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A felicidade de Deles

por Patrícia Reis, em 21.06.15

 

Para o Elvis e o Luís, dois homens à beira da água

A sala estava repleta de computadores. Era branca e infinita. Em mesas corridas, os ecrãs e os teclados eram utilizados por homens e mulheres sem distinção, todos vestidos de azul escuro com sapatos confortáveis. Sem serem exactamente iguais, clones uns dos outros, eram similares, de uma forma invulgar, fixavam os ecrãs e escreviam com todos os dedos. A sala, estranhamente, mantinha-se silenciosa. A meio havia um corredor, uma espécie de divisória, apenas uma passagem. As mesas não acabavam. Ao fundo, distinguia-se um vulto que, em passo lento, seguia junto às mesas de trabalho, por vezes parando, olhando, verificando, dizendo algo em surdina. Era um local inesperado. Não tinha um nome atribuído; enfim, possuía uma designação quase hilariante que “os outros” construíram ao longo dos tempos. Para homenagear essa fonte extrema de imaginação do Homem, alguém poderia ter escrito na parede: céu. Porém, não existia por ali ninguém com esse sentido de humor, excepto Deus, claro, mas esse estava extremamente ocupado. Gostava de citar Estaline, um ditador perdido na história “dos outros” – assim eram conhecidos os seres da raça humana – que dizia que mandava fazer, mas gostava de conferir. Deus verificava tudo. Ninguém sabia como é que ele conseguia, afinal eram muitos ecrãs, cada um representando, pelo menos, cem vidas distintas. Os operadores eram responsabilizados pelas vidas que tinham em mãos. Sabiam ao pormenor os aspectos mais bizarros das histórias dos homens e das mulheres que, na Terra, repetiam as instruções que eles ditavam nos seus computadores supersónicos e avançados. Os operadores eram, portanto, uma espécie de escribas supremos, servindo um Deus que podia ter os seus momentos de ira e de bondade, misturando emoções com uma violência tal que, por vezes, aconteciam desastres. A estes desastres “os outros” chamavam catástrofes e atribuíam à Natureza um papel determinista nos sucessivos azares. A verdade era diferente. Na sala branca, os operadores escreviam e escreviam, incansáveis, dormindo apenas quando as pessoas que estavam sob a sua alçada faziam o enorme favor de adormecer.
Numa sala ao lado, em tudo igual a esta, outra equipa de operadores, também supervisionados por Deus, embora de forma mais errática, eram responsáveis pelos sonhos. Escreviam-nos num registo de alguma estranheza e, como não causavam tantos conflitos na vida real, davam-se ao luxo de brincar e misturar vidas e eventos. Nos sonhos, tudo é possível e a coerência não impera. Os operadores da sala dos sonhos eram considerados aprendizes. Ainda faziam muitas asneiras, não podiam ser autores da vida de ninguém. Os sonhos pouco importavam, a maioria esfumava-se ao acordar e “os outros”, mesmo tentando fixá-los, enfrentavam uma dificuldade enorme ao fazê-lo. Alguns insistiam e escreviam anos a fio sobre o mistério maior dos sonhos, sobre o funcionamento inexplicável do cérebro. Deus achava alguma graça a esta tentativa dos humanos de decifrarem os sonhos, como se chegassem a uma consciência. Ora, a consciência ditava-a Ele na sala ao lado, nos pequenos gestos que cada criatura produzia na vida que Lhe destinara. O resto eram lérias.
Foi muito cedo que Deus percebeu que a vida não teria significado sem dor, sem revezes, altos e baixos que levariam “os outros” a entender que viver é uma construção com o propósito único de aprender algumas lições básicas. Sim, a lengalenga sobre a bondade, paridade, amor e sinónimos. O problema com “os outros” começara com o excesso de imaginação de alguns operadores. Era preciso toda a sua atenção para que nada descambasse. Deus não gostava de ver “os outros” sofrer, nada disso, mas entendia ser necessário sublinhar amiúde a pequenez de tudo o que existia. Não estava preocupado com as potenciais queixas. Não existia, ao contrário do que “os outros” pensavam, uma sala para o atendimento de queixas. Ele não tinha tempo para ouvir preces ou pedidos especiais. Estava demasiado ocupado a ver que tipo de vida é que os seus milhares de operadores desenvolviam consoante o tempo, a zona geográfica, a raça, o sexo, a etnia, a religião. Achava alguma piada a intervir, aqui e ali; a sugerir uma redenção a um operador que tinha levado “um outro” até ao poço mais fundo. Dizia, magnânimo, que as oportunidades dão-se para serem desperdiçadas, existirão sempre novas oportunidades. Deus era, assim, a favor das novas oportunidades. Sabia que a Terra se desenvolvera de forma a criar guettos e outras maleitas. Culpa dos seus operadores? Sim, em parte, contudo essa irregularidade também era uma forma de equilíbrio.
Deus possuía os tais momentos de ira e de emoção. Deus era todo-poderoso, sem dúvida, estava ao seu alcance criar e destruir. Julgava a parte da construção como algo de mais interessante. Todavia, nos momentos de desalento, perdia a vontade e destruía. Ou mandava destruir. Os operadores eram eficazes e rápidos, entendiam com facilidade o que Ele pretendia. Só não compreendiam o capricho de possuir um computador à parte, mais luzidio, com um ecrã de definição total, onde tomava conta, pessoalmente, da vida de quatro ou cinco criaturas, de “outros” sem significado específico. Não eram pessoas dignas de nota, homens no poder, mulheres com ideias e empreendedoras, crianças dotadas. Deus entretinha-se com a classe média ou baixa. Com os que não tinham ambições de maior.
Para citar um caso específico, Deus desenvolvera uma fixação numa história particular de uma miúda com catorze anos, apostada em fazer vencer a ideia de felicidade. Para Ele era estranho que alguém concebesse a felicidade de uma forma singela e tangível. A felicidade era um dos seus jogos, ou promessas, como diriam “os outros”. E aquela miúda decidira baralhar tudo sozinha, sem que Ele, como operador supremo, conseguisse controlar fosse o que fosse. A miúda dera um salto de fé tão violento que derrubara a Sua vontade.
Ela estava determinada a ser feliz como outras pessoas estão convictas do seu caminho para o sucesso financeiro. Não pretendia possuir casas e contas em bancos diversos; não era sobre isso. A felicidade residia na redenção da sua mãe e, só isso, era um projecto com ambição suficiente para se ocupar dele uma vida inteira. Não cometeria os mesmos erros, seria perspicaz e cultivaria a bondade de uma forma misteriosa e altruísta sem se perder nas malhas da ingenuidade. Ao mesmo tempo, arrastaria, como um barco de pesca, a mãe e a irmã nesta intenção de ser distinta e de ver na vida o que tão facilmente se esconde. Quando terminou de dedilhar estas convicções que incorporaram a mente de Teresa, Deus surpreendeu-se. Não era o seu tipo de história. Ele era mais dado a épicos de vontade e de teimosia, tinha-os criado com enorme valentia ao longo dos tempos e alguns exemplos ainda prevaleciam como modelos a seguir. No caso de Teresa, deixou a coisa correr, sentindo, é certo, um certo embaraço no caso de ser apanhado por um operador mais curioso. Olhando à sua volta, a sua sala permanecia tranquila, todos os olhos fixos nos diferentes ecrãs, nada de novo. Uma rebeldia seria impensável. Deus suspirou e regressou à história de Teresa. Sentia-se lamechas nessa tarde, embora nunca o admitisse.
A decisão sobre o exercício de felicidade - ou sobre o índice dessa sensação na vida de Teresa - foi tomada quando esta completou catorze anos. Deus considerou que a idade era justa. Não era uma criança, não era exactamente um adulto. O pai acabara de deixar a casa em silêncio, retirando-se à força, escoltado por dois polícias à paisana. Para se entreter, ela decidira fazer arroz doce sem ovos, com raspas de limão e açúcar amarelo, distraindo a irmã mais nova nas delícias do tacho, mexer, mexer com cuidado. A mãe permanecera no quarto de casal, paredes-meias com a sala. Ouviu-a gemer quando a porta da rua se fechou com o fim da violência. Com o seu corpo franzino, cabelo preso na nuca com um elástico velho,  Teresa abandonou a cozinha dizendo para a irmã
Não deixes de mexer o arroz, não se pode queimar no fundo do tacho. Se parares de mexer estragas tudo.
Aproximou-se do quarto da mãe, bateu à porta, apenas um toque ligeiro, uma intenção. Sentou-se na cama ao seu lado e começou a contar.

Quando tinha dois anos caí ao rio. Era muito pequena. Andava de fralda.

Sim, filha.

O cão salvou-me.

Pois foi. Eu lembro-me.

Isso faz de mim uma pessoa diferente, mãe. Sei coisas que tu não sabes e vou-te dizer agora como vais fazer a tua vida.

Está bem.

A mãe passou a mão pela cara, um gesto cansado, uma intensa dor indizível. Tudo o que fizera para proteger as filhas terminara naquele dia, no minuto anterior. Não queria falar sobre isso. Estranhava o cheiro adocicado que invadia a casa. Quis levantar-se, mas sem coragem, encarou a filha mais velha com os olhos azuis sem fim. Deus sentiu um aperto no peito. A menina-mulher disse

Estamos sempre sós, mãe. Sempre. Mas estamos sempre juntas, não é? E agora vamos ser felizes.

E o que é ser feliz?

Vamos fazer uma lista. Ser feliz é o arroz doce que vamos comer ao jantar. Ser feliz é o conjunto de lençóis brancos que vais estrear hoje na tua cama de solteira. Ser feliz é saberes que estás aqui.

Onde é que tu descobriste essas coisas? Essas ideias?

Nos livros. Quando quiseres estar triste e chorar dou-te livros para chorares. Na vida vais ser feliz.

Assim de repente?

Assim de repente.

A decisão foi tomada sem grandes preceitos ou mais discursos. Deus encarregou-se disso. A decisão não iria, de forma alguma, esmorecer; pelo contrário, iria engrandecer e ser central na vida daquelas mulheres.  Hoje, Teresa já não se recorda das palavras que disse, tudo aquilo que somou para mudar a vida, mas a mãe sabe dizê-las com exactidão. Recita cada palavra de cor, como uma oração. Diz às amigas que a filha é o seu anjo da guarda o que, obviamente, não é possível, porque os anjos da guarda nunca foram inventados por Deus. Nunca teve tempo para isso e nunca os considerou necessários. A ideia filosófica e artística dos anjos, essa sim, fora criada por um dos operadores mais veteranos, há muito tempo, quando o mundo estava imerso numa enorme treva. Fora uma ideia feliz, por assim dizer.
Dos catorze aos dezoito, Deus decidiu que Teresa ensinaria a mãe a viver em felicidade, de tal forma que um bolo desenformado com categoria e sem erros passou a ser motivo de aplauso; uma ida a supermercado perdeu a banalidade para se transformar na preparação de um festim, mesmo que parco; uma série de televisão seria a companhia perfeita e a origem de conversas interessantes que, mais tarde, se expandiriam para os livros. A literatura – aliás, as Artes – sempre tiveram imensa importância para Deus. Pequenas coisas, sem importância na vida das pessoas comuns, adquiraram uma proporção esmagadora para Teresa, para a mãe e para a mais pequena, a cara de bebé, Joana. Três mulheres estranhas que coincidiam nesta aprendizagem forçada de ver o mundo pelo avesso. Sempre que surgia um problema, treinavam-se para o desprezar, encarando-o como um mal menor, uma erva daninha incómoda e sem importância. Nada as demovia do plano da felicidade. Deus certificava-se disso. Aos jantares, como um ritual quase religioso, a Teresa começava

Qual foi o ponto alto do teu dia, mãe?

E as histórias desfiavam-se como contas perfeitas, criando um colar forte e coeso, lindo e brilhante, cheio de momentos raros e estranhos.

Hoje no estacionamento faltavam-me cinquenta cêntimos e um senhor, muito amável, deu-mos.

Que sorte.

É verdade, filha. E sorriu-me. Foi bom.

Joana entendia que as história do jantar eram uma espécie de competição, por isso tomava nota de todos eventos que podiam ser considerados bons ou felizes. Deus ajudou-a a criou um método de avaliação do momentos eficazes de vida, um método capaz de surpreender a mãe e a irmã com pequenos episódios onde a pureza ressaltava inesperada.

Hoje assisti a dois surdos mudos a discutir no metro. Não sei nada de linguagem gestual, mas percebi que era uma coisa de namorados. Cheguei ao pé deles e dei-lhes um beijo na cara. Riram-se e ficaram melhor.

Teresa espantava-se com o crescimento da irmã, com a sua invulgaridade. Joana não era uma miúda como as outras. Possuía um dom: o do apaziguamento. Trazia com ela um misto de calma e sabedoria que tornava a vida mais fácil. Além desse dom, Joana cantava e todos os pretextos eram válidos para encher a casa com música. Concordaram que as canções tristes não perdiam validade, eram permitidas, apesar de intervalarem com poemas mais alegres, em fado ou em canções da moda, dessas que se aprendem nas telenovelas. Teresa não se preocupava com Joana. Deus também não. Havia um operador que desenhara há muito um percurso razoável para Joana. Deus estava satisfeito. Por ora, ela cantava e seguia a sua rota no mundo com uma segurança invejável. Não tinha más recordações. Ou, se as tinha, estavam guardadas num baú escondido, como os baús dos soldados de outras guerras.
Teresa concentrava as suas energias na mãe e no combate à tristeza.  Acreditava que a existência da tristeza era um oleado não iluminado que podia alastrar como uma doença terminal. Deus sabia que uma tristeza era capaz de abafar tudo o resto; um vírus feroz e aceite socialmente com uma facilidade assustadora. Teresa passou a saber também. As amigas perguntavam muitas vezes

Tu não choras? Não ficas triste, Teresa?

Para quê? De que serve a tristeza se posso rir até chorar?

Nos dias bons, Teresa levava a mãe a passear à beira mar, um dos passeio de eleição de Deus. Ficavam a ver os outros, a vida dos outros. Como naquele dia em que dois homens, calados há já um tempo, olhavam o mar e elas decidiram ficar a medir a extensão da felicidade que transbordava deles.  Teresa acreditou que, naquele preciso momento, o universo se tinha desligado. Estava suspenso. De certa forma, era verdade, porque Deus tinha-se esquecido dos seus múltiplos deveres e estava há horas dedicado à Teresa e à mãe. Nada mais o comovia. O que importava - tudo o que importava - concentrava-se na visão do mar e no barulho crescente dos risos e mergulhos, ondas que se confundiam com corpos, mãos e pés que surgiam, improvisos, peixes-crianças que se mexiam numa dança sem coreografia. “A praia deserta, zumbir na areia, concha de mel”, o vento cantarolando um clássico brasileiro para que não existissem surpresas. A mãe a acompanhar, cantando baixinho, coisas de meninice. E os dois homens,  junto à margem, olhando em silêncio os oito miúdos que, dentro de água, atiravam os corpos para as profundezas, peixes-crianças que são a glória do fim de Verão. Com um sorriso ligeiro os  homens comentaram, por fim, as brincadeiras aquáticas, talvez recordando tempos preciosos em que também tinham sido assim, tal e qual assim. De súbito, os corpos dos miúdos transformaram-se em voadores e saltavam com energia, num impulso mais forte vindo de dentro de uma gargalhada interrompida pelo rebentar da água. Deus, Teresa e a mãe, mudos, observavam com encanto o fascínio dos homens, as brincadeiras dos filhos dentro do mar bondoso. Os cabelos molhados das crianças exibiam algumas algas e o jogo do atira-vê-se-ficas-com-cabelos-verdes era uma constante. Os homens romperam o silêncio.
 
Daqui a pouco estaremos sozinhos.

Sim. Eles terão outros programas.

Estaremos  mais sossegados.

E cheios de saudades.

A mãe apertou o braço da filha e sussurrando, vaticinou

Só se tem saudades de quem se gosta.

Os dois homens ficaram a ver as crianças e Teresa pegou na mão da mãe, tirou o chapéu de palha e desafiou-a a procurar conchas perfeitas, milagres do Atlântico que se espalhavam no início do areal, onde o mar ainda vem fazer das suas. Alegrava-se com o amor dos pais pelos filhos, sem nunca pensar no seu próprio pai. O amor daqueles homens reconfortava-a nas coisas da sua vida antes de ter decidido ser feliz. Andaram durante muito tempo, os pés a imprimir a areia, a água a escapar-se até aos joelhos num assomo de força. Quando o céu ficou cor-de-rosa e laranja, a mãe deixou escapar uma lágrima. Teresa estacou

Estás triste?

Não, Teresa, estou contente. O céu está lindo, tão lindo e eu acho que nunca o tinha visto assim.

Então por que choras?

Por alegria. Ou por melancolia. Mas não por tristeza, não penses.

Teresa considerou o seu plano de felicidade e como era frágil essa perseguição quase nefasta e inútil. Deus seguiu-lhe os pensamentos. Tudo no mundo parecia mostrar que seria mais simples inverter as ideias, seguir as pisadas dos demais. Dizer mal. Acumular queixas em camadas sucessivas. Desprezar os tons únicos do céu, as estrelas a piscar, as gargalhadas dos miúdos e outras coisas. Sentiu-se pequena. Deus, por seu turno, sentiu uma dor ligeira no braço esquerdo.

Estou a obrigar-te a ser feliz, mãe?

Não, Teresa, estás a fazer com que eu tenha uma vida, estás a fazer com que mais tarde possa dizer que vivi.

E achas que isso é a felicidade?

Não pode ser outra coisa, pois não?

Deus sorriu. Um dos operadores mais novos fez-lhe sinal. Estava com problemas, havia questões prementes a resolver. Levantou-se do seu lugar sem grande vontade. Hoje estava satisfeito Consigo. Amanhã seria outro dia.

Islantilla, 6 de Setembro de 2009
 

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Respect

por Patrícia Reis, em 27.07.13

 

O senhor doutor entende-me, não é verdade?

Ah, eu espero que sim.

Olhe que nunca pensei em ter de recorrer a estas coisas da psicanálise e da terapia, mas uma colega convenceu-me e a minha angústia é tão grande que achei melhor marcar uma consulta com urgência. A sua assistente foi de uma delicadeza sem fim, percebeu logo o desespero na minha voz, até me disse de que nada valia estar assim, que vou morrer e que preciso de canalizar as minhas energias para coisas positivas. Mal sabe ela, a sua assistente, o que eu faço para pagar as contas.

Há mais de vinte anos que escrevo sobre mortos. Não fique tão admirado. É um trabalho honesto. É, para ser sincero, a minha especialidade. Nos dias que correm já não escrevo sobre nada a não ser sobre os mortos.

Se o senhor doutor me disser um nome de um morto, pois decerto que escrevi o obituário e, posso dizer com certo orgulho, tenho livros publicados, sempre correctos, sem margens de risco para a difamação ou eventuais processos judiciais. Escrevi sobre quase todas as personagens importantes da nossa História.

As pessoas confiam em mim, sabe? As famílias. E contam tudo o que podem. Mostram os objectos, as cartas, os guarda roupas, as coisas mais íntimas. Muitas vezes, sou eu que faço censura. Claro que o editor não sonha que tenho informações sobre as quais não escrevo uma linha, mas que sabe um editor? Actualmente? Sabe pouco.

O que me custa mais, senhor doutor, é o arrivismo extremo da juventude que ainda não percebeu que a morte é algo respeitável e que lhes irá acontecer, mesmo que tenham um automóvel de marca ou uma namorada nova a cada quinze dias. Nada disso tem importância.

O que acontece, senhor doutor, é que é muito diferente escrever sobre os mortos, muitas vezes no próprio dia da morte, sob pressão, com os olhos de todos em cima de mim, todos à espera do meu texto. Muito mais fácil do que escrever sobre os vivos. Aqueles que irão morrer.

Pois, a minha ansiedade deriva desta lista que aqui tenho. Veja só o senhor o que me incumbiram de fazer até finais do mês de Junho. Estiveram fechados numa sala a ver quem tem mais probabilidades de morrer e depois, com um enorme desplante, entregaram-me a lista dizendo que deveria ser um alívio ter tempo para escrever sobre um putativo morto.

Não, não estou a brincar, o editor disse “putativo”. Não é uma palavra da minha eleição, mas... enfim, nem todos somos versados no melhor português e morte com palavras destas não andam bem de mão dada.  Mesmo que isto pareça um cliché, terá de me perdoar, mas estou deveras perturbado. À cabeça da lista, como pode ler, está o nome dela.

Ora, foi ao ler o nome dela que eu entrei neste frenesim. Eu posso fazer os obituários que quiserem, de políticos a estrelas de cinema, mas da Aretha Franklin? Sabe quantas vezes eu canto “the moment I wake up...”... Todos os dias, senhor doutor, todos os dias.

Só seria mais dramático se o nome fosse o da Barbra Streisand, confesso.  Sim, sim, todos temos os nossos fétiches, os nossos sonhos e momentos de euforia pessoal. Comigo são estas duas e, senhor doutor, não consigo. Simplesmente não consigo escrever a história de Aretha.

Não sei se está a par. Não tem tido uma vida fácil, agora está semi-retirada. Há três anos ainda a vi em Nova Orleães, comprei o bilhete on-line, estava cheio de medo que as coisas não corressem de feição, no entanto na hora lá estava eu e ela a cantar como mais ninguém. Trazia um vestido com as mangas rendadas. Eu sei que há homens que preferem as mulheres esqueléticas, cadavéricas. Aretha, para cantar como canta, preciso de ter peso, de ter caixa. Como as cantoras de ópera, de certa forma.

A revista Rolling Stone escreveu, há uns anos, que é a melhor cantora de todos os tempos. Eu subscrevo. Gosto especialmente de a ouvir cantar o que começou por ser o seu chão, o gospel. É uma forma de conversar com Deus e, quando a ouvimos, Ele fica mais próximo e acreditamos, mesmo quando não somos crentes.

Em Memphis, onde ela nasceu, pois o gospel era obrigatório e Aretha não tardou a ser solista. Daqui até à fama foi um salto. O Estado de Michigan declarou a voz desta deusa como uma das maravilhas naturais. É a rainha da soul, a rainha do gospel, a rainha. Olhe, é tão importante, que é a primeira mulher a ter conseguido chegar ao Rock & Roll Hall of Fame. Tem dezoito grammies. E mais uma série de prémios que não vale a pena enumerar. Está a olhar para mim um pouco alarmado? Cristo! Não sabe quem é Aretha?

Espere lá... Gosta de George Michael, aquele rapaz que é constantemente apanhado em casas de banho a assediar outros rapazes? Pronto. Aí tem: Aretha gravou com ele o “I knew you were waiting for me”. Não está a ver? Certo. Deixe ver se eu consigo cantar um bocadinho...

 

Like a warrior that fights
And wins the battle
I know the taste of victory
Though i went through some nights
Consumed by the shadows
I was crippled emotionally
Somehow i made it through the heartache
Yes i did. I escaped.
I found my way out of the darkness
I kept my faith (i know you did), kept my faith

When the river was deep i didn't falter
When the mountain was high i still believed
When the valley was !ow it didn't stop me, no no
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

With an endless desire i kept on searching
Sure in time our eyes would meet
Like the bridge is on fire
The hurt is over, one touch and you set me free
I don't regret a single moment, no i don't looking hack
When i think of all those disappointments
I just laugh (i know you do), i just laugh

When the river was deep i didn't fairer
When the mountain was high i still believed
When the valley was low it didn't stop me
I knew you were waiting. I knew you were waiting for me

So we were drawn together through destiny
I know this love we snared was meant to be
I knew you were waiting, knew you were waiting
I knew you were waiting , knew you were waiting for me

 

Acha mesmo que tenho boa voz? Já a minha mãe, Deus a guarde, dizia o mesmo. Eu dediquei-me a esta coisa da escrita e fiquei por aqui. Não é uma escrita qualquer, está a ver? Escrever sobre os mortos é importante e a fronteira entre a elegância e o macabro pode ser ténue. Não imagina o que eu passei para escrever o obituário da Withney Houston. Coitadinha. Estava disposta a recompor a sua vida... Era sobrinha da Dionne Warwick.

Outra que está aí na lista e eu não consigo, não consigo, garanto, escrever uma linha sobre as pessoas como se elas já tivessem ido. É de mau gosto.

Se me pedirem para escrever sobre a Maryln Monroe? Faço as páginas que me pedirem, acho que sei mais da loira burra, que não tinha nada de burra, que muita gente. Há uma série de televisão muito interessante, está a passar agora. Já viu? Chama-se Smash. A ideia é fazerem um musical com base na vida de Maryln. Estou ali a ver, na sala com a Mimi, a minha gata, e fico com os nervos em franja só com os disparates que dizem sobre a senhora.

Com Aretha, tenho de ser honesto, nem sei por onde começar e, depois de a ter visto cantar, acho que preferia que outro colega lhe escrevesse o obituário. Sim, não fique aí a pensar que sou só eu a escrever sobre os mortos. São sete cães a um osso. E nos dias de hoje, a competição é ainda mais estranha. Eu tenho um certo estatuto e tal, talvez por isso me tenham dado a lista. Como é que lhes vou dizer que posso escrever sobre todos menos sobre a Aretha?

O senhor doutor, diga-me, que comprimido é que devo tomar?

 

 

 (este texto faz parte da colecção Divas, colecção que tem saído às sexta-feiras com o DN e JN, sempre com CD e um texto de Ruy Vieira Nery a acompanhar)

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