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Vacinação: a única escolha civilizada

por João André, em 19.04.17

Li hoje, atrasado como costumo estar no que respeita a notícias vindas de Portugal, que uma jovem de 17 anos morreu devido a sarampo, contra o qual não estava vacinada. De permeio leio também que contraiu a doença devido ao contacto com uma bebé de 13 meses igualmente não vacinada. Aqui é importante realçar que nem a bebé nem a jovem foram vacinadas por motivos não pessoais: a jovem tinha tido uma reacção alérgica quando vacinada em criança e a família escolheu não mais avacinar. A bebé não foi vacinada por «motivos clínicos», de acordo com o hospital onde ainda está internada.

 

É importante fazer esta distinção. A reacção alérgica às vacinas é rara mas existe. Poderia provavelmente ter sido controlada e não significaria que a jovem não podia ser vacinada. Antes que a sua vacinação (provavelmente parcial) deveria ter sido acompanhada por um médico. Não sei se poderia ter sido protegida contra o sarampo, mas talvez pudesse ter tido outras protecções imunitárias. Não sabemos. No caso da bebé, os motivos clínicos são provavelmente devido a um sistema imunitário mais frágil e que não suporta mesmo as vacinas com os seus agentes em forma mais atenuada. A morte (e a doença da bebé) é um azar na sua mais pura forma mas não deixa de ser uma tragédia.

 

É no entanto uma tragédia que coloca o país a falar dos movimentos anti-vacinação. Estes movimentos argumentam muita coisa, mas baseiam-se essencialmente numa coisa: ignorância. Há o velho argumento (completamente falso) da ligação entre vacinas e autismo. Há o argumento do uso de químicos nas vacinas (até eu tenho reservas em relação ao uso de monóxido de dihidrogénio) que demonstram pura ignorância (e estupidez na forma como rejeitam argumentos) sobre aquilo que é química (tudo o que vemos é "químico"). E quando os argumentos são, todos eles e sem excepção, desmontados, os antivaxx simplesmente escolhem outro tema, usam argumentos ignorantes ou falsos e voltam a gritar.

 

Infelizmente isto está a causar um aumentos dos surtos de doenças que há muito tinham quase desaparecido. Sarampo, tosse convulsa e outras começam cada vez mais a reaparecer, quando estavam já a caminho de erradicação (pelo menos em determinadas áreas). Se há área da medicina onde o sucesso é completa e absolutamente indiscutível é o das vacinas. Sabemos porque razão as vacinas funcionam e sabemos porque razão a vacinação de uma população é eficaz. Os vacinados ficam protegidos (a quase 100%, dependendo da doença) e protegem-se uns aos outros e aos (idealmente muito poucos e por razões clínicas) que não são vacinados.

 

Não vacinar por opção não é só estupidez: é um acto potencialmente perigoso e mortal, não só para a criança não vacinada mas também para os outros. Ao não se vacinar uma população, as pessoas não vacinadas deixam de receber a protecção da vacina nem a imunidade colectiva, mas permitem aos agentes patogénicos trocar informação e adaptar-se à existência de vacinas. Ou seja, a não vacinação aumenta o risco de forma directa a quem não é vacinado, de forma indirecta a quem não pode ser vacinado e de forma mais subtil a toda a população, inclusive a vacinada.

 

É por isso que, ao contrário do Ministro da Educação, eu sou da opinião que as escolas deveriam exigir a vacinação aos seus estudantes. Um rastreio deveria obviamente ser feito para saber se a vacinação é possível, mas nos cerca de 99% dos casos em que o é, as crianças ainda não vacinadas deveriam sê-lo sob pena de não poder frequentar a escola.

 

Haverá muita gente que considerará isso um ataque à liberdade individual. Infelizmente tais pessoas demonstram igualmente ignorância. A vacinação, como expliquei acima, não é um escolha pessoal, que afecta apenas a pessoa não vacinada. É uma questão de saúde pública. Mais, a escolha não afecta directamente a pessoa que a faz, mas habitualmente os seus filhos. Da mesma forma que pais de uma criança que viage sem cinto no assento da frente de um carro podem ser responsabilizados criminalmente no caso de morte por acidente, os pais deveriam ser igualmente responsabilizados no caso dos filhos contraírem doenças contra as quais poderiam ser vacinados.

 

Poucas invenções fizeram tanto para melhorar o mundo. O lado da vacina é o da civilização inteligente e solidária. O lado anti-vacinação, seja pelas razões que for, é o da barbárie. É nosso dever lutarmos pela primeira. Por nós, pelos nossos filhos e por toda a gente que vemos.

 

Adenda importante:

Leitura complementar, obrigatória e muito melhor e mais informada: Moda anti-vacinas é chorar de barriga cheia, de David Marçal. A sério, leiam, fazem a vós mesmos um favor.

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A árvore e a floresta

por João André, em 20.01.17

Vou a caminhar pelo Pinhal de Leiria e a certa altura, ao passar por uma clareira, dou de caras com uma sequência de eucaliptos. Sigo através deles por mais uns 10 ou 200 metros e regresso aos eucaliptos. Dou um suspiro. O Pinhal de Leiria não se transformou num Eucaliptal de Leiria.

 

Muita gente que fala da neve no Algarve no âmbito das alterações climáticas teria a visão oposta.

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Lysenko-Trumpismo energético

por João André, em 19.01.17

Lysenko

No final dos anos 1920, um homem chamado Trofim Lysenko (deveria escrever-se Lissenko mas manterei a grafia inglesa) ascendeu a posições de poder na União Soviética. Lysenko era supostamente um agrobiólogo que rejeitava as teorias genéticas de Mendel e preferia uma visão ideologicamente mais em linha com a ortodoxia política.

 

Nesta visão, a evolução acontecia não por aleatoriedade e selecção natural, mas como resultado das experiências de vida dos progenitores. Na sua visão original, postulada por Lamarck, o exemplo era o do pescoço da girafa, que tinha vindo a alongar-se porque ao ser esticado para chegar aos ramos mais altos, as girafas promoviam a sua extensão, característica que passavam aos filhos.

 

Lysenko usou estas teorias, tão do agrado de quem se propunha a desenvolver um novo tipo de homem e de sociedade, para avançar a sua posição e implementar acções que terão sido tão responsáveis pela fome nos anos 30 (que recebeu o nome de Holodomor na Ucrânia) como as políticas económicas implementadas. Entre outras fantasias os cientistas "lysenkistas" (os outros eram aprisionados - se tivessem sorte) afirmavam ser capazes de converter centeio em trigo e trigo em cevada. Ou que poderiam converter trigo de Verão em trigo de Inverno (apesar da sua diferença genética), tudo isto numa única geração. O resultado destas políticas foi não só fome mas também um enorme atraso científico nas áreas da biologia, bioquímica e genética que ainda não terá sido devidamente compensado.

 

Trump

A partir de amanhã, Donaldo Trump terá o poder de começar a cumprir a sua promessa de mudar a orientação energética dos EUA para os combustíveis fósseis. É obviamente difícil de prever qual o resultado final, mas a vontade aparente de Trump em promover as indústrias do carvão e petróleo em prejuízo das energias renováveis (ou mesmo do gás natural, fóssil mas mais limpo) terá essencialmente dois resultados:

1. Os EUA passarão a poluir muito mais que até agora. Isso terá consequências de muito longo prazo na qualidade do ar e água, e no clima a nível mundial.

2. Os EUA ficarão para trás no desenvolvimento tecnológico das energias renováveis, o que terá consequências também em outras áreas tecnológicas e afastará muitos talentos do país.

 

Esta inclinação de Trump parece vir da sua incapacidade de compreender as novas tecnologias (o uso de Twitter não conta) e da sua tendência para um populismo com pouco contacto com a realidade. Tal como li noutro lado, a indústria do carvão já atingiu um tal nível de automatização que qualquer reactivação da mesmo nos EUA, mesmo no alcance que Trump prometeu, não traria mais que uma fracção dos empregos do passado. Pior que isso, no entanto, é o facto de as energias renováveis e adjacentes estarem, finalmente, maduras o suficiente para poderem substituir os combustíveis fósseis.

 

table comparison energy costs.JPG
Fonte 

 

Não vou aqui alongar-me com as questões dos custos da energia renovável (fica para outro post) e deixo apenas um gráfico (acima). O essencial da minha reflexão prende-se com a influência que uma visão ideológica e retrógrada sobre um aspecto de ciência e tecnologia terá nos restantes e no país em geral. Não se trata apenas da vontade de desinvestir na geração de conhecimento na área das energias renováveis. Trump promete também cortar os fundos que a NASA dedica ao estudo das alterações climáticas, o que ultimamente resultará num enorme défice de conhecimento que terá repercussões também no desenvolvimento das tecnologias do espaço.

 

Outras áreas que sofrerão serão a ciência dos materiais, diversas áreas de engenharia (civil, mecânica, naval, etc), os estudos do clima e metereologia, a área de big data e computer learning (ambos fundamentais para prever padrões de vento e exposição solar e optimizar os sistemas), acabando nas ciências fundamentais, uma vez que química, física e matemática beneficiam colateralmente dos fundos gastos no desenvolvimento das tecnologias renováveis.

 

O futuro poderá ser um em que o centro do conhecimento das energias do futuro não estará nos EUA mas sim na Europa, China, Japão, Brasil e/ou outros países ou regiões. Uma vez que o principal recurso do planeta é a energia, com a sua obsessão pelo carvão, Trump poderá fazer mais para comprometer os EUA com estas suas opções puramente ideológicas do que com qualquer outra escolha política ou ideológica.

 

Basta perguntar aos russos órfãos de Lysenko.

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O estado da arte da Ciência

por João André, em 31.10.16

No seu melhor a ciência deve procurar dar respostas a perguntas e, idealmente, descobrir novas perguntas que nos direccionem para novas áreas de conhecimento. A melhor forma de o conseguir é seguir o método científico. Analisar a pergunta, formular uma hipótese, testar a mesma e analisar os resultados. Tirar conclusões e repetir o processo. Nunca chegamos ao fim porque mesmo que os resultados confirmem perfeitamente a hipótese e respondam perfeitamente à questão, haverá sempre novas perguntas a responder.

 

Seguir simplesmente este processo é essencialmente inútil, há que disseminar a informação. De tempos a tempos são descobertos documentos de cientistas do passado que não se deram ao trabalho de publicar ideias ou resultados e que, se o tivessem feito, poderiam ter avançado o conhecimento numa determinada área por décadas. A forma ideal de disseminação de conhecimento é a revisão por pares, ou peer review no termo inglês mais em uso. Este método habitualmente funciona bem porque os revisores têm interesse em permitir apenas que a boa ciência seja publicada, dado que ajuda também os seus trabalhos.

 

No seu estado mais perfeito a revisão pelos pares é simples: um cientista (ou grupo) submete um manuscrito a um jornal, este pede a outros cientistas, com outras publicações no currículo, que examinem o mesmo e ofereçam as suas opiniões. Estas podem ser simples aprovações ou rejeições do trabalho na presente forma ou sugestões de correcções ou pedidos de esclarecimento. No final do processo, a palavra final é do editor do jornal, que habitualmente segue a opinião consensual e decide em que número o trabalho será publicado.

 

 

 

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Continuando com a série, explicarei agora quais os tipos de membranas existentes. Primeiro falando da técnica em uso e depois, noutro post, do material em si.

 

2.1. Tipos de membranas - Técnica

As membranas podem ser divididas em membranas para aplicações com líquidos e membranas para aplicações com gases. As aplicações com líquidos são as mais comuns e é o campo onde se encontra o tratamento de água. De forma geral, com líquidos, pode-se falar em 4 tipos de membranas, dependendo do tipo de componentes a que são permeáveis. Esta separação está apresentada graficamente na imagem abaixo. Nota para quem queira ler o resto do texto, as explicações vão-se tornando algo técnicas, mesmo que eu tente deixá-las o mais simples possível.

 

Tipos Separacao.jpg

 Tipos de separação possíveis com cada tipo de membrana, baseados no tamanho dos componentes a separar.

 

Já acerca de membranas de outros tipos (separação de gases, usando electricidade ou outras), escreverei noutra altura.

 

 

Foi há já muito tempo que publiquei o primeiro post. Agora, finalmente tive o tempo, a disponibilidade e a motivação para completar o segundo post. Apenas posso desejar que o próximo não dure tanto tempo.

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CLYxWhF.jpg

 A fotografia acima foi retirada de um post no LinkedIn. A legenda conta a história:

«Wolf pack & strategy: The first 3 are the older or sick & they set the pace of the group. If it was on the contrary, they would be left behind and lost contact with the pack. In ambush case they would be sacrificed. The following are the 5 strongest. In the center follow the remaining members of the pack, & at the end of the group the other 5 stronger. Last, alone, follows the alpha wolf. It controls everything from the rear. That position can control the whole group, decide the direction to follow & anticipate the attacks of opponents. The pack follows the rhythm of the elders & the head of command that imposes the spirit of mutual help not leaving anyone behind.»

 

Infelizmente a história é falsa e completamente inventada. A fotografia foi tirada por outro fotógrafo (Chadden Hunter) que não o citado (Cesare Brai) e faz parte da série de David Attenborough Frozen Planet. Não vou explicar muito sobre a foto e a história em si. Para tal, mais detalhes aqui.

 

A foto pareceu-me desde o início excessivamente limpa, clara e perfeita para a explicação. Por isso investiguei se seria verdadeira. Depois de explicar a realidade no post, fui atacado por não perceber o valor simbólico da metáfora e foi-me dito, incrivelmente, que a exactidão da história não era importante.

 

Isto é para mim difícil de entender: como é possível que a exactidão, a veracidade de um relato não seja importante? Se queremos histórias inspiradoras e didácticas podemos refugiar-nos em parábolas ou fábulas. São criadas para tal e, apesar da falta de fotografias que se partlhem na net, estão habitualmente muito melhor escritas.

 

A minha dificuldade é que, perante a falta de compreensão da fotografia, e mesmo aceitando a descrição como real, eu poderia virar a história ao contrário: os mais velhos existem para ser sacrificados, o/a alfa (figura que na realidade não existe) merece que se morra por ele/a e pode e deve controlar tudo. Interpretando a história falsa de outra forma pintamos uma imagem bastante desagradável. Especialmente quando a realidade basta: o líder segue na frente, usando a sua força para abrir um caminho que os restantes - que não são subordinados - seguem.

 

A net é uma fonte de informação mas a maioria usa-a como fonte de desinformação. Uma forte parte do problema é a incapacidade de usar alguma medida de espírito crítico que permita questionar o que nos chega às mãos (ou olhos). Não é, na minha experiência, exclusivo de nenhuma sociedade ou cultura, mas tende a ser tanto mais pronunciada (de novo, de acordo com a minha experiência) quanto menor for a formação científica.

 

O método científico, com todas as suas falhas, ensina antes de mais a questionar observações e a formular hipóteses que devem ser testadas. Isto é válido para um laboratório e para o cientista que faz as suas culturas num disco de Petri, mas também para o leitor genérico que vê um post no Reddit ou LinkedIn ou Facebook. A ignorância nunca é um pecado nem um defeito (todos somos vastamente mais ignorantes que conhecedores), mas a falta de espírito crítico ou de vontade de pensar é um dos maiores males modernos.

 

lincoln_internet_quote.jpg

Só esta citação para terminar. Lincoln sabia da poda.

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É tudo uma questão de exposição

por João André, em 22.06.15

O Verão começou ontem, no solstício de Verão. Ao contrário do que ainda se vai pensando, não estamos mais próximos do Sol. É verdade que ao longo do ano nos vamos aproximando e afastando do Sol, mas não são 6 meses de aproximação (até ao Verão) e 6 meses de afastamento (até ao Inverno). Antes 3 meses de aproximação e 3 meses de afastamento que se repetem. A realidade é que nos equinócios de Outono e Primavera estamos mais próximos do Sol que nos solstícios de Verão e Inverno, os quais têm lugar quando a Terra está à mesma distância do Sol, apenas em pontos opostos. A lógica de o Verão ser equivalente a proximidade do Sol parece simples, mas é uma falácia: na mesma altura do ano, o outro hemisfério do planeta está no Inverno, isto apesar de estar tão próximo do Sol quanto aquele que se encontra no Verão. A diferença de temperaturas não é devida à proximidade, mas ao ângulo que o eixo da Terra apresenta. Este ângulo é o verdadeiro responsável pelas estações. Graças a ele, a Terra vai recebendo quantidades diferentes de radiação solar ao longo do seu processo de translacção. É esta variação das quantidades de sol que provocam o aquecimento (ou arrefecimento) de um hemisfério. Também ajudam a perceber porque razão não é o dia do solstício de Verão o mais quente nem o do solstício de Inverno o mais frio: a radiação solar demora tempo a ser absorvida pelos oceanos, pela atmosfera e pela biosfera, criando assim um atraso no efeito de temperatura. A única certeza que vamos tendo é que o dia de hoje será mais curto que o de ontem e o de amanhã mais curto que o de hoje. Isto numa progressão inexorável até que a Terra se encontre o ponto oposto da sua órbita em torno do Sol. Nessa altura teremos dias muito curtos mas que irão aumentando e duração até dentro de 364 dias, num ciclo que se repetirá ad aeternum até que o Sol um dia (possivelmente, não se sabe) engola a Terra. Nesse dia sim, o Sol estará perto o suficiente para se poder falar de Verão ligado à proximidade do Sol. Infelizmente já não haverá metereologistas para fazer previsões acertadíssimas. Felizmente a crise terá acabado.

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O progresso

por José Navarro de Andrade, em 23.02.15

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Este folheto do Radio Shack, retalhista de electrónicas nos EUA, data de 1990. Hoje todos estes aparelhos e gadgets estão condensados dentro de um telemóvel.

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A questão do amor ou o amor em questão

por José Navarro de Andrade, em 15.02.15

Fica então resolvida de vez uma questão que tem afligido a humanidade, o sector euro-caucasiano dela e seus influenciados, pelo menos.

No dia 9 de Janeiro deste ano a escritora e investigadora Mandy Len Catron publicou no NY times o ensaio “To Fall in Love, With Anyone, Do This”, que num piscar de olhos disparou para os oito milhões de visitas, assim provando que correspondia a uma necessidade premente das populações leitoras daquele diário. Não se tratava de uma frivolidade, pois a peça estribava-se num estudo cientificamente académico (ou vice-versa) - cuja inapelável seriedade inscreve-se logo no título: “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings” - publicado pelo Professor Arthur Aron e sua equipa (de passagem demonstrando que hoje em dia só se pode alegar uma ideia com a caução de um estudo e que há estudos para caucionar tudo). De seguida, num gesto de generosidade e fidúcia, o jornal oferece à puridade uma app que permite a qualquer par de indivíduos apaixonar-se ao fim de 36 perguntas e quatro minutos de jogo do sisudo.

Embora o instinto de defesa nos leve a iludir o facto, todos sabemos que as noções de “amor” e “felicidade”, tal como apaixonadamente as diligenciamos e vivenciamos no nosso dia-a-dia, foram inventadas no séc. XVIII, por poetas que as implantaram na Idade Média (época que eles fantasiaram com inigualável arte), prosseguindo hoje o debate para determinar em que proporção as devemos a Rousseau, a Goethe ou a Byron. Há mais de 200 anos, portanto, ou só há 200 anos…, que andamos com os humores cerebrais atribulados por esta idealização romântica, a qual não deve ser confundida com o amor bíblico de Deus pel@s human@s, embora canonicamente um bocadinho mais por eles do que por elas, ou o amor instintivo e biológico de mãe pelas crias.

Uma das crises mais perturbantes da vida moderna é assistir ao espectáculo de pessoas apoquentadíssimas com os seus sentimentos, prolongando melancolicamente pela vida adulta os avatares da adolescência, fase em que as hormonas e as utopias desarranjam o entendimento. Esta situação é tão comum e preocupante que pelo menos três indústrias (a literária, a musical e a cinematográfica, em suma: toda a cultura) se têm dedicado com persistência e argúcia dissecá-la. Em Portugal apenas a Sra. D. Margarida Rebelo Pinto porfia nesta matéria, com tão pouco sucesso e muito menos resultados financeiros do que os seus congéneres mundiais.

Pois é tudo isto – quase 3 séculos de apaixonado labor, caramba! – que o NY Times e Mandy Len Carter desmobilizam numa penada.

Assim sendo, façamos todos o teste e arrumemos o assunto. Uma coisa é certa: sairá mais barato do que o bilhete para o filme “Anatomia de Grey” que já de si é mais económico que um conjunto de lingerie da Victoria’s Secret.

 

PS – Espero que no dia dos namorados o leitor tenha comprado no comércio local produtos vegetarianos e orgânicos – vê como é simples adquirir um estado de beatitude moral?

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O maravilhoso mundo das membranas (1)

por João André, em 06.11.14

Nunca o tinha feito antes, mas gostaria de deixar pela primeira vez uma explicação sobre a minha área de trabalho: tecnologia de membranas. Tentarei descrever um pouco do que se trata e quais as aplicações. Não sei, no momento em que escrevo, se sairá apenas um post ou vários (provavelmente será este o caso). Seja como for, penso que será uma lufada de ar fresco (para mim) sair dos temas políticos e escrever por uma vez sobre um tema que me fascina.

 

Porous membrane.jpg

 Imagem de uma membrana porosa feita com um microscópio electrónico. Na parte superior da imagem está a superfície da membrana e na parte inferior a estrutura interna vista por corte transversal. 

 

1. O que é uma membrana?

Comecemos por esclarecer que as membranas de que falo são membranas sintéticas, ou seja, produzidas - sintetizadas - pelo Homem. As membranas celulares partilham muitas das características que descreverei (falarei talvez um pouco delas a certa altura) mas são consideravelmente mais eficientes e estruturalmente diferentes das que os humanos produzem. Noutras situações, há quem se refira a membranas ou difragmas de forma alternada. A nomenclatura não estará errada em determinados campos tecnológicos, mas diafragmas são barreiras frequentemente absolutas, não permeáveis dentro das condições utilizadas. São por exemplo utilizadas como uma barreira flexível em bombas (das que bombeiam, não das que explodem) e não se pretende que deixem passar componentes.

 

 

 

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Da pequenez (2)

por João André, em 08.07.14

Na sequência do post anterior e dos diálogos na caixa de comentários, veio-me à memória uma passagem do livro A Short History of Nearly Everything, the Bill Bryson (lamento, li-o em inglês e não estou para ver qual o exacto título em português). Nele o autor brincava com a ideia de aliens a virem à Terra para marcar campos de trigo ou assustarem humanos com shows de luzes. As distâncias no espaço são tão grandes que ele justificava tais acções apenas com a possibilidade de os aliens também passarem pela adolescência.

 

A realidade é que as distâncias são ridiculamente grandes uma vez no espaço. O objecto humano mais rápido de sempre é a sonda Voyager 1, que viaja a cerca de 59 mil km/h e foi laçada há perto de 37 anos. Neste momento está no que já se chamou de espaço interestelar, ou seja, de certa forma está para lá dos limites do sistema solar. Isto se o sistema solar for visto como um espaço dominado por partículas solares. Se o observarmos como a zona de influência da gravidade do sol, as sondas estão longe, muito mas mesmo muito longe de ter saído do sistema solar - falta a nuvem de cometas Oort (apenas uma hipótese).

 

Que quer isto dizer? Bom, que qualquer exploração espacial, com base na ciência moderna, é absolutamente impossível. As sondas Voyager atingiram as suas velocidades graças ao efeito de "fisga" quando passaram por cada um dos planetas gigantes, assim acelerando. Estes efeitos seriam quase certamente impossíveis com humanos a bordo: as acelerações atingidas matariam qualquer pessoa. Mesmo que fossem possíveis, estamos a falar de viagens para lá da nuvem de Oort, que se situará a cerca de 20 mil unidades astronómicas (UA) de distância, ou seja, 20 mil vezes a distância da Terra ao Sol (que é de cerca de 150 milhões de km). A luz do sol demora cerca de 115 dias a chegar a este ponto. É longe.

 

No entanto estamos apenas nos limites do sistema solar e a própria nuvem de Oort extender-se-à por mais umas 30 mil UA, ou seja, 150% da distância até lá chegar. A luz do sol demoraria então nove meses e meio a chegar aos limites do sistema solar. E não chegámos ainda a lado nenhum em especial, ainda falta ir às outras estrelas.

 

O que significa que, perante a ciência conhecida (e não simplesmente imaginada, como no caso de viagens mais rápidas que a luz ou através de buracos negros), qualquer viagem até outras estrelas nunca poderia ser atingida no espaço de uma única vida humana. Nem sequer no espaço de mais vidas humanas. Provavelmente necessitaríamos de várias gerações para chegar a qualquer outro lugar com um mínimo de interesse. E quando esses descobridores lá chegassem, o mais provável seria que não valesse a pena informar ninguém na Terra, uma vez que devido a efeitos relativistícos (alguém de física que os explique melhor) seria bem possível que tivesse passado muito mais tempo na Terra do que aquele que os viajantes tivessem sentido.

 

Isto tudo para me levar à minha conclusão: a Humanidade nunca explorará pessoalmente o espaço para lá dos confins do sistema solar. Mesmo que um dia os nossos descendentes futuros cheguem a fazê-lo, o mais provável é que nessa altura já não sejam humanos como os definimos hoje, como homo sapiens. Terão evoluído naturalmente ou guiados pela tecnologia. O seu sentimento pelo nosso planeta, ao chegar a outro que fosse potencialmente habitável, seria talvez um de misticismo ou mesmo de rejeição. Seria o de seres que olhavam para a Humanidade como aquilo que, à escala do Universo, realmente somos: tão pequenos que não teremos importância.

 

Claro, isto assumindo que a tecnologia nao avança muito mais depressa do que penso. Um dia destes veremos Passos Coelho a inventar a tecnologia warp no intervalo de uma reunião com Merkel e aí logo resolvemos os problemas da Humanidade e, quiçá, dos portugueses (mas continuaremos a não ganhar o mundial).

 

PS - Para quem tenha curiosidade, uma página que representa de forma espectacular o tamanho do sistema solar. Outra que dá uma ideia da escala de tudo.

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A (des)evolução das espécies

por João André, em 06.03.14

Há 150 milhões de anos em Portugal:

Dinossauro português dos tempos jurássicos foi o maior predador terrestre da Europa.

 

Actualmente:

 

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Uma boa notícia, para variar

por João André, em 13.02.14

A fusão nuclear começa a descobrir os caminhos para ser sustentável. Ainda há uma enorme distância pela frente, mas o futuro é mais risonho que há um par de anos.

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Passos Coelho: Mentiroso compulsivo

por João André, em 05.02.14

Evolução das bolsas de doutoramento em Portugal. Tirado daqui.

 

 

Evolução dos artigos publicados em Portugal. Tirado daqui. Encontrado aqui.

 

E faltava de facto o momento em que ele tinha que vir mentir. Não se trata de spin, não se trata de pintar a realidade, não se trata de apresentar uma realidade imaginada que se espera venha um dia a ser melhor que a realidade real. Trata-se de mentir.

 

Entre 1998 e 2012, a produção científica portuguesa, em termos de artigos publicados, triplicou. O número de bolsas (de doutoramento) em 1998 era de 763 e em 2012 de 1198. Um aumento de 57%. O pico de bolsas foi em 2007, com 2030 bolsas (aumento de 166% em relação a 1998). Ou seja, no período de 1998-2012, a produção científica triplicou. A atribuição de bolsas aumentou, no máximo, 2 vezes e meia. Não me parece nada mau resultado.

 

É verdade que Portugal continua atrás dos outros países «com que gostamos de nos comparar» (podem ser escolhidos a dedo, claro, mas aceitemos que estamos atrás de uma Grécia, por exemplo), mas isso não significa que a política falhou: antes pelo contrário, significa que ainda não se avançou o suficiente.

 

Note-se: eu não discuto neste post os méritos do financiamento público vs financiamento privado. Quem quiser defender que o privado seria mais eficaz pode fazê-lo. Passos Coelho poderia fazê-lo. Mas não, antes preferiu mentir com quantos dentes tem e dizer que mais financiamento não resultou em mais publicações. É mentira pura e dura. Não é política, é mentira.

 

Já o sabíamos: Passos Coelho é um mentiroso compulsivo além de ser um fanático ideológico sem qualquer ligação com o mundo real (além de ter na minha opinião um enorme défice intelectual). Esta história prova-o. Numa sociedade normal ele não só já não seria primeiro-ministro como nem sequer receberia um emprego como varredor de ruas. O pior insulto que faz aos investigadores portugueses, no entanto, é mesmo o facto de ter uma palavra a dizer no futuro deles.

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A opinião de um especialista em física aplicada sobre as declarações de Pires de Lima.

 

Os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento são sobejamente conhecidas e qualquer pessoa com um mínimo de lucidez reconhece o retrocesso que representam na busca de uma política moderna de conhecimento. Não vou entrar por aí nem pela questão de mais uma fuga de cérebros porque são assuntos óbvios e fáceis.

 

Prefiro referir as declarações inacreditavelmente ignorantes (ou outra coisa bem pior se não foram motivadas por ignorância) de Pires de Lima, o ministro da Economia. O essencial das suas declarações focava o facto de as bolsas não chegarem «à economia real». Apontar a Pires de Lima que o conhecimento nunca é mau e que se gera a si mesmo; que muitas descobertas científicas só têm aplicação prática muito mais tarde; que a aplicação de conhecimento em forma de resultados económicos é normalmente resultado de um processo cumulativo dedicado a gerar uma massa crítica; apontar todos estes aspectos é, penso eu, falar para a parede. Ou Pires de Lima não o compreende ou não quer compreender.

 

Há no entanto dois aspectos, muito práticos, que Pires de Lima deveria tentar perceber. O primeiro prende-se com os critérios de atribuição de bolsas a projectos, o segundo com os modelos de investigação em universidades e institutos.

 

1 - Quando se elabora um projecto de investigação é frequentemente necessário ver em que chamada se enquadra. Há chamadas dedicadas à ciência fundamental e chamadas dedicadas à ciência aplicada. As primeiras ajudam cientistas a descobrir pormenores sobre o efeito fotoeléctrico ou novas reacções químicas. As segundas usam as descobertas das primeiras para produzir melhores sensores ou novos materiais. Isto só falando das ciências naturais e engenharias (por desconhecimento evito outras ciências). Como se pode ver, é necessário gerar conhecimento fundamental para haver quem pense em como aplicar esse conhecimento. Os cientistas brilhantes capazes de fazer ambos num único passo pertencem ao domínio do cinema. Relembro que o cientista mais celebrado da história humana - Einstein, pois claro - nada fez no lado da aplicação, mas que as suas descobertas levaram a muitas aplicações que geram biliões à economia mundial.

 

Um outro aspecto a saber em relação às chamadas - e que descobri quando elaborei as minhas - é que muitas vezes o financiamento, mesmo quando para projectos que contem com empresas, não é atribuído se a entidade financiadora chegar à conclusão que o projecto não envolve risco e que as empresas o podem desenvolver independentemente. Ou seja, se uma empresa considera que pode pagar os custos do projecto e que os resultados são relativamente certos (há já muito boas indicações que a ideia funcionará), o projecto não será financiado. Não é função das entidades financiadoras (nacionais ou europeias) dar dinheiro que as empresas estão dispostas a pagar.

 

Ou seja, se o Estado (ou a UE, ou outro) não financiar certos projectos com um certo grau de risco, não serão as empresas a compensar esse financiamento. Como a maioria dos projectos já levam tal raciocínio em conta, resulta daqui que a esmagadora maioria dos projectos nunca começará porque ninguém os financiará.

 

2 - No passado, a Alemanha teve um modelo interessante de financiamento das suas universidades (especialmente as técnicas que, mais uma vez, conheço melhor). Além de terem criado 3 institutos de investigação com pólos por todo o país (Max Planck, investigação fundamental; Fraunhofer, aplicada; e Leibnitz, algures a meio) também criaram vários tipos de financiamentos para projectos científicos a nível estatal e nacional. As universidades têm portanto muito por onde escolher. Só que as universidades tinham uma outra fonte: as empresas. E como funciona(va) esta hipótese? Muito simplesmente as empresas decidiam desenvolver um novo produto, processo ou ideia e, em vez de encherem a empresa de investigadores que noutros períodos pouco teriam para fazer, dariam o dinheiro previsto no orçamento a uma universidade que faria a investigação. No final a empresa teria uma resposta e a universidade teria mais um doutorado (ou o doutorando teria mais um tema para a tese).

 

O problema é que as universidades começam cada vez mais a adoptar o modelo americano, o qual dá um peso enorme aos artigos publicados por peer-review. Nada tenho contra o sistema, que é a base da ciência moderna e serve simultaneamente de filtro de qualidade e de disseminação de informação. Para lá dos problemas que a internet e a pressão de publicar está a trazer a esse sistema (qualidade, preços, liberdade de informação, etc), também começa a destruir esse sistema de investigação aplicada que era patrocinado pelas empresas. As universidades têm como objectivo lógico a publicação (quanto mais artigos, melhores os resultados) e as empresas querem manter o segredo do que fazem. Disto resulta um conflito dificilmente sanável (que prejudica inclusivamente os trabalhos de mestrado em empresas, as quais exigem cláusulas de confidencialidade extremamente rigorosas) e que reduz substancialmente os incentivos das empresas para trabalharem com universidades.

 

Num exemplo muito simples, a Galp poderia não entrar num projecto juntamente com o Instituto Superior Técnico para desenvolver um aditivo para gasolina porque o IST quereria publicar os resultados e a Galp quereria mantê-los secretos. Numa empresa grande, isto não será necessariamente um problema (têm investigadores próprios), mas para muitas empresas pequenas isto pode ser uma catástrofe.

 

Conclusão: a esperada. Reduzir (especialmente desta forma) o financiamento da investigação científica em Portugal é um desastre. É-o sob muitos aspectos que vão desde a geração do conhecimento "for knowledge sake" à aplicação do mesmo como resultado de uma massa crítica no fim de um processo cumulativo. Mas é-o também por uma questão prática, porque a «economia real» não terá incentivos (especialmente em períodos de crise) para compensar essa redução. Em termos práticos, teremos um país menos inteligente, mais ignorante e com piores perspectivas de futuro (são jovens que se vão embora). Mais medieval, portanto. Como a cabeça de Pires de Lima.

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Nas últimas duas décadas, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), entidade pública financiada pelo Governo português e por fundos europeus, tem feito um esforço notável de promoção da investigação em Portugal, através da concessão de bolsas individuais, projectos de investigação, centros científicos, etc. O número de Doutorados em Portugal cresceu exponencialmente, aproximando-se dos números europeus. Nos últimos dois anos, a contenção orçamental obrigou a uma compreensível estagnação nos fundos alocados, mas permitindo ainda assim a continuação de uma aposta clara na ciência num país quase analfabeto. 

 

Tudo isto desabou nos últimos dias. A atribuição de bolsas individuais levou a cortes escandalosos e inexplicáveis. Bolsas de Doutoramento, durante anos atribuídas a mais de 1500 investigadores, desceram para 729 este ano (já incluindo os novos "Doutoramentos FCT"). E as bolsas de pós-doutoramento, estabilizadas em 700 por ano desde 2007, desceram para 238 este ano. O que projectam estes números? Que estratégia encerram? Que futuro permitem adivinhar?

 

Pires de Lima explica: "não é possível alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real"Estas declarações são todo um programa. Visam estabelecer uma dicotomia entre "fazer" e "pensar", dividir o mundo entre quem "produz" e quem "reflecte", quem "faz avançar" e quem "assiste", quem "empreende" e quem "se resigna", quem "cria" e quem "observa". Ficou por dizer que os investigadores não-produtivos (ou seja, todos os que trabalham nas ciências humanas e sociais e boa parte das ciências exactas teóricas) são uns preguiçosos, apreciadores do sofá. Mas lá chegaremos. 

 

Em 1822, há quase duzentos anos, escreveu James Madison, 4º Presidente dos EUA: "Um governo popular, sem informação popular, ou os meios para adquiri-la, não é senão um prólogo a uma farsa ou uma tragédia, ou talvez a ambas. O conhecimento governará para sempre a ignorância; um povo que deseje ser o seu próprio governante terá que se dotar do poder que o conhecimento oferece". Há dois séculos que os EUA têm sido campeões na promoção da ciência, com os resultados que se conhece. Neste cantinho à beira-mar plantado, regressámos à separação entre "ciência" e "vida real", a uma distorcida e divisão entre o "conforto" do mundo da investigação por contraste com a "dureza" do mundo empresarial. Eis um modelo do agir e do pensar nos antípodas dos ganhos civilizacionais, culturais e científicos conquistados nos últimos três séculos. Como é que chegámos a isto, a este triunfo da ignorância, à celebração do mais rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político?

 

Disclaimer: não fui afectado por nenhum destes concursos; usufruo de uma bolsa de pós-doutoramento desde 2010, cuja continuidade nada tem que ver com estes concursos.

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Saquem das camisolas de lã que afinal os cientistas estão todos errados e não há aquecimento global mas sim um arrefecimento global como prova o aumento do gelo do Ártico.

 

Certo? Bom, nem por isso. Vou tentar ser um pouco metódico e explicar algo que muitas vezes escapa no meio do ruído: as tendências climáticas não são feitas ano a ano. Especialmente por variarem com a estação, as comparações devem ser feitas ao longo de vários anos, preferencialmente décadas e idealmente séculos. É nessas escalas de tempo que os climatologistas se movem. Os meteorologistas (notaram a diferença nos termos?) podem falar em mudanças de climas em termos de horas, dias ou semanas, mas para os climatologistas, se a temperatura for de 35 graus hoje e 12 graus dentro de um ano, eles nem piscam os olhos. É como comparar a vida de um elefante com a de um mosquito.

 

Há no entanto mais questões a considerar. Parece que o aquecimento está a abrandar. Isso em si seria uma boa notícia. Repito para que fique claro: eu, que concordo com a existência de um aumento global das temperaturas no planeta e que concordo que tem origem antropogénica, ficaria muito feliz por estar errado. Eu e a esmagadora maioria dos cientistas que concordam com esta tese (e com muito melhores argumentos). Esses cientistas, na ausência de financiamento para estudar o aquecimento global, teriam financiamento para estudar outros fenómenos. O dinheiro não desaparece e ainda há muito para compreender no clima.

 

Ainda assim, vou abordar os pontos em questão. Primeiro ponto, o "aumento" do gelo no Ártico. Primeiro que nada, como se refere neste artigo, a "recuperação" do gelo é relativa. Há mais área gelada que no ano passado, mas ainda é muito pouco gelo. Por outro lado há a questão da espessura: sabemos que se houver menos área, teremos quase de certeza menos volume de gelo. Se a área aumentar, isso não significa que o gelo seja espesso, pelo que o volume total de gelo pode ser reduzido. Não há ainda evidências numa ou noutra direcção, mas serve para arrefecer ânimos (bad pun alert). Resumindo: há mais gelo que no ano passado mas ainda é muito pouco. Há mais área com gelo, mas não temos dados sobre o volume. Conclusão científica? Nenhuma: teremos que esperar mais uns anos.

 

Temos agora a questão do abrandamento do aquecimento. Os cientistas não sabem por que razão o aquecimento está a abrandar, mas isso não é o mesmo que dizer que não vão estudar as hipóteses que estão a formular. Os cientistas, por natureza, não dão opiniões profissionais sem terem uma boa noção daquilo que vão dizer. Nisto diferem dos opinadores profissionais e amadores, que dão opiniões opostas em dias consecutivos porque são pagos (ou não) para darem opiniões de forma interessante, não pela qualidade ou exactidão das mesmas. É por isso que os cientistas não se excitam quando começam a ver os sinais de aquecimento global (já têm décadas) e não se excitam quando este começa a abrandar. São apenas novos dados para tentar estudar o que se passa.

 

O que se poderá então estar a passar? Não sou climatologista, apenas um engenheiro químico, mas poderei avançar algumas hipóteses:

1. Ciclos solares: são ainda mal entendidos e o actual ciclo solar poderá corresponder a uma diminuição da energia que o Sol envia para a Terra. As temperaturas poderão descer. Isso poderá também significar que o efeito do CO2 antropogénico é menor que o previsto.

2. Oceanos: caso nos estejamos a esquecer, os oceanos cobrem cerca de 70% da superfície da Terra. Aliás o planeta poderia muito bem chamar-se "Água" (como refere Bill Bryson). Estes, especialmente devido às propriedades termodinâmicas da água (não vos vou aborrecer com isso) e à influência da vida, poderão estar a absorver o CO2 ou simplesmente a absorver o excesso de calor (são como um reservatório de frio, se quisermos). A sua influência não tinha sido correctamente descrita em modelos anteriores e por isso as previsões podem falhar.

3. Evaporação e degelo: mais uma vez devido à termodinâmica, quando uma substância derrete ou evapora, precisa de uma determinada quantidade de calor (pensem na acetona a arrefecer a mão enquanto evapora). Esta contribuição pode não ter sido levada em conta. Por outro lado, uma das consequências do aquecimento são as alterações climáticas, as quais podem estar a levar à presença de mais nuvens. Ainda que o vapor de água também tenha um forte efeito de estufa (é uma das teorias que explicam Vénus), o início poderá ser visto mais como um para-sol gigante que aumenta a área de sombra.

4. Partículas na atmosfera: os vulcões que entraram em erupção nos últimos anos enviaram partículas para a atmosfera que reflectem raios solares para o espaço. Por outro lado, as necessidades energéticas de algumas nações têm sido resolvidas com centrais termo-eléctricas, as quais poderão não ter filtros para captação de partículas resultantes da combustão. Apesar de enviarem muito CO2 para a atmosfera, estas centrais iriam no curto-prazo provocar poluição atmosférica que reduziria a temperatura (tal como nos anos 70-90, antes de se tomarem medidas contra essas partículas que, por exemplo, também provocavam chuvas ácidas).

5. Outros: como disse, não sou climatologista e não conheço os cenários todos. Gente muitíssimo mais capaz que eu poderá propor outras hipóteses, provavelmente mais realistas.

6. Os modelos estão errados e teremos vivido apenas um ciclo de aquecimento que nenhuma influência humana teve. Seria mau para a ciência, mas bom para a humanidade. Eu ficaria feliz por isso.

 

Haveria mais coisas sobre as quais eu poderia escrever, como a diferença entre temperaturas médias e temperaturas máximas ou mínimas, aquecimento global vs alterações climáticas, capacitância de um sistema, química da molécula de CO2, etc. Creio, no entanto, que já chateei o suficiente quem quer que tenha lido tudo. Fico-me por aqui. Deixo apenas o esclarecimento: quaisquer erros e barbaridades científicas que estejam aí para cima são da minha autoria. Nao levem as minhas opiniões como as da comunidade científica. Trata-se de gente geralmente respeitável e que dá o seu melhor sem excessivos preconceitos. Não merecerão ser colocados no mesmo cesto que eu.

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Subsídios para call-centers

por João André, em 24.06.13

Leio no Público (via der Terrorist) que Nuno Crato está a pensar em benefícios para as empresas que contratem doutorados. Para um governo que se anuncia liberal, isto é de rir. Para socialistas de cartoon (como imaginados por alguns dos nossos comentadores ultra-liberais), isto seria um sonho. a realidade é mais complicada.

 

José Simões já falou da forma como estes subsídios servirão apenas para continuar a contratar doutorados para trabalhos pouco classificados enquanto que o dinheiro extra vai para o bolso das empresas. Só que isto não advém (apenas) de qualquer ganância corporativa, antes do facto de, independentemente dos subsídios, ninguém no seu perfeito juízo ir contratar uma pessoa com doutoramento quando não há tabalho para lhe dar.

 

As dificuldades ao nível da contratação dos doutorados não é financeira por si. Muitos estariam plenamente satisfeitos em receber os salários do grau abaixo, desde que isso significasse ter algum tipo de trabalho. O problema está entes no facto de as empresas em si não verem qualquer vantagem em ter alguém com doutoramento nos seus quadros. Os doutorados continuam a ser vistos como os tipos de bata branca e óculos que se sentam em bancadas de laboratório o dia inteiro e desenvolvem protectores solares quando lá fora está a chover.

 

Enquanto as empresas não virem aquilo que um doutorado pode trazer, os subsídios de nada adiantarão. Especialmente porque os maiores custos seriam materiais, para o desenvolvimento do trabalho desse doutorado.

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Cultura científica

por João André, em 19.03.13

Este post do João fez-me voltar a um dos meus temas de estimação: a falta de cultura científica da população portuguesa. Não que o João (ou sequer o Samuel de Paiva Pires) a demonstre, antes que o post original demonstra, perante a colecção de propostas de temas que exclui completamente a ciência, uma alergia a tudo o que não seja cultura "clássica" (história, literatura, filosofia ou arte). Isto não é algo que venha apenas do post do João, é algo extensível à sociedade portuguesa em geral. Note-se este artigo de opinião de Luís Francisco no Público. É essencialmente uma tentativa de humor. Para mim falhada, mas não é aí que lhe aponto o dedo, antes é ao facto de o autor ter decidido escrever sobre ciência apenas do lado do humor, sem qualquer tentativa de a compreender. Várias vezes  nos leva a pensar se está a brincar com alguns títulos ou simplesmente não compreendeu que os mesmos são absolutamente relevantes. Aquilo que o artigo demonstra é que a ciência, em Portugal, é para ser tratada como nicho de gente esquisita ou com humor.

 

Não vale a pena voltar aqui ao tema das "Duas Culturas" de C.P. Snow, quem quiser pode ler sobre o assunto. Trata-se tão só de notar que a sociedade portuguesa continua a contribuir para esta falta de cultura científica e a menorizar quem a possui. Quem numa conversa de café puxar do assunto do uso da luz por Rembrandt pode ser visto secretamente como um "chato", mas raramente lhe pedirão que se cale. Quem quiser antes falar do facto de existirem duas teorias da Relatividade e aquela que estabelece o limite da velocidade da luz ser a mais simples e "trivial" será imediatamente ignorado pela maioria.

 

Este é um sentimento que se perpetua através da falta de educação científica, da pouca relevância da ciência nos media (ver o cartoon que ilustra o post, retirado daqui) e do próprio preconceito popular (quantos não foram para Humanidades para "fugir à matemática"?). Este problema acaba por se notar de forma clara depois também nos tais exames de cultura geral de acesso à carreira diplomática. Fazem-se perguntas que até são simples, mas que nenhuma relevância terão para as funções. Acabam portanto por se valorizar as ciências (ou disciplinas) que tenham reconhecido valor científico (informática, energia) e ignorar aquelas que explorarão o conhecimento fundamental (física, matemática). Isto não só é uma tragédia em si mesmo, mas acaba por ignorar que muitos avanços tecnológicos fundamentais para a humanidade se fizeram a partir da ciência fundamental.

 

Resolver este problema não é fácil e não é tarefa para 4 ou 5 anos, antes para uma geração. Antes de mais, creio ser necessário um programa de "alfabetização científica" em Portugal. Um programa que, sem esconder a dificuldade do estudo da ciência, mostre o quanto é fundamental para a vida de todos os indivíduos. Por outro lado, seria necessário que se eliminassem as oportunidades para fugir à ciência. Matemática e Ciências (genéricas) deveriam fazer parte dos currículos de qualquer curso, mesmo na Filosofia, Línguas ou História. Paralelamente, claro, Literatura, História e Filosofia deveriam fazer parte dos currículos de todos os cursos (fossem eles Biologia, Engenharias ou Matemática).

 

Sei que muitos se insurgirão contra uma possível intromissão do Estado nas liberdades individuais, mas eu não a vejo como mais que uma extensão das funções educativas do Estado (caso contrário deixamos de alfabetizar a população). Todos beneficiariam. Mesmo aqueles que preferissem não o fazer.

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Como Thaxton e Pearcey demonstram no livro The Soul of Science [A alma da ciência], por mais de 300 anos, entre a ascensão da ciência moderna no século XVI até o final do século XIX, o relacionamento entre ciência e religião pode ser descrito como de aliança. Até o final do século XIX, os cientistas eram tipicamente cristãos que não viam nenhum conflito entre a ciência e a fé deles (casos de Kepler, Boyle, Maxwell, Faraday, Kelvin e outros).

Em 1896, o presidente da Universidade Cornell, Andrew Dickson White, publicou um livro com o título A History of the Warfare of Science with Theology in Christedom [História da batalha da ciência com a teologia na cristandade]. Por influência de White, a metáfora da “batalha” para descrever as relações entre a ciência e a fé cristã espalhou-se generalizadamente durante a primeira metade do século XX. Do ponto de vista cultural, a visão dominante no Ocidente — mesmo entre os cristãos — passou a ser que ciência e religião não estão aliadas na busca pela verdade, antes são adversárias.

Entretanto, na última parte do século XX inicia-se  um florescente diálogo entre ciência e religião nos Estados Unidos e na Europa. O notável físico britânico P. T. Landsberg, por exemplo, passou a explorar as implicações teológicas da teoria da ciência e afirmou: falar das implicações da ciência para a teologia numa reunião científica parece quebrar um tabu; mas os que pensam assim estão desatualizados: esse tabu foi removido ao longo dos últimos 15 anos e, ao falar sobre a interação entre ciência e teologia, estou, na verdade, a acompanhar a maré.


Já na segunda década do século XXI, surge o corolário desta nova abordagem. Jesus (quem mais poderia ser?) avança com a proposta radical da fusão entre as duas áreas, com a apresentação pública dos 5 mandamentos da ciência.


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O jornalismo-alforreca

por João Campos, em 27.08.12

 

A propósito de recentes incidentes em praias na costa portuguesa, alguém pode mandar para as redacções uma nota a explicar que a caravela portuguesa não é uma alforreca?

 

Eu sei que hoje em dia há pouco tempo para investigar os assuntos sobre os quais se escreve, e que é muito mais fácil pegar nos textos (frequentemente mal escritos) da Lusa, mas neste caso bastam dois minutos no Google - não é preciso ir ao terreno ver esta criatura, que, muito curiosamente, é designada em todo o mundo por "Caravela Portuguesa" (ou Portuguese Man O'War). O rigor no jornalismo científico português partiu para parte incerta, o que é uma pena.

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Líderes científicos

por Helena Sacadura Cabral, em 25.01.12

 

" Cinco cientistas portugueses e uma investigadora norte-americana que trabalha em Portugal foram premiados pelo Instituto Médico Howard Hughes, dos Estados Unidos, com montantes no valor de 518.000 euros para a sua investigação, numa lista internacional de 28 premiados reconhecidos por serem “futuros líderes científicos nos seus países”. 

O prémio, hoje divulgado, foi atribuído por uma das maiores organizações filantropas do mundo, que lhes concedeu 2,5 milhões de euros para financiar projetos de investigação. 

De vez em quando, também há boas notícias!

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Milagre ou fenómeno científico,

por Ana Vidal, em 27.12.11

 

o certo é que basta um caso destes para pôr em causa todas as teorias sobre coma, morte cerebral, irreversibilidade clínica, etc. De vez em quando, é bom que alguém nos lembre de que não somos deuses.

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Estrelas

por Ana Lima, em 16.09.11

Má notícia para quem acha que o mundo gira todo à sua volta.

 

(E advirto desde já que não ponho em causa a parte do grande futebolista. E pensando bem a do rico...)

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A olhar para as estrelas

por João Campos, em 25.08.10

Dois portugueses participaram numa das mais entusiasmantes - e relevantes - descobertas dos últimos tempos na área da Astronomia: um sistema solar semelhante ao nosso, localizado a 127 anos-luz da Terra, na constelação de Hidra. Tem sete planetas: cinco gasosos, como Neptuno; um gigante gasoso, como Saturno; e um rochoso, que se pensa ser muito semelhante à Terra, apesar de a proximidade para com a estrela impossibilitar a existência de vida nos moldes em que a conhecemos. Notícia no Público.

Claro que a horda de trolls que habita as caixas de comentários do Público online não tardou a aparecer, cheia de vontade de diminuir a importância desta descoberta com base nos muitos problemas que enfrentamos neste nosso planeta. Viver na Terra é um desafio constante, e sim, as preocupações são inúmeras; mas sempre assim foi, e não foi por isso que a Ciência parou, ou - mais importante - que o Homem deixou de olhar para as estrelas.

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