Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Penso rápido (71)

por Pedro Correia, em 29.09.15

Na eleição legislativa contam os mandatos. Essa é a lógica desta eleição - a da conversão de votos em mandatos.

Nos escrutínios de natureza referendária não há lugar a mandatos. Interessam apenas os votos. 

A eleição autonómica catalã nunca foi referendária: só a coligação Juntos Pelo Sim pretendeu dar-lhe essas características. Se o fosse, o "não" à independência teria ganho (52,2% contra 47,8%).

O tiro aos separatistas saiu pela culatra: é o que costuma acontecer quando se quer dar o passo maior que a perna.

Além de verem rejeitadas as suas teses independentistas, que preencheram 95% da campanha, a coligação formada por Mas e Junqueras perdeu nove lugares no Parlamento autonómico. Ficou em minoria no hemiciclo.

Na anterior eleição, em 2012, a Convergência e a Esquerda Republica tinham concorrido em separado, alcançando 44,4%. Agora, em coligação, ficaram-se pelos 39,6%.

As urnas falaram. Com toda a clareza.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mas afinal ficou com menos

por Pedro Correia, em 28.09.15

25n-elecciones_autonomicas_cataluna-artur_mas-inde

 

Como escrevi aqui mais de uma vez, não há independências por metade: um processo soberanista ou resulta de um amplo movimento colectivo ou está condenado ao fracasso. Artur Mas, o presidente do Governo catalão, quis transformar as eleições autonómicas de ontem num plebiscito ao corte de laços políticos com o Estado espanhol, rompendo com a Constituição de 1978. Ameaçou até dar esse passo se conseguisse um só boletim acima da metade dos sufrágios expressos neste escrutínio. Alegando que cada voto conta.

Pela segunda vez, falha o objectivo - tal como já sucedera há dez meses, ao convocar um referendo-fantoche, sem validade jurídica, reduzido a escombros pelo Tribunal Constitucional. Os catalães acorreram às urnas, recusando-lhe a maioria que pediu. Apesar de coligada com a Esquerda Republicana, sua rival histórica, a Convergência de Mas desce nove lugares no Parlamento de Barcelona (os dois partidos somavam 71 lugares na legislatura anterior e recuam agora para 62, seis assentos abaixo da maioria absoluta) e fica atrás da soma dos partidos constitucionalistas, que alcançam 63 postos. Sobra a CUP, da extrema-esquerda hipernacionalista, que aspira à independência no minuto seguinte e já deixou claro que não viabilizará um novo mandato de Mas, expoente da burguesia conservadora.

 

Em números e percentagem de votos expressos, a coligação liderada por Mas somada à CUP queda-se nos 47,8% (1,946 milhões de sufrágios), sem conseguir transpor a barreira psicológica dos 50%. Abaixo das forças constitucionalistas, de esquerda e de direita, que somaram 52,2% (1,952 milhões de sufrágios), destacando-se o excelente desempenho eleitoral do partido Cidadãos, que quase triplica o número de parlamentares (subindo de 9 para 25).

Estamos perante um claro "fracasso do soberanismo", como bem sublinha David Jiménez, director do El Mundo. O que não impediu alguns telediários portugueses, com o alarido habitual de quem prefere "noticiar primeiro" em vez de noticiar com rigor, de se apressarem a proclamar o "triunfo independentista" em terras catalãs, com base numa projecção à boca das urnas da oficialista Antena 3, que há muito funciona como mero veículo da propaganda governamental de Mas.

 

"Os independentistas ganham em assentos mas não em votos", sintetiza em manchete outro jornal, El País. Fica quase tudo dito nesta frase. Se as eleições autonómicas fossem o plebiscito que os separatistas queriam, tinham acabado de sofrer uma derrota. Porque cada voto conta.

E, se é ridículo fundar-se um país com 50%+1 das opiniões expressas, pretender fundá-lo com menos de 50% é ainda mais impraticável. Mas queria mais, afinal ficou com menos. Os espanhóis ganharam com isso - a começar pelos espanhóis da Catalunha, que com o seu voto souberam travar um aventureirismo irresponsável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

castellers.jpg

 

Sentes-te desconfortável por não perceberes uma botifarra sobre a momentosa questão catalã? Nada temas. Segue estas simples indicações e, com sorte e uma abundante cabeleira, poderás ser um novo Nuno Rogeiro. Com menos cabelo e a mesma sorte, serás talvez um mais velho Loureiro dos Santos:

1 - Começa qualquer discussão sublinhando que a questão é muito mais complexa do que simplesmente optar entre a visão centralista e a independentista. Adopta pose circunspecta e conclui referindo que devemos resistir a análises simplistas num mundo global e multipolar.

2 - Salienta o papel nuclear da Catalunha no contexto da dimensão ibérica de Espanha e na sua história. Liga o simbolismo da Estátua de Colombo às relações diplomáticas da Coroa Espanhola com os países andinos. Se puderes, leva um mapa-mundi. Com traços seguros, une Barcelona (convém que tentes perceber previamente o local aproximado onde se situa) com diversos pontos espalhados ao acaso. Reforça a dimensão geoestratégica da localização e relaciona-a com grandes migrações passadas, presentes e futuras. Toca, en passant, no tema dos refugiados da Síria e revela que o Aeroporto Del Prat pode ser utilizado para reabastecimento de bombardeiros envolvidos nas acções de punição do regime de Bashar al-Assad (é importante que digas o nome completo do tiranete pois assim revelarás o teu conhecimento profundo dos actores envolvidos).  Se te lembrares, fala de estudos secretos da OPEP sobre possíveis reservas petrolíferas ao largo de Tarragona e da possibilidade de a UE ter em carteira a construção de um gasoduto alternativo entre LLoret de Mar e a Ucrânia para furar o bloqueio russo.  O importante não é que alguma coisa destas faça sentido. O fundamental é passar a ideia de que tens uma visão global sobre o tema.

3 - Abusa das alusões históricas. Compara Artur Más com grandes líderes e momentos do imaginário independentista: José Martí, Grito do Ipiranga, Grito de Munch, Cataratas do Niagara, Alberto João Jardim, Afonso Henriques. Refere a Finlândia várias vezes como exemplo de uma independência bem sucedida. Deixa cair, como se nada fosse, que Suomi é uma expressão eslava que significa liberdade e prosperidade ainda que não seja realmente assim. Traça um paralelo entre Rajoy e Pedro o Grande, Anastácia ou Shakira enquanto abres os braços lentamente para sublinhares a abrangência das ligações históricas e políticas convocadas pelo momento. Se não te lembrares de falar no Pedro, refere outro Grande qualquer. Pode ser o Alexandre, o Líder ou a Muralha. Usa e abusa de palavras começadas em geo: geo-política, geo-estratégico, geo-lógico, geo-désico, geo-térmico e por aí foraSempre que disseres uma palavra começada por geo faz uma ligeira pausa para que a audiência saboreie o peso dos teus conhecimentos.

4 - Faz uma alusão ao sentimento nacionalista. Aos perigos que estes representam. A episódios não nomeados de fracturas insanáveis. A casos que conheces de vizinhos que nunca mais se falaram por causa de uma questão toponímica. A vinganças terríveis motivadas por disputas de terras e águas. Se te sentires completamente à vontade, faz neste preciso momento uma alusão ao estilicídio. Embala e recorda ainda o regicídio e o atentado de Sarajevo. Não deixes nenhum destes pontos para mais tarde. Se permitires que a discussão prossiga sem aproveitares a deixa, outro tertuliano avançará ele próprio com algum destes excelentes argumentos.

5  - Se em algum momento te sentires entalado, leva a discussão para a arte. Com um sorriso enigmático, fala de Dali e conclui que há sempre neste mundo coisas que não percebemos. Em caso de dificuldade extrema, recorre ao argumento de autoridade. Cita um artigo perdido do Financial Times ou da Caras Magazine. Se as autoridades no assunto o afirmam, está por nascer o primeiro opositor na discussão que o contradiga.

6 - Conclui a tua intervenção cofiando hipotéticas e proféticas barbas e salientando o risco de uma nova guerra fria, de consequências energéticas inimagináveis e de um possível cisma religioso entre a Igreja Católica de Castela e seitas que se movimentam na sombra da Sagrada Família. Fecha em crescendo, aludindo a perigos de dimensão dificilmente antecipável relacionados com a afirmação de usos e símbolos tipicamente catalães como a senyera, a crema catalana, os castellers ou o pa amb tomàquet e a terrível possibilidade de proibição de touradas com picadores em Tossa de Mar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A independência da Catalunha (2).

por Luís Menezes Leitão, em 23.09.15

Acho estranhíssimo que em Portugal não se apoie a independência da Catalunha, e se procure apostar no imobilismo, como se as fronteiras fossem imutáveis e os catalães tivessem necessariamente que ser espanhóis… à força.

 

Neste âmbito, não vale a pena agitar o fantasma da guerra civil de Espanha. Esta demonstrou precisamente a falta de unidade dos espanhóis, que Franco só conseguiu assegurar com mão de ferro. É isso que pretendemos para os povos da península nos dias de hoje? Esmagar as justas aspirações dos diversos povos que compõem a península, obrigando-os a uma vassalagem a uma monarquia ultrapassada, em que hoje cada vez menos se revêem?

 

Invoca-se para impedir a secessão da Catalunha a constituição espanhola. Se o argumento da constituição valesse alguma coisa, nunca teria havido descolonização em Portugal. Todas as colónias faziam parte do Estado Português, segundo a constituição de 1933, e não foi isso que impediu a independência dos países africanos. Uma constituição, para ser democrática, não pode assentar num paradigma imperial, que é a sujeição de um povo a outro, por muito maioritário que este seja. E não se venha falar que um referendo à constituição espanhola em 1978 proíbe que um país se declare independente 40 anos depois. A Ucrânia votou em referendo sucessivamente pela pertença à União Soviética e pouco tempo depois pela sua independência desta.

 

Falar da conferência da Ialta também não faz qualquer sentido. Ela foi em 1945 e estabeleceu fronteiras na Europa que hoje já não existem, passadas sete décadas. Depois de Ialta houve a reunificação da Alemanha, a dissolução da Jugoslávia, a dissolução da URSS, a dissolução da Checoslováquia e a dissolução da Sérvia. O que é que impede, por isso, que algo de semelhante se passe em Espanha?

 

Ao contrário do que se refere, é do interesse de Portugal a independência das comunidades espanholas. O país teria muito mais influência numa península atomizada do que numa península em que só tem como vizinho um Estado muito maior, que funciona como um dos grandes da Europa, relegando Portugal para a divisão dos pequenos países. 

 

As aspirações dos povos à independência são um assunto sério, não são uma brincadeira. Se houve uma vaga de independências africanas no séc. XX, pode perfeitamente ocorrer uma vaga de independências europeias no séc. XXI. Quando os ventos da História sopram, nada os pode parar. E muito menos o futebol.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brincar às independências

por Pedro Correia, em 23.09.15

catalonia[1].png

 

O actual mapa político da Europa regeu-se até 2008 por um princípio basilar da Conferência de Ialta: nenhuma independência unilateral deve ser reconhecida no Velho Continente ao sabor de conveniências de circunstância, sob pena de tornar cada vez mais instáveis as relações internacionais. Desenhar fronteiras de acordo com critérios étnicos, religiosos, linguísticos ou de tribo, com o aval de analistas politicamente correctos, pode ser uma tentação para alguns caudilhos regionais mas é um acto indigno de estadistas.

O perigoso precedente foi inaugurado nesse ano pela "independência" do Kosovo, caucionada pelos Estados Unidos para punir a Sérvia e estribada num inaceitável predomínio étnico que legitimaria - por exemplo - o imediato levantamento insurreccional no País Basco contra os estados espanhol e francês. Moscovo respondeu também em 2008 com o reconhecimento das "independências" da Abcásia e da Ossétia do Sul, protectorados russos na Geórgia. A criação destes "bandustões" no Cáucaso demonstrou uma brutal incoerência: os russos, aliados da Sérvia, tinham estado na primeira linha dos protestos contra a "independência" do Kosovo, já para não falar na asfixia do movimento secessionista na Chechénia.

 

Aberta a caixa de Pandora em pleno século XXI, parece que recuámos duzentos anos na história. Eis-nos novamente no início do século XIX, nacionalista e fragmentário. Com a Bélgica sempre prestes a implodir devido ao interminável conflito entre flamengos e valões. Com os húngaros que não deixam de agitar-se na Voivodina e na Transilvânia. Com galeses e escoceses, sem falar de parte dos irlandeses do norte, de costas viradas para Londres. Com as eternas clivagens regionais no frágil estado italiano, onde se elevam vozes radicais pela independência da Padânia, capitaneadas pela Liga Norte. Com as crescentes aspirações dos autonomistas corsos em clivagem aberta com o centralismo jacobino do Estado francês. Com as reivindicações históricas germânicas, ciclicamente renovadas em círculos extremistas, à restituição da Alsácia e da Lorena (em França) e de Trentino-Alto Ádige (na Itália). Com fortes minorias étnicas aspirando à reconfiguração do mapa político em países como a Letónia, a Macedónia e a Croácia. Com a guerra civil de média intensidade que se prolonga no leste da Ucrânia entre russófilos e russófobos. Com os problemas territoriais mal cicatrizados entre polacos e alemães, finlandeses e russos, húngaros e romenos. Com os conflitos seculares entre gregos e turcos, centrados na ilha de Chipre, dividida desde 1974.

 

Num mundo que se vai organizando em blocos regionais para enfrentar os desafios da globalização, a Europa caminha em passo trocado, separando-se em vez de se unir. Visto de outros continentes, aquele em que vivemos surge como um reduto cada vez mais frágil e bipolar, sedento de reavivar glórias passadas enquanto cede à permanente tentação da utopia.

Ressurge agora a pulsão nacionalista na Catalunha, que nunca foi um Estado independente. As eleições autonómicas de domingo estão a ser transformadas numa espécie de plebiscito à independência da região, que goza de órgãos políticos próprios dotados de amplos poderes, reconhecidos na Constituição espanhola de 1978. E alguns elementos mais extremistas sonham já com uma "grande Catalunha livre", que integre o arquipélago das Baleares, parte do País Valenciano, uma parcela oriental do território aragonês, Andorra, a Alta Sardenha e o departamento francês dos Pirenéus Orientais, onde se integra  o Rossilhão. Tudo em nome de pretensos direitos históricos, mais que contestáveis.

O presidente autonómico, Artur Mas, já prometeu que proclamará em 2017 a "República Catalã" se as forças pró-independência tiverem maioria simples no elenco parlamentar que resultará deste escrutínio - bastando-lhes para o efeito um lugar a mais do que a soma das forças constitucionalistas. É uma tese absurda: não existem declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada. 

A Catalunha será sempre os que os seus cidadãos decidirem, mas num quadro de legalidade democrática. Não será uma minoria iluminada de catalães a decidir por todos. Muito menos os catalães "bacteriologicamente puros", que aliás são minoria na Catalunha. As famílias catalãs e castelhanas ou andaluzas ou valencianas ou aragonesas estão misturadas há séculos. E ainda bem.

 
A Europa - cada vez mais interdependente - não deve brincar às independências, dando lastro aos nacionalismos. Sempre redutores, sempre identitários, sempre com traços xenófobos centrados no ódio ao "estrangeiro".

Não esqueçamos: no século XX os nacionalismos exacerbados, postos em confronto, provocaram 80 milhões de mortos no Velho Continente. Tudo quanto contribua para o seu arrefecimento - e já nem falo na sua diluição - será sempre uma boa notícia para a Europa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A independência da Catalunha.

por Luís Menezes Leitão, em 22.09.15

Portugal tem uma dívida histórica para com a Catalunha. Se não tivesse sido a sua revolta contra Filipe IV na Guerra dos Segadores, entre 1640 e 1652, provavelmente este não teria tido qualquer dificuldade em esmagar a revolta portuguesa de 1640, que comemorávamos no feriado do 1º de Dezembro, que este governo vergonhosamente aboliu. Desde 11 de Setembro de 1714 que a Catalunha está totalmente incorporada no Estado espanhol, apesar de constituir claramente uma nação própria, com um povo e uma língua diferente. Não há por isso motivo nenhum para que não aspire a ser um Estado e, se as eleições do próximo domingo derem maioria aos independentistas, nada haverá que o possa impedir.

 

Já se sabe, no entanto, que nestas alturas surgem sempre os do costume, a invocar o discurso do medo e do terror, ameaçando com a expulsão da Catalunha de todos os organismos internacionais, como se um país que se tornasse independente se tornasse por causa disso um Estado pária. Afinal de contas se a Estónia, a Eslováquia e a Croácia se tornaram independentes, o que é que impede que a Catalunha o venha a ser? Ou a independência dos países está reservada aos que se situavam no antigo bloco de Leste, passando a ser anátema se ocorrer deste lado da antiga cortina de ferro?

 

Mas o argumento mais ridículo que até agora vi usar é a ameaça de expulsão do Barcelona da Liga Espanhola, caso a Catalunha ganhe a independência. Se julgam que este tipo de argumentos tem alguma influência nos eleitores catalães, estão muito enganados. Fartos de ligas espanholas andam eles.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Catalunha: liberdade e lei

por Pedro Correia, em 13.11.14

ciu-erc-referendum-independencia-cataluna-2014-def

 

Em regimes democráticos a liberdade é inseparável, no plano político, do estrito respeito da lei.

Neste aspecto convém sublinhar que a alegada “consulta popular” ocorrida domingo na Catalunha – contrariando uma determinação do Tribunal Constitucional espanhol – terá sido um acto de “libertação” para os nacionalistas catalães mas desrespeitou a democracia.

Segundo a Constituição de Espanha, o referendo é convocado pelo Rei, sob proposta do chefe do Governo e após expressa autorização parlamentar (art. 92º, 2). E “todos os espanhóis têm os mesmos direitos e deveres em qualquer parte do território do Estado” (art. 139º, 1).

 

Um referendo, para ser válido, exige o cumprimento da legalidade democrática. Algo que neste caso não sucedeu. Talvez valha a pena enumerar algumas das distorções mais evidentes:

- Ausência de cadernos eleitorais credíveis, validados por autoridades independentes.

- Concessão do direito de voto a um número mínimo de 800 mil estrangeiros e a cerca de 134 mil adolescentes (maiores de 16 anos), à revelia do que determina a legislação em vigor.

- Proibição do direito de voto a catalães residentes noutras parcelas de Espanha e a qualquer outro espanhol que pretendesse exercê-lo, impondo um critério de territorialidade que viola a letra e o espírito da Constituição.

- Ausência de campanha eleitoral com tempos de antena obrigatórios nos órgãos de informação para as diversas correntes em confronto.

- Nomeação de 45 mil “voluntários” nacionalistas para a “fiscalização” das assembleias de voto, sem a menor garantia de neutralidade política.

- Indefinição total sobre uma taxa de participação eleitoral mínima para a validação da consulta.

 

Organizar um “referendo” sem campanha eleitoral digna desse nome (só os nacionalistas puderam andar todo o tempo em campanha), sem escrutínio independente dos cadernos eleitorais e das assembleias de voto, alargando a capacidade de voto a cidadãos não abrangidos pela lei eleitoral e discriminando eleitores de origem catalã só por residirem noutras partes de Espanha: tudo isto fere de ilegitimidade democrática – e, portanto, de ilegitimidade política – a “consulta” nacionalista organizada na Catalunha.

Mas o maior acto de lesa-democracia, neste processo, ocorreu com o incumprimento da Constituição de 1978. Ao violarem a lei fundamental – discutível, como todas as leis, mas é a que vigora – os nacionalistas catalães revelaram uma insensatez nada correspondente à dos escoceses, que foram a votos em Setembro cumprindo escrupulosamente os mecanismos legais do Reino Unido.

 

Dir-se-ia que, na óptica nacionalista, a vitória política obtida nas “urnas” compensaria o desprezo pelos valores constitucionais na Catalunha.

Mas nem isso aconteceu.

Com efeito, dos 6,2 milhões de possíveis votantes, apenas 2,3 milhões compareceram na consulta (cerca de 35%). E, destes, só 1,8 milhões responderam “sim” às duas perguntas (nenhuma delas aludindo sem ambiguidades à ruptura política entre Catalunha e Espanha).

Ou seja, 29,6% do total.

Nada a ver com a taxa de participação eleitoral ocorrida num referendo a sério, como o que decidiu o destino da Escócia há dois meses: essa consulta contou com a adesão de 85% dos eleitores inscritos.

Nem nada que se confunda com a participação eleitoral noutro referendo, juridicamente válido, que também suscitou muito interesse noticioso: o do Quebeque, em 1995, registando 93,5% de afluência eleitoral.

 

Isto sem esquecer que muitos eleitores residentes na Catalunha recusaram participar na “consulta” de domingo precisamente por a considerarem ilegal, em consonância com a doutrina estabelecida pelo Tribunal Constitucional.

A voz destes cidadãos foi deliberadamente silenciada, mas não pode ser ignorada. E ninguém duvida que num referendo legal eles não deixariam de se exprimir pelo voto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A independência da Catalunha.

por Luís Menezes Leitão, em 12.11.14

Os argumentos expostos em sentido contrário fazem-me revisitar a questão da independência da Catalunha. A meu ver é manifesto que a tentativa de manter a unidade de Espanha artificialmente faz tão pouco sentido como a imagem deste cartoon. É evidente que a Espanha é um estado com várias nações, pelo que só faz sentido a sua união enquanto as diversas nações que o compõem o desejarem. Se alguma quiser sair, não há outra alternativa que não a de respeitar a vontade do seu povo. 

 

A verdade é que a Catalunha organizou uma consulta com grande participação em que a esmagadora maioria dos votantes se pronunciou a favor da independência. Querer alterar este resultado contando as abstenções como votos contra é profundamente antidemocrático. Em todas as eleições quem decide é quem vai votar.

 

A independência da Catalunha contraria a constituição espanhola? Claro que sim. Assim como a independência do Brasil contrariava a constituição portuguesa de 1822 e a dos PALOP a constituição portuguesa de 1933 que declaravam esses países como território português. A Constituição espanhola declara a indissolúvel unidade da Nação espanhola (art. 2º) e até obriga todos os espanhóis a saber castelhano (art. 3º). Podem é os catalães querer deixar de ser espanhóis e tratar o castelhano como a língua estrangeira que para eles é.

 

A Catalunha nunca foi independente? Pois não, mas também não o foram a Eslovénia, a Eslováquia e a República Checa. A Croácia não é independente desde o séc. XI e hoje todos estes Estados são independentes no quadro da União Europeia. Que motivos há para negar esse direito à Catalunha?

 

Quanto a Portugal será com certeza muito mais influente numa península com várias nações do que com uma Espanha artificialmente unida. Os riscos da independência da Catalunha não devem assustar ninguém. Por esse critério tínhamos estado contra a queda do muro de Berlim. Manter o status quo a todo o custo é um objectivo inútil. Como disse Helmut Kohl, quem chegar atrasado será vencido pela história.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os vizinhos não se escolhem

por Pedro Correia, em 11.11.14

AFP Lluis Gene.jpg

 Foto Lluis Gene/AFP

 

A Catalunha, que nunca foi uma nação independente, goza hoje de ampla autonomia - maior do que a da Escócia e muito maior do que a Córsega, por exemplo - em quase todos as áreas da governação.
Num mundo cada vez mais interdependente, defender a "independência" é de algum modo ambicionar um estatuto equivalente ao da Coreia do Norte, provavelmente o único estado realmente independente do planeta.


De qualquer modo, há dois caminhos para lá chegar.
Primeiro: o da legalidade constitucional, adoptando o modelo escocês - e aqui a Constituição de 1978, sufragada em referendo por todas as regiões de Espanha incluindo a Catalunha, é taxativa ao não permitir a consulta sobre este tema apenas a uma parte do povo espanhol. Foi esse aliás o entendimento do Tribunal Constitucional, que retirou chancela legal à "consulta" promovida pelo executivo catalão no passado domingo. Uma consulta que contou apenas com a participação de cerca de um terço dos eleitores inscritos.
Segundo: o da ruptura constitucional - e aqui os nacionalistas catalães teriam de assumir, com todos os riscos que essa opção comporta, uma declaração unilateral de independência em conflito aberto com o Estado espanhol.


Acontece que não há declarações de independência quando apenas metade da população, no máximo, aspira a tal objectivo. A independência ou é um projecto colectivo ou não é nada.
Acresce que a força política maioritária na Catalunha - a Convergência e União, lesada por inúmeros escândalos de corrupção nos últimos meses, nomeadamente os que afectam o seu ex-líder carismático, Jordi Pujol, que governou a região durante 23 anos - não inclui a independência na sua declaração de princípios nem a defendeu abertamente no seu programa eleitoral das últimas eleições autonómicas, realizadas em Novembro de 2012.


Com nacionalistas a meia haste como estes não corremos o risco de ver a Península Ibérica balcanizada. O que é, convém dizer, uma boa notícia para Portugal. A última coisa de que precisaríamos era da implosão do Estado espanhol, cindido por efeito de uma espécie de guerra civil de baixa intensidade, numa réplica dos Balcãs.
Porquê? Desde logo, convém recordar, porque a Espanha é de longe o nosso principal parceiro comercial - e uma constipação por lá pode contribuir para uma pneumonia aqui. Os amigos escolhem-se, os vizinhos não.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Independências

por José António Abreu, em 10.11.14

catalunha.jpg

Seja qual for a posição que se tenha em relação à independência da Catalunha e à validade dos referendos em processos deste género (em especial, como o Pedro Correia salientou por alturas do realizado na Escócia, quando uma maioria pouco expressiva influenciada por uma realidade conjuntural pode forçar uma escolha sem retorno), convém não confundir as coisas: o que se passou ontem não foi um referendo; foi uma manifestação dos independentistas, a que mais de 60% dos potenciais votantes decidiu não comparecer. O governo de Madrid deve certamente reflectir sobre o facto de quase dois milhões de catalães se revelarem a favor da independência total e aceitar que o assunto tem raízes históricas demasiado profundas para ser empurrado para debaixo do tapete por via de preceitos constitucionais (se as Constituições tendem a garantir status quos frequentemente pouco saudáveis, usadas como grilhetas tornam-se obscenas) mas os independentistas deveriam fazer o mesmo sobre o facto, complementar e não menos significativo, de existirem cerca de quatro milhões que ou não se expressaram ou o fizeram defendendo alguma forma de ligação a Espanha. Desde logo, aceitando que decisões irreversíveis baseadas em questões de identidade cultural velhas de séculos não devem ser tomadas apressadamente, em época de crise económica - ou a questão da identidade cultural parecerá apenas um pretexto para conseguir mais dinheiro para a região; uma jardinice, digamos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tot per Catalunya.

por Luís Menezes Leitão, em 10.11.14

 

Nunca percebi porque é que em Portugal a opinião geral vai no sentido de defender a todo o custo a unidade de Espanha, quando é óbvio que existem mais nações na península, sendo uma delas indubitavelmente a Catalunha, onde se realizou agora uma esmagadora votação a favor da independência. Afinal de contas, em 1640 tanto Portugal como a Catalunha lutavam pela sua independência, tendo sido a prioridade dada pelos espanhóis ao controlo da revolta catalã que permitiu a Portugal obter a sua libertação. É por isso mais que tempo de essa injustiça histórica ser corrigida, reconhecendo-se à nação catalã o direito a ter um Estado soberano. Como se escreveu no texto da Declaração de Independência dos Estados Unidos, "it becomes necessary for one people to dissolve the political bands which have connected them with another, and to assume among the powers of the earth, the separate and equal station to which the Laws of Nature and of Nature's God entitle them". Pela minha parte a resposta é simples: Tot per Catalunya.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pendências

por José Navarro de Andrade, em 26.11.12
 
É bem possível que o mundo não acabe em 21 de Dezembro de 2012 conforme tem sido previsto por astrólogos e “maiólogos” (vem de Maia, não de Maya) de melhor reputação e ainda por alguns xamanes Hopi de impecável currículo. Isto não vai acontecer, presumo, porque já toda a gente sabe que a Europa só acabará em 2014.

É em 2014 que a Escócia votará no referendo para a independência. Se o “sim” vencer, acontecerá aquilo que o status quo europeu, ou seja o diretório da EU, tem andado a evitar há alguns anos talvez imitando o pequeno Hans Brinker. Para que não fiquem desiludidos os adeptos das teorias da conspiração, gente de ideias irrefutáveis, cá vai a perguntinha misteriosa a que ninguém respondeu, sequer ousou formular:

Como foi possível e tolerável que no próprio coração da Europa um país seríssimo e maduro como a Bélgica estivesse desde 13 de Julho de 2010 nada menos do que 535 dias (!!!) sem governo? (E ninguém os tivesse chamado de irresponsáveis, antidemocráticos, incapazes ou selvagens, que são mimos geralmente reservados aos trigueiros meridionais?)

O assunto foi assobiado para o ar à espera que apodrecesse, porque a única solução referendada, pragmática e óbvia, seria aceitar a divisão da Bélgica nas duas nações antagónicas e irredutíveis que a constituem, acabando com a pura ficção política que sempre foi o país da batata frita. Estava tudo parvo? Não, estava tudo com medo e o medo às vezes traz a prudência.

O fim da Bélgica produziria um efeito de dominó que a breve trecho varreria a Europa, extinguindo as nações actuais, rasurando os mapas desenhados em Yalta, que bem ajudaram aos 60 anos de quietação e relativa paz que temos gozado, e fazendo a Europa regressar à fragmentada configuração tardo-feudal anterior a Vestefália, mas agora sem os impérios continentais, multitudinários e agregadores. Este formidável retrocesso, acrescentado à patética debilidade económica e ao desnorte financeiro do velho continente, seria decerto a sua irremediável certidão e óbito.

É com este fogo que os – desculpem a precisão – idiotas dos catalães andam a brincar e que os escoceses irão atear. Só que os celtas de saias são ultraperiféricos e não passam de um punhado de castiços, assaz irrelevantes salvo no râguebi, ao passo que os catalães estão entalados entre nós e as linhas de caminho-de-ferro decentes. Ou seja, neste roda-bota-fora, nenhum proveito obteríamos de nos tornarmos de facto a maior região autónoma numa península acantonada, porque acabaríamos ainda mais desligados do centro, como se estivéssemos no meio do mar.

E aí, nessas líquidas paragens, apenas sobreviveria a Madeira, que num esfregar de olhos também ela declararia a independência e se tornaria na única micro-região economicamente viável ao converter-se num gigantesco off-shore e capaz de capturar o negócio que tem feito as delícias da Guiné-Bissau.

A questão até que faz sentido: porque diabo Barcelona, Edimburgo, Funchal, Milão, Ajaccio, Namur e Antuérpia, não hão de poder falar directamente com Bruxelas, sem ter que passar por Madrid, Londres, Lisboa, Roma e Paris? Haverá outra solução que não a catástrofe?

Enquanto faltar resposta a esta questão, o que irá demorar enquanto a UE tiver barriga para ir empurrando o assunto, qualquer português que rejubile com os devaneios da Catalunha é um grandessíssimo tolo, salvo se que tiver um qualquer comércio que lhe traga lucro imediato.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D