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Comissão de Serviço XXIV

por Fernando Sousa, em 26.09.12

O ÁS DE PAUS

 

Por qualquer motivo, naquele dia fui atrás dos pés até à caserna da minha secção, um lugar esconso nas traseiras do DRM.

Depois do pequeno quintal, uma nesga de luz debaixo da porta mostrava que estavam todos ainda a pé; eram nove da noite, hora incomum para visitas em Moçambique.

Como também ouvi um sussurrar, bati.

- Quem é? – perguntou uma voz, que não percebi logo de quem, enquanto o sussurro morria.

Respondi e abriram-me a porta.

Encontrei todos os soldados, todos pretos, à volta de uma mesa, com um baralho de cartas, no meio, virado sobre um ás de paus. Jogavam. Mas todos estranhamente sentados sobre papéis, que lhes saíam indiscretos de debaixo do rabo.

O pouco à vontade do grupo convidou-me depressa a arranjar uma desculpa e a sair. Só meses depois viria a saber que não interrompera um jogo mas uma reunião frelimista.

 

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Comissão de Serviço - XXIII

por Fernando Sousa, em 28.07.12

[Motivos passageiros descontinuaram estas memórias, que agora voltam]

 

MAUSER

 

O 7 de Setembro (1974) foi uma data traumática para Moçambique. Mas para mim também.

Aborrecidos com os acordos de Lusaca, grupos de naturais brancos, incluindo soldados, quiseram travar o processo de independência e instaurar uma solução rodesiana, ocupando instalações importantes, por exemplo as emissoras.

Soares e Machel tinham apertado a mão. Crespo estava a caminho de Lourenço Marques para integrar o Governo de Transição. Para o engenheiro Jardim e outros descontentes o tempo esgotava-se.

Confusão. Revoltosos e grupos da Frelimo desataram as tiros uns nos outros, opositores da independência tomaram de assalto o Rádio Clube de Moçambique. Daniel Roxo, o Diabo Branco, líder das milícias do Niassa, chamou a sua gente

Em Nampula, fazendeiros e familiares cercaram, num anel, o emissor da estação, mulheres e crianças à frente. Tensão ao minuto.

Os quartéis fecharam os portões. A ordem foi que nos armássemos para manter as unidades e neutralizar a revolta.

Foi o que fiz também, claro. O problema é que a arma que me puseram nas mãos, uma velha Mauser, estava emperrada. Que nervos!

Valeu-me – valeu-nos a todos! – um expedito oficial que, mandado reocupar o emissor da RCM, não longe dali, subiu a um poste, cortou a corrente aos microfones e o sonho rodesiano morreu por ali. 

 

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Comissão de Serviço - XXII

por Fernando Sousa, em 21.05.12

O BLUFF

 

Todos de acordo, decidimos ir jogar cartas para a prisão militar.

No recinto, do qual R. era nessa semana o oficial de serviço, conviviam tipos com azar, outros com menos azar e por fim gente que se habituara a viver sem nada a perder.

Suspenso o recolher obrigatório para uma noitada de póker, debaixo de um telheiro onde um dos condenados pintara a Última Ceia, com um dos apóstolos com o braço cheio de relógios, ganhos às cartas, a coisa correu bem durante um par de horas.

O problema foi que às onze da noite os nossos companheiros se recusaram a regressar  às celas, faltando ao acordo que tínhamos feito.

Nampula estava quente e o céu estrelado. 

Da parte de fora, os guardas juntaram-se e foram buscar as armas. Pediram a R. que os deixasse entrar, o que ele recusou afirmando que resolveria o tumulto.

Num pequeno diálogo com os chefes do que não chegou a ser um motim, o problema foi sanado ao fim de poucos minutos sob a ameaça de que não voltaria a haver nem mais noitadas nem mais póker.

Ainda hoje estou para saber se ganhámos ou perdemos esse último jogo, pois nunca mais houve soirées nem cartas.

 

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Comissão de Serviço - XXI

por Fernando Sousa, em 10.04.12

LACRIMA CHRISTI

 

Nunca tinha dormido numa igreja mas a experiência acabou por não ser má.

Era véspera de Natal e decidira deitar-me mais cedo. Mas mal fechava os olhos ouvia ao longe, na metrópole, copos e risos, e alguém a pedir que lhe passassem o peru.

Por isso voltei a vestir-me e saí para a cidade, deserta, entre grilos nos quintais e cânticos por detrás das janelas. Passava da meia-noite.

Com tudo fechado, abri a capela militar e instalei-me na sacristia. Pus Haendel. Mas o Messias ainda me deprimiu mais, motivo porque abri um armário e saquei de lá duas garrafas de vinho de missa Lacrima Christi (Adriano Ramos Pinto, se bem me lembro) – as que havia.

Acordou-me horas depois o capitão e padre Valente de Matos, que tinha uma forma muito persuasiva de pedir as coisas:

- Não sei onde vai arranjar vinho igual, ou, vá lá, um que se beba, mas tem até ao meio-dia para mo trazer.

Já não me lembro onde desencantei o vinho, mas Nampula teve a sua Missa de Natal.  

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Comissão de Serviço - XX

por Fernando Sousa, em 21.03.12

CÓCEGAS

 

Todas, ou quase todas as tardes, reuníamo-nos num dos cafés da baixa, para trocarmos notícias e histórias, umas da metrópole outras do lugar.

As novidades chegavam pela rádio, jornais e revistas, nestes casos com assinaláveis atrasos, ou tinham sido ouvidas ou vividas nas respectivas unidades. Nampula era uma cidade de quartéis, de todas as armas e boinas.

R., enfermeiro no hospital, trouxe uma vez uma, recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso.

Um oficial, abatido com a ruptura do namoro que deixara na terra, metera o cano da G3 à boca e disparara. Mas com tanto azar (não me lembro já se foi a expressão que usou) que a bala o deixou num mero estado vegetativo.

Pelo que R. contou, das poucas reacções que tinha era quando lhe faziam cócegas nos pés. Recolhia-os.

- É giro. Apareçam lá. Experimentem! Vão ver. É extraordinário!

 

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Comissão de Serviço - XIX

por Fernando Sousa, em 20.02.12

VIOLETA I

 

O que é que se faz numa cidade onde tudo se esgotou? Bebe-se, escrevem-se cartas intermináveis a contar o dia, igual ao da véspera, discutem-se trivialidades. Ou lê-se.

No meu caso, e porque a escolhas eram curtas, pus-me a ler Os Santos vão para o Inferno, de Gilbert Cesbron, que já conhecia dos Cães Perdidos sem Coleira. Nada mais anacrónico quando no cinema militar ou passavam sessões do MFA ou filmes como Homens sem Amanhã, tirado do romace de Truman Capote. Deprimente? Ok. Mas foi assim.

[Os Santos vão para o Inferno descobri hoje que está a leilão no Sapo com uma base de licitação de 2,5 euros. Não vale nem isso. Mas qual é o preço da nostalgia?]

Outros camaradas preferiam ir embebedar-se para o Bagdad, o mais bem fornecido dos bares de Nampula, outros ver os aviões a partir. Outros ainda ir à Nametaqueliua, um bairro de palhotas, onde morava um grupo de três raparigas que durante meses foi o contraponto da guerra.

A guerra tinha acabado. A cidade, onde estávamos reféns, entregues a comissões liquidatárias, amontoava caixotes à porta e olhava, tensa, para o relógio. Excepto elas. Excepto Violeta. Não tinham ainda dinheiro suficiente para arrumarem as suas coisas. Mas essa é uma história que fica para depois.  

 

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Comissão de Serviço - XVIII

por Fernando Sousa, em 23.01.12

 

"MEU AMOR"

 

Um dia fui ao SPM – o Serviço Postal Militar.
Estava na guerra há meses e há semanas que L. não me escrevia.
(Escrevo estas linhas e rebobino os anos. Volto a ter 20. Entro, suado, nos correios militares de Nampula e pergunto por cartas para mim.)
1974. Está um calor de derreter as solas. Estou numa fila de magalas ansiosos. Dizem o nome e recebem o que chegou – ou não recebem nada e voltam a sair. Uns sorriem, outros encolhem os ombros.
Digo o meu nome. L. voltou a faltar.
 “Meu amor, meu amor, minha parte de mim.” Tenho-lhe escrito com tinta das veias. Esgoto os aerogramas. Impossível que não me pressinta! Mas também sorrio e saio. À noite volto a escrever-lhe.
(Os aerogramas eram folhas amarelas com asas, gratuitas.)
2012. Escrevi-lhe sempre. Esgotava-me a lembrá-la – linda! – e a contar-lhe os meus dias, e de como os meus olhos não pousavam em mais mulher nenhuma.
Um dia deram-me uma carta. Logo pela letra, era dela! Começava por um olá e pelo meu nome, e contava de como as ruas, aqui, estavam cheias e de como era urgente travar a reacção. E acabava com um beijo – só um.
Foi a última. Mas continuei a ir sempre que pude ao SPM. Não tinha mais aonde ir. Excepto para a guerra, que, vista daqui, passara de uma tragédia a um pormenor.

 

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Comissão de Serviço - XVII

por Fernando Sousa, em 02.11.11

BARBATANAS

 

Entre o fim da adolescência e os primeiros anos da idade adulta há um período, enfim, estranho em que pensar não é propriamente uma prioridade.

Foi assim que um fim de tarde, abrasado, no regresso de um passeata a Nacala, eu e mais quatro camaradas decidimos dar um mergulho na Praia das Chocas. De caminho tínhamos dado boleia a um preto.

Estávamos nós na água – sem pensar em nada – quando de repente o nosso passageiro, que preferira ficar na praia, começou aos pulos, a gritar coisas que se perdiam no ar e a apontar para trás de nós; ainda a uns bons metros, mas na nossa direcção, rasgavam o mar, discretas, duas pequenas barbatanas negras.

Há onze anos que aprendera a nadar, modalidade que exibia com vaidade. Mas naquele fim de dia troquei o estilo e as peneiras pela velocidade, e por alguma sensatez também.

Em Moçambique, a guerra colonial causou 2962 mortos entre os militares portugueses, metade em combate e a outra metade em acidentes – 234 com armas de fogo, 467 de viação e 780 por outras causas…

 

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Comissão de Serviço XVI

por Fernando Sousa, em 27.10.11

A ALTA

 

Contra o stress de guerra tínhamos as nossas receitas.

Uma madrugada desviámos um jipe do parque auto militar, passámos pela manutenção, pedimos ao sentinela para assobiar para o lado, levámos a comida que pudemos e rumámos para a Ilha de Moçambique. A ideia inicial era irmos caçar felinos, mas alguém com mais bom senso aconselhou esta.

Já no destino, depois de uns banhos de mar, uma visita à mesquita e outra ao forte, pôs-se a questão onde dormir. Um dos nossos sugeriu o hospital militar.

[Não tínhamos dinheiro ou tínhamos 20 anos, qualquer das desculpas serve.]

Entrámos, de noite e num respeitoso silêncio, escolhemos a enfermaria com mais camas disponíveis e dispersámo-nos por elas, entre camaradas operados e outros à espera. Mas o calor e a fome traíram-nos.

Estávamos nós, na cozinha, às três da manhã, a assar um belo chouriço e a abrir umas cervejas, quando um major médico entrou inesperadamente, e, depois de uma curta entrevista a cada um, deu-nos alta:

- “Todos fora do hospital, JÁ!”

 

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Comissão de Serviço XV

por Fernando Sousa, em 25.10.11

A MASCOTE

 

Em Nampula, a Polícia Militar ficava ao lado das nossas flats

Tinha uma mascote: um miúdo preto, de uns oito anos, escapado, pelo que se contava, ao massacre da sua aldeia e adoptado pela PM, que lhe fez uma farda e o graduou, se não me falha a memória em capitão.

A unidade tinha ordens para respeitar o artifício. Os sentinelas saudavam-no com o cumprimento devido, acompanhado por um sorriso paternalista, ao que ele respondia fazendo-lhes, muito direito e sério, a continência.

Dormia e comia no quartel. E do que mais gostava era de jogar à bola.

Já na metrópole, perguntei a um velho camarada de armas que fora feito do puto. Respondeu-me que, a poucos dias da independência da colónia, a tropa lhe tirara a farda para o poupar a uma eventual retaliação. Mas que depois fora descoberto por um grupo, embriagado, da Frelimo, despido sobre o balcão de um bar, cuspido e agredido, chorando que não lhe fizessem mal.

[Este episódio era para o fim desta Comissão, mas não aguentei mais.]

 

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Comissão de Serviço XIV

por Fernando Sousa, em 23.09.11

O ORGANISTA

 

Entrou calmo, cara de bebé, lisa e branca, em cima da hora e sem uma palavra.

Chegou fardado, engomado, com passos pequenos e determinados, olhou sem expressão para cada um e, por fim, para o órgão.

Era domingo e faltavam poucos minutos para o meio-dia.

- Quem é? – perguntou a filha de um coronel, a mais fresca das vozes do coro.

- O novo organista – respondeu um soldado.

Durante a guerra, a missa, na Capela Militar de Nampula, chamava muita gente. E, desde a introdução da Missa Gen, chegadinha de Itália, acompanhada à guitarra, flauta e bateria, gentilezas do EMGFA, ainda mais.

Sentou-se, tirou a boina, amarela, pousou-a delicadamente ao lado do teclado, do lado dos graves, e esperou. O padre entrou. E o ar desfez-se em moléculas de música, numa harmonia tão suave que desviou o olhar dos fiéis, atónitos e rendidos, para a cara, sem ponta de emoção, do bebé.

- Sim, mas quem é?

- Um GE, um especialista em operações especiais e golpes de mão, que gosta de andar sozinho e de atacar à faca – e pelos vistos também de tocar órgão.  

Depois do ide em paz e que o Senhor vos acompanhe, o rapaz levantou-se, benzeu-se, ajeitou a boina, a pender sobre a orelha esquerda, e saiu.

E foi assim quase todos os domingos, excepto num ou noutro, em que todos o imaginávamos na selva, a cortar gargantas.

 

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Comissão de Serviço - XIII

por Fernando Sousa, em 10.08.11

O FEITICEIRO

 

– É verdade! Ele muda!

Quanto mais Ali arregalava os olhos, mais eu abria a boca. Aquele filho de um embondeiro estava a gozar-me...

– Se não acredita, venha. As festas são no sábado.

Ali queria convencer-me que o feiticeiro da aldeia natal, a caminho de Nacala, depois de andar aos pulos à volta da fogueira, cresciam-lhe a cara, os dentes, o cabelo e as unhas, rugia e transformava-se num leão.

– Pára com isso, pá! Quase acabaste o Liceu! E além disso és católico…

– Está bem. Mas ele transforma-se.

No dia das festas, fui. O aldeamento, umas vinte cubatas e uma praça de pó, estava num frenesim, cheio de visitantes, elas de túnicas garridas e missangas, aos gritinhos de lé lé lé, eles já aos tombos. Ali apresentou-me o régulo e uma série de amigos de caras abertas – o riso dos macuas é uma coisa indecifrável. Chegada a noite, do feiticeiro, nada!

– Onde é que ele está, Ali?

– Não vem.

– Aaaaaah, eu sabia!

– Sabia? Então porque é que veio? – riu-se. – Mas já que está aqui, beba uns golinhos de cana. Talvez ele ainda venha...

O entertainer não  apareceu, que eu tivesse visto. Mas sonhei com ele.

- Ora vê? – exclamou, na manhã seguinte, Ali. Vocês brancos, para acreditarem têm que sonhar! – e deu uma gargalhada.

 

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Comissão de Serviço XII

por Fernando Sousa, em 10.07.11

SURUMA

 

Por esses anos, Nampula era uma cidade cheia de vendedores ambulantes, que se apinhavam ao domingo junto da igreja ou se espalhavam pelas esquinas de segunda a sábado. Os principais compradores eram, claro, os brancos, na maior parte militares, ou a abastada comunidade indiana.

Vendia-se tudo, caju, vegetais, colares de missangas, pulseiras ditas de pêlos-de-elefante, peixe seco ou pau-preto, a madeira de mpingo que os artesãos desbastavam, a canivete, até encontrar dentro mães africanas em estilo de Nossas Senhoras, Cristos suspensos ou meros objectos de uso caseiro.

No meio das leguminosas e das figurinhas pretas, alguns ofereciam por poucos escudos saquinhos de suruma – o nome, ali, da canábis, ou cânhamo indiano, ou maconha, se quiserem, um preparado de folhas e flores secas, que, fumado, tem óptimos efeitos de alheamento. Bem; é um estupefaciente.

Umas passas, e não eram precisas muitas, serviam às mil maravilhas, no caso dos militares, para transformar uma operação numa passeata, dar um salto a casa, em A-da-Gorda, Aguçadora ou Vila Nova do Coito, sem sair da colónia ou trocar, por umas horas, a condição humana pela liberdade de um pássaro.

[Foi sob esse efeito que o furriel da Comissão de Serviço VIII se transformou num canário.]

A suruma foi sem dúvida, nesses anos, a mais querida das madrinhas de guerra: adormecia-nos, acordados e vivos, sem pedir nada.

 

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Comissão de Serviço XI

por Fernando Sousa, em 13.06.11

CELESTINO II

 

Estava naquele dia para fechar a secção quando, de repente, o rapaz entrou. Levou tempo a começar.

– Preciso de falar consigo, mê furrié.

– O que se passa?

– É que... quero ser padre… – disse, baixando os olhos, embaraçado, e a coçar comichões inventadas.

– PADRE? Porquê, Celestino?

Voltei atrás, sentámo-nos, respirei fundo; perguntei-lhe onde tinha ido buscar a ideia, se sabia o que isso significava; se era mesmo o que queria. Respondeu a tudo, insistente, determinado.

– Amanhã de manhã aqui, às nove horas.

No dia seguinte peguei num jipe e levei-o estrada fora, por cinco quilómetros, na direcção de Nacala, ele feliz, eu calado, concentrado nos buracos da estrada e numa salada de sentimentos desencontrados, até ao seminário hoje chamado Mater Apostulorum.

Ainda parei no caminho para lhe perguntar se era mesmo o que queria.

– É sim, mê furrié.

– Não sou teu furrié! Não me trates assim!

– Sim, mê furrié.

No seminário, o reitor falou com ele dois minutos e comigo outros dois.

– Ele quer é onde dormir e comer, e talvez estudar.

No regresso, vi-lhe lágrimas. Na cidade, deixei-o donde tínhamos partido.

– Amanhã aqui outra vez às nove horas.

– Sim, mê furrié.

No dia seguinte fomos ao liceu de Nampula, depois comprar livros e cadernos, lápis, borrachas, canetas, calções e mais T-shirts. Passou a dormir na camarata dos soldados. Não sou capaz de descrever a felicidade da cara dele – tudo o que me ficou do meu pequeno amigo.

 

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Comissão de Serviço IX

por Fernando Sousa, em 04.04.11

O DESERTOR

 

– Está lá fora um senhor que precisa de falar consigo. Parece tenso.

– Quem é?

– Não quis dizer.

O homem esperava , em pé, no jardim do DRM. Era magro, escuro, de cabelos e olhos negros, provavelmente indiano, da comunidade goesa imigrada depois de 1961. Português, portanto. Disse, olhando-me com ansiedade, que precisava de uma licença militar, urgente, para viajar por motivos familiares, o que com certeza eu compreenderia, estendendo-me um envelope com o bilhete de identidade e sete notas de mil escudos.

– É para cobrir as despesas – explicou, com um sorriso a morrer nos cantinhos da boca.

Respondi-lhe, surpreendido, que uma licença não custava tanto, umas vinte vezes menos, devolvi-lhe o BI e o dinheiro, e pedi-lhe que passasse no dia seguinte. Concordou, com pouca vontade.

Fui eu mesmo, curioso, à procura do seu processo. Estava separado dos outros. Era um negociante, procurado por deserção. Entalado entre a Frelimo, que tinha  pouca simpatia pelos monhés, e as autoridades portuguesas, estava aflito por abandonar o território.

Não voltou a aparecer, nem no dia seguinte nem noutro qualquer.

 

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Comissão de Serviço VIII

por Fernando Sousa, em 07.03.11

O CANÁRIO

 

– Hoje sou um pássaro! Um canário!

R. entrou na secção, com a farda do avesso, eufórico, olhos vermelhos, enfim, com os sinais todos do estado, subiu para a secretária, encolheu uma perna, abriu os braços e começou a agitá-los.

– Espaço! Dêem-me espaço! Vou voar, vou sair desta gaiola!

Os homens olharam-se, depois fingiram ler ou escrever, diante da inesperada metamorfose de R., furriel, um branco do recrutamento local, vulgo coca-cola, que empurrava com as botas, para o chão, processos e carimbos. Um cinzeiro de pau-preto caiu com estrondo.

– DESCE! – disse-lhe.

Naqueles dias não havia muitas formas de evasão, primeiro da guerra, depois daquela espécie de paz. Voar das duas era um desejo comum, urgente, que se realizava tomando um avião – nas circunstâncias difícil! – ou fumando suruma, a canábis moçambicana, vendida nas esquinas ao lado do caju e das hortaliças.

R. não desceu propriamente, estatelou-se, mas, recomposto, bateu as asas a caminho da porta de armas, a única vez que vi sentinelas perfilarem-se a um canário, que deverá ter ido para muito longe porque nunca mais apareceu.

 

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Comissão de Serviço VII

por Fernando Sousa, em 27.02.11

A GARANTIA

 

Os ramos que o Sebastião soltava batiam-me, mas mal os sentia, a caminho do enxame de luzinhas nervosas da cidade. Ali aguentava-me a braços, as árvores dançavam com a noite à minha volta.

Regressava, o único branco da festa, do casamento de Filomeno, numa aldeia de colmo e adobe, onde durante horas comera e bebera à volta de um porco que um grupo de rapazes ia rodando numa fogueira. Acompanhara, copo a copo, todos os vivas ao casal.

Às vezes era o único: – VIVA! VIVA!

Trocava os passos, ria, parava, dava abraços, voltava a rir-me, tropeçava, caía, debaixo de uma lua tão cheia que deixava pouco espaço ao céu. No chão, meio a dormir, desci lentamente sobre o Mar da Tranquilidade.

– E SE A FRELIMO APARECE? – Endireitei-me.

Sentado, com o Sebastião a segurar-me, Ali pôs-se de cócoras, tomou-me a cara entre as duas mãos, olhou  para o companheiro, depois para mim, com uns olhos enormes, e disse-me:

- Meu furriel, a Frelimo não vai aparecer. Posso garantir-lhe. Venha, estamos perto.

 

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Comissão de Serviço VI

por Fernando Sousa, em 25.02.11

ORDEM PARA QUEIMAR

 

Habituada ao ritmo da guerra, a cidade não soube onde pôr as mãos quando ela acabou. A paz não passou de uma notícia nem mereceu um brinde.

Antes não havia dia sem saídas para o mato, colunas de camiões cheios de soldados, ainda compostos e de barba feita, ou sem regressos de contingentes rendidos, meio-despidos e de rostos cinzentos, cansados e esfomeados.

O frenesi guerreiro tinha acabado.

Companhias inteiras espalhavam-se agora ociosas pelas esplanadas, jogavam às cartas e ao futebol, bebiam sem limite, armavam pancadarias; iam às amigas no bairro do aeroporto ou levavam-nas para as suas vivendas, de quartos vazios e paredes vermelhas, iluminados por  luzes desmaiadas, para longas noites de tudo, álcool e suruma.   

No Cinema Militar passavam filmes e sessões do MFA.

Os indianos com mais pressa em sair do território facturavam febrilmente.

A mim mandaram-me para o DRM, onde me deram seis homens, incluindo um civil, Ali, e uma tarefa muito especial: passar milhares de processos individuais a pente fino, separar os da metrópole e queimar os do contingente local.

Durante meses, reduziria milhares de nomes, datas, castigos, feitos heróicos e distinções, várias por lealdade e mérito, a cinzas.

 

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Comissão de Serviço V

por Fernando Sousa, em 21.02.11

CELESTINO I

 

- Cabrão do puto! Já viste isto? JÁ VISTE ISTO?

O homem estava fulo. Mostrava-me uma camisa verde, onde, na zona do peito, no lugar onde às vezes aparecem nódoas de um azar de comida, ou de falta de cuidado, saltava à vista uma mancha esbranquiçada e um pequeno rasgão. Fora o mainato.

- Então não é que o sacana do preto, para tirar uns pinguitos de azeite esfregou, esfregou, esfregou com uma pedra?

Porrada de criar bicho, despedimento.

O miúdo, um magricela de 11 anos, estava na parte de fora da flat, sentado dentro de uns calções a desfazerem-se, tudo o que vestia, encostado à parede. Chorava, com a cabeça entre as mãos e os joelhos sujos. Chamava-se Celestino, era macua, não tinha ninguém e a sua casa eram as ruas de Nampula.

- Queres trabalhar para mim?

Em troca do dobro do que o sargento lhe pagava, de roupa e da promessa de aprender a usar o sabão, aceitou, secando os olhos. Seria o meu mainato. Fiel, leal, disponível, cúmplice. Até ao fim. Fi-lo rir-se. Só nunca lhe tirei os olhos tristes.

 

 

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Comissão de Serviço IV

por Fernando Sousa, em 18.02.11

FORMIGAS ESMAGADAS

 

Jipes e berliets avançavam sem vontade, romromrom, num túnel de vegetação e serpentes donde espreitavam mil olhos e canos calados…

[...]

Adiantava-me, ausente, à leitura de uma ordem de serviço colada na porta da CCS, a convocar-me para uma coluna de abastecimentos – cartas, comida, água, remédios, balas –, a partir antes do nascer do sol e do braseiro.

Devia apresentar-me uma hora e meia antes para levantar as armas, conhecer os homens, com corações nos bícepes tipo Amor de Mãe, e receber ordens.

O medo – agora, sim – espalhava-se a partir do peito, para a garganta, seca, para o estômago, para as pernas, num corpo sem peso.

Raios, ainda agora tinha chegado!!

O ar cheirava a formigas esmagadas, a óleo rançado.

Passei a tarde entre cervejas e aerogramas, por causa de uma guerra quase no fim, a dias de passar para as cidades, que invadiria de destroços e tensões;  uma tarde a escorrer de lembranças, incluindo muitas de que razoavelmente nem me poderia recordar; uma tarde inútil pois a operação seria cancelada.

 

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Comissão de Serviço III

por Fernando Sousa, em 15.02.11

UM PRETO EM OSSO

 

O carro simplesmente bateu e seguiu o seu caminho, sem um chiar de travões, direito aos bairros brancos.

Na esplanada, cheia de militares, a uns quinze metros, se tanto, ninguém deu por nada, nem por um baque surdo, de chapa, contra algo mole, ou pela queda de um corpo - sons que se conhecem, enfim, de ouvido.

Quer dizer, a bisca lambida pode causar surdez.

Na estrada, deitado, um homem contorcia-se, aos aaaaaaaais, sentando-se às vezes para olhar para a perna, de onde saía, vermelho, da pele negra, um osso, caindo depois outra vez.

- Aaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ninguém acudiu, muito menos o criado – a designação que na altura equivalia a um psssssssssst –, também preto, mas este de jaqueta branca, que parara entre as mesas, e as biscas, e os aaaais, com os olhos na rua e a bandeja de cervejas – a aquecerem.

- SERVE, PÁ! Tás a dormir? – mandou um sargento de garganta seca. E estava, há muitos anos. Mas a acordar.

Na rua, o preto, inexistente, deixou de gritar. Levaram-no meia hora depois.

 

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Comissão de Serviço II

por Fernando Sousa, em 10.02.11

TIROS AOS PÁSSAROS

 

O inferno não tinha que ser, afinal, um buraco em chamas, com corpos aos estalidos – ai Dante, Dante! Podia ser uma parada com uma bola de fogo suspensa a dez metros da cabeça de cem homens semi-nus, de peitos cruzados por fitas de balas e com cinturas de granadas, acabados de sair da selva, surdos e cheios de arranhões por uma ideiazinha de pátria. – Cem homens, menos um pássaro!

– FORMEM! – Mas a turba, ora, ora!

– A gente tem é fome, ó periquito! Deixa-te de merdas! – “Periquito” era o nome dado aos pássaros caídos do céu, verdinhos e de listas castanhas, tenrinhos e de penas passadas a ferro, que ainda não sabiam onde tinham pousado.

Mas era hora de almoço no inferno – massa guisada –, o que decidiu a coisa; ainda que ao preço de uma porta escavacada, duas mesas viradas, um pronto atropelado e uma gamela entornada.

– Bom dia, Moçambique! Piu!

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

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Comissão de Serviço I

por Fernando Sousa, em 08.02.11

[Pus aqui uma foto, mas tirei-a; é só minha]

 

ADEUS ETERNIDADE

 

- Vá, pá. Mexe-te! A guia?

Era Primavera e cheirava a querosene.

No chão ficava um grupo aos gritos de nem mais um soldado para as colónias, e outro, o da minha gente, que à medida que eu voava - tinham-me tirado umas asas de algodão e trocando por umas de ferro -, ia ficando mais pequeno, e mais distante, um mundinho que provavelmente nunca tinha existido.

Então um avião era aquilo!

Fora-se o garotinho de calções, o pião, as caricas, os cromos; as tranquilas meias-estações, as fatias recheadas [depois dou-vos a receita], as baínhas-abaixo, os Verões, os amores - dos muito-a-medo aos totais e para-sempre -, as batatinhas fritas da praia de São Martinho. As tardes na ITAU.

- Adeus eternidade!

Tinha deixado a cama feita.

Levava no bolso mais medalhas do que moedas.

- Continuem a comprar-me a Vida Mundial! [Ainda a guardo toda]

Não senti medo - ficaria para mais tarde; senti abandono.

Tinha 21 anos.

 

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