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Je suis Charlie

por Pedro Correia, em 11.10.17

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Charlie

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.01.16

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On n'oublie jamais. On ne peut pas oublier. É preciso lembrá-lo, hoje e sempre, em qualquer lugar e a qualquer hora. A provocação é um direito que importa defender. Longa vida ao Charlie Hebdo.

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Charlie n' est plus Charlie

por Pedro Correia, em 21.07.15

O instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao direito à blasfémia (só contra os muçulmanos). Seis meses depois, já ninguém é Charlie. Nem sequer o Charlie Hebdo.

 

Leitura complementar: Não somos todos Charlie (texto de 9 de Janeiro)

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Já ninguém é Charlie

por Pedro Correia, em 07.02.15

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Os bárbaros atentados de 7 de Janeiro em Paris, que vitimaram 17 pessoas (incluindo alguns dos mais conhecidos caricaturistas franceses), ocorreram faz hoje um mês. Mas parece ter já decorrido um ano. Durante alguns dias ouviu-se gritar "Je suis Charlie" em alta estridência um pouco por toda a parte: até o George Clooney achou "giro" exibir-se com um dístico desses numa festarola em Hollywood.

Sobre as cinzas do massacre logo tombou a lei do silêncio, impondo-se por toda a parte um pragmatismo amedrontado - enquanto o fanatismo islâmico continua a matar. Agora já quase ninguém é Charlie. Nem o Clooney, sou capaz de apostar.

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A Europa rendida ao medo (6)

por Pedro Correia, em 31.01.15

Alegoria ao Charlie Hebdo, com uma caneta no cano de uma arma, proibida no Carnaval em Colónia, contrariando planos iniciais. "Não queremos um carro alegórico que atrapalhe a atmosfera livre e descontraída do Carnaval", diz a comissão de festas.

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A Europa rendida ao medo (4)

por Pedro Correia, em 29.01.15

A BBC recusa utilizar a palavra "terrorista" em relação aos assassínios do Charlie Hebdo e outros actos criminosos por ser um termo "valorativo" que suscitaria dúvidas sobre a "imparcialidade" da estação entre autores e vítimas dos atentados.

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Desnorte e hipocrisia

por Rui Rocha, em 24.01.15

Pelo visto, um gajo com 16 anos foi detido em França sob a acusação de defender o terrorismo. O delito que cometeu foi a publicação no Facebook do cartoon que podemos ver à direita. É preciso ser claro. O pior que pode acontecer na sequência da carnificina de Paris é trilhar de forma acéfala um caminho de restrição das liberdades. O lugar dos criminosos é na prisão. O dos idiotas, insensíveis, desbocados, escabrosos, blasfemos ou javardos, só por o serem, e por muito que o sejam, não.

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A Europa rendida ao medo (2)

por Pedro Correia, em 24.01.15

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O cartunista belga Philippe Geluck, talvez já farto de caricaturar Deus, apressa-se a jurar que jamais desenharia Maomé para não ferir a fé islâmica. Uma forma peculiar de homenagear os seus colegas do Charlie Hebdo, assassinados faz hoje 17 dias.

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A Europa rendida ao medo (1)

por Pedro Correia, em 23.01.15

Museu Hergé, na Bélgica, anula in extremis uma exposição de caricaturas satíricas que pretendiam homenagear o Charlie Hebdo com receio de represálias do terror islâmico. "O Museu não existe para atiçar o fogo", justifica o director da instituição.

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Mais um que mordeu o isco

por Rui Rocha, em 15.01.15

Pois é. Quando se admite que o terrorismo é desencadeado como resposta a uma provocação, em lugar de nos concentrarmos na condenação radical do acto, denunciando o seu desvalor absoluto e intrínseco, acabamos enredados numa discussão sobre a liberdade de expressão e os seus limites. Que desemboca sempre na racionalização do que não tem racionalidade possível e, nos piores casos, em atenuar a gravidade da agressão. Desta vez, quem se estatelou foi o Papa Francisco:

“Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade que não se pode reagir violentamente, mas se Gasbarri [Alberto Gasbarri, responsável pelas viagens internacionais do papa], grande amigo, diz uma palavra feia sobre minha mãe, pode esperar um murro. É normal!”

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Olhares sobre o drama de Paris

por Pedro Correia, em 15.01.15

David Brooks, New York Times: «Os jornalistas do Charlie Hebdo estão a ser justamente celebrados como mártires da liberdade de expressão, mas encaremos os factos: se eles pretendessem publicar o seu jornal satírico em qualquer universidade norte-americana das últimas duas décadas o projecto não teria durado 30 segundos. As associações de estudantes tê-los-iam acusado de fomentarem o ódio. As administrações universitárias ter-lhes-iam bloqueado o financiamento e encerrado a publicação.»

 

Nick Cohen, The Observer: «Temos em vigor uma lei contra a blasfémia. Não foi aprovada por nenhum eleitor. Nenhum parlamento a votou. Nenhum juiz decide sobre a sua aplicação e nenhum júri avalia eventuais culpas dos infractores. Não há direito a recurso. E a pena é a morte. Não é cumprida por intervenção de polícias sujeitos a códigos de conduta, mas pelo temor de quem nem se atreve a pronunciar-lhe o nome. E a cobardia é tão grande que até falta a coragem para admitir que se tem medo.»

 

Javier Martínez-Torrón, El Confidencial: «Se queremos erradicar o fanatismo religioso - e é essencial que o façamos - o caminho não passa por glorificar o insulto de quem pensa de maneira diferente da nossa, mas por um jornalismo mais consciente da sua responsabilidade social e mais sensível em relação aos valores das minorias.»

 

Jonathan Turley, Washington Post: «Se os franceses querem honrar a memória dos assassinados na sede do Charlie Hebdo, podem começar por revogar as suas leis que criminalizam o insulto, a difamação, o incitamento ao ódio, à discriminação ou à violência com base em religião, raça, etnia, nacionalidade, incapacidade física ou orientação sexual. Estas leis têm sido usadas durante anos para penalizar o jornal satírico e ameaçar os seus profissionais. As opiniões em França estão a ser circunscritas ao seu uso "responsável", sugerindo-se assim que a liberdade de expressão é mais um privilégio do que um direito de quem a exerce de forma controversa.» 

 

Jean Daniel, L'Obs: «O verdadeiro debate, desde que os homens são homens, é sabermos se nos é permitido matar, se devemos responder ao crime recorrendo à vingança e se devemos esquecer aquilo que a Bíblia observa: "Se o mal responde ao mal, quando haverá fim para o mal?" Estamos aí. Hoje os franceses parecem querer, simbolicamente ou não, solidamente ou não, responder a esta imposição da Bíblia. O mal terminará quando houver suficientes homens e mulheres decididos, como aconteceu no domingo, a demonstrar através da sua pungente unidade que existem caminhos para tentar pôr-lhe fim.»
 
Ignacio Camacho, ABC: «Com estes tipos [Charb, Wolinski, Cabu], até 6 de Janeiro, qualquer pessoa razoável podia ter sérias diferenças, considerá-los excessivos, grosseiros, irreverentes, gratuitamente desrespeitosos. Mas desde 7 de Janeiro são os heróis e os mártires da nossa liberdade. Da nossa, sim, da de todos. Também, mesmo que não saibam ou não queriam saber, da liberdade dos muçulmanos que a ela se acolhem. Da de todos esses que preferem habitar numa Europa cujos valores odeiam ou rejeitam do que em qualquer dos 57 países islâmicos de onde emigraram.»

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A armadilha

por Rui Rocha, em 13.01.15

Se pensarmos bem, é provável que tenhamos caído (quase) todos numa monumental armadilha. Chocados, voluntariosos, acabámos a contrapor a valentia dos caricaturistas do Charlie Hebdo à cobardia dos terroristas. Isto é, condenámos a carnificina, mas deixámos que a discussão orbitasse em torno de uma resposta (brutal e intolerável, é certo) a uma provocação. Mas isto implica admitir uma racionalização do comportamento terrorista a partir da conduta da vítima. Da mesma forma que o juiz num processo de violação racionaliza a agressão no momento em que refere que a agredida se vestia de forma provocante. A racionalização opera, num caso e no outro, e ainda que a condenação do comportamento se mantenha sem contemplações, como uma cedência à narrativa do agressor. A verdade, todavia, é que ninguém viola alguém por causa de uma minissaia. Da mesma forma que os terroristas não matam em resposta a provocações. Os que morreram no 11 de Setembro, ou em Londres e Madrid, não tinham provocado ninguém. Dizer que o ataque aconteceu porque foram publicadas as caricaturas implica reconhecer que os agressores teriam vivido pacatos e serenos se o Charlie Hebdo não as tivesse publicado. E isso vale por desenhar, pelo medo, uma mordaça na boca de cada um de nós. Mas o certo é que aqueles ou outros teriam sido atacados, mais tarde ou mais cedo, independentemente de desenharem ou não. Terror é terror e para um terrorista todos os alvos são legítimos. Que o digam os muçulmanos que são vítimas, diariamente, dos mais abjectos comportamentos. Terroristas e violadores não precisam de um motivo. Precisam apenas de um pretexto.

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Falar claro

por Pedro Correia, em 13.01.15

«A França está em guerra contra o terrorismo, o jiadismo e o islamismo radical.»

Manuel Valls, hoje, na Assembleia Nacional francesa

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O combate

por Pedro Correia, em 12.01.15

 Capa da revista britânica The Economist

 

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Capa da revista francesa Marianne

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Da complacência do mundo muçulmano

por Teresa Ribeiro, em 11.01.15

A propósito do massacre do Charlie Hebdo, dos jihadistas que o perpetraram e dos extremistas islâmicos em geral, escreve Miguel Sousa Tavares:

"Deus é apenas a desculpa e o pretexto para a sua imensa cobardia. A deles e a de todos os muçulmanos, clérigos ou leigos que, pelo silêncio ou pela conivência ideológica, deixaram que a imagem do Islão esteja hoje irremediavelmente associada em muitos espíritos à da simples bestialidade humana"

(...)"O que temos de levar a sério é a complacência do mundo muçulmano para com aqueles que invocam a sua fé e a sua doutrina para espalhar o terror e minar os fundamentos das sociedades livres em que vivemos" - excertos da sua crónica da edição de ontem do Expresso

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Um dia histórico para a Europa

por Pedro Correia, em 11.01.15

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Le Figaro:

Rassemblement sans précédent a Paris, plus d'un million de personnes en province

 

The Guardian:

Huge crowds for Paris anti-terror rally

 

El País:

Una multitud emocionada desborda París

 

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Daily Telegraph:

The largest demonstration in French history

 

Libération:

Marche républicaine a Paris: une ampleur sans précédent

 

El Mundo:

París se alza contra el terror y por la libertad

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Falei agora com o Wolinsky

por Rui Rocha, em 10.01.15

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Diz que não contava nada com as 72 virgens que estavam à espera dele lá em cima.

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Blasfémia e liberdade

por Rui Rocha, em 10.01.15

Quando a carnificina do Charlie Hebdo já não for mais do que uma vaga memória, há uma questão que importará resolver. Há lugar, ou não, para a blasfémia numa sociedade civilizada? É, ou não, desejável que a crítica, a oposição, a discussão de ideias, se faça de forma polida, sem intenção ou necessidade de ofender as opiniões e os credos dos demais? A minha liberdade acaba, ou não, quando começa a liberdade do outro? De momento, é tudo muito claro. Somos ou dizemos (quase) todos que somos "Charlie". A blasfémia proclama-se, de forma mais ou menos autêntica, como direito irrenunciável. Mas depois, quando o distanciamento trouxer outra calma, em que ficamos? De momento, à falta de uma visão mais lúcida dos acontecimentos e de uma reflexão mais abrangente, há uma linha que me parece clara. Sempre que uma acção blasfema ou uma prática ofensiva tiverem a ameaça ou a concretização da morte ou de qualquer tipo de violência por parte de poderes ou grupos mais ou menos organizados como reacção provável ou real, precisaremos sempre de mais e mais blasfémia. Cada nova ofensa constitui, nesse caso, a ampliação do espaço de liberdade.

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Estavam mesmo a pedi-las

por Pedro Correia, em 10.01.15

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Como ontem escrevi, não somos todos Charlie. Essa é uma ilusão perigosa, que nos faz desviar do essencial.

Ainda as 17 vítimas dos três dias de morticínio em França permaneciam por sepultar - e os cadáveres de algumas delas mal tinham arrefecido - já por cá se faziam ouvir as primeiras vozes apostadas em justificar o terror homicida do fanatismo islâmico. Não faltando até quem apontasse um dedo acusador ao Charlie Hebdo, ao jeito de quem diz "estavam mesmo a pedi-las".

Como num súbito passe de ilusionismo, por efeito deste discurso dos arautos da "interculturalidade" que sempre "compreendem" os assassinos quando têm armas apontadas a Ocidente, os criminosos transformam-se em vítimas e estas sucumbem ao peso dos pecados da civilização europeia.

Estavam mesmo a pedi-las.

 

«A guerra contra o terrorismo causa muito sofrimento injusto. (...) O Ocidente tem vindo a provocar um caldo de intolerância, um caldo de repressão e de ódio que não poderia ficar sem reacção.»

É o discurso de Boaventura Sousa Santos, por exemplo. Numa desassombrada intervenção ontem à noite, na RTP informação, o mais mediático professor de Coimbra insurgiu-se contra os mortos: «Uma das caricaturas do Charlie Hebdo mais aproveitada pela extrema-direita era um conjunto de mulheres islâmicas, grávidas, que indicando a barriga diziam: "Não estraguem o meu apoio social." Isto era uma estigmatização do Estado Social, uma estigmatização das mulheres, uma estigmatização do islão.»

Embalado nesta oratória, prosseguiu: «O Charlie Hebdo despediu um caricaturista famoso, o Maurice Sinet, por ele ter feito uma crónica que foi considerada anti-semita.»

Eis a mais notável das estigmatizações proferida por quem acabara de se insurgir contra elas: a estigmatização dos assassinados.

 

Não, não somos todos Charlie Hebdo. Não, não estamos todos do mesmo lado.

 

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O acto de bárbarie que vitimou o Charlie Hebdo foi mais do que um atentado à liberdade de expressão: foi uma advertência sangrenta - mais uma - de que toda a blasfémia contra o islão se paga com a morte, seja em que latitude for.

Mas também aqui não somos todos Charlie. Longe disso.

«O limite à liberdade de expressão não pode deixar de estar na nossa mesa. Muitas vezes também há muito fanatismo do nosso lado. Nós temos hoje na Europa muitas populações que não se reconhecem na laicidade total. A laicidade não podia ser negociada interculturalmente na Europa, de outra forma?», proclamou ontem o irrevogável professor Boaventura na sua prédica na televisão pública.

Noutro canal, outro professor universitário, Luis Moita, apontava na mesma direcção. «Neste caso concreto, é verdade que houve um atentado à liberdade. Mas não creio que se possa dizer que os dois irmãos quisessem protestar contra o Ocidente no seu conjunto, contra os nossos valores. Eles estavam a vingar uma blasfémia. É bom a gente não ignorar essa componente fundamental do problema», declarou na SIC Notícias.

 

É, portanto, neste contexto que alguns já vão sugerindo com falinhas mansas algo semelhante àquilo que os mais fanáticos exigem a tiro: a revogação de dois séculos de secularismo ocidental para ajoelharmos perante os inimigos de Voltaire, que antes usavam sotaina e hoje usam turbante.

Como se o crime compensasse. Como se aquelas 17 vítimas do terror em nome de Alá tivessem morrido em vão.

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Contra o terror

por Pedro Correia, em 09.01.15

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Dave Brown, no Independent

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Não somos todos 'Charlie'

por Pedro Correia, em 09.01.15

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Percebo e louvo as manifestações espontâneas de mágoa e protesto pelo morticínio em França. Mas recuso o rótulo simplista que agora circula a garantir que "todos somos Charlie [Hebdo]".

Por ser falso.

 

Não é verdade que estejamos todos do mesmo lado: os dramáticos acontecimentos desta semana em Paris comprovam isso. É tempo de encararmos esta evidência. Sem ilusões de qualquer espécie.

Há quem seja inimigo figadal da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa - aliás já hoje ameaçadas por um extenso cardápio de interditos em nome da correcção política, algo que ficou bem simbolizado na recusa sistemática do New York Times e da CNN de reproduzirem, ao menos para efeitos de contextualização da notícia dos assassínios, qualquer dos polémicos cartunes do Charlie Hebdo diabolizados pelos extremistas islâmicos.

Há quem se assuma como adversário declarado das sociedades abertas e das democracias liberais vigentes na esmagadora maioria do continente europeu.

Há quem não hesite em recorrer ao homicídio como "argumento" político e transforme o sangue alheio em troféu de caça ideológica.

 

São pessoas que nasceram neste continente, que em muitos casos beneficiaram do apoio do Estado Social europeu e à primeira vista se parecem com qualquer de nós. Podem cruzar-se connosco na rua ou num centro comercial.

Mas não nos iludamos: é abissal o quadro de valores que nos separa.

Estamos perante indivíduos que não se limitam a combater as liberdades individuais: pretendem implodir a nossa matriz civilizacional e estão dispostos a recorrer a qualquer meio para atingir esse fim. Espalham o pânico com uma facilidade estonteante, fazem do medo um poderoso aliado dos seus desígnios e elegem o terror como senha de identidade.

 

Deixemo-nos de lirismos beatíficos: é inequívoco que vivemos tempos de fracturas essenciais. Temos contra nós - e no meio de nós - quem presta tributo à barbárie aproveitando as debilidades do sistema democrático ocidental, que por vocação é capaz de integrar sem estigmas até aqueles que estão mais determinados em destruí-lo.

Não somos todos "Charlie".  

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Uma flor na lapela

por Teresa Ribeiro, em 09.01.15

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Apesar de se terem levantado vozes do islão moderado a condenar formalmente o massacre do Charlie Hebdo, a percepção que fica é que estas comunidades se comportam como se não fossem também directamente visadas.

No mar de indignação que se gerou um pouco por todo o mundo livre, os seus protestos diluem-se, fininhos. É um erro que vão pagar caro. Os atentados a mesquitas não vão ficar por aqui e a intolerância religiosa vai desabrochar na Europa como uma flor que bem podem começar já a pôr na lapela.

E tudo isto se começa a parecer demasiado com os anos malditos do advento do nazismo. Crise económica, instabilidade social, desemprego, inépcia política e uma comunidade perfeitamente identificada para odiar e perseguir.

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Delito de opinião

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.01.15

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Je suis Charlie

por Rui Rocha, em 08.01.15

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C'est dur

por Pedro Correia, em 08.01.15

Capa já histórica desenhada por Cabu (2006)

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O medo e a coragem.

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.15

Um dos ataques mais brutais à civilização ocidental é a criação de um clima de medo que acaba por condicionar a liberdade de expressão. O exemplo desse medo é a fotografia abaixo referida que encontrei na internet. Para ilustrar o ataque é exibido o jornal atacado, mas o órgão de informação recusa-se a exibir a caricatura de Maomé que o jornal tinha publicado.

 

É por isso que me parece de especial louvor a capa do i de hoje que o Pedro reproduz abaixo. Penso que foi o único jornal que se atreveu a quebrar um interdito que o medo está a criar: a interdição nas sociedades ocidentais, por natureza laicas, de representações do profeta Maomé. Os terroristas estão neste âmbito a criar através do medo uma censura implícita que os jornais consciente ou inconscientemente aceitam. O i não aceitou esse condicionalismo e com isso prestou uma muito melhor homenagem às vítimas do que a colocação de um fundo negro no jornal. Hoje por isso tive um grande orgulho em ser colunista do i.

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As melhores capas do dia

por Pedro Correia, em 08.01.15

As melhores primeiras páginas de jornais portugueses, para mim, foram estas duas:

 

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O humor é uma arma

por João André, em 08.01.15

O humor é uma arma poderosa. Tão poderosa que não importa se é bom ou mau, se faz rir muitos ou poucos, se é politicamente empenhado ou enternecedoramente naïf. É tão poderosa que talvez só a religião se lhe compare e, consequentemente, se lhe oponha mais fortemente que qualquer outra vertente ideológica ou política.

 

O ataque de ontem ao Charlie Hebdo não é um ataque a uma publicação, a um conjunto de cartoonistas ou, "simplesmente" à liberdade. É um ataque ao humor. É que se muitos meios podem ser usados para transmitir as imagens de Maomé que enfurece os muçulmanos, apenas o humor transmite, de forma rápida e eficaz, a mensagem que se quer fazer passar. O melhor post que li até agora sobre este assunto foi o do nosso José Navarro de Andrade. Como ele, eu não gostava dos cartoons do Charlie Hebdo, os quais me pareciam subverter o propósito de um cartoon: "rir-provocar-pensar". Frequentemente começavam com a parte de provocar e não era claro que fizessem rir. Mas, como há uns anos num posto do Daniel Oliveira no Barnabé intitulado - creio - "Kit Páscoa", defendo que o humor não deve conhecer fronteiras e que é quase sempre ofensivo para alguém. Desde que não promova violência - física ou outra - qualquer cartoon deve ser publicado.

 

E, num dia em que se lamenta o ataque aos cartoonistas do Charlie, convém lembrar que estes foram "apenas" os mais violentos de uma corrente frequente. Na Turquia os cartoonistas estão sob mira de Erdoğan. No passado o humor em Espanha foi suprimido aquando da publicação de cartoons sobre a Casa Real. Em Portugal, e recuando ao passado, lembro-me de houve a censura ao Humor de Perdição.

 

Sim, a liberdade é importante, mas mais ainda que a liberdade de imprensa, a liberdade de humor é para mim fundamental. É que se uma imprensa amordaçada encontra formas de se rebelar, um mundo sem humor está a caminho da morte.

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Pudor

por Pedro Correia, em 08.01.15

Há sempre um sociólogo pronto a invocar causas "sociais" como factor atenuante para os autores dos crimes mais sórdidos. Se o sociólogo estiver de folga, avança o psicólogo de plantão, evocando os traumas sofridos na infância como caução moral dos actos criminosos cometidos na idade adulta.

Na ausência episódica de ambos, logo emerge uma voz oriunda da classe política a dizer não importa o quê numa resignada complacência perante a barbárie. Ontem, nesta ronda, coube o turno à eurodeputada Ana Gomes. A responsabilidade dos homicídios que semearam o terror em Paris, garante a intrépida socialista, dilui-se nas "políticas de austeridade anti-europeias".

Ainda nauseados pelos ecos do brutal atentado perpretado no coração da pátria do racionalismo por elementos da guarda avançada do terror, testemunhamos o protagonismo de quem se aproveita dos cadáveres de mártires da liberdade de expressão para difundir a demagogia mais rasteira.

Nestes momentos em que somos confrontados com a face do mal no seu horror absoluto apetece implorar a certas vozes que se calem em nome do mais elementar, recomendável e misericordioso pudor.

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A provocação é um direito

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.01.15

sabir-nazar1.jpgJá andava há uns meses tentado a escrever algumas linhas sobre uma reflexão que ultimamente me causticava o espírito em razão de textos e comentários que por aí vou lendo. O absurdo episódio de ontem obrigou-me a não deixar passar mais tempo. De certa forma, revejo-me nos que foram surpreendidos pela barbárie e que pagaram com a vida o preço de uma liberdade que as democracias se revelam cada vez mais incapazes de defender.

Não tenho qualquer dúvida que a liberdade de expressão, em todas as suas manifestações, não é um valor fundamental das sociedades democráticas. A liberdade de expressão é o valor matricial da democracia. A raiz que saída do pensamento dá luz a tudo o que necessita de se revelar aos olhos e ouvidos dos nossos semelhantes.

Se me pedissem para colocar numa escala hierarquizada as liberdades, confesso que não hesitaria em colocar, logo a seguir à liberdade de pensamento, a liberdade de expressão. É a liberdade de expressão que dá sentido ao que na nossa intimidade, em qualquer solidão, somos capazes de pensar. Sem liberdade de expressão não há pensamento articulável. Sem ela estaremos no campo da ausência de construção, sem instrumentos de composição. Só vale a pena pensar se formos capazes de construir e exprimir o que pensamos. De torná-lo acessível e estimulável pelo permanente exercício da liberdade de expressão. O modo como esta se revela é que pode tornar-se problemático porque nem todos pensamos da mesma maneira, nem todos pensam com a mesma desenvoltura, não escrevem todos o mesmo, com igual facilidade nem sob a mesma forma, e a arte do desenho, da caricatura, da composição gráfica ou gestual não foram distribuídas por igual entre todos nós. Expressamos a nossa liberdade pelas formas que nos estão ao alcance, usando as armas que melhor sabemos manejar.

Acontece que alguns de nós as manejam exemplarmente, o que faz com que a forma como esse exercício se processa também não seja igualmente compreensível por todos nós. Se não segue a mesma bitola também não se rege pelos mesmos cânones. E é aqui que perante a incompreensão, o insulto, a obscenidade, quantas vezes por simples deficiência na recepção da mensagem, somos confrontados com a barbárie. O que aconteceu na redacção do Charlie Hebdo foi o encontro da liberdade de pensamento expressa através do desenho com a incompreensão da mensagem na sua forma mais bárbara.

A dimensão desta incompreensão, antes de ser um problema da democracia, é uma questão que diz respeito a cada um de nós, cartoonista ou não, cuja resposta deverá ser encontrada na formulação de uma simples pergunta: qual o sentido da provocação?

Admito que sou por natureza um provocador. Mais quando pretendo estimular em quem me escuta ou me lê uma reacção, um movimento de resposta, de geração da discussão, de insatisfação. Perante um problema, ao manifestar o meu direito à opinião, gosto de provocar os que me escutam, os que me lêem. Porque entendo que só dessa forma a própria clareza da ideia pode sobressair e ser mais facilmente entendida pelo destinatário. Essa será a única forma, ou pelo menos a mais fácil, à laia de um beliscão, de provocar o receptor acomodado.

A provocação é um risco que só valerá a pena correr se conduzir ao efeito pretendido. Saber até que ponto a provocação vale a pena não é questão de somenos. E há dois pontos em que a provocação se torna irrelevante: 1) quando não é entendida pelo destinatário; 2) quando se torna inócua. A provocação irrelevante deixa de servir os seus propósitos. Por ignorância, incapacidade intelectual ou défice de comunicação a provocação irrelevante conduzirá, em regra, à reacção desproporcionada, desajustada, por vezes ofensiva. Na segunda situação gera a indiferença e nada mais.

Proteger a liberdade de expressão é garantir a liberdade de pensamento. Às democracias, a todos nós, compete-nos proteger a primeira se se quiser continuar a pensar livremente. E a protecção daquela passa por assegurar o exercício do direito à provocação. Até que esta no seu percurso se torne irrelevante. De caminho poderá causar incomodidade, insatisfação, desconforto, até ofender. A ofensa não torna a provocação menos legítima. Ou desmerecedora de protecção. Porque contra a ofensa, nas democracias, há sempre remédio. Talvez seja isto o que nos afaste deles. Quando não se conhece desconfia-se. Quando se ignora não se acredita.

O Estado de direito é hoje o estado da provocação permanente. Por isso se torna tão imperioso protegê-lo. E é preciso que eles o entendam pela única forma que pode tornar a provocação irrelevante: a educação na liberdade e na responsabilidade. Com a Bíblia, a Tora ou o Corão na mão, se necessário for. Como fizeram os cartoonistas do Charlie Hebdo. E como fazem homens como Sabir Nazar. No Paquistão. Até que a provocação se torne irrelevante. Até que gere a indiferença.

A provocação também se educa.

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Quanto mais me matas, mais me rio de ti

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Wolinski sale con, esta nem de encomenda...

Educado numa dieta de Tintin e Pilote, quando nos fervores de 74 me caiu nas mãos o voluminho “Ils ne pensent qu’à ça” de Wolinski, recuámos horrorizados, eu e o meu puritanismo revolucionário de então. Um tarado que se dizia de esquerda, como toda a gente à época, publicava (e logo na esmerada In Folio da Gallimard) um punhado de cartoons verdadeiramente ordinários e meramente provocatórios, abusadores da “liberdade burguesa” mas sem uma “perspectiva” (como se dizia) de libertação, vinhetas machistas, onanistas e solipsistas, repletas de mulheres-objecto e homens falocratas.

Mais tarde dei conta dos antecedentes desta pouca vergonha: o efémero pasquim “L’Enragé”, nascido nos contra-tudos do Maio de 68 de parceria com outros delinquentes da estirpe de Siné, Cabu, Topor e Williem. Um radicalismo quase niilista, à margem de qualquer disciplina, com o fito exclusivo de irritar o burguês francês (e, mon Dieu, nunca houve burguês como o francês), ou seja, sem apontar “alternativas”, “atitude indispensável” para uma “política consequente e transformadora” – estão a ver pelas aspas no que deu hoje a esquerda de antanho?

Pois este Wolinski nunca desde então moveu uma palha para cá dos limites da ordinarice, dos ataques pessoais, da piada porca, do insulto rasca, ou seja dos indefinidos confins da liberdade de expressão.

Morrer desta maneira aos 80 anos foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Abençoados terroristas que transformaram Wolinski no produto supremo da nossa civilização, a única – sim é etnocentrismo – capaz de aceitar com simples um c’est la vie a obra deste genial bandalho.

Wolinski, a partir de hoje serás o meu herói e quando me vierem falar de liberdade, terei um argumento atómico: "permitirias um Wolinski?" Menos que isto não interessa.

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Assassinados

por Pedro Correia, em 07.01.15

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 Wolinski

(28.6.1934/7.1.2015)

 

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 Cabu

(13.1.1938/7.1.2015)

 

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Charb

(21.8.1967/7.1.2015)

 

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Tignous

(1957-7.1.2015)

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Viva a liberdade.

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Liberdade é aceitar a expressão daquilo que não se gosta. É defender e não tolerar (que tresanda a condescendente) a sua existência, é repudiar mas não querer proibir, é não dizer "pôs-se a jeito" ao que achamos reprovável.

charlie.png            

Nunca gostei do escabroso, inconsequente, insultuoso "Charlie Hebdo".

Viva o detestável "Charlie Hebdo"!

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