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Mundial no sofá (5)

por João André, em 20.06.14

 

E ao segundo jogo, nem uma semana decorrida, os campeões do mundo vão para casa. O Pedro apresentou uma razão para isso: a falta de sede de vitória. É uma observação crucial mas que me parece redutora. Claro que o Pedro concordará comigo quando eu digo que existiu uma combinação de efeitos, mas mesmo a simplificação com a falta de ambição não chega.

 

Vejamos: o estilo de futebol espanhol, o tiki-taka, é baseado na retenção de bolas e no passe curto entre os jogadores a meio campo. Esta é a explicação rápida. Mas é também um estilo de jogo que depende do passe rápido; da noção constante da própria posição da dos colegas; e depende aí do movimento constante sem bola, de forma a criar linhas de passe simples. O Pedro tem toda a razão quando refere a falta de desejo. Sem essa vontade de ganhar, de jogar com intensidade, os passes tornam-se preguiçosos e a movimentação mais lenta. Isso viu-se contra a Holanda. Outro factor que pesa imenso é a idade. Xavi e Xabi Alonso não estão novos e isso torna os minutos que levam nas pernas ainda mais pesados que no passado. Além disso parece óbvio que a condição física especialmente dos jogadores do Barcelona decaiu depois da saída de Guardiola, primeiro, e Villanova, depois.

 

O problema poderia ter sido parcialmente resolvido com sangue novo e outras tácticas. Infelizmente algum do sangue novo ficou lesionado (Thiago, Jesé Rodriguez) ou não foi seleccionado (Isco, Carvajal, Ander Herrera). Já do lado das tácticas, a única modificação feita por del Bosque foi a introdução de Diego Costa. Este parecia ser a resposta aos problemas da equipa espanhola, mas não chegou a ter tempo de se adaptar a um estilo completamente diferente daquele que jogou ao longo da época (possessão em vez de contra-ataque).

 

A renovação de que fala o Pedro foi sendo feita de fase final para fase final. De 2008 para 2010, a Espanha adicionou Busquets, Pedro, Piqué, Navas, Llorente, etc. Para o Euro 2012 a Espanha surgiu com um estilo diferente (efectivamente um 4-3-3-0) e adicionou Silva, Alba ou Mata à equipa. Para este mundial adicionou Azpilicueta (que não foi um upgrade em relação ao fiável Arbeloa) e Diego Costa. Certo que no banco estava, por exemplo, Koke, mas este sabia que a sua participação seria reduzida.

 

Por outro lado, depois da guerra qualquer um é general. Não era difícil de perceber a lógica de del Bosque ao confiar na velha guarda que tanto lhe deu a ganhar. Foi um erro, sem dúvida, mas é prematuro falar na morte do tiki-taka, tal como tenho lido e ouvido por muito lado. Uma das razões para esses comentários, para além da eliminação da Espanha, é o declínio do Barcelona e a forma como o Bayern foi destroçado pelo Real Madrid este ano. O problema desses comentários é que não percebem o oposto: o Bayern de Munique foi este ano destroçado não por tiki-taka a mais mas por tiki-taka a menos. No próximo ano poderemos estar certos que Guardiola vai fazer subir os níveis de posse de bola. Por outro lado, a adopção do estilo de retenção de bola por parte de tantas equipas (o próprio Chile, a Itália, o Liverpool e o Manchester City em Inglaterra) demonstram que este é o estilo preferido do momento. O facto de haver antídoto não é de espantar: as tácticas mudam ao longo dos tempos e os sistemas evoluem constantemente para poderem neutralizar os adversários e poderem acrescentar armas ao arsenal.

 

A Espanha vai certamente continuar a ser uma favorita em Europeus e Mundiais. Prontos para entrar estão Koke, de Gea, Javi Martinez, Illarramendi, Isco, Herrera, Thiago, Deulofeu, Jesé, etc. E ainda se manterão Busquets, Piqué, Ramos, Alba, Fábregas, Iniesta, Costa, Silva, Mata e, talvez, Casillas, que em dois anos não desaprendeu de ser guarda-redes. Xavi poderá não ter sido necessariamente o melhor jogador da história da selecção espanhola (em termos de puro talento outros poderão reclamar também o manto), mas foi sem dúvida o mais importante. Por estes dias em que o seu tempo chega ao fim, seria uma homenagem muito pobre ao seu contributo tentar apagá-lo. Especialmente quando tantos há que estarão prontos a demonstrar que a luz de Xaci ainda os guiará pormuito tempo.

 

Da minha parte, e mesmo reconhecendo que considerei muitas vezes o futebol espanhol como chato, deixo a minha homenagem. Obrigado Espanha. Obrigado Xavi. Pelo futebol e pela nova forma de o pensar.

 

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Mas afinal suicidou-se ou mataram-no?

por Fernando Sousa, em 08.11.13

 

Parece que Allende poderá não se ter suicidado... A dúvida volta a agitar o Chile. A tese de que o antigo Presidente preferiu pôr termo à vida do que entregar-se foi defendida durante anos por colaboradores próximos e a família. Em 2011, para acabar com zunzuns de que não fora nada assim, que o tinham era morto, um juiz ordenou que o exumassem. Terminada a peritagem, os médicos forenses puseram-se de acordo: matara-se mesmo, com um disparo da AK-47, que Fidel Castro lhe oferecera. E o cadáver voltou a ser sepultado, com a sua verdade. Mas dois jornalistas e um médico chilenos não ficaram convencidos, esburacaram no episódio e encontraram indícios de que muito, muito provavelmente foi mesmo morto pelos assaltantes de La Moneda, na manhã do dia 11 de Setembro de 1973. São dos títulos que mais estão a vender na Feira do Livro de Santiago, a FILSA, nos 40 anos do golpe de Pinochet. Um é assinado por Maura Brescia e o outro por Francisco Marín e Luis Ravanal (médico). Brescia por exemplo enumera contradições e inconsistências nas conclusões forenses, diz que o líder da Unidade Popular foi atingido por dois disparos na cabeça, tendo o segundo sido feito para encenar o suicídio. E que este não foi de nenhuma AK, espingarda que de resto nunca foi encontrada. Bom, se tiver sido assim, e não vai ser fácil prová-lo, os militares sairão bem pior da história. Para Allende e o mito será indiferente. 

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Foi há 40 anos

por Fernando Sousa, em 11.09.13

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Allende suicidou-se, e pronto!

por Fernando Sousa, em 30.01.11

 

Allende suicidou-se, e pronto. Qualquer que seja o resultado das investigações do juiz Mario Corrazo, nada alterará isso. Primeiro pelo peso das declarações da única testemunha da morte, um dos seus médicos pessoais, segundo porque as verdades que acompanham os mitos são, por natureza, indestrutíveis, terceiro porque, mesmo que se provasse que fora morto pelos prussianos que assaltaram La Moneda, a justiça chilena, demasiado pútrida, jamais encontraria os culpados, se os encontrasse nunca os processaria, se os processasse nunca os julgaria, se os julgasse nunca condenaria, e se os condenasse eles jamais cumpririam qualquer pena. Estamos portanto perante um caso encerrado antes de aberto – aliás aberto só por o nome do antigo Presidente constar na lista dos mais de 700 casos nunca investigados. O que está a acontecer é apenas uma performance político-jurídica. Allende suicidou-se porque tinha jurado que nunca aceitaria o exílio e que só abandonaria o cargo, para que fora livremente eleito pelos chilenos, com os pés para a frente – que foi o que aconteceu, no dia 11 de Setembro de 1973, pelo 80 da Morandé, a modesta porta de serviço do palácio por onde entrava e saía sempre. De qualquer modo se não se tivesse suicidado teria sido morto, leia-se neste sentido a Interferencia Secreta, de Patricia Verdugo, ou ouça-se o registo rádio da conspiração. Mas admitindo, por absurdo, que se descobriria que fora morto, à performance seguir-se-ia o teatro. O que é a justiça chilena, está bem ilustrado no Livro Negro da Justiça Chilena, de Alejandra Matus – que aliás teve de se exilar para não sofrer algum inesperado acidente. Ela não é toda igual, evidentemente, tem pessoas como Hugo Gutiérrez, o juiz Tapia, o próprio Corrazo, um juiz com provas dadas, e outros. Mas é só um pequeno grupo de gente asseada contra um esquema sujo, para mais agora com o poder ocupado pela mesma direita que há anos tenta branquear as atrocidades do regime militar e fazer dos tribunais, magistrados e leis uma paródia. Allende suicidou-se, e pronto. Viu-o Patricio Guijón; assegura-o outro dos seus médicos, Óscar Soto Guzmán, no livro El Último dia de Salvador Allende e nas declarações que voltou a fazer; garante-o Isabel Allende, numa entrevista que me deu, em 1998, em Santiago, e noutras; afirmou-o a antiga secretária, Miria Payitas; declarou-o Carlos Altamirano; reconheceu-o até Patrício Aylwin, mesmo da forma no mínimo despudorada que usou: “El suicidio de Allende podría explicarse por el curso frívolo y de autoengrandecimiento en el que se había embarcado el Presidente”. Esperemos então pela confirmação do suicídio. A justiça de que a justiça chilena é capaz, para não falar de como deixou escapar Pinochet, está aí, na maneira como está a tratar os assassinos de Victor Jara, um dos primeiros a cair nos primeiros dias do golpe, a mesma que afagou, como afagou, os que mataram Jécar Neghme, o último a ser abatido, por militares que agora andam tão libres como a pomba Libre da canção de Nino Bravo, nos últimos da ditadura. Salvador Allende suicidou-se, e pronto.

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Y ganó Dios

por Pedro Correia, em 25.10.10

Esta é já, para mim, a frase do ano. Foi proferida por um dos 33 mineiros libertados por um prodígio de tecnologia após 69 dias de cárcere imprevisto 700 metros abaixo de terra. "Estuve con Dios y estuve con el diablo. Me pelearon y ganó Dios, me agarré de la mejor mano." É esta a frase, proferida pelo extrovertido Mario Sepúlveda, o segundo mineiro que regressou à superfície naquele já inesquecível 14 de Outubro, o primeiro de dois dias que fez colar mil milhões de pessoas aos ecrãs televisivos em todo o mundo. "La mejor mano" possibilitou que esta história, ao contrário de quase todas que nos vão chegando ao domicílio, tivesse um final feliz. Mais emocionante, mais empolgante, mais cheia de imprevistos e com muito melhor elenco do que a esmagadora maioria da ficção televisiva e dos reality shows que se produz actualmente. Foi uma espécie de fim de ciclo, completando a aventura espacial de há 40 anos. Nessa altura, o homem aventurou-se em direcção a outro planeta; agora desce às entranhas da Terra, como as personagens de Verne, e regressa para relatar o que viu.

Heróis do nosso tempo, estes mineiros: vamos ouvir falar deles através dos anos. A operação de resgate que os devolveu à luz do dia resgatou-nos também, de algum modo, o orgulho pela espécie humana, tão abalado tem andado por estes dias.

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Uma notícia também exige adjectivos

por Pedro Correia, em 21.10.10

 

Durante anos, ouvimos repetir a ladainha: a escrita jornalística, de carácter noticioso, deve estar totalmente despojada de adjectivos. Esta defesa intransigente de uma prosa jornalística “pura", sem qualificativos, sob a inspiração da clássica escrita de agência noticiosa norte-americana, cede na prática à imposição dos factos. Uma prosa despida de adjectivos, ao contrário do que indicavam as regras clássicas, acaba por ser muitas vezes a negação do verdadeiro espírito jornalístico, que resulta de uma estreita cumplicidade entre o autor da peça e o leitor.

Querem uma prova? Veio na primeira página do passado dia 12 num dos jornais mais clássicos do planeta: o Times, de Londres. O texto da manchete, dedicada à odisseia dos mineiros chilenos, arrancou com este parágrafo: “After 69 agonising days, the dramatic rescue of 33 miners trapped far beneath Chile’s Atacama desert was finally ser to get underway last night.”

Reparem: dois adjectivos em quatro linhas deste curto texto. Que ficaria muito mais pobre sem os termos “dramático” e “agonizante”. O jornalismo não deve recear o adjectivo justo, claro, preciso, envolvente, apaixonante e apaixonado. Como esta destacada notícia do Times bem demonstra.

E como evitar a utilização de termos valorativos na narração desta história - uma das mais marcantes não só do ano mas também da década? Tudo está bem quando acaba bem. De respiração suspensa, o mundo acompanhou a inédita operação de resgate dos mineiros chilenos, que contou com o incentivo permanente do Presidente da República, Sebastián Piñera. Uma situação limite, que em circunstâncias normais conduziria à morte dos 33 trabalhadores encurralados a 700 metros de profundidade. Mais de dois meses depois do acidente que os deixou enclausurados numa mina de cobre, os 32 chilenos e o seu companheiro boliviano voltaram enfim a ver a luz do dia. Em ambiente de mobilização colectiva, numa altura da história do mundo tão marcada pelo individualismo galopante, em ambiente de solidariedade, numa fase em que os egoísmos nacionais pontificam, estes heróis dos nossos dias regressaram à superfície reconduzindo-nos de algum modo ao imaginário de Júlio Verne: a viagem ao centro da Terra é a última utopia possível neste planeta. Uma utopia que, numa escala limitada, estes homens concretizaram com sucesso. Inesquecível foi o momento em que o último mineiro, Luis Urzúa, cantou o hino nacional chileno abraçado a Piñera. Sem distinções sociais ou políticas de qualquer espécie – naquele minuto, eram apenas dois seres humanos partilhando um irrepetível instante de alegría.

Foi um dos momentos mais marcantes de um ano que já tinha sido tragicamente assinalado, a 27 de Fevereiro, por um brutal sismo no Chile. País mártir. País de esperança também. Um exemplo para a humanidade inteira.

Como escrever uma notícia destas sem adjectivos?

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O popular Piñera, um anti-Chávez

por Pedro Correia, em 16.10.10

 

As crises revelam os homens: nada melhor do que um drama inesperado para conhecer a face autêntica de um político. A inédita epopeia dos mineiros soterrados a 700 metros de profundidade, acompanhada com emoção em todo o mundo, constituiu uma oportunidade ímpar para testar a capacidade de liderança de Sebastián Piñera, um homem assumidamente de direita que teve o pesado encargo de substituir a social-democrata Michelle Bachelet, dirigente muito querida dos chilenos, no Palácio de La Moneda.

Acusado por sectores da esquerda radical de nostalgia pela ditadura de Pinochet, Piñera triunfou nas urnas – à segunda volta – em Janeiro de 2010. Mas só agora se impôs verdadeiramente como dirigente popular e quase incontestado graças ao modo firme, convicto e determinado como conduziu o resgate dos 33 mineiros, dando ordem para que não fossem poupados esforços nem cifrões na concretização desse objectivo, cortando drasticamente o programa oficial das celebrações do bicentenário da independência do Chile e fazendo ver aos proprietários da mina que terão de respeitar integralmente os direitos dos trabalhadores.

Piñera é uma espécie de Hugo Chávez às avessas: defende a iniciativa privada e o pluralismo politico, sem transformar os adversários em “inimigos” ou “traidores”, como faz a toda a hora o Presidente venezuelano. Com menos retórica e muito menos bravatas, já consegue ser mais popular que ele.

 

Publicado no DN

 

ADENDA: Muitos mineiros enfrentam um destino trágico. Uma derrocada numa mina de carvão chinesa provocou 20 mortos, havendo 17 trabalhadores soterrados. Também na Colômbia há hoje dois mineiros encurralados, igualmente numa mina de carvão. E no Equador registaram-se quatro mortes numa mina de ouro. Piñera, e bem, ofereceu ajuda.

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