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Coisas mesmo boas de 2013 - 1 novela

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

Paulo Catrica, série stadia, 2004

 Catarina Botelho, "O tempo e o modo", 2011

 Duarte Amaral Netto, s.t., Lisboa, 1999 

  

Deve ser problema meu, mas não cessam de me surpreender a avareza lexical e os tratos de polé perpetrados na sintaxe, nos mais célebres literatos nacionais. Acresce o excesso metafórico, a proliferação de comparações (se a conjunção “como” pagasse imposto a dívida nacional estaria paga), o chuto para diante que são os advérbios de modo terminados em “-mente” (idem sobre a cobrança de taxa), a imagética rudimentar, ou os enredos enrolados.

O esforço de atravessar estes dislates poderia ser compensado, à moda de Kerouac, por uma vitalidade, uma experiência existencial e uma urgência de escrita, capaz de levar por diante a palpitação da leitura. Mas nada, népias, nihiil; estes moços consagraram-se depressa, tão depressa que se agarraram para nunca mais largarem às bebidas grátis e frias dos beberetes literários, como (olhá comparação ó urso!) os macacos aos cocos.  

Tudo isto é triste, é nacional, é fado e são águas que não movem moínhos. “Ora andante” nas palavras do inspector Elias Santana.

Contraste com tal cenário, pro nele sobressair, foi a novela “As primeiras coisas”, de Bruno Vieira Amaral (BVA). Teve o autor receio que vissem nela uma espécie em voga de “turismo literário suburbano para dar a conhecer aberrações de bairro social aos leitores burgueses da capital.” E desmente tal pretensão afirmando que a sua escrita andou por aqueles lugares do outro lado do Tejo e doutro mundo, porque foi de lá que ele desembarcou. Escusava de tais precauções – felizmente percebe-se, ou melhor, sente-se isso.

BVA parece não ter grande crença no storytelling porque os vários acidentes novelescos deste livro são as personagens que os exalam ao serem descritas. (Mal comparado: sai Hawks, entra Godard). Esta técnica narrativa não é nova, mas tal cepticismo resulta particularmente aceitável: isto é sobre gente que não vai para lado nenhum, que veio aqui parar e aqui ficou, sem ter para onde ir; não têm história, só histórias, nem vida, só vidas, muito menos esperança – só esperanças, sobretudo que os dias passem depressa e as noites sem acidentes. “As primeiras coisas” é, por isso, um livro exacto, um feito assinalável.

Sem desprimor para ninguém, se antecedermos a leitura de “As primeiras coisas” com a de “O retorno” de Dulce Maria Cardoso, teremos em 584 páginas, escritas entre 2011 e 2013, toda a história, motivos, sensações, perspectivas e consequências dos deserdados das colónias, mais conhecidos por “retornados”. Foi preciso virem os filhos para serem contadas as desventuras que sucederam aos pais – mas não é para isso que servem os filhos, literariamente falando?

 

PS - As fotos acima só estão aqui porque foi isso que eu quis dizer.

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Coisas mesmo boas de 2013 - 1 fotografia

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

 

Em pintura chama-se composição, em cinema e noutras artes narrativas ponto de vista, em fotografia enquadramento. Cada vez mais gosto deste olhar de Luísa Cunha, que tanto me surpreendeu e continua a encantar quanto mais o vejo. Parece faltar-lhe qualquer coisa, que tem demasiado ar, mas está tudo bem assim, imponderável e sideral.

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Coisas mesmo boas de 2013 - 1 filme

por José Navarro de Andrade, em 30.12.13

 

Afinal Sarah Polley não era filha de seu pai. É isto que ficamos a saber a meio do documentário realizado pela própria. O que sucede na outra metade? Ela espoja-se a carpir mágoas? Faz um ajuste de contas com a família e as suas hipocrisias? Arrasa com desassombro a sociedade e que vivemos? Exibe o seu estoicismo? Estraguei o enredo ao contar aqui o facto central de “Histórias que contamos” (“Stories we tell”)?

Muitos filmes são excelentes por aquilo que não mostram nem dizem. É o caso deste. Sarah Polley não é narcisista, nem se faz vítima; não julga, mas não se coíbe de comentar (ou seja de dar a ver as emoções contidas) como faria se acreditasse na farsa da objetividade; não disseca as emoções e os factos mas – e creio ser isto que faz de “Histórias que contamos” um filme prodigioso – revela e pondera o modo como conta estes acontecimentos.

Filha de actores, actriz ela própria, Sarah Polley sabe bem como se esbate a linha entre a representação e a interpretação – onde quer que ela esteja. E com este filme percebe e dá-nos a perceber que a realidade tem uma imaginação que supera a humana e que, desde a preponderância do Youtube, o documentário é apenas outra maneira de contar histórias.

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