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Tortos direitos

por João Campos, em 21.12.12

Parece que a CP vai fazer greve no Natal e no Ano Novo, algo que só será notícia para quem tenha andado muito distraído durante este ano. Seria certamente interessante comparar o calendário das greves de 2012 da CP com o calendário civil, e tomar nota de quantas greves coincidiram - puro acaso, certamente - com feriados, fins de semana prolongados e festividades avulsas. Para 2013, antes de se tentar fazer ver aos trabalhadores da CP o transtorno que causam a milhares de pessoas, talvez fosse boa ideia explicar-lhes a diferença entre os conceitos de "greve" e "férias", que pelos vistos estão muito confusos naquelas cabecinhas.

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Serviço público descarrilado

por Pedro Correia, em 18.01.12

 

Gare do Oriente, meio dia menos dez. Um casal de meia idade e aspecto humilde acerca-se da bilheteira: "Podemos comprar aqui dois bilhetes para o comboio das quatro e tal para Irún?" Resposta seca e ríspida do funcionário: "Aqui, não. Só no guichê do lado, que está fechado, como podem ver. Só abre às 12 e 40."

-- E então o que podemos fazer? -- insiste o homem, provavelmente emigrante em França, de chapéu na mão.

-- Se querem comprar agora o bilhete terão de ir a Santa Apolónia.

Assim trata a CP os seus utentes: remetendo-os de um extremo ao outro de Lisboa. Só porque um guichê não está aberto por volta do meio-dia e o funcionário do guichê do lado pode vender bilhetes para uns destinos mas não para outros. Como se vivêssemos na era pré-digital, quando a informação não circulava em rede.

O casal lá se afastou, melancólico e cabisbaixo, procurando um lugar abrigado na inóspita gare para entreter o tempo. Faltavam 50 minutos para o guichê abrir e mais de quatro horas até o comboio passar.

Um quadro de meados do século XX em pleno século XXI. Exceptuando a noção elementar de serviço público: essa sim, perdeu-se pelo caminho. Descarrilou, para usar um termo mais apropriado à situação.

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Ele que aprenda

por João Carvalho, em 28.12.11

Diz o nosso João Campos aqui que diz o Daniel Oliveira no Expresso: «Não gostam da luta dos maquinistas? Aprendam a conduzir comboios.»

Ora, diz também o nosso João Campos — e diz muito bem — o seguinte: «No meu caso, e no caso de muita gente, não gostar da luta dos maquinistas (não é isso que está em causa, mas vá) não significa aprender a conduzir comboios (mesmo que o quisesse fazer, quem seria despedido para eu ter trabalho?), mas sim ser forçado a optar por transportadoras rodoviárias privadas.» E acrescenta que, «mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas — estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões — ficam desempregados».

O prognóstico é muito aceitável para uma mente linear. Já para o Daniel Oliveira talvez não seja, porque dá-se o caso de tudo isto resultar da actual gestão política do Estado, que ele parece que não aprecia muito.

Mas não faz mal. O Daniel não gosta da gestão do Estado? Ele que aprenda a fazer-se eleger para conduzir o país. Palpita-me que eu aprenderei muito mais depressa a conduzir comboios.

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Pouca-terra

por João Campos, em 27.12.11

Diz o Daniel Oliveira no Expresso:

Quem defende a inevitabilidade da lei do mais forte só tem de aguentar. Não gostam da luta dos maquinistas? Aprendam a conduzir comboios.

 

A escola argumentativa do Bloco deve realmente ser fascinante, mas deixemos isso de lado por agora. A "luta" dos maquinistas foi em 2011 o calvário de milhares de portugueses. Houve mesmo algum mês em que os maquinistas não tenham feito greve? Note-se que o problema não é o direito à greve, é o abuso da greve, que neste caso em particular já passou há muito tempo todos os limites do ridículo. Se a lei prevê o direito à greve, também prevê a existência de serviços mínimos, coisa que os maquinistas nunca se preocupam em assegurar devidamente. Exemplo mais recente: no dia 23, houve um comboio no sentido Lisboa - Faro, e outro no sentido inverso. Mas nos dias 24 e 25 não houve um - um - comboio de longo curso a circular a Sul do Tejo (devem ser amigos do Mário Lino, os maquinistas). E no dia 26, quando supostamente já devia ter terminado a greve, apenas houve um comboio dos três previstos no sentido Faro - Lisboa. Naturalmente, estou a partir do princípio de que o Alentejo e o Algarve são regiões dignas de ter serviços mínimos, mas o mais certo é estar enganado.


Voltando à frase do Daniel Oliveira. No meu caso, e no caso de muita gente, não gostar da luta dos maquinistas (não é isso que está em causa, mas vá) não significa aprender a conduzir comboios (mesmo que o quisesse fazer, quem seria despedido para eu ter trabalho?), mas sim ser forçado a optar por transportadoras rodoviárias privadas. Foi o que tive de fazer para poder passar o Natal com a família e regressar a Lisboa a tempo de trabalhar na Segunda-feira. E não terei certamente sido o único. Podendo escolher entre o autocarro e o comboio, não hesito - antes o comboio, mil vezes o comboio. Mas a CP, com os seus especialistas em criar horários que não servem ninguém e eliminar horários que são realmente úteis (como os últimos Intercidades do dia para o Sul), já consegue por si só prestar um péssimo serviço às populações; com as suas greves constantes, os maquinistas só contribuem ainda mais para o mau serviço da CP, levando mais e mais gente a optar por o transporte rodoviário, público ou particular. É bom de ver onde isto vai acabar, mais cedo ou mais tarde.

A ironia é que, mais dia menos dia, com mais greve e menos comboio, a CP estoira de vez, e os maquinistas - estes mesmos que boicotaram o Natal de milhares de pessoas e que passaram 2011 a transtornar a vida a milhões - ficam desempregados (pelo menos os de longo curso). Da minha parte, que desde miúdo adoro comboios e que não encontro meio de transporte que se compare ao velhinho pouca-terra (nem o carro), lamento que assim seja. No entanto, quando tal acontecer, que não se queixem os maquinistas: a cama onde se vão deitar também foi feita por eles. 

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Uma boa notícia para o Sul, finalmente

por João Campos, em 23.11.11

A confirmar-se, claro - com a CP, nunca é de fiar -, esta é uma excelente notícia: [Intercidades Lisboa-Faro] Novas paragens em Ermidas do Sado e Santa Clara. Já era tempo de o concelho de Odemira ter uma ligação à rede do Intercidades. 

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Deixem-me ver se percebi: «a CP ameaça com o fim do Comboio Histórico no Douro caso não encontre parceiros para ajudar a financiar este serviço que, este ano, custou 150.000 euros»? Há nisto alguns aspectos de que ainda estou a tentar recuperar.

1. Desde logo, a CP entrou agora numa fase em que lança (segundo a insuspeita Lusa) ameaças públicas. Isto requer que sejamos informados já sobre quem é a voz ameaçadora lá dentro.

2. Depois, a CP põe em causa a continuidade do comboio histórico se não arranjar parceiros que financiem o seu serviço. A gente é levada a pensar que a CP precisava que o Governo criasse uma Fundação do Comboio Histórico do Douro à sombra do Orçamento do Estado e que a coisa se resolvia, que é como quem diz: acabavam as ameaças.

3. Além disso, a CP põe-se a perorar por causa de 150 mil euros que a empresa pública diz ter gasto este ano com o serviço especial do Douro. Ou seja: parece que estamos perante uma CP de outro planeta e não perante aquela cujos prejuízos anuais se têm acumulado assustadoramente sem que lhe tenhamos escutado um único lamento pelo que isso custa a todos nós.

A minha dúvida não é menos assustadora: será que sempre vai em frente a compra da nova frota de carros de luxo para 13 directores da CP por quase o dobro do custo deste ano do comboio histórico do Douro?

 

 

FotosCaminhos de Ferro Vale da Fumaça

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Suspensões sim, suspensões não

por João Carvalho, em 17.10.11

A propósito do post do nosso João Campos aqui por baixo (e deste de ontem da nossa Leonor Barros), acho muito pedagógico sublinhar mais este exemplo de comportamento ético que a CP nos dá: 13 carros de luxo encomendados para directores, porque toda a gente sabe que andar de comboio faz calo no sim-senhor dos macacos.

Parece que o Governo suspendeu a compra. Parece que o Governo não suspendeu os directores.

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Pouca-terra

por João Campos, em 17.10.11

Não ia à terra desde Agosto. Andava desde meados de Setembro a planear por lá um fim-de-semana, que foi sistematicamente adiado - numa ocasião para assistir a uma apresentação, noutras por motivos de trabalho. Consegui, finalmente, marcar viagem para este fim-de-semana, mas acabei por, na sexta-feira, ter de pedir para sair uma hora mais cedo para poder apanhar o Intercidades que sai de Lisboa Às 17h20 com destino a Faro, que (ainda) pára na estação da Funcheira, no Alentejo. Isto porque a CP decidiu, uma vez mais, eliminar o último Intercidades do dia com destino a Sul, que partia da capital às 19h20.

 

Não percebo muito de gestão, mas não é preciso um mestrado para perceber o esforço enorme que a CP faz para prestar um mau serviço aos seus clientes - e para não ganhar dinheiro. Com destino ao Algarve, a CP tinha, diariamente, quatro comboios Intercidades - 10h20, 13h20, 17h20 e 19h20 - e dois comboios Alfa-Pendular - 08h42 e 18h42. Note-se que o serviço Alfa-Pendular não tem qualquer paragem no Alentejo (ao sair do Pinhal Novo, só volta a parar em Tunes), pelo que qualquer passageiro que tencione viajar para o Alentejo terá necessariamente de o fazer no Intercidades. A CP decide eliminar um comboio - e elimina justamente o último comboio diário com paragens verdadeiramente abrangentes. Podemos justificar a coisa com a necessidade de cortar custos, mas sendo este o objectivo, pelo menos à sexta-feira este seria sempre um serviço a manter, quanto mais não fosse pela enorme afluência de estudantes oriundos do Alentejo e do Algarve que estudam em Lisboa e vão frequentemente à terra no fim-de-semana, e também de pessoas como eu, que já não sendo estudantes, continuam a utilizar o serviço com alguma regularidade. A verdade é que o Intercidades das 17h20 na sexta-feira seguiu esgotado, e na estação da Funcheira - a única que serve a zona mais a Sul do Alentejo - saíram pelo menos 40 pessoas (que tinham boleia à espera, naturalmente - a Funcheira fica no meio de nenhures, e transportes públicos naquela zona são uma miragem).

 

Quando vim viver para Lisboa há oito anos, ia para o Alentejo às sextas-feiras no antigo Inter-regional Barreiro - Vila Real de Santo António das 19h30. Nunca vi esse comboio vazio - entre estudantes, tropas, pessoas que precisavam de vir a Lisboa e de regressar no mesmo dia, e pessoas que pretendiam apenas passar o fim-de-semana na terra, era até frequente ter alguma dificuldade em arranjar lugar sentado. Esse serviço acabou há muito - e a CP dedicou-se com afinco a destruir o serviço Regional do Sul até ao ponto em que estamos, com uma ligação Faro-Setúbal em horários ridículos que não servem para estudantes, trabalhadores ou militares. Parece ser a estratégia da CP para encerrar serviços - mudam os horários até à inutilidade, para justificar o encerramento com a "fraca procura". O Regional do Sul, palpite meu, deve estar entre os próximos. 

 

Entretanto, quem deve ganhar com isto é a Rede Expressos, cujos autocarros até já têm Internet gratuita por Wi-Fi. E, claro, os directores da CP e empresas derivadas, que continuam a ganhar as benesses do costume à custa de todos nós, como mencionou a Leonor neste post

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Isto não está a mudar

por João Carvalho, em 09.08.11

«A conservação de um troço da Linha do Tua por voluntários e o "comboio-farmácia" são projectos para criar um novo modelo social dos caminhos-de-ferro — relatou o Movimento Cívico pela Linha do Tua (MCLT).» Portanto, isto não está a mudar, porque já o ex-ministro Mendonça queria comboios e mais comboios e, no fim, ficámos com menos comboios do que havia antes.

Bom... algo está a mudar: o ex-ministro Mendonça já não aparece nas televisões com balelas. Felizmente. De resto, Portugal já está a mudar: leiam a notícia toda a partir do link e vejam as ideias meritórias daquele MCLT, bem como a receptividade (mudança das mudanças) da CP às propostas.

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Quando fosse grande

por João Campos, em 01.06.11

Houve um momento da minha infância - não sei precisar quanto tempo durou - em que dizia querer ser, quando fosse grande, maquinista de comboios. Gostava de comboios, nada a fazer. Foram muitas as viagens até Beja (ainda sou do tempo em que os comboios chegavam a Beja, vejam bem) e até ao Algarve nas velhinhas automotoras. É certo que, durante a infância, momentos houve em que outras opções profissionais também se afiguravam fascinantes, como a paleontologia (obrigado, Spielberg), mas olhando hoje para trás, a mais viável teria sido mesmo a carreira de maquinista. Enfim, chegada a adolescência optei pelas Humanidades, e mais tarde pela Comunicação. Má escolha. Tivesse eu ingressado na CP e não só teria uma vida mais simples, certinha entre carris e o pouca-terra pouca-terra da locomotiva, como também estaria agora de papo para o ar, a gozar umas belas férias greves desde finais de Fevereiro, o que seria excelente para voltar a colocar os meus sonos em dia. Ainda irei a tempo de uma transição de carreira?

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Retrato da bitola estreita

por João Carvalho, em 30.04.11

A REFER, empresa pública que gere a rede ferroviária nacional, fechou o ano de 2010 com resultados líquidos negativos de 146,5 milhões de euros, os quais foram agora conhecidos e traduzem um exercício que fica marcado pelo aumento do endividamento.

Não foi a REFER uma das empresas públicas que quiseram fugir à redução dos vencimentos por se achar cheia de razões para não cumprir a legislação que o determina? Gosto do slogan da REFER: "Vias para o Futuro". Traduz o futuro dourado dos gestores que pagamos.

Já agora: que e quantos aumomóveis têm os administradores da REFER e há quanto tempo? Que tal premiá-los com um TGV para cada um com uma ajudinha da RAVE, a empresa pública da "grande família" que gere a rede nacional de alta velocidade que não temos?

A propósito: CP, REFER, RAVE e IMTT — alguma destas instituições públicas, tão necessárias para gerir a fantástica rede ferroviária que ainda nos sobra do século XIX, não dá prejuízo?

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O "ranting"

por João Campos, em 07.04.11

A Moody's cortou o rating da CP (entre outras) para "lixo". De ratings pouco ou nada percebo; mas para mim, que desde finais de Fevereiro não consigo ir de comboio à terra devido às sucessivas greves dos maquinistas às sextas-feiras, os rantings da CP há muito tempo que são lixo. 

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O deserto, pois claro

por João Campos, em 18.01.11

A CP acabou com a ligação de Intercidades entre Lisboa e Beja. Ao que parece, a ligação ferroviária entre a capital e aquela cidade alentejana deverá ser feita no Intercidades Lisboa-Évora, até Casa Branca (quando este comboio retomar a circulação, actualmente interrompida por obras na linha), e depois um regional - uma automotora vintage, se me permitem o eufemismo - até Beja. Enquanto as obras não estão concluídas, quem quiser ir de Lisboa a Beja de comboio terá de apanhar um Intercidades até à Funcheira (para quem não sabe, a Funcheira é apenas uma estação, literalmente - não tem mais nada), e depois o Regional até Beja, num percurso que demora mais de três horas. Porreiro, pá.

Ao que parece, a população de Beja quer boicotar as Presidenciais como protesto pelo fim do Intercidades. Não devia ser só a população de Beja, mas sim de todo o Alentejo. Até porque, muito sinceramente: dadas as mais recentes tropelias ferroviárias, alguém acredita mesmo que a ligação ferroviária entre Lisboa e Évora volte a ser restabelecida?

E torno a perguntar: se é para isto, vale a pena o tê-gê-vê?

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Portugal ferroviário

por João Campos, em 23.08.10

É em Portugal, país cujo Governo quer construir um TGV (Lisboa, praia de Madrid - lembram-se?), que um comboio Intercidades é incapaz de fazer o percurso entre Lisboa e Faro dentro do horário previsto. Há semanas que o comboio no sentido Sul-Norte não chega a horas à Funcheira, registando sempre atrasos a variar entre os cinco e os vinte e cinco minutos. É também Portugal o país que tem metade - pelo menos - das estações ferroviárias encerradas (mesmo naquelas onde o Intercidades tem paragem, como Alcácer do Sal, Grândola, Funcheira e São Bartolomeu de Messines), obrigando os passageiros que embarquem nessas estações a tirar o bilhete no interior do comboio, com o revisor. Pior: esses passageiros são, para todos os efeitos, passageiros de segunda, pois ao embarcar sem bilhete, estão sujeitos à disponibilidade de lugares do comboio. Ou seja, um lugar livre pode ser ocupado na estação seguinte, e o passageiro que entrou na estação encerrada que viaje de pé, se não encontrar outro lugar. Pior ainda: é também Portugal o evoluído país em cujos comboios se aplica a máxima "criança não paga mas também não anda". Dito de outra forma: crianças até aos seis anos não necessitam de bilhete, mas também não ocupam lugar; e em dias de comboio esgotado, têm de dar lugar a outros passageiros. Não, não estou a brincar. É neste belo país, de transportes rodoviários modernos, pontuais, com bom serviço e boa cobertura do território nacional, que um iluminado Governo quer gastar milhões num inútil comboio de alta velocidade. Faz todo o sentido: se o serviço tem de ser mau, ao menos que ande depressa.

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Brincar aos comboios (II)

por João Campos, em 05.05.10

Ainda a propósito deste post, e do bom debate que gerou no Praça da República. É natural que a discussão sobre os comboios no Alentejo não se esgote na carruagem bar - sim, é verdade que nos comboios que ainda dispõem do serviço os preços são francamente caros (o que até compreendo), mas isso de haver ou não haver bar é apenas um detalhe. Podemos ver a questão por onde creio ser mais importante: no Alentejo (e estou a falar da realidade que conheço, e que me afecta), o serviço de comboios tem vindo a piorar, até chegar a um ponto em que serve praticamente ninguém.

 

Vejamos: o Alfa Pendular não faz uma única paragem no Alentejo - quando sai do Pinhal Novo só volta a parar... em Tunes, no Algarve. Os serviços de Intercidades vão sendo cada vez mais raros nas ligações a Beja e a Évora, e só ainda não levaram uma pancada maior na rota Sul porque o destino final é... o Algarve (no caso, Faro). Ainda assim, não existe uma única paragem no concelho de Odemira, quando existem duas estações disponíveis (Amoreiras-Gare e Santa Clara - Sabóia) e dois apeadeiros. Para esta região em particular, existe o serviço Regional, a versão moderna do antigo Inter-Regional, que ainda há sete anos fazia a ligação Barreiro - Vila Real de Santo António - entretanto, passou a fazer a ligação Pinhal Novo - Faro e agora, tanto quanto sei, o serviço tem apenas o percurso Setúbal - Tunes (estou à espera do dia em que termine definitivamente). Para mim, ou para qualquer habitante do concelho a estudar em Lisboa, já não é opção. O transbordo no Alentejo, para a ligação Funcheira - Beja, tem tempos de espera absurdos. E o transbordo com os transportes rodoviários locais é uma anedota, numa época em que só se fala de conceitos como "sinergias", "transportes intermodais" e diabo a quatro. Voltando a Odemira: se um dos leitores quiser visitar o maior concelho do país, terá de optar pela Rede Expressos (três horas ou mais entre Lisboa e Odemira), ou por uma série de transbordos mal preparados para uma das estações disponíveis - mas uma vez lá, não tem forma de chegar à vila, pois não existe qualquer interligação com os transportes rodoviários (cujos horários são feitos apenas e só em função dos horários dos alunos das várias escolas do concelho). Ou, claro, chama um táxi (se conhecer alguém que lhe saiba dizer o número particular de um taxista), e paga um bom dinheirinho.

 

No interior alentejano, dizem-me, o panorama é ainda mais desolador, com o encerramento de algumas linhas, mas confesso que não conheço a situação (se alguém quiser deixar o testemunho, agradeço). No entanto, não deixa de me fazer confusão que um território tão grande esteja a ser progressivamente abandonado. E, creio, ainda só não o foi de todo porque, goste-se ou não, é necessário passar pelo Alentejo para chegar ao Algarve. Como não deixa de me fazer confusão que se tenha gasto tanto dinheiro num aeroporto pelos vistos inútil, em Beja, cujo projecto irá certamente contribuir para o anedotário local, quando se poderia ter poupado esse dinheiro... ou, caso a ideia não fosse poupar (nunca é), poder-se-ia ter investido esse dinheiro na modernização dos caminhos-de-ferro do Alentejo. Enfim, prioridades...

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Brincar aos comboios

por João Campos, em 02.05.10

Alguns dos mais ilustres "representantes da nação" marcaram presença (expressão horrível; ao cuidado do Pedro Correia) na Ovibeja. Estive por lá, mas não me cruzei com nenhum deles. Como é evidente, também não os encontrei na viagem de ida ou de regresso, porque tais figuras - como o nosso primeiro-ministro, que não me merece a maiúscula, e que vive tão obcecado com comboios de alta velocidade - nunca tornaram a entrar numa estação de comboios depois do cortar de fita da inauguração, e nunca viajaram num "Intercidades" ou num "Regional". Eu faço-o regularmente, e normalmente com gosto, mas é um gosto cada vez mais amargo: o serviço da CP - empresa pública? - piora viagem após viagem. No país que quer tornar Lisboa na "praia de Madrid" por virtude de um TGV que não pode pagar, existem apenas dois comboios "Intercidades" diários entre Lisboa e Beja: um de manhã bem cedo, outro ao final do dia. Nesses comboios, e ao contrário do que acontece nas ligações "Intercidades" entre Lisboa e Faro, e Lisboa e Porto, o bar encontra-se fechado, pelo que um passageiro (ou "utente", como eles agora gostam de dizer) não pode sequer comprar uma garrafa de água. Os alentejanos, como se sabe, são menos que os algarvios ou as pessoas do norte do país, e não merecem bar. O percurso demora duas horas e dez minutos, em linha não electrificada a partir do Pinhal Novo. Como tem sido hábito, as estações de comboio de zonas "do interior" estão fechadas. Ou seja, as antigas estações de comboios de Vendas Novas, Casa Branca, Vila Nova de Baronia e Cuba estão ao abandono (como acontece com as outras estações de comboios alentejanas: Grândola, Alcácer do Sal, Funcheira, para mencionar apenas as maiores). Também a de Beja está, apesar de nela ainda se venderem bilhetes; e os belíssimos azulejos da estação da capital alentejana estão estilhaçados, sem brilho, esquecidos. Digo que a estação de Beja ainda funciona, no sentido de que ainda lá se vendem bilhetes, mas num horário muito peculiar: a bilheteira encerra às seis da tarde, quando o último comboio parte daquela estação... às sete e um quarto, o que faz todo o sentido. A solução que resta aos passageiros neste  é comprar o bilhete no comboio, quando o revisor passar. Mas bem podem esquecer o pagamento com Multibanco, até porque nem na estação, nem nas imediações da estação, existe uma máquina ATM ao serviço dos passageiros.

 

É assim que está a ferrovia no Alentejo, que (ainda) é território de um país que quer ter alta velocidade. Faz sentido, não faz?

 

(A ligação ferroviária entre Lisboa e Beja irá ser interrompida devido a obras, e a empresa irá assegurar o transporte de passageiros por autocarro, durante a interrupção. Não consigo deixar de pensar que isto pode ser uma das "manobras" da CP para acabar com os comboios para Beja sem haver muito barulho. Espero que este meu receio seja injustificado.)

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Isto é mau sinal

por João Carvalho, em 13.04.10

Fica-se sem saber se foram os caminhos-de-ferro que mudaram de casa, se foi o Estado que fechou.

(Fotografias de Jorge Rego)

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Não é minha nem é Tua...

por João Carvalho, em 10.02.10

... É de quem a apanhou. «Infelizmente o prometido pelos nossos governantes já teve início. Destruir o Tua e tapá-lo com cimento. São estas as grandes obras de "estado". Estragar aquilo que a natureza ofereceu em prol de grandes negócios, como se a construção desta barragem viesse dar algum lucro ao país quando o caudal anunciado é miserável. A destruição é contínua. Ainda há dias foi encerrada a Linha Férrea de Miranda do Corvo-Coimbra, ao fim de 103 anos! O que irá a seguir?»

 

As fotos são daqui, tiradas por António José Lourenço há poucos dias.

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Notas sobre carris

por João Carvalho, em 15.11.09

PhotobucketO Luís Miguel dedicou um simpático post ferroviário ao DELITO DE OPINIÃO no seu Cantinho dos Com-boios, que está em fim de mandato como nosso Blogue da Semana. Pelo movimento que a escolha gerou durante a semana, só falta dizer a quem não foi lá espreitar que vale a pena a visita. Ainda por cima, o post inclui três vídeos interessantes e bem rodados.

 

Por falar em comboios: parabéns ao Jorge Rêgo pelo seu Caminhos de Ferro Vale da Fumaça (na nossa barra lateral), que está a fazer três anos e mudou a imagem do cabeçalho. O novo logótipo do blogue volta a ser da autoria de Carlos Romão e demonstra bem que o nosso amigo maquinista e os seus passageiros vão a todo o vapor, lá pelo Vale da Fumaça.

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Coincidências e tragédias

por João Carvalho, em 01.09.09

Mais uma tragédia numa passagem de nível sem guarda. No fim do mundo? Não: na Linha do Douro, entre o Porto e a Régua, perto de Baião. Quatro mortos, três feridos graves.

Longe de mim saber que ainda existem passagens de nível sem guarda em Portugal. Menos ainda que isso fosse possível em regiões populosas e movimentadas. Tenho a certeza de que, após uma tragédia idêntica há tempos, as autoridades garantiram que todos os casos iam ser resolvidos e nunca mais haveria acidentes do género. Tenho a certeza absoluta disso.

Afinal, só naquela região, a Refer tem «um plano que foi acordado com a autarquia há um ano para supressão de cinco passagens de nível sem guarda», bem como (já cá faltava mais um naco de prosa contra a clareza) «garantia de condições de segurança em mais seis». Ou seja: se bem entendo, só por aquelas bandas ainda há onze ou doze passagens de nível sem guarda. Além de uma outra encerrada há apenas seis meses.

O que revolta, nestes casos, é ouvir das entidades que (lá vem mais um naco de prosa contra a clareza) «a passagem de nível do acidente estava a ser objecto de um projecto de execução». O que é que isto quer exactamente dizer, não se adivinha. Porém, uma coisa é certa: em Portugal, quando há desastre, já estava para ser feito, já há um projecto, já ia ser executado, já está em vias de ser planeado, já tinha sido pensado, já foi lançado. Nem sempre com a prosa simples que aqui estou a usar, mas sempre neste sentido da coincidência.

Infelizmente, tornou-se comum a tragédia andar adiantada. Porque as autoridades, essas, têm sempre tudo previsto. Portugal é um país onde as coincidências não há meio de aprenderem a respeitar o calendário de quem manda.

 

ADENDA – A responsabilidade destes casos é da Refer. Por isso é que me lembrei de, há poucos anos, quando a Refer nasceu, a sua administração ter descurado o trabalho durante não-sei-quanto tempo e ter andado ocupada a atribuir-se vencimentos e carrões, com tal pressa e ligeireza que até o fizeram em situação altamente irregular, segundo então foi noticiado. Alguém sabe como é que isso ficou?

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Disto ainda há (até ver)

por João Carvalho, em 23.06.09

[Est-Pinhao-Comboio-Historico-1.jpg]

Foram retomadas as viagens ao Tua (na foto, o comboio histórico está na estação do Pinhão). Aos sábados, desde 30 de Maio até 3 de Outubro, estão reabertas as viagens ao passado. Os detalhes podem ser consultados aqui. Não é uma pechincha, mas há um ano já havia quem dissesse que seria a última época. Portanto, é melhor aproveitar, pois este ano poderá ser a derradeira oportunidade.

A Régua dos romances clássicos, o Douro profundo ladeado pelos terraços de vinhedos e a região que é Património Mundial são retalhos nostálgicos de História que só o velho trem, lamuriento e fumarento, traduz na perfeição. Não se sabe por quanto tempo mais. Vão por mim.

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Isto anda tudo ligado

por Pedro Correia, em 15.04.09

 

CP, viagem Lisboa-Faro. À hora do almoço, na carruagem de primeira classe, o funcionário pergunta aos passageiros se pretendem uma refeição. Pergunto o que há para almoçar. Resposta: "Temos uma ementa criativa. Caldo verde, uma fatia de pizza e cheesecake."

Agradeço a amabilidade do funcionário mas dispenso a "criatividade" da CP, empresa pública que devia promover a gastronomia portuguesa mas que pelos vistos não o faz: misturar o nosso tradicional caldo verde (porque não 'green soup' para agradar ainda mais ao paladar americano?) com o resto equivale ao diploma de "inglês técnico" aplicado à culinária. Talvez por a viagem ser para o 'Allgarve' do ministro Pinho. Isto anda tudo ligado.

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