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Uma obra-prima.

por Luís Menezes Leitão, em 12.09.16

Clint Eastwood é o último dos realizadores clássicos americanos, herdeiro de um tempo em que no cinema se contava uma história simples e cativante, com heróis que ficavam para sempre na nossa memória. Hoje o mainstream do cinema americano são os blockbusters, que entretêm, mas se esquecem ao fim de um minuto depois de sair da sala. É por isso com grande satisfação que se vê um filme como Sully, em Portugal (mal) traduzido para Milagre no rio Hudson. É um facto que os portugueses não conseguiriam identificar a referência ao comandante Chesley Sullenberger que em 15 de Janeiro de 2009 salvou 155 passageiros ao fazer aterrar de emergência no rio Hudson um avião que tinha perdido os dois motores. Mas o filme não conta a história de milagre algum, mas antes de uma decisão humana, demasiado humana, tomada em segundos perante uma situação crítica. O título brasileiro O herói do rio Hudson é por isso mais apropriado.

 

Sully é efectivamente um herói, um piloto de avião que perde dois motores a baixa altitude e consegue perceber que a única possibilidade que tem de salvamento é o rio, enquanto que na torre de controlo lhe pedem insistentemente que dirija o avião sem motores para qualquer aeroporto nas proximidades. E que sabe que a decisão sobre o destino daquele avião é apenas sua, não perdendo tempo a dizer aos passageiros nada mais do que algo que ninguém quer ouvir dentro de um avião: "preparem-se para o impacto". E, depois do impacto, assume a posição do comandante, que não abandona o barco antes de os passageiros se salvarem, sendo o último a abandonar o avião.

 

Mas esse herói americano tem depois que lutar contra o sistema, composto de burocratas, de comissões de avaliação, e de seguradoras, que avaliam a sua decisão através de computadores ou pilotos num simulador, e que sustentam que um avião naquelas condições chegaria calmamente a qualquer aeroporto. O sistema não permite heróis, já que só tem espaço para autómatos obedientes. E nessa altura Sully, um homem simples, sofre profundamente, vendo que a sua carreira de 40 anos nada vale perante os 208 segundos da sua decisão crítica. Mas, tal como Dirty Harry enfrentava o sistema para fazer a sua justiça, Sully defende brilhantemente a sua decisão perante o painel de avaliadores. A certa altura perante as suas respostas, parece que estamos a ouvir Dirty Harry: "Go ahead, make my day!".

Uma palavra para Tom Hanks, talvez ele próprio também o último dos actores clássicos americanos, que faz um Sully extraordinário. Quase nos faz esquecer a imagem do verdadeiro Sully, que só voltamos a recordar quando o vemos surgir no filme em pessoa.

 

Recentemente Clint Eastwood deu polémica ao declarar o seu apoio a Donald Trump. Confesso que a polémica me espanta. Donald Trump é efectivamente um misógino e racista, que só um suicídio do Partido Republicano conseguiu transformar em candidato presidencial, mas sinceramente alguém estava à espera que Clint Eastwood fosse apoiar Hillary Clinton? Hillary Clinton representa o establishment político actual e Clint Eastwood já demonstrou que odeia profundamente o sistema. Dirty Harry, o veterano Walt Kowalski ou o sniper americano Chris Kile que o digam. E, perante os últimos avanços de Trump nas sondagens, Clint Eastwood até pode perguntar: "Do you feel lucky?".

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Os filmes da minha vida (40)

por Pedro Correia, em 19.06.12

 

A TROCA:

TODA A DOR DO MUNDO NUM OLHAR

Christine Collins existiu realmente. Mas não é isso que interessa. O importante é registar o seguinte: Christine Collins é já uma personagem fundamental na Sétima Arte. Clint Eastwood, no seu filme A Troca, elaborou um dos melhores retratos femininos das últimas décadas no cinema americano. Dando a Angelina Jolie, protagonista desta película inesquecível, o papel da sua vida.

Nas mãos de outro cineasta, A Troca não passaria de um docudrama banal, puxando à lágrima fácil, semeado de rodriguinhos. Eastwood, no seu classicismo depurado, segue o percurso oposto: expurga o filme de qualquer indício de ganga televisiva, centrando-o no retrato psicológico de uma mulher. O olhar, as dúvidas, a angústia, a contenção, a febre, as palavras e o silêncio de uma mulher confrontada com o pior dos cenários: o rapto de um filho.

Há uma banda sonora fabulosa – composta pelo próprio Clint Eastwood – a sublinhar o percurso desta mulher que viu a vida soçobrar por um inesperado capricho do destino. Desde os primeiros acordes, que acompanham as imagens de uma Los Angeles a preto e branco, num recuo temporal de oito décadas, pressentimos que esta toada musical, repassada de uma infinita melancolia, jamais nos abandonará até ao fim do filme. E mesmo depois de as luzes se acenderem permanecerá connosco. Porque o drama que abalou Christine Collins podia suceder a um de nós – é algo que acontece demasiadas vezes nos labirintos das nossas ruas.

Macabra ironia: tudo se passa na Cidade dos Anjos – Los Angeles, afinal habitada por mil demónios, incluindo as forças da ‘autoridade’, que utilizam métodos idênticos às corporações do crime. Questionar estes métodos, na América da Lei Seca e de Calvin Coolidge, poderia ser um passaporte para uma clínica de doentes mentais – cenário kafkiano caucionado por psiquiatras sem escrúpulos.

Christine passa por tudo isto – e muito mais. Vêmo-la sempre sob um intenso foco luminoso que contrasta com as superfícies negras que lhe emolduram o rosto quase imaterial. Eastwood dirige um verdadeiro bailado de luzes e sombras nas cenas capitais deste filme modelar, herdeiro directo do realismo crepuscular das velhas fitas da Warner Brothers. Tudo nos fala desse tempo irrepetível – automóveis, carros eléctricos, chapéus e penteados, numa irrepreensível reconstituição de época.

Mas o essencial do filme é Angelina Jolie, aliás Christine Collins, mulher que nunca voltará a ter um sono tranquilo na sua vida, assombrada pelo maior dos pesadelos. Despedimo-nos dela quando o filme acaba. Mas é uma despedida vã: o seu rosto dorido, trespassado de uma tristeza sem fim, há-de acompanhar-nos para sempre, como o de Ingrid Bergman em Casablanca. E continuamente nos interrogaremos como é possível concentrar toda a dor do mundo naquele olhar.

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A Troca (The Changeling, 2008). De Clint Eastwood. Com Angelina Jolie, John Malkovich, Riki Lindhome, Jeffrey Donovan.

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E tudo o vento levou...(5)

por Helena Sacadura Cabral, em 25.02.12

 

Outro dos meus grandes amores platónicos. Que se mantém até agora. E que a velhice jamais apagou!

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Estrelas de cinema (12)

por Pedro Correia, em 21.02.12

 

ROMANCE DE CORDEL, COM 'GANGSTERS' EM FUNDO

**

Há um esforçado trabalho de composição da personagem central - mérito de Leonardo di Caprio - e uma adequada reconstituição de época, tarefa nada fácil, pois a narrativa estende-se por mais de cinco décadas. Além da notável banda sonora, como de costume a cargo do próprio realizador. Mas esgotam-se aqui os méritos de J. Edgar. Este filme parece, aliás, confirmar que desde o já distante Bird (de 1988) Clint Eastwood não se sente muito à vontade no género biográfico.

O título não deixa lugar a dúvidas: estamos perante um retrato que se pretende pessoal, íntimo, de J. Edgar Hoover, influente figura pública dos EUA enquanto fundador e director do FBI, entre 1935 e 1972 (tendo sido director, entre 1924 e 1935, do Bureau of Investigation, organismo predecessor do FBI, ainda sem competências federais). Hoover trabalhou com oito presidentes norte-americanos, vários dos quais o detestavam (Roosevelt, Kennedy e Nixon, por exemplo) mas nunca tiveram coragem de o exonerar alegadamente para não verem expostos segredos inconfessáveis que o super-espião fora arquivando sobre cada um deles e acabaria por levar para a tumba.

Ora o discutidíssimo e reservadíssimo Hoover também tinha os seus segredos que contradiziam a imagem do celibatário ascético e austero composta pelas peças de propaganda. Eastwood centra-se nisto. Acontece, porém, que nada do que nos traz é novidade: os últimos anos têm sido férteis em livros que revelam a face oculta do líder histórico do FBI. E Di Caprio, apesar do esforço revelado, não consegue ser totalmente convincente na pele da personagem: jamais nos esquecemos de que estamos perante um trabalho de representação, o que costuma constituir um teste decisivo à capacidade interpretativa de um actor em cinema (teste que Meryl Streep supera com êxito no papel de Margaret Thatcher noutro filme recém-estreado em Portugal, A Dama de Ferro). E se na primeira parte existem interessantes sequências de acção na sombria América dos anos 20 e 30 dominada por sindicatos do crime, na segunda metade o filme transforma-se numa espécie de soap opera gay centrada num suposto idílio amoroso entre Hoover e o seu adjunto de longos anos no FBI, Clyde Tolson - interpretação de Armie Hammer que jamais descola da caricatura, sobretudo quando surge já envelhecido, numa caracterização digna de causar gargalhadas por ser tão óbvia e tão incompetente.

Dos gangsters puros e duros ao romance de cordel: demasiadas contorções num filme só. O Clint Eastwood dos bons tempos só é reconhecível quando são os maus a invadir o ecrã.

 

J. Edgar. (2011). De Clint Eastwood. Com Leonardo di Caprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Judi Dench.

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Gamei ao meu marido

por Patrícia Reis, em 10.02.12

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A verdade do rosto

por Ana Lima, em 09.01.12
O filme vem aí. Mas não é esse o assunto agora. Esta é a capa da última edição da Revista M do jornal francês Le Monde. O fotógrafo é Martin Schoeller, que durante anos foi assistente de Annie Liebovitz.
Clint Eastwood tem 81 anos e não precisa de Photoshop. Não são as suas rugas que nos mostram a sua grande sabedoria. Mas elas aí estão para nos lembrar que já é longa a história de uma vida que nos tem dado tanto. E ninguém discordará que é assim que nós o queremos ver!

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O jovem Clint...

por João Carvalho, em 01.06.10

... fez ontem 80 anos. Esta lembrança está atrasada? Também a da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas está, que ainda só lhe deu quatro Óscares: dois de Melhor Realizador e dois de Melhor Filme, entre oito nomeações. Há-de ser sempre pouco, para este cineasta e autor cuja obra já entrou na História da Sétima Arte. Com uma carreira brilhante e multifacetada, gasta menos do que os orçamentos, filma com rapidez e perfeição e tem fama de só dizer três palavras em trabalho: okay, action e cut.

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Cartas de Iwo Jima...

por José Gomes André, em 26.07.09

 

...obra-prima de Clint Eastwood, que a RTP passa hoje (Domingo, 23h30), e que recomendo vivamente. A maioria dos comentadores insiste tratar-se de uma mera "continuação" de As Bandeiras dos Nossos Pais, que se limitaria a mostrar “o lado japonês” durante a terrível batalha de Iwo Jima. Não concordo. A meu ver, tanto As Bandeiras dos Nossos Pais como Cartas de Iwo Jima não são filmes sobre essa sangrenta batalha numa longínqua ilha no Pacífico, embora obviamente a tenham como ponto de partida.
Com efeito, As Bandeiras dos Nossos Pais surge como um tratado sobre um fenómeno específico dos conflitos bélicos – a propaganda e a ilusão por ela gerada – mostrando o contraste entre as falsas concepções criadas pelas expectativas de quem está fora do conflito, e a ferocidade da experiência vivida pelos que participaram efectivamente nesse acontecimento apenas imaginado pelos outros. Neste sentido, As Bandeiras... ilustra um diálogo surdo, e necessariamente impossível, entre aqueles que acedem à experiência da guerra em bruto, na sua áspera verdade, e aqueles que a sentem à distância, de uma forma mediada e mediatizada.
De um modo semelhante, também Cartas de Iwo Jima não é uma obra acerca da batalha de que se fala no título, mas sim um filme sobre uma série de homens condenados à morte num local remoto e inóspito – constituindo por isso um poderoso exercício metafísico acerca do que significa estar na guerra, esse diálogo próximo com a morte, o desespero e a solidão. Ao longo do filme, o que está em questão não são os eventos contingentes da batalha, ou a ambiguidade causada pela incerteza do conflito. Pelo contrário, à presença de Kuribayashi e dos seus homens na ilha está subjacente uma única evidência: Iwo Jima será o seu jazigo. Como lidar com essa verdade inexorável?

Clint Eastwood ilustra os diferentes matizes das respostas possíveis, descortinados com uma precisão clássica, atendendo simultaneamente à inerente complexidade das disposições reveladas. Uma paleta de personagens mostra a diversidade das posturas: o comandante Kuribayashi, que luta pela sobrevivência das suas tropas, até ao último minuto; os oficiais japoneses, que preferirão o suicídio à rendição; o soldado Saigo, preso numa tragédia absurda, que apenas pretende regressar a casa; o Kompitei Shimizu, dividido entre a ética militar e o complexo moral que o horror da guerra suscita; e o Tenente Ito, que procura em vão a glória da morte, e que desafortunadamente a não consegue encontrar. Diversas atitudes e modos de sentir a proximidade do fim num rochedo vulcânico, que os tons cinzas da belíssima fotografia de Tom Stern parecem unir num destino comum.

[repescado daqui].

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Changeling (3)

por José Gomes André, em 27.01.09

 

O filme foi escandalosamente esquecido pelos Óscares, mas é bom saber que não vivi uma alucinação quando o achei uma obra-prima. Pelo menos, a julgar pela qualificada opinião de Jorge Leitão Ramos: "É um Drama individual, íntimo, dilacerante. É a história de uma mulher a quem tiram tudo, num acto de violência sem nome - tudo menos a dignidade, a determinação de lutar pelo que está certo, não porque não haja alternativa, mas porque é assim que deve ser. É um caso urbano em Los Angeles, nos anos 20, mas podia ser um western, o herói solitário que parece não ter hipóteses nenhumas, mas que não desiste. É um gesto de liberdade, americano até ao tutano, que Clint Eastwood ergue com um fôlego estarrecedor, um peso dramático, uma beleza formal, uma noção do plano, da respiração do plano, da cadência dos movimentos, da precisão dos olhares - tudo perfeito. Até Angelina Jolie parece, de repente, uma grande actriz - quilómetros acima de qualquer coisa que já tenha feito antes."

 

Não deixem de ler também este texto do nosso Pedro Correia, no Corta-Fitas.

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Changeling (2)

por José Gomes André, em 14.01.09

 

 

Num filme que envolve o desaparecimento de um filho, o assassinato de uma vintena de crianças, o internamento da heroína e uma execução capital – entre outras situações de grande carga emotiva – não existe uma única cena sentimentalista, um único diálogo lamechas, um único plano que procure apenas chocar o espectador. Pode parecer simples, mas muitas vezes o grande desafio para um realizador – especialmente num drama deste género – é não ceder à tentação de enfeitar uma cena, carregar na banda sonora ou introduzir aquela tirada que pura e simplesmente apele à lágrima fácil.

O que impressiona no cinema de Clint Eastwood é pois a sua espantosa contenção e sua capacidade para contar uma história brutal sem nunca forçar o ritmo, a interacção das personagens ou o movimento das câmaras. Eisenstein dizia que só lhe interessava o cinema necessário; cenas com propósitos decorativos tenderiam a desvirtuar a essência do que se pretendia contar através das imagens. Eastwood é o herdeiro deste cinema puro, onde habita um raro dramatismo e ferocidade psicológica sem cedências a adornos simplistas ou artifícios emocionais.

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Changeling (1)

por José Gomes André, em 12.01.09

 

 

 

Depois dos extraordinários Million Dollar Baby e Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood oferece-nos Changeling, um filme colossal sobre a perda, a coragem, a razão e o exercício do poder – entendido nas suas tortuosas e complexas ramificações. O espectro temático é tão rico quanto os movimentos de câmara, as interpretações, a banda sonora, a espantosa fotografia e a reconstituição histórica, elementos que nos são revelados com inegável mestria. Na verdade, Eastwood dirige o filme com a precisão de um relógio suíço e a carga dramática de um Shakespeare, conduzindo um enredo que nas mãos de outro realizador acabaria provavelmente numa película medíocre. Uma obra excepcional, à qual voltarei nos próximos dias.

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