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Aquilo aconteceu mesmo?

por João André, em 09.08.14

 

Um mês mais tarde, volto ao momento do último mundial de futebol que mais perdurará na memória colectiva. Daqui por 4 anos estaremos a perguntar se alguém repetirá aquele resultado. Daqui por 8 anos perguntar-nos-emos se a dor terá diminuído. Daqui por 16 anos falaremos no jogo que trará a vingança. Daqui por 32 escrever-se-à, no momento da final, que é o momento de exorcisar a memória, a dor e a humilhação.

 

Não será possível. Aquilo não sucedeu senão num momento de alucinação colectiva. Um,... dois, três-quatro-cinco; ...; seis, ..., sete; ... um? Foi certamente um exercício de virtuosismo técnico durante a transmissão. Dentro de meses seremos informados que George Lucas e James Cameron testaram um novo sistema de realidade virtual em directo e que o verdadeiro jogo foi decidido apenas no prolongamento. Ou que a Glaxo-Smith-Kline fez o melhor product placement na história da publicidade demonstrando os efeitos secundários do seu medicamento que cura o cancro. O que saberemos é que não existiu aquele resultado. Não importa quantas pessoas o jurem a pés juntos.

 

Vi o jogo - ou o embuste - num bar na Alemanha. Eu tinha escolhido o meu lado. Ou melhor, o lado a que me opunha, com o seu vilão de pantomina. Deveria ter sido o meu primeiro sinal de alarme. No final do jogo escolheu-se o sósia de Sideshow Bob como o principal responsável, mas nos primeiros 20 minutos de jogo o lado esquerdo da defesa aparentava ser território de outro personagem de cartoons: Will E. Coyote. E os atacantes, fossem eles quem fossem, eram o nosso Roadrunner preferido, aprintando com gusto em direcção ao infinito, com todo o espaço do deserto à sua disposição. Avançando, rindo e tendo tempo para despachar uns bip-bip irónicos. Ou seriam, se não falássemos de gente profissional, que não queria humilhar tanto.

 

A minha escolha do bar foi simples: tinha wlan grátis e eu precisava dela para fazer uma chamada por skype. Comecei-a por volta dos 5 minutos de jogo e foi interropida aos 11 pelos primeiros festejos. No pasa nada, é só barulho, continuemos, mesmo que com um olho na chamada e outro no ecrã gigante. Aos 23 minutos nova interrupção e aos 24 outra. Decidi parar a chamada porque havia algo de estranho a suceder. Aos 26 minutos volta ao mesmo. Ou seria de facto o mesmo? Era igual ao anterior. Repetição? Não pode ser, a informação não deixa dúvidas. Mais uns minutos e os festejos acontecem pela quinta vez. Mas não são verdadeiramente festejos porque os alemães ainda não tinham parado os anteriores e, como nos filmes em que os gags se sucedem, a certa altura pouco mais que um sorriso há, devido à exaustão.

 

A meio havia uma certa sensação de estranheza. Havia quem quisesse ir para casa. Não havia forma de dar a volta e certamente que o resto nunca corresponderia às expectativas do que se tinha visto. Outros apostavam num colapso ainda mais prolongado e falta de piedade: a coisa iria para dois dígitos. O Facebook e o Twitter estavam cheios de piadas. Algumas eram obviamente recicladas, outras eram simplesmente óbvias ("muda aos cinco e acaba aos dez"...). Claro que ninguém arredou pé. Havia uma necessidade de confirmação colectiva do milagre. Era como um milagre do sol testemunhado por muitos mas ao contrário. Aqui tinha mesmo sucedido mas ninguém parecia acreditar nele.

 

A segunda parte começou com uma tentativa de mudar as coisas. Não sei, ninguém sabia, se eles acreditavam na reviravolta ou queriam somente salvar o orgulho (creio que eles próprios o saberiam, seria apenas instinto). Insistia-se no flanco esquerdo que tinha sido a razão da destruição na primeira parte e desta vez as cavalgadas suicidas eram melhor ancoradas. Ia resultando, mas era também um pouco fogo de vista. Os alemães estavam tranquilos (talvez de mais) e o triplo jogador mais recuado chegava para as falhas de concentração.

 

No bar crescia a frustração e a irritação. Queriam mais. Via-se que apesar de estar melhor, se estava a um erro de novo desmoronar. Havia uma certa passividade no ataque. Já se estavam a poupar para a final, indicavam alguns, mas sempre sem esconder uma irritação. Todos queriam o título, mas aquele era o momento de fazer algo mais, de deixar uma marca que fugisse ao estereótipo da eficácia dos títulos anteriores, que acabara ofuscada pelo brilhantismo de duas gerações e pelo péssimo mês de Junho de 1990.

 

A certa altura há um que se liberta, fica livre e, isolado, atira ao lado. Enorme "ooohhhh" colectivo e frustração absoluta. É como se tivesse perdido a oportunidade de decidir o torneio. Há irritação, fúria mesmo. Coloco a mão no ombro de um alemão numa mesa vizinha e faço-lhe ver a realidade do resultado (sê-lo-ia mesmo?, real?). Sorriu embaraçado, como se tomasse consciência do ridículo.

 

O último festejo proporciona uma espécie de libertação. Os anteriores tinham resultado de simplicidade e eficácia (ai os clichés), de qualidade geral mais que de brilhantismo individual. O final proporcionou o momento que outros podem relembrar no jogo. Um momento de beleza. Já mesmo no fim, quando a concentração falha no último momento, a sensação é curiosa, quase de alívio. Há um ou outro que arrisca dizer a palavra "consolação", mas engole-a rapidamente. Não é uma consolação, é essencialmente uma certa patina de realidade na alucinação. O hiper-competitivo triplo jogador está furioso mas é quase o único. Para todos os outros é necessário ver tal golo para que a realidade assente. É o momento de pausa antes do fim que torna o apito final inútil.

 

No fim do jogo há sorrisos no bar, mas são quase redundantes. Havia medo de ver um jogo ir a prolongamento. A diferença horária é grande e isso obrigaria a ir para a cama depois da meia-noite, uma hora mais tardia na Alemanha que em Portugal. Nas ruas há uns carros a apitar, mas respeitosamente e sem enorme entusiasmo. O resultado não assentou bem, não é verdadeiramente real. Há quem comente que no dia seguinte irão ser informados que se tratava de um grupo de sósias e que é necessário repetir tudo. Toda a gente sabe que é piada, mas ninguém se ri verdadeiramente. É como se fosse possível. Se sete-a-um-ao-Brasil-no-Brasil-nas-meias-finais-do-mundial é possível, então o conceito de realidade modifica-se. Num país onde os filósofos nacionais são venerados, a noção de realidade é mais que uma definição, é uma necessidade.

 

Estou para sair quando alguém comenta que se bateu o recorde de golos em mundiais. Toda a gente se olha entre si e sorri embraçada. Quando surgiu o golo decisivo toda a gente festejou duplamente: a vantagem alargada e o marco histórico. Com a avalanche que se seguiu o momento ficou esquecido. A realidade desse momento ficou diluída naquele momento de embaraço. No país onde a culpa do Holocausto é ensinada e cultivada até à exaustão, este massacre assumiu outros contornos. Se Nélson Rodrigues chamou ao Maracanazo o momento Hiroxima do Brasil, este terá sido o Holocausto. Tal como no anterior, os alemães comuns tiveram dificuldades em acreditar nele.

 

Aquilo aconteceu mesmo?

 

PS - este texto foi inspirado por este. Incentivo a sua leitura, tal como outros textos do mesmo autor. É sempre mais que apenas futebol.

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Mundial no sofá (17) - edição final

por João André, em 16.07.14

E agora para terminar a minha série, um balanço final feito em jeito de notas diversas.

 

A Alemanha foi uma justa vencedora. A melhor equipa, com a maior variedade e a maior concentração de talento. Não foi no entanto excepcional. A Espanha de 2010 teria vencido também este torneio.

 

A FIFA não mereceu o torneio. Deu indicações ridículas aos árbitros (terá pedido para se absterem de dar amarelos na primeira parte dos jogos); marcou jogos para a 1 da tarde em regiões quentes (e húmidas); andou com o Brasil ao colo enquanto pôde; escolhe os troféus individuais antes da final (num processo pouco transparente) e entregou-os imediatamente após a final. Temo o que vamos ver na Rússia e no Qatar.

 

Messi jogou, como li algures, em regime de time sharing pela Argentina. Apareceu neste jogo para marcar um golo, naquele para oferecer uma assistência e no outro para distrair a equipa adversária. Foram cameos engraçados, mas mais perto de Maradona 90 que de Maradona 86.

 

Individualidades a destacar. Criativos: Alexis Sánchez, Arjen Robben e James Rodríguez (menção honrosa para Toni Kroos). Defensivos: Javier Mascherano, Giancarlo González, Ezequiel Garay (menção honrosa para Ron Vlaar). Funcionais: Philip Lahm, Arturo Vidal, Dirk Kuyt (menção honrosa para Paul Pogba). Casos estranhos: Tim Howard, Guillermo Ochoa e Keylor Navas (menção honrosa para Andrea Pirlo e David Villa).

 

Momentos para recordar: o voo de van Persie, os quilómetros de Sanpaoli, os saltos de Miguel Herrera, a falta de Matuidi sobre Onazi, a falta de Zuñiga sobre Neymar, as faltas brasileiras, os cartões amarelos de Fernandinho, o golo de Götze (e o primeiro também), John Boye, Akinfeev, o sprint de Robben, o sprint de Robben, o sprint de Robben, James, Rodríguez, sim, com, vírgula, o sete-a-um-nas-meias-finais que ainda custa a escrever, o calor, a húmidade, a caderneta de cromos de Balotelli, a testa de Pepe, os dentes de Suárez, o transporte do dinheiro ganês, a tatuagem de Pinilla, o jogo de "onde está o Fred?", Pirlo a jogar um jogo diferente dos outros, o fisioterapeuta inglês lesionado, os suplentes belgas, as defesas de Howard, o recorde de Klose, Neuer a jogar quatro posições ao mesmo tempo, o cabeleireiro da equipa portuguesa, os sonoríferos Irão-Nigéria e Argentina-Holanda, Krul a entrar para defender pénaltis, Ochoa a fazer de homem polvo, os números de ilusionismo de Müller, o meio campo croata, o laser argelino, o segundo golo suíço contra o Equador, Enner Valencia, o espírito grego, o cinco-a-um-a-um-campeão-do-mundo-em-título, o golo de Tim Cahill, o cotovelo de Song, a cabeçada de Assou-Ekotto, as trocas tácticas de van Gaal.

 

A organização correu bem. Ninguém morreu decapitado, a malária não foi inevitável para toda a gente que esteve em Manaus, as manifestações não foram brutais nem obrigaram a cargas da polícia anti-motim, os jogos começaram à hora certa, ninguém se parece ter perdido, os visitantes foram bem recebidos (mesmo os argentinos) e as pessoas parecem ter-se divertido. Os jogos da fase de grupos foram saudavelmente malucos, os oitavos de final abertos e os outros jogos mais fechados como seria esperável. Houve dois jogos memoráveis (Holanda-Espanha e Brasil- Alemanha) embora não tenha havido nenhum jogo clássico.

 

Equipa do torneio (escolhida agora, amanhã poderia ser outra): Neuer, Lahm, Boateng, Garay, Blind, Mascherano, Kroos, Rodriguez, Sánchez, Müller e Robben. Suplentes: Navas, Armero, González, Pogba, Vidal, de Bruyne, Messi.

Equipa alternativa (um único jogador por selecção): Navas, Aurier, Thiago Silva, José Gimenez, Lahm, Mascherano, Inler, Rodriguez, de Bruyne, Sánchez, Robben.

 

Portugal foi uma sombra do que poderia ter sido, devido a más escolhas de jogadores, má selecção de onzes iniciais, lesões previstas, lesões imprevistas, má preparação e decisões parvas em momentos cruciais. A única coisa boa é que terá de obrigar a uma renovação da selecção. O maus é que a geração que chega é menos talentosa que a que sai de cena. Vá lá que o próximo europeu é de 24 equipas e só Andorra é que não se qualificará.

 

A nível pessoal, uma falta de televisão em casa e uma quebra (ainda não resolvida por causa de burocracias) no serviço de internet garantiram que não visse tantos jogos como seria normal. Isso não foi mau de todo, impediu a sturação. Só me faltou ver alguns jogos mais na companhia de amigos e no café para poder insultar jogadores e árbitro com todo o à vontade. Esta gente do centro e norte da Europa é muito calminha...

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Mundial no sofá (16)

por João André, em 15.07.14

Brasil 0 - 3 Holanda

 

Que dizer? Eu estava completamente errado. Não alinharam com suplentes e a Holanda acabou por estar mais motivada que o Brasil. O golo sofrido logo no início (em que o árbitro voltou a ser amigo) voltou a destruir os brasileiros. Depois disso foi uma questão de a Holanda ir gerindo os ataques desastrados, aproveitar as benesses brasileiras e ter paciência com o jeitinho do árbitro que seguiu a recomendação FIFA de não expulsar nenhum brasileiro. Imenso mérito para van Gaal que promoveu a renovação holandesa, apaziguou o grupo e aproveitou aquilo de melhor que os mais velhos tinham para dar. Tudo isto apesar de não poder contar com o jogador que teria sido o mais importante no seu esquema: Kevin Strootman.

 

Notas:

- Neymar nem sentia as pernas mas uns diazitos depois já por ali andava. Pois.

- Robben beneficia agora do descanso proporcionado pelas suas lesões no passado. Está mais rápido que nunca.

- van Gaal sai no momento certo. Dentro de 2 anos Robben, Sneijder e van Persie estarão provavelmente piores. Não há substitutos.

- As equipas de Scolari têm muito mau perder. Os brasileiros nas bancadas foram mais simpáticos.

 

Alemanha 1 - 0 Argentina

 

E enfim, finalmente Löw venceu um troféu com aquela que é considerada a melhor geração de sempre do futebol alemão. Foi justo que o golo tivesse saído dos pés do principal emblema da renovação alemã: Mario Götze.

 

O início foi complicado para os alemães. Sem Khedira, lesionado no aquecimento, fizeram entrar Kramer. Ao fim de meia hora este teve de sair com um traumatismo e entrou Schürrle. Volto a notar que a Alemanha chegou sem 3 médios que provavelmente teriam lugar no onze de quase qualquer outra equipa do mundial: Ilkay Gündogan, Lars Bender e Sven Bender. A mudança ajudou a Alemanha do ponto de vista táctico, uma vez que refreou um pouco as subidas de Zabaleta (sem opositor directo andava a cavalgar no flanco direito para se juntar ao ataque). Ainda assim ambas as equipas carrilaram o jogo pelos respectivos flancos direitos para aproveitar as forças próprias e a falta de rotinas adversárias.

 

Falar-se-à obviamente do falhanço de Higuaín, mas é nisto que se vêem os vencedores: quando a oportunidade se apresenta aproveitam-na. Ainda assim os alemães foram muitas vezes culpados de querer passar a bola entre si até entrar pela baliza adentro. Já os argentinos tentaram esperar pelas acções de Messi, mas viu-se que pouco mais tinham de plano que defender e rezar por um momento de sorte ou génio.

 

Apesar de tudo, crédito aos argentinos. Chegaram com uma equipa a ser vista como ridiculamente talentosa no ataque e completamente fraca na defesa. Demonstrou o oposto no mundial, mais uma vez provando o adágio da manta.

 

Os alemães foram vencedores justos de um jogo que, não sendo um clássico, foi mais interessante que muitas outras finais (teve melhor futebol que 2010 e 2006). Também foram a melhor equipa do mundial e mereceram o troféu. Nesta final eu teria preferido ver uma Colômbia que, sem a vergonha do jogo contra o Brasil, bem lá poderia ter chegado. no fim foi a equipa mais sólida a que venceu.

 

Notas:

- Mascherano foi mais uma vez enorme. Garay e Demichelis estiveram também muito bem. E não percebo porque se queixam os sportinguistas de ter Rojo a lateral.

- Thomas "Raumdeuter" Müller deve ter roubado o manto da invisibilidade a Harry Potter. Isso explicaria muita coisa.

- Götze teve um mundial para esquecer. À excepção do último toque. Também foi engraçado ver a expressão de incredulidade dele, sem perceber muito bem o que tinha acabado de fazer.

- Acho que há avançados que vão passar a ter medo de Neuer: "se não comes a sopa toda chamo o Neuer".

- Entregar prémios individuais no final do jogo é uma palhaçada. Sem considerações sobre justeza do prémio de melhor jogador, arriscamo-nos a figuras como a de Messi, que merece crédito por não ter dito a Blatter que metesse o troféu onde o sol não brilha.

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Mundial no sofá (15)

por João André, em 11.07.14

O jogo para atribuição dos 3º e 4º lugares (JATEQL) é um aspecto curioso dos mundiais. Existirá provavelmente apenas para "encher chouriços", vender mais uns bilhetes e aumentar o custo dos direitos televisivos. Nalguns países chamam-lhe "jogo de consolação", noutros "pequena final". Regra geral as equipas que o jogam têm muito pouca vontade de o fazer. Depois de perderem 7-1 (Brasil) ou nos penaltis (Holanda), acredito que haja pouca vontade de adiar as férias.

 

Por outro lado é muitas vezes dos jogos mais interessantes que se podem ver num mundial. Depois das fases de grupos, as equipas tendem a fechar-se mais (um golo significa muitas vezes a eliminação) e os jogos tornam-se menos interessantes. No JATEQL as selecções não têm nada de especial a perder, pelo que decidem jogar com suplentes não utilizados. Estes, podendo finalmente jogar pela primeira vez no mundial, esforçam-se mais que os titulares e dentro de uma certa liberdade táctica que acaba por lhes ser concedida pelos treinadores. O resultado acaba por ser normalmente um jogo interessante.

 

Claro que o elemento de motivação continuará a ser importante. A equipa mais motivada ganha quase sempre. Quando ambas estão igualmente motivadas então ganha aquela que, no papel, é melhor. Entre o jogo do Brasil e Holanda ficará por saber se Scolari deixará os suplentes jogar e em que estado anímico estes estarão. Dos holandeses não espero muito entusiasmo. Estarão já a pensar nas férias e na final que não atingiram. Os brasileiros poderão muito bem ter um apoio completo do público e embarcar para uma vitória.

 

Não creio que as tácticas venham a ser muito importantes, especialmente se jogadores menos utilizados jogarem de início. Terão obviamente importância, mas apenas relativa. A motivação decidirá mais. E aqui, repito, vejo o Brasil a ter vantagem. Afinal de contas, ainda estão em casa.

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Mundial no sofá (14)

por João André, em 10.07.14

Argentina - Holanda: Zero.

 

Uma palavra: bocejo. Não merece que eu perca tempo na análise. Já mo roubaram à cama.

 

Rui, ambas as equipas o tentaram.

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Mundial no sofá (13)

por João André, em 09.07.14

 

Alemanha 7 - 1 Brasil

 

Escrever o resultado acima é um exercício estranho, algo surreal. É o tipo de resultado que imaginaríamos Dali a colocar num hipotético quadro com futebol em pano de fundo, num hipotético filme sobre futebol de Buñuel ou num hipotético poema de Llorca.

 

Analisar o jogo é difícil, uma vez que vimos uma tempestade perfeita. Os alemães foram perfeitos técnica e tacticamente, foram impiedosos e brutais. Os brasileiros foram um desastre nos mesmos aspectos e poderiam ter saído com mais, muitos mais, golos sofridos (e mais umas expulsões ainda cedo na primeira parte).

 

O primeiro aspecto, o táctico, e onde eu creio que o Brasil perdeu o jogo. A Alemanha, como escrevi várias vezes, jogou sem ala esquerda. Por outro lado tinha uma ala direita que assustava: não só Lahm andava por esses lados como também era o território de Müller e tinham o apoio frequente de Khedira. Misteriosamente, em vez de dar ordens à sua equipa que canalizasse o ataque pelo lado direito, Scolari parece ter decidido o oposto: deu ordens a Marcelo que avançasse sem medo.

 

No papel a ideia não era disparatada. Atacando e pressionando o lado direito alemão seria uma forma de o manter sossegado e as subidas de Marcelo podiam então compensadas por Luís Gustavo. Na realidade foi um desastre de proporções inacreditáveis. Lahm aguentou firme, recebeu apoio de Khedira e Müller e, com Luís Gustavo deslocado para a esquerda, Schweinsteiger e Kroos ficaram à vontade tendo pela frente apenas Fernandinho. O resto foi diversão, com os comentários no Facebook ao intervalo a serem suficientes para uma antologia.

 

Três notas extra apenas:

 

1. Thiago Silva demonstrou com a sua ausência que não é o defesa mais espectacular que é importante. É o outro, o mais calmo, concentrado e inteligente. A parceria Puyol/Piqué já o tinha demonstrado vezes sem conta. Para quem precise de mais material basta ver jogos italianos entre 1985 e 2000, especialmente com Baresi, Nesta, Costacurta, Maldini ou Cannavaro. Está lá tudo.

 

2. A ausência de Neymar não fez muita diferença. Já não tinha feito muito nos últimos jogos e não faria muito neste. O resultado, com ele e Thiago Silva, não seria tão desnivelado, certamente (o mesmo jogo amanhã não seria tão desnivelado), mas não mudaria muito. Já as constantes referências a ele apenas relembraram a equipa que estava sem o talismã. Aqui Scolari terá ido longe demais com o jogo psicológico.

 

3. Kroos ainda não renovou pelo Bayern de Munique. Quer 12 milhões por ano, o mesmo que recebem Lahm e Müller. O Bayern oferece 7. Pelo que temos visto neste mundial, se ele sair do clube, aquele que lhe pagar 12 provavelmente ficará convencido que ficou com a pechincha do século.

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Mundial no sofá (12)

por João André, em 08.07.14

E temos enfim as meias-finais, das mais interessantes de sempre mas também a prometer jogos bastante insípidos.

 

Brasil - Alemanha

 

Neste jogo temos uma equipa que baseia o seu jogo na técnica e forte colectivamente a enfrentar uma outra que aposta na força e intensidade, dependendo fortemente das bolas paradas para marcar golos. Deixo-vos adivinhar qual é qual. Seja como for, espero bem poder ver um Brasil onde Willian e Bernard entram para substituir Neymar e Fred, com Óscar no meio e Hulk a avançar para o lugar de ponta de lança. Sem o seu principal mágico, espero que Scolari aposte em mágicos menores, mas em maior número. O mais provável, no entanto, é ver Luís Gustavo a entrar para o lugar de Neymar e ver Hulk e Fred na frente. Se optar por esta hipótese, vou passar o tempo a rezar por uma cabazada da Alemanha ao Brasil.

 

Isto apesar de a Alemanha me deixar incrivelmente frustrado. A teimosia de Löw em jogar com Özil do lado esquerdo faz com que a Alemanha jogue coxa, sem ala esquerda. Mesmo que Lahm se mantenha a defesa direito fica por saber quem joga no ataque, Klose, Götze ou Schürrle. O vosso palpite é tão bom como o meu. Se optar por Klose mais vale que Scolari faça entrar Daniel Alves, uma vez que não vai precisar de um defesa direito que defenda bem.

 

Em condições normais isto daria vitória à Alemanha (é mais equipa), mas Löw pode muito bem borrar a pintura e nunca se sabe o que pode surgir numa bola parada do Brasil. Além disso, se o árbitro continuar a protecção ao jogo faltoso brasileiro, dificilmente a Alemanha criará alguma coisa.

 

Holanda - Argentina

 

Estive tentado a escrever acima "Robben - Messi". Duas equipas apenas razoáveis chegam às meias finais às costas dos seus melhores jogadores. Tudo vai depender do grau de sucesso na neutralização do principal jogador adversário. Aqui penso que a Argentina levará a melhor. Está a crescer, tem um jogador genericamente melhor e tem um elenco secundário mais eficaz, especialmente a defender. Muito irá depender da capacidade de Mascherano em fechar as linhas de passe para Robben. Atendendo ao torneio medíocre de Sneijder, isso bastaria para anular os holandeses.

 

Já a Holanda, sem de Jong no meio campo, terá dificuldade em ocupar o espaço de Messi. Possivelmente colocará lá Blind (talvez com Martins Indi ou Kuit no lado esquerdo da defesa) mas é duvidoso que baste. Se Higuaín repetir a exibição de contra a Bélgica, a defesa holandesa poderá atingir os seus limites.

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Mundial no sofá (11)

por João André, em 06.07.14

 

Brasil 2 - 1 Colômbia

 

Lamento imenso a lesão de Neymar: porque é relativamente grave, porque nos priva de um dos melhores (e mais excitantes) jogadores do mundo e porque desvia a atenção do resto do jogo. A falta foi dura e faltou o amarelo para Zuñiga, sem qualquer dúvida. Também não foi pior (se bem que sem dúvida mais azarada) que muitas que sofreu James Rodriguez. Fernandinho, especialmente, descobriu a forma para fazer faltas repetidamente sem ver o amarelo. Poderia ter visto uns 3. Dois por fazer faltas repetidamente e outro por uma falta duríssima sobre James Rodriguez que só por sorte não o deixou a ele lesionado. Thiago Silva foi outro a quem foi poupada uma expulsão, dado que fez uma falta que tinha que dar amarelo ainda antes daquela asneirada com Ospina.

 

E repetiu-se o que eu tinha esperado. A táctica de Scolari do ponto de vista defensivo foi fazer faltas sobre Rodriguez e vigiar Cuadrado de perto. Este, sem o serviço de Rodriguez, torna-se muito menos influente. Espantou-me que Pekerman tivesse esperado tanto tempo para fazer entrar Quintero quando este poderia ter libertado Rodriguez de tanta atenção brasileira (ou beneficiado dela). Foi pena isto, porque pela primeira vez neste mundial Scolari decidiu atacar. E fê-lo pelo caminho mais simples: deixou de enfiar Óscar no flanco e este passou a exercer muito mais influência no jogo. A entrada de Maicon também foi decisiva para isto (Óscar deixou de ter de passar o tempo a servir de pronto-socorro a Daniel Alves), além disso ofereceu um duelo fabuloso: Maicon-Armero.

 

No geral o Brasil conseguiu ser melhor, embora com enorme ajuda da arbitragem (como tem sido norma neste mundial). Sem Neymar, fica por saber se Scolari regressa ao que conhece (porrada neles) ou opta por arriscar, deixando Fred no banco e fazendo entrar Bernard e Willian, deixando Hulk como ponta de lança móvel. Gostaria imenso de ver esta alternativa, mas bem posso esperar sentado - no sofá.

 

 

 

Alemanha 1 - 0 França

 

Löw surpreendeu-me. Não esperava que decidisse colocar Lahm à direita e fizesse entrar Khedira. Fazendo-o ajudou a neutralizar o meio campo francês e reduziu as possibilidades de ataque pela esquerda francesa. Com a entrada de Griezmann Deschamps fez um favor aos alemães. Griezmann foi constantemente batido em força e experiência pelos alemães e Valbuena ficou dividido entre andar pela esquerda para o ajudar ou ir para a direita para dar equilíbrio à equipa. Não optar por Sissoko, especialmente ao longo do jogo, tornou-se ainda mais estranho considerando que a Alemanha mantinha apenas Özil e Höwedes no lado esquerdo. Esta opção era também estranha uma vez que Klose alinhava a ponta de lança e precisa de serviço, especialmente a partir das alas, para ser efectivo.

 

O resultado foi um jogo pouco interessante. A Alemanha era forte no flanco onde a França era fraca. A França não aproveitava o flanco onde a Alemanha poderia ser atacada. Sempre que Valbuena descaía para a direita, o resultado é que a França ficava sem elemento de ligação entre meio campo e ataque. Na batalha do meio campo, a qualidade e versatilidade do trio de Kroos, Khedira e Schweinsteiger acabava por fazer a diferença perante Cabaye, Pogba e Matuidi.

 

No fim, um simples golo de bola parada bastou para fazer a diferença. Depois disso houve simples equilíbrio. Um jogo aborrecido e uma vitória merecida da Alemanha que marca assim encontro com o Brasil.

 

 

Holanda 0 - 0 Costa Rica

 

O jogo mais desequilibrado dos quartos de final acabou por ser o único que foi a penalties. A Holanda avançou para um sistema de 4-3-3, sabendo que a Costa Rica apresentava pouco perigo no meio campo e canalizava o seu jogo pelos flancos através dos laterais ofensivos Gamboa e Díaz. Optando por alas clássicos, van Gaal obrigou-os a ficarem em posições mais defensivas e reduzia a ameaça ofensiva costa-riquenha. A única solução passava por bolas longas para Joel Campbell e Bryan Ruiz, as quais eram facilmente defendidas pelos centrais holandeses.

 

No ataque, os holandeses foram aproveitando a defesa alta costa-riquenha e colocando imensas bolas nas costas para Depay e van Persie. Na segunda parte a defesa costa-riquenha acertou com o timing de subida e usou melhor a armadilha do fora de jogo. Não fossem no entanto os muitos falhanços de van Persie e a exibição de Navas e o jogo teria acabado por volta dos 65 minutos da segunda parte.

 

Os costa-riquenhos, no entanto, souberam manter a calma, defender heroicamente a acabaram por merecer a ida aos penalties. Aqui eu esperava que a confiança costa-riquenha levasse a melhr perante a frustração holandesa, mas uma combinação de excelentes penalties e do trabalho de Tim Krul deu a passagem aos holandeses. Vale a pena realçar a decisão de van Gaal em colocar Krul para os penalties. Krul é um especialista e a decisão deu também confiança aos marcadores holandeses. Funcionou e van Gaal cimentou ainda mais a sua aura de melhor treinador e táctico deste mundial.

 

 

Argentina 1 - 0 Bélgica

 

Tive pena pelos belgas, mas não segui decentemente o jogo, por isso não o comentarei. Fora isso, estou curioso por ver o jogo com a Argentina.

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Mundial no sofá (10)

por João André, em 03.07.14

Antevisão dos quartos de final, parte 1.

 

Alemanha - França

 

Este é o duelo que vai ser mais interessante. É o único entre duas equipas que se preocupam mais com jogar futebol do que em interromper o adversário. Será também o duelo mais imprevisível do ponto de vista táctico. Deschamps tem alternado a composição do meio campo de acordo com o adversário. Contra a Nigéria jogou num híbrido de 4-3-3 e 4-3-1-2 que não resultou até Griezmann entrar. No jogo contra a Alemanha não imagino Griezmann a jogar de início, mas é muito provável que Deschamps aposte em Moussa Sissoko para apoiar o lado direito e permitir as subidas de Débuchy. Do lado esquerdo deverá apostar nas subidas de Matuidi e, talvez, de Evra, que provavelmente não terá alas fixos que o ocupem. Além disso, um meio campo Sissoko, Pogba e Matuidi, apoiados pelos passes e posicionamento mais defensivo de Cabaye, terá enorme flexibilidade táctica.

 

Do lado alemão a grande questão passará pelo nome do jogador para ocupar o lado direito da defesa. Hummels deverá regressar depois da gripe que o impediu de jogar contra a Argélia (outros jogadores estarão neste momento com sintomas) e fica por saber se Löw opta por recolocar Boateng do lado direito ou se prefere fazer entrar Khedira e recolocar Lahm (Boateng deverá sempre jogar, seja onde for). A opção mais provável, assumindo que Hummels está bem, será um regresso ao estilo habitual, com Boateng na direita e Lahm no meio campo. Se assim for, e se Schweinsteiger jogar de início, o meio campo alemão bem se poderá ressentir da falta de força física, sendo que o tipo de arbitragem terá grande influência (será à inglesa ou parará o jogo por tudo e por nada?).

 

Pessoalmente vejo este jogo como acabando com uma vitória francesa que só exibições individuais fantásticas dos alemães poderão evitar. Se assim for, Löw perderá certamente o lugar.

 

Brasil - Colômbia

 

Um jogo para os românticos. O eterno Brasil contra a cinderela deste mundial. O problema é que este Brasil não é nenhum representante do "jogo bonito". O onze inicial brasileiro será desconhecido (entra Paulinho?, Fernandinho?, Ramires?) mas a táctica será óbvia: interromper o jogo com faltas sempre que a bola chegue aos pés de (especialmente) James Rodriguez e Cuadrado. Depois é uma questão de a dar a Neymar e esperar que ele resolva. Uma outra questão táctica será a de saber se Scolari jogará com Neymar na esquerda ou pelo centro. Na esquerda ele daria liberdade a Óscar (que está visivelmente cansado) e poderia controlar melhor as subidas dos laterais (essenciais para dar largura ao jogo de uma Colômbia em 3-5-2). No centro ele segue a táctica habitual de Scolari para o mundial e Óscar, que é melhor a defender, terá como missão ser mais defensivo. Uma alternativa seria a entrada de Willian, que trabalha imenso e está em forma, mas Scolari não gosta muito de se desviar dos planos que tem (eu prefiro dizer que é teimoso).

 

Gostaria de prever uma vitória da Colômbia e espero que assim seja, mas as tácticas de Scolari (que têm tido algum apoio de árbitros um pouco caseiros) e o apoio do público, bem como a presença de Neymar, poderão mudar as coisas.

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Mundial no sofá (9)

por João André, em 01.07.14

 

França 2 - 0 Nigéria

 

Este foi um daqueles jogos que demonstram como uma mudança táctica pode mudar tudo. A França começou o jogo com Benzema e Giroud na frente, Benzema sobre a esquerda e Giroud bem no meio. No meio campo tinha Cabaye a médio mais recuado, à frente tinha Matuidi mais sobre a esquerda e Pogba mais sobre a direita e por fim tinha Valbuena por todo o lado, a ligar o meio campo e o ataque. À direita Debuchy atacava livremente enquanto que à esquerda Evra era mais contido. Se na direita Valbuena ia ajudando Débuchy com as tarefas defensivas, à esquerda Bezema ficava simplesmente no ataque e não defendia, deixando Evra muitas vezes sozinho contra dois. O resultado foi uma constante liberdade do defesa direito nigeriano (Ambrose) para atacar e apoiar Odemwingie, Musa ou Emenike (estes três trocavam frequentemente de posições).

 

Do lado nigeriano, além desse apoio de Ambrose ao ataque e que fez com que o lado direito fosse o escolhido por Keshi para conduzir os ataques, tinham ainda como base a cobertura dada por Onazi (belo jogador) à defesa e aos laterais e a importância de Mikel na construção de jogo. Só destoava Moses, que teve um jogo relativamente apagado e se distinguiu mais no apoio dado à defesa quando Débuchy subia.

 

O jogo foi assim muito aberto, mas relativamente anárquico, destacando-se do lado francês o mau primeiro toque de Benzema e Giroud. Além de Benzema não defender, a relutância de Evra em subir significava que o flanco esquerdo francês não existia, pelo que os nigerianos podiam concentrar-se em defender o flanco direito francês. Quando Deschamps fez entrar Griezmann, pensei por momentos que este fosse para a direita e Valbuena para a esquerda, mas Deschamps decidiu ir pelo caminho do extremo clássico. Não querendo abdicar das tarefas defensivas de Evra, colocou Griezmann à esquerda (é naturalmente esquerdino) para prender Ambrose e colocar pressão sobre os centrais. Desta forma as subidas de Matuidi ou Valbuena sobrecarregavam a defesa nigeriana (especialmente depois da lesão de Onazi) e do lado direito ia bastando Débuchy com apoio de Pogba.

 

A partir deste momento os nigerianos "partiram" como equipa e deixaram de ter ligação entre sectores. Não só deixaram de ter a possibilidade de sair a jogar pelo lado direito (foi uma opção constante na primeira parte) como com a saíde de Onazi deixaram de ter um jogador capaz de transportar a bola e de a dar em condições a Mikel. O trio atacante ficou assim sem jogo.

 

No final houve elementos de sorte nos golos (uma falha do excelente Enyeama e um auto-golo), mas estes acabaram por não surpreender. Fora um ou outro período de algum calafrio na defesa, os franceses estiveram excelentes, especialmente a adaptar-se. Ainda têm falhas, mas continuam a ser, para mim, a equipa mais sólida do mundial.

 

 

Alemanha 2 - 1 Argélia

 

Comentei a certa altura no Facebook que, estando a ver o jogo num bar, os comentários que mais ouvia à minha volta na primeira parte eram "merda!" e "Nããããooo". Os alemães demonstraram, mais uma vez, as fraquezas do seu jogo. Primeiro que nada a falta de laterais. Mustafi e Höwedes são habitualmente centrais e nem a melhor boa vontade do mundo os transformará em laterais (que serão os jogadores mais importantes da actualidade numa equpa de futebol). Aliás, é que questionar porque razão não dá uma oportunidade a Grosskreutz ou Durm e prefere apostar num central que foi chamado à última hora e não tem grande experiência internacional (Durm já jogou a lateral esquerdo na Liga dos Campeões e Grosskreutz jogou inclusivamente uma final). Adiante.

 

Sem os laterais para dar profundiade nas alas e usando jogadores que se sentem mais confortáveis no centro ou a fugir do centro para as alas (Özil, Müller ou Götze), o jogo afunilou imenso e as linhas de fundo não foram usadas. Os argelinos defenderam confortavelmente e souberam depois aproveitar as saídas rápidas para lançarem bolas para as costas da defesa (Mertesacker é perticularmente vulnerável a esse tipo de jogo) e dara oportunidade aos seus atacantes para correr para o espaço aberto (Slimani e Feghouli foram excepcionais nessas funções). Valeu-lhes Neuer, que é completamente destemido (um pouco louco, até) a jogar como líbero e foi provavelmente guarda-redes, central e lateral de uma vez só (e ainda iniciou bastantes ataques perigosos com bolas longas e precisas).

 

Na segunda parte Löw corrigiu a mão e colocou Schürrle, o qual se sente mais confortável à esquerda mas que, de qualquer forma, é um jogador que gosta de partir da ala para o centro. Abriu assim um flanco (o direito) e ocupou um lateral. Do outro lado Löw insistiu inexplicavelmente em manter Özil na ala (onde é pouco eficaz), cuja única virtude foi tentar alargar o jogo. O essencial aqui foi a movimentação de Müller, a arrastar a defesa argelina por todo o lado e a aparecer solto também por todo o lado; bem como a posse de bola, que foi desgastando os argelinos enquanto a perseguiam.

 

É curioso que a Alemanha tenha de facto começado a dominar mesmo quando Mustafi teve de sair por lesão e Lahm foi ocupar o lugar de lateral direito enquanto que Khedira se foi juntar a Schweinsteiger. Khedira não é nenhum Xavi, mas sabe passar a bola e movimenta-se bem. Com Lahm a Alemanha passou a ter uma auto-estrada na direita que podia atacar livremente enquanto que continuava a saber manter a posse de bola.

 

Os golos vieram já em fase de esgotamento argelino. Halliche já tinha começado a sofrer de cãibras antes do fim dos 90 minutos e acabou por sair. Slimani já mal conseguia correr. A equipa estava esgotada e já não havia fé ou vontade que os carregasse quando as baterias se esgotaram. O golo honrou-os e colocou alguma justiça no resultado. A verdade é que a Argélia pressionou os alemães até ao fim e demonstrou que Löw, da forma como continua a querer jogar, não irá ganhar o título (ainda acabo na série do Pedro).

 

Uma nota extra: a forma como anda a marginalizar Grosskreutz e Durm poderá dar dissabores a Löw, especialmente se não jogar com Hummels quando este esteja recuperado (por exemplo, se Lahm for para a direita e Boateng se mantiver no centro). Quando o mundial acabar o seleccionador alemão vai voltar a ter de chamar os outros jogadores do Dortmund e estes poderão não achar piada ao tratamento dado aos seus colegas de equipa. Isto pode ser uma bomba em pavio lento.

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Mundial no sofá (8)

por João André, em 30.06.14

Vi pouco futebol nos últimos dias, mas fica aqui a reflexão, especialmente sobre a saída de Portugal.

 

Portugal - Gana

Tacticamente, do meu ponto de vista, Paulo Bento não fez grandes asneiras. No papel Veloso seria a melhor opção para o lado esquerdo da defesa, de forma a poder subir no corredor e fazer cruzamentos de pé esquerdo e tentar aproveitar a fraqueza dos centrais ganeses. As suas subidas seriam compensadas pelo posicionamento de Ruben Amorim, que cobriria as suas costas. No lado direito João Pereira não precisaria de subir tanto, uma vez que Nani seria um extremo teoricamente mais clássico. William Carvalho funcionaria como médio mais recuado, como segurança defensiva (Quinito chamou em tempos a essa posição "líbero do meio campo").

 

No papel nada a apontar, o problema é que o futebol se joga no campo. Veloso estava obviamente sem ritmo, Nani não existiu durante 85 minutos (cada vez que passava a bola correctamente eu suspirava de alívio) e João Pereira também não anda bem. Aqui se viu a falta que Coentrão fez à equipa, tal como um segundo lateral para quem o pé esquerdo seja mais que para correr. Também se viu que Éder deve ser solteiro, bom rapaz e é esforçado, mas quem lhe viu qualidades de ponta de lança deveria passar pelo oculista. Igualmente que Varela deveria ter começado a ser titular ao segundo jogo, uma vez que em 30 minutos (bem espremidos entre 3 jogos) fez mais que Nani.

 

Isso quanto às escolhas e à táctica. Já quanto a Ronaldo, sinceramente, não lhe aponto nada. Falar-se-á mais do cabelo que do futebol, mas a verdade é que a quem aparece a 50% e ainda se esforça como ele se esforçou não se pode pedir muito mais. Tal como não se lhe pode pedir que seja o líder verdadeiro da equipa. Não o é, não tem temperamento para tal. Entreguem já a braçadeira a Moutinho, Patrício, William ou outro qualquer. Retirem esse peso a Ronaldo. É como se pedissem a Bruno Alves que se mexesse ou se concentrasse sem falhas por 90 minutos. Não funciona.

 

Habituemo-nos a isto. O próximo europeu não deve estar em causa, até porque será mais difícil a não qualificação. Mas as vacas emagreceram e muito.

 

Outras notas

Scolari continua o mesmo de sempre. Equipas unidas e com grande espírito, mentalidade de cerco, táctica básica e fé em um ou dois jogadores para resolver, e de resto porrada neles. Neste mundial ele beneficia disso, porque ninguém quer despachar o Brasil demasiado cedo. Mas, muito a contragosto, tenho que apontar que Scolari não tem sorte. Parece, mas não tem. Quem tem sorte tantas vezes e em momentos tão importantes não é sortudo: é alguém que procura esses acasos felizes. Nisso, tem muito mérito.

 

Tenho pena que o Chile tenha saído. Gostei do futebol deles, cheio de energia, feito de pressão e crença que podem derrotar qualquer um. Gostei do treinador, que corre tanto para cima e para baixo na área técnica que deve deixar um sulco no chão. Tenho pena que tenham saído.

 

Espero que se comece a notar que a Holanda não é das equipas mais interessantes do mundial. Poderão ganhar, mas a táctica pouco mais é que uma actualização mais sofisticada da de há 4 anos. Reconhecer que não tem uma boa defesa e compensá-la, porrada nos adversários para quebrar o ritmo e fé em Robben. Este é o facto decisivo: sem Robben a Holanda estaria já fora. As duas principais diferenças entre a Holanda e Portugal são Robben vs Ronaldo e Juventude vs Veterania. Claro que isso em muito deve a van Gaal.

 

Grécia está fora: é pena, gosto dos tipos, mesmo que o futebol seja chato. Costa Rica continua mais uma ronda: é agradável, mas a defesa subida deles deverá ser um gelado para o Robben nos quartos de final.

 

Hoje joga a Alemanha e não deverá ser desta que a Argélia exorciza 1982 e Gijón. No entanto ando à espera do momento em que a Alemanha impluda por causa de guerras internas entre jogadores. Está divertido: a Holanda faz o papel de Alemanha e a Alemanha de Holanda. O mundo de pernas para o ar: o mundial é no hemisfério sul.

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Im Büro*

por João André, em 26.06.14

18' - duas oportunidades falhadas. A primeira apenas meia. O Ronaldo não é de invenções no remate e por isso julgo que queria cruzar. A segunda num cabeceamento que deveria ter dado golo. Ao menos esforçam-se.

23' - duas oportunidades para o Gana. Aqueles centrais já deveriam ter sido recambiados para Portugal. William Carvalho parece o Busquets quando tem a bola. É daqueles que tem mais tempo que os outros.

30' - 1-0. sorte, é verdade, mas é um começo. A equipa está a atacar bem, Veloso está a subir como tem que subir e Amorim tenta compensar. A táctica não está má. Considerando o resultado necessário, é isto que a equipa precisa de fazer. mesmo sabendo dos riscos. (no jogo da Alemanha, um jogador americano mergulhou depois de acertar com a cabeça no ombro do árbitro).

38' - olha, o Nani está em campo. Pensei que estivéssemos a jogar com 10, que os outros estavam lesionados.

41' - de tão anjinho, o Éder deve ser solteiro e bom rapaz.

43' - os ganeses decidiram que a melhor forma de parar Portugal é à cacetada no Moutinho. Não estarão errados.

 

Intervalo - o Éder não salta, mas corre. O Boye (defesa que fez o auto-golo) deve estar comprado (ainda não foi pago). O comentador alemão acabou de dizer que Portugal faria melhor em colocar a bola na sua direcção que na do Ronaldo. Se o Nani não sai depois desta miséria o resto da equipa vai acabar de rastos.

 

50' - sempre que o Bruno Alves faz um passe a mais de 80 cm, a bola é perdida.

54' - as decisões do Nani são tão más que se ele pegasse agora nuns óculos escuros eu sacaria do guarda-chuva. (só para me chatear ainda marca um).

55' - os alemães macaram. Já só nos faltam 3.

56' - agora só nos faltam 4. Ao Gana 1. Tchauzinho cara.

60' - a sério que o Veloso era central nas camadas jovens?

69' - Éder sai, correcto. Mas que está o Nani a fazer em campo? O Varela fez mais em 5 minutos. E deveria era entrar o Rafa.

72' - Nani a ponta de lança? A sério? Se é para evitar que faça estragos, metam-no no banco.

73' - Já quase estou pelo Gana, só para que sigam para os oitavos de final.

79' - o Boye mereceu mesmo o bónus. O português, claro.

86' - a coisa não corre mal. No jogo de palpites apostei numa vitória por 2-1 de Portugal e num 1-1 dos boches com os americanos. Força Dempsey.

88' - Eduardo? Ainda bem que o mundial acaba para nós, só levámos 3 guarda-redes.

92' - Ronaldo está a golear em oportunidades falhadas. O Nani só precisou de 90' para aquecer. Agora é que vai resolver o jogo para Portugal.

Fim - a Alemanha fez a sua obrigação. Portugal despede-se pelo menos com uma vitória. A equipa médica de Portugal deve estar feliz com a eliminação, já não tinham espaço na enfermaria.

 

Obrigado a quem quer que tenha tido paciência para estes comentários. Amanhã logo analiso a coisa.

 

* - No escritório. Hoje tive de aqui ficar para ver Portugal. Os bares estão todos com a Alemanha.

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Mundial no sofá (7)

por João André, em 26.06.14

Este tem sido um mundial atípico para mim. Pelo que parece, será o mais interessante em termos de futebol jogado desde o EUA/94 ou mesmo Espanha/82. Por outro lado, não tendo televisão em casa, estando há já umas semanas sem internet (é conspiração dos alemães, eu bem digo) e sendo os jogos tão tarde (o que complica ir para um bar ver os jogos quando se tem que trabalhar no dia seguinte), a quantidade de jogos que tenho visto é relativamente reduzida. Por isso mesmo, as minhas observações têm que estar limitadas ao que vi e ao que vou conseguindo perceber. Vamos a elas.

 

Portugal: entre uma vitória portuguesa e uma derrota americana, a soma tem que dar 5 golos de diferença. Para o Gana a coisa tem que ser completamente ao contrário. O seleccionador americano é alemão e foi o chefe do seleccionador alemão que é um dos seus melhores amigos. Quando o alemão seleccionador americano era o seleccionador alemão, muitos dos actuais jogadores alemães tiveram a sua estreia. O empate serve aoe alemães e americanos (que, para complicar as coisas, têm uns três ou quatro jogadores nascidos na Alemanha). Não fora o Klose andar atrás do recorde de golos do Ronaldo fenómeno gordo fenomenal, a coisa acabaria num churrasco em pleno campo. Assim imagino o Klose a marcar um golo ao fim de 1 minuto de jogo, os americanos a marcarem um 1 minuto mais tarde e o resto da tarde a ser passada em clima de Biergarten.

 

Grécia: tem que se gostar destes tipos. Continuo sem conseguir chatear-me com eles por nos terem levado o título do Euro 2004. Sei que vão ser postos a andar pela Costa Rica (olha outros adoráveis patifes), mas adorava vê-los a vencer o mundial. A festa seria de arromba. E a seguir provavelmente saíam do Euro...

 

França: a única selecção que, para mim, demonstrou ser sólida. Deschamps era um médio fabuloso e a peça fundamental da França de 98 e 2000. Como treinador continua a ser excelente. O meio campo atropela jogadores sem dar por ela e o ataque tem um poder de fogo impressionante. Se não implodirem são para já a melhor equipa no torneio.

 

Robben: a Holanda não me tem impressionado assim tanto quanto isso. A defesa é suspeita, o meio campo anda a repetir as tácticas de 2010 a 75% (sem van Bommel não chegam aos 100) e Sneijder (nota para os comentadores portugueses: lê-se "Snèidér" e não "Chnáider") anda a pouco mais que passear. Mas têm van Persie (golos do nada) e Robben (melhor jogador até agora) em forma. Num mundial atacante isso pode chegar.

 

Brasil: Chile! Chile! Chile! (quero o Sampaoli no Benfica).

 

Suárez: não o suspendam. Sem Zlatan, o mundial precisa de um vilão de pantomina e adoro ver os ingleses a gastarem rios de tinta com ele. O tipo é irritante e desportivismo é palavra desconhecida no vocabulário. Por outro lado ainda não lesionou ninguém e não é verdadeiramente maldoso. Se a FIFA punisse as faltas duras (Holanda, Honduras...) como quer punir Suárez, o futebol talvez fosse mais interessante. Coitadinho do Chiellini, tem um dói-dói, é?

 

Bélgica: repito, sem laterais ofensivos (são centrais convertidos) o estilo não funciona. Precisam de jogar com Mertens.

 

Pirlo e Xavi: fim de uma era.

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Mundial no sofá (6)

por João André, em 22.06.14

E pronto, Portugal joga hoje. Não vi o jogo EUA-Gana por isso não posso fazer análises tácticas. Klinsmann não é dado a grandes tácticas, mas é excelente na motivação e preparação física. Os EUA têm alguns belos jogadores (Michael Bradley ou Clint Dempsey) e são muito dinâmicos. Se Portugal jogar a pastar como no primeiro jogo, o resultado não será bonito. Teremos que esperar para ver. Sei que não verei o jogo: não tenho televisão em casa e neste momento ando sem internet. Verei o resultado pela manhã.

 


 

O jogo de ontem demonstrou uma Alemanha muito permeável pelas alas. Löw levou mais laterais (Grosskreutz e Durm) mas não tem confiança neles, prefere os centrais. Fica sem largura e sofre contra jogadores energéticos e rápidos. O Gana, com mais experiência e calma, poderia ter vencido o jogo. Os alemães ainda são um dos favoritos, mas não impressionam. O jogo com Portugal acabou por ser tão simples que camuflou as deficiências existentes. Valha o sempiternamente anti-vedeta Miroslav Klose.

 


 

Entre os favoritos apenas a França me impressionou. Num mundial de velocidade e força, Matuidi, Pogba, Sissoko, Giroud, Benzema e Valbuena têm-se sentido como peixes na água. Falta-lhes um médio defensivo mais posicional, mas se Varane se mantiver bem e os laterais não cometerem erros, a França parece-me ser, até agora, o mais forte dos favoritos.

 


 

Não quero que a Nigéria seja eliminada. Não serão muito interessantes, mas têm o guarda-redes mais subvalorizado do torneio: Vincent Enyeama. Fosse ele mais alto (tem apenas 1,82 m) e europeu/sul-americano e seria sem dúvida considerado um dos melhores do mundo. Outro do género é o costa-riquenho Keylor Navas. Nos dias bons, é intransponível. Nos maus, até Diana Ross marcaria. Ainda no assunto da diversão, fiquemo-nos por Joel Campbell. Forte, rápido (joga em fast-forward), habilidoso e com excelentes decisões. O Arsenal tem ali uma jóia.

 


 

A Argentina desilude? Não faz mal. Tem Messi.

 


 

Tenho saudades de Ibrahimovic. Falta-me alguém com o seu carisma para este mundial ser ainda melhor. Mas tem sido extremamente divertido de ver.

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Mundial no sofá (5)

por João André, em 20.06.14

 

E ao segundo jogo, nem uma semana decorrida, os campeões do mundo vão para casa. O Pedro apresentou uma razão para isso: a falta de sede de vitória. É uma observação crucial mas que me parece redutora. Claro que o Pedro concordará comigo quando eu digo que existiu uma combinação de efeitos, mas mesmo a simplificação com a falta de ambição não chega.

 

Vejamos: o estilo de futebol espanhol, o tiki-taka, é baseado na retenção de bolas e no passe curto entre os jogadores a meio campo. Esta é a explicação rápida. Mas é também um estilo de jogo que depende do passe rápido; da noção constante da própria posição da dos colegas; e depende aí do movimento constante sem bola, de forma a criar linhas de passe simples. O Pedro tem toda a razão quando refere a falta de desejo. Sem essa vontade de ganhar, de jogar com intensidade, os passes tornam-se preguiçosos e a movimentação mais lenta. Isso viu-se contra a Holanda. Outro factor que pesa imenso é a idade. Xavi e Xabi Alonso não estão novos e isso torna os minutos que levam nas pernas ainda mais pesados que no passado. Além disso parece óbvio que a condição física especialmente dos jogadores do Barcelona decaiu depois da saída de Guardiola, primeiro, e Villanova, depois.

 

O problema poderia ter sido parcialmente resolvido com sangue novo e outras tácticas. Infelizmente algum do sangue novo ficou lesionado (Thiago, Jesé Rodriguez) ou não foi seleccionado (Isco, Carvajal, Ander Herrera). Já do lado das tácticas, a única modificação feita por del Bosque foi a introdução de Diego Costa. Este parecia ser a resposta aos problemas da equipa espanhola, mas não chegou a ter tempo de se adaptar a um estilo completamente diferente daquele que jogou ao longo da época (possessão em vez de contra-ataque).

 

A renovação de que fala o Pedro foi sendo feita de fase final para fase final. De 2008 para 2010, a Espanha adicionou Busquets, Pedro, Piqué, Navas, Llorente, etc. Para o Euro 2012 a Espanha surgiu com um estilo diferente (efectivamente um 4-3-3-0) e adicionou Silva, Alba ou Mata à equipa. Para este mundial adicionou Azpilicueta (que não foi um upgrade em relação ao fiável Arbeloa) e Diego Costa. Certo que no banco estava, por exemplo, Koke, mas este sabia que a sua participação seria reduzida.

 

Por outro lado, depois da guerra qualquer um é general. Não era difícil de perceber a lógica de del Bosque ao confiar na velha guarda que tanto lhe deu a ganhar. Foi um erro, sem dúvida, mas é prematuro falar na morte do tiki-taka, tal como tenho lido e ouvido por muito lado. Uma das razões para esses comentários, para além da eliminação da Espanha, é o declínio do Barcelona e a forma como o Bayern foi destroçado pelo Real Madrid este ano. O problema desses comentários é que não percebem o oposto: o Bayern de Munique foi este ano destroçado não por tiki-taka a mais mas por tiki-taka a menos. No próximo ano poderemos estar certos que Guardiola vai fazer subir os níveis de posse de bola. Por outro lado, a adopção do estilo de retenção de bola por parte de tantas equipas (o próprio Chile, a Itália, o Liverpool e o Manchester City em Inglaterra) demonstram que este é o estilo preferido do momento. O facto de haver antídoto não é de espantar: as tácticas mudam ao longo dos tempos e os sistemas evoluem constantemente para poderem neutralizar os adversários e poderem acrescentar armas ao arsenal.

 

A Espanha vai certamente continuar a ser uma favorita em Europeus e Mundiais. Prontos para entrar estão Koke, de Gea, Javi Martinez, Illarramendi, Isco, Herrera, Thiago, Deulofeu, Jesé, etc. E ainda se manterão Busquets, Piqué, Ramos, Alba, Fábregas, Iniesta, Costa, Silva, Mata e, talvez, Casillas, que em dois anos não desaprendeu de ser guarda-redes. Xavi poderá não ter sido necessariamente o melhor jogador da história da selecção espanhola (em termos de puro talento outros poderão reclamar também o manto), mas foi sem dúvida o mais importante. Por estes dias em que o seu tempo chega ao fim, seria uma homenagem muito pobre ao seu contributo tentar apagá-lo. Especialmente quando tantos há que estarão prontos a demonstrar que a luz de Xaci ainda os guiará pormuito tempo.

 

Da minha parte, e mesmo reconhecendo que considerei muitas vezes o futebol espanhol como chato, deixo a minha homenagem. Obrigado Espanha. Obrigado Xavi. Pelo futebol e pela nova forma de o pensar.

 

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Mundial no sofá (4)

por João André, em 17.06.14

 

Portugal 0 - 4 Alemanha

 

Muito sinceramente não sabia o que escrever. Por alguma coisa quis fazer a minha antevisão ontem, para poder deixar clara a minha capacidade de análise ou, em alternativa, para não poder fugir à evidência de uma antevisão errada.

 

Na minha previsão de equipa titular do lado alemão falhei com Schürrle. Jogou antes Götze. Já no resto parece-me que não me enganei com nada de especial. Özil de facto andou a arrastar os centrais pelo campo fora (fosse à casa de banho e Bruno Alves segui-lo-ia), o segundo golo veio de uma bola parada e Bruno Alves teve a tradicional paragem cerebral que deu o 3-0. Já a falta de apoio a Coentrão deu em alemães a acelerar por aquele flanco como se em trânsito entre Munique e Berlim. Neste aspecto antecipei que Boateng não daria muito apoio, mas não foi bem verdade. Soube subir o suficiente para oferecer mais uma linha de passe e ajudar às triangulações.

 

Portugal até começou bem a meio-campo. Veloso pressionou bem Lahm, Meireles caiu sobre Kroos e Khedira, ainda sem ritmo, não conseguia mudar o rumo. Foi no entanto sol de pouca dura e questão apenas da Alemanha ajustar o estilo de jogo. Kroos descaiu para o meio campo para ajudar a transformar o 4-2-3-1 num 4-3-3-0 e os portugueses perderam completamente o controlo do jogo. Os alemães passaram a ter duas linhas de três jogadores no meio campo que conseguiam fazer triangulações e passes e a mais avançada destas era exímia a correr para as costas da defesa e aproveitar as bolas dos restantes jogadores.

 

O único caminho que Portugal procurava eram as bolas longas para Almeida tocar para Ronaldo e um ou outra iniciativa individual de Nani. Este esteve tão mal nas suas decisões e na sua insistência em jogar individualmente que só abona em favor de Jorge Mendes que tenha renovado no ano passado o contrato com o Manchester United. A lesão de Almeida foi um golpe duro, no entanto. Éder oferece mais movimento e energia, mas luta e ocupa menos os centrais adversários, que era o necessário para dar espaços a Ronaldo.

 

Quando Pepe foi expulso, a descida de Meireles para a defesa não me pareceu opção descabida para o resto do jogo. Sem avançado de referência do lado adversário, colocar um médio nessa posição não seria assim tão má ideia. Além disso, mais um jogador capaz de sair a jogar e colocar uma ou outra bola longa em Ronaldo poderia ter ajudado a manter a chama viva. Só que Portugal tinha a cabeça já no intervalo e não soube manter a concentração. Mais uma vez se provou que Ronaldo não tem líder em campo. Ronaldo é capitão, mas não é aquele líder capaz de manter a equipa focada, como Figo, Fernando Couto ou outros o teriam feito.

 

A segunda parte foi morna. A Alemanha manteve energias e foi ensaiando acções de ataque, tratando o resto do jogo como um treino. Mais que o quarto golo, o pior da segunda parte foi mesmo a lesão de Coentrão, que não tem substituto natural (canhoto) que dê largura ao corredor e ofereça liberdade a Ronaldo. Assumindo que a lesão é daquelas que dá para mês e meio de estaleiro, a melhor opção de Paulo Bento para os outros dois jogos poderá ser enfiar Veloso naquele lado e fazer entrar William Carvalho. André Almeida é voluntarioso e até poderia cumprir o papel no lado direito, mas a falta de pé esquerdo é aqui um problema.

 

Não sei que fará Bento, mas precisa de colocar ordem na equipa. Como não acredito que os alemães façam tanto jeitinho a Klinsmann, é bem possível que duas vitórias cheguem para passar. Muito dependerá da resposta que os jogadores derem a este resultado.

 

Três notas finais:


1. A grande penalidade é discutível, obviamente. Götze deixa-se cair sem que João Pereira tivesse feito muito para isso. Há no entanto puxões do defesa e ao alemão só restou deixar-se cair. Se fosse ao contrário talvez o árbitro não marcasse, mas segundo as regras de beneficiar o atacante, é difícil criticar demasiado o árbitro. Além disso, poderia ter dado o vermelho.


2. Pepe demonstrou uma enorme infantilidade e mereceria que o enfiassem num avião de volta a Portugal. Há 5 ou 10 anos levaria um amarelo e ficaria o assunto resolvido. Hoje em dia os árbitros têm indicação para darem vermelho. Claríssimo. O facto de ser provocado é indiferente.


3. No ecrã onde vi o jogo era difícil dizê-lo, mas fiquei com a sensação que Éder teria sido mesmo travado em falta (não percebi se houve ou não contacto). Um golo não teria mudado nada nesse jogo, mas teria dado outro lustro ao resultado (os alemães talvez abrandassem ainda mais com um satisfatório 3-1) e outra confiança a Ronaldo.

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In der Kneipe*

por João André, em 16.06.14
* - no bar.

Intervalo: ver o jogo com amigos num bar alemão só dá gozo se Portugal estiver a jogar bem.
No post anterior falei nos movimentos de Özil a atrair defesas, nas bolas paradas e nos erros de Bruno Alves. 3 golos. Também falei na importância de William Carvalho para que Veloso apoiasse Coentrão. A ala direita alemã está como na Autobahn sem Stau.
Os brasileiros a jogar por outras selecções no Brasil parecem gostar de cabeçadas.
Neste momento a única solução é tentar manter a bola e rezar para que a Alemanha decida descansar no calor.

52' o que está Nani ainda a fazer em campo?
63' acabou o mundial para Coentrão
78' vou para casa. Amanhã escrevo sobre o desastre. Boa noite.
(em actualização)

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Mundial no sofá (3)

por João André, em 16.06.14

  

Portugal - Alemanha (antevisão)

 

Ahh, futebol e Alemanha. São 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. Muda aos 5 e acaba aos 10. Os alemães são uma máquina trituradora. A bola é redonda. Força da técnica contra a técnica da força. Sul contra norte da Europa. Clichés, clichés, clichés...

 

Pronto, já aliviei a coisa. Quem quiser clichés, que use um dos de cima. Na análise abaixo tentarei evitá-los.

 

A forma como o jogo vai ser visto depende enormemente de Cristiano Ronaldo. Tanto nós como os alemães compreendem que ele vai ser a personagem principal do jogo. Nós esperamos que Ronaldo domine a acção, os alemães desejam que ele seja notório pela sua ausência. Desde 2006 que Ronaldo, por uma ou outra razão, não está a 100% numa fase final. A grande questão é se estará a 100% por períodos suficientes dos 90 minutos que Portugal for jogando. Com Ronaldo na equipa, Portugal é a espaços uma equipa que joga com 10 contra 11. Mas vale por vezes a pena.

 

Neste jogo os alemães estão a ser obsequiosos: não vão jogar com o gigante Gomez (que ficou em casa) e que tem o ADN perfeito para fazer estragos aproveitando as falhas de concentração de Bruno Alves. Lahm vai quase de certeza jogar a meio campo, o que significa que Ronaldo não terá que o enfrentar e que os alemães vão jogar para a posse de bola. As laterais serão provavelmente ocupadas por dois centrais, Boateng à direita e Höwedes à esquerda, o que significa que não poderão sobrecarregar o lado esquerdo da defesa portuguesa (Ronaldo não ajuda muito defensivamente, o que expõe Coentrão). No papel, os alemães irão apresentar tácticas que ajudarão os portugueses. Difícil melhor.

 

Por outro lado há qualidade para dar e vender na equipa alemã, mesmo sem alguns jogadores. Os irmãos Bender, Gündogan, Reus ou Gomez provavelmente entrariam de caras na equipa portuguesa, mas os alemães não os têm à disposição. Podolski provavelmente estará no banco, tal como Götze, Schweinsteiger, Draxler e Klose. É ridículo. O ataque poderá passar pela frente de ataque Özil como falso 9 e apoiado por Müller, Kroos e Schürrle. O meio campo terá provavelmente Lahm e Khedira. A Alemanha poderá ter posse de bola de níveis guardiolianos, mas a incisão irá depender em grande parte dos movimentos de Müller e Schürrle vindos das alas e de Özil a fugir aos centrais. Será essencial ter bom posicionamento e não ser traído pelo movimento de Özil e Kroos. Por outro lado, é muito provável que as bolas paradas sejam fundamentais. Com 4 centrais no onze inicial e Kroos a bater as bolas paradas, seria burrice da parte alemã não as aproveitar. Mais importante ainda que os cantos serão os livres indirectos, a aproveitar agressividade excessiva do meio campo português.

 

Portugal terá que optar entre lutar de igual para igual num jogo baseado em posse de bola ou, preferivelmente (do meu ponto de vista), compreender que Ronaldo terá de ser usado em contra-ataque e jogar mais em 4-4-2 com Postiga ou Hugo Almeida a tentar criar espaço para Ronaldo aproveitar. No caso do 4-4-2, poder-se-à começar com Veloso ou Nani no onze inicial. No primeiro caso Veloso cairía sobre a esquerda e Meireles sobre a direita e no segundo Meireles estaria à esquerda e Nani à direita. Nani já jogou como médio direito no passado e pode fazê-lo novamente. William Carvalho e Moutinho terão, claro está, que começar o jogo.

 

Os problemas portugueses estarão nos momentos das substituições (o banco é limitado) e nas bolas aéreas para a zona dos laterais (são baixos e têm opositores directos bons de cabeça). Postiga e Hugo Almeida não duram 90 minutos e terão de ser substituídos, o que queima logo uma substituição. Se Portugal se vir a perder provavelmente não terá forma de ir atrás do resultado.

 

Em resumo: há que aproveitar o contra-ataque (de forma semelhante ao que foi feito com a Suécia), poupar Ronaldo durante os 90 minutos, evitar faltas que ofereçam bolas paradas, e é necessário que os centrais não sejam atraídos pelo movimento de Özil e Kroos (será fundamental ter William Carvalho). Depois, há que deixar Ronaldo correr com espaço em direcção à defesa adversária e dar oportunidade a Moutinho para fazer os seus passes. O jogo será, no mínimo, interessante e poderá ser tacticamente, pelo menos em termos de sistema, semelhante ao Espanha-Holanda. Esperemos que acabe também com uma vitória da equipa mais reactiva.

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Mundial no sofá (2)

por João André, em 14.06.14

Imagem The Telegraph 

 

Espanha 1 - Holanda 5

 

Antes de mais a piada má: os novos reis de Espanha e Holanda: Willem Alexander I e Felipe VI. Os holandeses ficaram a dever um golo ao novo monarca espanhol.

 

O óbvio: nunca um campeão do mundo se afundou assim numa partida do mundial seguinte. Foi a derrota mais pesada da Espanha desde que esteve num mundial do Brasil. A única equipa que foi campeã depois de ter perdido de tal forma foi a Alemanha em 1954, contra a Hungria (mas jogou com as reservas nesse jogo).

 

A realidade. É tentador falar em laranja mecânica depois desta vitória, mas foi menos laranja mecânica e mais colapso completo da Espanha. Casillas demonstrou o risco que é um guarda-redes jogar encontros deste tipo sem ter maiores rotinas. Na final da Liga dos Campeões já tinha demonstrado que a falta de rodagem lhe tinha sido nociva. Aqui isso ficou ainda mais claro. Também é tentador falar no fim do tiki-taka, mas isso é simplista. O tiki-taka foi adoptado por ser o sistema que melhor se adequava ao tipo de jogadores que a espanha produz. Com jogadores de 1,70 m, não faz sentido jogar de outra forma. Além disso, quando se tem Xavi, Iniesta, Alonso, Busquets, etc, seria ridículo optar por outras soluções. O problema é que já estão a ficar velhos. Alonso jogou benzinho mas está abaixo do que pode fisicamente. Xavi está talvez a 50% de há 4 anos (dar-lhe-ia um lugar na maior parte das selecções, mas já não é o pivot da Espanha). Iniesta foi o melhor espanhol, mas também ele está pior.

 

A Espanha de há 4 anos, transplantada para Salvador na noite de ontem, não teria sido humilhada. Não teria a superioridade de então, uma vez que a oposição teve 4 anos para se adaptar ao estilo, mas continuaria a ser dominante. Teriam mantido a posse de bola até cansarem os holandeses e depois aproveitariamum erro. Com uma equipa mais cansada, menos sedenta de glória e mais lenta, já não foi possível.

 

Os holandeses jogaram com um sistema excelente para enfrentar a Espanha. Com a Espanha a depender exclusivamente dos laterais para darem largura ao jogo e com os dois médios "ala" a cortarem para dentro, os laterais holandeses puderam subir e enfrentar Azpilicueta e Alba cedo, negando-lhes o espaço para poderem ganhar velocidade. Isto abriu algum espaço junto às laterais que Diego Costa foi utilizando inicialmente (o penalty nasce de um movimento desses) mas apenas até os holandeses se adaptarem a essas movimentações. A solução espanhola teria sido fazer entrar Pedro e - na ausência de Juan Mata - Cazorla, mais cedo para dar largura ao jogo e esticar a defesa holandesa. Não o fizeram e apenas congestionaram o centro do terreno. Sem a capacidade de outrora, não se deram bem com a ausência de espaços e com a defesa musculada dos holandeses.

 

No ataque a Holanda optou por um sistema simples: dar liberdade a van Persie, Robben e Sneijder. Com a Espanha a jogar uma defesa tão adiantada, Robben estava nas suas sete quintas para acelerar. Sneijder não tinha muitos espaços mas ia ocupando Busquets e Alonso. Com o avanço dos laterais, Robben ia caindo para as alas para atrair os centrais e abrir espaços para passes para as costas destes a procurar van Persie. O golo do empate holandês exemplificou isto perfeitamente. Piqué foi atraído para Robben por medo que a sua velocidade causasse estragos nas costas de Azpilicueta e não se apercebeu que se colocou muito mais abaixo do que o resto da defesa, permitindo que van Persie ficasse em jogo para o passe de Blind.

 

Piqué também demonstrou as suas limitações. É um bom defesa, não nos enganemos, mas é um jogador muito propenso a erros. Foi essa a razão para Ferguson o ter deixado sair do Manchester United. No Barcelona ele deu-se bem devido às constantes correcções e incentivos de Puyol, um jogador muito intenso, focado e um verdadeiro líder da defesa. Entre Ramos e Piqué a Espanha não tem líderes e isso viu-se ontem.

 

Como escrevi acima, há a tentação de classificar esta Holanda como um regresso da laranja mecânica, mas isso ignora as lacunas ainda existentes. A verdade é que uma equipa jogando em 4-3-3 (por oposição ao 4-2-3-1) poderá causar-lhes grandes problemas, para isso bastando ter um médio defensivo único que dê cobertura à defesa (e mantenha o olho em Sneijder), laterais e não sejam a única fonte de largura no ataque e alas que não permitam aos laterais ofensivos holandeses que subam. Um simples desenho táctico deste tipo poderia causar muitos problemas aos holandeses. Uma equipa que segue este tipo de desenho é, por exemplo, Portugal.

 

Já a Espanha tem que resistir (e irá fazê-lo) ao canto da sereia de abandonar o tiki-taka. O sistema não deixou de ser bom, apenas deixou de ter à sua disposição o seu expoente máximo: Xavi. A opção terá de passar por trocar o guarda-redes (Casillas continua a ser excepcional, mas não está em forma) dando oportunidade a de Gea; jogar com Cazorla e Pedro e fazer sair Xavi e Costa, dando o lugar de falso 9 a Silva e fazendo Iniesta ir para o meio. Se o fizerem e se conseguirem ultrapassar psicologicamente a humilhação (del Bosque estará já a trabalhar nisso), a Espanha ainda poderá regressar e oferecer-nos um belo duelo no grupo.

 

Diego Costa: é um bom jogador com enorme personalidade e certamente que não estará arrependido. Mas é óbvio que depois de uma época a jogar no sistema de Simeone, não poderá ser a primeira opção para o tiki-taka espanhol. Terá de ser usado como suplente de impacto. Ainda não vimos tudo dele no mundial.

 

Olho no Chile: se conseguirem ter eficácia na concretização terão excelentes hipóteses de vencer o grupo.

 

*- troquei o título. O outro era esquisito.

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Agora que o CMF está para começar, quero deixar as minhas expectativas mais a sério. Não serei sistemático, escreverei apenas sobre aquilo que me apetecer e não tentarei manter uma frequência mínima. Tudo dependerá da minha disponibilidade. A única coisa que irei tentar é deixar algumas reflexões sobre a EDTN® e os seus adversários. O texto acabará longo, por isso quem quiser ler que clique aí nesse "ler mais" sff.

 

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Como especialista encartado em todos os aspectos respeitantes a essa ode à geometria dinâmica polvilhada pelo anarquismo individualista de vértices estrategicamente posicionados de forma a obter flutuações incisivas nas estruturas opostas a que a gente vil chama de futebol (e a que sua classe abaixo no que à degustação desta poesia em movimentos coordenados chama de soccer), decidi, como não poderia deixar de ser, explicar de forma determinante e, quiçá, especulante, alguns dos aspectos mais arcanos que assolam os conjuntos de jovens - e seu mais experientes amestradores - que se encontraram nesse kumbaiá quadrienal a que se convencionou chamar - de forma muito simplista - de Campeonato do Mundo de Futebol. Ou, de forma mais repugnante, Campeonato do Mundo Fédération Internationale de Football Association (abreviemos de forma muito mundana para CMF). Bleerghh, preciso de uma pastilha de menta...

 

Bom, comecemos as análises pelo invisível, ou seja, pelos praticantes do "jogo bonito" (marketing, marketing) que por infortúnios vários - virilidade de co-praticantes da mesma actividade que num momento específico envergavam cores alheias; falta de virilidade própria em momentos diversos; dificuldade de outros co-praticantes e concidadãos em acompanhar colectivamente os desempenhos individuais de determinadas individualidades - não poderão encontrar-se no pleno exercício das suas excepcionais capacidades técnicas e físicas em Terras de Vera Cruz de forma a serem acompanhados ao pormenor no espaço de noventa minutos (mais o tempo de desconto que o filho da mãe do árbitro for comprado para dar).

 

A lista de elementos não presentes no CMF (menta, menta...) poderia preencher um panteão do nosso Zeitgeist futebolístico. Melhor, dois panteões, já que um dos elemantos necessitaria de um panteão unicamente para si, para o seu ego e para protecção das demais divindades - Zlatan Ibrahimović, esse dourado filho de Ibrahim que por si só teria levado Dante a escrever uma nova Divina Comédia mas com duas estrofes, na qual a primeira descreveria a tragédia e na segunda explicaria simplesmente que Zlatan, o Ibra, se teria encarregue do problema.

 

Entre os outros poderíamos ter uma lista de grandes jogadores: Valdés, Bale, Reus, Falcao, Lewandowski, Strootman, Montolivo, Thiago, Gündogan, van der Vaart e, obviamente, Carlos Manuel Figueira Lopes dos Santos, vulgo Camané, lateral direito da selecção da Rua do Passal em Mangualde.

 

Já em relação à nossa EDTN (® - José Navarro de Andrade, o cheque segue no correio no parazo de 5 dias úteis), eu teria as seguintes observações a fazer:

- tá bem que o tipo é lagarto, mas a época do Adrien Silva não mereceria uma chamadita? O Cédric talvez também, mas é boche por nascimento e isso seria suspeito para o dia 16. Além disso faz sentido dizer que se tem a polivalência do André Almeida, mesmo que sirva para pouco mais que aquecer o banco e trazer o sumo nos jogos de poker.

- o Éder deve ser muito bom rapaz, mas que faz ele ali? A EDTN vive e morre em função do Ronaldo e ter avançados só para que o Ronaldo, o nosso menino gelado (de gel, para cabelo) possa correr e marcar. Pontas de lança para marcar golos? Pensam que somos ingleses?

- dos outros, eu teria levado o Danny. É bom rapaz, é bom jogador, fala um português esquisito e é mais criativo que metade do meio campo português.

- O Miguel Veloso é ucraniano ou russo? Urge descobrir isso antes de saber se pode jogar.

 

Cosiderações mais sérias seguir-se-ão em medida da disponibilidade temporal e internetial.

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