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Cine-Espanha (7) - Negociador

por Diogo Noivo, em 30.03.16

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Quando vi o Negociador pela primeira vez, sem leituras prévias ou comentários de quem já o tivesse visto, a história pareceu-me familiar. Mas não perdi muito tempo a tentar perceber porquê. O filme conquistou-me quase de imediato por aquilo que demonstrou ser: uma longa-metragem bem documentada, com uma estrutura que se via ser o resultado de muito e bom trabalho de investigação sobre a ETA e, em particular, sobre os vários processos negociais que envolveram governos democráticos e organizações terroristas. A atenção dada aos detalhes e a capacidade para destacar os aspectos mais sensíveis de uma negociação deste tipo são admiráveis.

 

Mais importante, o Negociador marca por uma inteligência e um bom gosto raros: pega num tema sério e melindroso como o terrorismo e olha-o com humor negro magnífico, sem incorrer em desconsiderações pelas vítimas e sem menorizar a complexidade do problema. De uma forma simples que não compromete o rigor que o tema exige, o filme expõe o ridículo do terrorismo etarra e dos processos negociais entre a ETA e os governos de turno. Por outras palavras, o Negociador enfatiza os momentos onde o absurdo da realidade supera a ficção. Destaco ainda que consegue abordar o terrorismo etarra sem tomar as dores dos partidos políticos – o que, dada a tensão que o assunto gera em Espanha, é louvável. Esta postura, mais do que cobardia política ou cómoda equidistância, é arte.  

 

 

Depois de muito andar, percebi a razão de me ser familiar: o filme é uma adaptação livre de “ETA: Las claves de la paz - Confesiones del negociador” (Aguilar, 2011), um livro que li logo no ano em que foi publicado. Escrito pelo jornalista Luis Rodríguez Aizpeolea e por Jesús Eguiguren, presidente do Partido Socialista de Euskadi (País Basco), além de estratega e executante de um processo negocial com a esquerda abertzale e com o terrorismo basco, “ETA: Las claves de la paz” é uma janela muito impressiva para os bastidores de uma negociação que ocorreu entre 2000 e 2006. Em cerca de 300 páginas, explicam-se com detalhe os procedimentos e alçapões de uma negociação política com uma organização terrorista. Analisam-se também as divergências políticas existentes nos meandros do terrorismo basco, tal como os ciclos de vida de grupos armados como a ETA. Tratam-se ainda as relações de causalidade entre terrorismo e anti-terrorismo. Se descontada a hagiografia de José Luis Rodríguez Zapatero, apresentado como herói e único responsável político pelo fim da ETA, o livro é um testemunho imperdível.

 

Borja Cobeaga, realizador e argumentista de Negociador, colhe da experiência de Jesús Eguiguren os elementos necessários a filme sólido, sóbrio e plausível, dono de um humor que o El País classifica de dolente, negríssimo, brilhante, trágico e atroz. A semelhança entre Jesús Eguiguren e Manu Aranguren (Ramón Barea), respectivamente, negociador real e negociador ficcionado, resume-se a um espírito castiço e echado para adelante segundo o qual “o mais simples é o que melhor funciona”. Tudo o resto é um grande filme, feito por um realizador com uma filmografia ainda curta, mas que se agiganta com este Negociador.

 

Realizador e Guionista: Borja Cobeaga

Elenco: Ramón Barea, Josean Bengoetxea, Carlos Areces, Melina Matthews, Jons Pappila, Raúl Arévalo (protagonista em La Isla Mínima, mas aqui com um papel secundário).

Ano: 2014

Prémios Goya: 1 nomeação na 30ª edição dos prémios Goya (2016) – Melhor Guião Original. Perdeu para Truman (2015, de Cesc Gay), o grande vencedor dos Goya neste ano de 2016 – um filme que oportunamente trarei ao Cine-Espanha. Na opinião deste escriba, ainda que se trate de um filme simples e sem grandes ambições, Negociador merecia mais, muito mais, desde logo nas nomeações.

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Cine-Espanha (6) - El Orfanato

por Diogo Noivo, em 22.03.16

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Tememos o desconhecido. Será talvez o mais primário e genuíno de todos os medos. O cinema tende a apresentá-lo sob duas formas distintas. Por um lado, algo cuja existência não sabemos explicar. Acontecimentos ou entidades que violam as mais elementares leis naturais e que, por conseguinte, não podemos compreender. O paranormal tem aqui as suas raízes. Por outro lado, existe uma faceta mais simples do horror pelo desconhecido: uma ameaça bem identificada, terrena e vulgar, mas a incapacidade de a ver quando sabemos que se aproxima provoca uma ansiedade irrefreável. É com base neste princípio que, em Jaws, Steven Spielberg demora mais de uma hora e vinte minutos a mostrar o tubarão na íntegra, gerando medo com base na mera sugestão da criatura e não mediante a sua imagem. El Orfanato deita mão às duas fórmulas. O paranormal mal se vê, mas é fortemente sugerido, uma sugestão que cresce à medida que o enredo se desenvolve. E como em qualquer bom filme, as conclusões ficam para o final e são pouco previsíveis. 

 

 

Laura (Belén Rueda) regressa ao orfanato onde cresceu. Com ela vai o marido, Carlos (Fernando Cayo), e o filho ainda criança, Simón (Roger Príncip). Mudam-se para a velha casa junto ao mar com o intuito de abrir uma pequena residência para crianças com deficiência. Pouco tempo depois de se instalarem, Simón desaparece. Laura empreende então uma série de jogos, seguindo pistas enigmáticas com vista a encontrar o filho.

A partir deste momento, Guillermo del Toro, produtor-executivo e padrinho do filme, torna-se omnipresente. Sem desprimor para o realizador, Juan Antonio Bayona, del Toro sequestra a fita. Tal como em El Labertinto del Fauno, longa-metragem que vimos aqui no Cine-Espanha na semana passada, as referências aos contos de fadas e às histórias infantis constituem a rede que suporta toda a narrativa. E tal como em El Laberinto del Fauno, esta é uma história onde, segundo o próprio Guillermo del Toro, a vontade de acreditar acaba por definir o curso da realidade.

A realização e a banda sonora são partes indissociáveis da trama. Na boa tradição do duo Alfred Hitchcock-Bernard Herrmann, os planos de câmara, a montagem e a música unem-se em El Orfanato para gerir de maneira exímia as percepções e as expectativas da audiência.

 

El Orfanato é a todos os títulos um filme notável e explica porque razão La Torre del Suso, igualmente em concurso na 22ª edição dos Goya e um filme do qual já falámos aqui no DELITO, não teve grande espaço para arrecadar galardões. Apesar de não ter vencido o Goya de Melhor Filme, El Orfanato foi a longa-metragem que mais prémios recebeu nos Goya de 2008. Com tanto de assustador como de magnífico, El Orfanato é um filme a não perder.

  

Curiosidades:

  1. O realizador recuperou a luz do cinema espanhol dos anos de 1970 e, como piscar de olhos à época, seleccionou Geraldine Chaplin para interpretar o papel de Aurora – Geraldine Chaplin participou em grandes clássicos do cinema espanhol, nomeadamente em Ana y los Lobos (1973) e Cría Cuervos (1976), ambos escritos e realizados por Carlos Saura.
  2. Geraldine Chaplin, filha do lendário Charlie Chaplin, voltaria a colaborar com o realizador J. A. Bayona em 2012 no filme Lo Imposible - sobre uma família apanhada pelo tsunami de 2004, no Oceano Índico, uma história protagonizada por Naomi Watts.
  3. Belén Rueda voltaria ao registo thriller/suspense/terror com Los Ojos de Julia (2010, de Guillem Morales) e com El Cuerpo (2012, de Oriol Paulo). Como anda sempre tudo ligado, Oriol Paulo realizou o filme de 2012, mas escreveu o de 2010 que, por sua vez, tal como este El Orfanato, contou com a maestria de Guillermo del Toro na produção.
  4. El Orfanato foi um êxito de bilheteira estrondoso em Espanha, capaz de destronar o já de si inaudito sucesso comercial de El Laberinto del Fauno (2006, de Guillermo del Toro). El Orfanato superou ainda os blockbusters Shrek The Third (2007, de Chris Miller e Raman Hui) e Pirates of the Caribbean: At World’s End (2007, Gore Verbinski).

 

Realizador: Juan Antonio Bayona

Elenco: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Maribel Rivera, Geraldine Chaplin

Ano: 2007

Prémios Goya: 14 nomeações na 22ª edição dos prémios Goya (2008). Venceu em 6 categorias – Melhor Realizador Revelação, Melhor Guião Original, Melhor Direcção de Produção, Melhor Direcção Artística, Melhor Maquilhagem e Melhor Som.

Ficou a faltar o Goya para Melhor Filme, que foi para La Soledad (2007, de Jaime Rosales). Belén Rueda poderia ter vencido o Goya para Melhor Actriz Protagonista, mas foi Maribel Verdú a levar a estatueta – a actriz fez também parte do elenco de El Laberinto del Fauno e, como se vê na caixa de comentários do post sobre esse filme, Maribel Verdú conta com grandes admiradores aqui no DELITO.

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Cine-Espanha (5) - El Laberinto del Fauno

por Diogo Noivo, em 15.03.16

El-laberinto-del-Fauno.jpg

 

Norte de Espanha, 1944. A Guerra Civil terminou há cinco anos. As poucas bolsas de resistência republicana que sobreviveram são cruelmente perseguidas pelo exército e pela polícia de Franco. Trata-se da ofensiva final, destinada a construir a “nueva España” ambicionada pelo Caudillo.  

Num pequeno pueblo de montanha, o Capitão Vidal (Sergi Lopez), oficial da infame Polícia Armada, é o responsável pela eliminação dos grupos de combate republicanos bem como de qualquer pessoa que com eles colabore. Carmen (Ariadna Gil), mulher de Vidal, a semanas de terminar uma gravidez de risco, faz uma longa viagem até à casa de montanha para se juntar ao marido. Acompanha-a Ofelia (Ivana Baquero), de 13 anos, filha nascida de um primeiro casamento. Na primeira noite passada em casa do padrasto, Ofelia é acordada por um insecto que a conduz até um labirinto. E é nesse labirinto que encontrará uma criatura, um fauno, que lhe fará uma revelação surpreendente e lhe abrirá as portas de um mundo fantástico “donde no existe la mentira ni el dolor”. Compete ao espectador decidir se esse mundo fantástico é real ou se é um refúgio criado pela imaginação de uma criança que quer fugir aos horrores do pós-guerra. Em boa verdade, estas duas opções não são mutuamente exclusivas.

 

  

A filmografia de Guillermo del Toro, sobretudo enquanto realizador, assenta na existência de mundos paralelos e soturnos, inacessíveis ao comum dos mortais, que embora sendo do domínio do paranormal dizem sempre mais sobre a espécie humana do que sobre as criaturas disformes que habitam essas realidades alternativas (vejam-se Hellboy I & II, Crimson Peak, Blade II ou ainda a série televisiva The Strain). El Laberinto del Fauno não é excepção. No entanto, este filme distingue-se dos restantes por subverter a ‘disneyficação’ das histórias infantis, invalidando por completo o tom benigno associado aos contos de fadas. De resto, segundo o próprio del Toro, a fantasia não é escapismo, mas sim uma forma de confrontar os horrores da realidade.

 

Dos filmes que apresentei até ao momento aqui no DELITO, via Cine-Espanha, este será o mais conhecido. É uma fama merecida. Produção conjunta entre Espanha e o México, El Laberinto del Fauno é a magnum opus do realizador, produtor e argumentista mexicano Guillermo del Toro.

 

Curiosidades:

  1. Obteve 3 dos 6 Óscares a que foi candidato – Melhor Maquilhagem, Melhor Direcção Artística e Melhor Fotografia. Perdeu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a magistral longa-metragem alemã Das Leben der Anderen (As vidas dos outros, 2006).
  2. Ivana Baquero, cuja interpretação em El Laberinto del Fauno lhe valeu o Goya de Melhor Actriz Revelação, integra o elenco do recém-estreado filme português Gelo.
  3. O célebre realizador mexicano Alfonso Cuarón, o primeiro hispânico a vencer o Óscar para Melhor Realizador (com Gravity, de 2013), é um dos principais produtores deste El Laberinto del Fauno.
  4. Como em todos os filmes de Guillermo del Toro, também aqui não faltam insectos nem a habitual imagética recheada de referências a símbolos do catolicismo.

 

Realizador: Guillermo del Toro

Elenco: Álex Angulo, Ariadna Gil, Doug Jones, Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú

Ano: 2006

Prémios Goya: 13 nomeações na 21ª edição dos prémios Goya (2007). Venceu em 7 categorias – Melhor Guião Original, Melhor Direcção de Fotografia, Melhor Actriz Revelação, Melhor Montagem, Melhor Som, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Maquilhagem. Perdeu nas categorias de Melhor Filme e de Melhor Realização para Volver, de Pedro Almodóvar. Como é sabido, Volver e a escolha de Penélope Cruz como musa marcam o início do fim do interesse cinematográfico de Almodóvar.

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Cine-Espanha (4) - B

por Diogo Noivo, em 08.03.16

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Quem olhe para a vida política espanhola pensará que o país vizinho se transformou numa enorme cornucópia de onde apenas brotam corrupção e abusos de poder. Os casos surgem no espaço público em catadupa e parecem tocar tudo e todos, da direita à esquerda, da administração central à local, das empresas públicas às privadas. Ainda assim, o tema raras vezes foi abordado pelo cinema que se faz em Espanha, muito menos evocando um caso recente e os nomes nele envolvidos. O filme ‘B’ é por isso uma raridade.

Esta longa-metragem é uma adaptação cinematográfica da peça de teatro “Ruz-Bárcenas”, que esteve em cena no Teatro del Barrio, em Madrid. A história, mas também os actores, passam do palco para o grande ecrã. O guião é uma cópia quase textual das declarações prestadas por Luis Bárcenas, antigo tesoureiro do Partido Popular, numa sessão de inquérito presidida pelo juiz Pablo Ruz. Jordi Casanovas, o autor do texto, afirma não ter mudado uma só vírgula dos diálogos que encontrou na transcrição judicial, tendo apenas encurtado a duração das declarações.

 

No dia 15 de Julho de 2013, Luis Bárcenas, acusado de branqueamento de capitais e de fraude fiscal, revê afirmações prestadas anteriormente e assume perante o juiz, em plena Audiência Nacional, a existência de uma contabilidade ‘B’, de um ‘saco azul’ no Partido Popular. Na verdade, foi mais longe e implicou directamente no caso altos responsáveis do partido, entre os quais Mariano Rajoy, líder do PP e Presidente de Governo. O homem que controlou as contas dos Populares entre 1990 e 2009 assume então a existência de um sistema paralelo e oculto de receitas e despesas, feito de doações ilegais, de sobresueldos (complementos salariais não declarados), de obras na sede do partido, entre outras actividades que se podem resumir num longo e indecoroso et cetera.

‘B’ não é mais do que isto. O filme decorre na íntegra na sala de audiências e resume-se em grande medida à esgrima de perguntas e respostas entre juiz e arguido. A interacção entre os dois personagens sugere um registo que mistura um Frost/Nixon (2008, de Ron Howard, também uma adaptação de uma peça de teatro) com as clássicas cenas de capa e espada de Errol Flynn. O orçamento, reduzido e em boa parte obtido através de crowdfunding, não permite ao filme grandes distensões de produção, algo que é visível aos olhos do espectador menos atento. Vale a interpretação extraordinária de Pedro Casablanc (Bárcenas), que assumiu o risco de interpretar alguém cuja imagem, sotaque e maneirismos entram diariamente em casa do público pela televisão. É igualmente apreciável a inovação temática, embora se dispense a militância anti-sistema delatada pelas insinuações que resultam de alguns silêncios exagerados e hesitações cirúrgicas de Bárcenas.

De teatro-documentário para cinema-teatro, ‘B’ usa os reflexos entre a ficção e a realidade para criar um filme político, original no panorama espanhol, que ficará na memória pela gravidade e mediatização do caso, mas não tanto pela sua qualidade cinematográfica.

 

Realizador: David Ilundain

Elenco: Pedro Casablanc, Manolo Solo

Ano: 2015

Prémios Goya: 3 nomeações na 30ª edição dos Prémios Goya (2016) – Melhor Actor Principal, Melhor Actor Secundário e Melhor Guião Adaptado. Não obteve qualquer galardão.

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Cine-Espanha (3) - La Torre de Suso

por Diogo Noivo, em 01.03.16

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Após dez anos de emigração na Argentina, Cundo (Javier Cámara) regressa às Astúrias para assistir às cerimónias fúnebres de Suso, o seu melhor amigo de infância, morto por overdose. A ideia de Cundo é simples: visitar os pais, embriagar-se com os amigos, alardear o êxito que obteve no seu país de acolhimento e regressar a Buenos Aires o quanto antes.

É então que o acaso e as vicissitudes da vida entram em jogo. Por um lado, torna-se evidente que a vida na emigração não foi meiga. A bazófia de Cundo não é mais do que um artifício que pretende mascarar a vergonha do insucesso. Por outro lado, percebe-se que 10 anos é muito tempo. A vida na aldeia alterou-se de forma dramática, em grande medida porque a actividade mineira que sustentava aquela localidade desapareceu por força das mudanças vividas na economia espanhola. Os amigos que ficaram seguiram a sua vida. O protagonista fica então prisioneiro da vergonha face a um mundo que abandonou e que é irreconhecível aos seus olhos.

O enredo desenlaça-se quando Cundo e os seus amigos de infância decidem cumprir a última vontade de Suso: construir uma torre que permita “verlo todo desde arriba”. Esta torre é o elemento que permite explorar as tensões latentes nas amizades duradouras, a passagem do tempo, a distância física e emocional e, por fim, dá o mote para um final optimista.

 

La Torre de Suso é uma história sobre a amizade e o tempo. É um filme simples e despretensioso, mas consegue ser bem-sucedido por adoptar com naturalidade uma fórmula que oscila entre a comédia e o drama. Aliás, é o compromisso entre esses dois géneros que, na minha opinião, permite ao filme ser eficaz.

Foi a primeira longa-metragem de Tom Fernández, antigo guionista da sitcom 7 vidas, emitida pelo canal de televisão Telecinco entre 1999 e 2006. A influência das historietas televisivas de costumes nota-se em alguns diálogos e na selecção dos actores e, porventura, afecte aqui e ali a qualidade do filme. Não é a melhor interpretação de Javier Cámara (mais conhecido em Portugal pela sua participação em Hable con Ella, de Pedro Almodóvar), mas é mais do que suficiente para demonstrar o porquê deste actor ser dos mais notáveis do panorama cinematográfico e televisivo em Espanha. Não sendo um filme excepcional, o humor, a ironia, a ode à amizade e a capacidade de identificar motivos para sorrir em contextos de dor fazem de La Torre de Suso um filme que vale a pena.

 

Realizador: Tom Fernández

Elenco: Javier Cámara, Malena Altério, Gonzalo de Castro, José Luis Alcobendas, César Vea

Ano: 2007

Prémios Goya: 3 nomeações na 22ª edição dos prémios Goya (2008) – Melhor Realizador Revelação, Melhor Actor Secundário e Melhor Actor Revelação. Não obteve qualquer galardão.

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Cine-Espanha (2) - El Lobo

por Diogo Noivo, em 23.02.16

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Baseado na vida de Mikel Lejarza, também conhecido como Gorka ou ainda pelo nome de código Lobo. Foi a primeira “toupeira” infiltrada pelos serviços de informações espanhóis na estrutura dirigente da organização terrorista ETA.

Os factos históricos de interesse são muitos, mas podem ser resumidos com alguma simplicidade. Vivia-se a primeira metade da década de 1970, o estertor final do regime de Francisco Franco. A radicalização da sociedade basca em torno do nacionalismo separatista atingia uma dimensão inédita e a ETA engrossava as suas fileiras. O serviço de informações SECED (predecessor do CESID que, por sua vez, antecedeu o actual CNI) envia para o País Basco um conjunto de operacionais com avultados “fundos reservados” destinados a recrutar informadores locais. Mikel Lejarza, um jovem apolítico sem preparação militar ou policial, foi um dos alistados. Respondeu pelo nome Gorka na ETA, sendo o Lobo para a espionagem espanhola. Em 1975, por resultado directo das suas actividades, mais de 150 terroristas acabaram detidos, entre os quais Ezkerra e Wilson, dois dos mais procurados pelas autoridades. Lejarza é condenado à morte pela ETA, que inunda o País Basco com cartazes onde se vê a sua fotografia titulada pela frase “Se Busca”. O estrago causado na organização terrorista foi de tal ordem que desde então os comandos etarras levariam sempre consigo uma bala de reserva destinada a matar o Lobo. Finda a Operación Lobo, Mikel Lejarza muda de identidade, submete-se a várias cirurgias plásticas e exila-se algures na América Latina, onde ainda viverá.

 

Embora inspirado em factos reais, o filme não é exactamente uma biopic. À personagem de Mikel Lejarza é dado o nome de Txema Loygorri (interpretado por Eduardo Noriega). O guião prestou-se a esta e outras liberdades criativas. Porém, enquanto relato histórico, filme tem méritos. El Lobo é suficientemente fiel aos factos, sendo inatacável na atenção dada à reconstituição cénica da época. E, tratando-se de um thriller de acção com declaradas ambições comerciais, louva-se o zelo com que o enredo é enquadrado no momento político vivido na altura.

A este respeito é de destacar um diálogo entre Lejarza/Loygorri e Ricardo (José Coronado), o agente que recruta e cria o Lobo. O agente das informações espanholas argumenta que o terrorismo é necessário, se não essencial, face à mudança política que se avizinha. De facto, para os sectores franquistas instalados no aparelho de Segurança e de Defesa de Espanha, o terrorismo etarra foi um dos argumentos evocados para tentar atrasar – e descarrilar – o processo de transição democrática. Ao desferir um golpe tremendo na estrutura da ETA, o Lobo foi um dos responsáveis por retirar importância e apelo a esse argumento. Portanto, ainda que a acção se desenrole com o ritmo frenético dos filmes de acção e o personagem principal cumpra todos os clichés do herói solitário e perseguido, o guião evita o facilitismo de uma história isolada, asséptica e monocromática.

A melhor forma de resumir Lobo está nas palavras do seu produtor executivo Melchor Miralles:Pretendíamos una narración fiel a lo ocurrido, pero que dispusiera de los elementos de ficción necesarios, imprescindibles para que el espectador pueda divertirse viendo un thriller político con acción y contenido, podríamos decir que con una concepción de la narración cinematográfica más americana que española.” Na opinião de espectador, missão cumprida.

 

Curiosidade: Dois anos depois de El Lobo, o realizador Miguel Courtois reincide na ficção baseada em histórias verídicas relacionadas com a ETA ao dirigir o filme GAL. O actor José Coronado também regressaria ao universo ficcional sobre a ETA com o filme Todos Estamos Invitados – está longe de ser uma peça cinematográfica de excelência, mas creio ser dos melhores retratos feitos a um País Basco subjugado ao autoritarismo etarra.

 

Realizador: Miguel Courtois

Elenco: Eduardo Noriega, José Coronado, Silvia Abascal, Mélanie Doutey, Patrick Bruel, Jorge Sanz

Ano: 2004

Prémios Goya: 5 nomeações na 19ª edição dos prémios Goya (2005). Venceu em duas categorias – Melhor Montagem e Melhores Efeitos Especiais.

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Cine-Espanha (1) - La Isla Mínima

por Diogo Noivo, em 16.02.16

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La Isla Mínima foi uma das grandes apostas do festival de cinema de San Sebastián e a grande vencedora dos prémios Goya de 2015. No entanto, o filme prometia pouco.

O enredo é básico e está estafado: dois polícias atormentados investigam um assassino em série. A crítica baixava ainda mais as expectativas ao descrever o filme como uma “adaptação” ao grande ecrã e à realidade espanhola da série norte-americana True Detective – os menos polidos falavam até em “cópia descarada”. O ruído provocado pelas semelhanças levou o realizador Alberto Rodríguez a esclarecer – com notória irritação – que nunca viu a série protagonizada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson e, por isso, as comparações eram mal-intencionadas. Esclarecimentos à parte, o ambiente, a dinâmica entre os dois personagens, a crueldade dos crimes e a época retratada em La Isla Mínima tornam impossível não estabelecer paralelos entre o filme e a saga policial da cadeia televisiva HBO.

Contudo, a crítica inicial não prejudicou o filme. Ajudou-o. Fez com que um filme bom fosse também uma surpresa muito agradável. Com as margens do Guadalquivir em pano de fundo – tão presentes que acabam por assumir o estatuto de personagem – e ambientado em plena Transición, o filme adquire uma identidade própria e sobressai pela qualidade das interpretações, pelo rigor da recreação cénica e política da Andaluzia pós-franquista e, principalmente, por pegar num argumento simples e impor-lhe um ritmo que agarra o espectador do princípio ao fim. Outro aspecto digno de registo, que muito contribui para a identidade própria do filme, é a influência discreta do contexto social espanhol da década de 1980 na composição dos personagens, especialmente dos criminosos e das vítimas. A fotografia é exemplar e presta uma justa homenagem ao trabalho de Atín Aya, mestre do fotojornalismo espanhol, recordado no El Confidencial como o fotógrafo “en blanco y negro en un país que no conseguía coger color”.

Depois de 7 Vírgenes (2005), de After (2009) e de Grupo 7 (2012), La Isla Mínima consagra o cineasta sevilhano Alberto Rodríguez como um realizador obrigatório do cinema espanhol.

 

Realizador: Alberto Rodríguez

Ano: 2014

Elenco: Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, Antonio de la Torre, Jesús Castro, Nerea Barros.

Prémios Goya: 17 nomeações na 29ª edição dos prémios Goya (2015). Venceu em 10 categorias, entre as quais Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Guião Original. É o terceiro filme com mais galardões na história dos Goya, lugar partilhado ex aequo com Blancanieves (2013).

 

NOTA: No dia 6 deste mês foram entregues os galardões da 30ª edição dos Prémios Goya, os Óscares do cinema espanhol. Aproveito a ocasião para iniciar uma série de posts sobre filmes nomeados. Não seguirei qualquer ordem. Bons ou maus, escreverei apenas sobre aqueles que vi.

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