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Depois de vário comentadores do Delito colocarem nas caixas de comentários as suas certezas sobre a equiparação do comunismo ao nazismo/fascismo, José António Abreu também o fez aqui. De uma forma serena e sem ser preciso um tratado diria que, para comparar, nos devemos entender sobre o terreno da comparação.
Se optarmos por fazer a comparação pelo número de mortes causados, suponho que o capitalismo também entrará a jogo e vencerá de uma forma avassaladora, por isso não pode ser. Se o fizermos pelas suas expressões práticas e qualidades das respectivas democracias - recordando que nenhum país no mundo alguma vez se declarou como um estado comunista - também creio que é de difícil comparação até porque nenhum estado nazi/fascista pretendeu ter práticas democráticas e, mais uma vez, temos de colocar na equação muitos estados-exemplo das práticas do capitalismo. 
Assim sendo, creio que o único campo em que podemos colocar esta comparação é do ponto de vista teórico-ideológico. Nesse campo, o nazismo/fascismo é uma ideologia que não perfilha a libertação do homem, mas a vitória perante outros. Mais, o comunismo foi, ao longo da história, quem mais combateu (e continua a combater) o nazismo/fascismo para que pessoas como eu ou o José António Abreu possamos, em liberdade, escrever no mesmo blogue o que bem entendermos.

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Mal passado, por favor

por José Navarro de Andrade, em 09.11.12

 

Afinal em que ficamos?

Quando um bispo profere uma diatribe contra o capitalismo, a esquerda aplaude a mãos ambas.

Quando Isabel Jonet, talvez com excessiva candura, diz a mesma coisa embora a partir de outro ângulo, cai o Carmo e Trindade.

Um das razões porque o actual Papa merece toda a consideração ideológica de quem se lhe opõe, é porque ele, brilhante teólogo, colocou as coisas em pratos limpos: a Igreja Católica nunca se acomodou nem se acomodará aos princípios do Iluminismo. Alguns desses princípios, aliás de vincada índole protestante, são a legitimidade da acumulação da capital – os judeus, lembram-se? –, a certificação do esforço individual, a bondade da progressão social.

Além da Fé e da Esperança, a Caridade integra o motto do catolicismo. A frugalidade, a temperança, são os valores que devem levantar-se contra o consumismo desenfreado. A parcimónia e a modéstia opõem-se à especulação e ao enriquecimento, os quais, cegam a virtude e roçam a imoralidade. A gratidão e a obediência, são barreiras à propensão capitalista para o tumulto e àquela nefasta espécie de inquietação social que faz os homens quererem sempre ter mais do que já têm. Sim, quanto mais conservador é o discurso clerical, mais se assemelha às bandeiras de uma certa esquerda portuguesa. Tão arreigado quanto isto é o pior da herança salazarista que persiste em não desaparecer, tão amplo quanto isto é o arco nacional contra a livre iniciativa.

Isabel Jonet limitou-se a reiterar os valores morais que sempre defendeu, os quais costuma pôr em prática com boa-fé e boa-vontade. Para quem nunca os partilhou, embora considere louváveis os resultados, qual é a surpresa?

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Julgava eu que vivíamos numa sociedade capitalista. E que uma das características das sociedades capitalistas era o consumo desenfreado concretizado na compra indiscriminada induzida pelo marketing, pela propaganda e pela publicidade, formas estas de manipulação de massas indefesas. E que só esse consumismo exacerbado permitiria ao capitalismo retroalimentar-se, sempre numa busca incessante e voraz de novas vítimas do modelo de exploração. A inovação, a vertigem tecnológica, o lançamento de novas séries, o re-styling, os ciclos cada vez mais curtos de obsolescência,  tudo isto teria, supunha eu, uma lógica capitalista subjacente. Com a consequente maximização do lucro das empresas à custa de todos quantos, seduzidos pelo bombardeamento de apelos à compra do desnecessário, do supérfluo, do redundante, acabariam por funcionar como uma enorme e proletarizada população de ratinhos que teria como única missão impulsionar com as respectivas patinhas a giganteca roda da exploração. Mais, estava convencido de que tudo isto teria um nexo de causalidade com o aquecimento global, a escassez de recursos não renováveis, a poluição, a acumulação de lixos oceânicos e todo um vasto conjunto de ameaças e desastres naturais. E que, no final da estrada deste capitalismo sem freio estaria a proletarização e o empobrecimento dos iludidos, subjugados à força pelo consumismo e pelo engodo do crédito fácil concedido por banqueiros ávidos, e o esgotamento dos recursos. Pobre de mim, pensava que consumir acima das possibilidades individuais e colectivas eram a  essência mesma e a sustentação do modo de ser capitalista, ainda que fossem também a semente da sua própria destruição, uma e outra vez anunciada. E que a crítica ao modelo era um património reclamado por uma certa esquerda. Depois, ouvi Isabel Jonet dizer umas tontices sobre consumismo exacerbado e a necessidade de fechar a torneira quando se lava os dentes que, se virmos bem, reproduzem esse diagnóstico dos vícios e desvios do sistema capitalista. E vi gente que se proclama de esquerda a esquartejá-la sem piedade, atirando-se-lhe aos bofes como ela se atirou aos bifes. Concluo, portanto, que Portugal é uma ilha. Que num mundo que consome como se não houvesse amanhã, fomos capazes de nos manter puros e contidos, frugais e amigos do ambiente, apesar da cupidez dos banqueiros e da codícia dos grandes grupos empresariais. E que todos aqueles que passaram anos a criticar uma sociedade consumista e desumanizada estavam afinal enganados. Tudo está bem quando acaba bem.

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