais gordo. Devolve-a ao seu lugar. Com os dedos, como quem passa as páginas de um livro, acaricia as mangas de todas as camisas. Decididamente, as que lhe assentam melhor são a cinzenta e a preta. Mas ultimamente usou-as tão frequentemente que está farto delas. Se no fim se decidir por uma dessas duas camisas, poderia vestir as calças cinzentas, ou os jeans pretos.

À hesitação já tradicional de não saber como vestir-se para ficar mais favorecido, acresce que não tem a mínima ideia de como irá ela. Virá com um vestido especialmente ostensivo, ou de um modo simples? Se, suponhamos, viesse vestida desportivamente, ele, com os jeans pretos e a camisa cinzenta ou preta, estaria bem. Porque o casaco é outra das dúvidas: usará o blazer cinzento, o mais clássico, ou o de quadradinhos esverdeados? Se escolhesse a camisa preta, o blazer de quadradinhos serviria para quebrar um pouco a seriedade da camisa e das calças, que poderá ser excessiva. Claro que, com uma gravata, também se pode quebrar a austeridade cinzenta e negra da camisa e das calças. Usará gravata ou não? Com a mão aparta as camisas e tira o cabide das gravatas. Qual colocará? Uma lisa, de riscas, aos quadradinhos? Com o blazer de quadrinhos, a gravata de padrão idêntico poderá ficar de mau gosto. Ou, precisamente, pôr quadradinhos sobre quadradinhos resultará num choque interessante, brutal.

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O beijo

por Rui Herbon, em 30.03.14

Está na parede, frente à cabeceira da cama de casal. Uma enorme reprodução, com moldura final e vidro anti-reflexo. O Beijo, de Gustav Klimt.

Ele sempre o quis ter à vista, na hora de deitar-se. Gosta das cores, das atitudes dos corpos, do que ele chama a submissão da mulher, ajoelhada com prazer ante as necessidades do seu amante.

Ela nunca conseguiu encontrar paixão alguma na postura da mulher, nem na expressão da sua cara, nem na maneira como tem os pés colocados, em extensão; o braço esquerdo, quase como se protegesse, tentando não receber o que ele lhe dá.

Nunca falavam do quadro. Ele dá por certo que ela o aprecia. Ela nunca revela os seus pensamentos quando o seu olhar pousa nele.

O quarto é cálido, cómodo, acolhedor. A cama imensa. Um foco suave envia o seu feixe directamente à pintura e, às vezes, é a única luz acesa naquele espaço.

Ouve-o chegar, entre sonhos. O ruído da porta, a chave ao fechar, desde dentro. Meio adormecida, reconhece a rotina dele, esvaziando os bolsos na mesinha da entrada, agarrando as cartas, abrindo os sobrescritos.

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Não é direita, sim é verdade, vermelho é esquerda

por José António Abreu, em 01.01.13

Um conto, ainda que talvez não inteiramente optimista, pareceu-me uma boa forma de começar o ano. É estupidamente comprido para um blogue como o Delito mas eu nunca fui sensato e resta-me esperar que vocês também não sejam. Aproveito para acrescentar que falhei a minha resolução de 2012. Porque não gosto de falhar, este ano não me disponho ao que quer que seja. Logo se verá.


 

Imaginem um robot. Um robot qualquer, com a aparência que mais vos agradar. Humanóide como o C3PO, apenas um braço articulado como os das linhas de montagem de automóveis, até mesmo com o formato de um daqueles aspiradores que se movem sozinhos pela sala. Qualquer um serve, embora humanóide talvez torne as coisas mais fáceis. O robot que imaginaram, como qualquer robot, funciona de acordo com um conjunto de algoritmos: faz B se acontecer A, opta por D se ocorrer C. Tem uma lógica, segue um conjunto de regras definidas e compreensíveis. Pode, em alguns casos, aprender novas regras mas parte sempre das existentes. Agora imaginem que, em resultado de uma sobrecarga eléctrica, de um vírus informático ou de outro motivo qualquer, se dá uma reprogramação aleatória. O robot deixa de fazer B quando acontece A e passa a fazer D. Ou X. Ou F seguido de R. Para um observador, o robot enlouqueceu. Mas ele continua a fazer o que sempre fez: seguir a programação. Não tem forma de saber que um acontecimento inesperado, e talvez até desconhecido para as pessoas que o rodeiam, lhe alterou os algoritmos. Para ele, tudo está normal – ainda que, em vez de trazer uma bebida ao dono, o tente matar.

A loucura dela era assim. Julgo que a loucura das outras pessoas, a loucura 'normal', tende a ser diferente, mais desordenada e imprevisível, mais parecida com o comportamento que se obteria se os circuitos do robot ficassem parcialmente queimados. Mas a dela era assim. Uma loucura constante, digamos. De confiança, até. Uma loucura que se manifestava nos actos (depois de usar um copo rodava-o entre as palmas das mãos cinco vezes para cada lado; antes de vestir as cuecas alisava-as primeiro sobre a cama; depois de se espreguiçar dava sempre três pulinhos, pondo-se em pé se antes estivesse sentada) e especialmente nas palavras: quando alguém na televisão dizia «Boa noite» (no início dos noticiários, por exemplo) levantava-se de um salto e, com um sorriso, gritava: «Filho da puta!», após o que se sentava com a perna direita dobrada sob o corpo. Está bem de ver que nem «boa noite» nem «filho da puta» tinham para ela o mesmo significado que têm para a maioria de nós. «Filho da puta» era a forma de ela retribuir o que entendia como um piropo. Se quando estávamos sozinhos em casa este comportamento não gerava quaisquer problemas (eu estava habituado, o José Rodrigues dos Santos não a ouvia), quando estávamos na rua ou num restaurante a situação era mais delicada. Bastava-lhe ouvir «boa noite» para responder de imediato. Apesar do sorriso que ela mantinha na face, nem toda a gente reagia bem.

Para mim, o mais difícil foi perceber que não havia uma relação lógica entre os termos normais e os termos que ela utilizava. Por exemplo: se a «boa noite» correspondia «és lindo» (ou «és linda»), a «bom dia» correspondia «fazes sombra». «Não» era «direita», «sim» era «verdade», «vermelho» era «esquerda». E, já agora, a «filho da puta» correspondia, acreditem ou não, «maçaroca de milho». Ela tanto usava substitutos para expressões como para palavras individuais, o que tornava ainda mais difícil decorar-lhe o léxico. Se, em «maçaroca de milho», «maçaroca» significava «filho» (ou «filha»), usada só por si queria dizer «marmelada». Ouvi-a centenas de vezes pedir, durante os pequenos-almoços («barcos à vela») que tomávamos na nossa pequena («três») cozinha («camisa») empoleirados («regatear») em bancos («camiões») estreitos e altos («sorvetes»), parecidos com os que se podem encontrar junto aos balcões («agrafadores») de alguns bares («espirros»): «festinhas maçaroca» («passa-me a marmelada») e «roçar maçaroca na trave» («põe-me marmelada no pão»).

O mais extraordinário é que, embora com significados diferentes, ela usava as mesmas palavras das outras pessoas. Apenas em meia dúzia de casos, vá-se lá saber porquê, inventara termos: «crotético», por exemplo, significava «amarelo»; e «bruntanetilíaco», «talvez».

E, como o robot, nunca variava. O dicionário no interior da cabeça dela podia ser diferente do das outras pessoas mas era constante. Talvez com duas ligeiras excepções: o uso dos artigos e os tempos verbais. Nestes campos, as regras não pareciam cem por cento fixas. Em «festinhas maçaroca», por exemplo (relembre-se: «passa-me a marmelada»), dispensava o artigo definido; mas em «maçaroca na trave» («marmelada no pão») o artigo encontrava-se lá, embora tivesse mudado de género. E, se em alguns casos trocara verbos por outros verbos e mantinha os tempos verbais, noutros trocara-os por substantivos, adjectivos ou advérbios e usava uma única expressão para todos os tempos verbais: «festinhas» significava «passa-me» mas também «passar», «passou», «passarei», etc. Quaisquer associações lógicas funcionavam apenas no cérebro dela.

Já era assim quando a conheci. Eu tinha trinta e quatro anos e ela vinte e cinco. Encontrámo-nos pela primeira vez na casa de uma das minhas tias, que estava ligada a uma associação qualquer de solidariedade social. Já não me lembro por que a fui visitar mas lembro-me – oh, quão me lembro – de ter sido uma rapariga minha desconhecida a abrir-me a porta. Tinha cabelo castanho liso que lhe chegava pouco abaixo dos ombros, olhos verdes, nariz pequeno e lábios um tudo-nada finos. Após um instante de surpresa, eu disse: «Olá.»

A expressão dela fechou-se. Perguntei-me se estaria à espera de outra pessoa e ficara desiludida ao ver-me. «Posso entrar? Sou o sobrinho da D. Amélia». Pareceu vacilar um instante e depois perguntou: «Boa trotinete?»

Hesitei, olhei para trás. Não vi qualquer trotinete. Voltei a encará-la.

«Er... não. Vim a pé.»

Pareceu confusa, algo que acontecia frequentemente: de facto, se, para as outras pessoas, o que ela dizia não fazia sentido, ela tinha o mesmo problema com as frases alheias. Ficámos em silêncio durante vários segundos. Tentei sorrir. Disse: «Posso entrar?»

Ela animou-se. Respondeu: «Balão.»

Continuava na minha frente, a impedir-me a passagem. Tentava decidir o que fazer quando a cabeça da minha tia surgiu por cima do ombro esquerdo dela. Sem falar, puxou a rapariga pelo braço e, sem dificuldade, fê-la recuar. Depois soltou-lhe o braço, agarrou o meu e arrastou-me até à cozinha. Disse: «Não quis ir para a sala porque está lá gente e era mais difícil explicar. Em especial porque ela se vai intrometendo e é uma confusão.»

«O que é que ela tem?»

Abanou a cabeça com ar pesaroso. «Ela não é normal.»

«Não é normal em que sentido?»

«Chama-se Cristina e é adorável. Mas o cérebro dela não funciona bem. Não diz coisa com coisa.»

«Como a maior parte das pessoas que conheço. Incluindo eu – e, às vezes, a tia.»

Ignorou-me. «Tem uma linguagem própria. Para ela, as palavras significam outra coisa.»

Se alguém me perguntasse, eu diria que a minha expressão devia ser aparvalhada mas, considerando a inquietação da minha tia, se calhar já revelava essencialmente fascínio.

«Deixa a rapariga em paz», pediu. «Não te metas em problemas.»

Mas a minha curiosidade havia sido despertada. Só larguei a rapariga quando as duas mulheres com quem ela estava, ambas amigas da minha tia, uma delas tia de Cristina (a mãe, soube-o mais tarde, falecera há meia dúzia de anos e o pai desaparecera pouco depois de ela nascer), saíram, levando-a com elas. Tendo percebido o meu interesse, a minha tia passou dez minutos a avisar-me para não me meter com «a rapariga». Não resultou, claro. Fui visitá-la no dia seguinte e quase todos os dias que se seguiram a esse. Para além da beleza dela, fascinava-me aquele mundo próprio, aquela lógica intransigente, aquela capacidade de criar uma linguagem que mais ninguém entendia. As nossas conversas – durante muito tempo, vigiadas pela tia desconfiada – pareciam jogos de palavras aleatórias, em que ela entrava com um prazer infantil e eu hesitava, erguia as mãos e mordia os lábios, tentando, mais intensamente do que em qualquer outra ocasião no passado, compreender o que me diziam. Cristina ensinou-me a ouvir; a, pela primeira vez na vida, escutar verdadeiramente o que alguém me dizia e a aplicar todas as minhas capacidades na descodificação do que me era dito. Nenhuma conversa com ela permitia distracções ou desinteresse.

Evidentemente, não foi fácil. Foi muito mais difícil do que aprender uma língua estrangeira porque não havia associações possíveis nem qualquer lógica subjacente. Eu limitava-me a anotar todos os seus termos e a decorá-los. De início, cometi erro atrás de erro. (Na verdade – e estremeço ao escrever isto –, nunca deixei de os cometer.) Mas ela mostrou-se sempre simpática e relaxada, pronta a ajudar-me: parecia ver os meus erros como simples tontice, como os de uma criança que ainda troca palavras ou não as consegue pronunciar correctamente.

Também não foi fácil lidar com os outros. Com as nossas famílias, desde logo. Cristina vivia mais ou menos resguardada do mundo, contactando apenas familiares e amigas da tia, para além dos médicos a que ia duas vezes por mês. Houvera um tempo em que a medicina se interessara seriamente por ela. Tinham sido efectuadas dezenas de testes ao seu cérebro, tivera de submeter-se a consultas com os mais variados «especialistas», haviam-se discutido viagens ao estrangeiro e tratamentos alternativos – tudo para nada, pelo menos no que lhe dizia respeito (desconheço se a medicina evoluiu alguma coisa com todo esse estudo). Às vezes eu perguntava-me se teria sido melhor que algum dos especialistas tivesse encontrado a cura. Chegava à conclusão de que, para ela, provavelmente teria sido. (Agora – como poderia ser de outra forma? – já não tenho dúvidas.) Para mim, todavia, achava que não. Fosse ela uma rapariga 'normal', é possível que não me tivesse despertado tanto interesse. Provavelmente nem nos teríamos conhecido, pois não haveria razão para ela acompanhar a tia com tanta frequência. Enfim, de que vale perder tempo a pensar nisto? A medicina ainda não soluciona (nem sequer percebe) todos os problemas do ser humano e Cristina era como era. Tal como os membros das nossas famílias – incluindo os meus pais – que viam com apreensão o nosso relacionamento.

Depois de passarmos a viver juntos, eu fazia questão de que tivéssemos uma vida tão normal quanto possível. Arrendámos um apartamento perto do meu emprego, o que nos permitia almoçar juntos todos os dias. A princípio, receando deixá-la andar sozinha pelas ruas, era eu que ia almoçar com ela mas depois percebi que não a podia manter presa em casa e, tendo-me certificado de que conhecia bem o curto trajecto, aceitei que por vezes viesse ter comigo. Ao fim-de-semana saíamos e dávamos passeios no parque e sentávamos em esplanadas a observar as outras pessoas. A nossa conversa era sempre motivo de interesse para os ocupantes das mesas mais próximas, que nos olhavam de soslaio, uns divertidos, outros ligeiramente incomodados, como se receassem que a qualquer momento pudéssemos revelar-nos maníacos assassinos. Ao princípio, eu próprio ficava incomodado, percebendo estar a ser classificado como louco, mas depois habituei-me. No fundo, que me importava a reacção alheia?

Nunca casámos. Cheguei a pensar nisso mas não conseguia ver como a poderia levar a dizer «sim» («verdade») no momento certo quando ela nem sequer entenderia a pergunta. Sendo que não bastaria ela compreender a pergunta: seria ainda preciso convencer as autoridades de que ela casava voluntariamente, apesar de não responder «sim» mas «verdade». De qualquer modo, casar não me era fundamental e, se cheguei a sondá-la acerca do assunto, foi por receio de que ela o desejasse e a minha falta de proposta a desiludisse. Afinal, não deu grande importância à questão.

Mas houve momentos difíceis, claro, temas que, esses sim, ela considerava importantes. Por exemplo, Cristina gostava de crianças e desejava ser mãe. Mas ter filhos com ela era um passo que eu não me atrevia a dar. Os médicos que a acompanhavam (inúteis, uma vez que nem sequer se davam ao trabalho de tentar comunicar verdadeiramente com ela) garantiam existir sérias hipóteses do problema dela ser geneticamente transmissível. Tal possibilidade era já bastante assustadora mas eu tinha ainda outros receios. Mesmo que os nossos filhos nascessem 'normais', que língua aprenderiam? A normal ou a nossa (minha e dela)? Como poderia uma criança crescer numa casa em que se falava de modo totalmente diferente da usada pelas restantes pessoas? Como poderia eu ensinar-lhes o significado habitual das palavras enquanto Cristina falava com eles usando outro? Por tudo isto, sempre que ela abordava o assunto, eu fugia cobardemente e dava desculpas esfarrapadas.

Apesar dos problemas, das ocasionais incompreensões e discussões, vivemos juntos três anos e meio de quase total felicidade. Sim, apenas três anos e meio. Um instante na vida de qualquer pessoa.

Foi numa tarde de sábado, por volta das quatro da tarde. Quando Cristina me largou a mão e começou a atravessar a rua, eu vi a carrinha. Em pânico, gritei: «Cuidado!» Ela parou e rodou com um sorriso amplo na face. Antes de poder falar, a carrinha atropelou-a. Foi projectada vários metros e ficou estendida no asfalto, inconsciente, com sangue a escorrer de uma ferida na cabeça. Corri para ela, agarrei-a, gritei-lhe, mas não voltou a recuperar os sentidos.

Passaram semanas e sinto-lhe a falta. Houve muitos períodos em que não foi fácil viver com ela. Em que tive vontade de desistir. Ao pensar nesses momentos, sinto vergonha. Parece-me que fui muitas vezes fraco, que não estive à altura. Mas pior, incomensuravelmente pior, é não conseguir deixar de pensar que o meu erro pode ter sido intencional. Minutos antes do acidente, tínhamos discutido. Foi por causa da discussão que ela me largou a mão e começou a atravessar a rua sozinha. Disse-me: «Sopra» («larga» ou «larga-me») e saiu disparada. E, desde esse instante, não tenho parado de me questionar se, quando gritei «cuidado!», o fiz verdadeiramente em pânico, recorrendo à linguagem que me ensinaram desde criança, ou com perfeita consciência de que, para ela, «cuidado» significava todas as variações de «amar», incluindo «amo-te».

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Um facto

por José António Abreu, em 30.12.12

«Quero confessar-me, senhor padre… Não tenho a certeza de ser capaz… Poderá, senhor padre…? Tenho um marido…»

…?

«Peço desculpa? Oh, não, de forma nenhuma. Claro que somos casados. O órgão tocava e eu usava um véu branco, comprido. Havia incenso e lírios. E eu disse ‘sim’, e toda a gente estava feliz, e a mamã chorava e…»

…?

«Só um momento. Já lá chego. Eu era pobre. Tinha olhos grandes e tranças compridas. Ele chegou num carro. Era grande e tão forte. Foi comigo até ao cimo de uma colina e, na sua voz clara, forte, falou acerca do futuro. Tinha tantos planos. Eu brincava com os botões reluzentes do seu uniforme. Eu gostava de lhes tocar com a minha face e de me ver reflectida neles como num espelho.»

…?

«Sim, sim, senhor padre. Claro que sabia que era vaidade. Peço perdão. E então casámos.»

…?

«Não, de maneira nenhuma. Ele não mudou depois do casamento. Ele sempre foi firme mas também muito atencioso. Claro, tivemos os nossos desentendimentos mas nada de grave. Estávamos quase sempre juntos, ele praticamente nunca me deixava.»

…?

«Mas, senhor padre, como pode dizer isso? Francamente… Sim, ouvi falar disso mas ele não é assim. Nunca. De maneira nenhuma.»

…?

«Talvez. Não sei. Mas quem se veio confessar sou eu, não é ele. Eu é que estou aqui a precisar de ajuda… Preciso do seu conselho… Preciso de con… solo… Não, não estou a chorar. Agarre-me na mão, senhor padre.»

…?

«Sim. Claro que me casei com ele por estar apaixonada. Onde é que errei? Pergunte a qualquer pessoa sobre ele. Todos lhe dirão como é respeitado, capaz, digno.»

…?

«Perdão?»

…?

«Não, nunca. A sério, nunca. Nunca lhe fui infiel, nem sequer nos meus pensamentos. Tenho sido uma mulher fiel. Acredita-me, senhor padre?»

…?

«Não.»

…?

«Não.»

…?

«Mais uma vez, não.»

…?

«Então a que propósito vem isto? Padre, estou aqui… Não, é impossível acreditar. Depois de sete anos a viver com ele…No Verão passado fomos de férias. Eu convenci-o a descansar um pouco. Ele tem um emprego importante, muito trabalho, enorme responsabilidade, o país inteiro… Uma manhã, ao pequeno-almoço, estávamos sentados um em frente do outro. Atrás dele havia uma janela aberta. Através dela eu conseguia ver o jardim, árvores… O papel de parede da sala tinha um padrão de florzinhas, dezenas de milhar de florzinhas cor-de-rosa. Quando ele levantou o copo eu olhei para ele. Não havia nenhuma intenção especial no meu olhar. E então apercebi-me…»

…?

«O que vi? Como foi possível que, durante sete anos, tenha partilhado a mesa e a cama com ele e só agora… Aconselhe-me, senhor padre, porque se é um pecado…»

…?

«Foi só nessa altura que percebi que ele era feito de plasticina.»

…?

«Sim. Todo ele. É todo artificial. Inclinei-me para ver. Os meus olhos deviam estar muito abertos de espanto porque ele pousou o copo e perguntou calmamente: ‘O que se passa?’ Não, desta vez não estou enganada. Ele sempre foi feito de plasticina. Todo ele! Como, oh, como é que nunca reparara antes? E agora o que vai acontecer?»

…?

«Uma anulação do casamento? Mas, senhor padre, isso é impossível – temos filhos!»

 

Sławomir Mrożek, conto Um Facto, inserido na colectânea O Elefante.
Traduzido por mim, com base na versão inglesa da Penguin (tradução a partir do polaco por Konrad Syrop).

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Música contemporânea

por José António Abreu, em 07.12.12

Genial compositor de música contemporânea, atingiu a fama através de obras como a Sinfonia Contrapuntística, em que metade dos trezentos executantes entrechocava garrafas de Coca-Cola enquanto, de forma assíncrona, a outra metade fazia o mesmo com latas de Pepsi, a cantata Sons da Exclusão, para soprano gaga, tenor fanhoso, barítono com dislalia, um coro de mudos, outro de pessoas afectadas por síndrome de tourette e uma orquestra de deficientes motores, e a sequência Ruídos Corporais, que inclui peças tão diversas como a Sinfonia de Tosses (composta após a morte do pai com tuberculose), o Concerto para Pigarreio e Três Espirros (Um dos Quais Contido) e o divertimento Arrotos e Manifestações de Gases. Maníaco da perfeição, discordava frequentemente da forma como as suas obras eram apresentadas, tendo mantido polémicas com vários maestros. Gostava de marcar presença nos concertos. Detestava ouvir o público tossir ou arrastar os pés.

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Ao espelho

por José António Abreu, em 01.11.12

Lá em Baixo, como Uma Vizinha

Se eu não fosse eu e me ouvisse lá em baixo, como se fosse uma vizinha, a falar com ele, diria para comigo que me sentia muito feliz por não ser ela, por não dizer as coisas como ela diz, com uma voz como a voz dela e opiniões como as suas opiniões. Mas não posso ouvir-me lá em baixo, como se fosse uma vizinha, não posso ouvir como não devo falar, não posso sentir-me feliz por não ser ela, como sentiria se pudesse ouvi-la. Por outro lado, uma vez que ela sou eu, não lamento estar aqui em cima, onde não posso ouvi-la como se fosse uma vizinha, onde não posso dizer para comigo, como diria se estivesse lá em baixo, como me sinto feliz por não ser ela.

 

Amigos Maçadores

Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. Os nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós – ou nós, demasiado interessantes para eles.

 

Lydia DavisContos Completos. Edição Relógio D'Água (em português pré-AO), com tradução de Miguel Serras Pereira e Manuel Resende.

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Artificialidade - história em duas partes

por José António Abreu, em 14.10.12

Parte I

Não gostava das mamas. Achava-as demasiado pequenas. Sentia-se tão insegura acerca delas que lhe perguntava repetidamente se não preferiria que fossem maiores. Ele respondia que não, que nem sequer gostava de mamas demasiado volumosas e que as dela não eram pequenas, eram perfeitas, mas ela não acreditava. Menos de um ano após o casamento decidiu colocar implantes. Ele resmungou. Não era necessário e, para mais, era caro. Mas ela estava determinada e ele acabou por ceder. Com as mamas novas, ela passou a comprar blusas e vestidos mais provocantes. Mas havia um problema: tinha uma cintura ligeiramente gorda. «Preciso de fazer uma lipoaspiração», declarou uma noite, cerca de seis meses depois da colocação dos implantes mamários. Ele argumentou que não tinham dinheiro suficiente, que andavam a adiar a compra de um carro desde o casamento, que o apartamento ainda quase não tinha móveis, que os juros do empréstimo podiam subir, mas foi inútil. Após a lipoaspiração, ela sentiu-se melhor durante uns tempos. Depois decidiu arranjar os dentes. «Mas o que têm os teus dentes de mal?», perguntou ele. «São tortos, e amarelos. Já viste os actores e os apresentadores de televisão americanos? Têm todos dentes fantásticos! Por que é que não hei-de ter uns assim?» Milhares de euros depois, ela tinha dentes falsos tão belos que sorria mesmo ao receber más notícias. Progressivamente tirou todos os sinais do corpo, alisou a pele do pescoço, injectou botox nos lábios e em torno do olhos, colocou umas maçãs do rosto mais salientes, corrigiu a ligeira (ele nem a conseguia ver) proeminência das orelhas, fez uma rinoplastia para cortar dois milímetros ao nariz e instalou seis piercings, um dos quais o fazia perder a erecção durante o acto sexual, por receio de lesões graves. Por fim, ele fartou-se. Depois de anos a visitá-la em clínicas e hospitais, anunciou-lhe que a ia deixar. «Vais pedir o divórcio?», perguntou ela por entre os lábios inchados após mais um injecção de botox. «Não», respondeu ele, «não estou a pensar no divórcio.» Apesar dos anos já decorridos, requereu e conseguiu a anulação do casamento, alegando que aquela não era mais a mulher com quem casara, nem sequer uma verdadeira mulher, mas um ser artificial, quase totalmente sintético. À porta do tribunal, as últimas palavras que lhe dirigiu foram: «Lamento, mas eu preciso de verdadeiro contacto humano.»

 

Parte II

Livre para viver sem ser obrigado a levar em consideração desejos alheios, com o salário à disposição (ela não ganhava mal, mas ele ganhava melhor), ele instalou-se num apartamento e começou a mobilá-lo com os objectos que sempre sonhara ter. Na sala colocou um televisor de cinquenta e cinco polegadas, ligado a um leitor de blu-ray, às três principais consolas de jogos e a um sistema de som surround com sete canais principais mais subwoofer. No quarto instalou um televisor mais pequeno e um sistema de som ligeiramente menos potente. Para a cozinha escolheu um combinado com ecrã de televisão e sintetizador de voz, capaz de cuspir cubos de gelo, gerir stocks e recomendar o consumo dos produtos mais saudáveis, e um microondas com sensores de humidade que adequavam tempo e potência da cozedura aos alimentos colocados no interior e um pequeno ecrã colorido onde surgiam gráficos, animações e a indicação dos parâmetros utilizados nos últimos cinquenta pratos cozinhados. Na casa-de-banho instalou uma banheira de hidromassagem com dezenas de jactos, programação digital e mais um ecrã de televisão. Passou a lavar os dentes com uma escova eléctrica e a barbear-se com uma máquina eléctrica de cabeça oscilante, que tinha um ecrã pequenino onde surgia a indicação de carga e do desgaste das lâminas. Comprou ainda uns auscultadores sem fios e outros com fio, um telemóvel novo, topo de gama, um computador, um iPod, um iPad, duas máquinas fotográficas e várias objectivas, uma câmara de vídeo e uma impressora de qualidade fotográfica. Adquiriu também um aspirador que trabalhava sozinho e uma passadeira de exercício possuidora do seu próprio ecrã de televisão, com dúzias de programas distintos simulando a corrida em sítios tão exóticos como a Quinta Avenida e a Passagem de San Bernardino. Instalou sensores de presença ligados às luzes e um sofisticado sistema de comando que lhe permitia controlar quase todo o equipamento a partir do telemóvel. Por fim comprou um carro com caixa automática, chave inteligente, sensores de luz e de chuva, alerta de mudança de faixa, sistema de navegação e de telefone com reconhecimento de voz, e capacidade para estacionar sem intervenção humana. Depois de tudo isto sentiu-se finalmente feliz. Quando pensava na mulher de quem se separara, abanava a cabeça, incapaz de entender como pudera aguentar tamanha artificialidade durante tanto tempo.

 

(Republicado.)

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Carne

por José António Abreu, em 12.08.12

Ele era médico legista e ela não conseguia deixar de pensar nisso enquanto faziam amor. Ele tocava-lhe de uma forma tão precisa, tão leve, tão cirúrgica que ela se sentia mais exposta do que alguma vez no passado. Sabia que ele conhecia em pormenor todos os músculos, todos os tendões, todas as artérias e todas as veias do seu corpo. Sentia-lhe os dedos deslizando pelos braços, em redor do peito, através do abdómen e não conseguia evitar um arrepio de temor. Como se, a qualquer instante, com um gesto suave e preciso, usando uma unha como bisturi, ele pudesse abrir-lhe um golpe na carne e entrar-lhe verdadeiramente no corpo. Estava consciente de que era uma estupidez pensar tal coisa: ele era amável, atencioso, até um pouco tímido (e trazia sempre as unhas bem curtas). Mas não conseguia evitá-lo. Na realidade, era forçada a admitir que não desejava evitá-lo. Que procurava a sensação. Que a transformara numa parte essencial do acto amoroso. As capacidades dele para ler o corpo humano, para identificar zonas frágeis, para o desmembrar, se fosse preciso, haviam-se tornado num elemento de excitação adicional.

Meses depois do início da relação abordou finalmente o assunto. Perguntou-lhe: «O meu corpo é muito diferente dos corpos com que lidas no trabalho?» Os olhos dele arregalaram-se de surpresa. Ela ponderou se teria sido a primeira mulher a colocar-lhe a pergunta. Depois pensou que talvez a surpresa dele resultasse não de ser a primeira vez que lhe faziam a pergunta mas de, tanto tempo decorrido após o início da relação, já não a esperar. Antes de ele responder, acrescentou: «O que quero dizer é: quando acaricias o meu corpo notas as semelhanças com os corpos que autopsias? No fundo, é só carne, não é?» As palavras soaram-lhe inadequadas e brutais e ela arrependeu-se de ter iniciado aquele diálogo. Mas ele recuperara a expressão de beatitude. Quase sorria, na verdade. Disse: «Não, não noto as semelhanças. Noto as diferenças.»

Foi nesse momento que a relação deles entrou numa nova fase.

 

(Também aqui.)

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Leituras

por Ana Vidal, em 11.08.12


(...) "E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida". (...)


[Inspirada pela série que o Pedro Correia começou agora sobre escritores que nunca receberam o Nobel, lembrei-me deste maravilhoso conto do nosso (único) laureado, texto que só descobri há pouco tempo numa viagem ao Brasil. Impossível não se ficar rendido. Tem tudo o que deve ter um grande conto, e mais aquilo que só têm os textos excepcionais: universalidade, clareza, simplicidade, mensagem, densidade. Apesar de eu não gostar de tudo o que Saramago escreveu, e de nunca mais um livro dele me tivesse encantado tanto como o Memorial do Convento, afirmo convictamente que este pequeno conto bastaria para justificar o prémio.]

 

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Realismo paralelo

por José António Abreu, em 05.08.12

Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade.

Pastel sobre papel Hahnemühle Velour.

(Obra informalmente conhecida como Pandora.)

 

«Podemos começar já pela questão do prémio…»

«Como preferir.»

«Ficou satisfeito?»

«Seria hipocrisia dizer que me é indiferente. Mas não é fundamental. Não pinto para receber prémios.»

«Então por que o faz?»

«Porque sinto que tenho de o fazer. Porque tenho uma visão a transmitir.»

«Uma visão no mínimo polémica.»

«Espero bem que sim. É bom que a arte incomode.»

«Há mesmo quem acuse o que faz de não passar de um truque.»

«Inveja. Repare: toda a arte parte de uma visão do mundo. E a minha visão é diferente. É natural que haja quem não goste. Quem não consiga perceber.»

«A sua visão parte do facto de ser daltónico…»

«Sim, mas vai muito para além disso.»

«E de colorir o que pinta com cores aleatórias.»

«Não, não, não, não! Aleatórias, não. Eu pinto como imagino. Acrescento à realidade incompleta que me chega os elementos que lhe imagino adequados. E repare que não distingo a cor das tintas que uso. É um trabalho cem por cento mental, de nuances, da interpretação da adequação das possibilidades disponíveis à realidade desconhecida. Se bem que não devêssemos chamar-lhe realidade. É apenas a forma como a maioria das pessoas vê. Não é a realidade para um cão ou para um gato, por exemplo...»

«Não distingue mesmo qualquer cor?»

«Não. Tenho o que se chama 'visão acromática'. É uma condição bastante rara.»

«Parece quase orgulhoso disso.»

«Não devemos envergonhar-nos das diferenças. Devemos potenciá-las. Costumo dizer, correndo talvez o risco da imagem excessivamente doce, que a minha vida é como um sonho que vou colorindo com as cores adequadas a cada momento.»

«É uma ideia interessante. Mas não acha que é demasiado fácil delinear uma cena (e muitos dizem que o faz de modo básico) e depois colori-la com cores que parecem aleatórias? Céu verde, água vermelha, erva roxa... Não é quase como aqueles livros para crianças?»

«Já vi esses livros. Alguns têm muito potencial. Mas é totalmente diferente. As crianças subvertem o sentido das figuras quando lhes acrescentam cores diferentes daquelas que têm na realidade. A minha intenção, embora aceitando o lado polémico do que faço, não é subverter. É criar uma realidade minha, que faz sentido para mim e que, na minha cabeça, é a realidade.»

«É por isso que insiste em chamar-lhe ‘realismo alternativo’?»

«Realismo paralelo.»

«Peço desculpa. Realismo paralelo.»

«Porque não a vejo como uma alternativa. É um mundo paralelo. A alternativa é a monocromia.»

«Criou até uma associação com o nome 'Realismo Paralelo'.»

«Não fui apenas eu. Mas é verdade que fui um dos principais impulsionadores do projecto e desempenho actualmente o cargo de presidente.»

«A associação tem membros com outras, er, características, não apenas daltónicos...»

«Com certeza. Há imensas pessoas que, podendo até nem ter consciência disso, são realistas paralelos. Criam a sua própria realidade.»

«Políticos, por exemplo?»

«Desculpe?»

«Era uma tentativa de humor.»

«Ah. O humor é uma forma de evitar encarar as inseguranças. Nenhum verdadeiro artista se pode permitir fazê-lo.»

«Não há humor no seu trabalho?»

«Depende do ponto de vista. Quando um quadro está completo, a interpretação – e, portanto, as inseguranças – são as de quem observa. Mas o artista tem de as enfrentar enquanto o cria. E esse é um processo doloroso. O humor é uma saída demasiado fácil.»

«Não acha que há humor na sua obra 'Jardim do Éden - A Descoberta da Gravidade'?»

«Presumo que possa lá ser encontrado algum humor.»

«Não era sua intenção criá-lo?»

«O quadro é uma sobreposição espaço-temporal de vários mitos da ciência e da religião. Coloca questões. As respostas são livres.»

«Sabe que desde o filme Avatar lhe chamam 'Pandora'?»

«Prefiro não falar disso.»

«Muito bem. Voltemos à questão do que é ser realista paralelo, de que nos desviámos com a minha infeliz piada sobre os políticos. Será que podia explicar um pouco melhor em que se baseia o conceito?»

«Já lhe disse: na possibilidade de criar uma realidade paralela. Verdadeiramente paralela. Que nasça de características verdadeiramente diferentes das da maioria. Repare: quando um surdo compõe música, o resultado tem de ser diferente do que seria se fosse uma pessoa com audição a criá-la. Ele está a gerar algo paralelo à realidade da maioria das pessoas. Embora, claro, essa música, ou um quadro meu, entre na realidade das pessoas ditas normais e acabe portanto por fazer parte dela.»

«Hmmm, sim. Beethoven era um ‘realista paralelo’?»

«Beethoven perdeu a capacidade para ouvir mas não deixou de ser influenciado por ela. A sua obra reflecte esse facto. A nona sinfonia mantém muitos elementos do Beethoven com audição. Apenas é mais ruidosa.»

«Hmmm, estou a ver. É, de facto, uma visão polémica. Há, aliás, quem o acuse de radicalismo; de ostracizar tudo o que não encaixa na sua forma de encarar as questões.»

«De modo nenhum. Eu não ostracizo. Eu sou ostracizado. Mas não pode esperar que eu aprecie críticas de gente que não tem obra feita, ou que produz obras que nada trazem de novo.»

«Como é que sabe, se não as vê na sua plenitude?»

«É verdade, mas não preciso de ver as cores para perceber que nada têm de novo. Torna-se imediatamente óbvio que (usando um dos exemplos que deu há pouco) o céu é azul, como tem sido quase sempre ao longo dos séculos. Eu crio um céu diferente.»

«Cria até vários. Há pinturas suas com céus das mais variadas cores.»

«Com certeza. Na realidade paralela, o céu tem que combinar com todos os restantes elementos. Repare: você diz-me que o céu é azul e a erva é verde, certo? É essa a combinação que as pessoas conhecem e que tem sido pintada ao longo dos séculos. Muito bem, faz sentido, apesar de ser monótona. Mas se eu crio um céu castanho, não posso combiná-lo com erva verde. Seria ficar por uma realidade enviesada e não paralela. A cor da erva deve reflectir a cor do céu.»

«Mas a cor do céu também não é sempre a mesma, nas suas obras…»

«Evidentemente. Porque o céu está na minha cabeça. Ou, para ser mais preciso, a realidade cromática do céu está na minha cabeça. E a minha cabeça pode decidir atribuir-lhe uma cor por dia. É isto que me distingue das pessoas, enfim, não queria chamar-lhes ‘normais’ mas serve como ideia. Eu vejo realidades onde elas vêem apenas uma realidade.»

«Algumas pessoas poderiam dizer que há uma definição médica para isso.»

«Por favor. Está aqui para entrevistar-me ou para insultar-me?»

«Peço desculpa. Mas, nessa linha, quantas mais, enfim, digamos ‘deficiências’, tiver uma pessoa, melhor artista será.»

«Melhor artista poderá ser. Em teoria. Na prática, as características diferenciadoras a que chama deficiências só são úteis se a) não forem tão excessivas que prejudiquem a qualidade da obra e b) o artista as utilizar de forma adequada. Deixe-me dar-lhe um exemplo: é difícil para uma pessoa sem braços pintar quadros (alínea a); e, infelizmente, quando resolve essa questão usando a boca ou os pés, tende a desperdiçar todo o potencial em cartões de Natal sem qualquer interesse artístico (alínea b).»

«Sim, estou a ver. E é sempre o público que define quem tem qualidade?»

«O público, não diria. Pelo menos, o grande público. É muito difícil dizer quem define. Mas as coisas acabam por se impor.»

«Também por causa da polémica…»

«A polémica é já um reflexo da qualidade. Da capacidade de provocar emoções.»

«E talvez também dos apoios que alguns artistas recebem e outros não. O que diz às pessoas que contestam os subsídios públicos que tem recebido?»

«É mesquinho e ridículo. Eu não vejo a cor do dinheiro. É-me indiferente se é público, se privado. Para mim, é todo… cor-de-rosa.»

«Cor-de-rosa?»

«Por exemplo. Foi a cor que me pareceu mais adequada. Mas também pode ser cor-de-laranja. Ou azul. Ou vermelho. Ou até, como dizem que ele é, verde. A minha arte baseia-se precisamente nisso: na infinidade de possibilidades. As coisas mudam e eu adapto-me. O que me interessa é a Arte. Com maiúscula»

«Com certeza. O prémio vai mudar alguma coisa na sua vida?»

«Nada. Apenas dar-me um pouco mais de exposição. Talvez possibilitar-me vender mais algumas obras.»

«O que até poderá permitir-lhe dispensar os tais subsídios públicos…»

«Pensar assim é um erro. Os subsídios artísticos devem ser dados não somente em função das necessidades (repare que toda a gente considera ter algo a exprimir e, portanto, achar-se-ia com direito a subsídios) mas em função da obra, do valor acrescentado para o acervo cultural do país.»

«Mas isso deixaria de fora os jovens, pouco conhecidos.»

«Não se forem bons.»

«Voltamos então à questão de saber quem define o valor da obra…»

«Para a atribuição de subsídios, o Estado tem que chamar a si a questão, claro. E depois, porque é preciso que ela seja tomada por quem perceba do assunto, delegá-la.»

«Em quem?»

«Em valores firmados.»

«Mas isso não cria uma espécie de clube restrito e conservador, que decide muitas vezes em função do interesse e dos gostos dos seus membros, e que só apoia jovens com gostos similares ou, enfim, com cunhas?»

«É por interpretações como essas que o grande público tem uma visão distorcida do mundo dos criadores de Arte. O mundo da Arte não funciona dessa forma, não se baseia nessas realidades mesquinhas…»

«Baseia-se em realidades paralelas? É isso que lhe confere autoridade para falar em nome do ‘mundo da Arte’?»

«A verdadeira Arte é sempre paralela. E fiquemo-nos por aqui.»

«Porque aceitou fazer parte do júri do prémio do próximo ano?»

«Convidaram-me e achei que não podia recusar. A Arte também é interacção, cooperação, amizade, apreço.»

«Mas como poderá avaliar obras alheias sem lhes conhecer a cor?»

«De forma muito mais livre e descomprometida. Mas pensei que esta entrevista era sobre a minha obra…»

«E é, claro. Está a trabalhar em alguma coisa nova?»

«Sempre. E posso garantir-lhe que vai ser uma surpresa.»

«Diferente da série anterior, então, com os legumes com cores trocadas?»

«Não estavam ‘trocadas’. Receio que não tenha percebido nada do que lhe estive a dizer.»

«Peço desculpa. Mas o próximo projecto não vai ter nada a ver com isso, então?»

«Não. Terminei a série dos legumes. Um artista não pode repetir-se.»

«E não pode dar-nos uma pista?»

«Bom, só uma: fruta.»

«Fruta com cores, er, paralelas?»

«Fruta ainda nas árvores. Uma coisa mais campestre. Talvez sendo apanhada por pessoas de todas as cores (a Arte deve recusar a xenofobia e incentivar a igualdade). Mas já estou a falar demais…»

«Ficamos ansiosos.»

«Obrigado.»

«Terminámos. Agradeço-lhe imenso ter-me concedido a entrevista.»

«De nada. Estou sempre disponível. Já agora, vai para o centro?»

«Vou.»

«Dá-me boleia?»

«Claro. Tenho o carro mesmo aqui à porta. Nem queria acreditar na sorte…»

«Aqui costuma haver lugares. É o vermelho?»

«É. Espere lá: como percebeu a cor do carro?»

«Prática.»

«Mas isso não elimina tudo o que me esteve a dizer? Se afinal reconhece as cores…»

«Reconheço-as porque sou um ser inteligente, capaz de estabelecer associações. Ao longo dos anos fui aprendendo que certas tonalidades correspondem a certas cores. Mas eu não vejo essas cores. Eu não sei o que significa 'vermelho'. É apenas uma palavra. A minha visão do Mundo, fisiologicamente alterada como lhe expliquei, não inclui o verdadeiro vermelho. Mas também faz com tudo me seja possível, incluindo o realismo mais básico que acaba por ser essencial para sobreviver no mundo prosaico do dia-a-dia. Posso assim chamar 'vermelho' ao que me dizem ser vermelho. Foi o que acabei de fazer e isso não invalida o que lhe estive a tentar explicar. No limite, porque sou livre de fazer as correspondências entre cores e terminologia que bem entender, posso dizer que, quando pinto um céu que sei ser azul, de vermelho, estou na verdade a pintá-lo de azul. Do meu azul. A Arte é uma expressão pessoal, e na verdadeira Arte tudo é possível desde que exista capacidade, visão e ousadia. É, na realidade – qualquer que ela seja –, muito simples.»

«Er... pois, deve ser. Vamos, então.»

 

(Republicado com ligeiras alterações.)

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Amor e malas de senhora

por José António Abreu, em 08.07.12

«Quando começou?»

«Há quase um ano.»
«O que é que o levou a isto?»
«Não vai acreditar no que lhe vou dizer.»
«Por que diz isso?»
«Porque não vai.»
«Não tenho razão para duvidar do que me vai dizer. Aceitou falar comigo, dar a entrevista, tenho que assumir que vai dizer a verdade.»
«…»
«Ponha-me à prova. Diga lá: o que é que o levou a roubar carteiras de esticão?»
«O amor à minha mulher.»
«…»
«Está a ver? Não acredita.»
«Não. Acredito. Só fiquei surpreendido. Há-de admitir que não é uma justificação habitual.»
«Talvez…»
«Gostava que desenvolvesse a ideia. De que modo é que o amor à sua mulher o levou a roubar carteiras?»
«Como todas as mulheres, ela gosta de carteiras mas não temos dinheiro para as comprar. Então decidi roubar umas para lhe oferecer.»
«Estou a ver… É uma ideia interessante. E como é que ela reagiu?»
«Primeiro ficou assustada. Mas depois gostou. Percebeu que eu o fazia por ela.»
«Há quanto tempo estão casados?»
«Quase dois anos.»
«E, diga-me lá outra vez, quando é que começou?»
«Há uns dez, onze meses. Foi quando tive a ideia. Antes só assaltava automóveis. Agora faço as duas coisas. Uma por necessidade, a outra por prazer. Quer dizer, pelo prazer de lhas dar.»
«Quantas já roubou?»
«Tem piada que pergunte porque realmente contamo-las, sabe? Até brincamos com aquela mulher do gajo que era ditador das Filipinas, não era?, que tinha dois ou três mil pares de sapatos. A gente ri-se e diz que a minha mulher há-de ter tantas malas como ela tinha sapatos.»
«Quantas já roubou até agora?»
«Noventa e três.»
«Noventa e três?»
«Sim.»
«A sua mulher precisa assim de tantas?»
«Precisar, não precisa. Mas tornou-se uma espécie de passatempo. E gosto de ver a cara dela quando lhas ofereço. É das poucas alturas em que fica mesmo feliz.»
«Ela não es…»
«E depois não é tão fácil como se pensa, sabe? Ela gostava de ter uma Guess. Então eu jurei que lhe ia dar uma. Sabe quantas tive de roubar até conseguir uma genuína? Doze. As primeiras onze eram todas falsificações. Já andava farto das Guess e quase a desistir. E com as Louis Vuitton não foi muito melhor: só consegui à oitava tentativa. E digo-lhe que ainda tenho dúvidas de que a última seja mesmo verdadeira.»
«Nunca foi apanhado pela polícia?»
«Nã. Eu tenho cuidado. Mas é verdade que nessas semanas em que andei atrás das Guess já andava tão desesperado que me distraí e ia sendo apanhado a forçar a porta dum Ford. É muito fácil entrar nos Fords, sabe?»
«Não, não sabia. Eu tenho um Ford.»
«Então já fica a saber. Não precisa de ficar admirado se chegar ao pé dele e alguém o tiver assaltado.»
«Err, obrigado. Voltemos às malas. Costuma devolver os documentos?»
«Ainda pensei nisso, a sério que pensei. Mas não. Não ia mandar-lhes uma carta, não é? E tenho medo de deixar impressões digitais ou uma coisa assim. Também é só ir à loja do cidadão e arranjam-lhes logo outros.»
«As mulheres a quem as rouba não oferecem resistência?»
«Não lhes dou hipótese. Quer dizer, já houve umas quantas que conseguiram agarrar-se à carteira antes de eu lha ter arrancado das mãos.»
«E o que aconteceu?»
«Foram parar ao chão. Não sou de desistir quando começo um trabalho.»
«Magoaram-se?»
«Não sei. Não fico a ver. Devem ter esfolado os joelhos.»
«E não se sente mal por causa disso?»
«Não é um problema meu, pois não? A minha mulher anda na rua e corre o mesmo risco.»
«E tem medo, ela?»
«Um bocado. Agarra-as com uma força que só visto. Eu já lhe disse que se algum filho da puta lhe tentar roubar uma, que a deve deixar ir. Havemos de arranjar outra. Se calhar até aquela outra vez. Mas ela diz que nem pensar. Fui eu que lhas dei e ela não as quer perder.»
«Como é que escolhe as que rouba?»
«Antes era um bocado ao calhas mas agora já sei do que ela gosta.»
«E do que é?»
«Coisas bonitas, com pêlo e letras e fivelas. E de cores diferentes. Uma preta, uma castanha, uma vermelha, uma roxa, uma verde, uma cinzenta,…»
«Estou a ver. E ela só gosta de carteiras?»
«Não, claro que não. É mulher, não é? Também gosta de outras coisas.»
«Mas compra-as?»
«Poucas. Não temos dinheiro. Recebemos o rendimento mínimo mas é uma miséria, não chega para nada.»
«Para ela, você só rouba carteiras?»
«Ouça, eu também roubava sapatos se pudesse. Mas não é assim tão fácil, pois não? Tinha que deitar as mulheres no chão e tirar-lhos dos pés. Era demasiado perigoso.»
«Devia ser, devia.»
«Mas olhe que bem gostava. Por que é chato, está a ver? Agora a minha mulher tem dezenas de malas espectaculares mas não tem roupa à altura nem sapatos a condizer.»
«É chato, de facto. Bom, acabámos. Foi interessante falar com alguém com um amor tão evidente pela mulher.»
«Obrigado. Pode não acreditar e até achar que é piroso mas ela é a única coisa que me interessa. Sou capaz de fazer tudo por ela.»
«Não acho nada piroso, acho bonito.»
«Sabe o que é que vou fazer com o cheque que vocês me prometeram?»
«Não. O quê?»

«Vou à Fáxion Clinic – onde os futebolistas vão às compras, sabe? É uma loja do caraças; até já pensei em assaltá-la mas não é a minha especialidade – vou lá comprar-lhe uns sapatos da Prada que na semana passada ela viu na montra e adorou. Vai ficar tão contente quando lhos der…»

 

(Republicado.)

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Otorrino

por José António Abreu, em 15.06.12

Isto é capaz de ser um bocadinho comprido para o Delito mas, ei, estamos no fim-de-semana. E, modéstia à parte, é uma história tão bonita...

 

«Pára com isso.»

«Não consigo. É uma sensação horrível. É como borbulhas, aquelas que ficam com crostas e dão vontade de arrancar, sabes?»

E Manuel escarafunchava o interior do nariz com a ponta do dedo mindinho e tirava de lá pedaços de muco seco que rodava entre a ponta do indicador e do polegar até formar bolinhas e depois atirava para o chão, a menos que estivesse em casa e Filomena, a mulher, andasse por perto, caso em que as ia pôr no balde do lixo ou colocava em pedaços de papel que dobrava cuidadosamente e deixava em cima da mesinha em frente ao televisor, de onde por vezes se esquecia de os retirar, tendo que ser Filomena a fazê-lo. Para além de remexer no interior do nariz, Manuel também se esforçava por retirar cera dos ouvidos com a ponta dos indicadores ou dos mindinhos mas menos amiúde e quase sempre com fracos resultados. Tanto fazia estas coisas distraidamente, sentado dentro do seu velho Fiat Uno ou no sofá a ver o Benfica, como outras pessoas acariciam o lóbulo da orelha ou fazem rodar os polegares um em torno do outro, como de modo consciente, mergulhado numa mistura de desespero (por a sensação se lhe ter tornado intolerável) e irritação (por não ter forças suficientes para o evitar). Filomena detestava vê-lo de dedo enfiado no nariz e fartava-se de lhe pedir para se controlar. «Nem à frente dos meus pais páras com isso e sabes como o meu pai fica…» Ele respondia que lhe era impossível, que o impulso depressa se tornava insuportável. «Quando tento controlar-me não fico bem. Fico com uma impressão horrível. Uma comichão no nariz, a sensação de que lá tenho uma coisa estranha, às vezes até parece viva.» Filomena comprou-lhe lenços de papel e cotonetes mas, por muitos esforços que Manuel fizesse para os usar, voltava sempre ao uso dos dedos. «O hábito vem-me desde criança», justificava-se. «Não consigo parar.» Filomena amava-o e ia aguentando. Tentava nem reparar mas quanto mais esforços fazia para não reparar, mais impressão aquilo lhe fazia também a ela. Curiosamente, os períodos em que Manuel estava constipado eram os melhores pois o ranho ficava demasiado líquido para, por um lado, provocar a tal sensação que tanto o incomodava, e por outro, permitir o uso da ponta dos dedos. Quando estava constipado, Manuel era mesmo forçado a utilizar os lenços de papel, que se amontoavam então na mesinha em frente do televisor até Filomena os levar para o lixo.

Estavam casados há três anos e meio e – mais um factor que não ajudava a que o pai dela encarasse Manuel com bons olhos – ainda não tinham filhos quando Manuel perdeu quatro dedos da mão direita na prensa de fabrico de tabuleiros metálicos que operava no emprego. Ele tinha que colocar a chapa na prensa, carregar num pedal para fazer descer a parte móvel e, depois de ela subir novamente, retirar a chapa já com o formato do tabuleiro. Era um trabalho perigoso que Manuel fazia há anos, sempre com imenso cuidado. Prometera a Filomena nunca facilitar. Mas naquele dia distraiu-se e carregou no pedal cedo demais. Da mão direita, só lhe restou o polegar.

Nem assim o hábito desapareceu mas, durante uns tempos, foi-lhe mais difícil extrair cera da orelha direita. Até ao acidente, apenas usava a mão esquerda na orelha do mesmo lado e, se não teve dificuldades em habituar-se a usá-la também no nariz, empregá-la na orelha direita constituiu um desafio muito maior. Porém, não havia escolha: o polegar, único dedo que lhe restava na mão direita, era demasiado grosso para o canal auditivo. Com esforço e perseverança (duas das suas melhores qualidades, todos o reconheciam), lá conseguiu habituar-se. Filomena, que parecera ficar mais perturbada com o acidente do que ele, dizia: «Nem assim deixas de fazer isso...» Mas dizia-o com resignação, não de forma agressiva. Como se, depois do acidente, aquele acto tivesse passado a ser uma coisa sem grande importância. Já o sogro de Manuel, dono de uma pequena e escura oficina de automóveis, passara a encará-lo ainda com mais desprezo: para além de ser pobre, ter aquele hábito asqueroso e não lhe dar um neto, Manuel nem sequer era capaz de evitar perder os dedos numa máquina que, sendo perigosa, era tão fácil de operar.

Regressou ao trabalho dois meses após o acidente, a mão direita transformada num coto espalmado e arredondado, a que o polegar, espetado na parte lateral, parecia nem pertencer. Filomena não queria que ele voltasse a trabalhar na prensa mas Manuel explicou-lhe que, depois da Inspecção do Trabalho e da Seguradora terem levantado imensos problemas ao patrão por causa das questões de falta de segurança (parece que a lei não permitia que as prensas fossem accionadas por pedal sem que existissem meios de protecção da zona perigosa), todas as prensas da empresa haviam sido modificadas e agora eram comandadas através de dois botões que tinham de ser premidos em simultâneo. «Chama-se comando bimanual», explicou Manuel a Filomena. E havia ainda uma barreira fotoeléctrica para garantir que as mãos do operador não estavam na zona perigosa «Se estiverem, a prensa não fecha». As explicações não sossegaram Filomena mas o que podia ela fazer? Os empregos eram escassos e necessitavam do dinheiro do salário dele, uma vez que o dela, funcionária no refeitório da escola secundária da vila, mal chegava para pagar o empréstimo do apartamento.

Passou-se cerca de um ano. Manuel habituou-se a colocar e a retirar a chapa com a mão esquerda e a premir o botão direito do comando bimanual com o polegar. A princípio, o patrão, um homem gorducho de cinquenta e tal anos que também era dono de um dos quatro cafés e do único talho da vila, não gostara da solução dos dois botões porque a cadência de produção revelava-se ligeiramente mais baixa do que com o pedal. Ainda por cima, do acidente resultara uma multa para a empresa e isso trazia-o irritado. Fora uma batelada de dinheiro, «um roubo», queixava-se a quem encontrava pela frente. Fazia até questão de o dizer repetidamente ao próprio Manuel, dando a entender que Manuel estava obrigado a compensá-lo. Uma vez perguntou-lhe: «Então agora como é que fazes para tirar macacos do nariz, Manel? Usas o dedo mindinho da mão esquerda para os dois buracos? Aposto que também demoras mais…» E riu-se com gosto, enquanto Manuel permanecia em silêncio. Todavia, decorrido um par de meses as coisas voltaram a entrar na rotina.

E então, um dia depois da prensa ter estado desligada para operações de manutenção, Manuel ficou sem quatro dedos e meio da mão esquerda: os quatro correspondentes aos que perdera na mão direita e ainda a extremidade do polegar. Como fora possível, quis saber Filomena depois de ele sair do tratamento. A máquina não era segura? Não parava se a mão estivesse lá dentro? Manuel explicou-lhe que os colegas da manutenção tinham deixado os sistemas desactivados. Um esquecimento ou talvez preguiça de ligar tudo outra vez. «Devíamos arranjar um advogado», disse Filomena. Mas não o fizeram. Não tinham dinheiro para isso e o patrão nunca perdoaria a Manuel se o fizesse. Far-lhe-ia a vida negra.

Apesar das perguntas e das referências ao advogado, Filomena encaixou o acontecido como se já o esperasse. Tornou-se mais calada, mais triste, mais resignada. Manuel detestava vê-la assim mas não sabia o que fazer para a animar. Poucos dias depois de sair do hospital percebeu que ela tinha ainda mais razões do que ele pensava para estar assustada, quando se sentou no sofá ao lado dele e, sem rodeios, lhe comunicou que estava grávida. Então Manuel ficou pelo menos tão assustado como ela.

Mas, inesperadamente, o acidente acabou por ter consequências positivas. Manuel, que, na sequência do primeiro, já recebia uma pequena pensão por incapacidade, foi considerado inapto para o trabalho (o que lhe permitiu evitar o ex-patrão, outra vez às voltas com a Inspecção e mais irritado do que nunca) e passou a receber uma pensão quase igual ao salário. Apesar disso, ainda tentou arranjar outro emprego, de modo a aumentar o rendimento agora que a família ia crescer, mas ninguém se dispôs a aceitar um trabalhador com apenas um polegar e meio no conjunto das duas mãos. Assim, ficava em casa, sentado a ver televisão enquanto Filomena ia para o emprego. O sogro não gostava de o saber inactivo enquanto a filha, grávida, continuava a trabalhar («Lá por não ter dedos, não quer dizer que não possa fazer qualquer coisa; prefere é ficar de papo para o ar a coçar os tomates», ouviu-o dizer uma vez) mas, de forma geral, a gravidez da filha deixara-o menos agressivo. Pelo que o maior problema de Manuel, o problema que lhe ocupava os dias e o desesperava, era ser-lhe agora quase impossível escarafunchar nariz e ouvidos. De facto, sem acessórios era mesmo totalmente impossível. E as cotonetes, que já antes não resultavam, haviam-se tornado ainda mais inúteis, devido à dificuldade que ele tinha em manejá-las. Experimentou segurá-las de todas as maneiras possíveis (entre o polegar direito e palma da mão direita, entre o polegar direito e o coto do polegar esquerdo, entre o polegar direito e a palma da mão esquerda, entre o coto do polegar esquerdo e a palma da mão direita com o polegar direito arqueado por cima do coto do polegar esquerdo de modo a providenciar um acréscimo de estabilidade, entre ambas as palmas) mas nenhuma resultava. Quando, no final do dia, Filomena chegava, cansada, corada e cada vez mais redonda, Manuel encontrava-se sempre à beira do desespero. E então, porque o amava e não suportava vê-lo sofrer, Filomena sentava-se junto dele e, com os seus dedos finos terminados em unhas que fazia questão de arranjar pelo menos todos os domingos à noite, antes da hora de dormir, passava vários minutos a extrair-lhe burriés do nariz e cera dos ouvidos. Depois ia lavar as mãos e fazer o jantar.

 

(Também aqui.)

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O moralista disléxico

por José António Abreu, em 11.05.12

O moralista disléxico chamava-se Erasmo Coina de Carvalho e não conseguia evitar enganar-se ao dizer ou escrever o nome.

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Osmose

por José António Abreu, em 13.04.12

Sempre o achei um tipo estranho. Na universidade tinha um quarto na mesma casa que eu mas era uma espécie de roda sobresselente no grupo em que eu me inseria. Teve um par de relações que não duraram. Fartava-se de falar no cão que os pais lhe haviam oferecido quando fizera doze anos – o canídeo mais inteligente do mundo, a acreditar nos relatos que nos impingia.

Depois da universidade passei a vê-lo mais raramente. Ainda assim, morando na mesma cidade, encontramo-nos de vez em quando. Casou há menos de um ano. Contou-me que conheceu a mulher, Paula, quando o cão dele, filho do que mencionava na universidade, se interessou pela cadela dela. Paula era simpática mas tão estranha quanto ele. Parecia viver para a cadela. Na realidade, apesar de casados, ambos pareciam continuar a viver para os respectivos cães. Demorei algum tempo a perceber que apenas o entusiasmo dos cães um pelo outro os unira. Fora uma espécie de osmose. A atracção dos cães fizera com que se sentissem atraídos. Percebê-los excitados provocara a sua própria excitação. Observá-los a ter relações sexuais levara-os a tomar consciência de que também o desejavam fazer. Evidentemente, durou pouco. O cão dele engravidou uma cadela do prédio em frente e Paula reagiu mal. Disse-lhe: «Isto já não faz sentido.» Não constituiu um grande choque para ele. No fundo, estava de acordo.

Agora encontra-se todos os dias com o dono da cadela (passam imenso tempo a debater com quantos cachorrinhos cada um ficará e o que fazer com os restantes) e começa a sentir-se atraído por ele. «A verdade é que Paula nunca me completou. Bom, talvez no início. Mas depois… Sabes, começo seriamente a pensar que sou gay.»

 

(Também aqui.)

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O Sr. Marques no Centro Comercial

por José António Abreu, em 29.03.12

O Sr. Marques aprecia centros comerciais. Raramente lá compra alguma coisa mas gosta de deambular pelos corredores e de sentar-se nas zonas de restauração, observando as pessoas. Na verdade, é mais as mulheres mas ele considera que está a observar «as pessoas». Às vezes pensa que o interior dos centros comerciais é o local onde melhor se analisa a vida moderna. Um local onde toda a gente se encontra no mesmo plano e pode cobiçar e tocar em milhares de coisas. A vida actual é feita de cobiça, pensa o Sr. Marques enquanto suspira perante a visão de uma mulher de traseiro empinado parada em frente à montra de uma sapataria, e os centros comerciais são o local onde ela pode ser expressa de forma mais subtil e democrática. São também um local onde exemplares díspares do ser humano podem ser vistos sem parecerem assim tão diferentes entre si. Hoje, por exemplo, o Sr. Marques ficou igualmente encantado ao ver uma quarentona de fato justo, saltos altos e colar de pérolas movendo-se em passo saracoteado e uma rapariga mal saída da adolescência com um vestido leve, umas botas pesadas e três piercings no nariz esparramada num dos sofás. Há ambientes em que tanto uma como outra pareceriam deslocadas. Num centro comercial, ambas se podem sentir à vontade.

O Sr. Marques encontra-se agora sentado na zona dos restaurantes, cansado de tanto raciocínio – mas não de observar as pessoas. Numa mesa próxima, uma pessoa do sexo feminino com cerca de vinte e cinco anos de idade troca mensagens no telemóvel. Veste uma blusa fina e decotada e um soutien que deve ser de um número abaixo do adequado porque lhe deixa um mamilo quase inteiramente à vista. O Sr. Marques olha e pondera se deve tentar não olhar. Procura também imaginar a reacção dela se, simpaticamente, a avisar do descuido. Está absorto a elaborar uma lista mental de prós e contras quando uma segunda mulher chega junto da primeira, se inclina para a beijar e, enquanto se senta, diz: «Tens a mama à mostra.» A outra encolhe os ombros. «Ora, sempre alegra a vida a alguns coitados.» Primeiro o Sr. Marques sente-se ofendido. Chega mesmo a pensar: «Cabra!» Mas depois percebe que a rapariga acaba de lhe dar autorização para continuar a olhar. E assim, já sem disfarces, o Sr. Marques deixa-se ficar entretido a olhar para o mamilo, que é largo e pouco saliente e está rodeado por uma auréola rosada e ligeiramente granulosa. A certa altura, o olhar dele cruza-se com o da rapariga e o Sr. Marques permite-se mesmo sorrir com descontracção. Só então ela parece incomodada. Empurra a mama para dentro do soutien, pega na mala com a mão que o telemóvel deixa livre e diz para a outra: «Olha, vamos mas é andando.» O Sr. Marques observa-lhe o movimento das ancas enquanto ela se afasta e depois fica lá, sorrindo de vez em quando ao relembrar o acontecimento.

 

(Também aqui. Este é o terceiro episódio das, hmmmm, «aventuras» do Sr. Marques. Os outros dois podem ser lidos aqui.)

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Probabilidades

por José António Abreu, em 08.02.12

Obsessivo, sabia tudo sobre o amor. Lera imenso acerca do assunto. Vira centenas de filmes. Escrutinara a letra de inúmeras canções. Apesar disso, as relações nunca lhe duravam. Pensara e voltara a pensar e chegara a uma conclusão: a probabilidade de encontrar uma mulher com o mesmo grau de compromisso com a paixão enquanto objectivo de vida que ele tinha era infinitesimal. Inferior a ganhar o euromilhões. Provou-o começando a jogar no euromilhões e obtendo o primeiro prémio três anos depois, após mais um par de relações falhadas. Mas provou-o à justa, uma vez que logo a seguir começou finalmente a encontrar mulheres que pareciam dispostas a tudo para ficar junto dele para sempre.

 

Também aqui.

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Don't give up

por José António Abreu, em 05.01.12

Veste uma t-shirt preta com a frase Don't Give Up estampada na parte frontal. As letras, douradas, constituídas por pontos individuais, brilham ao serem atingidas pelas luzes do bar quando ela se move. Penso em Kate Bush mas apenas durante um instante. Aproximo-me. Meto conversa. Não se mostra interessada. Insisto. Adaptando uma frase de uma das melhores letras que Bono alguma vez escreveu, digo-lhe: «You lips say one thing, your t-shirt something else.» Sorri. Murmura: «A t-shirt é emprestada.» Mas deixa-me pagar-lhe uma bebida.

Três horas mais tarde, no meu quarto, junto à cama, tento despir-lhe a t-shirt mas ela impede-me. Aceita que lhe tire o soutien e o resto da roupa mas não a t-shirt. É-me indiferente. Tombamos na cama.

Minutos depois, estendidos de costas, recuperamos o fôlego. Ela puxa a t-shirt para baixo, cobrindo ancas e sexo, e diz: «Sabes, a frase?» Rodo a cabeça e releio-a. «Sim?» Larga a t-shirt, cujo extremo inferior sobe até acima do umbigo. «Afinal é pena que nem sempre seja levada a sério.»

 

Também aqui.

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Trifene 200

por José António Abreu, em 18.12.11

O meu avô Carlos era viciado em automedicação. Experimentava tudo ao mais leve sintoma. Ultimamente, por causa das hemorróidas – reais, creio –, andava a tomar Trifene 200. Dizia que os resultados eram espectaculares. O meu pai murmurava: «Só espero que aquilo não tenha efeitos esquisitos. Que não lhe faça crescer as mamas, ou coisa parecida.» A minha mãe encolhia os ombros, suspirava e dizia: «É um analgésico, não lhe faz mal nenhum.» Mas o meu pai não ficava sossegado. «Por alguma razão o publicitam para o que publicitam», resmungava. No fundo, ainda que recusasse admiti-lo, o medo dele era que, em resultado do Trifene 200 e aos setenta e seis anos de idade, depois de uma vida de facadas no matrimónio (que o meu pai não conseguia deixar de invejar), o meu avô se tornasse subitamente homossexual.

 

(Também aqui.)

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Chá

por José António Abreu, em 11.11.11

Era francesa mas gostava tanto de beber chá que todos lhe diziam mais parecer inglesa. Tendo certamente ouvido o comentário milhares de vezes, ela sorria sempre. Falava com um sotaque que ele achava inebriante, misturando palavras em português com palavras em francês e fazendo pausas inesperadas, como se seguisse regras muito próprias acerca dos sítios onde encaixar as vírgulas. Quando, pela hora do lanche, sentada à frente dele, dizia, com um suspiro de prazer: «Eu amo thé», ele ficava sempre um instante em suspenso, tentando perceber exactamente o sentido das suas palavras.

 

(Também aqui.)

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Pairando

por José António Abreu, em 21.10.11

O casal que arrendara o apartamento era simpático mas não se assustava com facilidade. A rapariga, faladora e de cabelo comprido, e o rapaz, alto e muito magro, riam-se sempre que objectos caíam sem motivo aparente, culpavam o vento quando, apesar de nenhuma janela se encontrar aberta, as portas se fechavam com estrondo, atribuíam, com um encolher de ombros e um trejeito de resignação, barulhos esquisitos nas paredes e no tecto à acção de ratos ou dos vizinhos. Mas isso não era o pior. O pior era que passavam horas a ver filmes de terror num televisor enorme. Ele tentava assistir, pairando atrás do sofá, mas nem sempre conseguia porque alguns eram demasiado assustadores. Detestava ficar paralisado de medo enquanto eles reagiam com gritos, risos e abraços aos actos de um louco homicida brandindo uma motosserra. Mas era pior quando os filmes metiam fantasmas. Não o assustavam tanto como os de mortos-vivos, lobisomens ou assassinos sádicos mas deprimiam-no como nada mais o conseguia fazer. Não há pior sensação para um fantasma do que perceber-se um cliché.

 

(Também aqui.)

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Entre vizinhos todos conheciam a Dona Esmeralda, que se queixava dos buracos das toupeiras. Tinha olheiras de quem passava à noite à coca e comichava do nascer ao por do sol. E, todos os dias, a vizinhança prestável, fazia o frete de ajudar na caçada cega.

 

Tempos passados a Dona Esmeralda abandonou o queixume e a vizinhança continuou a aguardar as suas lamentas. Queriam saber se os buracos do bicharoco ainda lhe fazia doer a vista e dar gritos de meia-noite.


“Não” retorquiu.

 

A Dona Esmeralda, porém, continuava pálida e de ar frustrado, mas, quando confrontada com as perguntas armadas da vizinhança, dizia:“Não,não . Não é grave”.


Tempos depois deixou-se de pôr olho na Dona Esmeralda. Buscou-se a senhora e encontrou-se o seu cadáver no jardim – perfurado pela amargura interna. Tinha túneis escavados pelo corpo - de enfiar o punho inteiro -, mas, enfim, tinha um jardim floreado e sem buracos de toupeira.

 

De facto o foro emocional era, naquela vizinhança, ainda mais privativo que o jardim das traseiras.

 

Julho, 2009 

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