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O insuperável sectarismo do PCP

por Pedro Correia, em 30.11.17

Nunca cessarei de me espantar com o sectarismo do PCP, incapaz de reconhecer mérito aos empresários, que considera seus "inimigos de classe", em obediência cega e rígida aos sacrossantos mandamentos leninistas. Mesmo a um empresário como Belmiro de Azevedo, que nunca integrou as famílias do dinheiro antigo nem o capitalismo especulativo e parasitário.

Self made man, oriundo de uma região pobre, Belmiro foi o mais representativo empreendedor privado português em democracia. Desenvolveu um grupo económico que se tornou no maior empregador nacional, apenas superado neste aspecto pelo próprio Estado, garantindo mais de cem mil postos de trabalho num país onde o desemprego é ainda o drama social mais premente. Criou riqueza, exerceu o mecenato (na Casa da Música, por exemplo) e fomentou a cidadania ao fundar em 1989 um jornal de inegável prestígio, o Público, de onde nunca colheu um cêntimo de lucro.

Concordássemos ou não com as ideias do líder histórico da Sonae, agora falecido, a sua memória merece respeito, como ficou assinalado num voto de pesar aprovado pela larga maioria dos deputados na Assembleia da República. Um voto que apenas contou com a oposição declarada dos comunistas: na sua fanática intolerância, o PCP ainda imagina que Portugal ficará melhor sem homens como Belmiro de Azevedo - emblema da iniciativa privada numa sociedade tão carente de investimento produtivo.

Estes serôdios discípulos de Lenine estão redondamente enganados. E cada vez mais acantonados numa ideologia sem sentido. Um mundo sem empresários é fatalmente um mundo sem horizontes. Mais estreito, mais pobre e menos livre.

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Cem anos de mentiras

por Pedro Correia, em 14.11.17

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«Foi a União Soviética que, na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos a besta nazi-fascista e os seus exércitos, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota.»

Esta foi a tese propalada no passado dia 7, em que se assinalou o centenário da chamada Revolução de Outubro, pelo secretário-geral do PCP no Diário de Notícias. Tese repetida ipsis verbis dois dias depois no editorial do semanário Avante!, órgão central dos comunistas: «Foi a União Soviética que na Segunda Guerra Mundial, enfrentando sozinha durante três anos, os exércitos nazi-fascistas, deu um contributo determinante e decisivo para a sua derrota e para a profunda alteração da correlação de forças internacional, dando origem a uma nova ordem mundial, que inscreveu na Carta da ONU o respeito pela soberania dos povos, o desarmamento, a solução pacífica e negociada de conflitos entre estados e abrindo caminho a grandes avanços sociais e de libertação nacional.»

 

Assumidas como evidência histórica, estas palavras constituem uma homenagem explícita a Estaline, que comandava com mão de ferro a URSS na II Guerra Mundial e no ano da fundação da ONU, embrião de "uma nova ordem mundial" (há quem prefira chamar-lhe Guerra Fria). Tais ditirambos têm, no entanto, o inconveniente de partirem de uma premissa errada. São mentiras, enunciadas como verdades no espaço mediático.

A mentira, aliás, é uma componente essencial do projecto leninista, que o PCP assume como elemento estrutural do seu pensamento político.

 

A URSS e os seus filhotes ideológicos (PCP incluído) fizeram tudo, durante dois anos, para sabotar o esforço de guerra, nomeadamente nas fábricas de armamento. Não apenas na Europa, deixando o Reino Unido então liderado por Winston Churchill isolado no combate aos sanguinários esquadrões nazis, mas nos próprios EUA, em que os simpatizantes e militantes comunistas foram isolacionistas até 22 de Junho de 1941, quando Adolf Hitler accionou a Operação Barbarossa, invadindo território soviético.

Durante dois anos, portanto desde o Verão de 1939, os diversos partidos comunistas tinham funcionado como "pregoeiros da paz", entoando insistentes loas à neutralidade face ao Eixo nazi-fascista. Chegando-se ao ponto de, na França ocupada pelas divisões hitlerianas, o Partido Comunista ter pedido autorização formal à tropa ocupante para continuar a publicar o seu jornal, L' Humanité, na mais estrita legalidade.

No Portugal salazarista, oficialmente neutral, o próprio Álvaro Cunhal escreveu um célebre artigo, publicado em Março de 1940 no jornal O Diabo, intitulado "Nem Maginot nem Siegfried", advogando a equidistância entre verdugos e vítimas. «Haverá alguma diferença entre a Alemanha do sr. Hitler e a França do sr. Daladier ou mesmo a Inglaterra do sr. Chamberlain?», questionava o futuro líder do PCP nessa prosa.
É um artigo infame, redigido seis meses depois da invasão e anexação violenta da Polónia. Um artigo que devia cobrir de vergonha os comunistas portugueses.

 

Nunca a URSS estalinista esteve isolada "durante três anos" no combate a Hitler e Mussolini. Pelo contrário, o pacto germano-soviético forneceu uma espécie de livre-trânsito às hostes nazis para ocuparem mais de metade da Europa entre 1939 e 1941.

Isolado, sim, esteve o Reino Unido, até ao segundo semestre de 1941 - e sobretudo até à entrada dos EUA na guerra, logo após o bombardeamento de Pearl Harbor pelos japoneses, aliados de Hitler, e à declaração de guerra de Berlim a Washington, a 11 de Dezembro desse ano.

Diga o PCP o que disser, tentando distorcer o sucedido, "os factos são teimosos". Nisto tinha Lenine muita razão.

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Leninismo: um vírus totalitário

por Pedro Correia, em 10.11.17

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Há cem anos, Lenine fundou um dos mais tenebrosos regimes políticos de todos os tempos. Um regime que nasceu da mentira, alimentou-se do terror e mergulhou a Rússia em décadas de opressão.

Um século depois, desfeitos todos os mitos, dissipadas todas as dúvidas, há quem permaneça cego perante esta clamorosa evidência: o comunismo nunca foi a força libertadora que anunciara aos povos nem inaugurou uma página redentora na história da humanidade. Pelo contrário, trouxe novas guerras em prolongamento directo das anteriores - tão velhas como o mundo. Impôs antigas grilhetas em novos escravos. Impulsionou os cavalos do apocalipse, guiados pela máxima de Estaline, o mais pérfido discípulo de Maquiavel: "O homem é o problema. A morte resolve todos os problemas."

Resta, portanto, um último equívoco ainda por esclarecer em definitivo junto de alguns espíritos: o da origem do mal. Alguns persistem em encarar com benevolência o leninismo – pouco mais do que uma técnica de conquista do poder por via insurrecional – enquanto reservam as críticas aos seus derivados de diversos matizes: o estalinismo, o trotskismo e o maoísmo. Supostas perversões do sistema.

 

Acontece que o regime de terror começa com Lenine, nos dias iniciais da chamada Revolução de Outubro de 1917 – que foi um golpe de Estado clássico – e sem camuflagens de qualquer espécie. Basta ler as primeiras proclamações bolchevistas logo após a conquista de Petrogrado. Está lá tudo: o tom intimidatório, os pontos de exclamação sem permitirem contraditório, a linguagem bélica com a meticulosa utilização de verbos como “esmagar” e “liquidar”.

E a mentira, sempre a mentira como senha de identidade de um regime que prometia a paz e trouxe a guerra, que prometia o pão e trouxe a fome, que prometia a liberdade e trouxe uma tirania ainda mais implacável e cruel do que a da dinastia Romanov, derrubada oito meses antes num levantamento popular que instaurou em solo russo uma frágil democracia, cedo varrida pelos batalhões bolchevistas que mandavam dar “todo o poder aos sovietes”.

De tudo isto nos fala Manuel S. Fonseca nesta sua Revolução de Outubro, que nos transporta aos dias fundacionais do “socialismo real”, etapa após etapa, em minuciosa cronologia que acompanha o percurso biográfico de Vladímir Ilítch Uliánov – o verdadeiro nome de Lenine (1870-1924) – desde os primórdios na região do Volga natal até à morte em Gorki, quando já a doença o retirara da vida pública, passando pelo seu atroador percurso como senhor absoluto do Kremlin onde fora entronizado como czar vermelho entre manifestações de indecorosa idolatria que já prefiguravam o culto da personalidade com dimensões demenciais no subsequente reinado de Estaline, herdeiro ungido.

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Manuel Fonseca, editor e um dos melhores colunistas da imprensa portuguesa (imperdíveis, as suas crónicas de sábado em cada edição do Expresso), militou num sector da esquerda extrema nos dias da juventude mas revisita hoje os primórdios da autocracia soviética sem qualquer traço de complacência perante o regime que em Outubro de 1917 “pôs fim ao pluralismo da esquerda e à extraordinária democracia participativa que a Revolução de Fevereiro criou na Rússia”. Porque estava contaminada pelo “vírus totalitário”, autêntico pecado original.

O autor chega ao ponto de se interrogar nesta obra valorizada pelo excelente grafismo e muito enriquecida com dezenas de fotografias centenárias: “E se a vitória bolchevique foi, afinal, a vitória da contra-revolução, esse lobo contra o qual os revolucionários tanto gritaram ao longo de 1917?”

A formulação desta pergunta já contém implícita a resposta, fornecida parágrafos adiante com a lucidez de alguém incapaz de ficar indiferente às lições da História: “Em vez de ser, como Lenine anunciara em O Estado e a Revolução, a pátria do controlo operário da produção e da autogestão, uma pátria sem polícia, exército ou Estado, a Rússia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi, depois de Outubro e por quase meio século, com Estaline, o palco de uma carnificina insensata, aleatória e psicótica. O exercício do poder de Lenine e dos bolcheviques gerou uma das grandes catástrofes do século XX, substituindo a revolução pelo gulag.” 

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Revolução de Outubro, de Manuel S. Fonseca (Guerra & Paz, 2017). 159 páginas.
Classificação: ****

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Os órfãos de Estaline no PCP

por Pedro Correia, em 07.11.17

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Imaginemos que um dirigente de um partido português elogiava Hitler: seria justamente vergastado no tribunal da opinião pública. E o que sucede quando um dirigente de um partido português elogia Estaline, "talvez o maior torcionário da história universal", como hoje o classifica Viriato Soromenho-Marques no Diário de Notícias?

Nada. Não acontece nada.

 

Na edição de domingo do mesmo jornal, um histórico membro da nomenclatura do PCP, Albano Nunes, afirma em entrevista que  "Estaline não tem só aspectos negativos, tem aspectos positivos".

Vale a pena assinalar: quem assim fala é alguém que esteve 42 anos no Comité Central, entre 1974 e Dezembro de 2016, e permaneceu 28 anos consecutivos no Secretariado, órgão de condução efectiva dos destinos do partido, tendo assumido durante décadas a responsabilidade máxima pela secção internacional dos comunistas portugueses.

Albano Nunes diz em voz alta aquilo que a maioria dos dirigentes do PCP pensa a respeito do tirano que conduziu à morte pelo menos 20 milhões de pessoas e aperfeiçoou os mecanismos de terror lançados na vasta Rússia por Lenine, faz hoje cem anos. Instaurando a censura, interditando o pluralismo político, subjugando as mais ínfimas células sociais à bota totalitária do Estado, asfixiando metade da Europa sob o domínio militar de Moscovo, condenando populações inteiras à fome e transformando o país num imenso campo de concentração onde os detidos eram despojados de todos os direitos cívicos e de toda a dignidade humana.

 

O mesmo olhar comovido e complacente pela chamada Revolução Soviética e pelo seu inesgotável cortejo de crimes surge esta manhã, ainda no DN, pela pena do secretário-geral do PCP. Sem um assomo de dúvida ou sobressalto, Jerónimo de Sousa derrama-se em elogios pelo "acontecimento maior da história da humanidade, que inaugurou uma nova época", "lançou as bases de um nova sociedade sem a exploração do homem pelo homem" e possibilitou "a instauração de um verdadeiro e genuíno poder popular".

O líder comunista chega ao ponto de distorcer clamorosas evidências históricas, ao anotar que "no final da década de 80 a URSS encontrava-se na vanguarda em diversas tecnologias, possuía um terço do total de médicos do mundo e a mais baixa taxa de mortalidade do planeta", e ao enaltecer a defunta União Soviética - então sob o mando férreo de Estaline - por ter "enfrentado sozinha durante três anos a besta nazi-fascista e os seus exércitos".

Jerónimo confunde a Rússia com o Reino Unido, que - esse sim, sob o comando de Churchill - combateu as legiões nazis enquanto o déspota do Kremlin assinava o pacto de não-agressão germano-soviético que lhe permitiu partilhar com a Alemanha os despojos da Polónia, garantindo dois anos de amabilidades diplomáticas trocadas com Berlim, entre Agosto de 1939 e Junho de 1941.

 

Leio estas referências dos órfãos ideológicos de Estaline e uma vez mais me interrogo o que pensarão disto alguns destacados militantes do PCP que conheço e respeito. Pessoas como o deputado António Filipe, o ex-deputado Honório Novo, o ex-líder parlamentar Octávio Teixeira, o escritor Manuel Gusmão ou o antigo secretário-geral Carlos Carvalhas.

Estarão confortáveis com esta persistente apologia de um regime criminoso celebrado como libertador pelo partido a que pertencem? Não sentirão pelo menos um vago incómodo ao detectarem o fantasma de Estaline vogando entre as paredes opacas da Soeiro Pereira Gomes?

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Lenine, o protótipo do ditador do século XX, tinha autores e compositores favoritos mas era um materialista demasiado rigoroso para se preocupar muito com a arte. Tinha pouca paciência para a avant-garde e uma vez irritou-se quando futuristas pintaram as árvores dos jardins Aleksandrovsky com as cores do Primeiro de Maio. Considerava a música um placebo burguês que escondia os sofrimentos da humanidade. Em conversa com Maxim Gorky, elogiou o poder de Beethoven, mas acrescentou: «Não posso ouvir música com muita frequência. Afecta os nervos, faz sentir vontade de dizer coisas estupidamente simpáticas e de afagar a cabeça das pessoas que conseguiram criar tamanha beleza, mesmo vivendo neste inferno.»

Alex Ross, The Rest is Noise: Listening to the Twentieth Century.

Edição Picador. Tradução minha.

 

(E agora dêem-me licença; vou assistir aos concertos das Noites Ritual, nos jardins do Palácio de Cristal.)

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Assinalar a efeméride

por Rui Rocha, em 06.03.16

Mapa comemorativo do 95º aniversário do Partido Comunista Português que hoje se celebra. A verde assinalam-se os países em que um regime comunista não coincidiu com uma ditadura.

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No seu esforço para reconstruir a economia, os bolcheviques regressaram aos princípios do capitalismo. Depois de uma concessão fundamental e ideologicamente difícil, a aceitação da propriedade privada, mostraram grande flexibilidade e dispuseram-se a empregar métodos heterodoxos para tornar possível a recuperação nacional. Lenine, que tinha grandes esperanças de atrair capital estrangeiro oferecendo concessões, foi ainda mais longe do que alguns líderes Brancos, como por exemplo o general Denikin, ao prometer aos estrangeiros a possibilidade de exploração sem limites dos recursos naturais do país. O jovem Estado soviético, contudo, teve pouco êxito em atrair investimento estrangeiro. Dadas as condições económicas existentes e a desconfiança compreensível dos capitalistas, não é de admirar que apenas um montante insignificante de capital tivesse entrado no país.

(…)

A recuperação era muitas vezes travada por «engarrafamentos»: a indústria não podia funcionar sem um sistema de transportes operacional, e os comboios, por sua vez, não podiam funcionar sem combustível. Nessas circunstâncias, o governo tinha de concentrar os seus escassos recursos em zonas fundamentais. A prioridade era a produção de carvão - os mineiros da bacia de Donets e outros lugares receberam alimentação suplementar para que pudessem desempenhar melhor o seu trabalho pesado. A Rússia soviética usou a sua pequena provisão de moeda convertível para comprar locomotivas e material circulante no estrangeiro. Estas medidas necessárias tinham contudo um preço elevado: fornecer melhor alimentação a um grupo só podia ser feito à custa de outros. Economizar com recursos e capital escassos conduziu ao encerramento de muitas fábricas ineficientes.

(...)

Um importante passo para a normalização foi a estabilização da moeda. O governo soviético não era inteiramente responsável pela hiperinflação, tão grave como a alemã, mais conhecida. A depreciação da moeda começou quando o governo imperial decidiu cobrir as despesas de guerra mandando imprimir mais dinheiro; a revolução e a guerra civil agravaram o problema. No seu ponto mais baixo, o país esteve prestes a regressar à economia de troca de géneros; o papel-moeda perdera todo o seu valor. Para salvar a situação, o governo teve de elaborar orçamentos equilibrados e recuperar o sistema bancário. Entre 1922 e 1924 conseguiu, em várias etapas, criar uma moeda estável baseada no ouro.

Após os primeiros dois ou três anos do novo sistema económico, o governo tinha motivos para estar satisfeito com os resultados. A vida começava gradualmente a regressar ao normal. A iniciativa privada dominava a economia, produzindo mais de 50% do rendimento nacional.

(…)

A revolução e as suas consequências imediatas produziram um grande nivelamento social. Com o novo sistema económico, porém, voltou a surgir a diferenciação.

Peter Kenez, História da União Soviética. Edições 70 (2007), pp. 84-87. Tradução de Jaime Araújo.

 

Evidentemente, a diferenciação era inaceitável. Antes a indigência colectiva (ou quase colectiva: elite partidária e burocracia - na prática, sinónimos - viviam bem) que, por razões ideológicas e de consolidação do poder, Estaline trataria de impor a partir do final da década de 1920.

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A política e a economia encontravam-se profundamente ligadas. A crise de confiança provocada pela revolta de Kronstadt contribuiu sem dúvida para a aceitação relativamente fácil pelo congresso de importantes cedências económicas. O cerne da mudança foi a abolição das requisições e a sua substituição por um imposto em géneros. Este imposto permaneceu em vigor até 1924, quando, em resultado da estabilização da moeda, foi substituído por um imposto em dinheiro. A medida parece bastante simples, mas as suas consequências foram importantes. Significava que os camponeses podiam vender os seus excedentes, e implicava a legalização do comércio e dos comerciantes, grupo social contra o qual os bolcheviques sentiam grande animosidade. Lenine, em particular, temia a influência corruptora do pequeno comerciante mais ainda do que a do capitalista. Não admira pois que os bolcheviques tivessem aprovado as reformas com grandes reservas e receios. No entanto, a crise era tão grave que não tinham outra alternativa.

A substituição da requisição por um imposto foi acompanhada de outras reformas que desmantelaram o sistema económico do comunismo de guerra e introduziram uma nova ordem. Em Maio de 1921, o governo revogou a lei que nacionalizara todos os ramos da indústria. O sistema económico que sucedeu ao comunismo de guerra pode ser descrito como uma economia mista. Os particulares tinham autorização para constituir pequenas empresas ou tomá-las de arrendamento ao Estado. O governo, porém, continuava a controlar o que se chamava na altura os «altos comandos», isto é, as altas empresas, a indústria mineira, a banca e o comércio externo.

Em última análise, a NEP tornou possível a reconstrução. Contudo, a maior liberalização não podia acabar imediatamente com a crise. Em 1920 e 1921 algumas das regiões mais férteis do país foram atingidas pela seca. O desastre natural e a desordem artificial conduziram à fome generalizada, sobretudo na região do Volga. Milhões de pessoas morreram de fome e outros milhões correram grandes riscos. Debilitadas pela fome, as pessoas sucumbiram às epidemias. Mais pessoas morreram nestes anos terríveis do que na Primeira Guerra Mundial, na revolução e na guerra civil. Sem a assistência em grande escala organizada pelos Americanos, muitos mais teriam morrido.

Os bolcheviques debateram-se com constantes faltas de alimentos e de combustíveis. O regresso a princípios de economia mais ou menos ortodoxos foi difícil, e a recuperação penosamente lenta. Para poupar dinheiro o governo foi obrigado a cancelar vários projectos que havia fomentado por razões ideológicas. Sob a economia de guerra, as fábricas tinham funcionado sem olhar a custos, mas agora as empresas do governo tinham de fazer lucro. Num esforço para estabilizar a moeda, foi introduzido o cálculo do custo de produção, o que entre outras coisas implicava despedir trabalhadores.

Peter Kenez, História da União Soviética. Edições 70 (2007), pp. 71 e 72. Tradução de Jaime Araújo.

 

Evidentemente, «austeridade» é exagero meu. Todos sabemos que tal coisa resulta sempre de (ilógica) opção ideológica, jamais de necessidade.

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Depois de vário comentadores do Delito colocarem nas caixas de comentários as suas certezas sobre a equiparação do comunismo ao nazismo/fascismo, José António Abreu também o fez aqui. De uma forma serena e sem ser preciso um tratado diria que, para comparar, nos devemos entender sobre o terreno da comparação.
Se optarmos por fazer a comparação pelo número de mortes causados, suponho que o capitalismo também entrará a jogo e vencerá de uma forma avassaladora, por isso não pode ser. Se o fizermos pelas suas expressões práticas e qualidades das respectivas democracias - recordando que nenhum país no mundo alguma vez se declarou como um estado comunista - também creio que é de difícil comparação até porque nenhum estado nazi/fascista pretendeu ter práticas democráticas e, mais uma vez, temos de colocar na equação muitos estados-exemplo das práticas do capitalismo. 
Assim sendo, creio que o único campo em que podemos colocar esta comparação é do ponto de vista teórico-ideológico. Nesse campo, o nazismo/fascismo é uma ideologia que não perfilha a libertação do homem, mas a vitória perante outros. Mais, o comunismo foi, ao longo da história, quem mais combateu (e continua a combater) o nazismo/fascismo para que pessoas como eu ou o José António Abreu possamos, em liberdade, escrever no mesmo blogue o que bem entendermos.

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Sorrisos de comunista

por José António Abreu, em 16.11.15

Confesso uma incapacidade antiga, que poderei talvez exprimir usando o primeiro texto publicado neste blogue por Tiago Mota Saraiva (intitulado, sem ponta de ironia, «aprender, aprender sempre»). Nele, Tiago declarou-se comunista. Afirmou depois, em resposta a um comentador segundo o qual agora só falta um nazi ao grupo de colaboradores do Delito, gostar de uma boa gargalhada mas o nazismo não lhe provocar sequer um sorriso. Entendo e partilho a segunda posição. Considerando a falta de liberdade, as perseguições políticas, os milhões de mortos do comunismo, não entendo a primeira – nem como compatibilizar ambas.

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Um gigantesco passo à retaguarda

por Pedro Correia, em 07.11.15

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A insurreição marxista-leninista de 7 de Novembro de 1917 - faz hoje 98 anos - deu início à União Soviética, o Estado totalitário de mais longa duração do século XX, que só implodiu a 31 de Dezembro de 1991, e a um regime político que viria a ser exportado para toda a Europa Oriental, responsável pela tortura e morte de largos milhões de seres humanos.

Foi um regime sanguinário, como ninguém com um mínimo de seriedade intelectual ignora. Mesmo assim ainda surgem defensores ocasionais do totalitarismo soviético, como ficou evidente na última edição do Avante!

Decorridas estas décadas, o jornal oficial do PCP persiste em omitir todo o rasto criminoso da URSS, celebrando o "exaltante exemplo" da tirania comunista e as "conquistas alcançadas" pelos czares vermelhos que esmagaram durante décadas os direitos mais elementares, não só no interior das fronteiras soviéticas como nos países vizinhos que tutelavam com blindados e baionetas, ao abrigo da doutrina da "soberania limitada". 

 

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Para assinalar a efeméride, deixo aqui o registo de algumas "conquistas alcançadas" pela chamada Revolução de Outubro:

- Terror Vermelho (1918-1922), promovido pela Tcheca, a brutal polícia política criada pela "ditadura do proletariado" leninista. Entre 50 mil e 140 mil vítimas mortais comprovadas (havendo historiadores que admitem a existência de meio milhão de mortos) neste período.
- Colectivização forçada de propriedades (1928-1940), que incluiu deportações gigantescas de populações rurais e fez a produção agrícola e pecuária regredir três décadas. Cerca de 25 milhões de pessoas foram desalojadas, metade das quais morreram.
- Genocídio ucraniano (1932-1933). Campanha desencadeada por Estaline para esmagar a resistência nacionalista na Ucrânia. Mais de cinco mil intelectuais foram assassinados ou deportados para a Sibéria. A esmagadora maioria da população rural, que viu terrenos e animais confiscados, foi condenada à fome. Objectivo: "eliminar inimigos de classe" através da colectivização forçada. Estimativa do número de mortos: 14 milhões.
- Grande Purga (1936-38). Durante este período, a polícia política deteve 1,548.366 pessoas - das quais 681.692 foram executadas. Média de mil execuções por dia (dados oficiais soviéticos), a partir de confissões obtidas através de tortura. Grande parte da elite dirigente, tanto ao nível do partido único como das forças armadas, foi dizimada neste período, ao abrigo do artigo 58º do Código Penal soviético, sobre "crimes contra-revolucionários".
- Gulag, os campos de concentração criados pelo estalinismo (1928-1953). Pelo menos 14 milhões de pessoas estiveram internadas neste vasto arquipélago prisional durante o quarto de século que assinalou o apogeu do terror estalinista. Pelo menos 1,6 milhões - vítimas de fome, doença e tortura - morreram nestes campos.
- Massacre de Katyn (Maio de 1940). Quase cinco mil oficiais polacos foram assassinados pelos soviéticos no período em que Moscovo se aliara à Alemanha de Hitler para a partilha da Polónia. Os oficiais, que eram prisioneiros de guerra, foram assassinados com tiros na nuca e enterrados na floresta de Katyn. Só após a queda do comunismo Moscovo admitiu a existência deste massacre.

 

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De resto, os próprios comunistas foram os primeiros a experimentar as delícias do "socialismo real" - começando por Trotsky, herói da revolução de 1917, assassinado em Agosto de 1940 por um agente estalinista no México.
Dos 1966 delegados ao Congresso do PCUS de 1934, 1108 foram presos e em larga parte executados nas vastas purgas que culminaram nos Processos de Moscovo (1936-38). O mesmo sucedeu a 98 dos 139 membros do Comité Central.
Estaline mandou executar, nesses anos negros, 5 mil oficiais com patente acima de major, 13 dos 15 generais de cinco estrelas e três dos cinco marechais do Exército Vermelho.
No total, cerca de dois terços dos quadros do PCUS foram liquidados pelo terror estalinista. Incluindo algumas das maiores figuras de referência do regime comunista.
Menciono apenas algumas:
- Lev Kamenev. Figura cimeira da revolução de 1917, presidente do Comité de Moscovo e vice-presidente soviético (segunda figura do regime, após Lenine). Executado em Agosto de 1936.
- Grígori Zinoviev. Um dos sete membros originais da Comissão Política do PCUS em 1917. Responsável pela defesa de Petrogrado na guerra civil, presidente da Internacional Comunista (1919-1926). Executado em Agosto de 1936.
- Nikolai Muralov. Um dos mais destacados combatentes da revolução, herói da guerra civil, comandante militar de Moscovo, inspector-geral do Exército Vermelho. Executado em 1937.
- Nikolai Bukarine. Jornalista, um dos colaboradores mais próximos de Lenine, organizador do levantamento bolchevista em Moscovo, criador da Nova Política Económica leninista, redactor-chefe do Pravda. Executado em Março de 1938.
- Alexei Rikov. Ministro do Interior após a revolução. Na sequência da morte de Lenine ascendeu a presidente do Conselho de Comissários do Povo (equivalente a PM). Executado em Março de 1938.
- Vladimir Antonov-Ovsinko. Jornalista e militar, liderou o assalto ao Palácio de Inverno - um dos marcos da revolução. Chefe do Departamento Político do Conselho Militar Revolucionário. Cônsul-geral soviético em Barcelona durante a guerra civil de Espanha. Executado em Fevereiro de 1939.
- Cristian Rakovski. Presidente do Soviete da Ucrânia e Presidente desta república soviética (1918-1923). Embaixador soviético em Londres e Paris. Executado em Setembro de 1941.
- Olga Kameneva. Irmã de Trotsky e esposa de Kamenev. Foi uma das mulheres que mais se distinguiram na revolução. Responsável pela nacionalização do teatro soviético, que ficou sob a tutela ideológica do partido. Executada em Setembro de 1941.

 

Conclusão: com tanta idolatria póstuma a um dos mais tenebrosos sistemas políticos que o mundo já conheceu, o jornal oficial do PCP, desmentindo o nome que ostenta em título, acaba de dar mais um gigantesco passo à retaguarda.

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Onde acabam as utopias ou «O mais humano dos homens»

por José António Abreu, em 07.11.15

Ao ler Zazúbrin, pensamos finalmente num terceiro autor, mestre no domínio do sarcasmo político e do ódio de classe: Vladímir Lenine. E principalmente no seu estilo telegráfico, que nem John dos Passos ou Hemingway seriam capazes de sonhar. Para compreender todo o realismo de Zazúbrin, é preciso ler alguns telegramas desse «homem, o mais humano dos homens», como o qualifica a propaganda do partido.

 

«Ao camarada Zinóviev, em Petrogrado:

Camarada Zinóviev! Acabamos de saber hoje, no Comité Central, que em Petrogrado os operários querem responder ao assassínio de Volodarski com um terror de massas e que você os impediu. Protesto energicamente! Fazer isso é comprometer-nos: mesmo nas resoluções do Soviete agitamos a ameaça do terror de massas, mas assim que se trata de passar à acção, travamos a iniciativa revolucionária, perfeitamente justa, das massas. Isso é impossível! É preciso encorajar a energia e o carácter de massas do terror.»

26 de Novembro de 1918

 

«Ao comité executivo de Penza:

É indispensável aplicar um terror de massas sem piedade contra os kulaks, os popes e os guardas brancos. Fechar os suspeitos num campo de concentração fora da cidade. Telegrafar execução.»

9 de Agosto de 1918

 

«Ao camarada Fiódorov, presidente do comité executivo de Nijni-Nóvgorod:

Em Nijni prepara-se manifestamente uma insurreição dos guardas brancos. É preciso mobilizar todas as forças, aplicar imediatamente o terror de massas, fuzilar e deportar as centenas de prostitutas que embebedam os soldados, os antigos oficiais, etc. Sem perder um minuto.»

9 de Agosto de 1918

 

«Ao camarada Chliápnikov em Astracã:

Aplique todas as suas forças em apanhar e fuzilar os prevaricadores e os especuladores de Astracã. É preciso ajustar contas com essa escumalha de modo que nunca mais se esqueçam.»

12 de Dezembro de 1918

 

«Telegrama ao camarada Pajkes em Saratov:

Fuzilem sem perguntar nada a ninguém e sem delongas imbecis.»

22 de Agosto de 1918

 

Hoje os reformadores oficiais do sistema soviético atribuem todos os pecados a José Estaline, filho de sapateiro, embranquecendo o governo de Vladímir Lenin, filho de professor, «justo e justificado», porque se começamos a criticar também esse período da história soviética, o partido perderá tudo o que lhe resta, e em primeiro lugar a justificação do seu poder actual. Lenine criou a Tcheka num dos seus primeiros decretos. Os bolcheviques, que tinham tomado o poder através de um golpe de Estado militar (eles próprios não qualificavam Outubro de 1917 como revolução; esse mito nasceu mais tarde), não poderiam continuar a ocupá-lo sem essa máquina de extermínio e de terror. De facto, a história do poder soviético é precisamente a história da Tcheka, desde os primeiros anos do terror «de classe», entre os mais cruéis que existiram, até à transformação da Tcheka-NKVD no KGB moderno, cuja esfera de acção abrange todas as coisas, passando pelo período estalinista que custou a vida a milhões de vítimas (os historiadores chegam hoje a um número superior a trinta milhões de mortos).

 

Do prefácio de Dmitri Savitski ao livro O Tchekista, de Vladímir Zazúbrin, editado em 2012 pela Antígona com tradução de António Pescada. Tanto o prefácio como o livro tiveram publicação original em 1989, apesar do segundo - ler crítica aqui - estar escrito desde 1923. Os telegramas foram recolhidos pelo russo Venedikt Eroféiev. Como seria de esperar, Zazúbrin acabou fuzilado (em 1938).

 

Dedicado a quem, ainda hoje (ver comentários), tenta usar Estaline para desculpar Lenine.

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Ponto de ordem à mesa

por Rui Rocha, em 14.10.15

Afirma-se por aí uma corrente de opinião que, sob a capa da proclamação sempre bem intencionada da abertura de espírito e da promoção da diversidade de opinião, mais não é do que uma tentativa não assumida de condicionar a liberdade de expressão e de pensamento. De acordo com a dita corrente, as vozes que questionam soluções governativas suportadas no PCP são provenientes de homens das cavernas, de gente ressabiada, de ratazanas que se movimentam nas profundezas da ignomínia e que agora, dizem, saem da toca e se revelam na sua ignóbil dimensão. Pois bem. Aqui vai, para que fique claro. Não admito, a quem quer que seja, onde quer que seja, que limitem a minha liberdade de manifestar a minha profundíssima objecção às soluções preconizadas pelo Partido Comunista Português, ao longo da história e hoje que estamos a falar (pouco mudaram como sabemos e aí estão o seu programa e os seus órgãos oficiais que não me deixam mentir). Não me revejo, para não ir mais longe, no planeamento econonómico central, no esmagamento do indivíduo pela linha do partido, no colectivismo opressivo, no igualitarismo falso e castrador ou em modelos politicos como os que são impostos na Venezuela, em Cuba ou na Coreia do Norte. Respeito, naturalmente, o exercício democrático expresso no voto livre e sempre, sempre, a liberdade de expressão. Exijo não menos respeito pelo direito de pensar e de dizer o que penso.

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Os saudosistas do muro

por Pedro Correia, em 10.11.14

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O Muro da Vergonha caiu, mas o PCP continua a defendê-lo sem vergonha nem um pingo de pudor um quarto de século depois. Contra todas as evidências mais gritantes, contra a vontade dos povos, contra o próprio "sentido da História" (mostrando assim ignorar a vulgata marxista sobre materialismo dialéctico).

Se os jornalistas parlamentares não andassem tão ocupados a registar diariamente as mesmas imagens e os mesmos sons, na contínua febre dos "directos" que na maioria das vezes não têm relevância noticiosa alguma, talvez um deles, fazendo algo diferente, se lembrasse de questionar os deputados do PCP sobre a nota oficial do partido reproduzida na última edição do Avante! e à qual o Rui Rocha já fez referência aqui.

Teria seguramente interesse jornalístico saber, por exemplo, se à renovação etária da bancada comunista, agora integralmente composta por deputados muito jovens, corresponde também um arejamento de ideias ou - pelo contrário - persiste o anquilosamento em dogmas há muito remetidos para o caixote do lixo da História (se me permitem usar o jargão marxista).

Nada melhor, para isso, do que exercer o elementar direito à pergunta. Questionando os jovens deputados do PCP - começando pelo simpático líder parlamentar - se subscrevem as palavras oficiais de doce nostalgia pela desaparecida República "Democrática" Alemã, único estado do mundo contemporâneo que mandou erguer uma muralha destinada a impedir a saída dos cidadãos, confinados à condição de prisioneiros no seu próprio país.

Subscreverão eles a entusiástica defesa póstuma da RDA, consubstanciada no elogio rasgado às "realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores" e do próprio muro, que segundo a saudosista nota inserida no Avante!, contrariando todas as evidências históricas, tinha simples "carácter defensivo" e constituiu um "incontestável acto de segurança e soberania"?

Eis uma questão interessante que eu bem gostaria de ver respondida por João Oliveira, Jorge Machado, Miguel Tiago, Bruno Dias, Paula Santos, Carla Cruz, João Ramos, Diana Ferreira, Paulo Sá, David Costa e Rita Rato.

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Comunismo nunca mais

por Rui Rocha, em 09.11.14

Vera Lengsfeld nasceu na RDA. Até determinada altura cumpriu as regras. Inscrita na Partido Comunista, fiel à nomenklatura, leal ao pai que era agente da STASI desde o final da guerra. Depois converteu-se ao cristianismo. Uniu-se a um grupo pacifista, ligado à Igreja Luterana, que protestava contra a presença de mísseis nucleares na Europa, incluindo a de mísseis soviéticos na RDA. Foi expulsa do Partido Comunista. Foi constantemente vigiada. Foi presa por curtos períodos várias vezes. Foi afastada das suas funções de professora da Academia de Ciências Socias em Berlim. Em meados da década de oitenta, existia na RDA um agente da STASI por cada sessenta habitantes. Portugal tem hoje, vinte e cinco anos depois, quatro médicos por mil habitantes. Em meados da década de oitenta, cinco por cento do orçamento da RDA era consumido pela STASI. Vera Lengsfeld era vigiada, nessa altura, por sessenta agentes da STASI. Apesar das dificuldades, a vida de Vera continuava. Casou com o matemático Knud Wollenberger. Tiveram dois filhos. Em mil novecentos e oitenta e oito o pai de Vera foi afastado pela STASI. Para se manter na polícia secreta teria de cortar qualquer tipo de relação com a filha. O pai de Vera recusou. Em mil novecentos e noventa e dois Vera e Knud divorciaram-se. Knud tinha sido um dos sessenta membros da STASI encarregado de a vigiar. O primeiro encontro, a relação, o casamento, tinham sido um embuste. Uma forma de a manter sob observação muito próxima. Tão próxima que Knud informava o seu agente de contacto na STASI de cada detalhe da sua vida em comum, dos seus momentos íntimos, das conversas na cama, das chamadas telefónicas, das variações de humor, das alegrias, angústias e tristezas. Mais tarde, quando Knud se encontrava em estado terminal, Vera perdoou-lhe.O muro de Berlim caiu há vinte e cinco anos. Na altura, o Partido Comunista Português, cego a todas as atrocidades cometidas pelos regimes totalitários comunistas, condenou o acontecimento. Vinte e cinco anos depois, o Partido Comunista Português mantém-se do lado errado da história. Depois de tanto tempo, os veados vermelhos das florestas situadas na fronteira entre a então RFA e a Checoslováquia continuam a não atravessar a linha que era dividida por uma vedação eléctrica. O Partido Comunista Português, por seu lado, continua preso à sua cegueira histórica, incapaz de dar um passo no sentido dos princípios da democracia. Perante visões do mundo desta natureza, impõe-se agora, como há vinte e cinco anos, um grito inquestionável pela liberdade: comunismo nunca mais!

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A inapagável palavra Liberdade

por Pedro Correia, em 08.11.14

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«Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.»

 

 

Eu fui lá e vi.

Lembro-me como se fosse hoje. Foi numa manhã fria e cinzenta de Abril, por meados da década de 80. Tinha eu 21 anos e estava em Berlim com três colegas de profissão: a Isabel Stilwell, o Luís Marinho, o Jerónimo Pimentel. Nesse dia fomos ao outro lado. Cruzando o Muro da Vergonha que desde 1961, por imposição dos soviéticos, rasgava a meio a antiga capital do Reich. Como incisão de bisturi na pele, separando bairros da mesma cidade, fracturando ruas dos mesmos bairros, até fragmentando casas das mesmas ruas que permaneceram emparedadas durante aquelas tristes décadas em que Berlim-Ocidental, na certeira definição de John Kennedy, era a fronteira mais avançada do mundo livre.

Cruzámos a linha divisória por via ferroviária, na estação de metropolitano de Friedrichstrasse, após termos sido forçados a trocar marcos ocidentais por marcos orientais artificialmente cotados em paridade pelo regime comunista, à revelia do valor real das moedas, como condição para transpor aquela fronteira artificial na cidade dividida.

Éramos muito poucos a fazer aquele percurso. Quase todos vinham em sentido inverso, de lá para cá. E eram todos velhos, que marchavam num silêncio mais eloquente que mil discursos. A ditadura de Erich Honecker só permitia deslocações de 24 horas a cidadãos aposentados.

 

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Do lado de lá, tudo diferente. A começar pelo muro - na verdade, duas muralhas paralelas (a segunda foi erguida em 1962) separadas por uma extensão de 100 metros, denominada Faixa da Morte pelos berlinenses. Riscado e coberto de grafitos na face virada para Berlim Ocidental, imaculado na metade comunista da cidade, de onde aliás ninguém podia acercar-se dele. Rodeado de redes metálicas electrificadas, implacavelmente resguardado por soldados armados até aos dentes em 302 torres de vigilância dispersas por 66 quilómetros de extensão.

Símbolo sinistro da Guerra Fria.

Símbolo supremo da falência de um sistema que prometia libertar os homens e afinal só os mergulhou na escravidão.

 

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Arrepiava a escassez de transeuntes do lado de lá.

Arrepiava ver as majestosas Portas de Brandemburgo colocadas em terra de ninguém, no termo da Unter der Linden, a maior avenida de Berlim.

Arrepiava o silêncio dominante. Em perfeito contraste com o fervilhante bulício da Berlim ocidental, "burguesa" e "capitalista".

Atravessámos a pé uma larga avenida onde não passavam carros e logo fomos interceptados pelo apito de polícias que acorreram ao nosso encontro exigindo inspecção minuciosa de passaportes. Acabaram por nos deixar prosseguir, mas com um solene aviso: proibido atravessar fora das passadeiras. Mesmo numa avenida onde quase não víamos circular veículos, excepto uns decrépitos Trabants leste-alemães, fontes ambulantes de poluição.

Tínhamos de gastar os marcos orientais, que só ali eram aceites. Era hora de almoço, procurámos algum sítio onde pudéssemos matar a fome. Mas naquela imensidão desértica a oferta turística estava reduzida a quase nada. Depois de muito procurarmos, lá nos enfiámos num sell service na Alexanderplatz, de tabuleiro na mão, a comer umas salsichas envoltas em gordura a preços astronómicos. E sem mais nenhum cliente por perto.

Acabámos por gastar a maior parte do dinheiro num sucedâneo de táxi que nos conduziu pela zona mais monumental de Berlim - que devido a um capricho do destino permaneceu após a II Guerra Mundial sob a tutela soviética da cidade - e numa breve incursão aos arrabaldes, onde havia uns bairros operários de aspecto moderno e finalmente pessoas a circular na rua.

No regresso, ainda entrámos num Armazém do Povo, com vários pisos, na esperança de gastarmos parte do dinheiro que nos sobrara. Mas a esmagadora maioria das prateleiras estava vazia. Não havia clientes, só funcionárias que nos ignoraram olimpicamente.

Trouxe de lá uns postais manhosos. O meu único recuerdo palpável da Berlim comunista.

 

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Foi o meu baptismo do "socialismo real" no segmento oriental da maior cidade germânica, na então denominada República Democrática Alemã - que nada tinha de democrático e tudo tinha de repulsivo logo ao primeiro olhar.

No regresso, enquanto nos cruzávamos novamente no posto fronteiriço com os velhos agora de regresso a casa após fugazes visitas a familiares no Ocidente, sentimo-nos testemunhas privilegiadas da História, no tempo e no espaço.

Mil vezes a caótica, barulhenta, transgressora Berlim Ocidental do que a organizada, vigiada e silenciada Berlim-Leste - a cidade de maior progresso e com maior prosperidade económica do bloco socialista, como rezava a propaganda.

Nos dias imediatos, observei ainda com mais atenção o "muro de protecção antifascista" mandado erguer por Nikita Krutchov "a pedido" do ditador comunista alemão Walter Ulbricht em 13 de Agosto de 1961 para impedir a contínua sangria de alemães de Leste, sobretudo jovens, rumo ao Ocidente. Três milhões e meio tinham escapado nos 15 anos anteriores.

De tantos em tantos metros, levantava-se uma cruz branca em memória de cidadãos do Leste alvejados mortalmente pela implacável guarda fronteiriça comunista ao procurarem fugir da ditadura.

Morreram largas dezenas ou mesmo centenas entre 1962 e 1989.

O primeiro foi um operário de 18 anos chamado Peter Fechter. O último - escassos sete meses antes da queda do muro - foi um estudante de 20 anos chamado Chris Gueffroy.

Só por terem ousado ser livres.

 

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Às vezes não há como ver para descrer.

Eu fui lá e vi.

Faz amanhã 25 anos, festejei com irreprimível alegria a queda do Muro da Vergonha. Festejei-a com os magníficos versos de Paul Éluard com que saudei o fim de outras ditaduras: «E pelo poder de uma palavra / Recomeço a vida / Nasci para te conhecer / Para te chamar // Liberdade.»

Nessa noite inesquecível de 9 de Novembro de 1989, milhares de habitantes de Berlim puderam pela primeira vez transpor a fronteira livres da absurda ameaça de poderem morrer alvejados pelos agentes do Estado. E também com eles, embora a milhares de quilómetros de distância, celebrei essa palavra tantas vezes pervertida e conspurcada na boca e no gesto de ditadores de todos os matizes, de todos os quadrantes, de todas as ideologias.

Uma palavra que não tem fronteiras, barreiras, Muro em Berlim.

A incómoda, imprevisível, inapagável palavra Liberdade.

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Boicotes? Distúrbios? Escasso interesse nos actos eleitorais? Pouco entusiasmo? Fraca participação? Talvez seja verdade no decrépito Ocidente. Mas nada disso ocorre na Coreia do Norte. Veja-se o que se está a passar nas eleições parlamentares que decorrem neste Domingo. De acordo com fontes fidedignas, os eleitores votaram cantando e dançando. E com total transparência, posto que não há cabinas individuais de voto. A meio do dia, já tinham votado 91% dos norte-coreanos. Nada que espante muito tendo em conta os dados de participação nas anteriores eleições: 99,98%. Nem mais, nem menos. E este ano a coisa promete correr tão bem ou melhor. Note-se que este entusiasmo não surge do nada. Durante várias semanas, os órgãos de comunicação estimulam a participação com poemas de forte carga motivadora e com títulos tão sugestivos como “Torrentes de Emoção e Felicidade”. Perante isto, não admira que os eleitores corram a desaguar nas mesas de voto. A nossa Comissão Nacional de Eleições tem aqui amplo campo de aprendizagem. Por outro lado, tudo está feito para facilitar a vida aos eleitores. Sabe-se como o excesso de escolha pode ser perturbador. Por isso, os norte-coreanos são muito beneficiados com um sistema simplificado em que podem votar num único candidato. Significa isto que não podem manifestar descontentamento com o candidato único apresentado? Antes de mais, é preciso esclarecer que isso é muito pouco frequente pois a escolha é muito criteriosa. Mas se por mero absurdo houver um candidato menos adequado, há obviamente solução. Aliás, se tivermos em conta o que se escreve no Economist, poderíamos descrever o curioso sistema norte-coreano com a expressiva frase “uma pessoa, um voto, três tipos de urna e um funeral”. De facto, os que votam no candidato proposto pelo regime têm direito a colocar o seu voto numa urna própria. Os pouquíssimos que não apoiam esse candidato, votam numa segunda urna. E os que o fazem ganham de imediato direito a ingressar numa terceira urna. E a um funeral. Percebe-se assim o entusiasmo com que as delegações da Coreia do Norte são sempre recebidas na Festa do Avante. Percebe-se menos, atendendo à profícua troca de experiências que certamente ocorre na Atalaia, que Bernardino Soares tivesse dúvidas sobre a natureza democrática do regime norte-coreano. 

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Os veados vermelhos

por Rui Rocha, em 01.03.14

Um grupo de biólogos dedicou-se, nos últimos anos, a estudar o comportamento de uma população de veados vermelhos que tem habitat nas florestas onde estava situada a fronteira entre a República Federal da Alemanha e a Checoslováquia. Antes da implosão do Bloco de Leste, os dois países estavam divididos naquele local por uma vedação eléctrica. Esta barreira separou também a população de veados vermelhos em dois grupos, cada um deles situado de um dos lados da mortífera fronteira. A vedação, como se sabe, já não existe há muitos anos. Todavia, constataram-no os biólogos, os veados vermelhos continuam a não atravessar a linha que é, agora, apenas imaginária, mantendo-se os dois grupos separados. A posição que o PCP tem adoptado perante as situações políticas na Venezuela, na Ucrânia ou na Coreia do Norte (e que o Pedro Correia denunciou, por exemplo, aqui ou aqui) demonstra que os comunistas portugueses, tal como os veados vermelhos, não conseguem ultrapassar o bloqueio que impuseram a si mesmos. Apesar da derrocada dos modelos a que se acorrentaram, permanecem incapazes de dar um passo em direcção à liberdade.

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Livros que deixei a meio (8)

por Pedro Correia, em 14.09.13

 

O ESTADO E A REVOLUÇÃO

de Lenine

 

Muitos de vocês não fazem ideia do que isto era, mas acreditem: cresci num tempo em que havia comícios partidários todos os dias e em que se ouvia gritar nesses comícios uma trilogia de nomes que logo se fixaram na memória colectiva: "Marx! Engels! Lenine!" Certos partidos acrescentavam dois outros nomes: Estaline e Mao Tsé-tung (ainda ninguém escrevia Mao Zedong naquele tempo).

Muita gente, na minha geração, formou-se politicamente em reacção instintiva e quase visceral àqueles comícios frenéticos onde vozes desvairadas apelavam à ocupação imediata de terras e fábricas, socorrendo-se dos profetas que menciono acima como supremos argumentos de autoridade. As imagens difundidas até à exaustão nos telediários desse país pós-ditadura e pré-constitucional provocaram um efeito de saturação e acabaram por ser contraproducentes, causando uma espécie de cansaço generalizado por antecipação.

 

Já tinha há muito passado a adolescência quando li pela primeira vez, em versão espanhola, uma obra de Marx: O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Estaline, na minha geração, fora já equiparado a Hitler. E Mao nunca me atraiu, em poesia ou prosa, ainda antes de saber in loco, na década de 80, a marca devastadora que deixou na China.

Com Lenine, confesso, foi diferente. Lenine fundara um estado -- a União Soviética -- e instaurara ali, nesses anos de brasa, o chamado "terror revolucionário". Mas -- ao contrário de Mao, que morrera velho e decrépito -- a sua morte prematura permitia abrir espaço à especulação: o que teria sucedido na Rússia dos sovietes caso Lenine não houvesse sucumbido a uma hemorragia cerebral em Janeiro de 1924, com apenas 53 anos?

Dizia-se até que, já no seu leito de doente, ditara à mulher, Nadia, uma carta dirigida ao Comité Central em que alertava os camaradas contra a personalidade maléfica de Estaline.

O estalinismo seria uma sequência lógica do leninismo ou a sua perversão?

 

Nesses anos abundava em Portugal a chamada "literatura revolucionária". Lenine era um dos autores mais procurados. Uma editora, salvo erro a Estampa, lançou por essa altura O Estado e a Revolução: vi o livrinho em casa de um amigo, numa daquelas tardes intermináveis da adolescência em que falávamos muito de cinema e futebol, e pedi-lho emprestado. Ele disse-me logo que sim: percebi que não o lera nem fazia intenção disso.

Comecei a ler e logo vislumbrei naquelas linhas a capacidade encantatória de Lenine, um homem que transmitia a impressão de nunca padecer de estados d'alma. Era convicto, era categórico, parecia convincente. Na altura eu não sabia, mas tinha nas mãos um verdadeiro manual de conquista do poder. Política pura e muito dura. Sem contemplações face aos adversários ideológicos e dos "inimigos de classe". Lenine não se detinha perante as "ilusões" da chamada Revolução de Fevereiro de 1917, conduzida pela pequena burguesia com o apoio tácito -- mas cheio de reservas mentais -- dos sovietes. Que triunfariam escassos oito meses depois.

Mesmo sendo minoria, alcançaram o poder absoluto. E logo se apressaram a encerrar de vez o parlamento.

 

Lenine não chegou a concluir a obra. E eu não cheguei a terminar a leitura d' O Estado e a Revolução: pus o livro temporariamente de lado, para regressar a ele num futuro incerto, e a verdade é que não voltei a encontrá-lo. Perdi-o sem saber como. E sem o devolver ao seu legítimo proprietário, hoje cirurgião num dos principais hospitais de Lisboa e que (aposto) não terá voltado a pensar nele.

Para usar um termo caro aos leninistas, tratou-se de uma expropriação -- embora involuntária.

 

Acho curioso o paralelismo entre o livro que não acabou de ser escrito e que eu próprio não acabei de ler. Uma espécie de alegoria da revolução traída, que prometia libertar o ser humano para o condenar afinal a uma nova espécie de escravatura destinada a marcar como ferro em brasa todo aquele século contaminado pelo vírus totalitário.

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A avenida Álvaro Cunhal

por Rui Rocha, em 08.06.13

Leio que por especial deferência e iniciativa de António Costa, Lisboa conta agora com uma Avenida Álvaro Cunhal. Não se trata de uma excepção, uma vez que outros municípios já cometeram ou preparam-se para perpetrar iniciativas de idêntico calibre. É bem verdade que o país tem muito mais ruas do que filhos que mereçam distinção, pelo que devem aceitar-se como normais a massificação e a erosão de sentido do destaque toponímico. Todavia, uma coisa é colocar, à falta de melhor, o nome de um qualquer patarata numa placa de uma rua. Outra coisa é atingir o nível de cretinice necessário a que se promova a glorificação por instituições democráticas de quem nunca quis a democracia. Álvaro Cunhal combateu, é certo, o regime salazarento. Mas devemos ser capazes de distinguir ainda que os tempos sejam propícios à confusão. Uma coisa é combater uma ditadura para promover a liberdade. Outra coisa é combatê-la para a substituir por uma outra forma de opressão. A liberdade e a democracia são um valor em si mesmas. E porque é assim, é inaceitável o raciocínio daqueles que por acção ou omissão contribuem para que prolifere uma distinção entre ditaduras boas e más. As ditaduras, de direita ou de esquerda, de cima ou de baixo, são o que são. E são más. Execráveis. É por isso que uma certa aragem de politicamente correcto que desemboca numa atitude de tolerância perante o comunismo não pode ser admitida. É certo que, contrariando o pessimismo de Adorno, depois de Auschwitz podemos ainda voltar à poesia. Mas não podemos permitir que volte o nazismo. Pelo mesmo motivo, é realmente lamentável que depois dos milhões de vítimas provocados pelo comunismo e de o sistema não ter levado a outros resultados que não a colectivização da violência e da fome, aqueles que o defenderam e nunca o renegaram acabem não só por beneficiar de um julgamento histórico injustificadamente benevolente como ainda vejam o seu nome inscrito numa avenida, em claro desafio à dignidade democrática da cidade e do país.

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Comunistas e unicórnios

por Rui Rocha, em 01.12.12

30 de Novembro de 2012. Já se fez noite em Pyongyang. A KCNA, a agência noticiosa governamental (sim, reconheço que nem sempre evito os pleonasmos) acaba de anunciar uma descoberta extraordinária. Um grupo de cientistas norte-coreanos encontrou provas irrefutáveis da existência dos unicórnios. Jo Hui Sung, responsável pela instituto que conduziu a investigação, explica, com a seriedade que a situação impõe, que o achado foi detectado a 200 metros do templo Yongmyong, no centro da capital. A credibilidade da descoberta resulta de no local ter sido encontrada uma pedra rectangular com a inscrição "Covil do Unicórnio". Parece-me prova definitiva. Escusam de vir com a conversa da falsificação e da refutação do Popper. Para além do mais, a Coreia do Norte é uma espécie de Entroncamento em versão premium. Ali onde se cruzam a Linha do Norte e a Linha da Beira Baixa surgem abóboras e nabos de dimensões descomunais. Em Pyongyang e arredores vão-se observando factos extraordinários em dimensão comunista. Na verdade, a mesma KCNA anunciou, após a morte de Kim Jong Il, em Dezembro de 2011, que, no momento do seu último suspiro, uma rocha começou a brilhar intensamente e um pedaço de gelo no local do seu suposto local de nascimento partiu-se sozinho com um ruído que pareceu fazer tremer os Céus e a Terra. O próprio Jong Il tinha cometido feitos extraordinários em vida, como sabemos (e sabemos porque a KCNA nos disse): a ele se devem a invenção do hambúrguer e mais de 1500 livros escritos em menos de três anos. Nada que nos espante se nos recordarmos que o "Querido Líder", na primeira vez em que pegou num taco de golfe, fez 11 buracos numa só tacada (se dúvidas houvesse deste recorde, 17 guarda-costas testemunharam o acontecimento), tendo acabado o percurso com, para aí, 40 pancadas abaixo do par. No fundo, nada disto nos devia surpreender. Sobretudo se tivermos em conta que, aqui bem mais perto, não sei quantos homens e mulheres crescidinhos, sem qualquer limitação aparente ao nível da capacidade de querer e de entender, aplaudem de forma entusiástica o pensamento de Álvaro Cunhal.  

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Billions in Hidden Riches for family of chinese leader.

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Coisas que não lerás no Avante

por Rui Rocha, em 26.07.12

Cuando un opositor muere, en cualquier democracia, se dejan a un lado los odios y se respeta la dignidad del desaparecido. En una dictadura, como la cubana, no es así. La muerte de Payá ha sido groseramente festejada en varios medios oficialistas cubanos. Detrás de ese comportamiento irracional yace la inseguridad moral de quienes no pueden admitir que una persona honesta, convencida de sus ideas, defienda, con métodos pacíficos y desde las propias leyes vigentes, la democracia en Cuba.

 

Rafael Rojas, aqui.

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«As ideias são muito mais poderosas do que as armas. Nós não permitimos que os nossos inimigos tenham armas, porque deveríamos permitir que tenham ideias?»

Estaline

 

O camarada Estaline revive de boa saúde nas caixas de comentários de alguns blogues onde não é difícil encontrarmos quem lhe teça loas com o mesmo fulgor orgástico de uma Mariana Alcoforado suspirando na cela do Convento de Nossa Senhora da Conceição pelo conde de Saint-Léger.

Eis aqui alguns comentários dados à estampa por discípulos espirituais do "Guia Genial dos Povos", responsável apenas por quatro milhões de condenações políticas - incluindo 800 mil execuções sumárias e cerca de 2,6 milhões de internamentos no Gulag - no seu glorioso consulado de três décadas à frente dos radiosos destinos da União Soviética, farol da Humanidade:

 

«A imaginação não tem limites e dá sempre jeito meter Estaline (a quem a imaginação já acusou de tudo) para compor o ramalhete.»

 

«Estalinismo é um conceito inventado pela direita e pela esquerda que ataca o leninismo.»

 

«O grande inimigo da pequena burguesia urbana é o camarada Estaline.»

 

Hossana, camaradas, Hossana. A memória gloriosa do grande Estaline, pai dos povos e libertador de nações, permanecerá eternamente viva no coração dos verdadeiros comunistas. Construtor do socialismo, artífice da vitória dos povos na guerra contra o fascismo, defensor da independência e da soberania dos povos, arquitecto do comunismo, o maior defensor da paz e da felicidade do homem.

Alguém ousa duvidar?

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Porque falhou a União Soviética

por José Navarro de Andrade, em 01.05.12

O primeiro 1º de Maio, Chicago 1886:

trabalhadores em luta pelas 8 horas diárias de trabalho, 6 dias por semana

 

 1º de Maio, Praça Vermelha, Moscovo, 1969

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Ainda há heróis

por Pedro Correia, em 23.12.11

Uma imagem para a História: Aleksandr Dubcek e Václav Havel durante a Revolução de Veludo (1989). Foto de Justin Leighton.

 

O século XX ficou marcado, de uma ponta a outra, por demasiadas figuras sinistras -- tiranos, torcionários, carrascos do seu povo e de outros povos. Amarga ironia da história: sabemos muitas vezes com mais facilidade de cor os nomes desses déspotas do que os daqueles -- bem mais raros -- que contribuíram para tornar o mundo melhor.

Um político cujo nome merece a pena ser decorado e recordado pelas gerações futuras é Václav Havel. Dramaturgo, pensador, antigo preso político, fundador e activista da Carta 77, grande figura de referência ética contra o regime imposto em Praga pelos blindados soviéticos em Fevereiro de 1948 e Agosto de 1968, conduziu em 1989 a Revolução de Veludo mobilizando milhões de checos e de eslovacos contra a ditadura comunista. E nesse processo -- tendo a seu lado Aleksandr Dubcek, o malogrado arquitecto do "socialismo de rosto humano" estrangulado pelas tropas do Pacto de Varsóvia com o aplauso do PCP -- demonstrou toda a sua fibra de resistente, toda a sua coragem física e política, toda a sua enorme envergadura moral. Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do "socialismo real" checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos.

Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória. Sem um tiro, sem derramamento de sangue. Graças à enérgica liderança de Havel -- democrata assumido, pacifista convicto, crente na virtude da tolerância como forma de mobilizar vontades e de cativar até os inimigos da liberdade.

Este homem íntegro, vertical, serviu o seu povo como Chefe do Estado e após o cumprimento do mandato presidencial soube regressar da melhor forma à condição de cidadão comum. Que é pouco. Mas que é tudo.

No preciso momento em que escrevo estas linhas decorre o seu funeral em Praga. Confesso: são linhas comovidas. Porque Havel foi uma das figuras da política internacional que mais admirei. Graças a ele, e a alguns outros, posso gabar-me de ter vivido numa época com heróis de carne e osso.

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Quando o PCP era contra as greves

por Pedro Correia, em 25.11.11

 

"Os trabalhadores e trabalhadoras de todos os sectores, empresas e serviços, com vínculos permanente ou precários, têm motivos para aderir à greve geral de 24 de Novembro", proclama o PCP na primeira página do seu jornal oficial. Sob a palavra de ordem "a adesão de cada um faz a força de todos".

Isto sucede agora. Mas já houve um tempo em que o PCP era contra a realização de greves em Portugal. Um tempo em que -- por coincidência ou talvez não -- os comunistas ocupavam pastas ministeriais no Governo. Convém recordar aos mais desmemorizados, por exemplo, uma resolução do Comité Central (CC) do PCP datada de 17 de Junho de 1974 em que a direcção do partido se insurgia contra a realização de uma greve nos CTT. Passo a transcrever parte desse longo comunicado, naturalmente com a devida vénia. Os sublinhados a vermelho são da minha responsabilidade.

 

«O PCP alerta contra o perigo de reivindicações irrealistas e chama particularmente a atenção para as exigências de súbita e radical diminuição da semana de trabalho, que em alguns casos desceria a níveis não praticados mesmo nos países mais desenvolvidos. Semanas de 35/36 horas não correspondem ao nível do actual desenvolvimento económico. As reivindicações irrealistas conduzem a um beco sem saída, à perturbação do equilíbrio económico ou ao aumento dos preços e ao agravamento da inflação que anulam os aumentos de salários alcançados.

As formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas. No actual momento político, a greve só deve ser utilizada na luta por reivindicações sérias e ponderadas, depois de esgotados todos os outros recursos. Os trabalhadores devem fazer tudo para que não tenha lugar em sectores-chave da vida económica dadas as profundas e desfavoráveis repercussões que pode ter na situação económica e dadas as graves reacções que pode provocar. O CC do PCP desaprova a greve dos CTT (...) Desaprova a greve em outros sectores vitais da vida económica e social do País e apela para que os trabalhadores tenham plena consciência dos graves riscos que correm e fazem correr ao processo de democratização iniciado em 25 de Abril. (...) Chama com solenidade a atenção dos trabalhadores para o facto de que a desorganização da economia, a paralisação de transportes e outros meios vitais da vida económica criam condições favoráveis para a reacção e a contra-revolução.»

 

Um prodígio de hipocrisia, esta posição dúplice de um partido que quando está na oposição incentiva os trabalhadores a fazer greve mas quando está no Governo recomenda aos mesmíssimos trabalhadores que não utilizem tal forma de luta. É isso, aliás, que sucede nos países ainda dirigidos por partidos comunistas: China, Coreia do Norte, Cuba, Laos e Vietname. Todos condicionam fortemente ou interditam o direito à greve -- naturalmente, sem um sussurro de protesto do PCP. A nula adesão à luta faz a fraqueza de todos.

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O PCP ainda chora pela URSS

por Pedro Correia, em 19.08.11

 

A ala mais extremista do PCP, que domina a direcção do partido, mantém-se fiel à linha de rumo que, noutros tempos, levou os comunistas portugueses a apoiar a invasão da Hungria e da Checoslováquia, às ordens de Moscovo, pelos blindados do Pacto de Varsóvia. Isto fica bem evidente num comunicado repassado de nostalgia pela defunta União Soviética em que o PCP, vinte anos depois, volta a manifestar o apoio à clique golpista que em 19 de Agosto de 1991, à margem de toda a legalidade "socialista", procurou derrubar Mikhail Gorbatchov através de um putsch militar digno de uma qualquer república das bananas.

«Com o desaparecimento do poderoso contra-peso que a URSS e o sistema socialista representavam em relação ao imperialismo e à sua política exploradora e agressiva, e a brutal alteração da correlação de forças daí resultante, o mundo tornou-se mais injusto, mais perigoso, mais desumano. Vinte anos depois revela-se com toda a nitidez a falsidade e hipocrisia dos argumentos “democráticos” e “humanos” que presidiram à campanha anti-soviética e anti-comunista em torno dos acontecimentos de 19 de Agosto de 1991, falsidade e cinismo que o PCP desde logo denunciou, enfrentando com firmeza as operações de falsificação e calúnia que visavam, em Portugal, desprestigiar, enfraquecer e dividir o colectivo partidário, confirmando e afirmando os seus princípios e identidade revolucionária e expressando inteira confiança no ideal e no projecto comunista» , refere o comunicado.

Gostava de saber se António Filipe, actual vice-presidente da Assembleia da República, o ex-secretário-geral comunista Carlos Carvalhas, o antigo líder da bancada parlamentar do PCP, Octávio Teixeira, o deputado Honório Novo e o dirigente máximo da GCTP, Manuel Carvalho da Silva, entre vários outros conhecidos militantes do partido, se revêem nesta linguagem saudosista de um regime que já foi condenado sem equívocos pelo povo russo e pela História.

 

Foto: fragmento do Muro de Berlim, numa altura em que - segundo o PCP - o mundo era menos desumano, menos injusto e menos perigoso.

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O Muro da Vergonha

por Pedro Correia, em 13.08.11

 

O comunismo começou a cair há exactamente 50 anos, quando Moscovo mandou erguer em Berlim o Muro da Vergonha, com mais de 140km de extensão, destinado a evitar a sangria contínua de alemães do Leste para a então cidade sitiada no Ocidente, ilha capitalista num mar 'socialista': três milhões e meio haviam já passado a fronteira, número correspondente a 20 por cento do total de habitantes da República 'Democrática' Alemã.  Mas nem mesmo o Muro evitaria por completo que os berlinenses orientais continuassem a fugir de uma sociedade concentracionária, tão bem retratada no filme A Vida dos Outros. Muitos pagaram com a própria vida a ousadia de procurarem a liberdade - por vezes com um tiro traiçoeiro disparado pelas costas. O Muro deu origem a muitas tragédias que jamais se apagarão da memória colectiva.

O mais demolidor retrato do comunismo soviético imposto pela força bruta em Berlim durante 44 anos é o daquele soldado que também participava na construção do Muro e que no último instante escapa à barreira - e ao possível disparo das armas dos camaradas - para escapar ele próprio rumo ao Ocidente, imortalizado pela objectiva de Peter Leibing. Eis um daqueles casos em que uma imagem falou mais e melhor que mil palavras.

Um sistema que precisava de construir uma barreira de betão rodeada de arame farpado electrificado e guardado por militares armados até aos dentes para evitar que os seus próprios habitantes fugissem em direcção ao sistema 'inimigo', com risco da própria vida, estava antecipadamente condenado ao fracasso. Foi esta lição de história que tão eloquentemente o Muro da Vergonha nos deixou.

 

ADENDA. Não esquecer: há dois anos, o PCP esteve contra um voto de congratulação pela queda do Muro. Com estes argumentos, expressos na altura por Bernardino Soares na Assembleia da República.

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Um democrata não é um dissidente

por Pedro Correia, em 10.12.10

Na oposição à ditadura de Salazar, distinguiram-se o comunista Álvaro Cunhal, o socialista Mário Soares, o monárquico Paiva Couceiro e o católico Pereira de Moura, entre muitos outros. Luis Corvalán era um opositor comunista à ditadura de Pinochet, José María Gil-Robles era um opositor democrata-cristão à ditadura de Franco.
Nenhum deles foi classificado de "dissidente". Chamar-lhes dessa forma teria algo de pejorativo, quase insultuoso. Mas na China todos os opositores são "dissidentes". Como hoje sucede também em Cuba ou antes sucedia na União Soviética. Ao opositor, nos países submetidos a ditaduras comunistas, os responsáveis por esses regimes não concedem sequer o direito a ter uma ideologia própria, diferente da ideologia oficial. Espantosamente, os órgãos de informação dos chamados países livres fazem coro com esses responsáveis, chamando "dissidentes" a quem ousa divergir da corrente dominante.
Um democrata é um democrata. Não é um dissidente.

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O anticomunismo do PCP

por Pedro Correia, em 15.11.10

 

Criticar a China, segundo o PCP, é ser "anticomunista". Daqui se conclui que o PCP foi durante décadas anticomunista.

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Estaline e Kim Jong-il

por Pedro Correia, em 08.11.10

Na última edição do Avante!, o neo-estalinismo continua em grande. A pretexto da próxima cimeira da NATO que se realiza em Lisboa, o jornal do PCP salienta que desde a sua criação, em 1949, esta organização «apontava o seu fogo à União Soviética, cujo prestígio no mundo era imparável por ter sido a grande responsável pela vitória sobre o nazifascismo na II Guerra Mundial». Típica linguagem da Guerra Fria: o "órgão central" dos comunistas portugueses parece estar pelo menos há 25 anos parado no tempo, como se Tchernenko ainda fosse o ditador de turno na Moscovo soviética. Por um resquício de pudor, o nome de Estaline não é impresso nesta edição do jornal, mas a glorificação do estalinismo está lá, intacta, na referência ao "imparável prestígio no mundo" da URSS em 1949, então gerida com mão de ferro por Estaline, um dos maiores criminosos da História.

Ao melhor estilo estalinista, o Avante! omite, aliás, que durante dois anos, entre 1939 e 1941, a União Soviética foi aliada de Hitler e Mussolini durante a II Guerra Mundial e só rompeu com o nazismo quando os tanques de Berlim já invadiam o seu território.

 

O neo-estalinismo do jornal é também muito nítido no noticiário internacional. Repare-se nesta notícia: «A rejeição do convite para conversações por parte da Coreia do Sul é uma expressão de ignorância sobre a actualidade e um acto de traição para com todos os coreanos, considerou Pyongyang. De acordo com informações veiculadas pela agência de notícias norte-coreana, o governo da República Popular Democrática da Coreia convidou o vizinho do Sul para conversações. O objectivo era o estabelecimento de um acordo militar, mas Seul terá rejeitado "persistindo no enfrentamento e na guerra", disse fonte oficial à KCNA.»

Que vemos aqui?

A defesa aberta e declarada do regime neo-estalinista da Coreia do Norte, o mais repressivo do mundo, que o Avante! - só mesmo ele - apresenta aos seus leitores como amante do diálogo, da concórdia e da paz. Assim se distorce deliberadamente a verdade dos factos, rasurando a fotografia.

Essa mesma página é encimada com a seguinte notícia: «Por aumentos salariais e contra a retirada de direitos / Trabalhadores voltaram aos protestos nas Honduras».

Alguém imagina uma manifestação de protesto de trabalhadores por aumentos salariais na Coreia do Norte "Popular e Democrática", como tão carinhosamente lhe chama o órgão neo-estalinista do PCP?

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Três momentos trágicos da História

por Pedro Correia, em 04.11.10

 

Manifestações de rua em Atenas, manifestações de rua em Paris. Contra a crise. Em blogues comunistas, leio aplausos a estas manifestações, mesmo quando se quebram montras, incendeiam carros e se bloqueiam vias de acesso às cidades. Alguns destes revolucionários de sofá aludem com nostalgia à antiga União Soviética como defunta “pátria dos trabalhadores” e não escondem a mágoa por ter sido derrubado o sistema “socialista” que vigorou durante 45 anos na Europa de Leste.
A estes nostálgicos do “socialismo real”, fervorosos amantes de manifestações de rua, gostaria de lembrar três datas: 17 de Junho de 1953, 25 de Junho de 1956 e 23 de Outubro de 1956.

 

Primeiro cenário: Berlim-Leste. Descontentes com o aumento das quotas de trabalho e a diminuição dos salários, milhares de operários saem à rua em protesto contra o Governo. Espalham-se pela cidade reivindicando reformas, eleições livres, o direito à greve. “Queremos ser livres e não escravos”, gritam. Duas divisões motorizadas soviéticas estacionadas em Berlim esmagam a revolta. É proclamado o estado de sítio. Balanço: milhares de presos, 42 dos quais são executados.
Segundo cenário: Poznan, na Polónia. Os 15 mil operários da fábrica Zispo – que produz locomotivas e material de guerra – entram em greve contra o aumento de quotas e a redução dos salários em 3,5%. Saem à rua com cartazes de protesto e vivas à liberdade. Reclamam pão e justiça. A polícia de choque entra em acção, os blindados também. A revolta é esmagada. Balanço: 54 mortos, 400 feridos, mais de 300 presos.
Terceiro cenário: Budapeste. A cidade é palco de uma gigantesca manifestação pela liberdade e contra a ocupação militar soviética. Durante duas semanas vive-se em toda a Hungria um clima de insurreição liderado por universitários e trabalhadores de fábricas e minas. A 4 de Novembro, faz hoje 54 anos, os tanques soviéticos suprimem todos os protestos. Balanço: cerca de dois mil mortos, milhares de operários e estudantes presos, 105 deles executados.


Defender hoje manifestações em sociedades livres em nome de ideologias que estão associadas a alguns dos períodos mais repressivos da história contemporânea é uma ironia trágica. Digna precisamente de revolucionários de sofá, que tanto gostam de invocar os oprimidos enquanto idolatram a memória de regimes opressores. Eles apostam na falta de memória colectiva. Mas fazem mal. Porque há quem não esqueça.

 

Imagem: tanques soviéticos esmagam os resistente em Budapeste (4 de Novembro de 1956)

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Opositor sim, dissidente não

por Pedro Correia, em 12.10.10

 

E lá surge novamente, a propósito da merecida atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiabo, a famigerada palavra dissidente. Que se emprega apenas como referência aos opositores nas ditaduras comunistas. Quem se opõe à dinastia dos irmãos Castro em Havana é dissidente. Quem se opõe à dinastia Kim em Pyongyang é dissidente. Quem ousa enfrentar a bota cardada de Pequim, que esmaga impiedosamente os defensores de direitos humanos, é dissidente. Mas a que propósito vem o palavrão? Dissidente, esclarece-me o Cândido de Figueiredo que tenho à mão, "é aquele que diverge da opinião geral". Parte-se portanto do princípio que a "opinião geral" se conforma com os ditames da ditadura, havendo uns quantos excêntricos que pensam de outra maneira, em evidente fuga à normalidade.

Lamento, mas não uso a palavra. E rejeito o conceito. Lula da Silva e Dilma Rousseff foram opositores à ditadura militar brasileira - ninguém jamais ousou chamar-lhes dissidentes. Nelson Mandela foi um combatente contra o apartheid - não era um dissidente do regime racista sul-africano. Álvaro Cunhal e Mário Soares, entre tantos outros, militaram na oposição ao salazarismo - não eram "dissidentes" do salazarismo.

Liu Xiabo é um opositor incómodo e tenaz da ditadura chinesa. Chamar dissidente a este preso de consciência é já uma forma de ceder aos seus verdugos, diminuindo-lhe a estatura cívica e moral. Nenhuma palavra é neutra na batalha das ideias.

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Deus, trono e família

por Pedro Correia, em 05.10.10

 

Kim Il-sung, tendo por cognome 'o Grande Líder' - à semelhança dos monarcas medievais - governou a Coreia do Norte de 1948 até à sua morte, em 1994. O culto da personalidade que lhe era tributado assemelhava-se ao do deus Rá no antigo Egipto: de tal modo que ainda hoje há penalizações a quem, por engano, pise a sombra dos mausoléus que lhe foram erguidos, em jeito de altares. E nunca chegou a ser formalmente substituído como chefe do Estado: oficialmente, é-lhe consagrado o título de "Presidente eterno".

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a religião e os comunistas não crêem na eternidade?)

Sucedeu-lhe no trono vermelho o filho Kim Jong-il - tendo por cognome 'o Querido Líder'. E agora este mesmo dirigente supremo do comunismo norte-coreano prepara como sucessor o filho mais novo, que se chama Kim Jong-un. O petiz ainda não recebeu cognome mas acaba de ser distinguido - aos 27 ou 28 anos, a idade exacta dele parece constituir segredo de estado - com a patente de general e já tem assento no Comité Central, junto dos jerónimos de sousa e dos franciscos lopes lá do sítio.

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a monarquia?)

Na corte estalinista de Pyongyang, tão admirada nas páginas do Avante!, nos votos parlamentares dos comunistas portugueses e nas resoluções de recentes congressos do PCP, outros familiares do ditador acabam de receber prebendas: Kim Kyong Hu, sua irmã, foi agora igualmente promovida ao posto de general. E o marido desta, cunhado do filho do Rei-Sol, Jang Song Thaeck, ascendeu ao cargo de vice-presidente da Comissão de Defesa Nacional.

(Quem disse que o comunismo é incompatível com a solidez da instituição familiar?)

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Idolatrado ditador

por Pedro Correia, em 16.08.10

 

Comandante. Ex-presidente. "Rebelde" desde criança. "Ditador", com aspas. Em grande actividade pública. Com energia impensável. Coroada com a sua presença no Parlamento. Obcecado em alertar contra o risco de uma guerra nuclear. Derrotou Batista, ditador sem aspas.

Fidel Castro continua a ser retratado desta forma por olhares só na aparência isentos. Fazem-me lembrar uma fabulosa frase de Millôr Fernandes: "Jamais diga uma mentira que não possa provar."

Nestas coisas há que ter um mínimo de memória para evitar escrever disparates em excesso. O "comandante" que agora surge tão preocupado com a "guerra nuclear" foi o mesmo que em plena crise dos mísseis em Outubro de 1962 - que pôs o mundo à beira da III Guerra Mundial - escreveu ao então líder soviético, Nikita Kruchtchov, dizendo-lhe que se os americanos invadissem Cuba Moscovo deveria retaliar lançando mísseis sobre os Estados Unidos, "ainda que a ilha desaparecesse do mapa".

Sabe-se hoje qual foi a resposta lapidar de Kruchtchov: "Nós lutamos contra o imperialismo não para morrer mas para conseguir a vitória do comunismo." Uma mensagem que enfureceu Castro, déspota sem aspas. Ao ponto de autorizar manifestações de rua em Havana onde se gritou: "Nikita, mariquita, lo que se da no se quita."

São assim alguns auto-intitulados "libertadores do povo", ainda tão venerados em certa escrita idolátrica dos nossos dias. O mínimo que lhes devemos chamar é ditadores. Sem aspas. A primeira linha de combate a qualquer tirania ocorre no vocabulário que escolhemos. E não há palavras inocentes neste combate.

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Lenine, herdeiro de Danton

por Pedro Correia, em 16.12.09

 

Um dos mais estimulantes ensaios políticos surgidos este ano em Portugal, assinado por Rui Bebiano, tem como foco central a Revolução de Outubro e o seu protagonista máximo, Vladimir Lenine. É um acontecimento histórico que ainda hoje gera os maiores equívocos e as mais delirantes interpretações. O Avante!, por ocasião do 90º aniversário deste acto fundador do totalitarismo contemporâneo, em Novembro de 2007, considerava-o um "marco maior na caminhada humana pela emancipação".

A visão de Rui Bebiano, professor de História Contemporânea na Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, não podia ser mais antagónica. Neste seu livro, Outubro, o autor desmistifica a figura de Lenine, que "nas várias histórias do comunismo e dos ideais socialistas surge na maioria das vezes tratada de forma bastante benévola ou mitificada". Menciona, aliás, inúmeros intelectuais que visitaram Moscovo nas décadas de 20 e 30 e só lá viram a "sociedade do futuro", caucionando com a sua palavra um dos regimes mais sanguinários de todos os tempos. Intelectuais como Bertrand Russell, Henri Barbusse, George Bernard Shaw, Romain Rolland, H. G. Welles e Stefan Zweig - todos seguiram as pisadas do jornalista norte-americano John Reed com a sua obra de megapropaganda Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, que Lenine gostaria de ter visto publicada "em milhões de cópias em todas as línguas". Não custa perceber porquê. Outro companheiro de estrada do totalitarismo foi o influente crítico norte-americano Edmund Wilson. "Na União Soviética, senti-me como se estivesse num santuário moral onde a luz nunca pára de brilhar", escreveu ele nesses anos de chumbo do sistema concentracionário soviético.

 

A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, monárquicos, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma "vanguarda revolucionária" para o derrube da "sociedade burguesa". Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal "foi um putsch militar e não uma insurreição das massas".

Lenine, como recorda Rui Bebiano (também autor do blogue A Terceira Noite), proclamava que "não existe moral na política, apenas conveniência". Não admira, assim, que tenha sido o autor moral da "organização sistemática da violência revolucionária como instrumento de transformação e ferramenta do poder", da "repressão sem contemplações de qualquer modalidade de dissidência" e do "exercício sistemático da brutalidade contra populações inteiras". No auge do Terror Vermelho enviava telegramas aos seus sequazes, incentivando-os a meter "balas nas cabeças" dos opositores políticos. Só entre 1918 e 1920, segundo os registos históricos, houve na URSS 12.733 execuções. Como acentuou John Gray, no seu livro A Morte da Utopia, "no fim de 1921, cerca de 80 por cento das pessoas que estavam presas nos campos de concentração [soviéticos] eram camponeses ou operários".

 

Lenine, que era um homem inegavelmente culto, apreciava música clássica. Um dia, ao ouvir pela enésima vez a Apassionata, confessou a Gorki: "Se continuar a escutá-la, não acabo a revolução." Trocou Beethoven pelas balas demolidoras contra a "democracia burguesa" que tanto odiava. A seu ver, como salienta Rui Bebiano, "toda a atitude reformista  se tornava inútil e abominável, salvo quando servisse como instrumento da mudança integral".

Era, no fundo, um legítimo herdeiro de Danton, que na noite anterior à sua morte dizia: "O verbo guilhotinar, notai, não se pode escrever no passado. Não se diz: 'Fui guilhotinado'."

O futuro que ambos propunham, Danton e Lenine, era esse mesmo: o da guilhotina. Surpreende haver ainda hoje quem os celebre de forma acrítica como libertadores da espécie humana.

 

Outubro, de Rui Bebiano (Angelus Novus, 2009). 102 páginas.

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Dois assassínios a sangue-frio

por Pedro Correia, em 09.11.09

 

O número de pessoas mortas pelos guardas fronteiriços de Berlim-Leste, quando pretendiam fugir para o Ocidente, não é totalmente conhecido. Há quem fale em 125, há quem garanta que foram 290 ou ainda mais. Mas sabe-se quem foi o primeiro e quem foi o último da longa lista de vítimas da ditadura comunista que ergueu o Muro de Berlim com 45 mil blocos de cimento armado e 302 torres de controlo numa extensão de 155 quilómetros.

É justo recordar-lhes os nomes neste 20º aniversário do fim do mais sinistro símbolo da Guerra Fria.

O primeiro chamava-se Peter Fechter. Era um operário de 18 anos que ao princípio da tarde de 17 de Agosto de 1962 decidiu subir o Muro, perto do Checkpoint Charlie, na companhia de um amigo chamado Helmut. Não chegou ao cimo: foi alvejado com vários tiros que o fizeram cair. Gravemente ferido, gritou por socorro. Diversos transeuntes quiseram ajudá-lo, tendo sido dissuadidos pelos guardas fronteiriços que deixaram o jovem sangrar até à morte. Morreu cerca de uma hora depois, perante a dolorosa impotência de centenas de pessoas que testemunharam o episódio de ambos os lados da fronteira. Dos três guardas que alvejaram a sangue-frio este jovem desarmado, nenhum deles passou um só dia na prisão.

O último chamava-se Chris Gueffroy. Era um estudante de 20 anos que também na companhia de um amigo, chamado Christian, a 6 de Fevereiro de 1989 escalou a rede de arame farpado que fazia de fronteira entre Berlim Leste e Ocidental na zona do canal de Britz. Na véspera, um guarda fronteiriço assegurara-lhe que poderia passar para o Ocidente sem grande transtorno, pois havia novas instruções expressas, por parte do regime comunista, para não atirar a matar contra ninguém. A informação era falsa e Chris foi vítima dessa mentira: recebeu dez tiros, quando se encontrava já no topo do arame farpado, e ficou ali, agonizando até à morte. Cada um dos quatro guardas que o alvejaram recebeu um louvor e um prémio pecuniário de 150 marcos leste-alemães. Mais tarde, já após a reunificação da Alemanha, um deles viria a ser condenado a três anos e meio de prisão, sentença alterada para dois anos de prisão com pena suspensa.

Peter e Chris: dois jovens que pagaram com a vida por quererem rumar à liberdade.

 

Imagem de cima: Peter Fechter sangrando até à morte (17 de Agosto de 1962)

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RDA, 1949-1989

por Pedro Correia, em 09.11.09

 

O fim da ditadura. O fim da repressão. O fim do partido único. O fim das manifestações orquestradas a favor dos ditadores Ulbricht e Honecker. O fim do vergonhoso servilismo perante a União Soviética. O fim dos 'crimes' de natureza política. O fim da sociedade de delatores, tão bem retratada nessa obra-prima do cinema contemporâneo que é A Vida dos Outros. O fim da proibição do direito à greve. O fim da proibição do direito à manifestação. O fim da imprensa amordaçada, submetida ao pensamento único do Partido. O fim da polícia política. O fim dos delitos de opinião. O fim da Stasi - a PIDE leste-alemã. O fim dos tiros disparados, na calada da noite, contra quem ousasse transpor a fronteira. O fim da perversão da palavra democracia, usada como emblema de um Estado que sempre a espezinhou.

Além do derrube do Muro, é também isto que hoje festejamos. O fim de um pesadelo que durou 40 anos.

 

Imagem: tanques soviéticos esmagando a rebelião operária em Berlim-Leste, capital da República 'Democrática' Alemã (17 de Junho de 1953)

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Vinte anos de liberdade a Leste

por Pedro Correia, em 09.11.09

 

Hoje o mundo celebra a queda do Muro de Berlim, o símbolo mais inequívoco de um universo opressivo, nascido do equilíbrio do terror nuclear entre as duas superpotências que dominaram a geopolítica do pós-guerra. O mundo inteiro? Não. Numa 'aldeia' de irredutíveis comunistas há quem prefira celebrar não o muro caído mas o muro ainda erguido, entre 1961 e 1989, cortando ao meio um país, cortando ao meio uma cidade de onde os próprios habitantes não podiam sair por imposição de uma potência estrangeira - a URSS - que a ocupava militarmente. Este Astérix de sinal contrário, adepto das legiões romanas com sotaque russo, é o Avante! , órgão central do Partido Comunista Português, que em editorial derrama lágrimas pela queda do império soviético, suspirando de nostalgia pela Revolução de Outubro.

"A constituição do primeiro Estado operário; as conquistas civilizacionais – políticas, sociais, económicas e culturais - alcançadas na União Soviética nascida da Revolução de Outubro; o processo de construção do socialismo então iniciado e os seus êxitos; as múltiplas repercussões no mundo de todo esse exaltante processo, dando nova dimensão à luta de libertação nacional dos trabalhadores e dos povos e à luta pela paz – e, com tudo isso e por tudo isso, o papel que a URSS passou a desempenhar à escala planetária, criaram novas e promissoras perspectivas num mundo até então submetido ao domínio absoluto do sistema capitalista, apresentado como uma «inevitabilidade» decorrente de uma «ordem natural das coisas» fabricada pela ideologia dominante à medida dos interesses do grande capital internacional", escreve o Avante!. Como se vivêssemos no mundo pré-1989, antes da queda do comunismo nas capitais do Leste. Como se vivêssemos no mundo pré-1973, antes de Soljenitsine ter feito a minuciosa descrição do universo concentracionário dos gulags na mais emblemática das suas obras. Como se vivêssemos no mundo pré-1956, antes da revelação - pelo próprio secretário-geral do Partido Comunista soviético, Nikita Khrutchov - dos crimes cometidos por Estaline, o czar vermelho desse falso "primeiro Estado operário" que os comunistas ortodoxos portugueses, possuídos de um saudosismo serôdio, agora glorificam.

"A derrota do socialismo, com o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa, constituiu uma tragédia, não apenas para os povos desses países mas para toda a humanidade: com o capitalismo dominante, o mundo é, hoje, menos democrático, menos livre, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico", refere ainda o editorial do órgão oficial do PCP.

Nem por um momento ocorre ao Avante! reflectir sobre o que levou essas sociedades tão progressistas a implodir estrondosamente e os trabalhadores 'libertados' de Leste a correr rumo à 'opressão' do Ocidente. É que essas sociedades se fundavam numa mentira que o PCP gosta de repetir ainda hoje: não havia Estados-operários mas ditaduras burocráticas, assentes num capitalismo de Estado para o qual cada cidadão era um sujeito destituído de direitos - começando pelos direitos laborais. O próprio direito à greve era severamente reprimido, como experimentaram na pele os operários que se rebelaram em Berlim-Leste (1953) ou na Polónia (1956, 1970, 1981), já para não mencionar a Roménia do camarada Ceaucescu, que mandava construir os seus faustosos palácios com mão-de-obra escrava.

Este era o falso ''paraíso socialista' que terminou em 1989. O mundo ficou mais livre depois da queda do Muro - depois da queda de todos os muros do Báltico ao Adriático. E ficou também mais igualitário e justo. Porque nenhuma liberdade era realmente digna desse nome na Europa quando permitíamos, por acção ou omissão, que metade do continente ainda não tivesse perdido as grilhetas, para usar uma expressão marxista que o Avante! só emprega quando lhe convém. Como se houvesse alguma superioridade moral nas grilhetas comunistas.

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O Muro da Vergonha

por Pedro Correia, em 13.08.09

 

O comunismo começou a cair há exactamente 48 anos, quando Moscovo mandou erguer em Berlim o Muro da Vergonha, com mais de 140km de extensão, destinado a evitar a sangria contínua de alemães do Leste para a então cidade sitiada no Ocidente, ilha capitalista num mar 'socialista': três milhões e meio haviam já passado a fronteira, número correspondente a 20 por cento do total de habitantes da República 'Democrática' Alemã.  Mas nem mesmo o Muro evitaria por completo que os berlinenses orientais continuassem a fugir de uma sociedade concentracionária, tão bem retratada no filme A Vida dos Outros. Muitos pagaram com a própria vida a ousadia de procurarem a liberdade - por vezes com um tiro traiçoeiro disparado pelas costas. O Muro deu origem a muitas tragédias que jamais se apagarão da memória colectiva.

O mais demolidor retrato do comunismo soviético imposto pela força bruta em Berlim durante 44 anos é o daquele soldado que também participava na construção do Muro e que no último instante escapa à barreira - e ao possível disparo das armas dos camaradas - para escapar ele próprio rumo ao Ocidente, imortalizado pela objectiva de Peter Leibing. Eis um daqueles casos em que uma imagem falou mais e melhor que mil palavras.

Um sistema que precisava de construir uma barreira de betão rodeada de arame farpado electrificado e guardado por militares armados até aos dentes para evitar que os seus próprios habitantes fugissem em direcção ao sistema 'inimigo', com risco da própria vida, estava antecipadamente condenado ao fracasso. Foi esta lição de história que tão eloquentemente o Muro da Vergonha nos deixou.

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Comunismo e ejaculação precoce

por Pedro Correia, em 28.03.09

 

A cineasta Raquel Freire concede hoje, ao semanário Sol, a mais hilariante entrevista que tenho lido na imprensa portuguesa de há muitos dias para cá. Fazendo um rasgado elogio dos "sistemas marxistas", onde "havia mais piscinas" do que no capitalismo, a realizadora de Rasganço compara os dois modelos alternativos de sociedade, centrando-se com nostalgia na Alemanha da era do Muro de Belim. E parece ver vantagens óbvias no comunismo: "O sexo na Alemanha comunista durava mais tempo e era melhor. As mulheres, como adoptavam as doutrinas feministas, achavam que também tinham que ter orgasmos, que não eram só os homens. Já as mulheres da Alemanha Ocidental faziam um bocado o papel de bonecas insufláveis, como as nossas mães e as nossas avós. Na Alemanha comunista usavam-se métodos contraceptivos e estava muito mais presente a ideia do sexo pelo prazer e não apenas com o objectivo da reprodução."

Certamente tão espantado como eu com esta torrencial associação entre sexo e ditadura comunista, o entrevistador, José Fialho Gouveia, pergunta-lhe: "O comunismo combate a ejaculação precoce?"

Raquel não se atrapalha: admite logo que sim. "Provavelmente, mesmo que os homens ejaculassem depressa eram obrigados a continuar a relação e a dar prazer às mulheres." Lembrei-me então daquelas célebres fotos dos beijos na boca entre Brejnev e Honecker - dois símbolos do anacrónico mundo comunista - destinados a selar a "solidariedade internacionalista" sob a foice e o martelo.

Nada melhor, com efeito, para combater a ejaculação precoce...

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Na China comunista (2)

por Jorge Assunção, em 15.03.09

Foi dada "liberdade" e "paz" ao povo tibetano, isto segundo a marioneta que o regime colocou como líder espiritual da zona.

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Na China comunista

por Jorge Assunção, em 14.03.09

Na China, a concentração do poder no povo em poucos, permite que as marcas populares de luxo Louis Vuitton, Gucci, Hermès e Mont Blanc, entre outras, não tenham muitas razões de queixa neste mês de Março.

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Estados-censores

por Pedro Correia, em 12.03.09

 

Hoje, Dia Mundial Contra a Censura na Internet, vale a pena sublinhar quais são os 12 países que praticam com mais determinação esta modalidade de censura:

 

Arábia Saudita

Birmânia

China

Coreia do Norte

Cuba

Egipto

Irão

Síria

Tunísia

Turquemenistão

Uzbequistão

Vietname

 

Quatro destes países, verdadeiros estados-censores, são considerados faróis do 'socialismo' pelo PCP: China, Coreia do Norte, Cuba e Vietname. Recordo o que referiam as teses apresentadas pela direcção do partido ao congresso de Novembro de 2008: "Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à «nova ordem» imperialista, são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista – Cuba, China, Vietname, Laos e R.D.P. da Coreia."

É útil anotar estes factos para reflectirmos melhor quando voltarmos a ouvir os comunistas portugueses denunciar algum atentado à liberdade. Seja em que parte do globo for.

 

(Via Der Terrorist)

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