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Penso rápido (78)

por Pedro Correia, em 30.06.16

lógica referendária estimula como nenhuma outra as pulsões populistas. É disso que a Europa menos precisa neste momento, confrontada como está com desafios que exigem resposta à escala continental das instituições políticas - desafios como o terrorismo, as migrações, a globalização, a ameaça expansionista russa, as crises financeiras de diversos Estados membros, o espectro da recessão económica e a falência do modelo de segurança social pública tal como o conhecemos desde o pós-guerra.
Que resposta pode ser dada, por exemplo, aos atentados como o de anteontem no aeroporto em Istambul - 42 mortos e pelo menos 40 feridos em estado grave - sem ser através de mecanismos colectivos e de uma fortíssima solidariedade europeia?
Os referendos são caixas de Pandora abertas pelos motivos mais extravagantes (no caso de David Cameron numa tentativa canhestra de entalar a forte corrente eurocéptica do Partido Conservador, tiro que lhe saiu pela culatra) e que dificilmente voltam a ser fechadas. Por isso a Escócia promete avançar já com novo referendo soberanista. Por isso os inconformados com o Brexit mobilizam-se já para que ocorra outro referendo destinado a anular os efeitos do primeiro.
Parafraseando Winston Churchill, a democracia representativa é o pior dos sistemas excepto todos os outros. Arguto Churchill, que nunca necessitou de referendos para tomar decisões, mesmo nos momentos mais dramáticos. Se tivesse convocado uma consulta popular antes de decidir fazer frente à Luftwaffe, talvez hoje o alemão fosse um dos idiomas oficiais do Reino Unido.

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Leituras

por Pedro Correia, em 13.09.15

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«Germanófilo Salazar nunca o foi e o Governo de Sua Majestade nunca deixou de o saber. Verdadeiramente anglófilo também não, mas pressente-se que não mentiu a Theotónio Pereira quando lhe escreveu que convinha a Portugal uma moderada vitória inglesa.

(...) Curiosamente, foi com a Alemanha recuando em toda a linha que as relações entre os governos português e inglês se crisparam seriamente, enquanto se estragavam as de Salazar com o seu embaixador em Londres [Armindo Monteiro]. Em causa estiveram, nos dois casos, os Açores; agravando-se o primeiro com a questão do volfrâmio que, já em Londres, dominou os últimos meses desse ano, transitando para 1944. (...) E então, muito embora já não pudessem invocar o perigo de uma antecipação alemã, [os aliados] encararam seriamente a hipótese de ocupar as ilhas sem darem qualquer pré-aviso a Portugal. Acerca disso, Churchill chegou a acordo com os americanos e a coisa só não terá ido por diante porque [Anthony] Eden, com o Foreign Office, e [Clement] Attlee (ou seja, o Partido Trabalhista) a isso se opuseram.»

Manuel de Lucena, Os Lugares-Tenentes de Salazar, pp. 45-46

Ed. Alêtheia, 2015

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Leituras

por Pedro Correia, em 22.08.15

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«Um raciocínio fundamentado pode fazer-nos chegar à conclusão de que os milagres são impossíveis, que "é muito mais provável que o testemunho humano possa errar do que as leis da natureza possam ser violadas"; e, ao mesmo tempo, nada nos impede de rejubilar quando lemos que Cristo transformou a água em vinho em Canaã da Galileia, que caminhou sobre as águas ou ressuscitou de entre os mortos. O cérebro humano é incapaz de compreender a noção de infinito, mas a descoberta da matemática permite que se lide muito facilmente com ele. A ideia de que só aquilo que compreendemos é verdadeiro é uma coisa disparatada e pensar que as ideias que a nossa mente não consegue conciliar são mutuamente destrutivas é algo de mais disparatado ainda. Não acredito que possa haver algo de mais repugnante tanto para a nossa mente como para os nossos sentimentos do que o espectáculo de biliões de universos - pois é o que hoje em dia se reconhece já ser verdadeiro -, todos eles aos encontrões uns nos outros por toda a eternidade sem que qualquer propósito racional exista por detrás de tudo isso. Assim sendo, adoptei bem cedo na vida um sistema de acreditar em tudo aquilo em que queria acreditar, deixando simultaneamente caminho aberto para aprofundar as vias, quaisquer que elas fossem, que me apetecesse explorar.»

Winston Churchill, Os Meus Primeiros Anos, p. 124. Ed. Guerra & Paz, Lisboa, 2008. Tradução de Rui Santana Brito

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Churchill: um herói do século XX

por Pedro Correia, em 24.01.15

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De entre as figuras que se impuseram no século XX, fosse para o bem ou para o mal, Winston Churchill foi a mais importante para a humanidade, e foi também a mais amável de todas. Não há outra personalidade da qual se possam extrair tantas lições, em especial para a juventude: a tirar partido de uma infância difícil; a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, físicas, morais e intelectuais; a ousar em grande, para reforçar o êxito e ultrapassar os inevitáveis fracassos; e a ter ambições elevadas, aplicando-lhes toda a energia e paixão, sem deixar de cultivar a amizade, a generosidade, a compaixão e a elevação moral."

Paul Johnson, Churchill

 

Winston Spencer Churchill, filho de um aristocrata inglês e de uma beldade norte-americana, recebeu notas medíocres como estudante e jamais foi tratado com afecto pelo pai, um indivíduo propenso a depressões. Tinha todos os requisitos para ser considerado uma "criança problemática", de acordo com um jargão agora muito em voga, mas foi o mais bem sucedido político britânico de todos os tempos.

Era, simultaneamente, um homem de reflexão e um homem de acção. Escreveu excelentes obras, como The World Crisis (1923/27) e Aftermath (1929). Os seis volumes das suas memórias sobre a II Guerra Mundial - na qual foi um dos grandes protagonistas -, concluídos em 1951, tinham vendido mais de seis milhões de exemplares só em língua inglesa dois anos mais tarde, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Pintou mais de 500 quadros - "mais do que muitos pintores chegaram a pintar em toda a vida", como acentuou Paul Johnson na biografia do homem que foi deputado durante 55 anos, ministro (do Interior, da Marinha, das Colónias e das Finanças) durante 31 e primeiro-ministro - em dois mandatos - durante quase nove.

 

Morreu faz hoje meio século, aos 90 anos, após uma vida intensa: combateu como militar em 15 batalhas em quatro continentes (Cuba, Índia, Sudão, África do Sul na guerra dos Boers e Flandres durante a I Guerra Mundial), e recebeu 14 condecorações de guerra. Viu a morte várias vezes à sua frente, mas nunca perdeu a alegria de viver. Publicou quase dez milhões de palavras ("mais do que muitos escritores profissionais publicam ao longo de toda a vida"), teve um casamento feliz que durou 56 anos e terá bebido perto de 20 mil garrafas de champanhe, a sua bebida favorita.

Expressões hoje de uso corrente foram cunhadas ou popularizadas por ele - Médio Oriente, Cortina de Ferro, "sangue, suor e lágrimas". Foi o primeiro político a fazer com os dedos o V da vitória, gesto que quase todos os outros depois dele adoptaram. Era um grande caçador e um viajante infatigável: deu várias vezes a volta ao mundo. Desportista, praticou pólo até aos 53 anos. Não escondia o fascínio pelo cinema. Adorava conduzir e tinha brevet de aviador.

Cometeu muitos erros, mas acertou nas opções essenciais. Como quando levantou a sua voz solitária no Reino Unido contra o avanço das hordas nazis que na década de 30 iam devorando a Europa, país após país. Ou quando criticou sem reservas o seu antecessor, Neville Chamberlain, adepto do "apaziguamento" com Hitler. "Toda a história do mundo teria sido diferente se ele não tivesse assumido o poder em 1940", assinalou ontem o jornalista John Simpson na BBC.

Disfrutava de autoridade natural mas nunca se levou excessivamente a sério: no auge do seu poder, todos os britânicos lhe chamavam Winston.

 

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Se existem figuras exemplares, Churchill foi uma delas. "Era um homem de coragem, que é a mais importante de todas as virtudes, e um homem de fortaleza, que é a companheira da coragem - recursos que são inatos, mas que também podem ser cultivados, e que Churchill cultivou toda a vida", escreveu Paul Johnson na excelente biografia do homem que se bateu quase isolado contra Hitler.

O historiador britânico é um admirador confesso de Churchill, com quem se cruzou uma vez, quando tinha apenas 17 anos. Foi em 1946. O então adolescente perguntou-lhe: "Senhor Churchill, a que atribui o sucesso que teve na vida?" Resposta pronta do político que no ano anterior emergira como um dos vencedores da II Guerra Mundial: "À conservação da energia. Nunca se levante se pode estar sentado, nunca se sente se pode estar deitado."

 

Um liberal de sempre, Churchill nunca se deixou abater pelos desaires e costumava dizer, cheio de razão: "Não há nada mais esgotante do que o ódio."

Na biografia que lhe dedicou (Churchill, Alêtheia, 2010) Johnson prestou justiça àquele que foi talvez o maior tribuno parlamentar do século XX, dotado de uma eloquência que nunca deixou de ser temperada com uma pitada de humor. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como sucedeu a 4 de Junho de 1940, ao discursar na Câmara dos Comuns na qualidade de recém-empossado primeiro-ministro, já com Paris ocupada pelas tropas nazis. "Lutaremos nas praias, lutaremos nas pistas de aterragem, lutaremos nos campos e nas cidades, lutaremos nas montanhas. Lutaremos sem jamais nos rendermos", afirmou, numa alocução que se tornou célebre.

Logo acrescentando, num aparte em sotto voce: "E lutaremos com ancinhos e vassouras porque não teremos mais nada."

Winston era assim.

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Abundância de políticos, escassez de estadistas

por Pedro Correia, em 20.08.14

 

O que distingue um estadista de um político mediano? Fundamentalmente, a capacidade de ter razão antes de tempo. Há exemplos clássicos nesta matéria, mas nenhum tão expressivo como o de Winston Churchill, que ao longo da década de 30 foi praticamente a única voz relevante a chamar a atenção no Reino Unido para a necessidade de encarar a Alemanha de Adolf Hitler como uma ameaça mortal. Sabe-se o que aconteceu: Churchill foi ridicularizado por todos os presumíveis sábios do momento. Nenhum político daquela época acabou por ser tão vilipendiado  como ele. Acusaram-no de tudo – de belicista a louco – por ousar romper o consenso em torno do dogma da “paz” a qualquer preço.

Churchill, a notável biografia escrita por Paul Johnson e editada em Portugal pela Alêtheia, descreve bem o que foram esses tempos de persistente cegueira em Londres perante a escalada guerreira de Hitler. O Partido Trabalhista britânico manteve-se teimosamente contra a adopção de medidas preventivas. “Opomo-nos terminantemente a todo e qualquer processo de rearmamento”, declarou na Câmara dos Comuns o futuro líder trbalhista, Clement Attlee, em Dezembro de 1933, 11 meses após a subida dos nazis ao poder. E só mudou de posição seis anos mais tarde, ao eclodir o maior conflito bélico de todos os tempos. Seria depois vice-primeiro-ministro no Governo de unidade nacional liderado por Churchill durante a guerra.

Até os primeiros tiros serem disparados, a cegueira persistiu: abundavam políticos, escasseavam estadistas. “Gostaria de encerrar todos os postos de recenseamento militar, dissolver o exército e desarmar a força aérea. Gostaria de abolir os horríveis equipamentos de guerra e de dizer ao mundo: ‘Façam o que quiserem’.” Esta foi uma mensagem eleitoral do líder trabalhista, George Lansbury, na campanha para as intercalares de Junho de 1933 – quatro meses após o incêndio do Reichstag.

Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler nazi para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar, “em grande medida”, as perseguições que já então se verificavam aos judeus. “A ala pacifista do clero, que era dominante, fundou uma União de Apelo à Paz” pedindo aos britânicos a recolha de “assinaturas pela paz” – iniciativa que obteve um estrondoso sucesso, assinala Johnson.

Entre os notáveis detractores que Churchill teve durante a década de 30, em que alertou os britânicos para a necessidade de rearmar o Reino Unido, destacam-se John Maynard Keynes e Bertrand Russell. O primeiro, já com Hitler no poder, justificou perante a opinião pública em Londres a atitude dos alemães, apontando o dedo acusador ao Tratado de Versalhes, que procurou impor uma "paz cartaginense" a Berlim. Russell, um pacifista de sempre, preferiu traçar cenários de horror no caso de um suposto ataque nazi à capital britânica: "Bastam 50 bombardeiros de gás para envenenar Londres inteira", declarou em 1934. Estes intelectuais prepararam o terreno para a "paz com honra" assinada por Neville Chamberlain com Hitler em Munique, 11 meses antes do início da II Guerra Mundial.

"Teremos a desonra - e a guerra", alertou Churchill. Cheio de razão antes de tempo.

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Um acto de resistência

por Pedro Correia, em 29.12.13

Entro numa Livriaria Bertrand mais próxima de casa, disposto a aproveitar os saldos em curso para comprar Os Níveis da Vida, de Julian Barnes, galardoado em 2011 com o Prémio Booker. A leitura de uma belíssima crónica de Jaime Nogueira Pinto, na última edição do semanário Sol, suscitara-me grande curiosidade por esta novela editada pela Queztal.

Reparo logo na obra em destaque, folheio-a e dou de caras com o aviso na ficha técnica: vem impressa em acordês. É quanto basta para devolvê-la ao escaparate. Prefiro ler Barnes noutra ocasião, em versão original, do que levar uma edição que afronta a minha consciência anti-acordista.

Felizmente não faltam nas prateleiras livros editados num português correcto, o anterior ao pseudo-acordo ortográfico de 1990. Encontro-os na livraria ao lado, a Barata. Uma obra de Winston Churchill em promoção: Os Meus Primeiros Anos (My Early Life), a primeira autobiografia do grande estadista britânico lançada originalmente em 1930, entre aplausos generalizados, e lançada em 2010 entre nós pela Guerra & Paz. E uma novela tardia de Alejo Carpentier, Concerto Barroco, traduzida por Helena Pitta para a Antígona e recém-lançada no mercado editorial português.

Vinte euros pelos dois livros, com a garantia de que nenhum deles mutila consoantes para satisfação de alguns linguistas brasileiros e do professor Malaca, pai e padrinho do aborto ortográfico. A contínua edição de livros em Portugal sem cedências ao prontuário acordista -- de que dou aqui testemunho diário -- é um saudável acto de resistência cultural que nós, leitores, devemos incentivar. Mantendo em 2014 a determinação já revelada em 2013.

Como diria Churchill, que recebeu o Nobel da Literatura em 1953, "não há mal nenhum em mudar de opinião -- desde que seja para melhor." Quando não for, é preferível ficar assim.

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Leituras

por Pedro Correia, em 21.11.12

 

«Churchill compreendia e respeitava de Gaulle; no que dizia respeito às concepções de história (e também da natureza humana) de ambos, Churchill e de Gaulle, dois líderes nacionais da direita, tinham mais em comum do que Churchill e Roosevelt. Isso é o que a maioria dos intelectuais não conseguiu  entender: que em 1940 os verdadeiros antagonistas do hitlerismo eram homens da direita, não da esquerda. Churchill e de Gaulle, cada um representando uma certa espécie soberba de patriotismo, não internacionalismo.»

John Lukacs, Churchill.

Jorge Zahar Editor, RJ, 2003. Tradução: Claudia Martinelli Gama.

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A banhos

por Rui Rocha, em 29.07.12

Pelo visto, o bom velho Winston Churchill também gostava de ir a banhos. Se bem o conhecemos, deve ter visto o pôr-do-sol on the rocks. Pertinho do mar.

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Políticos há muitos, estadistas não

por Pedro Correia, em 03.04.11

 

O que distingue um estadista de um político mediano? Fundamentalmente, a capacidade de ter razão antes de tempo. Há exemplos clássicos nesta matéria, mas nenhum tão expressivo como o de Winston Churchill, que ao longo da década de 30 foi praticamente a única voz relevante a chamar a atenção no Reino Unido para a necessidade de encarar a Alemanha de Adolf Hitler como uma ameaça mortal.
Sabe-se o que aconteceu: Churchill foi ridicularizado por todos os presumíveis sábios do momento. Nenhum político daquela época acabou por ser tão vilipendiado  como ele. Acusaram-no de tudo – de belicista a louco – por ousar romper o consenso em torno do dogma da “paz” a qualquer preço.
Churchill, a notável biografia escrita por Paul Johnson e recém-lançada no mercado português (Alêtheia, 2010), descreve bem o que foram esses tempos de persistente cegueira em Londres perante a escalada guerreira de Hitler. O Partido Trabalhista britânico manteve-se teimosamente contra a adopção de medidas preventivas. “Opomo-nos terminantemente a todo e qualquer processo de rearmamento”, declarou na Câmara dos Comuns o futuro líder trbalhista, Clement Attlee, em Dezembro de 1933, 11 meses após a subida dos nazis ao poder. E só mudou de posição seis anos mais tarde, ao eclodir o maior conflito bélico de todos os tempos. Seria depois vice-primeiro-ministro no Governo de unidade nacional liderado por Churchill durante a guerra.

Até os primeiros tiros serem disparados, a cegueira persistiu: abundavam políticos, escasseavam estadistas. “Gostaria de encerrar todos os postos de recenseamento militar, dissolver o exército e desarmar a força aérea. Gostaria de abolir os horríveis equipamentos de guerra e de dizer ao mundo: ‘Façam o que quiserem’.” Esta foi uma mensagem eleitoral do líder trabalhista, George Lansbury, na campanha para as intercalares de Junho de 1933 – quatro meses após o incêndio do Reichstag.
Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler nazi para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar, “em grande medida”, as perseguições que já então se verificavam aos judeus. “A ala pacifista do clero, que era dominante, fundou uma União de Apelo à Paz” pedindo aos britânicos a recolha de “assinaturas pela paz” – iniciativa que obteve um estrondoso sucesso, assinala Johnson.

Entre os notáveis detractores que Churchill teve durante a década de 30, em que alertou os britânicos para a necessidade de rearmar o Reino Unido, destacam-se John Maynard Keynes e Bertrand Russell. O primeiro, já com Hitler no poder, justificou perante a opinião pública em Londres a atitude dos alemães, apontando o dedo acusador ao Tratado de Versalhes, que procurou impor uma "paz cartaginense" a Berlim. Russell, um pacifista de sempre, preferiu traçar cenários de horror no caso de um suposto ataque nazi à capital britânica: "Bastam 50 bombardeiros de gás para envenenar Londres inteira", declarou em 1934. Estes intelectuais prepararam o terreno para a "paz com honra" assinada por Neville Chamberlain com Hitler em Munique, 11 meses antes do início da II Guerra Mundial.

"Teremos a desonra - e a guerra", alertou Churchill. Cheio de razão antes de tempo.

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No tempo em que ainda havia heróis

por Pedro Correia, em 22.02.11

 

Winston Spencer Churchill, filho de um aristocrata inglês e de uma beldade norte-americana, recebeu notas medíocres como estudante e jamais foi tratado com afecto pelo pai, um indivíduo propenso a depressões. Tinha todos os requisitos para ser considerado uma "criança problemática", de acordo com um jargão agora muito em voga, mas foi o mais bem sucedido político britânico de todos os tempos.

Era, simultaneamente, um homem de reflexão e um homem de acção. Escreveu excelentes obras, como The World Crisis (1923/27) e Aftermath (1929). Os seis volumes das suas memórias sobre a II Guerra Mundial - na qual foi um dos grandes protagonistas -, concluídos em 1951, tinham vendido mais de seis milhões de exemplares só em língua inglesa dois anos mais tarde, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Pintou mais de 500 quadros - "mais do que muitos pintores chegaram a pintar em toda a vida", como acentua Paul Johnson nesta sucinta biografia do homem que foi deputado durante 55 anos, ministro (do Interior, da Marinha, das Colónias e das Finanças) durante 31 e primeiro-ministro - em dois mandatos - durante quase nove.

Morreu em 1965, aos 90 anos, após uma vida intensa: combateu como militar em 15 batalhas em quatro continentes (Cuba, Índia, Sudão, África do Sul na guerra dos Boers e Flandres durante a I Guerra Mundial), e recebeu 14 condecorações de guerra. Viu a morte várias vezes à sua frente, mas nunca perdeu a alegria de viver. Publicou quase dez milhões de palavras ("mais do que muitos escritores profissionais publicam ao longo de toda a vida"), teve um casamento feliz que durou 56 anos e terá bebido perto de 20 mil garrafas de champanhe, a sua bebida favorita. Expressões hoje de uso corrente foram cunhadas ou popularizadas por ele - Médio Oriente, Cortina de Ferro, "sangue, suor e lágrimas". Foi o primeiro político a fazer com os dedos o V da vitória - um gesto que quase todos os outros depois dele adoptaram. Era um grande caçador e um viajante infatigável - deu várias vezes a volta ao mundo. Desportista, praticou pólo até aos 53 anos. Não escondia o fascínio pelo cinema. Adorava conduzir e tinha brevet de aviador. Disfrutava de autoridade natural mas nunca se levou excessivamente a sério: no auge do seu poder, todos os britânicos lhe chamavam Winston.

 

Se existem figuras exemplares, Churchill foi uma delas. "Era um homem de coragem, que é a mais importante de todas as virtudes, e um homem de fortaleza, que é a companheira da coragem - recursos que são inatos, mas que também podem ser cultivados, e que Churchill cultivou toda a vida", escreve Paul Johnson, um dos melhores historiadores britânicos contemporâneos, nesta excelente biografia do homem que se bateu quase isolado contra Hitler agora editada em Portugal e que só peca por algum excesso de concisão. Uma obra que não esconde ao que vem: Johnson é um admirador confesso de Churchill, com quem se cruzou uma vez, quando tinha apenas 17 anos. Foi em 1946. O então adolescente perguntou-lhe: "Senhor Churchill, a que atribui o sucesso que teve na vida?" Resposta pronta do político que no ano anterior emergira como um dos vencedores da II Guerra Mundial: "À conservação da energia. Nunca se levante se pode estar sentado, nunca se sente se pode estar deitado."

Um liberal de sempre, nunca se deixou abater pelos desaires e costumava dizer, cheio de razão: "Não há nada mais esgotante do que o ódio." Johnson presta justiça, neste livro em forma de homenagem, àquele que foi talvez o maior tribuno parlamentar do século XX, dotado de uma eloquência que nunca deixou de ser temperada com uma pitada de humor. Mesmo nos momentos mais dramáticos, como sucedeu a 4 de Junho de 1940, ao discursar na Câmara dos Comuns na qualidade de recém-empossado primeiro-ministro, já com Paris ocupada pelas tropas nazis. "Lutaremos nas praias, lutaremos nas pistas de aterragem, lutaremos nos campos e nas cidades, lutaremos nas montanhas. Lutaremos sem jamais nos rendermos", afirmou, numa alocução que se tornou célebre. Logo acrescentando, num aparte em sotto voce: "E lutaremos com ancinhos e vassouras porque não teremos mais nada."

Winston era assim.

 

Churchill. De Paul Johnson (Alêtheia, 2010).

211 páginas

Classificação: ****

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Leituras

por Pedro Correia, em 09.02.11

 

 

«As palavras são a única coisa que dura eternamente.»

Winston Churchill,

citado por Paul Johnson, em Churchill

(Alêtheia, 2010)

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Churchill por Paul Johnson

por Pedro Correia, em 01.02.11

 

Referi aqui há dias a importância de começar bem um livro. Deparo-me agora mesmo com outro bom exemplo: um excelente arranque que me faz logo ter vontade de prosseguir a leitura.

Refiro-me às frases iniciais de Churchill, pequena biografia do grande Paul Johnson agora lançada em Portugal pela editora Alêtheia. Passo a transcrevê-las, com a devida vénia. Por serem exemplares - em matéria de elegância, concisão e sábio envolvimento com o leitor.

 

"De entre as figuras que se impuseram no século XX, fosse para o bem ou para o mal, Winston Churchill foi a mais importante para a humanidade, e foi também a mais amável de todas. É uma alegria escrever a biografia de Churchill, como o é também ler coisas sobre ele, pois não há outra personalidade da qual se possam extrair tantas lições, em especial para a juventude: a tirar partido de uma infância difícil; a aproveitar ao máximo todas as oportunidades, físicas, morais e intelectuais; a ousar em grande, para reforçar o êxito e ultrapassar os inevitáveis fracassos; e a ter ambições elevadas, aplicando-lhes toda a energia e paixão, sem deixar de cultivar a amizade, a generosidade, a compaixão e a elevação moral."

 

Está feita a apresentação do biografado em breves linhas. Início exemplar de uma obra que nos prende desde o primeiro instante.

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A derrota e a vergonha

por Pedro Correia, em 30.10.09

 

Às 8 da manhã do dia 21 de Junho de 1942, as tropas britânicas sitiadas na fortaleza de Tobruk, no norte de África, rendiam-se às divisões comandadas por Erwin Rommel, após terem sofrido baixas consideráveis. No seu quartel-general da Alemanha, Hitler rejubilou, entregando a Rommel o bastão de marechal. Ao receber a má noticia em Washington, onde conferenciava com o presidente Roosevelt, Churchill desabafou: “A derrota é uma coisa, a vergonha é outra.” Os britânicos tinham sido derrotados mas não deviam envergonhar-se. Tinham-se batido até ao limite das suas forças. Um ano mais tarde, recuperariam Tobruk.

A que propósito me lembrei deste emblemático episódio da II Guerra Mundial? É que ele constitui uma exemplar lição de vida. A desonra é perder sem sequer dar luta. Vale para todas as épocas e para as mais variadas circunstâncias – e também na política, que é a continuação da guerra por outros meios.

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Ter razão cedo de mais

por Pedro Correia, em 28.08.09

 Em 29 de Setembro de 1938, virava-se em Munique uma das mais vergonhosas páginas da diplomacia ocidental. Neville Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, vendeu a Checoslováquia e a honra do seu país na capital da Baviera, capitulando aos pés de Hitler sem que o tirano nazi tivesse sequer necessidade de disparar um tiro. Tudo em nome “da paz honrosa no nosso tempo”, como proclamou no regresso a Londres, entre os aplausos da populaça.

A 'paz' dos pacifistas é muitas vezes apenas o caminho mais curto para a guerra: eis a principal lição dos compromissos de Munique, em que Chamberlain e o primeiro-ministro francês Édouard Daladier se vergaram à vontade de Hitler e do seu aliado Mussolini para 'preservarem' a paz. Os tambores de guerra já rufavam – eles foram os últimos a perceber.
Discursando na Câmara dos Comuns a 5 de Outubro de 1938, Winston Churchill – então o mais impopular dos políticos britânicos – advertiu Chamberlain para o enorme fiasco de Munique: “Teremos a desonra e teremos a guerra.”
Foi apupado pelos seus pares. Mas era o único a ter razão, como meses depois todos perceberam. Vai fazer agora 70 anos.

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Fanático

por Pedro Correia, em 29.06.09

"Um fanático é alguém que não consegue mudar de opinião e não quer mudar de tema", dizia Churchill. Uma frase que vem mesmo a propósito disto.

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