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Frei Barroso

por Pedro Correia, em 08.04.17

Há poucos dias destaquei aqui Alfredo Barroso, citando uma contundente crítica sua no i ao famigerado "acordo ortográfico".

Qual não foi o meu espanto ao ver agora, também na edição impressa do mesmo jornal, um texto de opinião do mesmíssimo autor escrito em... acordês. Um texto em que se lê "transações(sic) financeiras", "atividade"(sic) produtiva", "Investimentos diretos(sic), etc.

Eis-nos perante alguém que pede meças ao famoso Frei Tomás: faz como ele diz, não faças como ele faz.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 20.03.17

 

O comentador de “direita”: uma profissão de futuro. De Alberto Gonçalves, no Observador.

 

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O mundo às avessas

por Pedro Correia, em 12.03.17

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Pacheco Pereira (militante do PSD)

«Pedro Passos Coelho faz uma história retrospectiva em relação a Ricardo Salgado e esquece-se que ele participou ou esteve presente em reuniões do Conselho de Ministros no início da [passada] legislatura. Já ninguém se lembra. Já ninguém se lembra!»

«Veio nos jornais e nunca ninguém desmentiu. Veio nos jornais...»

«Então ao Conselho de Estado não foi o Mario Draghi?»

 

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Jorge Coelho (militante do PS)

«Como você imagina, isso [Salgado no Conselho de Ministros] é uma coisa que nunca aconteceu.»

«Então vai alguém que não é ministro ou membro do Governo a uma reunião do Conselho de Ministros?!»

 

Na Quadratura do Círculo (SIC Notícias), 9 de Março

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Parece simples, não é?

por Diogo Noivo, em 09.02.17

 

João Gomes de Almeida, no ECO:

 

"Mas numa coisa concordo com Fernanda Câncio: uma fação da sociedade não tem o direito de impor à maioria dos cidadãos a sua vontade. É por este motivo que acredito que os temas socialmente faturantes, ou como a jornalista refere as “escolhas do domínio da ética”, devem ser decididas por todos. Ou seja, através de referendo, tal como aconteceu com a Interrupção Voluntária da Gravidez. Isto porque nunca uma minoria deveria ter o poder de sobrepor o seu interesse ao da maioria. Certo? Não é isso que significa ser de esquerda?

Mas quando chega à hora de dar a palavra ao povo, a esquerda normalmente encolhe-se e gosta de disparar um dos argumentos mais falaciosos do jogo democrático: “os direitos não se referendam”. O tanas é que não! O povo afinal não é soberano? Foi à conta desta retórica que os partidos de esquerda têm conseguido, na maioria das vezes à pressa e atabalhoadamente, fazer passar na Assembleia da República diplomas sobre os temas que dividem a sociedade. Socorrendo-se sempre da falácia de que “estes temas só dizem respeito a quem é afectado por eles” – o que é imperativamente mentira, se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos."

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Men for all seasons

por Diogo Noivo, em 02.02.17

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 Um ano e tal depois:

 

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 Via O Insurgente

As sumidades que pastam nos verdes campos do komentariado português são dadas a uma desfaçatez lendária. Daniel Oliveira, como bem nota João Cortez n’O Insurgente, é um caso flagrante.

Mas o seu a seu dono: em matéria de mortais encarpados à retaguarda, ninguém bate Nuno Saraiva, antigo jornalista do Diário de Notícias. Foi de A a B em tempo recorde e sem que o víssemos a percorrer o caminho que separa os dois pontos. Parece que se deixou de jornalismo – o que é um desafio ontológico notável, já que não é fácil abandonar o que nunca se fez – e se dedicou à bola. Parafraseando Gore Vidal, foi uma boa mudança de carreira.

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A propósito do incidente “feira do gado”, protagonizado por Augusto Santos Silva (who else?), o essencial já foi dito pelo Rui Rocha. Falta apenas dizer que o pedido de desculpa foi mais gravoso do que a afirmação que lhe deu origem (a afirmação insultou a concertação social, o pedido de desculpa insultou todos aqueles que têm dois dedos de testa), mas adiante.
Há, no entanto, um argumento que vai despontando nas fileiras de apoiantes do Governo, uma tese segundo a qual se tratava de um momento informal e, por isso, a recolha de som não é legítima. Eram conversas privadas, de gente que, no fundo, é mortal e igual ao cidadão comum. Em suma, gente que tem o direito de soltar umas boçalidades no recato do seu espaço próprio e privado. Parece-me um argumento difícil de defender – era um evento público, com intervenções públicas, para o qual foram convocados jornalistas.
Mas admitamos que sim, que o som foi colhido de forma ilegítima e 'pela calada'. Certo. Significa, portanto, que quem perfilha este argumento condena a gravação da célebre conversa privada entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schäuble? E, por maioria de razão, condenarão a divulgação pública das brutalidades cavalares ditas por Donald Trump sobre as mulheres, uma conversa tida à porta fechada, mas apanhada por um microfone aberto? Se sim, não me lembro que esta gente tivesse tantos pruridos quando estes casos fizeram manchetes. Neste Tempo Novo temos então um conceito inovador assente em dois paradoxos: o princípio sacrossanto, mas de aplicação à la carte, de privacidade em eventos públicos.

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O mundo às avessas

por Pedro Correia, em 30.09.16

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Jorge Coelho (militante do PS)

«A pobreza só se resolve com o crescimento da nossa economia, só se resolve com a criação de empregos, com a criação de trabalho. É preciso haver estabilidade na nossa política fiscal porque isso é importante para o investimento externo.»

 

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Pacheco Pereira (militante do PSD)

«Uma política que pretenda diminuir as desigualdades passa também por taxar uma parte da riqueza e por garantir que essa riqueza não cria um mecanismo de acumulação que gera cada vez mais desigualdade. Há muita gente em Portugal que ou foge para os paraísos fiscais e não paga o imposto que devia ou que é muito menos taxada do que são os mais pobres.»

 

Na Quadratura do Círculo (SIC Notícias), 22 de Setembro

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O mundo às avessas

por Pedro Correia, em 27.07.16

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Jorge Coelho (militante do PS)

«Reconheço que nesta matéria serei um pouco conservador, mas já não estou em idade de mudar: as finanças públicas têm que ser sãs. Isto é uma questão central na vida de um país.»

«Sem finanças públicas sãs Portugal vai sofrer pesadas consequências no futuro.»

«Não pode haver nada que contribua para um descambar da despesa pública.»

«É preciso cumprir os compromissos com as instituições europeias. Estou a referir-me ao défice.»

«Vivemos momentos muito difíceis, no mundo, na Europa e em Portugal. As coisas na economia não estão a correr bem, temos de ser realistas.»

«Era muito importante que o crescimento da economia em Portugal estivesse a ser maior do que está a ser, estariam a crescer postos de trabalho, estaria a diminuir a despesa pública e a normalizar mais as contas da segurança social... Os ratios económicos não estão de acordo com aquilo que foi previsto.»

«O País não tem condições de produzir aumentos de salários reais. Tenho dúvidas de que deva haver qualquer aumento de salários.»

«O funcionamento da banca e das instituições financeiras é absolutamente vital e determinante para que um país seja normal a todos os níveis.»

«Não vai ser Bruxelas que vai fazer cair o Governo em Portugal. [Se o Governo cair] vai ser por dificuldades da plataforma política [que apoia o Governo].»

 

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Pacheco Pereira (militante do PSD)

«Tudo indica que o Governo vai cumprir o défice.»

«Ninguém diz que o Governo não está a cumprir os 3% [limite do défice]. Quem não cumpriu os 3% foi o Governo anterior.»

«Discutir 0,1% ou 0,2% para cima ou para baixo não são finanças sãs. É a utilização dos mecanismos de pressão para garantir políticas que eles consideram sãs.»

«Eu conheço a argumentação de que para diminuir as despesas do Estado tem que se controlar os salários, as pensões, as reformas... e depois dão-se milhares de milhões aos bancos.»

«Não é verdade que haja um isolamento das posições portuguesas. Uma parte importante das forças da União Europeia fazem declarações públicas a dizer que Portugal vai no bom caminho.»

«António Costa disse que a actual política europeia conduzia à estagnação. É importante que isto seja dito, porque é verdade.»

«A politica europeia é uma política de estagnação.»

«A Europa não cresce porque esta política não permite o seu crescimento.»

«As imposição europeias não servem o desenvolvimento de Portugal.»

 

Na Quadratura do Círculo (SIC Notícias), 21 de Julho

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Em política, o que aparece é

por Pedro Correia, em 21.07.16

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo - um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los - desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

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Uma Mesquita em Lisboa

por João André, em 31.05.16

Não acompanhei o assunto no início e cheguei a ele pelo post do Luís. Depois vi uma partilha do texto de João Miguel Tavares (um comentador de quem não gosto por diversas razões - que pouco têm a ver com as suas opiniões) no Facebook.

 

Deixo apenas o texto que um amigo, o Paulo Granja, colocou na sua página do Facebook e que me pareceu bastante melhor - independentemente das opiniões - que o de JMT.

 

JMT não sabe do que fala

Antes de mais, a intervenção urbana que tem sido reduzida à construção de uma mesquita insere-se numa operação de maior dimensão de requalificação urbana “entre o Martim Moniz e o Intendente, com o nome Praça-Mouraria”, e prevê a criação de um jardim, uma sala polivalente, de uma praça coberta e de uma ligação entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso, para além da referida mesquita (creio que também se prevê a requalificação/integração do Arquivo fotográfico municipal, já existente num edifício contíguo, mas não me recordo agora se o Arquivo será ou não formalmente integrado no projeto), sendo que o interior da mesquita ficará a cargo da comunidade muçulmana (creio que mais precisamente a cargo do Centro Islâmico do Bengladesh). A construção da mesquita neste bairro, e neste local em particular, justifica-se pela forte comunidade muçulmana do Bangladesh aí existente. De facto, já existiram 3 mesquitas em edifícios próximos, estando a última, frequentada por cerca de 600 pessoas, localizada num edifício para habitação, se não estou em erro, no Beco de S. Marçal, compreensivelmente com grande incomodo para moradores e para a vizinhança.

Segundo, o projeto de intervenção insere-se no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (o único ponto em que admito que JMT possa ter alguma razão é na aparente contradição entre a exigência feita ao proprietário/PUNH e a intervenção projetada, mas a legislação prevê que os poderes possam estabelecer exceções às regras e planos que os próprios fizeram aprovar, em nome do interesse público – como creio que foi feito com o PDM para a construção do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia -, mas se isso é bom ou mau é já outra discussão), e está a ser pensado desde 2009, altura em que mereceu apoios do FEDER/QREN. O projeto final de arquitetura foi apresentado a discussão pública e votado favoravelmente por todas as forças partidárias com representação na Assembleia Municipal de Lisboa em 2012.

Em terceiro lugar, sim, a CML também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva (se o deveria fazer ou não é outra questão…). Que me lembre, a CML já apoiou o Centro Ismaili, O Centro Hindu, O Museu Judaico e a (re)construção de várias igrejas católicas – estou a lembrar-me da Nova Catedral de Lisboa, a construir perto da Parque Expo. Nalguns casos (Museu Judaico e Igreja Católica), os apoios financeiros chegam também aos vários milhões de euros, já para não falar nas operações urbanísticas envolvidas (creio que no caso do Museu Judaico está prevista a intervenção/requalificação de vários edifícios no centro histórico de Alfama, mesmo ao lado da Igreja de S. Miguel).

Resumindo, não se trata apenas de pagar uma mesquita.
Não houve falta de discussão pública, nem atropelos à legislação e regulamentos camarários – se houve, serão dirimidos em local próprio, os tribunais.
Não foi uma proposta socialista ou sequer de esquerda feita a revelia dos partidos de direita, a direita também votou favoravelmente o projeto.
E sim, a CML, e não o Partido Socialista, apoia financeira e logisticamente, várias outras confissões religiosas.

JMT pode contentar-se em comentar artigos publicados no jornal onde escreve sem se dar ao trabalho de se informar. Isso também eu posso fazer, a diferença é que não sou jornalista e não me pagam para isso.

 

Leitura complementar: A mesquita da Mouraria, o Google e o Facebook.

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Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 03.04.16

São sempre os mesmos comentadores, ano após ano, década após década. Desfilam nos canais de sempre debitando as mais esforçadas banalidades de que são capazes. Nos últimos dois dias, ouvi sete (não exagero) sublinharem, com ênfase de La Palice, que "o futuro de Passos Coelho está dependente da boa ou má prestação do governo de António Costa".

Cada um que comparece no ecrã copia sem pudor o que o anterior disse. Falam longos minutos, horas, dias, meses. Dizendo coisas profundíssimas, como a frase que mencionei acima. Antes de começarem a falar já adivinho tudo quanto vão dizer - às vezes palavra por palavra.

Falam de política reclamando "reformas", "inovação", "golpes de asa". Sem perceberem que a verdadeira reforma, a maior inovação, o mais genuíno golpe de asa dos canais que os acolhem com aparente carácter vitalício seria removê-los e pôr outros no lugar deles. Outros que dissessem coisas que talvez nos surpreendessem, que talvez nos dessem pistas interessantes, que talvez nos pusessem a pensar.

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Comentário político vaudeville

por Diogo Noivo, em 13.03.16

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O governo português está com dificuldade em reunir os votos necessários para aprovar um pacote de ajuda à Turquia. O Bloco de Esquerda está a sair do guião estabelecido por António Costa e a coisa pode não se concretizar. Mas, como é evidente, a culpa é da direita. Pelo menos foi isso que nos disse esta tarde um profissional do comentário – e digo ‘profissional do comentário’ porque não lhe é conhecida qualquer outra profissão. Calvo de ideias, mas grávido de certezas, o comentador disse ficar mal ao PSD a recusa em aprovar o referido pacote de ajuda e, consequentemente, não ser solidário com o governo de Ancara e com os refugiados (uma simplificação grosseira, típica da criatura em apreço, mas adiante). Ou seja, as esquerdas juntam-se e viabilizam um governo com base no pressuposto de serem capazes de gerar uma solução política estável e funcional. Quando, ao passar da teoria à prática, se vê que a estabilidade da esquerda não é grande coisa, a culpa (pasme-se) é da direita. Percebi hoje que “tempo novo” equivale a “novo patamar de desfaçatez intelectual”.

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Presidenciais (26)

por Pedro Correia, em 12.01.16

Oiço comentadores televisivos, muito enojados, defendendo a discriminação entre candidatos presidenciais. Do alto das suas tribunas na pantalha, onde quase nunca têm nada de relevante a dizer, alguns destes comentadores, incluindo jornalistas, proclamam ao País que vários desses candidatos não deviam ter concorrido e que é uma maçada os órgãos de informação terem o dever deontológico de acompanhar minimamente todas as campanhas no terreno.

Facto notável, este: ouvir jornalistas a defender a discriminação. Com todas as letras.

Um desses jornalistas/comentadores chegou ao ponto de defender que jornais e televisões deviam seleccionar a cobertura desta corrida presidencial em função do que dizem as sondagens, ignorando tudo quanto não se encontrar "bem posicionado" nos inquéritos de opinião. Trata-se, por sinal, da mesma figura que anda há anos a clamar pela necessidade de haver "profundas alterações" na política portuguesa, com novos rostos e novos nomes.

Escuto outra, eleição após eleição, suspirando de nostalgia: antigamente, sustenta esta, é que havia campanhas políticas feitas de emoção e com personalidades de altíssimo nível. Esquece que nessa altura ela própria já falava assim das anteriores. Para certas criaturas o tempo óptimo é sempre aquele que ficou para trás. Um dia dirão isso mesmo do tempo actual.

Adoro estas certezas de geometria variável, sempre sujeitas aos ventos dominantes. Alguns, quanto mais apelos fazem à mudança, mais desejam que nada mude.

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Tropeçar na mesma pedra

por Pedro Correia, em 04.10.15

Alguns "analistas políticos" debitam os chavões do costume em piloto automático após terem falhado prognósticos em toda a linha. Esquecem tudo quanto dizem e, portanto, nada aprendem com os erros cometidos.

O homem é o único animal capaz de tropeçar duas vezes na mesma pedra. As televisões insistem em demonstrar-nos isso, serão após serão.

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Frases de 2015 (41)

por Pedro Correia, em 02.10.15

«Durante a campanha a coligação deu a entender que o pior já passou, que está tudo bem. Mas não está nada tudo bem. Está tudo mal.»

Constança Cunha e Sá, às 21.35, na TVI 24

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Sentes-te desconfortável por não perceberes uma botifarra sobre a momentosa questão catalã? Nada temas. Segue estas simples indicações e, com sorte e uma abundante cabeleira, poderás ser um novo Nuno Rogeiro. Com menos cabelo e a mesma sorte, serás talvez um mais velho Loureiro dos Santos:

1 - Começa qualquer discussão sublinhando que a questão é muito mais complexa do que simplesmente optar entre a visão centralista e a independentista. Adopta pose circunspecta e conclui referindo que devemos resistir a análises simplistas num mundo global e multipolar.

2 - Salienta o papel nuclear da Catalunha no contexto da dimensão ibérica de Espanha e na sua história. Liga o simbolismo da Estátua de Colombo às relações diplomáticas da Coroa Espanhola com os países andinos. Se puderes, leva um mapa-mundi. Com traços seguros, une Barcelona (convém que tentes perceber previamente o local aproximado onde se situa) com diversos pontos espalhados ao acaso. Reforça a dimensão geoestratégica da localização e relaciona-a com grandes migrações passadas, presentes e futuras. Toca, en passant, no tema dos refugiados da Síria e revela que o Aeroporto Del Prat pode ser utilizado para reabastecimento de bombardeiros envolvidos nas acções de punição do regime de Bashar al-Assad (é importante que digas o nome completo do tiranete pois assim revelarás o teu conhecimento profundo dos actores envolvidos).  Se te lembrares, fala de estudos secretos da OPEP sobre possíveis reservas petrolíferas ao largo de Tarragona e da possibilidade de a UE ter em carteira a construção de um gasoduto alternativo entre LLoret de Mar e a Ucrânia para furar o bloqueio russo.  O importante não é que alguma coisa destas faça sentido. O fundamental é passar a ideia de que tens uma visão global sobre o tema.

3 - Abusa das alusões históricas. Compara Artur Más com grandes líderes e momentos do imaginário independentista: José Martí, Grito do Ipiranga, Grito de Munch, Cataratas do Niagara, Alberto João Jardim, Afonso Henriques. Refere a Finlândia várias vezes como exemplo de uma independência bem sucedida. Deixa cair, como se nada fosse, que Suomi é uma expressão eslava que significa liberdade e prosperidade ainda que não seja realmente assim. Traça um paralelo entre Rajoy e Pedro o Grande, Anastácia ou Shakira enquanto abres os braços lentamente para sublinhares a abrangência das ligações históricas e políticas convocadas pelo momento. Se não te lembrares de falar no Pedro, refere outro Grande qualquer. Pode ser o Alexandre, o Líder ou a Muralha. Usa e abusa de palavras começadas em geo: geo-política, geo-estratégico, geo-lógico, geo-désico, geo-térmico e por aí foraSempre que disseres uma palavra começada por geo faz uma ligeira pausa para que a audiência saboreie o peso dos teus conhecimentos.

4 - Faz uma alusão ao sentimento nacionalista. Aos perigos que estes representam. A episódios não nomeados de fracturas insanáveis. A casos que conheces de vizinhos que nunca mais se falaram por causa de uma questão toponímica. A vinganças terríveis motivadas por disputas de terras e águas. Se te sentires completamente à vontade, faz neste preciso momento uma alusão ao estilicídio. Embala e recorda ainda o regicídio e o atentado de Sarajevo. Não deixes nenhum destes pontos para mais tarde. Se permitires que a discussão prossiga sem aproveitares a deixa, outro tertuliano avançará ele próprio com algum destes excelentes argumentos.

5  - Se em algum momento te sentires entalado, leva a discussão para a arte. Com um sorriso enigmático, fala de Dali e conclui que há sempre neste mundo coisas que não percebemos. Em caso de dificuldade extrema, recorre ao argumento de autoridade. Cita um artigo perdido do Financial Times ou da Caras Magazine. Se as autoridades no assunto o afirmam, está por nascer o primeiro opositor na discussão que o contradiga.

6 - Conclui a tua intervenção cofiando hipotéticas e proféticas barbas e salientando o risco de uma nova guerra fria, de consequências energéticas inimagináveis e de um possível cisma religioso entre a Igreja Católica de Castela e seitas que se movimentam na sombra da Sagrada Família. Fecha em crescendo, aludindo a perigos de dimensão dificilmente antecipável relacionados com a afirmação de usos e símbolos tipicamente catalães como a senyera, a crema catalana, os castellers ou o pa amb tomàquet e a terrível possibilidade de proibição de touradas com picadores em Tossa de Mar.

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Grécia antiga (1)

por Pedro Correia, em 13.05.15

«O fundamentalismo doutrinário neo-liberal odeia Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis. Odeia-os porque eles vieram estilhaçar o consenso instalado. Odeia-os porque lançaram a dúvida nos espíritos. Odeia-os porque mostraram que não existe só a TINA (There Is No Alternative). Odeia-os porque não usam gravata. Odeia-os porque não se submetem ao diktak que esmaga a Europa. Odeia-os porque colocaram o Parlamento Europeu, a Comissão e os Estados membros em pé de igualdade como seus interlocutores. Odeia-os porque não foram a correr a Berlim prestar vassalagem a Angela Merkel. Odeia-os porque puseram a ridículo os que assim que ascenderam ao poder fizeram isso, como François Hollande ou Passos Coelho. Odeia-os porque disseram cara a cara a Wolfgang Schauble que não concordam com ele. Odeia-os porque não estão a negociar de mão estendida. Odeia-os porque estão a honrar o essencial do programa com que venceram as eleições. Odeia-os porque já perceberam que a Europa vai ter de ceder.»

Nicolau Santos, no Expresso (7 de Fevereiro de 2015)

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Fala-se muito em direitos, liberdades e garantias. Mas existe um direito fundamental de que lamentavelmente ninguém fala: o elementar direito ao reconhecimento da realidade.

Lembrei-me disto ao ver a última emissão do programa televisivo Quadratura do Círculo, em que os papéis pareciam mais trocados que nunca. António Lobo Xavier, militante do CDS, defendia o PS com visível convicção. Jorge Coelho, militante do PS, mostrava uma compreensão benévola para a missão governativa da coligação PSD-CDS. E Pacheco Pereira, militante do PSD, transformava o Bloco de Esquerda num modelo de moderação política.

O diálogo a três foi muito extenso, mas interessou-me essencialmente o trecho que passo a transcrever - com a devida vénia - antes de um sucinto remate.

..................................................................

 

Pacheco Pereira - Estão lá [nas propostas divulgadas pelo PS] a incorporação dos dados do Tratado Orçamental, está lá o controlo do défice, está lá um conjunto de medidas restritivas...

Jorge Coelho - Quer que o País saia da Europa?

PP - Não, não quero que o País saia da Europa. O que eu gostava era de ter visto o PS, nos últimos tempos, crítico da construção europeia, por exemplo em relação à Grécia.

JC - Você tem uma visão ultra-radical da construção europeia!

PP - Tenho uma visão ultra-radical. Aceitando-se os objectivos do Tratado Orçamental, aceitando-se os modelos pelos quais se incorporam esses objectivos, a maioria das coisas que você diz não é razoável. Vocês colocam-se na situação de dar razão às críticas do Governo.

JC - Então você quer sair da União Europeia. Assuma isso! Diga: Portugal tem que sair da UE!

PP - A Europa, neste momento, é um dos principais venenos para a democracia. Você não acha?

JC - Olhe... está a ver?

PP - A UE só existe se conjugar políticas comuns com a solidariedade. E a solidariedade significa uma transferência de recursos dos países mais ricos para os mais pobres. E só resulta se os países forem virtualmente iguais, coisa que neste momento claramente não são. Enquanto vocês falam da Europa, vocês estão a falar dos Donos Disto Tudo.

Lobo Xavier - Sem desprimor, mas a diferença entre este pensamento e o do Louçã é nenhuma.

PP - Vocês são os donos da realidade e não acertam numa!

LX - Você não gosta da realidade e não quer lidar com ela. Quer romper com a realidade.

..................................................................

 

Ouvindo tão inspirador diálogo, questiono-me se na próxima revisão constitucional os deputados não deverão acrescentar este direito ao extenso cardápio dos já existentes: o inalienável direito ao reconhecimento da realidade. Sem esta conquista, outros direitos fundamentais jamais sairão do papel.

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Falharam

por Pedro Correia, em 22.04.15

Previram uma irreparável "espiral recessiva". Não houve.

Previram um ameaçador "programa cautelar". Nunca apareceu.

Previram um  "gigantesco risco sistémico" no sistema financeiro português. O colapso jamais ocorreu.

Previram um inquestionável "segundo resgate". Ninguém o vislumbrou.

Previram até, com ênfase de profissão de fé, a saída de Portugal do euro. Que só existiu em sonhos. Ou pesadelos.

 

Durante um par de anos levámos com todos estes profetas da desgraça, num concurso de cassandras levado ao domicílio antes, durante e depois dos telediários. Dia após dia, noite após noite.

Nunca ninguém lhes pedirá contas sobre o imenso rol de profecias falhadas. É o que lhes vale.

 

Mas a maior prova desse falhanço está no pacote de medidas de carácter económico que o PS acaba de desvendar para um hipotético executivo a sair das eleições do Outono. Os socialistas - ultrapassando agora o  Governo (2,3%) e o  Banco de Portugal (1,9%) em optimismo - antecipam um crescimento médio anual da economia portuguesa de 2,6% no período em que vigorar a próxima legislatura.

Contagiados por este optimismo, que avaliza afinal o desempenho do executivo ainda em funções, os do costume - aqueles que falharam todas as previsões - voltarão aos jornais de sempre e às televisões da praxe a dar o dito por não dito. Só nessa matéria conseguem ser exímios.

 

Leitura complementar:

Cautela. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

O irrealismo dos cenários macroeconómicos do governo e do PS. De Ricardo Paes Mamede, no Ladrões de Bicicletas.

Texto do PS: boa jogada política a curto prazo mas sem credibilidade económica. De Luís Salgado de Matos, n' O Economista Português.

PS prescinde de quase 1% do PIB no Orçamento e diz que baixa défice. De Sérgio Aníbal, na Economia Info.

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Twilight zone

por Pedro Correia, em 21.02.15

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«A Alemanha teve de ceder.»

Nicolau Santos (hoje, na SIC Notícias), comentando a decisão do Eurogrupo de estender por quatro meses a assistência financeira à Grécia sob a condição de Atenas manter o programa de austeridade

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Penso rápido (60)

por Pedro Correia, em 27.11.14

É espantoso verificar como se injuria e difama o mensageiro enquanto se apregoa a necessidade de respeitar o bom nome e a presunção de inocência dos arguidos, sejam eles quem forem. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, fizeram tábua-rasa dos mesmos princípios que agora juram honrar e defender. Sobretudo quando essa incongruência é assumida por pessoas que noutros casos, com outras cores políticas, invocaram como alicerces das suas certezas alguns dos órgãos de informação que então citavam como veículos idóneos e agora - só agora - acusam de violar segredos de justiça.

Tais pessoas concebem a verdade como um conceito de geometria variável: diz-me que trincheira ocupas, dir-te-ei quem és.

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Não há circo sem palhaços

por José Navarro de Andrade, em 26.11.14

Circo mediático não é o clip de 5 segundos de um automóvel a sair da garagem com um arguido lá dentro. Circo mediático não é a chusma de repórteres a troar perguntas irrelevantes ao advogado que vem cá fora fumar um cigarrito, sabendo que não terão resposta. Isto é business as usual. Circo mediático são 4 canais durante 4 horas e upa, a darem vez e voz a turbas de comentadores, cortesãos e outros assim, que debitam incessantes e minuciosas opiniões sobre um assunto que afirmam desconhecer. Boa parte dessas opiniões reprovando o circo mediático.

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E ainda agora começou

por José Navarro de Andrade, em 23.11.14

Ainda vai no adro a procissão do que se poderá chamar “Caso José Sócrates” e já estão em desenvolvimento formidáveis teorias da conspiração, em que nada é o que parece ser mas outra coisa qualquer que só os mais espertos e previstos conseguem perscrutar, e connosco partilham generosamente.

Já apareceram coisas lindas de se lerem, por exemplo esta:

“Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais [Correio da Manhã e Sol] pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.”

Ora aqui está uma opinião com entrada directa para os anais da ignomínia intelectual. Impressiona como num parágrafo se pode acusar tão peremptória e cabalmente a Justiça das hediondas práticas de “violação do segredo de Justiça” e de “manipulação política”, para no parágrafo seguinte, em vez de comprovar a dedução com factos, como mandaria a decência (adeus ó ética jornalística), desarmar tamanhas certezas com o singelo advérbio “apenas”: apenas suspeita do que disse. Mas tem esse direito lá isso ninguém lho tira – que direito? Direito a quê? e porque razão considera que o tem?

Poderei, então, a meu bel-prazer invocar uma fantasmagórica “legitimidade” (atribuída por que instância? Baseada em quê?) para suspeitar que a autora deste dislate usa umas cuecas às pintinhas oferecidas pelo Sr. José Sócrates. Apesar de ter tantas provas factuais como ela, também acho que tenho o direito de bolçar suspeita tão parva.

Isto é a ponta do iceberg dos contorcionismos e denegações que vêm a caminho e atingirão muito em breve o ponto de rebuçado mediático nas chamadas redes sociais. Desde logo começou a circular por aí um twitter, emitido por outra senhora, esta com responsabilidades institucionais, que se lhe aplicássemos a lógica formal seria como adicionar uma laranja com uma pera para dar o resultado de dois ananases, ou seja junta a detenção do Sr. José Sócrates com o caso dos vistos gold, dizendo que uma mão veio para lavar a outra. Descobrir coincidências temporais (é fácil, pois não estão sempre a acontecer?) e deduzir nelas implicações causais (é ainda mais fácil, basta imaginar e suspeitar) é como supor que um desastre de automóvel poderia ter acontecido em melhor altura.

Como diria Bette Davis: “fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy ride.”

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Penso rápido (50)

por Pedro Correia, em 22.09.14

Os políticos que se habituam demasiado tempo a pronunciar-se sem contraditório (e há vários, e de várias cores) passam a assumir uma pose grave e senatorial, própria de quem nunca se molha e de quem se habitua a vencer sem nunca verdadeiramente ir a jogo.
Só forma, sem conteúdo. Mas é quanto basta para granjear aplausos fascinados da nata lisboeta, sempre pronta a colar mais um cromo na vasta caderneta de senadores do regime.

A propósito, muitos comentadores falam na necessidade de "renovação" da política esquecendo que a renovação terá de passar também por eles. Fazem parte do sistema, alimentam-se da pequena intriga alfacinha. Alguns estão há 20 anos ou até mais a fazer comentário político. São parte interessadíssima naquilo que comentam. E responsáveis, em larga medida, pela fuga sistemática de leitores e espectadores das páginas de jornalismo político e dos debates políticos na televisão.

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(segunda de duas partes)

 

 

VI

A necessidade de preencher tempo de antena leva os canais de notícias a recorrer às mesmas pessoas, que com intervalos curtos saltitam de televisão em televisão a proferir as mesmíssimas declarações. Aconteceu a 2 de Julho de 2013 com António Capucho, já então candidato independente assumido à eleição para a Assembleia Municipal de Sintra, que decorreria menos de três meses depois.

«Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido», declarou Capucho na TVI 24. «O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas», disse na SIC Notícias. «Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral», afirmou na RTPi.

Políticos por um lado, jornalistas por outro. Ao longo destes dois dias de alta tensão política e televisiva, registei as declarações integrais de 27 jornalistas enquanto comentadores em três canais: RTPi, SIC N e TVI 24. Faço questão de acentuar que não vi a CMTV por não dispor à época daquele canal no meu operador de televisão por cabo.

Um ano depois, deixo à consideração dos leitores algumas frases que fui destacando:

«Paulo Portas rompeu a corda e a consequência óbvia é a queda do Governo. Passos Coelho não tem outra saída senão demitir-se.»

«Passos Coelho é a versão portuguesa daquele ministro da informação do Iraque.»

«O Presidente da República não pode tentar manter um Governo em estado de semivida. Não é possível.»

«Prolongar esta situação é uma desgraça para Portugal, deixando que este doente comatoso continue a fazer de conta que governa o País.»

«Dentro do PSD há uma larga maioria do partido que não está de acordo com a manutenção deste Governo.»

«A rua pode fazer cair Passos Coelho.»

«António José Seguro tem razão em dizer que isto chegou ao fundo dos fundos. E chegou.»

«Este senhor [Passos] é incapaz de liderar uma turma, quanto mais um governo.»

«Para haver maioria no Parlamento, só se o PSD mudar de líder.»

«Estamos perante uma crise política de dimensões colossais -- portuguesa e europeia.»

«Neste momento não há nenhum ministro que tenha vontade de continuar.»

«Passos Coelho perdeu toda a lucidez.»

«O CDS é Paulo Portas.»

«O CDS sempre foi um partido de um homem só.»

«A escolha da ministra das Finanças não agradou a muitos sectores do PSD.»

«Já não há Governo.»

«Agora o que é preciso é ajudar a sair este Governo com dignidade.»

«Passos Coelho não tem condições para ser candidato a primeiro-ministro de novo. Paulo Portas também não.»

«Quando um ministro pede a demissão esse pedido tem de ser aceite.»

«Só um Governo que tivesse o apoio do PS funcionaria e acalmaria os mercados.»

«Este Governo está podre.»

«O Presidente da República tem que acabar com esta fantochada.»

Apenas alguns exemplos. Reitero: são declarações de jornalistas, não de politólogos ou dirigentes partidários envolvidos no calor da refrega política. Cada qual mais apaixonada e desabrida do que a outra. Muitas -- para não dizer quase todas -- dissociadas da realidade. Sucede com frequência, quando confundimos aquilo que acontece com aquilo que desejávamos que acontecesse.

 

 

VII

Não vou individualizar ou particularizar a autoria destas frases para evitar também eu cair num dos vícios do comentário à portuguesa, que tudo fulaniza na permanente tentação de interpretar os factos em função da identidade dos protagonistas, adaptando à política a lógica argumentativa do futebol. Importa muito mais inventariar os manifestos erros de análise -- na tentativa de evitar que se repitam e se propaguem -- do que apontar na direcção de quem os comete.

Vale a pena, isso sim, individualizar os poucos que, na balbúrdia do momento, souberam permanecer imunes às armadilhas do comentário em directo. Devo destacar aqui Miguel Sousa Tavares, que evitou juntar-se à vozearia dominante, separando o trigo do joio -- à revelia, porventura, das suas convicções mais íntimas sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Destaco-o porque foi ele o primeiro a saber remar contra a maré. No Jornal da Noite da SIC, a 2 de Julho, apontou o dedo na direcção do CDS, contrariando aqueles que já davam como segura a convocação de legislativas antecipadas: «O PSD vai tentar governar mesmo sem o CDS, com os deputados que tem.»

Hoje parece óbvio que o pedido de demissão de Portas não acarretava a renúncia do chefe do Governo. Mas o primeiro a perceber isto, nesse dia, foi Sousa Tavares.

O Jornal da Noite foi, aliás, o maior reduto de lucidez analítica ao longo desses dois dias febris -- em perfeito contraste com outros espaços noticiosos. Luís Marques Mendes, também comentador do canal de Carnaxide, esteve em antena ao lado de Miguel Sousa Tavares e acertou em três vaticínios: «Não haverá eleições até Junho de 2014 mas este Governo deve-se compor»; «Entre o orgulho de manter a sua posição e o sentido de responsabilidade de fazer algum recuo, o sentido de responsabilidade [de Portas] é mais importante.»

 

 

VIII

Eram 20h42 dessa terça-feira, 2 de Julho, quando Marques Mendes disse o que mais ninguém ainda havia dito ao longo das agitadas horas precedentes: «Ainda ninguém percebeu se a saída "irrevogável" é só a saída de Paulo Portas ou é a saída do CDS.» Aproveitando para sublinhar também o que ninguém dissera antes dele: nessa mesma tarde, um destacado membro do CDS, Paulo Núncio, tomara posse como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, integrando a equipa de Maria Luís Albuquerque.

Quase à mesma hora, no Jornal das 8 da TVI, António Perez Metelo era também o primeiro a chamar a atenção para a dimensão internacional da crise (um aspecto crucial num país sob intervenção financeira externa), salientando que «do ponto de vista dos credores é muito importante que o CDS clarifique a sua plataforma política». No mesmo jornal televisivo, falando ao telefone, Marcelo Rebelo de Sousa introduziu um elemento de análise até aí inédito ao alertar para a «queda brutal das bolsas em apenas sete minutos devido à demissão de Portas».

Ninguém mais se lembrara disso.

Ao contrário da generalidade dos comentadores, que durante a tarde viraram baterias contra o primeiro-ministro, Sousa Tavares e Rebelo de Sousa concentraram os focos críticos no ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. «A reacção de Paulo Portas é totalmente incompreensível em pleno arranque da oitava avaliação, num momento crucial para o Orçamento de Estado, numa atitude que não é sequer artilhada por elementos do seu partido», observou Marcelo na TVI enquanto na SIC Sousa Tavares concluía que o líder do CDS «sai mal da fotografia».

Mas foi preciso esperar até à tarde do dia seguinte para alguém afirmar em antena aquilo que se impunha desde o primeiro instante, contrariando as interpretações generalizadas do CDS como partido «de um homem só».

Aconteceu quando a editora política da SIC, Paula Santos, disse estas palavras inequívocas: «A decisão de Paulo Portas é pessoal e não vincula o partido. Em momento algum, naquela nota, Portas fala no plural.» E admitia: «O CDS ainda poderá ficar no Governo, em coligação.»

Eram 18h13 de 3 de Julho de 2013. Aos olhos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado ao Governo. Aos ouvidos dos portugueses, a serenidade e o bom senso pareciam ter regressado às televisões.

Um ano depois, sabemos o que aconteceu. Ficou claro quem analisou bem os factos, quem foi incapaz de ler para além da espuma e quem delirou em toda a linha.

Neste país de doces costumes, todos se mantêm nos seus postos. Há tradições que nunca mudam.

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(primeira de duas partes)

 

 

I

Em Julho de 2013, em entrevista ao canal Q, Joaquim Furtado -- um dos mais prestigiados jornalistas portugueses -- punha o dedo na ferida: ao trocarem a notícia pelo comentário, muitos profissionais da informação transmitem uma má imagem do jornalismo.

Ouvi estas palavras, que subscrevo, e logo as relacionei com duas datas: 2 e 3 de Julho de 2013, dias negros para o comentário político em Portugal, dias em que se sucederam nas antenas televisivas as mais delirantes teses pronunciadas por jornalistas a propósito do desenrolar da crise governativa então ocorrida.

De repente, a realidade dava lugar aos "cenários" -- segundo uma escola muito popularizada, desde os remotos anos 70, por Marcelo Rebelo de Sousa. Mas em cima destes "cenários" foram-se construindo outros, e mais outros, e mais outros, formando uma espécie de tela virtual sem a menor correspondência com a realidade. Na ânsia de suplantarem a capacidade efabulatória de certos "analistas políticos", com morada permanente nos canais informativos da televisão, vários jornalistas acabaram por prestar um mau serviço ao jornalismo. Tomando o incerto por certo, confundindo desejos com realidades, imaginando que bastam alguns tijolos para construir um edifício argumentativo capaz de resistir ao confronto com os factos.

 

 

 

II

O maior defeito da "cenarização" em cadeia é precisamente esse: acaba por se perder de vista toda a base factual.

Neste caso, convém recapitular, havia três factos: uma carta de demissão assinada pelo ministro de Estado e das Finanças, Vítor Gaspar, tornada pública a 1 de Julho; o anúncio da substituição do ministro pela secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, a quem foi conferida posse na tarde do dia seguinte; e uma carta de demissão "irrevogável", assinada pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, divulgada cerca de uma hora antes da cerimónia de posse e justificada precisamente pela decisão do primeiro-ministro de fazer substituir Gaspar por Maria Luís.

Estes, os factos.

A partir das 16h30 do dia 2 -- faz agora um ano -- e durante todo o dia seguinte foram desfilando nos ecrãs televisivos diversos comentadores -- muitos dos quais oriundos dos jornais ou das rádios -- com palpites sobre o desfecho da crise política. Admitindo todos, com base nos dados disponíveis, a iminente queda do Governo e a realização de eleições antecipadas.

Estávamos não já no domínio do concreto, mas do provável. O primeiro erro ocorreu logo ali -- na transformação do provável em quase certo ou indiscutivelmente categórico nesta obsessão de "cenarizar" a vida política, deixando factores emotivos de diversa ordem ocupar o lugar da racionalidade no exercício do comentário analítico, talvez também pelo efeito mimético que cada intervenção produzia nas intervenções posteriores, numa espécie de choque em cadeia do qual quase ninguém saiu ileso.

 

 

III

Breve inventário dos erros cometidos:

-- O maior de todos foi o da identificação do CDS com o seu líder, considerando-se que os dirigentes democratas-cristãos obedecem em uníssono à voz de comando de Paulo Portas. A tese do "partido unipessoal", popularizada por José Pacheco Pereira, ganhava foros de dogma indiscutível, como se a política estivesse prisioneira de mecanismos cegos, rígidos e válidos para qualquer contexto e qualquer circunstância.

-- Esta tese ignorava que, pouco antes da crise governativa, o CDS assinara com o PSD uma vasta aliança eleitoral para as autárquicas de Setembro em que os democratas-cristãos -- com presença residual no terreno autárquico -- eram os maiores beneficiários. Ignorava também que a carta de Portas em nenhum momento vinculava o conjunto dos ministros e secretários de Estado do CDS. Ignorava ainda que o titular dos Negócios Estrangeiros não convocara os órgãos próprios do partido antes de divulgar a carta.

-- Outro erro evidente destas "cenarizações": quase todas ignoraram o contexto internacional, produzindo-se como se Portugal não estivesse sujeito a um quadro de intervenção financeira externa, e menosprezaram por completo o efeito da demissão de Portas nos mercados financeiros. A queda abrupta das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida portuguesa, ocorridas horas depois, foram um autêntico banho de realidade para muitos comentadores que imaginam ainda a política indissociável da conjuntura económica e financeira.

-- A febre da "antecipação" -- sob a pressão dos directos televisivos e da permanente auscultação do que se ia dizendo nos canais concorrentes -- levou a que se perdesse com impressionante rapidez o rigor da base factual, ingrediente indispensável à qualidade do comentário. Já no dia 1 de Julho isso sucedera, embora numa escala muito menor, quando boa parte dos comentadores tomara por válida a tese de que o ministro da Saúde, Paulo Macedo, chegara a ser um sério concorrente à pasta das Finanças ou fora mesmo sondado para esse efeito. Coube a Miguel Sousa Tavares -- no Jornal da Noite, da SIC -- deitar água na fervura, nessa segunda-feira, ao dizer que, tanto quanto sabia, Macedo não chegara a ser hipótese para o lugar de Gaspar.

Quem sustentara tal tese esquecera-se aliás de responder a esta simples pergunta: faria algum sentido o primeiro-ministro remover de uma pasta ministerial quase sempre muito polémica aquele que as sondagens apontavam como o mais popular membro do elenco governativo?

 

 

IV

Nunca tantos produziram tantos "cenários" em tão pouco tempo em televisão. Num exercício especulativo quase sem contraditório. A emoção do momento sobrepunha-se por completo à análise racional.

A todo o instante se falava já em eleições legislativas antecipadas -- mas também na repercussão da crise portuguesa nas eleições da Alemanha marcadas para três meses depois, em golpes internos no PSD e até na súbita demissão de Passos Coelho. Tudo isto em poucas horas.

Havia quem garantisse que o Presidente da República iria dissolver o Parlamento. Havia quem antecipasse a data das legislativas, equacionando-a para o mesmo dia das autárquicas de Setembro -- algo inédito na democracia portuguesa.

Mais insólito ainda: já se antecipava nos canais noticiosos o vencedor dessas eleições, como se o acto de votar fosse um mero requisito formal destinado a validar um quadro político pré-existente. E não faltou até quem antevisse a «derrota da direita» durante uma década em Portugal.

A tese do líder socialista, António José Seguro, ganhava foros de verdade mineral: «O Governo caiu e desmoronou-se na praça pública.» Tese extravagante, mas partilhada por sucessivos comentadores nesse fatídico dia 2: a solução para o problema suscitado pela demissão de Portas... era a demissão de Passos Coelho!

Com tantos jornalistas em antena, praticamente nenhum se interrogou se esse comportamento corresponderia ao perfil político e psicológico do primeiro-ministro. Os factos, também aqui, acabariam por desmentir os "cenários".

Houve flagrantes contradições na lógica discursiva dos comentadores. O chefe do Governo era criticado por nomear para ministra das Finanças alguém com quem mantinha uma estreita relação pessoal ao mesmo tempo em que era criticado por não cultivar boas relações com o demissionário ministro dos Negócios Estrangeiros. Enquanto se ignorava o historial de conflitos protagonizados por Portas no conjunto da direita portuguesa e no interior do próprio CDS.

 

 

V

Passos Coelho, ainda no dia 2, rompeu toda esta torrente discursiva com duas frases curtas e claras: «Não me demito. Não abandono o meu país.» E revelava que não aceitara o pedido de demissão de Portas.

Era um elemento factual de importância suficiente para fazer estancar -- ou, pelo menos, atenuar -- as irrevogáveis certezas dos comentadores. Nada disso aconteceu: mesmo perante isto, havia já quem sustentasse que Passos Coelho perdera o apoio de «muita gente no PSD» e estava a poucos dias de abandonar a liderança do partido face às «movimentações» internas contra ele que surgiriam «nas próximas horas».

Um comentador, ainda mais categórico do que os demais, prenunciava nesse serão de terça-feira, faz hoje um ano: «Amanhã [3 de Julho de 2013] Assunção Cristas e Mota Soares vão demitir-se. É impensável que não se demitam. Isso será o passo que falta para o Presidente da República [dissolver a Assembleia da República].» Outro antevia já uma «derrocada eleitoral da direita sem precedentes na última década».

Já na manhã seguinte, outro improvisado analista emprestado pela imprensa aos ecrãs televisivos ironizava sobre a nova titular das Finanças: «É a primeira vez que uma ministra toma posse de um cargo que já não existe!»

Nesta espécie de concurso destinado a apurar quem produzia a afirmação mais delirante destacou-se o autor desta frase, na SIC Notícias: «Passos Coelho faz lembrar Salazar, depois de 1968, quando os ministros iam a despacho e ele já não era primeiro-ministro.»

 

(conclui amanhã)

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Os mesmos

por Pedro Correia, em 08.06.14

Os mesmos comentadores que há um ano consideravam "inevitáveis" as legislativas antecipadas vêm agora considerar uma "irresponsabilidade" a hipótese de antecipar as eleições.

Quem não conhecer que os compre. Eu conheço-os.

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Longuicurto

por Pedro Correia, em 10.05.14

 

A temporada 2013/14 ainda não chegou ao fim mas há um balanço que já pode começar a ser feito: o das pérolas de Joaquim Rita, verdadeiramente inconfundíveis.

Só ele poderia ter dito coisas como estas (e disse-as mesmo):

 

27 de Julho de 2013:

«É inevitável a saída de Rui Patrício.»

«Jefferson não é um lateral de grande qualidade defensiva.»

«Não me parece que Maurício esteja condenado a ser titular nesta equipa do Sporting.»

 

17 de Agosto de 2013:

«No meu entender, o Sporting não será capaz de se intrometer na discussão com o Benfica e o FC Porto mas poderá esbracejar com o Braga na luta pelo terceiro lugar.»

 

14 de Dezembro de 2013:

«Há uma realidade com a qual o Sporting ainda não conviveu: este ano praticamente ainda não choveu, os campos ainda não estão pesados. Falta ver qual a forma como o Sporting vai reagir em terrenos diferentes, em terrenos ensopados.»

 

Enfim, um verdadeiro poço de argúcia. Mas ainda muito longe, valha a verdade, de atingir o estatuto dessa figura quase mítica do comentário ludopédico nacional que se chama Gabriel Alves. Que ficou célebre, entre inúmeras outras frases, por dizer algo como isto: "Um passe para a zona de ninguém... onde realmente não estava ninguém." Ou como isto, aludindo a Jean-Pierre Papin: "Um jogador extremamente rápido, veloz, lesto, nada lento, antes pelo contrário." Ou ainda esta: "O Benfica está a praticar um jogo de passe curto... e longo, consoante as ocasiões."

O que diria GA de JR? Que é lento, nada lesto. Diria mesmo que é longuicurto. Esbraceja como pode, consoante as ocasiões, mesmo em terrenos ensopados. Intromete-se em qualquer discussão com a mão que tem mais ao pé ou vice-versa. Está condenado a ser titular na pantalha mesmo sem grande qualidade ofensiva ou defensiva, antes pelo contrário.

E passa o verbo para a zona de ninguém como nenhum outro.

 

Publicado inicialmente aqui

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José Sócrates é o menos visto dos comentadores televisivos

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Sobre o comentário político

por Pedro Correia, em 13.12.13

Há, de maneira geral, três géneros de comentários políticos na televisão.

Os que são feitos por políticos.

Os que são feitos por politólogos.

Os que são feitos por jornalistas.

 

Destes, lamento concluir, os melhores são feitos por políticos.

 

Os politólogos produzem, em regra, comentários irrelevantes. Há louváveis excepções, mas apenas confirmam a regra.

 

Os comentários mais fracos são produzidos pelos jornalistas da imprensa que têm assento quase permanente nos estúdios televisivos. Há excepções notórias também. Que não desmentem a regra.

 

Interrogo-me por que motivo as televisões não produzem, genericamente, os seus próprios comentadores. Preferem ter comentários proferidos por jornalistas da imprensa do que por jornalistas oriundos dos seus próprios quadros redactoriais. Custa-me entender o que ganham com a troca.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 20.10.13

«O debate com o primeiro-ministro O País Pergunta, que a RTP transmitiu no passado dia 9 de Outubro, teve o grande mérito de demonstrar como, no quotidiano entorpecente das nossas televisões, os programas sobre política são um dos responsáveis pelo crescente afastamento dos cidadãos face às questões socio-políticas. Nas discussões diárias sobre crise, défice, troika, resgate e "inverdades", os diversos canais apresentam sempre os mesmos comentadores -- alguns deles antigos dirigentes partidários -- que se entretêm a falar entre si através de recados escondidos, ou se empertigam com o recurso a frases técnicas incompreensíveis para a maioria da população. Se pensarmos que a gente nova há muito deixou de ver televisão e que grande parte dos mais velhos não tem conhecimentos suficientes para caminhar entre as minúcias da análise económica, depressa compreendemos que o discurso popular do "lá estão eles às turras" ganha cada vez mais adeptos.»

Daniel Sampaio, no Público

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Falar claro... ou talvez não

por Pedro Correia, em 25.07.13

«A demissão de Paulo Portas vem acabar de uma vez por todas com a possibilidade de este Governo prosseguir.»

«Pedro Passos Coelho deve demitir-se de presidente do PSD pois não tem condições de liderar o partido nas próximas legislativas [que devem ser marcadas para o dia das autárquicas].»

António Capucho, TVI 24, 2 de Julho

 

«O Governo já estava moribundo. A demissão de Paulo Portas é a estocada final. O Presidente da República deve convocar eleições para a mesma data das autárquicas.»

António Capucho, SIC Notícias, 2 de Julho

 

«O Governo já estava moribundo. Agora está ferido de morte, com a estocada final. Ou o primeiro-ministro é completamente irresponsável ou não percebe, de facto, que não tem condições para governar.»

«Passos Coelho não pode permanecer na liderança do PSD: deve demitir-se e convocar um congresso eleitoral.»

António Capucho, RTP i, 2 de Julho

 

«O Governo está neste momento muito coeso e unido, e a respirar fundo com esta nova dinâmica, porque o PSD tem no Parlamento um conjunto de deputados escolhidos a dedo por Passos Coelho e que se comportam muito bem e disciplinadamente.»

António Capucho, SIC Notícias, 24 de Julho

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salve-se quem puder

por Pedro Correia, em 22.07.13

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Análise política (parte 1)

a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo.

salve-se quem puder.

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Análise política (parte 2)

os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes.

salve-se quem puder.

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Análise política (parte 3)

ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro.

salve-se quem puder.

 

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Rui Sebastião chamado ao salão (parte II)

por Pedro Correia, em 11.07.13

«Admito que haja nos partidos políticos, a partir de hoje, alguma convulsão interna. (...) O Presidente sugere que é fácil encontrar uma personalidade de reconhecido mérito nacional para mediar a proposta entre os três partidos que assinaram o memorando da troika. Podemos especular sobre essa personalidade, desde Silva Peneda a Rui Rio.»

Raul Vaz, RTP N, 10 de Julho

 

«Rui Rio é uma boa solução. Por ser um homem rigoroso, sério.»

Paulo Baldaia, SIC Notícias, 10 de Julho

Parte I aqui

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Rui Sebastião chamado ao salão

por Pedro Correia, em 04.07.13

«Passos Coelho não tem neste momento mão no PSD. (...) Estão criadas as condições para que a corrente crítica no PSD venha questionar a liderança. O PSD pode ter algum ganho se conseguir alterar a liderança do partido até às eleições. (...) Dentro do PSD há uma larga maioria que não está de acordo com a manutenção deste governo.»

Raquel Abecasis, TVI 24, 2 de Julho

 

«Há duas pessoas que têm um poder enorme dentro do PSD, assim de um dia para o outro: Rui Rio e Paulo Rangel.»

Ricardo Costa, SIC Notícias, 2 de Julho

 

«O Presidente da República deve chamar Rui Rio, que é uma pessoa prestigiada.»

José Gomes Ferreira, SIC, 3 de Julho

 

«A melhor solução para o País era um governo de salvação nacional ou de unidade democrática. (...) Conheço pelo menos quinze ou vinte pessoas na sociedade portuguesa que têm conhecimentos, experiência e seriedade para poderem exercer esse papel.»

Freitas do Amaral, RTP, 3 de Julho

 

«Apostaria no Rui Rio, que tem estado a gerir a Câmara do Porto magistralmente e sai com um prestígio enorme como autarca. É uma hipótese [para primeiro-ministro].»

António Capucho, Rádio Renascença, 3 de Julho

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Sempre mais democracia, nunca menos

por Pedro Correia, em 03.07.13

 

Vendo as televisões, nestas últimas 48 horas, fica-se com a impressão de que os comentadores surgem de todos os cantos e proliferam como cogumelos. Julgo que esta é mesmo a profissão mais em foco nas pantalhas lusas, logo após os políticos e os jogadores de futebol. Ao contrário de muitas outras, praticamente invisíveis.

Como não existe um ranking - formal ou informal - de comentadores, fica-se também com a impressão de que todos se equivalem. Nada mais falso. Alguns são rigorosamente incapazes de exprimir uma ideia, por mais que espremam as meninges e por mais tempo que permaneçam em antena.

O pior é quando a 'boa moeda' dos comentadores se deixa contaminar pela 'má moeda', ficando tudo nivelado por baixo. Hoje, por exemplo, ouvi um deles, que aliás respeito, defender uma nova solução governativa que passe por um executivo de iniciativa presidencial deixando à margem os líderes do PSD e do PS. Uma espécie de cenário grego, com o tecnocrata Papademos, ou de cenário italiano, com o tecnocrata Monti. Com a diferença de que estes dois governos foram impostos pelos eurocratas de Bruxelas e pela eurofinança de Berlim - com os maus resultados que sabemos e as péssimas consequências que tiveram nos sistemas políticos dos dois países - e aqui ocorreria por amável desígnio de alguns membros da oligarquia política e empresarial cá do burgo.

Raras vezes tenho ouvido uma ideia tão disparatada. Se a actual legislatura terminar antes do prazo previsto, como é muito provável que aconteça, a única solução governativa credível e propiciadora de um mínimo de estabilidade só pode sair de eleições.

Mais democracia, nunca menos democracia. Quando não há outra solução, resta esta. Que é sempre a melhor, mesmo que por vezes não pareça.

 

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Creio de certeza que efectivamente parece

por José Navarro de Andrade, em 01.07.13

Blah, Blah, Blah, painting by Mel Bochner

Mel Bochner, "Blah, blah, blah"

 

É cómico ver a quantidade de senhores na TV, graves e argutos, a descreverem definitivamente como procederia Paulo Macedo assim que tomasse posse do magistério das Finanças e prosseguirem, sem uma beliscadura no tom e na pose, em dissertações de supina ciência acerca do que fará Maria Luís Albuquerque mal ouviram que foi afinal ela a nomeada.  

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Antevisão de mais um clássico

por Rui Rocha, em 21.04.13

Trata-se, evidentemente, de uma luta desigual. De um dos lados, diversidade de recursos, grande experiência e uma abordagem muito mais alegre e variada que cativa o espectador. Os defeitos, que evidentemente existem (propensão especulativa e posicionamento pouco consistente) acabam por ser disfarçados pelo elevado ritmo imposto. Do outro lado, em contrapartida, um estilo repetitivo, por vezes muito irritante, preso a modelos passados e com gritantes lacunas tácticas em diversos momentos, contribui para uma notória falta de entusiasmo mesmo dos apoiantes mais empedernidos. Tudo ponderado, creio que a coisa terminará com uma nova goleada.

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Sem papas na língua

por Laura Ramos, em 09.04.13


«Eu gostava imenso de ouvir um diálogo entre a Troika e António José Seguro»

(Também eu gostava...)

 

Pelo meio da nacional esquizofrenia comentarística e da má-língua suicidária, sabe bem ouvir uma análise consistente e sensata, com os pés na terra.

Sobre a atitude de Passos Coelho e o seu sentido de responsabilidade (por muito menos, abalaram Guterres e  Durão Barroso...).

Sobre o absoluto vazio e a patética leveza das fileiras críticas.

E, a propósito da saída de Miguel Relvas, sobre a agressividade gratuita e a forma de estar em política.

Vale a pena ouvir de fio a pavio.

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Não acerta uma

por Laura Ramos, em 08.04.13
 

 Às 18:30h de domingo, Passos Coelho anunciaria uma de três:

1- Demissão do primeiro-ministro Ø
2- Remodelação do governo Ø
3- Renegociação com a Troika Ø
 

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A cópia

por João Campos, em 25.03.13

 

Há alguns dias, enquanto fazia zapping, detive-me por alguns minutos num dos canais de notícias (TVI? É difícil dizer; para quem não os segue com regularidade são todos iguais). Passava um daqueles programas de comentário político muito na moda para ex-governantes; no caso, era Marques Mendes quem botava faladura. E fiquei surpreendido pelos gestos, pelo tom, pela postura. Pergunto: é só de mim, que não tenho por hábito acompanhar este tipo de programas, ou o homem tornou-se numa cópia (necessariamente inferior) de Marcelo Rebelo de Sousa?

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374 comentários, nada menos

por Pedro Correia, em 18.12.12

Este postal da nossa Leonor foi o quarto mais comentado do ano nos blogues pertencentes ao cada vez mais vasto universo Sapo, sempre dinâmico, sempre actualizado e com um toque de saudável irreverência que nunca vai de férias - nem para comer as tradicionais rabanadas natalícias.

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Socialistas que vale a pena escutar

por Pedro Correia, em 04.12.12

«As eleições em democracia são de tantos em tantos anos exactamente porque um governo não pode estar dependente da popularidade do momento, porque senão ninguém fazia política nem ninguém tomava as medidas que por vezes é necessário tomar e que são circunstancialmente impopulares - e depois podem vir a revelar-se virtuosas e as pessoas a posteriori até acharem que se fez muito bem. Veja-se o caso do governo do Bloco Central: foi odiadíssimo enquanto esteve em funções [1983-85] e agora é quase idolatrado. O infelizmente falecido Prof. Ernâni Lopes e o Dr. Mário Soares são quase idolatrados como salvadores da pátria. A opinião pública é volúvel. Não podemos pôr sobre os políticos uma espada de Dâmocles que os ameace dia-a-dia.»

Augusto Santos Silva, TVI 24 (27 de Novembro)

 

«É preciso explicar aos portugueses que os sacrifícios valem a pena. (...) Já fizemos outros ajustamentos no passado em circunstâncias também muito difíceis. Não devemos destruir a imagem que o País tem no contexto internacional. (...) Fiz parte do Governo do Bloco Central. Hoje já se pode dizer isto em Portugal sem correr grandes riscos. Houve uma altura em que ter participado nesse governo era quase criminoso. (...) Não há interesse para o País numa crise política.»

António Vitorino, TVI 24 (27 de Novembro)

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Ser ministro para deixar de o ser

por Pedro Correia, em 26.10.12

Qual a vantagem de ser ministro das Finanças?

Em Portugal, só vejo uma: é a única forma de adquirir o estatuto de ex-ministro das Finanças, algo que parece conferir aos seus portadores uma aura exclusiva, misto de senador romano e de profeta hebreu. A toda a hora uma legião de ex-ministros perora em tudo quanto é palco mediático, com ar solene e pose grave, traçando implacáveis vaticínios. Sai um de barbas de oráculo, logo surge outro com cãs de erudito que por sua vez dá lugar a uma altiva dama com fumos de pitonisa. Todos com receitas mágicas para o futuro da nação - receitas que, por sinal, nenhum aplicou quando teve oportunidade efectiva para o efeito.

Gabo a paciência dos jornalistas que vão recolhendo as copiosas declarações desta prolixa tribo intuindo tal como eu que na maior parte dos casos a sabedoria real de tão ilustres sumidades é muito inferior ao generoso tempo de antena de que dispõem. E apenas lamento que não aproveitem ao menos uma vez para recordar aos indígenas o legado dessas sumidades - em (de)crescimento económico, despesa primária, dívida externa e défice real das contas públicas, por exemplo.

Depois era só comparar o que fizeram com o que propõem agora. Muita gente era capaz de ficar surpreendida. Ou talvez não.

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Importa-se de repetir?

por Pedro Correia, em 18.10.12

«Este comunicado [de Paulo Portas] revela que há de facto uma crise na coligação porque senão não seria necessário um comunicado nem um silêncio de três dias. O comunicado afirma explicitamente que não pode haver uma crise política devido à situação interna de Portugal, à situação externa da Europa e ao Orçamento. Não pode haver uma crise política por estas razões, não propriamente porque não existam motivos para haver uma crise política. O que no fundo Paulo Portas diz é que não tem condições neste momento para sair do Governo, o que não quer dizer que numa situação normal não saísse do Governo.»

Há pouco, na TVI24.

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Afinal sempre era possível

por José Navarro de Andrade, em 06.08.12

Abomino ping pong. Estão para ali uns matulões fechados numa saleta, de volta de uma mesa de jantar a atirar uma bolinha minúscula ping para lá ping para cá. Isto para dizer que ontem estive pregado ao televisor 3 horas a ver o épico Portugal Coreia do Sul. E a culpa foi do comentador Virgilio Nascimento. Ele guinchava de exaltação patriótica? Pelo contrário, chegou a pedir desculpas aos espectadores por se emocionar. Naquelas 3 horas fiquei com a impressão que aprendi tudo o que havia para saber acerca deste famigerado desporto, descobri que no ténis de mesa (nunca mais lhe chamarei ping pong) há táctica, perspicácia, requintes técnicos.

O mesmo já se tinha passado com actividades desportivas tão exóticas com os saltos para água, um nome tão ridículo que só os comentários de César Peixoto poderiam dignificar; o tiro com arco (como levar a sério um desporto que se pratica de chapéu?) pela voz de Pedro Vaz ou o halterofilismo, uma coisa de brutamontes transformado por António Caeiro numa arte de equilíbrio balético.

Há mais, muito mais, destes fa-bu-lo-sos comentadores desportivos, disseminados entre a RTP e a Eurosport, capazes de nos contagiarem (pior: convencerem) com a sua sapiência, com a sua capacidade de nos esclarecerem sobre os detalhes do que estamos a ver utilizando uma linguagem leiga, subsumindo a opinião sob o rigor descritivo, com uma sabedoria segura, paciente e entusiástica. Na verdade, eles trabalharam, estudaram e empenharam toda uma vida naqueles desportos que só vêm a a luz pública de 4 em 4 anos, para virem até nós mostrar que vale a pena.

Fica-se mesmo com a impressão que foi de propósito: todos os histéricos, os línguas de pau, os incapazes tecnicamente, os opinativos insensatos, foram desaguar no comentário futebolístico. E, no entanto, seria tão fácil: bastava escolher gente deste calibre...

 

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Nunca mais é Sábado

por José Navarro de Andrade, em 25.06.12

Nada é mais sério para os comentadores de futebol do que o futebol. Ora como o futebol em Portugal ascendeu à categoria do mais sério dos assuntos, a seriedade dos seus comentadores de pendão e caldeira, dira mesmo a supina gravidade com que eles discreteiam sobre a coisa, adquiriu uma seriedade de tal modo estratosférica que nem se lhe vê a finalidade, como dizia uma tia pernóstica que em tempos tive.

Poder-se-ão dividir os comentadores de futebol em duas categorias genéricas.

Uma consubstanciemo-la na parcimoniosa figura de Freitas Lobo, que assimilando os rigores da mecânica quântica de Niels Bohr aos adjectivos de Jorge Luis Borges, derrama sobre o futebol uma ciência e uma poesia dignas de Mary Shelley e com iguais consequências. Pululam os epígonos de Freitas Lobo, andando de canal em canal e de jornal em jornal, nenhum tão dominador da vantajosa “razão suficiente” de Leibnitz como o grão-mestre.

Outra categoria é-nos despejada por um homem deliberadamente só, o inexorável e oleaginoso Rui Santos. Sem nunca citar um nome, flagrar uma situação, coligir uma prova, no que parece proceder da emérita escola de Otávio Machado; sem prescindir do presciente dom da opinião universal perpetuamente auto-sustentada, logo cheia da sua própria e imbatível razão, aqui decorrendo do método de Rebelo de Sousa; Rui Santos arrasa o Sistema até aos caboucos, semana após semana. De tal desmoronamento fica tanta poeira no ar e é tamanha a fumarada que não vemos bem o que sucedeu e o que sobra, mas se ele diz que derrubou é porque derrubou mesmo.

Eu, que sou um bruto, vou mais pelos ingleses, esses bêbados para quem o futebol é entretenimento. E para agravar o meu caso, sou leitor fiel da petulante folha de couve When Saturday Comes muito justamente intitulada como “the half decent football magazine”.

Se houver paciência e mais nada que fazer, leia-se a crónica  do Itália X Inglaterra de ontem que estes ordinários publicaram – ele há gente que não se enxerga…

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