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Delito à mesa (7)

por João André, em 03.01.17

Confesso que há muito que não tenho o hábito de ir a restaurantes. Sempre gostei de o fazer com amigos mas afazeres profissionais, ter saído de Portugal e ter por perto menos dos amigos com quem gosto de partilhar estes momentos, além da vida familiar que por vezes torna difícil a ida a restaurantes, tudo isto tem conspirado para que eu não tenha renovado os meus hábitos comensais públicos. Na falta dos mesmos, recorro a um hábito já antigo a que volto sempre que posso (ou por lá passo).

 

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O Zé Manel dos Ossos é uma instituição de Coimbra onde não há café no final da refeição, o vinho vem à escolha de branco ou tinto, copo ou jarro (garrafa também pode ser), as paredes estão escarrapachadas de papéis de toalha de mesa escrevinhados com saudações, poemas ou outras inspirações de rotundas barrigas, a fila à entrada pode ir dos 20 minutos à hora e meia para quem chega depois das 7 da noite e o espaço dá para uma meia dúzia de mesas e pouco mais. Quem quiser sofisticação e estilo bem pode ir a outro lado.

 

Conta a lenda que tudo começou quando o Sr. Zé Manel começou a recolher os ossos de um talho ao lado e a cozinhá-los com umas ervas, sal e outros truques que só serão transmissíveis em quintas-feiras de lua cheia depois de sacrificar um gato, um lagarto e um javali aos diversos deuses da gula nos intermináveis panteões da história universal. Facto é que os ossos, além do nome, dão o carácter ao restaurante. A maioria dos pratos incluem ossos de uma forma ou outra, mas os ossos a sério, aqueles que se pedem sem dizer nada mais além do número de convivas, esses são motivo só por si para uma espera de uma hora num beco de Coimbra aos 35 °C de uma noite de Verão.

 

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Os preços (além da qualidade) tornam o restaurante obrigatório entre estudantes, mas não se pense que enchem o espaço e o tornam impossivelmente "académico". Os simples factos de ser necessário enfrentar filas para entrar depois das 7 e meia da noite (ou tarde, depende da altura do ano), de se situar na Baixa (e fora dos circuitos habituais da Universidade) conspiram para controlar o fluxo de clientela e permitir que qualquer pessoa se sinta em casa. Uma vez dentro, há sempre o risco de o calor ser altíssimo e o espaço exíguo. Mas vale a pena aguentar tudo.

 

A melhor escolha inicial é dizer que se quer ossos. O empregado decide quanto vai trazer em função dos convivas à mesa (esqueçam as noções de doses se ali entram) e é possível ter tempo para decidir o que se vai comer. Mais uma vez, o ideal é escolher uma selecção de pratos e deixar que as quantidades fiquem à escolha da casa. Pessoalmente vou sempre pelas barriguinhas ou costeletas com arroz de feijão ou pela feijoada de javali. O vinho é despretensioso mas costuma ir muito bem com a comida e o ambiente.

ze manel dos ossos 3.1.jpgze manel dos ossos 3.2.jpg

 

Não há pressão para se sair da mesa, apesar da fila que existe à porta. Há sempre contudo a oferta de mais bebidas, como que a lembrar-nos para consumirmos um pouco mais. Mas sem verdadeira pressão: a simpatia esteve sempre presente. No final não há café. A máquina ocupa espaço e, na realidade, ninguém lá vai para isso. E beber um café poderia ter o mesmo efeito que a folhinha de menta em The Meaning of Life.

 

A melhor demonstração do restaurante ocorreu quando um dia tive um jantar com os elementos de uma banda americana (que tinham dado um concerto organizado pela Ru( na noite anterior). Nesse dia alguns dos elementos da banda dormiram tarde e almoçaram já perto das seis da tarde. Vontade de jantar: perto de zero. Umas horas mais tarde tinham-se deliciado com a comida e iam rebolando alegremente para o hotel. Passados uns anos um amigo reencontrou um deles e foi imediatamente reconhecido com as palavras: «os ossos!».

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Resumindo: a visita ao Zé Manel dos Ossos vale sempre a pena. Sem pressas e com espaço no estômago. E escritas estas linhas, estou com vontade de marcar uma viagem a Coimbra para breve.

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Face a alguma comoção gerada nas últimas horas relativamente aos critérios de atribuição de determinadas honras académicas, relembro  que o Lula é Honoris Causa pela mesma Universidade de Coimbra em que Boaventura Sousa Santos é Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia.

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Quem não os conhecer que os compre

por Laura Ramos, em 03.02.14

 

Pois eu, por mim, não tenho problema algum em dividir a minha cidade com a estudantada.

 

Deploro os exageros escusados, o asneiredo de criar bicho, mas tenho muito boas memórias desse meu tempo, em que vivi a festa no melhor e mais enriquecedor sentido do termo.

Aliás, lutei, rigorosamente, por ela. Com a pele. O que não me faz subscrever os desvios comportamentais, longe disso.

Mas o que me dá um enfoque geracional muito interessante e suculento, para quem sabe reconhecer de onde vem o dedo de muitos degrenidores activos da soi-disant praxe académica (não confundir com os indignados passivos).

Infelizmente, há uns tantos anormais cujos actos permitiram que esses tais voltassem a pôr as unhas de fora.

Quem não os conhecer que os compre.

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Houve um tempo em que eu tinha roupa. Agora tenho soluções. Nem sempre as melhores, nem sempre as que  quereria. Visto-me, sem que isso me mereça reflexão de maior e é o que vale, que a vida não está para pormenores. No entanto, ó mísera sorte, estranha condição, dias há que na alma nos põem nostalgias incómodas. Acordei hoje com desejos de vestir um casaco comprido de Verão. Passo a explicar o conceito a quem o achar estranho. O casaco comprido de Verão, ao contrário do de Inverno, não serve para aquecer, serve para compor. Dou a mão à palmatória: esta ideia de "roupa para compor" é um bocadinho obsoleta. O "vestir-se para" também será, embora, convenhamos, em virtude dessa consideração, vê-se cada figurinha .... adiante e vamos aos casacos. Eram feitos em tecidos leve, de manga pelo antebraço e, quando usados com umas luvas de cano curto, de uma elegância inenarrável. A minha mãe tinha um de tecido adamascado, num tom rosa-chá desmaiado, com uns botões em bege rosado. Usava-o com uns sapatos muito altos, com uns furinhos minúsculos na ponta, no exacto tom dos botões. Aqueles sapatos estragaram a minha vida para sempre. Passava horas a remirá-los.Acho que em cada sapato que comprei  ( e Deus sabe quantos ... ) eram aqueles que eu procurava. O casaco, esse vestia-o e olhava-me no espelho, imaginando-me crescida, longe da interdição materna de pintar as unhas de vermelho e senhora dos meus dias. Dias bons, claro, e havia uma razão para pensar assim. Sempre ouvi contar a história do meu tio José e da minha tia Celeste, que já lá estão. É uma história com casaco comprido de Verão. Esse meu tio, o mais velho do primeiro casamento da minha avó, tardava em assentar. Enfant gaté, o meu avó tratava filhos e enteados com condescendências que só visto, tardava em assentar. Fazia ladear a égua no empedrado das ruas, entregava olhares de esperança às raparigas com ideias de cama e pucarinho e lá ia à sua vida. Por volta das seis da tarde, no largo da estação, apeava e ficava com os amigos a ver quem chegava. Um dia, desceu do comboio a nova professora primária. Era Setembro de 1938. Contam que ela trazia um casaco comprido de Verão, com uma gola lindíssima. O meu tio disse para a entourage: "Estão a ver aquela do casaco bonito? É com ela que vou casar." E casou. Durante sessenta anos. 

A primeira vez que eu vi Maria Helena da Rocha Pereira, ela atravessava o átrio da Faculdade de Letras, no meus primeiros tempos de Coimbra. Eu estava no primeiro andar, encostada ao varandim. Era a hora em que o bar se enchia de gente (rapazes) das outras faculdades para um café a meio da manhã. Eu tinha-me tomado de amores por um finalista de Direito com Reais por fazer, um clássico portanto, e ouvia-lhe as torturas sofridas às mãos do mítico Orlando de Carvalho. Olhei para baixo e vi-a com um casaco comprido de Verão, azul ferrete. Parecia eterna. Pensei que a vida era aquilo, namorar encostada ao varandim do bar das Letras, enquanto os mitos, vestidos de símbolos azul ferrete, atravessavam o átrio daquela distante despreocupação.

Quando encontrei a minha costureira, pedi-lhe um casaco comprido de Verão. Ela compreendeu-me e Deus ma conserve, até porque, hoje em dia, pouco trabalho lhe dou. Para não a cansar, claro. Fez-me muitos casacos compridos de Verão. Usava-os por cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, e sentia-me tão habillée; outras vezes, vestia-os sobre umas calças e uma camisa atada na cintura e sentia-me feliz. Ando a precisar de um casaco comprido de Verão.

Há muito pouco tempo, estive com Maria Helena da Rocha Pereira num funeral. Era preto o casaco que vestia, lindo, em linho pesado, de manga pelo antebraço, com o corte irrepreensível dos alfaiates do Porto. Ela continua eterna como no dia em que atravessou o átrio da Faculdade de Letras na véspera de o Orlando de Carvalho voltar a reprovar um namorado que abandonei meses depois; eu envelheci. Deve ter sido castigo.

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A praça tem mais encanto...

por João Carvalho, em 23.10.11

 

... se for a de Coimbra. Sim, ter uma Praça do Comércio não é exclusivo de Lisboa, embora em finais dos anos 40, princípios de 50, o antigo Terreiro do Paço da capital tivesse outro ar de graça. Tinha, mas perdeu-o.

A Praça do Comércio de Coimbra pode não ser perfeita, mas ao menos não tem aquele campo de hóquei às moscas no centro, rodeado de ministérios. Está visto que não há presidente da câmara de Lisboa que se decida a alegrar o espaço.

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