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E se fosse consigo?

por Rui Rocha, em 04.04.17

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Trumps nacionais

por José António Abreu, em 27.03.17

Catarina Martins propõe saída do euro.

Evidentemente, e não obstante a demagogia com que abordam estes assuntos ser igualzinha à do presidente norte-americano ou de Marine Le Pen (podiam ou não ser declarações de Catarina Martins?), ninguém os classifica como tal - afinal são simpáticos para os imigrantes e nem chamam terroristas aos terroristas. Por cá, raros se atrevem sequer a afirmar serem precisamente as políticas da Geringonça a empurrar o país para uma situação de insustentabilidade - e os que o fazem são corridos a acusações de ressabiamento e derrotismo. Todos sabem, porém, que ao nível da dívida pública e respectivas taxas de juro o último ano e meio poderia ter sido muito diferente, abrindo perspectivas mais optimistas para um futuro sem (tanta) ajuda por parte do BCE. António Costa, por exemplo, sabe-o perfeitamente. Os pedidos, cada vez menos subtis, para mudanças de política ao nível da União Europeia (o que representa a sanha contra Dijsselbloem senão uma tentativa para facilitar a abordagem de pontos como a mutualização e a renegociação?) constituem reconhecimento cabal de que também ele acha a dívida insustentável - sem que isso o impeça de continuar alegremente a aumentá-la (perdido por cem, dir-se-á...). Talvez um dia fique demonstrado que Costa, a mais frontal Catarina (e o mais «ortodoxo» Jerónimo) estavam certos. Mas quando alguém tem o poder para fazer cumprir uma profecia, e faz quase tudo nesse sentido, não admira que ela se concretize. Infelizmente, esse dia, como é habitual nas vitórias do populismo, não ficará para a história como um dia feliz.

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Pelo visto, a DBRS, por casualidade a única agência de rating que ainda resiste a colocar a credibilidade da dívida portuguesa abaixo de lixo três furos e permite, por consequência, que o Dr. Costa e os seus apaniguados entretenham os dias a amestrar vacas que juram poder fazer voar, fez saber que teme não poder continuar a dar asas à maluqueira se o Banco Novo for nacionalizado. Perguntada sobre o tema, a arguta Catarina Martins declarou, sem contemplações, que esta posição da DBRS (da DBRS, coitada, que nos tem aturado) sobre o Novo Banco é "uma chantagem europeia". O facto de a DBRS (a DBRS, coitada) ser uma agência sedeada em Toronto, no Ontário, em pleno Canadá, não deve, obviamente, ser suficiente para Catarina Martins se desviar um milímetro da teia bem urdida de interesses inconfessáveis e diabólicos que engendrou na sua notável cabecinha. Mas lá que adiciona uma nota picaresca a esta bem esgalhada teoria da conspiração, colocando-a ao nível daquela outra que sublinha que a pizza é redonda, parte-se em triângulos e é transportada em caixas quadradas, lá isso adiciona. Resta esperar, portanto, que o Dr. Louçã, essa espécie de Jorge Mendes da política que se dedica a identificar os talentos que integram o plantel do Bloco de Esquerda, esteja atento. E se o Dr. Louçã não tem dúvidas que Mariana Mortágua está destinada a ser Ministra das Finanças (tivesse a História algum sentido da ironia e caber-lhe-ia juntar os cacos deixados pela bancarrota a que o Dr. Costa alegremente nos conduz) pode bem ser que um dia venha revelar-nos que a lúcida Catarina Martins terá à sua espera, mais cedo ou mais tarde, um lugar de Presidente da Sociedade de Geografia.

 

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Descubra as diferenças

por Pedro Correia, em 30.01.16

«O Governo quer melhorar a situação das pessoas que têm salário, melhorar os direitos laborais, melhorar as reformas, e subitamente este Governo surge aos olhos dos burocratas de Bruxelas como inteiramente subversivo. E estão a pô-lo na ordem. (...) Portugal não é uma colónia dos burocratas de Bruxelas.»

Pacheco Pereira, 28 de Janeiro

 

«A Comissão Europeia está a assaltar o nosso país.»

Catarina Martins, 29 de Janeiro

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Notas políticas (7)

por Pedro Correia, em 17.11.15

Falando com uma franqueza a todos os títulos notável, Catarina Martins deixa bem evidente, numa entrevista publicada sábado no El País, a fragilidade das folhas de papel assinadas à porta fechada entre o PS e três partidos à sua esquerda.

São palavras que merecem ser destacadas por nelas se vislumbrar a velha semente do divisionismo identitário que impediu durante décadas entendimentos duradouros à esquerda. Superado o obstáculo que congregava pela negativa, neste caso o Executivo PSD-CDS entretanto derrubado na Assembleia da República, logo emergem as dificuldades de sempre em construir alternativas de governo.

Repare-se no argumento invocado ao jornal espanhol pela porta-voz do BE, justificando assim o facto de o seu partido ter recusado participar no elenco ministerial: "A convergência permite um apoio parlamentar, mas não a [nossa] entrada no Governo, devido às profundas divergências que mantemos, por exemplo, quando ao Tratado Orçamental ou à reestruturação da dívida, que continuamos a defender." (Tradução minha, sublinhados também meus).

 

Noutro trecho da entrevista, Catarina Martins faz questão de acentuar que existe "uma grande divergência entre nós [BE] e o PS sobre a dívida", confessando "não gostar do cenário macroeconómico" dos socialistas. "Não será um Governo de ruptura com os compromissos europeus. O Bloco está contra eles, mas o PS exigiu mantê-los."

Deixa ainda uma palavra nada amena contra o programa eleitoral de António Costa, que "descapitalizava a segurança social", e o lamento pelo travão socialista ao aumento imediato do salário mínimo para 600 euros.

Talvez pelo entusiasmo proporcionado pela "histórica" assinatura das folhas de papel que menciono no parágrafo de abertura deste texto, Catarina Martins insiste em falar não só pelo BE mas também pelo PCP: "El Bloco y el PC nunca respaldarán a un Gobierno que corte los rendimientos del trabajo. Nuestra matriz ideológica es la reposición de rendimientos y derechos de trabajo, la salvaguarda  del Estado Social y parar las privatizaciones." (Desta vez mantenho o castelhano, que tem mais salero.)

 

Não admira que os comunistas se distanciem do voluntarismo desta "actriz profissional" (assim é apresentada pelo El País). Ao ponto de a Comissão Política do Comité Central do PCP ter sentido a necessidade de sublinhar isto: "Face ao muito que tem sido dito neste período e ao muito que se continuará a ouvir e a ler, quase sempre sem fundamento, reafirma-se que pelo PCP fala o PCP, pela sua própria voz e palavras, com as suas posições e o rigor das suas formulações."

A coisa promete.

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Estímulos

por José António Abreu, em 11.11.15

Devolver cortes para estimular o consumo, garantem. É provável que nisto tenham razão. Que estimule. Com péssimas consequências a prazo mas ignoremo-las por um instante e avaliemos a outra hipótese: a de que afinal não estimule assim tanto. Seria curioso ver os portugueses mostrarem-se cientes da fragilidade de um futuro construído por Costa, Catarina, Jerónimo e Arménio e optarem antes por reforçar poupanças - dentro e, quase certamente, fora dos bancos. Improvável? Admito que sim. Porque com essa mentalidade não seriam portugueses. Seriam alemães. Enfim, seriam talvez alemães; é difícil imaginar a Alemanha moderna a braços com um governo de convicções terceiro-mundistas.

 

(E a propósito: há pouco mais de 20 anos Portugal chegou a ter níveis de poupança ligeiramente superiores aos da Alemanha; em 2010, não atingiam 40%.)

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O País pode esperar

por Pedro Correia, em 02.11.15

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Foto Alberto Frias/Expresso

 

Existe legitimidade parlamentar para uma maioria alternativa à formada pelo PSD e pelo CDS, como é óbvio. A questão é que esta existe, a outra por enquanto é só virtual. Vejo-a apenas estampada em títulos da imprensa, nas pregações de alguns comentadores e no comportamento de Catarina Martins, em permanente manobra de antecipação aos comunistas, ao assumir-se desde já como porta-voz das boas novas de um executivo liderado pelo PS.

Ora um país não se governa com títulos de jornais nem declarações nas pantalhas, por mais arrebatadas ou ofegantes que sejam.

 

Não vale a pena fazer esforços dialécticos para contrapor uma maioria virtual, ainda que absoluta, a uma maioria real, ainda que relativa.

De resto, o sistema politico-constitucional português está desenhado para governos com maiorias simples. Seria um enorme passo atrás concluirmos que só executivos com maioria absoluta, daqui para a frente, poderão entrar em funções. Se esta lógica prevalecesse, os executivos de Mário Soares em 1976, de Cavaco Silva em 1985, de António Guterres em 1995 e 1999, e de José Sócrates em 2009 nunca teriam chegado a tomar posse.

 

Um mês decorrido desde a eleição legislativa, quando todos continuamos a discutir cenários virtuais, António Costa já devia ter anunciado ao País que solução real de governo propõe aos portugueses, sem se escudar em porta-vozes de outras cores partidárias.

Afinal Alexis Tsipras, tão elogiado em Janeiro por vários dirigentes socialistas, formou uma coligação em 24 horas entre o Syriza e a direita nacionalista - forças políticas entre as quais aparentemente era muito maior a distância do que aquela que separa o PS do BE e do PCP.

 

Por cá, todas as conversações têm decorrido no segredo dos deuses, à revelia da opinião pública, com avanços e recuos retóricos (os recuos mais relevantes têm vindo da boca do secretário-geral do PCP, que parece demarcar-se de quase tudo, incluindo da existência de uma moção de rejeição conjunta, enquanto o deputado António Filipe recorre à ironia para designar o próximo "governo do PS", como se não houvesse coligação à vista) e claríssimos sinais de desconforto face a uma "frente de esquerda" oriundos do partido fundado por Soares.

Socialistas como Francisco Assis pressentem que Costa está a tomar decisões destinadas a afastar irreversivelmente o partido dos eleitores de centro que sempre votaram PS e querem Portugal governado por uma grande família europeia, sem ver o País empurrado para qualquer dos extremos do espectro político.

Outros, como Fernando Medina, vão deixando sérios avisos à navegação. "Só um compromisso firme com as regras de participação na moeda única e com um governo estável para a legislatura poderá dar ao País garantias de uma boa governação e de reais perspectivas de mudança política", observa o actual presidente da câmara de Lisboa.

Como mais ninguém se movimenta na faixa central, Assis encarrega-se disso. E faz muito bem. A política tem horror ao vácuo. E se existe vácuo neste momento na política portuguesa é ali mesmo, na sequência da fuga de Costa para o flanco esquerdo - não por imperativo de consciência ou convicção doutrinária, mas pelo mais elementar tacticismo com vista à sua sobrevivência política após ter saído derrotado das urnas.

 

Do secretismo das negociações emerge a convicção de que o ex-autarca de Lisboa joga tudo na lógica inversa às prioridades definidas pelos estadistas: em primeiro lugar surge o puro interesse pessoal, logo seguido da conveniência partidária momentânea.

E o País? O País pode esperar.

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No reino das bravatas verbais

por Pedro Correia, em 30.10.15

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Catarina Martins, que de há um mês para cá tem vindo a dar a táctica à esquerda do alto dos impressionantes 10,19% que recolheu nas urnas, considera que a posse do XX Governo Constitucional, hoje ocorrida no Palácio da Ajuda, foi "uma perda de tempo".

Por estes dias, é muito instrutivo ver as manifestações de arrogância daqueles que, sem terem sequer posto um pé no poder executivo, já se comportam como se fossem tutores absolutos das instituições políticas - Presidente da República, Assembleia da República e Governo.

A porta-voz de um partido rejeitado nas opções de voto de 89,91% dos boletins expressos em 4 de Outubro cresce em arrogância à medida que se aproxima o momento em que o BE poderá enfim tornar-se peça de uma solução de governo após 16 anos de existência. Alguém deveria dizer-lhe que em democracia, quando se cumprem as regras, nunca há perdas de tempo.

 

Mas se é de perder tempo que falamos, a verdade é que, 26 dias após as legislativas, nenhum elenco governativo sólido e credível se vislumbra em alternativa ao que hoje foi empossado.

No PS - que recolheu menos de um terço dos votos expressos - persistem as vozes contrárias à realização de um acordo com os sectores mais extremistas da esquerda.

"Seria bom que alguns actuais deputados do Partido Socialista que andam por aí levianamente a proferir barbaridades olhassem com mais rigor para a história do partido que conjunturalmente representam", escreve sem rodeios o eurodeputado Francisco Assis, que já liderou a bancada socialista em São Bento. O deputado Eurico Brilhante Dias não tem dúvidas: "O PS devia ir para a oposição", até porque "um acordo à esquerda nunca foi apresentado" como hipótese perante os eleitores. António Galamba, ex-membro do Secretariado Nacional e ex-director do jornal Acção Socialista, compara um putativo acordo de legislatura PS/BE/PCP/PEV a uma "parceria público-privada".

Por bandas do PCP, a reserva mental é ainda mais notória. Jerónimo de Sousa reivindica o direito de votar medida a medida todas as iniciativas legislativas de um eventual executivo do PS, consoante a avaliação conjuntural do mérito de cada uma feita pelo Comité Central. E traça desde logo linhas de fronteira: os comunistas são radicalmente contra o Tratado Orçamental, manifestam-se na rua contra a participação de Portugal na Aliança Atlântica e nem querem ouvir falar em limites ao endividamento do Estado.

Tudo isto enquanto duram as "negociações" com o PS. Descritas pelo Avante! desta forma esclarecedora: "Prosseguem reuniões para exame de possibilidades de soluções políticas, num quadro de compreensíveis e previsíveis dificuldades."

 

Em Janeiro, na estreia da esquerda radical grega à frente do Governo de Atenas, Alexis Tsipras selou em 24 horas um  acordo de coligação com a direita nacionalista. Não perdeu tempo, o que terá bastado para lhe valer o aplauso de Catarina Martins, parceira ideológica do líder do Syriza. Por cá, quase um mês depois de contados os votos, as diversas esquerdas continuam a entender-se apenas pela negativa: correr com a direita do poder.

Falta tudo o resto. Faltam, desde logo, as traves-mestras da solução de estabilidade que Costa prometeu durante a campanha, quando ainda sonhava com a maioria absoluta. Falta o acordo sobre matérias financeiras e orçamentais entre um partido maior, que quer manter as metas globais de ajustamento orçamental, e dois partidos menores, que só desejam aumentar a despesa pública.

Um acordo que nenhum português conhece.

 

No discurso de posse do Governo, ao fim da manhã de hoje (muito melhor do que a mensagem que dirigiu ao País no dia 22), o Presidente da República sintetizou a chave do problema nesta frase: "Sem estabilidade política, Portugal tornar-se-á um país ingovernável."

É uma frase que há-de ser muito recordada e repetida nos meses mais próximos, quando as bravatas verbais de Catarina Martins começarem a dissolver-se no horizonte.

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Frases de 2015 (45)

por Pedro Correia, em 12.10.15

«O Governo de Passos e Portas acabou hoje.»

Catarina Martins

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Legislativas (20)

por Pedro Correia, em 02.10.15

Esteve bem quem ensinou Catarina Martins a sorrir e a baixar o tom de voz. Dá-lhe uma imagem de frescura juvenil que permanecia oculta sob a anterior máscara de rudeza.

 

Esteve mal quem ensinou António Costa a desviar os olhos do jornalista que o interroga para fixar os olhos na câmara. Dá-lhe pose de arrogância, como se não admitisse ser escrutinado.

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Legislativas (9)

por Pedro Correia, em 16.09.15

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As eleições ganham-se ao centro. E as excepções só confirmam a regra, como a vitória de Pirro do Syriza na Grécia comprova oito meses depois. Ninguém ficou menos surpreendido do que eu: enquanto outros lhe entoavam hossanas, logo em Janeiro vaticinei aqui que a coligação liderada por Alexis Tsipras iria "desfazer-se em poucos meses" e o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, seria "o primeiro a abandonar o barco".
António Costa foi criticado, e muito bem, por se ter esganiçado nessa altura em louvor do Syriza. Recentrou-se entretanto, por convicção ou tacticismo: o secretário-geral do PS sabe que só ganhará as legislativas se sacudir a poalha esquerdista que foi acumulando na gola do casaco.
Paulo Portas e Passos Coelho foram condescendentes nos debates televisivos que travaram com Catarina Martins. Percebe-se: não disputam eleitorado com ela e até lhes dá jeito que o Bloco de Esquerda cresça um pouco, à custa do PS, seguindo o princípio dos vasos comunicantes. Eram debates que qualquer deles se deu ao luxo de perder ou empatar sem custo de qualquer espécie: os votos tresmalhados no BE funcionam como uma espécie de seguro da coligação contra a intempérie socialista.


O Bloco - esgotada a sua agenda "fracturante"- ficou sem bandeiras. Órfão da liderança carismática de Francisco Louçã, está entalado estrategicamente entre o PS e a "verdadeira esquerda", pura e dura, a do PCP. Catarina Martins mais não tem repetido nesta campanha do que as teses comunistas. Sobre a construção europeia, o euro, o Tratado Orçamental, a "reestruturação da dívida", o PS como "aliado da direita".
Para os eleitores que restam do BE só haverá voto útil se puder conduzir a uma solução governativa à esquerda: enquanto partido de protesto com visibilidade na cena política portuguesa, chega e sobra o PCP. No entanto nada disso tem reflexos na mensagem de Catarina Martins, que já se situa à esquerda do Syriza - antiga "esperança para toda a Europa", rapidamente esmorecida. Cada vez mais longe da família dominante no socialismo europeu.


Neste contexto, o apelo lançado pela porta-voz bloquista no minuto que lhe restava do frente-a-frente com Costa, na noite de segunda-feira, foi quase patético: o Bloco de Esquerda admite agora "conversar" com o PS... se o PS abdicar das suas bandeiras eleitorais.
Desta forma, Catarina empurrou o líder socialista para o centro. Ele agradece-lhe a gentileza, certamente, porque isso contribui para cativar o eleitorado flutuante dessa área. Já agora: Jerónimo de Sousa também. Porque o PCP tem garantidos de antemão os votos da "verdadeira esquerda" mesmo que os amanhãs tenham há muito deixado de cantar.

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A revelação da campanha.

por Luís Menezes Leitão, em 15.09.15

 

Para mim, esta campanha tem sido absolutamente medíocre. Passos Coelho manifestamente não está em forma, obrigando Paulo Portas a assumir grande parte do esforço da campanha, o que tem feito de forma competente, mas sem rasgo. Já António Costa, depois de ter passado a pré-campanha a dar tiros no pé, conseguiu um suplemento de alma no debate com Passos Coelho, que desbaratou no dia seguinte na entrevista a Vítor Gonçalves, onde se demonstrou claramente, para grande irritação de Costa, que o PS pode ter feito as contas, mas as mesmas não batem certo. Já Jerónimo de Sousa é o que sempre foi, para o melhor e para o pior.

 

A grande surpresa desta campanha é, por isso, Catarina Martins. Concorde-se ou não com as suas propostas — e eu não concordo de todo — não há dúvida de que tem conseguido levar a água ao seu moinho, apresentando-se bem preparada, com um discurso coerente, tendo vencido todos os debates em que participou, com excepção daquele com Jerónimo de Sousa, onde intencionalmente jogou para o empate. Venceu Portas em toda a linha, venceu tangencialmente Passos Coelho, e arrasou António Costa no campo onde este se pretende agarrar a todo o custo: o seu próprio programa. Depois de António Costa acusar a direita de querer cortar 600 milhões nas pensões, ficará seguramente no ouvido dos pensionistas os 1600 milhões de perdas nas pensões, que Catarina Martins demonstrou estarem no programa do PS. 

 

O debate com António Costa era o mais importante para o Bloco de Esquerda, pois era aí que poderia estancar ou abrir a fuga dos  eleitores do Bloco para o voto útil no PS. A meu ver, Catarina Martins conseguiu estancar essa fuga, encostando Costa completamente à direita, quando ele é o líder mais à esquerda do PS desde sempre. Quer na segurança social, quer no despedimento conciliatório, Catarina Martins encostou António Costa às cordas da direita, terminando com uma estocada final decisiva, a perguntar se faria acordo com ela ou com Rui Rio ou Paulo Portas. Costa limitou-se em seguida a papaguear umas vaguidades, fugindo à questão, o que seguramente não será positivo para atrair o voto útil à esquerda.

 

Se se perguntasse qual era o líder partidário que tinha a situação mais difícil nestas eleições eu diria que era Catarina Martins. O Bloco tinha perdido o seu líder histórico, depois do abandono de Francisco Louçã, e a liderança bicéfala de João Semedo e Catarina Martins tinha sido um fracasso. O Bloco assistia a sucessivas cisões, que davam lugar a novos partidos, como o Livre, o MAS, ou o Agir, sendo que, mesmo dentro do próprio Bloco, a única forma de se porem de acordo foi atribuir a liderança a seis pessoas, ficando Catarina Martins como simples porta-voz. E o PS aproveitava esta divisão, chegando a convidar Rui Tavares, do Livre, para os seus congressos.

 

Hoje, os partidos que resultaram da cisão do Bloco estão reduzidos a fazer umas simples piruetas mediáticas, enquanto que o próprio Bloco, através de Catarina Martins, tem tido uma excelente prestação nesta campanha. Tenha o resultado eleitoral que tiver, a partir de agora o Bloco de Esquerda tem uma líder. O que, nos tempos que correm, não é coisa pequena.

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Legislativas (8)

por Pedro Correia, em 14.09.15

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DEBATE ANTÓNIO COSTA-CATARINA MARTINS

 

O secretário-geral do PS saiu esta noite claramente vencedor do debate que travou na TVI 24 com a porta-voz do Bloco de Esquerda. Um debate que começou em atmosfera cordata mas que cedo se foi crispando.

Catarina Martins até foi a primeira a marcar pontos, conseguindo irritar António Costa ao mencionar um ponto "escondido" do programa socialista: o congelamento das pensões de reforma na próxima legislatura.

"Os pensionistas continuam a ser uma espécie de porquinho-mealheiro dos saldos orçamentais", atacou a líder bloquista, acusando o PS de procurar consolidar as contas públicas, na próxima legislatura, em 1,660 milhões de euros à custa dos pensionistas, que veriam o seu rendimento inalterado até 2019. "Tem a mesma lógica da direita: uma contínua desvalorização salarial."

 

Agarrou-se de tal forma a este tema que acabou por invocá-lo oito vezes, com manifesto exagero. Costa começou à defesa: "Não assumimos compromissos além daquilo que responsavelmente podemos gastar. Prefiro assumir um compromisso menor [na segurança social] e ir mais além em vez de prometer algo que não posso cumprir."

Mas cedo passou ao contra-ataque, colando a sua parceira de debate às políticas fracassadas do Syriza e apontando um dedo acusador: "O Bloco pode prometer tudo a todos - dos pensionistas às crianças que estão no berçário, porque todo o seu programa assenta na reestruturação da dívida. Depois do que aconteceu na Grécia, o BE devia ter alguma humildade. Alguém acredita que se houvesse um governo BE conseguiria aquilo que Tsipras e Varoufakis não conseguiram?"

 

Catarina descolou do Syriza, reconhecendo que "as esperanças dos gregos foram esmagadas e foi-lhes imposto um programa de austeridade e pilhagem". Mas insistiu na reestruturação da dívida, invocando a antecessora de Passos Coelho na liderança do PSD em abono da sua tese enquanto endereçava uma farpa a Costa: "Está à direita de Manuela Ferreira Leite, que acha necessária a reestruturação da dívida." Foi pelo menos a quinta vez que a líder do BE evocou a antiga presidente do PSD nesta campanha...

Costa devolveu-lhe a farpa com juros, aproveitando para fazer uma confissão: "Sempre fui social-democrata, desde os 14 anos, sem tentações esquerdistas. E sempre me afligiu nos esquerdistas passarem a vida toda a fazer discursos, incapazes de resolver um problema concreto de uma pessoa."

Catarina acusou-o de "desistir do País". Mas o secretário-geral socialista ia embalado e não afrouxou: recorrendo por sua vez ao programa bloquista, disse que o BE quer nacionalizar a banca, a GALP, a REN e a EDP. "Onde estão as contas? Onde vão buscar o dinheiro? Quanto custa isto?"

 

Ficou claro que existem demasiados temas a separar socialistas e bloquistas: a manutenção do País na moeda única, a consolidação das contas públicas, os compromissos europeus, o vasto pacote de estatização de empresas que consta das prioridades do BE. Mas Catarina aproveitou o minuto final para ensaiar a que seria a surpresa da noite, numa óbvia tentativa de combater a dinâmica do voto útil à esquerda: está disponível para dialogar com o PS, no dia seguinte às legislativas, se os socialistas puserem de lado o congelamento das pensões, o anunciado corte da TSU e o "regime conciliatório que flexibiliza os despedimentos". A menos que - ironizou - o actual líder do principal partido da oposição prefira dialogar "com Rui Rio ou Paulo Portas".

Deste repto poderia ter resultado a principal notícia deste frente-a-frente, moderado pelo jornalista Pedro Pinto. Mas assim não foi. Porque Costa o ignorou por completo. Falou depois de Catarina sem demonstrar sequer ter ouvido alguma coisa.

Saiu com uma imagem mais moderada deste debate do que entrou. E nada mais lhe interessava senão isto.

 

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FRASES

Catarina - «Sempre distingui o PS da direita.»

Costa - «Tem dias, tem dias...»

Catarina - «Os partidos socialistas europeus contribuíram para o esmagamento da Grécia, para a chantagem.»

Costa - «Tenho alguma irritação com o Bloco de Esquerda...»

Catarina - «Temos de nos preparar para um eventual rompimento com a União Monetária.»

Costa - «Pior que tudo seria a desvalorização atroz que resultaria da nossa saída do euro. Imagina o que seria o salário mínimo nacional convertido em escudos?»

Catarina - «Assumir o confronto é a única forma de defender o País.»

Costa - «Assumir o confronto foi aquilo que o governo Syriza quis fazer, com os resultados que teve.»

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Legislativas (7)

por Pedro Correia, em 11.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PASSOS COELHO

 

Um debate com substância. Assim foi o frente-a-frente desta noite, na RTPi, que opôs Catarina Martins a Pedro Passos Coelho. Muito centrado na segurança social - tema que dá pano para mangas, pois interessa a todos os eleitores.

A porta-voz do Bloco de Esquerda - como lhe competia, e sem defraudar expectativas - jogou ao ataque neste debate moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves, acusando a coligação PSD/CDS de "esconder os números" enquanto procura entregar parte da segurança social a fundos especulativos.

O presidente do PSD, deixando claro que qualquer alteração só se aplicará a novos contratos, rejeitou que esteja em estudo um corte de 600 milhões da segurança social. Mas continua a induzir a ideia de que nesta matéria o Executivo esconde muito mais do que explica.

O Bloco voltou a evidenciar-se como voz incómoda para a coligação, confirmando que Catarina Martins se apresenta em boa forma nesta campanha e disposta até a alargar as fronteiras tradicionais do seu partido. Ao ponto de hoje ter apelado sem rodeios ao voto "nas pessoas que [em 2011] votaram em Passos Coelho e Paulo Portas e se sentem traídas com o que aconteceu". E também ao apertar Passos com a questão aparentemente irresolúvel da dívida pública, que teima em manter-se com setas ascendentes.

Raros temas incomodam tanto o primeiro-ministro como este.

 

Mais duvidosa é a insistência bloquista em invocar Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix como figuras de referência: isso aconteceu esta noite, pelo segundo debate consecutivo, quando a líder do BE voltou a mencionar estes dois vultos conservadores em abono da sua tese de que "a dívida portuguesa é impagável".

Neste ponto Passos tocou na corda mais sensível dos bloquistas: o modelo grego, que entre Janeiro e Julho Catarina Martins tanto enaltecia. O governo Syriza chegou ao poder de peito feito, anunciando o fim da austeridade e a reestruturação da dívida, e acabou feito em estilhaços, impondo aos gregos um pacote de restrições financeiras ainda mais severas do que o anterior.

"Acho incompreensível que um país que tem que assegurar o pagamento às famílias, às empresas e ao Estado diga aos credores que não está em condições de pagar a dívida. Nesse dia deixa de ter condições para se financiar", declarou Passos, aludindo ao comportamento errante do ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis. Remetida à defesa neste ponto, Catarina viu-se forçada a dar o dito por não dito: "O programa que está hoje a ser imposto à Grécia é um programa mau para a Grécia, mau para a Europa, não é o nosso programa."

 

Não custou a Passos colar a sua oponente ao Syriza - o Bloco grego - neste debate nada morno no fundo, que quase replicou alguns dos tensos diálogos entre Catarina Martins e o primeiro-ministro na Assembleia da República, sem deixar de ser cordato na forma. O chefe do Governo também se esquivou sem grande dificuldade à questão do Novo Banco: enquanto a sua oponente acusava o Executivo de lesar os contribuintes, Passos questionou os custos incomportáveis de um cenário alternativo: "Se a nacionalização do BPN custou 5 mil milhões, a do BES custaria dez vezes mais."

Ficou sem réplica. Catarina Martins optou por virar a agulha: "Nestes quatro anos, o senhor roubou sete meses de salários dos funcionários públicos", disse-lhe ela. "A senhora deputada aparece com um discurso de quem sabe que nunca vai ter que chegar ao Governo e tomar medidas", retorquiu-lhe ele.

Condenados a desentender-se, está mais que visto.

 

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FRASES

Catarina - «O PIB português recuou 15 anos [desde 2011].»

Passos - «O que trouxe os sacrifícios foi a crise [anterior à posse do Governo].»

Catarina - «Há dez mil novos milionários em Portugal, doutor Passos Coelho.»

Passos - «Acha que eu fiz dez mil novos milionários? Não foi com certeza à custa do Estado, senhora deputada.»

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Legislativas (4)

por Pedro Correia, em 08.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-PAULO PORTAS

 

Desta vez houve mesmo debate e não apenas um simulacro, como aconteceu há uma semana. Ana Lourenço, a jornalista que arbitrou o frente-a-frente desta noite na SIC Notícias, teve a intuição de perceber que haveria vantagem em deixar falar os antagonistas sem pretender impor-lhes um cardápio de questões. Fez bem. Porque o telespectadores ganharam ao ver Catarina Martins e Paulo Portas em diálogos que pediam pouca moderação.

Pela segunda vez consecutiva, a porta-voz do Bloco de Esquerda mostrou-se em boa forma. Surgiu perante as câmaras com ar menos crispado do que costuma revelar no Parlamento, soube escutar, demonstrou capacidade de argumentação e destreza verbal, sem se deixar atemorizar pela arguta raposa da política que tinha à sua frente.

O presidente do CDS, em representação da coligação governamental que procura renovar o mandato a 4 de Outubro, estava constipado e mal ocultava algum cansaço. Mesmo assim conseguiu conduzir o debate para o terreno que lhe interessava, puxando-o logo de início para o caso grego - numa antecipação daquilo que Passos Coelho não deixará de fazer no frente-a-frente de amanhã com António Costa.

"Até há um mês o Bloco de Esquerda tinha um modelo: chamava-se Grécia, Tsipras e Syriza. Reestruturação da dívida grega: onde é que ela está? O Syriza dizia que nunca mais pediria um resgate: acabou de pedir um terceiro. Dizia que a austeridade ia acabar: aceitou a austeridade em dobro. Dizia que a Europa ia mudar: quem mudou foi Tsipras", declarou Portas, com ar vagamente enfastiado.

O assunto incomoda os bloquistas. Mas Catarina, por sua vez, soube pôr Portas em sentido ao salientar que "o programa da coligação não apresenta um único número" aos portugueses enquanto o Governo se compromete em Bruxelas a cortar 600 milhões de euros na segurança social.

"Não aceitamos ser um protectorado da Alemanha", esclareceu a porta-voz do BE, piscando o olho aos eleitores mais moderados ao mencionar Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite entre os portugueses que já advogaram uma reestruturação da dívida portuguesa. Algo impensável há quatro anos.

A verdade é que nem o Bloco tem a pretensão de pescar votos junto dos habituais eleitores do CDS nem os democratas-cristão aspiram a seduzir votantes situados à esquerda do PS, o que explica em boa parte o tom cordato deste debate, que não deixou de ter acutilância e algum fogo cruzado digno de registo. Com Catarina a apontar o dedo acusador: "Este é o governo recordista dos ajustes directos." E Portas a replicar: "O Bloco de Esquerda nunca governou nenhuma entidade em Portugal excepto a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, que em 2009 fez um ajuste directo para os transportes urbanos, entregando-os à [empresa privada] Barraqueiro."

Cada qual, à sua maneira, comprovou que o traquejo parlamentar é muito útil nestas ocasiões. Mas, no confronto das expectativas com a prestação concreta, a líder bloquista destacou-se ligeiramente.

Como aperitivo não esteve mal. O prato forte será servido amanhã à noite, com outros protagonistas, nos três canais em sinal aberto.

 

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FRASES

Catarina - «Não é possível governar quase sistematicamente contra a Constituição. O actual Governo não foi capaz de fazer um único orçamento dentro da Constituição: essa é a maior instabilidade que o País pode ter em termos políticos.»

Portas - «A política não é a arte do impossível. A senhora tem um discurso de utopias coladas umas às outras, sem adesão à realidade.»

Catarina - «Não há estado social sem solidariedade entre as gerações.»

Portas - «Não há estado social com o Estado falido.»

Catarina - «O doutor Paulo Portas é um belíssimo ilusionista da política.»

Portas - «Não trate os outros por ilusionistas. Ilusionismo foi o que aconteceu na Grécia.»

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Legislativas (1)

por Pedro Correia, em 01.09.15

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DEBATE CATARINA MARTINS-JERÓNIMO DE SOUSA

 

Cheguei ao fim do debate desta noite na RTP informação (não valeria a pena a televisão pública tê-lo emitido em sinal aberto?) quase sem distinguir o Bloco de Esquerda do Partido Comunista. Excepto na questão do euro: o PCP faz um balanço "profundamente desastroso" da nossa integração na moeda única e o Bloco deixa claro que "a saída do euro não é a saída para a crise".

Há também um pormenor semântico, que aliás está longe de constituir novidade: ao contrário do que sucede com Catarina, Jerónimo de Sousa faz questão de iniciar sempre as frases recorrendo à primeira pessoa do plural ("a nossa análise, o nosso projecto, as nossas propostas...")

Em quase tudo o resto o secretário-geral do PCP e a porta-voz do Bloco de Esquerda não fizeram qualquer esforço em diferenciar-se neste frente-a-frente moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves. São ambos contra as "políticas de austeridade", pretendem renegociar a dívida pública, estão prontos a rasgar o tratado orçamental e nem admitem ouvir falar de possíveis alianças pós-eleitorais com os socialistas, transformados em bombo da festa neste debate. 

"O PS sempre praticou políticas de direita", sentenciou Jerónimo, sem introduzir um átomo de alteração à prédica habitual dos comunistas, campanha após campanha. "O PS, nas questões de fundo, não se distingue da direita", sublinhou a porta-voz bloquista, de olho verde mas discurso bem vermelho.

De um lado venta, do outro chove: Bloco e PCP contentam-se em ser partidos de protesto. E como se somariam a um hipotético executivo socialista se não se dão sequer ao incómodo de juntar forças numa plataforma eleitoral comum?

Jerónimo pareceu fatigado, Catarina esteve mais fresca e exibiu palavra mais solta, chegando a conceder arguta e merecida vénia ao parceiro de debate: "O Bloco é muito devedor da luta e do combate do PCP." A dado momento um plano televisivo fixou-a a mirar com ar carinhoso para o histórico comunista: parecia uma neta a contemplar o avô.

Estes pequenos apontamentos visuais proporcionados pela indiscrição das câmaras tornam-se quase sempre os aspectos mais interessantes dos debates em que os protagonistas fazem tudo para ocultar divergências, como foi o caso. No final, outra pequena diferença: Catarina, desfavorecida nas sondagens, apelou explicitamente ao voto dos abstencionistas militantes. Jerónimo nem se deu a esse incómodo: com saber de experiência feito, ele não ignora que a batalha à esquerda do PS está antecipadamente ganha pelo PCP.

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FRASES

Catarina - «O PS, para fazer um governo de direita, precisa de um partido de esquerda? Não. Pode fazê-lo com partidos de direita. Não é para isso que cá estamos, de certeza.»

Jerónimo - «Nós defendemos a ruptura com este caminho para o desastre a que a política de direita tem conduzido o País.»

Catarina - «O PS tem um alinhamento completo com o PSD e o CDS no que é essencial.»

Jerónimo - «Temos um valioso património de trabalho unitário.»

Catarina - «As pessoas estão cansadas de uma alternância que nunca lhes trouxe alternativa.»

Jerónimo - «Ninguém é dono dos votos dos portugueses.»

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Grécia antiga (11)

por Pedro Correia, em 27.05.15

«A vitória do Syriza é a vitória da democracia. Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo.»

Catarina Martins (25 de Janeiro de 2015)

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1. O Bloco de Esquerda transforma cada declaração política num juízo de carácter sobre quem comunga de convicções opostas às suas, passando por sistema atestados de impureza ética aos adversários políticos. Os seus responsáveis exigem, a todo o momento, demissões pelos mais diversos motivos. Esta ética da responsabilidade, curiosamente, detém-se à porta da sede nacional do Bloco. Porque o BE pode falhar todos os objectivos e perder todas as eleições sem haver uma demissão nos seus órgãos decisórios. Uma duplicidade ainda mais difícil de entender após estas autárquicas, em que o Bloco perde 43 mil votos, recua de 3% para 2,5% em média nacional, deixa fugir a única câmara de que dispunha e não consegue eleger um vereador em qualquer cidade de grande ou média dimensão. Apesar do ruído mediático que ainda provocam, os bloquistas -- com apenas cerca de seis mil militantes e uma notória escassez de quadros partidários -- parecem condenados à irrelevância política. É inevitável uma revisão global de procedimentos, para assumir erros e corrigir a rota. Desde logo porque a ética da responsabilidade não pode ser só para os outros: há que começar em ca(u)sa própria.

Primeiro desafio: como aumentar militantes e reforçar quadros para evitar novas derrotas?

 

2. Paira no BE um sentimento de orfandade. O seu fundador e líder histórico, Francisco Louçã, era uma personalidade carismática que falava muito para além das fronteiras partidárias e até do reduto ideológico dos bloquistas. Louçã conseguiu operar uma espécie de milagre: fazer surgir um movimento unitário das cinzas da decrépita extrema-esquerda portuguesa. Com a sua partida voluntária, há pouco mais de um ano, vieram novamente à tona os antigos tiques e vícios estruturais das pequenas facções que constituem o Bloco e que de alguma forma desmentem o próprio nome do partido constituído em 1999 com uma agenda política inovadora em matéria de costumes e tendências sociais, logo vampirizada pelo PS de José Sócrates. Esgotada essa agenda, o Bloco não pode voltar a ser dominado pelas velhas facções extremistas da década de 70, sob pena de se descaracterizar por completo e até desaparecer.

Segundo desafio: como retomar o carácter unitário do Bloco, superando guerras de facções?

 

3. Os sinais de modernidade que os bloquistas trouxeram à política portuguesa parecem esgotados. E alguns são manifestamente inadequados. Talvez nenhum tenha sido tão prematuro e desajustado como a liderança bicéfala instalada no partido desde a partida de Louçã. Na tentativa apressada de superar as restantes forças partidárias em demonstrações de igualdade de género, o BE copiou o modelo adoptado pelos Verdes alemães e pelo Partido de Esquerda fundado em França por Jean-Luc Mélenchon, sem reflectir bem nas limitações e nos inconvenientes desta bicefalia. Que manifestamente não resulta, por mais vibrantes que sejam as intervenções públicas de Catarina Martins e por mais experiente e respeitável que seja João Semedo, ex-membro do Comité Central do PCP que abandonou as fileiras comunistas em nome dos valores da cidadania e da liberdade de consciência. E não resulta porque dispersa a mensagem, induz uma ideia de fragmentação na opinião pública e prejudica a identificação dos portugueses com o projecto bloquista. Além do mais, para que precisará o mais pequeno partido português de dois líderes?

Terceiro desafio: deve ser abandonada a actual liderança bicéfala?

 

4. A dada altura, o Bloco de Esquerda parecia ser um sério concorrente do PCP. Sobrava-lhe no entanto em novidade mediática o que lhe faltava em enraizamento social. Nisto, os bloquistas são incapazes de se bater com os comunistas, há décadas com forte implantação na sociedade portuguesa, particularmente na vida autárquica e no mundo do trabalho. Sem representantes nos órgãos do poder local, com uma presença irrisória no movimento sindical, o BE tem-se limitado praticamente a replicar o discurso de protesto característico dos comunistas, parecendo querer ultrapassar o PCP em radicalismo -- o que ficou bem patente na moção de censura apresentada ao governo Sócrates logo após a candidatura presidencial "unitária" de Manuel Alegre e a intransigente recusa em conferenciar com os representantes da tróica em Portugal. Havendo original, tornam-se dispensáveis as cópias.

Quarto desafio: como superar eleitoralmente o PCP?

 

5. O BE só revelará utilidade, à esquerda, se tiver ambições de governo. Ou seja, se estiver receptivo a uma futura coligação com o PS, único partido português com hipótese de constituir alternativa à actual maioria governamental. Se imitam os Verdes alemães na liderança bicéfala, por maioria de razão também devem imitá-los nesta matéria: os ecologistas atingiram a maioridade política em Berlim ao aceitarem coligar-se em 1998 com o chanceler social-democrata Gerhard Schroeder. Uma bem sucedida coligação que durou sete anos, consolidou os Verdes como partido de âmbito nacional e levou o seu líder, Joschka Fischer, ao cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.

Quinto desafio: haverá alguém no Bloco disposto a ser o Joschka Fischer português?

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