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o livro de Ella

por Patrícia Reis, em 05.07.13

 

O jovem olhou o outro com desconfiança.

Não podia dizer que fosse grande adepto dos mais velhos. Sentia-se intimidado. Jornalistas que se arrastam nas redacções, bradando aos céus, evidenciando a má escrita, os artigos que são feitos por favor ou conveniência política? A evitar. Tinha sido alertado por todos os colegas. Os mais novos.

Mas aquele era um outro tipo de jornalista. Teria mais de sessenta anos e funcionava no jornal como uma espécie de memória externa. Quando era preciso saber alguma coisa que não aparecia na internet, ele tinha a resposta e não falhava. Nunca. A sua capacidade de assimilar informação era infinita e, de certa forma, revelava a enorme curiosidade face a tudo o que o rodeava. Estava na vida para a compreender, dizia. Por isso, o jovem encarava-o com alguma veneração e, em simultâneo, com um receio estranho, nervoso, receio de falhar, de fazer figura de parvo. É fácil fazer figura de parvo numa redacção de jornal.

O velho parecia não notar. Não perguntou que idade é que o jovem tinha e calculou, assim que lhe viu as camisas às riscas, que teria feito gestão ou algo assim. Cursos, murmurava. Com uma destreza extraordinária, atacava o teclado e escrevia, todas as semanas, uma coluna que era já uma espécie de lenda: as músicas da gaveta do meu pai. Esta rubrica existia há uns anos e o jovem tinha lido algumas crónicas do agora colega. Naquele dia, o velho levantou os olhos e, por cima dos óculos de meia-lua, perguntou:

 

- Imagina lá sobre quem vou eu escrever esta semana.

 

O jovem pensou de imediato que lhe seria impossível adivinhar. Do jazz só lhe ocorriam os nomes óbvios e, por isso, e para não dar parte fraca, encolheu os ombros, num gesto que esperou ser entendido como dúbio.

 

- Ah, não te atreves ao jogo da adivinha? Pois seja. Vou escrever sobre a mulher que inventou os songbooks para o mundo do jazz: Ella Fitzgerald. Mas não vou contar a história do costume. Tu sabes a história?

 

O jovem jornalista, ainda estagiário se as coisas fossem como eram há vinte anos, encolheu os ombros de novo.

 

- A história é conhecida. Nasceu pobre, teve problemas desde sempre, como a Billie Holiday, chegou a trabalhar num bordel e até em casas de jogo clandestinas. A mãe morreu cedo, o pai desapareceu. Ella Fitzgerald foi metida num reformatório. Fugiu. Como acontecia muito à época. Viveu nas ruas e acabou no Asilo de órfãos de cor da Riverdale. Sabes onde é Riverdale?

 

- É no Bronx... acho. Nova Iorque.

 

- Isso, isso. Bom, mas não é sobre isto que eu vou escrever ou sobre a primeira vez que cantou e o concurso que ganhou. Olha, nem vou escrever sobre o facto de a senhora ter ajudado a compor o seu grande sucesso a A Tisket-A-Tasket. E também me recuso a falar da doença. Ela sofria de diabetes, sabias? No fim da vida tiveram de lhe cortar as pernas. É uma ideia horrível. E sabes que chegou a fazer publicidade para Kentucky Fried Chicken? Pois não sabes. Mas isso também não interessa nada. O que importa mesmo, rapaz, é o que vou escrever sobre a Ella, uma mulher que conseguia brincar com a voz em três oitavas distintas, e a sua amiga Marilyn.

 

Marilyn Monroe? Está a gozar? Nem se devem ter cruzado.

 

O velho sorriu e acendeu um cigarro. O jovem olhou à volta. Estavam, como todos os outros jornais, num prédio com restrições a fumo, portanto os cigarros eram levados até à porta do edifício onde um conjunto infeliz de adictos à nicotina se encontrava de meia em meia hora. O jovem sempre considerara a medida contra-producente, os jornalistas perdiam mais tempo a fumar na rua do que a trabalhar, mas talvez fosse uma ideia errada. Não queria ser categórico em relação a nada, estava ali há uma semana e meia. O velho chupou o cigarro com um prazer visível e riu-se:

 

- Não te preocupes, não me dizem nada. Têm medo de mim. Sou mais velho que o director. Sou mais velho que o prédio, portanto estás a ver? Faço o que quero. E tu, meu menino, estás enganado.

 

-Enganado?

 

- Sim. Ella e Marilyn eram amigas. Muito amigas. E têm algumas semelhanças interessantes. É uma boa história e é sobre a amizade das duas que vou escrever. Quero lá saber que a maioria esteja mais interessado em ouvir as vozes mais novas. Se lhes falo da Lee Wiley, da Maxine Sullivan ou do Mel Tormé ficam de cara à banda. Há muita ignorância...

 

- Aqui no jornal?

 

- Sim, aqui e no mundo. Nós escrevemos para o abominável homem das neves e eu tenho esperança de que alguém ainda me leia.

 

- Eu lia as suas crónicas antes de vir para aqui. – O jovem reconheceu a admiração de uma forma quase banal, porém o velho percebeu que era um elogio.

 

- Obrigado. Só por isso, conto-te a história das duas moças, queres?

 

Apagou o cigarro num cinzeiro que tirou de uma gaveta. Da cara retirou os óculos tão velhos como as rugas que exibia. Tinha um sorriso algo infantil, pensou o jovem. Não disse nada. Pressentiu que, a qualquer momento, seria testemunha de uma história que guardaria para sempre.

 

- A história de Ella e Marilyn reza assim...

 

A imagem que temos de Ella Fitzgerald é de uma negra grande com uma voz extraordinária e uma apetência para o scat, certo? Pensamos nela como uma mulher grande. Queria ser bailarina, como a Billie. Era uma forma, à época, de entrar nos bares e clubes. O racismo não era uma realidade que se conferia nas estatísticas. Era palpável. Real. E os músicos negros sofriam as consequências. A Ella chegou a ser presa, já não me lembro onde, num estado do sul dos Estados Unidos, e depois na prisão pediram-lhe um autógrafo. Foi presa com o Dizzie Gillespie... Enfim... A vida dá as suas voltas. Ella tinha, como agente, um homem que dava pelo nome de Norman Granz, um verdadeiro apologista dos direitos humanos e da igualdade  entre raças. Acontece que a nossa miúda loira, a tal que cantava os parabéns num sussurro para o amante que também fazia as vezes de presidente, não era propriamente burra. E também não era uma loira verdadeira, no entanto também isso não importa agora. Era uma adepta feroz dos direitos dos negros e da paridade entre homens e mulheres. Além disso, Marilyn tinha um fraco pela voz de Ella Fitzgerald. E sabia que tinha poder. Poder verdadeiro. No sentido em que o seu nome abria portas. Então? Calma, já lá chego. Onde é que Sinatra e Dean Martin cantavam muitas vezes? Qual era o clube mais famoso de Los Angeles? Mocambo. Um local mítico para quem gosta das coisas da história do jazz. Mocambo ficava no seio mais apetecível de Hollywood e, por isso, era frequentado por actores. Chaplin, Clark Gable, até Lauren Bacall já com Bogie, imagina tu. Portanto, era um sítio da moda.

Ella Fitzgerald não podia cantar no Mocambo. A razão? Simples: a cor da pele. Tão estúpido quanto isto. Marilyn, assim que soube, não achou graça e decidiu telefonar ao proprietário do clube, um tipo chamado Charlie Morrison.

 

- Mas, diga lá, como é que sabe essas coisas todas?

 

- Não tenho telemóvel, rapaz. Leio e retenho informação sobre as coisas de que gosto. Não é muito complicado. Queres saber o resto da história?

 

- Sim, sim, desculpe ter interrompido. – O jovem corou. – Desculpe...

 

- Não faz mal, já estou habituado a ser interrompido. São poucos os que me ouvem. Quem é que quer saber destas histórias? Adiante. Maryln pegou no telefone e pediu para falar com Charlie Morrison. Não era, como facilmente calculas, possível não atender a grande vedeta que era Maryln. Era até uma honra. A questão era saber o que ela queria. Imagina tu... não, esquece, nunca vais conseguir imaginar. Marilyn exigiu a presença de Ella Fitzgerald no Mocambo dizendo que se sentaria numa das mesas mesmo em frente ao palco todas as noites que a cantora estivesse. Maryln no Mocambo significava o quê? Um bando de jornalistas e de fotógrafos. Jornalistas que eram, claro, diferentes desta cambada que temos aqui. Outros tempos. Era publicidade ao clube, gratuita, sendo certo que Charlie Morrison já sabia quem era a cantora. Ultrapassar a questão racial por Maryln Monroe? Com certeza. E, assim, quando perguntavam à grande cantora negra quem fora decisivo na carreira dela, não se fazia rogada. Espera um pouco... tenho aqui escrito. Ella Fitzgerald disse exactamente isto:  “I owe Marilyn Monroe a real debt … she personally called the owner of the Mocambo, and told him she wanted me booked immediately, and if he would do it, she would take a front table every night. She told him – and it was true, due to Marilyn’s superstar status – that the press would go wild. The owner said yes, and Marilyn was there, front table, every night. The press went overboard. After that, I never had to play a small jazz club again. She was an unusual woman – a little ahead of her times. And she didn’t know it.” Queres que te traduza?

 

O jovem abanou a cabeça. Não era preciso. Estava impressionado. Para ele, Ella Fitzgerald era uma parceria com Louis Armstrong ou então todos os standards da música americana, incluindo aqueles que foram escritos para os filmes com Fred Astaire. Não sabia se deveria acreditar na história do velho e, ao mesmo tempo, tudo parecia tão verdadeiro. Arriscou:

 

- E ficaram amigas?

 

- Claro. Chega aqui. Tenho um livro com fotografias delas. Não é nenhuma montagem. Eram mesmo amigas. E tinham muitas coisas em comum: ambas sofreram muito na infância e adolescência. Nenhuma delas teve filhos. Ambas sofriam de uma insatisfação que talvez a Ella tenha conseguido dominar através da música. O que aconteceu a Marilyn, todos sabemos.

 

- E se tivesse de adivinhar, qual seria a canção que Ella gostaria de cantar para Marilyn?

 

- É uma pergunta interessante.

 

O velho acendeu outro cigarro. O jovem sentiu, no bolso das calças, o telemóvel a vibrar. Felizmente estava no silêncio. Não queria perder o resto da história. O outro levantou-se, ficou a olhar pela janela, uma paisagem sem graça, num dia sem sol. E, depois, devagar, com uma rouquidão quase comovente cantou:

 

Misty

Look at me, I'm as helpless as a kitten up a tree

And I feel like I'm clingin' to a cloud,

I can't understand

I get misty, just holding your hand.

 

Walk my way,

And a thousand violins begin to play,

Or it might be the sound of your hello,

That music I hear,

I get misty, the moment you're near.

 

Can't you see that you're leading me on?

And it's just what I want you to do,

Don't you notice how hopelessly I'm lost

That's why I'm following you.

 

On my own,

When I wander through this wonderland alone,

Never knowing my right foot from my left

My hat from my glove

I'm too misty, and too much in love.

 

Too misty,

And too much

In love

 

 (este conto faz parte da colecção Divas que sai, todas as sextas-feiras, com o Diário de Notícias e com o Jornal de Notícias. Além do conto, o leitor ganha um CD e um texto de Rui Vieira Nery sobre a cantora em questão)

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