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Camões, Cultura e Estratégia

por Patrícia Reis, em 10.06.17
 

A 10 de Junho de 1580 morre Luiz Vaz de Camões e a homenagem ao escritor dos Lusíadas é muitas vezes esquecida no âmbito do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esquecida apesar de Camões ser um nome maior da Cultura nacional e a promoção e divulgação da cultura ser essencial para manutenção da nossa identidade.

Temos na Cultura, como em outras áreas, nomes maiores. E continuamos a ter, nas novas gerações, mentes criativas e inovadoras. Não me refiro apenas à Literatura. A nossa Cultura é uma moldura de grande dimensão e reflecte a nossa História, as nossas lendas, os nossos mitos e, ao mesmo tempo, fixa a contemporaneidade.

A Cultura é, por sistema, a parente mais pobre da política. Nos governos sucessivos que preenchem a nossa jovem democracia, a Cultura nunca teve o investimento que deveria ter.

Este 10 de Junho, celebrado na cidade do Porto, é porventura um momento para pensar se temos uma estratégia cultural que acompanhe o facto de Portugal estar na moda, ter tão bons indicadores ao nível do Turismo, e se apostamos ou não em quem insiste em ser agente cultural, artista plástico, escritor, músico, etc.

Há ainda uma reflexão adicional que deveremos fazer, sobretudo num país que parece estar cada vez mais deslumbrado pela juventude: apoiamos ou não apoiamos os mais velhos que contribuem significativamente para este património que é nosso, a Cultura Portuguesa?

Marcelo Rebelo de Sousa esteve mais de uma década na televisão como comentador. Sempre teve uma rubrica de livros. Há uns tempos, confidenciou-me que gostaria de ter feito um programa de livros na televisão. Pode ser que ainda venha a fazer. O único programa sobre livros que existe é na RTP 2. As outras estações de televisão dizem que a Cultura é uma chatice, pouco comercial, não ajuda aos shares e outras coisas.

Marcelo Rebelo de Sousa, homem culto, tem corrido feiras do livro, festivais literários, lançamentos e é um Presidente atento à cultura. Há muito tempo que não tínhamos um Presidente para quem a Cultura fizesse diferença. Pode ser que aconteça algo de extraordinário e o Presidente consiga que o resto das instituições oficiais entendam que sem Cultura não existe a soberania, não existem as comunidades portuguesas e, consequentemente, não existe necessidade para um 10 de Junho.

Texto para o site do Porto Canal

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 20.10.16

«Lisboa vai ter a sua primeira creche para cães»

Notícia do Público, com destaque na primeira página

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da dificuldade de se ser adolescente (ou adulto)

por Patrícia Reis, em 07.08.16

Não tenho muito jeito, nunca tive, para ficar calada. É um defeito e uma virtude. Por vezes gostaria de voltar a engolir as palavras. Outras, seria magnífico deixar que o chorrilho de disparates na minha cabeça encontrasse eco no exterior. É que, apesar da fama, ainda vou engolindo uns sapos. E sobre isto e mais estive eu à conversa ontem à noite com duas adolescentes. O que as magoa, o que lhes faz confusão - elas com 15 anos - é muito parecido com aquilo que me magoa e me faz confusão, no entanto concluí que ser crescido tem inúmeras vantagens e uma delas é aceitar que é preciso fazer rupturas, chamar os bois pelos nomes. Durante a nossa conversa, ouvindo o mais atentamente possível, voltei a sentir o mesmo que sentia na minha adolescência: incompreensão. Caramba, ser jovem não é um posto, nunca foi, mas é muito difícil. Será sempre muito difícil. E, talvez por isso, acabei por mandar para a outra parte um adulto que teve a infelicidade de dizer: ah, o que eu dava para ter a vossa idade. As minha interlocutoras olharam para o senhor com incompreensão. Eu também.

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Pois, pois. Como se houvesse por aí muitas mulheres com o sentido de orientação necessário para irem atrás de uma estrela durante milhares de quilómetros até chegarem a uma gruta.

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Atenção que no Chile, onde decorre a Copa América, estão, pelo visto, em pleno Inverno. Se isto não é a confirmação dos efeitos das alterações climáticas, vou ali e volto já.

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Mais de 32 mil estrangeiros pediram nacionalidade portuguesa em 2014.

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Afinal, a estória absolutamente verosímil do alemão que serrou os bens ao meio depois do divórcio era falsa. Pelo visto, o produto da venda feita no eBay será agora encaminhado para fins de beneficência. Em contrapartida, ainda não foi desmentida a perturbadora notícia que atribui a autoria de um livro a Miguel Relvas.

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Inquietação sanjoanina

por Rui Rocha, em 22.06.15

Digam lá. Sou só eu que acho que a letra não faz sentido? Sejam francos, por favor:

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão
Para eu brincar

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que caraças

por Patrícia Reis, em 14.08.14

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 22.10.13

"Os cães também são pessoas"

Notícia do Expresso

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 20.08.13

"Família Obama tem um novo elemento"

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 07.08.13

Lili Caneças roubada em Barcelona

Notícia do Jornal de Notícias

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 06.08.13

"Uma praga de melgas está a perturbar as férias dos turistas na zona de Armação de Pera, no Algarve. Os insectos surgem normalmente à noite e estão a suscitar queixas quer dos turistas quer dos próprios empresários e comerciantes. Queixas enviadas tanto para as autarquias como para as autoridades da saúde."

Lançamento de uma notícia que hoje preencheu sete minutos do Jornal da Tarde, da RTP

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 21.07.13

«Hulk tem rabo maior do que Miss Bumbum»

Notícia do DN

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 17.07.13

 

"Sinto falta de ter um namorado."

Rita Pereira, na Lux

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 26.06.13

«Os animais também sentem os efeitos do calor.»

Há pouco, no Jornal da Tarde, da SIC

 

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 04.06.13

«Neste jornal apresentamos o melhor, e provavelmente maior, bigode do País.»

Há pouco, no Jornal da Tarde, da SIC

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O Carlos

por Ivone Mendes da Silva, em 26.08.12

 

 

Calma. É apenas uma história e conta-se em duas linhas. Estava eu a procurar no Google umas imagens, quando reencontrei esta conhecida estátua de Posídon. Sorri do que me trouxe à memória. Faz muitos anos, talvez mais de vinte. No Forum Picoas, estava patente uma exposição de arte grega de cujos contornos já não me recordo. Cá fora, a enfrentar na sua desdenhosa e olímpica nudez a Av. Fontes Pereira de Melo, erguia-se uma reprodução desta estátua de bronze, o Posídon de Artemísia, encontrado no mar ao largo do cabo Artemísia, provavelmente da autoria de Cálamis (c. 460 a.C.) e que faz parte do acervo do Museu Nacional de Atenas. Eu seguia num autocarro que parou mesmo ao lado da estátua. No banco à frente do meu, uma mulher, olhando pela janela, disse para outra que a acompanhava:

- Olha! Parece o Carlos.

- Ah! Pois parece!- concordou ela de imediato.

Ainda hoje não sei se quem lhes trouxe à memória o dito Carlos foi algum transeunte que semelhava as feições de um conhecido comum ou se era o brônzeo deus dos mares quem lhes evocava, sabe-se lá como e porquê, um Carlos de cuja pujante nudez pareciam partilhar o conhecimento. Assim uma espécie de sisters in arms.

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Estive hoje a ver, em dvd, A última estação de Michael Hoffman. Belo filme sobre os últimos tempos da vida de Tolstói. Helen Mirren é sublime no papel de Sofia Andréievna. A certa altura, o escritor, irritadíssimo, diz-lhe: "Tu não precisas de um marido, precisas é de um coro grego." Adorei. Aliás, noutros tempos, os maridos que eu tive poderiam ter-me dito o mesmo. Bem, quando eu digo "os maridos que eu tive" convém notar que esta frase pode induzir em erro os leitores incautos. Foram só dois os maridos, mas, dito assim, cria toda uma atmosfera. 

Depois do filme, dediquei-me a uma tarefa mais pesada. Tinham-me pedido que vertesse para latim umas descrições de botânica. Foi árido e árduo e cheguei ao final da tarde cansada. Decidi que precisava de um café no exterior. De beber um café e de olhar umas montras. Tenho andado, por estes dias, com umas roupas na pré-reforma e com uns sapatos sem história. Com a roupa nada a fazer que isto do Verão limita-me os movimentos. Agora sapatos, como sabe quem sabe destas coisas, sapatos são uma religião. Os objectos sagrados guardam-se, bem estimados. Assim sendo, retirei do seu resguardo umas sandálias Luís Onofre a que os anos não tiraram o esplendor. São duas tiras de damasco  sobre o pé e uns saltos finos de 10 cm. É extraordinário o que tão pouca coisa faz pela alma de uma pessoa.

Fui, pois, com o propósito do café e de passar pela perfumaria a fim de investigar umas coisas. A linha de batôns Rouge Pur Couture, da YSL, tem uma colecção nova. Vi numa revista umas cores belíssimas com uns nomes incríveis, que o pessoal do marketing sabe-a toda: Rouge Hélios, Bronze Persépolis e o que me deixou de narizinho ar: Rouge Venise. Nas páginas da revista, era um rosso veneziano soberbo. Como fotografia em página de revista é muito enganadora no que respeita à cor, resolvi-me a ir ver se os via ao vivo, depois de bebido o café.

Na perfumaria onde vou há uma empregada muito simpática. Na maior parte das vezes, vou lá só para tagarelar um pouco, espalhar umas gotas de base nas costas da minha mão e apreciar a textura, enfim, estar por ali. Uma vez, passei lá um bocado muito engraçado. Ela disse-me, a certa altura: "Sabe... eu gostava de saber dizer o nome dos perfumes assim como a senhora diz.. ". Não percebi logo, mas cheguei lá. Tinha dificuldade em dizer o nome dos perfumes porque desconhecia as línguas. Ensinei-lhe uns pormenores e uns truques que foi anotando num caderninho de modo a treinar. Nessa tarde, quando saí, dizia na perfeição: NotoriousBlack OrchidPleasuresJasmin Noir e, a minha coroa de glória, Un Jardin en Méditerranée.

Hoje estava acompanhada de uma colega muito mais nova, também muito simpática e afável. Lá conversámos um pouco. Não, pois ainda não havia  batôns novos. E as colecções do Verão já tinham poucos. Em alturas de crise, batôn vende-se sempre. Mesmo nas grandes marcas, custa 25, 30 euros. Pode sair-se de uma perfumaria sem mais nada: quando se traz um batôn, comprou-se alguma alegria que dura uma estação inteira.

Eu gosto de batôns a sério, de mulher crescida. Nada de rosas imberbes, ou gloss que dá um ar de quem esteve a comer batatas fritas. Prefiro ter uns lábios de filme noir.

Lá estávamos, pois,  junto ao expositor da Dior, marca à qual ela sempre me tentou converter. Olhávamos para um rosa fundo, intenso, e a menina mais nova disse: "A senhora deve ficar bem com esse. A minha avó tem um igual e fica-lhe tão bem." Soltei uma gargalhada perante a pirueta que ela deu com a frase: "Eu .. eu... não estou a dizer que a senhora seja da idade da minha avó ... eu só queria dizer que ..." 

Sosseguei-a, que tivesse calma. Feitas bem as contas, se calhar, tecnicamente, eu poderia ser avó dela.

Foi divertido mas fiquei a pensar no assunto. Quando eu tinha 20 anos, queria ser mais velha. Achava que as mulheres mais velhas tinham, naturalmente,  uma elegância, um andar, uma segurança que eu demorava a achar. Andei ansiosa por fazer 40 anos, a pensar que a graça dos deuses cairia sobre mim. Não notei grandes diferenças. Nem agora aos 52. 

Lembro-me de, quando era garota e tinha como meta a alcançar uma autorização da minha mãe para pintar as unhas de vermelho, ver muitas vezes a passear em Faro, na rua de Santo António, uma senhora que eu achava a quintessência da elegância. Usava uns vestidos de seda pesada e uns casacos de corte imperturbável. Pisava a calçada com uns saltos finos com se subisse as escadas do Scala.

E eu queria envelhecer. E usar meias pretas e retocar o rosto com pó solto, com uma esponja aveludada segura na ponta das unhas vermelhas.

Ok, já cá cheguei. A minha mãe já me deixa pintar as unhas.  

 

(texto republicado)

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Houve um tempo em que eu tinha roupa. Agora tenho soluções. Nem sempre as melhores, nem sempre as que  quereria. Visto-me, sem que isso me mereça reflexão de maior e é o que vale, que a vida não está para pormenores. No entanto, ó mísera sorte, estranha condição, dias há que na alma nos põem nostalgias incómodas. Acordei hoje com desejos de vestir um casaco comprido de Verão. Passo a explicar o conceito a quem o achar estranho. O casaco comprido de Verão, ao contrário do de Inverno, não serve para aquecer, serve para compor. Dou a mão à palmatória: esta ideia de "roupa para compor" é um bocadinho obsoleta. O "vestir-se para" também será, embora, convenhamos, em virtude dessa consideração, vê-se cada figurinha .... adiante e vamos aos casacos. Eram feitos em tecidos leve, de manga pelo antebraço e, quando usados com umas luvas de cano curto, de uma elegância inenarrável. A minha mãe tinha um de tecido adamascado, num tom rosa-chá desmaiado, com uns botões em bege rosado. Usava-o com uns sapatos muito altos, com uns furinhos minúsculos na ponta, no exacto tom dos botões. Aqueles sapatos estragaram a minha vida para sempre. Passava horas a remirá-los.Acho que em cada sapato que comprei  ( e Deus sabe quantos ... ) eram aqueles que eu procurava. O casaco, esse vestia-o e olhava-me no espelho, imaginando-me crescida, longe da interdição materna de pintar as unhas de vermelho e senhora dos meus dias. Dias bons, claro, e havia uma razão para pensar assim. Sempre ouvi contar a história do meu tio José e da minha tia Celeste, que já lá estão. É uma história com casaco comprido de Verão. Esse meu tio, o mais velho do primeiro casamento da minha avó, tardava em assentar. Enfant gaté, o meu avó tratava filhos e enteados com condescendências que só visto, tardava em assentar. Fazia ladear a égua no empedrado das ruas, entregava olhares de esperança às raparigas com ideias de cama e pucarinho e lá ia à sua vida. Por volta das seis da tarde, no largo da estação, apeava e ficava com os amigos a ver quem chegava. Um dia, desceu do comboio a nova professora primária. Era Setembro de 1938. Contam que ela trazia um casaco comprido de Verão, com uma gola lindíssima. O meu tio disse para a entourage: "Estão a ver aquela do casaco bonito? É com ela que vou casar." E casou. Durante sessenta anos. 

A primeira vez que eu vi Maria Helena da Rocha Pereira, ela atravessava o átrio da Faculdade de Letras, no meus primeiros tempos de Coimbra. Eu estava no primeiro andar, encostada ao varandim. Era a hora em que o bar se enchia de gente (rapazes) das outras faculdades para um café a meio da manhã. Eu tinha-me tomado de amores por um finalista de Direito com Reais por fazer, um clássico portanto, e ouvia-lhe as torturas sofridas às mãos do mítico Orlando de Carvalho. Olhei para baixo e vi-a com um casaco comprido de Verão, azul ferrete. Parecia eterna. Pensei que a vida era aquilo, namorar encostada ao varandim do bar das Letras, enquanto os mitos, vestidos de símbolos azul ferrete, atravessavam o átrio daquela distante despreocupação.

Quando encontrei a minha costureira, pedi-lhe um casaco comprido de Verão. Ela compreendeu-me e Deus ma conserve, até porque, hoje em dia, pouco trabalho lhe dou. Para não a cansar, claro. Fez-me muitos casacos compridos de Verão. Usava-os por cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, e sentia-me tão habillée; outras vezes, vestia-os sobre umas calças e uma camisa atada na cintura e sentia-me feliz. Ando a precisar de um casaco comprido de Verão.

Há muito pouco tempo, estive com Maria Helena da Rocha Pereira num funeral. Era preto o casaco que vestia, lindo, em linho pesado, de manga pelo antebraço, com o corte irrepreensível dos alfaiates do Porto. Ela continua eterna como no dia em que atravessou o átrio da Faculdade de Letras na véspera de o Orlando de Carvalho voltar a reprovar um namorado que abandonei meses depois; eu envelheci. Deve ter sido castigo.

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Esta ditosa língua minha amada

por Ivone Mendes da Silva, em 05.12.11

Hoje, um grupo de adolescentes escrevia um, digamos, requerimento no qual se dirigiam a entidade que lhes era hierarquicamente superior, dizendo que vinham "pedir a V. Exª que ... ". Interrompi-lhes a redacção. Havia que substituir "pedir" por "solicitar". Grande e clamorosa oposição. Ora essa, diziam, pois então não eram sinónimos? Sim, na substância, porém a carga semântica era diferente. Se fosse a entidade a querer alguma coisa deles,  diria "peço que". Na prática: solicita-se para cima, pede-se para baixo.

Em redor do imberbe grupo, quatro ou cinco pessoas que já não são imberbes há mais de 40 anos resolveram fazer coro. Que só eu tinha estas esquisitices, que só eu olhava para estas coisas, que só eu assim e assado.

A rebelião crescia, mas como a redacção do papelucho estava sob a minha responsabilidade, decidi-me por um argumento de autoridade. Mandei que fosse escrito : ". .. vêm, respeitosamente, solicitar a V. Exª se digne autorizar ..."

Sou uma ditadora. Fora de moda, ainda por cima.

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Para que não digam que nunca escrevi sobre futebol

por Ivone Mendes da Silva, em 26.11.11

 

- Tens mesmo de ir ver o jogo?

- Sim e ainda tenho de vestir alguma coisa.

- Nunca hei-de perceber porque não ficas em casa.

 

(Gloria Grahame e Sterling Hayden em Naked Alibi de Jerry Hopper. 1954)

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"Que fantasmas me trazem desvairada ..."

por Ivone Mendes da Silva, em 08.09.11

Há tempos, quando estava na biblioteca com alunos, uma das miúdas abriu ao acaso a Aparição, no trecho em que Sofia, durante a explicação de Latim, lê uns versos da livro 4 da Eneida:  Ana soror, quae me suspensam insomnia terrent/ Quis nouus hic  nostris sucessit sedibus hospes  e, depois, de intentar uma tradução, beija  o incauto Alberto Soares. A minha aluna comentou: “Ah, isto de aprender latim deve ser giro.” Lidas aquelas linhas, na cabeça dela, o latim passou a ser uma coisa de palavras desconhecidas e explicadores dúcteis.

Aproveitei o momento para lhes falar de Dido e Eneias, mais propriamente da desvairada Dido. Juntando as pontas da história rapidamente: Eneias, exausto dos errores marítimos, após a tomada de Tróia, aporta a Cartago, onde a rainha Dido o recebe e por ele se apaixona. No entanto, Eneias tem um destino a cumprir e ao qual não se pode eximir: fundar uma nova nação no Lácio. Nas entrelinhas da Eneida, sente-se bem fulgor da hospitalidade de Dido e, também, o quão agradável isso estava a ser para Eneias.  Mas os deuses apontavam-lhe um outro caminho e a paixão insana de Dido não consegue retê-lo. Como disse Camilo Castelo Branco, e bem, “Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte.” Desvairada, Dido suicida-se com uma espada que Eneias deixou para trás.  

Praticamente toda a literatura ocidental é percorrida por esse momento de insanidade pontual que condiciona o desfecho da história. Está certo, se na morte de Dido podemos ler a simbologia do destino futuro de Cartago, em muitos outros textos encontramos apenas um momento, uma decisão tomada sem as escoras da racionalidade e, a partir da qual, tudo se precipita, acaba, desmorona.

Anna Karenina não se detém a tentar aceitar que o amor físico é temporário sustentáculo para uma relação que se queira, mais do que conjugal, familiar e lança-se ao rodado do comboio; Julieta quando vê Romeu, aparentemente, morto na cripta dos Capuleto, não pára para pensar no que poderá ter corrido mal no plano e enterra em si o punhal; Fedra, despeitada com a recusa de Hipólito, não mede as consequências da acusação que vai fazer.

O desvario não habita a claridade helénica do logos, o desvario é do domínio do topos, do lugar, da circunstância.

Se não somos sem a nossa circunstância, há que ter mão nela.

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Da natureza de alguns humanos

por Ivone Mendes da Silva, em 03.09.11

Como sabe quem me é chegado, se há coisa que me aborrece é ir ao supermercado. No entanto, reconheço que, não raro, trago de lá motivo de reflexão.

A presença do meu filho em casa durante o fim-de-semana pede sempre uns mimos culinários para os quais necessitava de ingredientes que não tenho habitualmente. Lá fui. E reparei numa coisa que já me tinha chamado a atenção e na qual não me detivera ainda. Por todo o supermercado há produtos abandonados fora do sítio próprio: quatro iogurtes junto aos pacotes de arroz, uma embalagem de bacon na prateleira dos sumos, dois queijos frescos em cima dos limões. Isto só para dar alguns exemplos. Estive a pensar num termo com o qual eu pudesse qualificar a atitude subjacente a estas deslocadas presenças. Não me ocorre outro melhor: é estupidez.

Vejamos, e eu não sou, muito longe disso, um exemplo de disciplina e ordem no momento de fazer as compras. Normalmente faço uma lista, mas posso bem ir sem a fazer. Compreendo perfeitamente que alguém, olhando para o carrinho, pense: "Afinal, não preciso de esparguete, ainda lá tenho." O que eu não compreendo é que se agarre no pacote de esparguete para o colocar na prateleira mais próxima que, por acaso, é a dos sabonetes.  Já me aconteceu, algumas vezes, decidir que, afinal, não vou levar algum produto que já tinha retirado do lugar. Volto lá. Parece-me elementar. Faço marcha atrás e volto a colocá-lo onde o tirei. E, mais fácil ainda ou se estiver muito apressada, posso deixá-lo na caixa: "Desculpe, afinal, não vou levar isto." É capaz de ser mais correcto. Não sei, digo eu.

Haverá, decerto, quem argumente que não tem de estar a facilitar a logística do supermercado. Eles é que têm o lucro, eles que suportem as contrariedades.

Pois. Mas, na minha opinião, nada disto tem a ver com eles. Tem a ver com cada um de nós.

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Coisas que tenho dificuldade em compreender (1)

por Ivone Mendes da Silva, em 28.08.11

Vi agora que a RTP 1 vai passar Ma nuit chez Maude às duas e meia da manhã.  Será um serviço público de acompanhamento aos insones ou, após alguns estudos, chegaram à conclusão de que os rohmerianos estão acordados a essa hora?

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