Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Esse irresistível sentimento colectivo...

por Teresa Ribeiro, em 29.08.17

O caso dos livros da Porto Editora chamou mais uma vez a atenção para o fenómeno do pensamento de manada, que as redes sociais vieram instituir quase como pensamento único e a que desgraçadamente nem os profissionais da Comunicação Social escapam. 

Sempre que acontece uma história assim pergunto-me por que é que pessoas reconhecidamente inteligentes se deixam enredar tão facilmente, precipitando-se a replicar as opiniões que circulam. O mesmo acontece na política, onde encontro tantos que apesar de não terem interesses ou carreiras a defender nesse sector, não hesitam em apoiar acriticamente os líderes partidários da sua simpatia. 

E a resposta que encontro é sempre a mesma: Porque o pensamento independente priva-as de tudo o que é bom no pensamento "clubístico". Dessa componente lúdica não querem prescindir, nem mesmo em nome das causas mais nobres. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

Ricardo-Arajo-Pereira1_0.jpg

 

Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esplanada de praia

por Teresa Ribeiro, em 30.07.16

praia1.jpg

 

Desamparado, o casal seguia com uma atenção esforçada a conversa do miúdo. Falava do quê? Talvez do Pokemon Go. O pai segurava o sorriso, olhos distraídos, mais atentos aos seus gestos e expressões animadas do que ao que dizia. A mãe observava-o silenciosa, naquela paz desconsolada de quem sabe que está a perder qualquer coisa, embora não saiba o quê.

No mar, famílias como a deles preenchiam com mergulhos e braçadas o mesmo sudoku feito de horas e horas de tempo livre. Mas havia os outros, os que em grupos ruidosos faziam o Verão. Gargalhadas e conversas alheias mescladas de pregões "Olhá bola de berlim!", choros de bebés, ralhetes "Agora não vais para a água!". A banda sonora de sempre.

Mais tarde, depois do banho, quando o casal e o filho se estenderem na toalha ao Sol, essa vida difusa há-de embalá-los e compor, enquanto dormitam, uma apaziguadora ideia de férias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Off line

por Teresa Ribeiro, em 24.04.16

escape-4.jpg

 

Cada vez mais passo folgas e férias off line. Liberta de ecrãs tácteis e portáteis, sinto-me como se tivesse feito a mim própria um restart. Condescendo só em relação ao telemóvel, nas estritas funções de telefone. Não é um gesto de rendição, pelo contrário. Vejo esta evidente dependência com simpatia. É a prova em como algures em mim floresceu este sinal de contemporaneidade e isso descansa-me, porque aproxima-me dos padrões da normalidade. Sim, dependo totalmente desta máquina enquanto telefone. Sem ela experimento uma sensação de isolamento incómoda, como se me tivessem cortado o cordão umbilical que me liga à corrente universal.

Mas é tudo. Não consigo entregar a alma às redes, à Internet. Continuo a sentir fascínio pelo de sempre. Pelas banalidades, por acaso também tactéis e a cores, do mundo real. Receio que já não tenha cura. Já experimentei fazer um refresh, mas nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Yes men

por Teresa Ribeiro, em 01.04.16

wgcta1_725997_L1.jpg

 

A opinião que António Capucho tem acerca dos critérios de Passos Coelho para seleccionar o seu staff é-me indiferente, o que me interessa é a reflexão que me suscita sobre a prática, que me parece corrente, de pessoas com cargos de decisão nomearem para as suas equipas preferencialmente gente que não arrisca uma discordância, dizer o que pensa, comprar uma briga em nome de um valor mais alto, que é o de desempenhar o seu papel com competência.

Dir-me-ão que isto é natural por parte de gente que se pensa dona da razão, que gosta de impor as suas ideias e acredita piamente nas suas capacidades e no seu instinto. E eu continuo a pensar que é comum, mas não é natural.

Não é natural que abdiquem de ver e ouvir através das pessoas de confiança que escolheram para trabalhar consigo. E ainda é menos natural que confiem mais depressa em quem lhes dobra a espinha do que nos que pretendem prestar colaboração exercendo as suas funções com brio. Mas exercer o poder, para muitos, é isto. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da lamúria

por Teresa Ribeiro, em 10.08.15

Desabafar é bom. Ninguém contesta. Tem um efeito terapêutico e até há uma classe de profissionais - os psicólogos - que vive disso.

Já queixarmo-nos é mau. Diz que é doentio. Segundo a nóvel cultura passista, é um traço de identidade nacional que nos desclassifica e como não há português que suporte identificar-se com o que mais se critica nos portugueses, este considerando caiu fundo na consciência colectiva. Logo se ergueram vozes aqui e ali contra a lamúria, esse vergonhoso desporto lusitano. Eu, que não tenho a veleidade de me considerar imune às modas, também passei a ter mais cuidado e quando sinto um impulso irresistível para partilhar o que me perturba o espírito, termino sempre com um pensamento positivo, do género "não há-de ser nada", que é para ficar bem claro que não me estou a lamentar, estou é a desabafar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da tristeza

por Teresa Ribeiro, em 09.07.15

Nos tempos que correm vigoram leis de comportamento muito rígidas. Quem faz questão de alinhar o pensamento pelas tendências da moda Primavera/ Verão e Outono/ Inverno dos últimos anos não pode ser pessimista, nem velho, nem inseguro, nem piegas, nem triste. De todos estes ditames o que mais me incomoda é o que proibe a tristeza.

No esforço por sermos optimistas até reconheço um efeito terapêutico. É assim uma espécie de pilates para a amígdala. A negação do envelhecimento, não sendo das atitudes mentais mais saudáveis, tem efeitos colaterais coloridos que não trazem mal ao mundo. O combate à insegurança e à pieguice admito que pode fazer muito pelo nosso tónus emocional, mas a tristeza, senhores? A tristeza é uma necessidade. E é uma necessidade porque representa sempre um luto. O luto de uma alegria que nunca se chegou a ter ou que se perdeu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 8

por Teresa Ribeiro, em 20.06.15

No elevador:

- Ontem anunciei aos meus filhos que ia ficar sem emprego. E sabes como é que reagiram?

- Como?

- Parecia que estavam combinados. Trocaram olhares, deram um pulo e gritaram: "Yes!!!"

- Tadinhos. Mal te viam...

- Pois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 7

por Teresa Ribeiro, em 17.06.15

Ao telefone:

 

- Então e o Sebastião, já melhorou?

- Tive que ir outra vez com ele à clínica, mas disseram-me para não me preocupar, que isto agora vai com o tempo.

- Com mais uns miminhos ele arrebita, vais ver.

- Tem passado todas as noites comigo.

- E o Luís não se chateia?

- Diz que ele ressona, nunca está quieto e larga muito pêlo. Mas já o pus à vontade. Se quiser, que vá dormir para o sofá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 6

por Teresa Ribeiro, em 16.06.15

Na esplanada:

- Agora, quando eu e o João estamos juntos quase não falamos.

- Isso não é bom.

- A questão é que não sei. Às vezes sinto-me bem por não ter que puxar assunto.

- Ah, então não é bom, é óptimo. Significa que já são íntimos.

- Não sei se é intimidade, se é desinteresse.

- Mas quando estão calados ficam aborrecidos?

- Não. Ficamos a jogar no telemóvel.

- Então não percebo qual é o teu problema.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas 5

por Teresa Ribeiro, em 14.06.15

No restaurante:

- Dantes dizia-se "ele é mulherengo, mas tem bom carácter". Agora diz-se "ele tem bom carácter mas é mulherengo".

- Ainda se pratica o relativismo o moral.

- Sim, mas já não se perdoa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Efeitos perversos da cultura azul cueca

por Teresa Ribeiro, em 10.06.15

Ela está reformada, agora não faz nada. Como a reforma é curta, dispensou a mulher a dias, de modo que para se ocupar limpa e arruma a casa, faz as compras, o almoço, o jantar e apoia a filha, que trabalha muito, ajudando as netas a fazer os trabalhos da escola e acompanhando-as ao ballet.

Ele também se reformou. Agora passa o tempo a dormir e a ver televisão. Ainda apareceu algumas vezes nos jantares de confraternização que os colegas organizam todos os meses, mas depois chateou-se. As piadas eram sempre as mesmas, as recordações partilhadas iguais. A verdade é que já não lhe apetece sair de casa. Os médicos diagnosticaram-lhe há pouco tempo uma depressão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do amor masculino

por Teresa Ribeiro, em 28.04.15

"O amor nos homens não é mais que o reconhecimento pelo prazer recebido" - Michel Houellebecq in "Submissão"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 4

por Teresa Ribeiro, em 18.04.15

No metro

- Eu bem podia pôr um anúncio a pedir emprego numa dessas páginas em que as pessoas se oferecem para ter relacionamentos: "Jovem licenciada em Biologia bem parecida solteira e sem filhos deseja casar-se com a profissão a qualquer preço".

- Eheheh! Experimenta. Hoje em dia valorizam muito a criatividade.

- É fora da caixa, não achas?

- Totalmente fora da caixa!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Losers

por Teresa Ribeiro, em 28.03.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Loser é um insulto que ouvimos com tanta frequência nos filmes e séries de tv americanas que mais parece um tique de linguagem. Entre nós "és um falhado" pode dizer-se, mas não andamos por aí a ouvi-lo na rua. Imagino-o a aplicar-se só em contexto dramatico-telenovelesco e mesmo assim em privado. Parece que não, mas soa mais pesado que um vulgar "és um merdas", algo que facilmente concebemos ouvir alguém proferir à porta de um café ou em frente a um grupo de amigos. Há até quem use o impropério com bonomia "anda cá meu merdas, dá cá um beijinho". E quem diz este, diz outros, até mais cabeludos.

A diferença entre este género de insultos e o estrangeirado "és um falhado" está logo à partida na forma como os pronunciamos. A emoção que carrega o nosso vernáculo retira-lhe conteúdo, pois é sabido que o que dizemos com raiva não corresponde necessariamente ao que pensamos. Loser, sempre o senti, possui a frieza de um golpe de arma branca. Começa no tom, que não é de raiva, mas de desprezo. Não julga o carácter, mas a capacidade de sobrevivência. É um chumbo numa sociedade onde ter sucesso e ser popular é tudo. E é aqui que se chega à questão da filiação ideológica do vitupério americano. Loser é um anátema. Corporiza tudo o que não se quer ser numa sociedade que odeia falhados.

Claro que também por cá não nos faltam recursos linguísticos para humilhar o próximo. A diferença que por enquanto existe entre uma sociedade como a americana e a nossa é que ainda não é compulsiva, mecânica e massiva a utilização do insucesso como arma de arremesso. Mas tudo indica que estamos quase lá. Há dias, no cinema, um anúncio a uma aplicação para telemóvel rematava com o icónico vocábulo. "Loser", assim mesmo, sem tradução. Para que o conceito passe com toda a sua força expressiva e fique.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O sucesso orwelliano

por Teresa Ribeiro, em 21.02.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Valoriza-se muito o acesso à cultura no seio familiar para justificar as desigualdades que existem à partida entre crianças em idade escolar e nunca se discute o acesso a competências funcionais que, mais que os livros, são determinantes para a sua evolução.

Agora que tanta importância se atribui à inteligência emocional, algo que se determina muito precocemente na vida, devíamos estudar melhor esse campo para perceber porque é que alguns aplicam com êxito nas relações que estabelecem com os outros os princípios que defendem os livros de auto-ajuda sem alguma vez os terem consultado e outros se afogam nessa literatura, em sessões de psicoterapia, pílulas da felicidade e sabe-se lá que mais sem nunca alcançarem os efeitos desejados.

A prova de que motivações para alcançarem o sucesso não faltam a estes falhados é que o negócio dos livros de "aprenda-você-mesmo-a-ser-o-máximo" é um negócio de milhões. A conclusão que muitos tiram depois de anos de psis, prozacs e leituras do género é que a dificuldade não está em assimilar a teoria, mas em levá-la à prática com autenticidade. Não há nada mais patético do que ver um triste a tentar ser engraçado ou um tímido a dar-se ares de predador. A autenticidade fareja-se.

Não é preciso ensinar a crianças da pré-primária quem são os líderes naturais da turma. Os traços de personalidade identificam-se na primeira infância. Nascemos com tendências comportamentais genéticas que rapidamente desenvolvemos ou atrofiamos conforme o teatrinho familiar em que nos achamos inseridos. O optimismo, o pessimismo, o sentido de humor, a autoconfiança, a insegurança, a coragem, o medo, a violência, a inveja ensinam-se. E são esses ensinamentos que ficam, que nos ficam para a vida. Nestes tempos de facebook constatamos invariavelmente que pessoas que não víamos há décadas "não mudaram nada" e é a essa massa de pizza que nos referimos, não aos ingredientes que lhes juntaram ao longo dos anos.

Tal como as diferenças de acesso à cultura, também estes diversos níveis de acesso precoce à alegria, à tristeza, ao medo, à confiança, etc, deviam ser estudados para não se cometerem tantas injustiças na avaliação que fazemos dos outros. Quando não existia tanta pressão para sermos iguais na resiliência, optimismo, pro-actividade e competitividade, os falhados ao menos podiam levar uma vida mais sossegada. As diferenças aceitavam-se com naturalidade e conviviam bem. Não duvido de que o aumento exponencial de casos de depressão que se verifica nos últimos anos no mundo ocidental tem a ver com o sentimento de exclusão que a "felicidade" orwelliana inspira nos que por natureza não são tudo o que hoje se deve ser, ou pelo menos parecer.

Há dias encontrei na net a reprodução online de uma entrevista que a conceituada professora de Neurologia Teresa Paiva deu em 2010, à revista das Selecções do Reader's Digest. Não duvido que se deve à sua formação científica e longa experiência profissional ter falado de si e do seu sucesso nos seguintes termos:

"Como não me fiz a mim própria, como não me escolhi, não tenho uma particular vaidade de dizer que sou assim ou assado. Não sei se devemos ficar muito orgulhosos por ter feito uma coisa; no fundo temos essa potencialidade. Esta humildade é importante tê-la".

Pois. Quanto mais se estuda o cérebro, mais se percebe até que ponto o "hardware" e o "software" se condicionam mutuamente. Onde começa e acaba o verdadeiro mérito de se ser assim ou assado é certamente uma das questões que ficam no ar para quem mergulha nesta área do conhecimento.

Ela disse "humildade"? Aí está uma palavra proscrita. Deviam dizer-lhe que na novilíngua orwelliana é um conceito que não existe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amores perfeitos

por Teresa Ribeiro, em 14.02.15

 

 

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Já me tenho perguntado se farei parte do número de pessoas que gostam mais de animais do que de gente. É que há provas que me incriminam. Já chorei muito mais pela perda de um gato do que por vários parentes próximos que se finaram. E o pior é que quando penso nisso não sinto culpa, apenas perplexidade.

Enquanto escrevo estas linhas olho para o Boogie, o meu erro de casting, que se aninhou, esfíngico, a dois palmos de mim. No deve e haver dos afectos, este está claramente em vantagem. Nunca o verguei. É demasiado selvagem para se render a afagos e latas de whiskas. Da sua estirpe rafeira constam muitos sobreviventes, não duvido. Trinca espinhas que resistiram à fome, ao frio e à crueldade humana com todas as ganas. E lá estou eu a justificar-lhe a agressividade opondo-o aos da minha espécie, que tenho sempre mais dificuldade em desculpar. Vai-se a ver e é isto. O amor que reservo para os humanos é mais exigente.

Tem dias em que me apetece atirar o meu hóspede pela janela, porque é um sacana de um gato impossível de domar, interesseiro, egoísta, altivo e arisco. Mas depois penso que é apenas um animal bravio que nunca há-de perceber nada de nada. Até de uma criança pequena se espera mais entendimento.

Os animais não compreendem nada de nada, estão a milhas da nossa complexidade. Podia até ser um monstro que este estúpido gato não perceberia. Talvez o maior conforto que os animais nos dão seja esse: são incapazes de nos julgar e até os mais ariscos nos aceitam tal como somos.

Amar nestas condições é tão fácil, que não resisto. Duvido que quando este gato me morrer fique lavada em lágrimas, como já me aconteceu com outros animais que tive, mas sei que vou sentir-lhe a falta, porque faz bem beneficiar desta aceitação sem restrições. Se a isto ele juntasse o amor irracional e portanto sem limites, de que tantos bichos são capazes - e não falo só de cães e gatos, mas de seres tão bizarros como cágados, tão minúsculos como passarinhos - levar-me-ia ao tapete e mais uma vez a perguntar-me se porventura gosto mais de animais do que de pessoas.

Mas a pergunta, bem vistas as coisas, não é esta. A pergunta é: "Gosto mais de amar animais ou pessoas?". A resposta, que não é linear, leva-me à verdadeira questão de fundo: "É mais fácil amar animais ou pessoas?"

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A violência mais cobarde

por Teresa Ribeiro, em 03.02.15

São machos traídos pela vida e que descontam na mulher e nos filhos todo o ódio acumulado desde a infância por culpa dos pais, dos tios, dos irmãos, dos colegas, dos professores, dos vizinhos, das namoradas, dos patrões e do raio que os parta.

Mais do que acusá-los, puni-los e dar visibilidade aos seus crimes era importante chamá-los pelos nomes. Um macho que gosta de arrear na mulher e nos filhos chama-se cobarde. Em todas as línguas.

Depois da censura social dos actos - coisa ainda tão inacreditavelmente recente - era importante avançar para o enxovalho social dos sujeitos, usando a terminologia que melhor entendem. Ora a um macho que é macho o pior que podem chamar é cobarde. Gostei da campanha que passou no Verão sobre o abandono dos animais, em que várias figuras públicas diziam o que pensavam sobre esses donos. Não tenho dúvidas de que uma campanha feita em moldes semelhantes sobre violência doméstica ajudava a estigmatizar os agressores, o que seria bom. Porque o estigma tolhe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que as estatísticas dizem sobre nós

por Ana Lima, em 18.11.14

A mim, que ando diariamente de transportes públicos e que, a partir de Janeiro do próximo ano, não poderei sequer levar as minhas filhas ao médico de carro porque, de acordo com as novas regras de circulação na Zona de Emissões Reduzidas em Lisboa, ele é velho de mais para circular no percurso entre a minha casa e o consultório, há determinadas notícias que me conseguem surpreender. E não é inveja que sinto (pronto, talvez um bocadinho). É mesmo incredulidade.

E cito: "o crescimento do mercado é liderado essencialmente pelos países que passaram por uma situação de resgate financeiro". É como se os portugueses, numa tentativa, frustrada, na minha opinião, de fazerem humor, mostrassem aos seus financiadores externos que estão numa fase de franca recuperação. Mas não é isso mesmo que esses países, produtores dos bens que nós insistimos em comprar, querem que aconteça?

Muitas coisas estão em jogo, sabemos, nomeadamente o facto das empresas portuguesas que vendem para a indústria automóvel também beneficiarem com esta situação. Numa economia global é claro que, num mesmo território, há sempre quem ganhe e quem perca com os comportamentos económicos dos consumidores. 

Mas, perante esta liderança nas vendas de um bem como o automóvel e a situação da maioria das famílias portuguesas, não posso deixar de pensar que é a um espelho que o Zé Povinho faz o seu gesto. No fundo é a chamada re...

Zé Povinho.jpg

 Imagem copiada da net

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Monogamia

por Teresa Ribeiro, em 01.11.14

Era um serial lover. A cada amor que lhe morria nascia um outro, ainda mais forte, não pelas mulheres, mas pelo seu insuperável poder de as seduzir. Ninguém lhe resistia, nem mesmo ele. Jamais se trocaria por outro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lolitas

por Teresa Ribeiro, em 27.10.14

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

Todos os dias as vejo por aí a esvoaçar, de calções muito curtos, meias de rede, saltos altíssimos, soutiens push up, maquilhagem pesada, unhas de gel, tatuagens, piercings, tudo o que a moda lhes ensinou e o comércio lhes vende a preço de saldo. Algumas são tão novinhas, mas já tão mulheres. Coxas e peitos poderosos, a explodir na roupa.  Tão jovens que é natural que confundam tudo e não percebam que a moda é traiçoeira. As roupas que ficam a matar na modelo esquelética da capa de revista por vezes não vão bem em corpos roliços.

Julgam-se sexy porque atraem os olhares, mas mais parecem meninas de bar de alterne. A distância entre a vulgaridade e a poesia é tão curta que dói ver estas ninfetas a afirmar-se, muito donas da sua sexualidade, da forma errada. Será que não têm mães em casa para as ensinar a vestir? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Afrontamentos

por Teresa Ribeiro, em 03.09.14

Era uma pessoa experiente. Sabia em poucos minutos traçar o perfil dos que cruzavam o seu caminho. Naturalmente, tal não o poupara a decepções, pois a natureza humana é traiçoeira e até o mais perspicaz pode enganar-se. Mas essas surpresas não o incomodavam, pois com elas só tinha mais a aprender. O que detestava era descobrir nas pessoas que desclassificara sumariamente qualidades que punham em causa os seus juízos. Por esses, que o afrontavam, é que destilava todo o seu rancor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Penso rápido (11)

por Pedro Correia, em 28.06.14

Os especialistas alertam: em 2050, caso se mantenham os hábitos actuais, metade da população dos países desenvolvidos será obesa. Isto numa altura em que o planeta terá cerca de 40% por cento mais habitantes do que tem hoje, podendo totalizar 9,1 mil milhões. Haverá portanto cada vez mais gente a comer em excesso, por um lado, e cada vez mais gente a comer de menos, por outro. As assimetrias vão ampliar-se em progressão geométrica. Com os consequentes riscos para a saúde. E até para a estabilidade social. Porque o progresso, com ou sem aspas, é sempre uma arma de dois gumes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Coisas realmente importantes

por Teresa Ribeiro, em 25.06.14

Ao contrário do que se costuma afirmar, as mulheres não querem modificar os homens. Pelo contrário, desejam que sejam exactamente como se descrevem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da banalização da crise

por Teresa Ribeiro, em 20.06.14

Fala-se muito da banalização da violência a propósito do que vemos na TV, no cinema e na Internet, sem nos apercebermos de que as imagens que invocamos para teorizar de tempos a tempos sobre o assunto são também elas clichés. Aos palcos de guerra e histórias de banditismo que nos mostram nos telejornais e às cenas de crueldade dos filmes e desenhos animados esquecemo-nos de acrescentar as notícias sobre a miséria humana que nos chegam todos os dias a propósito dos efeitos da crise económica. Ao desemprego, à fome, à violência doméstica em crescendo, ao abandono dos velhos e às estatísticas que nos revelam assimetrias económicas e sociais que nos revoltam, chamamos coisas diferentes, mas não as agregamos sob a designação genérica de violência. E no entanto é o que isto é. Se não a pensamos nestes termos é talvez porque sendo tão próxima se torna insuportável para quem a vive classificá-la assim.

Enquanto janto, à hora dos telejornais, as imagens da Síria e do Iraque por vezes chegam-me difusas. É a banalização e a distância a produzir os seus efeitos. Os mesmos que se produzem nos decisores políticos e nos que por diversos motivos conseguiram passar pelos intervalos da chuva desta crise. Enquanto comem o bife já não vêem realmente o que corre no ecrã acerca das vidas que condicionam, regulam ou simplesmente lhes passam ao lado. Até porque à frente de um ecrã todos somos passivos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Psicodrama

por Teresa Ribeiro, em 07.05.14

Este título é todo um tratado. Lilly Allen "admite" que vai ao psicólogo. Se fosse ao dentista não teria de "admitir", bastaria ir. Aliás, se fosse ao dentista, ou ao ginecologista, ou otorrinolaringologista e por aí fora não era notícia. Ir ao psicólogo, apesar de a depressão já ter sido considerada a doença do século, ir ao psicólogo, apesar de se saber que se vendem milhões de ansiolíticos e anti-depressivos, ir ao psicólogo é um embaraço.

Cuidar de qualquer parte do corpo é natural. Presume-se que o corpo precisa de cuidados, por isso vigiá-lo revela-se até uma atitude saudável. Já admitir que psicologicamente nem sempre tudo está bem, só se deve fazê-lo em tese. Os media, de tanto falarem no assunto até tornaram essa ideia consensual, mas uma coisa é fazer conversa de salão e outra é dizer que se vai ao psicólogo. No mínimo está a confessar-se uma debilidade, no máximo uma disfunção.

Nos tempos em que tudo se revela na Internet, incluindo as partes pudibundas do corpinho e o que se faz com ele nos tempos livres, só não se pode mostrar as fragilidades da alma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Beleza

por Teresa Ribeiro, em 06.04.14

Ao domingo, de manhã cedo, pouca gente anda no metro, de modo que na carruagem onde ela gritava não estavam mais de trinta pessoas. Uma pequena plateia para uma grande actriz. Parecia um anjo de Botticelli. Com a pele rosada e as bochechas a estourar no rosto rechonchudo emoldurado por caracóis dourados, fascinava-nos como sempre nos fascina a perfeição estética.

Não deveria ter mais de três anos, no entanto já dominava com desenvoltura o palco. Num choro convulsivo sem lágrimas, aquela boneca eriçada exigia a lua: "Eu quero que me compres uma coisa, já!" A atitude abnegada da sua interlocutora indicava-nos uma posição subalterna. "Eu quero  que me compres uma coisa!" E os olhitos experientes varriam-nos sem nos fixar, só para colher o efeito.

Sentada ao lado, a irmã mais velha chuchava no dedo, cosida ao banco. Já não tinha idade para fazer aquilo. De olhos no chão escondia-se atrás da cortina de cabelos que lhe caía sobre o rosto bonito mas vulgar. 

Em vão, a empregada pedia à pequena déspota para se acalmar, prometendo-lhe mil coisas assim que chegassem a casa. Calou-se por momentos quando saíram, mas logo no cais recomeçou a gritaria: "Então eu quero a minha almofada! Eu quero a minha almofada, já!"

Fiquei a imaginá-la daqui a muitos anos, quando já for uma mulher. Será que alguma vez vai aprender a suportar tanta beleza?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Orgulho e soberba

por Teresa Ribeiro, em 04.04.14

Em regra as pessoas confundem orgulho com soberba, quando na sua raiz estão duas atitudes mentais muito diferentes e, em certos aspectos, opostas. O orgulho é defensivo. Com ele defende-se a dignidade quando, nos casos em que a razão está do nosso lado, nos recusamos a dobrar a cerviz. Já a soberba agride, pois pressupõe um aviltante sentimento de superioridade. É por soberba que nunca se pede desculpa, mesmo quando se está em falta. Ao invés, por orgulho há até quem faça questão de se desculpar, revelando dessa forma o seu apurado sentido de justiça.

O orgulho regula, a soberba discrimina. O primeiro exibe-se, a segunda disfarça-se de... orgulho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Capricho

por Teresa Ribeiro, em 09.03.14

O capricho por definição é uma vontadinha. Pressupõe futilidade, arbitrariedade, falta de fundamentação lógica. O meu gato é caprichoso. Os gatos são-no ou pensamos que são, uma vez que por óbvias limitações comunicacionais jamais poderemos aferir com rigor quais as suas motivações. Passando este conceito pelo crivo da cultura vigente percebe-se porque é o capricho considerado uma manifestação tipicamente feminina. Coisa de gatas, já se vê.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Boas maneiras

por Teresa Ribeiro, em 27.02.14

"Ignorar é a forma mais elegante de maldade" - postou ela no Facebook

Autoria e outros dados (tags, etc)

Foi-se a ternura

por Teresa Ribeiro, em 03.02.14

Foi amor à primeira vista. Manhattan, a que assisti ainda adolescente, levou-me logo ao tapete. Nunca ninguém me tinha feito rir assim da natureza humana. Era como se a cada gargalhada ele me insuflasse subtis doses de ternura. Fiquei viciada em Woody Allen. Adorei todos os seus filmes, mesmo aqueles de que não gostei assim tanto. Brincava com essa minha cegueira de convertida. E chamava-lhe "o meu Woody". Quando Mia Farrow armou escândalo acusando-o de pedofilia, não hesitei em alinhar com o coro que a acusava de histeria e despeito. Afinal eu conhecia-o. Aquela alma sensível que timidamente se escondia atrás de um sentido de humor irresistível podia lá assediar sexualmente uma criança.

Ontem levei um duche frio. É bem feito. Penso que em dado momento me terei convencido que aquela aparência frágil, absolutamente desprovida de glamour, era o seu certificado de garantia. Provava que a imperfeição que lhe cabia era sobretudo a que se via do lado de fora. Que tonta! Quem me mandou chegar à meia idade ainda a acreditar que há génios bons. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na festa

por Teresa Ribeiro, em 01.01.14

- Já reparaste como ela acha gracinha a tudo o que o marido diz?

- Vê-se que é feliz com ele.

- Até porque nem se preocupa em mostrá-lo.

- Quem é feliz não precisa.

- Nem quer.

- Pois, a verdeira felicidade não se exibe.

- Às vezes até se esconde, à cause des mouches.

- E é tranquila.

- Tão tranquila.

- Deve ser por isso que ela nem rugas tem.

- É a feliz do grupo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Paroles, paroles

por Teresa Ribeiro, em 20.12.13

Gosto de assistir a um bom diálogo entre homens. Daqueles em que não dizem absolutamente nada e o essencial da comunicação se fica pela respiração das frases - se é que se pode chamar frases a certos alinhamentos monossilábicos - e a linguagem corporal. Esta relutância em verbalizar o que lhes vai na alma tem a ver, já se sabe, com os rigores dos códigos masculinos que aconselham a máxima prudência com as palavras. Todos sabem, porque é atávico, que as palavras falam sempre demais, seja porque desvendam ou porque mentem. Homem que é homem guarda silêncio. Guarda-se. Daí as conversas de surdos, os diálogos avaros quando não há assunto ou o assunto é pessoal e portanto intransmissível.

Esta reserva é tanto mais curiosa quanto se sabe que às mulheres não se aplica. Em contraste com o estilo adoptado entre machos a comunicação com as mulheres é muitas vezes caudalosa, impudente, sentimental. Nos seus jogos de sedução os homens revelam-se surpreendentemente hábeis na retórica, desmentindo a ideia de que são ineptos na comunicação verbal, sobretudo quando versam temas sensíveis.

Será que é porque desdenham das palavras que tão bem as sabem usar para expressar tantas vezes o que não sentem?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O amor sabe-se sempre - II

por Teresa Ribeiro, em 09.10.13

As pessoas que são amadas, sabem-no. Se têm dúvidas é porque não são amadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A amante

por Teresa Ribeiro, em 08.10.13

Vestia-se e falava como os mais novos, para não se deixar ultrapassar. Pintava os cabelos, combatia as rugas com tratamentos anti-envelhecimento e a celulite com massagens e banhos de algas. Malhava no ginásio para evitar a acumulação de gordura localizada e um dia perdeu a cabeça e até investiu numa mamoplastia, para continuar a tê-las no sítio. "A idade é a que se tem no espírito", repetia ao espelho, enquanto aplicava os cremes tonificantes.

Foi jovem até ao dia em que se viu sem emprego e sem dinheiro. Percebeu então que a juventude era uma amante exigente, leviana e cara. Quando se deixaram para sempre primeiro estranhou, mas depois sentiu-se bastante aliviada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como turistas japoneses

por Teresa Ribeiro, em 29.09.13

Houve um tempo em que se gozava muito com os turistas japoneses por dispararem com as suas Minoltas e Nikons sobre tudo o que mexia. Agora esse frenesim passou a ser global. Com os telemóveis fotografa-se tudo, até a roupa nas montras (fiquei a saber através de uma reportagem de rua que vi na televisão).

Este frenesim nipónico corrompe o que deveria ser sempre a nossa relação com a fotografia: uma selecção criteriosa das imagens ou momentos que queremos resgatar do fluxo temporal contínuo, desafiando as leis do espaço e do tempo.

A banalização da fotografia está a roubar a alma aos retratos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O amor sabe-se sempre

por Teresa Ribeiro, em 21.09.13

Os filhos sabem sempre qual dos irmãos é o favorito, os pais sabem sempre qual o filho mais dedicado, os animais sabem sempre qual dos donos é o mais protector, os casais sabem sempre qual dos dois é o mais amado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Casais felizes

por Teresa Ribeiro, em 14.07.13

A do rés-do-chão, quando é vista na rua com o marido, parece uma matraca, não se cala. Os dois na casa dos 60, com dois filhos que já passaram dos 30, devem falar-se todos os dias há pelo menos 40 anos. É impossível que aquela mulher não lhe tenha repetido milhares de histórias e de opiniões pontuadas por tiques de linguagem, sempre tão abrasivos quando a conversa se esvai. Mas ele ouve-a com gosto. Nota-se pela forma como inclina a cabeça com o rosto distendido e lhe responde. Se um dia ela lhe faltar vai sentir-se a boiar numa cabine insonora e provavelmente sofrer de enxaquecas.

Já os do 1º esquerdo, ainda mais idosos, não falam. Como não têm filhos e já lhes devem ter morrido muitos familiares e amigos se calhar têm menos assunto. Mas o silêncio deles é aparente. Percebe-se que não deixaram de se falar pela serenidade que irradiam. Só não precisam é de palavras, que é o inverso do que acontece com os casais que não têm nada para dizer e por isso falam como se estivessem a afogar-se, agitando vogais e consoantes mudas numa conversa sem pé.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O fetichista

por Teresa Ribeiro, em 30.06.13

Era já um vício. Todos os dias gastava umas horas a espiá-las, procurando adivinhar através do que escreviam os seus traços de personalidade e potencial intelectual. Depois entrava no jogo ainda mais arriscado de lhes atribuir formas e traços fisionómicos sugestionado pela construção frásica, agilidade narrativa, enfim pelas características formais dos textos que lia. Quando um trecho o enfeitiçava deixava-se sempre tomar pela convicção de que a autora só podia ser linda. Pernas longas e bem  torneadas como a sua escrita, o rosto iluminando-se como a mais bela das frases intercalares entre o corpo e a alma.

Os seus dotes de comunicador facilitavam-lhe a abordagem elegante, com perfeita noção dos timings. Era sempre épica a fase em que as seduzia numa valsa progressiva que o arrebatava também. Entregue às mais requintadas fantasias nunca apressava o desfecho, que sabia fatal. Invariavelmente em passos curtos eram elas que acabavam a descer do pedestal com impertinências, sugestões de encontros e por fim ultimatos.

Cheias de pressa de tocar o chão, as princesas eram então descartadas em esplanadas e miradouros, generosamente enquadradas pela sua estética exigente. Nem sempre cedia à tentação de as ir espreitar, não fosse deparar com figuras sem estilo, cheias de erros de métrica no peito e nas pernas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O joelho

por Teresa Ribeiro, em 03.06.13

Maria Alice caiu, bateu com o joelho e ficou lesionada. O médico assegurou-lhe que no mínimo teria de ficar em casa duas semanas com a perna estendida, o suficiente para ter de desistir daquele trabalho que lhe ia pagar as contas. Mas que azar!, pensou, com todas as fibras do corpo. Essa intensidade vinda do fundo de si foi como uma onda que a mergulhou por momentos na tepidez da autocomiseração. Mas habituada que estava a não dar tréguas ao que lhe irrompia do peito, depressa passou aquele acesso depressivo pelo crivo da auto-análise.

Será azar bater com o joelho e ficar impedida de trabalhar sem direito a baixa porque não tenho contrato, o que também é um grande azar, ou uma sorte não cair de cada vez que podia ter caído e não caí?

À medida que se ia interrogando sobre o papel da sorte e do azar na sua vida Maria Alice sentiu crescer como uma erva daninha um sentimento de perda que lhe baralhou as ideias e impediu de definir com convicção qual a atitude a tomar perante aquela calamidade - era uma calamidade, porra! - a que, se fosse uma pessoa forte, só deveria chamar contratempo.

Por instinto relanceou os olhos para a estante. Onde é que o tinha posto? Aquele livro é que explica bem o que se deve sentir nestes casos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Usura

por Teresa Ribeiro, em 24.02.13

Antes, quando ficava feliz na expectativa de algo que depois não acontecia, recriminava-se pela sua precipitada euforia. Agora já não lamenta esse género de equívocos. Prefere pensar que apesar dos enganos ninguém lhe tira a alegria que sentiu, mesmo sem motivos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

N de nada

por Teresa Ribeiro, em 27.09.12

É preciso manter o foco. N sabe-o, mas os dedinhos dos neurónios estão sempre a puxá-la para baixo. Tempos houve em que se via como uma mulher de sucesso, eficiente no trabalho e despachada na cama. Agora envergonha-se das baixas sucessivas e para escapar a indagações isola-se. Já correu metade dos psiquiatras da praça, mas para aquela tristeza funda não há cura.

A escassez de serotonina no sistema nervoso central está para o seu humor, como uma fractura num pé para uma bailarina. Ambas as situações são incapacitantes, mas ao contrário da bailarina que contará com a simpatia e compreensão dos outros, no seu caso o padecimento será fonte de desconfiança até para si própria. 

Às vezes N repete os sintomas da depressão como um mantra em que se embala para combater a insónia, noutras ocasiões parte-se em duas e cita-os de si para si para apaziguar a sua permanente sensação de culpa. Esta actual cultura do faça-se você mesmo dificulta-lhe ainda mais as possibilidades de recuperação.O paleio dos gurus da psicologia positiva, as entrevistas das figuras públicas nas revistas, fotografadas em shorts proactivos e decotes desafiantes a dizer em Ariel "A felicidade constrói-se", confirmam-na como uma inútil, incapaz de reagir.

Quando se pode atribuir à depressão uma causa concreta é mais fácil combatê-la, mas a tristeza dela é endógena. Aprendeu-a em pequena ou até antes. Provavelmente já lhe vem no sangue, um orh tristíssimo que um dia expurgou a N colorida e bem sucedida.

Na vida ficcional de todos os dias N não tem lugar. No emprego hostilizam-na. A família e até alguns médicos olham-na de esguelha, os amigos desmobilizaram. Só nas estatísticas e nas notícias de jornal N faz sentido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os chiques espertos

por Teresa Ribeiro, em 10.07.12

São tão golpistas como os outros, mas actuam com muito mais elegância.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Psicobuilding

por Teresa Ribeiro, em 02.06.12

Andar devagar e seguir pela sombra - sei que esta é a regra a que se deve obedecer para melhor enfrentar o calor quando se circula na rua. Sei, mas quase nunca aplico, mesmo quando tenho tempo. Prefiro acelerar e avançar em linha recta condicionada pela necessidade de manter o meu sistema regulado segundo os níveis de desgaste diário a que me habituei.

O mesmo posso dizer dos meus métodos de gestão de tempo, de espaço e de sono. São insatisfatórios, mas asseguram-me as doses de stress sem as quais não consigo viver. Se me afastar progressivamente dos níveis mais funcionais da existência, a consciência das minhas imperfeições pode tornar-se inquietante. Sobretudo porque à luz da nóvel cultura pop que nos ensina os postulados da pro-actividade através dos vigorosos cursos e livros de auto-ajuda, não há nada que não se possa corrigir, desde o comportamento à personalidade. Hoje, diz-se, podemos ser tudo o que quisermos, "basta lembrarmo-nos a tempo que temos de andar devagar e pela sombra", dir-me-ia, todo sorrisos, um monitor de coaching, aproveitando o meu exemplo inicial (estes orientadores estudam até aos mais ínfimos pormenores as suas piadas espontâneas, numa demonstração eloquente de que tudo dá trabalho, até a espontaneidade).

Sim, se eu quisesse podia ser uma pessoa melhor, ganhando músculo nos aspectos em que posso brilhar e eliminando as gorduras que não me beneficiam, mas não há nada a fazer. Por causa desta minha inércia jamais me aproximarei de um modelo mais eficiente de comportamento. Falta-me ginásio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Com que voz

por Teresa Ribeiro, em 20.05.12

Há vozes desagradáveis, ridículas, envolventes, profundas, suaves, cuja marca influencia a forma como avaliamos os seus portadores. Imaginem o John Wayne com a voz tensa do Humphrey Bogart e algo de fundamental se perderia na composição do bom gigante. Jamais a Marlene Dietrich faria uma femme fatale convincente se tivesse o instrumento vocal da Melanie Griffith.

Transpondo a coisa para os actores que agora merecem a nossa atenção: teria Passos Coelho ganho as eleições se falasse como o Miguel Relvas? E se este último articulasse as palavras com a cadência do Vítor Gaspar seria agora menos suspeito aos olhos de quem o traz sob fogo? Se, por outro lado, Vítor Gaspar usasse o dobro da velocidade para anunciar as suas medidas de controlo orçamental, já teria despencado nos índices de popularidade?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Misoginia e dores de crescimento

por Teresa Ribeiro, em 18.03.12

As dores da puberdade expulsam as meninas à bruta da infância. Desde logo porque ao contrário das outras dores não arrancam suspiros de preocupação a médicos e pais. Pelo contrário, as reacções que suscitam oscilam entre a cumplicidade embevecida e a compaixão ternurenta.

O corpo aos onze, doze anos parece voltar-se contra nós e com ele a própria Natureza, mas o sereno acolhimento dos adultos feito às nossas dramáticas mudanças leva-nos a superar eventuais perplexidades com relativa facilidade. Talvez confundidas, porque de repente exigem-nos que aceitemos conceitos contraditórios nos termos, como "sofrimento bom" e "dores normais", mas decididas a fazer o que os outros esperam de nós.

É uma iniciação dura, mas que nos prepara para guerras mais subtis. Quando as hormonas começam a confundir-nos, na adolescência, já então estamos familiarizadas com a sensação de perda de controlo do nosso próprio corpo, ainda que passe a ser induzido por uma outra pessoa. 

Ao contrário, os meninos, virgens nesta matéria, só conhecem este sobressalto quando o alter ego que têm entre as pernas um dia acorda com vontade própria. Todos os cóbois e super-homens acabam um dia assim, com as calças na mão. Adormecem heróis e acordam desarmados, à mercê de uma qualquer diáfana salteadora de corações. A sensação de perda deve ser enorme. De uma só vez vai-se a autosuficiência, a harmonia e a paz da infância. Pior, que isso: vai-se a invulnerabilidade. A culpa neste caso tem um rosto. Não é o deles, é o de uma. E o dessa é o de todas.

A misoginia, não tenho dúvidas, nasceu dentro das calças de um adolescente e depois propagou-se como um vírus. Na raiz de todo o mal está um equívoco: o de que temos poderes ocultos, já que as provas parecem irrefutáveis, podem observar-se a olho nu.

É contra esse poder que se insurgem quando nos matam e esfolam. Talvez se não tivessem sido tão poupados pela mãe natureza e durante o crescimento houvessem passado por provas que os fizessem duvidar da sua proficiência percebessem melhor os mistérios do seu próprio corpo e nos deixassem em paz.

 

(Reflexão dedicada a Amina Al Filali)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Guerrilha

por Teresa Ribeiro, em 04.12.11

 

 

Pelo som que lhe chegou aos ouvidos ainda entorpecidos pelo sono, percebeu que o gato estava mais uma vez no cimo do móvel, a ameaçar as suas estatuetas da Indonésia. Estupor! - chispa ao levantar-se do sofá direita a ele. O bicho baixa o dorso em atitude defensiva e imobiliza-se fitando-a fixamente. Sai daí! - grita-lhe. Ele não se mexe. Tentar agarrá-lo não é opção, pois na precipitação da fuga poderia derrubar uma das peças. Enquanto medita nisto mantém os olhos fixos nos dele em expressão de ameaça. O bichano sustenta-lhe o olhar. Sai daí! - berra-lhe com rancor. As íris verdes assistem, impávidas, ao espectáculo. Sai, filho da mãe! Só as orelhas se movem, rodando na base, como um radar.

Irada, dá mais um passo na direcção do móvel e o gato, ao sentir ameaçada a distância confortável que os separa, põe-se em guarda, recuando ligeiramente as patas traseiras. Uma das peças quase cai. Ela sua. O ódio transporta-a para cenários de suplício: gato a explodir, gato picado, gato esfolado. Mas a razão aconselha-a a mudar de estratégia. Faz-se desinteressada, senta-se em frente à televisão e espera. Daí a poucos minutos sente-o saltar para o chão. Aproxima-se, cheira-a e depois afasta-se indolentemente deixando-a, ainda crispada, a vê-lo desaparecer de rabo alçado na direcção da cozinha.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Amores perfeitos

por Teresa Ribeiro, em 15.11.11

 

Afagava-lhe o pescoço com aplicação enquanto a via esticar o focinho e cerrar os olhos, em êxtase. Mas o afago não era para ela. Na verdade a mão dele deslizava ao arrepio de outros afectos.

"Nada como o amor dos animais", pensou, ao ouvi-la ronronar. Como se tivesse lido os seus pensamentos a bichana olha-o com doçura e delicadamente acomoda-se no colo desfrutando o calor que dele emana. Se falasse, dir-lhe-ia que também ele, que agora a observava embevecido a lavar as patas, era fácil de satisfazer. Sim, o amor dele por ela também era perfeito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Prêt-à-porter

por Teresa Ribeiro, em 05.10.11

- Posso ajudá-la?

- Obrigada, estou só a ver a nova colecção.

- Quer experimentar um destes? Vão estar muito na moda.

- Acha que me ficam bem?

- Minha senhora, a assertividade fica bem em qualquer corpinho.

- Deixe-me apalpar o tecido. Isto é mesmo assertividade, ou má-criação? É que hoje, como sabe, confunde-se muito uma coisa com outra.

- Aqui não vendemos material de contrafacção, pode confiar.

- Hum... (mirando-se ao espelho)

- Fica logo com mais personalidade.

- Pois, realmente andava à procura de algo que me desse mais personalidade, mas não sei... é que eu não sou assim.

- Se lhe juntar um pouco de simpatia e espírito positivo, dois acessórios que valorizam qualquer pessoa, vai ver que gosta.

- Sabe, mas eu nunca tive espírito positivo. É genético. Na minha família somos todos um pouco depressivos.

- Ah, por favor, não diga isso. Nem imagina como lhe fica mal. Confissões desse tipo estão completamente out.

- Pronto, está bem, então embrulhe. (Olhando em volta) Preciso também de uma coisa especial para uma festa.

- Ah, tenho aqui uma peça linda, da Psicologia Positiva.

- Mas isso não é uma marca caríssima?

- Não, pelo contrário. Comparada com a Psicanálise é uma pechincha.

- Sim mas a Psicanálise é alta costura...

(suspiro de enfado) - Quer experimentar um pouco de ousadia?

- Hum... acho que já não tenho idade para isso. Mas gosto daquele ali. Quanto custa?

- O espírito de poupança é muito retro, mas efectivamente voltou a usar-se e está muito em conta. Não sei se será adequado para uma festa, mas... quer que embrulhe?

- Pode ser.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um, dois, três e nascer outra vez

por Teresa Ribeiro, em 28.09.11

Envelhecer já não é encarado como um fenómeno natural. Agora chamam-lhe arte. Não me parece mal. Se considerarmos os testemunhos dos clientes das plásticas e até dos que fazem questão de celebrar o aparecimento das rugas como algo libertador, até podemos considerá-lo uma arte de palco. Às vezes esses que se manifestam contra a corrente exibem tal alegria com os seus duplos queixos e cabelos brancos que por vezes os confundo com os outros. Há alegrias tão contentinhas que até parece que levaram silicone nos entrefolhos.

As obsessões colectivas são sempre inquietantes e ridículas. Inquietantes, porque não há como evitar que se tornem nossas, nem que seja só um bocadinho, e ridículas porque os comportamentos obsessivos, que o diga Woody Allen, têm um enorme potencial de comicidade.

Já li muito sobre a arte de envelhecer ou, em versão mais musculada, sobre o combate ao envelhecimento. Das bulas dos cremes hidratantes que nos prometem a juventude aos 40, até às receitas dos famosos sem idade, mas este fim-de-semana, de entre uma série de entrevistas a figuras públicas maiores de 60, destacou-se uma frase cintilante: "Estou a programar o meu futuro para ser livre, como fui quando era pequenina". Quem a disse foi uma rapariga chamada Ana Bola. Ao lê-la percebi porque a idealização da minha carcaça velha a escarafunchar, de cócoras, na terra, plantando couves ou alfaces para dar à coisa um propósito adulto, me persegue há tantos anos. É um projecto que tem muito mais sentido do que alguma vez lhe atribuí. Revela até uma estética - trata-se de um círculo que se fecha - que não me fica nada mal. Mas sobretudo este meu sonho de acabar os meus dias numa quinta, ou até mesmo num quintal, a tratar de bichos e couves, apresentou-se-me, à luz desta confissão da Ana Bola, como um sinal de resistência saudável a esta cultura fóbica que desenvolvemos contra nós próprios, todos velhos em potência. Não é à toa que ela tem envelhecido tão bem, sempre a esbanjar uma energia de catraia. Ah, grande Bola, que me iluminaste. O envelhecimento "combate-se" é assim! Assim e com alguns cremes, vá...

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D