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As canções da minha vida (9)

por Pedro Correia, em 23.03.17

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JOÃO E MARIA

1977

 

Houve um tempo em que o País parava para ver telenovelas brasileiras. Tudo começou com a Gabriela, acalmados já os ardores revolucionários. A moda pegou e durante anos não falhámos as que iam sendo exibidas em doses sucessivas ainda a preto e branco na RTP, monopolista da transmissão televisiva em Portugal: O Casarão, O Astro, Dancin' Days, Pai Herói

Recordo-me como se fosse hoje do genérico de Dancin' Days, telenovela urbana e contemporânea, muito diferente do imaginário de Jorge Amado: a canção-tema das Frenéticas irrompia no ecrã aproveitando a febre do disco sound então muito em voga, fazendo furor nas pistas de dança.

Durante meses a fio, o folhetim televisivo teve quase tanto sucesso entre nós como tivera pouco antes no Brasil, onde foi exibido entre Julho de 1978 e Janeiro de 1979. Em grande parte devido à qualidade do elenco, onde se destacavam Sónia Braga, António Fagundes, Joana Fomm, José Lewgoy, Reginaldo Faria, Pepita Rodríguez e Mário Lago. E também das canções nele inseridas, incluindo Antes que Aconteça, de Marília Barbosa, Outra Vez, de Márcio Lott, Amanhã, de Guilherme Arantes, e Copacabana, de Dick Farney.

Mas o tema que mais me prendeu foi uma valsinha que iluminava as cenas do par romântico juvenil. Ela, a Glória Pires, no seu primeiro papel de relevo na televisão. Ele, o malogrado Lauro Corona, em estreia absoluta na Globo. Nós tínhamos a idade deles: revíamo-nos naquelas personagens e naquelas situações. Ao som de João e Maria, fabuloso dueto entre Nara Leão e Chico Buarque.

 

Durante três décadas, este tema só teve música. Composta em 1947 pelo genial Sivuca, Severino Dias de Oliveira (1930-2006) – maestro, orquestrador, instrumentista, mago da guitarra e da sanfona. Reza a lenda que a melodia funcionou na perfeição para todo o tipo de serenatas do namoradeiro compositor, que em 1976 decidiu remetê-la a Chico Buarque. Era tempo de encontrar uma letra adequada – e quem melhor do que o criador de A Banda, Pedro Pedreiro e Construção para lhe colar uns versos?

Chico, hoje com 72 anos, fez mais que isso: criou uma das mais belas trovas de sempre da chamada música popular brasileira. Escrita como se fosse um diálogo entre duas crianças que não queriam tornar-se adultas, remetendo-nos para o imaginário dos irmãos Grimm.

O cantor explica assim como lhe surgiu a inspiração: «Ele [Sivuca] mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1947, por aí. Eu falei: “Mas isso foi quando eu nasci.” A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: “Fiz essa música em 47.” Aí pensei: “Mas eu era criança…” e me levou pra aquilo.»

E levou muito bem. “Forma e conteúdo perfeitos”, na definição certeira de Nara Leão. O dueto com Chico teve estreia num disco dela surgido em 1977: Os Meus Amigos São um Barato – faixa sete do LP, dois minutos e 23 segundos de fascinantes jogos de palavras acompanhados pelo próprio Sivuca (tocando sanfona e violão), João Donato (teclado), Luizão Maia (contrabaixo), J. T. Meirelles (flauta) e Paulinho Braga (bateria).

 

Meses depois, transposto do disco original para a banda sonora da telenovela de Gilberto Braga, cujo LP vendeu quase um milhão de cópias, João e Maria passou a ser cantado no Brasil inteiro. E não tardou a cruzar o Atlântico, desembarcando em Portugal. Onde se tornou numa espécie de hino de uma geração incuravelmente romântica – aquela a que pertenço.

Geração hoje de adultos que jamais esquecem os seus dias de meninos prontos a enfrentar batalhões imaginários para impressionar princesas lindas de se admirar. Os anos voam mas o disco mantém-se a rodopiar ao ritmo da valsa lenta, clarão solar teimando em iluminar a noite que não tem mais fim.

 

«Agora eu era o herói / E o meu cavalo só falava inglês / A noiva do cowboy / Era você além das outras três. // Eu enfrentava os batalhões / Os alemães e seus canhões / Guardava o meu bodoque / E ensaiava um rock para as matinês. // Agora eu era o rei / Era o bedel e era também juiz / E pela minha lei / A gente era obrigado a ser feliz. // E você era a princesa / Que eu fiz coroar / E era tão linda de se admirar / Que andava nua pelo meu país.»

 

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As canções da minha vida (8)

por Pedro Correia, em 18.03.17

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UN HOMME ET UNE FEMME

1966

 

Já aqui anotei: está por fazer a devida homenagem às orquestras de Paul Mauriat, James Last e Mantovani, que durante largos anos ajudaram a promover os temas produzidos por terceiros, divulgando-os junto de camadas populacionais que associavam sobretudo os sons musicais aos grupos de baile. Houve um tempo, acreditem, em que a música servia muito mais para dançar do que para ouvir passivamente. Tempos da minha infância e pré-adolescência, longe de Lisboa e dos circuitos sofisticados da reverência discográfica.

Nessa época, como em qualquer outra, havia temas musicais que nos entravam de imediato no ouvido, ficando connosco para sempre. Aconteceu-me com aquele de que hoje falo, tornado célebre por via do cinema mas que terei escutado muito antes de ver o filme, em versão orquestral, precisamente numa cassete de Mauriat ou num vinil de Klaus Underlicht. Este tema, ao contrário da maioria, não era “dançável”. Mas entranhava-se de tal maneira que passou a andar na boca de milhões de pessoas, atraídas sobretudo pelas quatro notas do seu refrão onomatopeico: “da ba da ba da, da ba da ba da…”

 

A canção nasceu em 1966 da parceria entre dois jovens muito criativos: o acordeonista e compositor  Francis Lai e o jornalista e cantor  Pierre Barouh, apostados em renovar a canção francesa, na linha de um Michel Legrand, que acabara de alcançar êxito internacional graças à inspirada colaboração com o cineasta Jacques Demy em Les Parapluies de Cherbourg.

Barouh vivera uns tempos em Lisboa, onde em 1959 comprou o disco Chega de Saudade, de João Gilberto: a partir daí, introduziu a bossa nova em França, alterando o panorama musical do país. Também ele mudou, enveredando em definitivo pela carreira musical. Com manifesto sucesso, por exemplo, na adaptação do Samba da Bênção – de Vinicius e Baden Powell – que entre os franceses seria conhecido por Samba Saravah.

 

Todas as vidas são feitas de encontros e desencontros. O encontro mais importante na vida de Lai, hoje a escassos dias de festejar 85 anos e autor de mais de 600 canções, aconteceu quando o realizador Claude Lelouch lhe pediu uma composição para um filme que iria rodar no norte de França. "É uma história de amor", limitou-se a dizer Lelouch, lacónico. O músico foi tocando no seu inseparável acordeão vários temas que tinha em carteira até que, por volta das duas da manhã, surgiu aquele que seduziu enfim o cineasta.

Assim surgiu Un Homme et une Femme – o filme associado para sempre à cantiga homónima que lhe serve de senha, uma das últimas erupções mundiais do cinema francês antes da crise prolongada que viria a divorciá-lo das plateias durante décadas. Melodrama rodado em Deauville, com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant interpretando dois jovens viúvos. Barouh entrou também como actor. E na vida da deslumbrante Anouk, com quem estaria casado nos três anos seguintes.

 

A película atraiu público e crítica. Conquistou a Palma de Ouro em Cannes e o Óscar para melhor longa-metragem estrangeira. Lai foi nomeado para o Globo de Ouro e viria a ganhar a ambicionada estatueta em Hollywod quatro anos depois, com Love Story.

Barouh fundou a sua própria editora discográfica, chamada Saravah, só para gravar a banda sonora do filme. Un Homme et une Femme, espantosamente, fora recusada pelas grandes etiquetas do sector: “Não é comercial”, disseram-lhe. Quem assim falou padecia de graves problemas auditivos e não tardou a arrepender-se: gravada no Estúdio Davout, em Paris, a canção com dois minutos e 42 segundos de duração tornou-se Disco de Ouro, num duo formado pelo próprio Barouh e por Nicole Croisille, então mais conhecida por ser intérprete de jazz, acompanhados apenas pelo pianista Maurice Vender, o que acentuou o carácter intimista do tema romântico.

Nas quatro décadas seguintes, Pierre e Nicole voltariam a cantar Un Homme et une Femme um número incontável de vezes – até à morte dele, aos 82 anos, em Dezembro de 2016. E a canção conheceu mais de 300 versões, entrando também na América pela voz de Ella Fitzgerald.  

 

Ironias do destino: hoje Lelouch é um cineasta muito esquecido e o mais afamado dos seus filmes tornou-se praticamente desconhecido das gerações mais recentes. Apesar das inovações que introduziu, alternando a cor com o preto e branco e fazendo movimentos circulares de câmara, como se dançasse a valsa ao som da partitura de Lai.

Pouco importa. Hoje octogenários, Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant serão eternamente jovens na praia de Deauville, envolvidos naquela melodia que os ultrapassou em celebridade e permanece sem uma ruga. Como nos ensinou Debussy, “a música é a expressão do inexplicável”.

«Comme nos voix da ba da ba da da ba da ba da / Chantent tout bas da ba da ba da da ba da ba da / Nos cœurs y voient da ba da ba da da ba da ba da / Comme une chance comme un espoir.»

 

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As canções da minha vida (7)

por Pedro Correia, em 11.03.17

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THE SOUND OF SILENCE

1964

 

Para os melómanos, 19 de Setembro de 1981 tornou-se uma data com lugar garantido na história. Nessa noite, meio milhão de pessoas acorreu ao Central Park, em Nova Iorque, para assistir à reunião de duas figuras cimeiras da música folk-rock norte-americana, ícones da década de 60 enfim reunidos após anos de uma zanga que parecia insuperável: Paul Simon e Art Garfunkel.

O enorme sucesso do espectáculo – retransmitido por canais de televisão em vários continentes, incluindo a RTP – prolongou-se no disco Concert in Central Park e apresentou a uma nova camada de adolescentes, então a despontar para a música, este duo que naquela década dera ao mundo diversos temas tornados hinos de uma geração: Mrs. Robinson, Homeward Bound, Scarborough Fair, Late in the Evening, The Boxer, Old Friends, America, Bridge Over Troubled Water.

 

Acompanhei o concerto enquanto telespectador. E logo me rendi ao fascínio das canções entoadas por aqueles dois antigos colegas do ensino secundário com jeito para a música que começaram por formar um duo chamado Tom & Jerry. E em 1957 tiveram até um fugaz êxito discográfico, intitulado Hey Schoolgirl.

Simon e Garfunkel, ambos hoje com 75 anos, fizeram apenas seis álbuns com temas originais, entre 1964 e 1970. Mas foi quanto bastou para marcarem a música popular norte-americana e inscreverem os nomes na galeria dos imortais. Paul Simon é, na justa opinião do parceiro, “um dos maiores escritores de canções de todos os tempos”. Enquanto Art Garfunkel se destacou sempre pela sua magnífica voz.

 

A sexta cantiga que Simon escreveu chamava-se originalmente The Sounds of Silence e foi gravada em Nova Iorque, a 10 de Março de 1964 - três meses após o assassínio do presidente John Kennedy, com a América ainda mergulhada num pesado luto. Reza a lenda que Simon gostava de compor na banheira, de luzes apagadas, com a casa de banho a funcionar como câmara de eco. Ali lhe terão surgido os dois primeiros versos: «Hello darkness, my old friend, / I've come to talk with you again.»

Mal imaginava que em menos de dois anos, graças ao decisivo impulso dos programas radiofónicos, aquele tema andaria nas bocas de milhões de jovens. Mas isto só aconteceu à segunda tentativa, quando já se chamava The Sound of Silence. Com o som no singular.

A primeira - ainda com o título original e acompanhada apenas por duas guitarras acústicas - foi um fracasso, ao ser inserida no álbum de estreia do duo, Wednesday Morning, 3 AM. Lançado em Outubro de 1964, o disco só vendeu duas mil cópias e o single dele extraído também não atraiu ninguém.

No ano seguinte, tudo mudou. Melhorou o título e melhorou o acompanhamento, quando o produtor discográfico Tom Wilson - à revelia de Simon e Garfunkel, entretanto regressados à universidade - convocou para o estúdio os músicos que tinham acompanhado Bob Dylan na gravação de Like a Rolling Stone, introduzindo bateria e guitarras eléctricas no novo registo sonoro do tema, com três minutos e cinco segundos de duração, misturando-o com a prévia gravação das vozes.

 

The Sound of Silence despedia-se do acústico original. 

O público aplaudiu: o single relançado em Setembro de 1965 disparou nas vendas. Em Janeiro de 1966 ascendeu enfim ao top norte-americano, disputando-o ao longo desse mês numa renhida luta com We Can Work It Out, dos Beatles.

Dois anos depois, a canção registava nova vaga de sucesso ao figurar em destaque na banda sonora do filme The Graduate [A Primeira Noite], galardoado com o Globo de Ouro para melhor filme de 1968 e com o Óscar para melhor realização (atribuído ao cineasta Mike Nichols). O álbum, que abre e encerra com The Sound of Silence, liderou a lista das vendas discográficas nos EUA entre 6 de Abril e 25 de Maio de 1968, e novamente de 15 a 28 de Junho.

 

Ainda hoje custa a crer que um jovem com 21 anos criasse um tema com a qualidade musical e a complexidade poética desta bela trova, tão actual hoje como há meio século - magoado grito de revolta contra um mundo cada vez mais povoado de gente incapaz de comunicar.

«And in the naked light I saw / Ten thousand people, maybe more / People talking without speaking / People hearing without listening / People writing songs that voices never share / And no one dared / Disturb the sound of silence.»

 

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As canções da minha vida (6)

por Pedro Correia, em 07.03.17

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INDIAN SUMMER

1939

 

Há canções que nos vão chegando por vias ínvias. É o caso desta que vos falo hoje: Indian Summer, com uma das mais belas melodias e uma das mais pungentes letras que conheço, surgiu-me inicialmente em português como banda sonora do genérico da telenovela Ciranda de Pedra, exibida na RTP em 1981.

Acompanhei com indisfarçável fascínio esta luxuriante produção da Rede Globo com base num romance de Lygia Fagundes Telles. Gostei de tal maneira que não tardei a comprar esse livro e um outro da grande romancista brasileira, intitulado As Meninas.

Fiquei fã de Lygia. E também da canção, nessa versão do Quarteto em Cy: “Ontem / Na tarde formosa / No céu cor de rosa / Longe, longe / Divagando e pensando em ti fiquei / Tuas juras de amor eu recolherei // Melancolicamente / Lembrei o passado / Procurei-te ao meu lado / Triste sonho / Como o sol no poente morreu / Assim minh’ alma escureceu / Na solidão. / Noite, noite em meu coração.»

 

Estava então ainda longe de saber que este singular Céu Cor de Rosa era afinal Indian Summer, tema nascido em 1919 com outro nome, An American Idyll, graças ao talento musical de Victor Herbert (1859-1924), compositor irlandês que fez carreira como concertista na Áustria e na Alemanha antes de se radicar nos EUA. A música ligeira era apenas um veículo ocasional para Herbert arredondar a conta bancária ao fim do mês: no seu currículo como criador constam duas óperas, uma cantata, 43 operetas e 31 composições para orquestra.

Indian Summer ficou duas décadas na gaveta: era ainda só música, sem versos. Até Al Dubin (1891-1945) – um dos letristas mais prolíficos da Broadway, galardoado em 1936 com o Óscar da melhor canção em Hollywood, com Lullaby of Broadway, em parceria com Harry Warren – ter sido desafiado em 1938 pela filha de Herbert a conceber os versos mais adequados à partitura, que permanecia em pousio. Assim nasceu esta magnífica balada que nos fala de um amor para sempre dissolvido com a mudança de estação.

Corria o ano de 1939 quando começou a popularizar-se graças à gravação da orquestra de Tommy Dorsey, em ritmo de foxtrot, tendo como vocalista Jack Leonard. Êxito instantâneo desta faixa, com 3 minutos e 25 segundos de duração: 14 semanas no top musical, chegando a n.º 1. Outra grande banda, a de Glenn Miller, gravou-a no ano seguinte, também com inegável sucesso: oito semanas no top de vendas, atingindo a posição 8. A rádio, que iniciava a sua época de ouro, contribuiu para divulgar as duas versões.

 

E desde então Indian Summer nunca mais parou de partir corações, seduzindo um número incontável de intérpretes e ganhando estatuto de standard no universo do jazz logo a partir de 1940, com o clarinetista Sidney Bechet. Seguiu-se uma galeria de estrelas instrumentais e vocais, em sucessivas versões de luxo. Com destaque para as de Ella FitzgeraldSarah Vaughan (com a orquestra de Count Basie), Chet Baker, Coleman Hawkins, Dave Brubeck e John Pizzarelli (com o quinteto de George Shearing), entre tantas outras.

Uma das que prefiro é a de Frank Sinatra, acompanhado pela orquestra de Duke Ellington (incluindo os magníficos solos de Johnny Hodges, campeão absoluto do saxofone tenor) numa gravação de 12 de Dezembro de 1967 que faz plena justiça ao original.

Lá no céu cor de rosa onde subiram, Victor Herbert e Al Dubin só podem estar orgulhosos da música e das palavras que criaram - hino outonal de tantos amantes vinculados à memória perpétua de uma paixão fugaz.

 

«Summer, you old Indian Summer, / You're the tear that comes after June time laughter. / You see so many dreams that don't come true, / Dreams we fashioned when Summer time was new.»

 

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As canções da minha vida (5)

por Pedro Correia, em 03.03.17

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STRANGERS IN THE NIGHT

1966

 

Houve um tempo, ali pelos anos da adolescência, em que ganhei a mania de tocar piano. Inspirado num amigo que se ajeitava muito bem no teclado, aprendi a distinguir as notas, dediquei horas a estudar escalas e num par de meses comecei também a dar uns toques. Comprei então um livro com dezenas de partituras associadas a Frank Sinatra e adaptei-as mais por intuição do que por sabedoria aos meus incipientes conhecimentos na matéria.

Um dos primeiros temas que arrisquei foi Strangers in the Night. Desconhecendo, à época, que Sinatra sempre rogou pragas a esta canção, uma das mais populares do seu vasto repertório. Forçado a cantá-la, a pedido insistente do auditório em espectáculos ao vivo, era sempre em esforço que o fazia. Nunca descobri o motivo desta aversão: afinal, no início dos anos 50, o futuro intérprete de My Way cantou uma coisa intitulada Mama Will Bark, fazendo dueto com um cão a ladrar - algo que mantém lugar cativo na lista das piores cantigas do século XX.

 

Strangers in the Night nasceu em versão instrumental numa fita de espionagem britânica parcialmente rodada em Portugal, estreada em Março de 1966 sob o título original A Man Could Get Killed e entre nós intitulada Dança dos Diamantes. Com os nossos compatriotas Virgílio Teixeira, Glória de Matos e Óscar Acúrcio em papéis secundários. E a grega Melina Mercouri, como cabeça de cartaz, interpretando uma portuguesa.

Melina recusou cantar no filme o tema composto a dois tempos pelo croata Ivo Robic (1923-2000) e o alemão Bert Kaempfert (1923-1980), e pelos letristas americanos Charles Singleton (1913-1985) e Eddie Snyder (1919-2011), alegando – provavelmente com razão – que se adequava mais a uma voz masculina. E por esta via sinuosa a balada chegou ao crooner Jack Jones, o primeiro gravá-la. Três dias mais tarde, a 11 de Abril de 1966, seria a vez do registo vocal de Sinatra, com dois minutos e 25 segundos de duração.

Um mês depois, Strangers in the Night tornou-se um êxito instantâneo na primeira faixa do LP homónimo, que viria a ser o maior sucesso comercial de toda a longa discografia do intérprete de All the Way. Atingiu o primeiro lugar de vendas nos EUA e no Reino Unido, algo que não sucedia desde 1955 na carreira de Sinatra. Permaneceu 15 semanas no top discográfico e no ano seguinte valeu ao caprichoso intérprete o Grammy para melhor intérprete masculino de música popular, além de ser disco do ano e receber também um galardão para melhor arranjo musical.

 

De então para cá, Strangers in the Night tornou-se numa das canções mais tocadas em todo o mundo. Étrangers dans la Nuit em francês, No Puedo Olvidar em espanhol, Sola Più Che Mai em italiano, Fremde in der Nacht em alemão. E Estranhos numa Noite em português, na voz de Simone de Oliveira.

Nada disto contribuiu para que Sinatra se reconciliasse com ela. Uma história apócrifa, talvez com um fundo de verdade, garante que as sílabas finais da gravação original (“du-bi-du-bi-du”) foram improvisadas pelo cantor, com aparente intenção irónica, procurando marcar distância perante um tema incapaz de lhe causar um assomo de emoção.

Quando a lenda se torna realidade, imprime-se a lenda. O facto é que, tantos anos depois, continuo a assobiar com frequência esta balada, entretanto tornada intemporal. E às vezes ainda dou por mim tocando-a em pensamento novamente no piano adolescente entretanto desaparecido: “dó-ré-dó-ré-dó; ré-mi-ré-mi-ré; mi-fá-mi-fá-mi…”

«Something in your eyes / Was so inviting / Something in your smile / Was so exciting / Something in my heart / told me I must have you.»

 

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As canções da minha vida (4)

por Pedro Correia, em 28.02.17

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COIMBRA

1947

 

Lá em casa, desde os tempos da minha mais remota infância, sempre houve canções. Recordo-me de a minha mãe cantar vezes sem conta – e com ela aprendi largas dezenas, talvez centenas, de cantigas. Também o meu pai cantarolava, com menos jeito e um repertório menos vasto – mas foi quanto bastou para dele herdar umas tantas. E ambas as avós me transmitiram igualmente este gene e este gosto de cantar a qualquer momento: são raras as ocasiões em que uma música não me acompanha. Sem necessitar de auriculares.

Foi numa temporada em casa da minha avó materna, teria eu uns cinco anos, que a ouvi cantar Coimbra pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje: passava ela roupa a ferro enquanto lhe saíam aqueles versos que logo me atraíram a atenção: «Coimbra é uma lição / de sonho e tradição / o livro é uma canção / e a lua, a faculdade.» Não tardei a repeti-la, incapaz no entanto de me aperceber ainda das subtilezas da letra – de tal maneira que durante algum tempo cantarolava “Olívia é uma mulher”. Fazia algum sentido, para o rapazinho que eu era, que a mulher fosse um livro?

Hoje admito que houvesse tanto de nostalgia como de júbilo na cantoria da avó Maria, desenraizada da sua Coimbra natal, onde raras vezes regressou após o casamento. Uma cidade que também passei a considerar minha já em adulto: a voz do sangue nunca nos abandona.

 

Muitos ignoram que Coimbra nasceu no cinema. Corria o ano de 1947, ia estrear-se a longa-metragem Capas Negras, com Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro a encabeçar o elenco - cantores-actores de quem o público exigia ouvir trinados. O realizador Armando de Miranda - que sete anos antes divulgara a canção O Meu Alentejo  no filme  Pão Nosso - encomendou uma cantiga emblemática a um dos maiores duos de autores da música popular portuguesa: o compositor Raul Ferrão (1890-1953) e o letrista José Galhardo (1905-1967), que só tiveram de tirar da gaveta uma composição guardada desde 1939.

Assim nasceu esta belíssima Coimbra, interpretada pela primeira vez por Alberto Ribeiro (um dos estudantes no filme, juntamente com Artur Agostinho e Igrejas Caeiro) mas cedo popularizada por Luís Piçarra e pela própria Amália, que a cantou durante anos nos seus espectáculos e a incluiu no seu primeiro LP editado em Portugal, Amália no Olympia (1957).

Capas Negras foi um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português: permaneceu 22 semanas em cartaz, atraindo cerca de 200 mil espectadores ao Condes, sala lisboeta onde se estreou.

 

O tema de Ferrão e Galhardo não tardou a correr mundo, tanto em versões instrumentais como vocais, sob o título genérico Abril em Portugal adaptado ao respectivo idioma, tornando-se no mais perdurável cartaz turístico do nosso país em forma de música. Logo em 1947 o compositor e letrista irlandês Jimmy Kennedy (1902-1984) elaborou os versos ingleses do tema, que viria a ser celebrizado nas vozes de Louis Armstrong, Bing CrosbyVic Damone e Tony Martin. Em 1953 ascenderia ao segundo lugar do top da Billboard, na versão instrumental da orquestra de Les Baxter. Outras se seguiram, incluindo as de Xavier Cugat e Ray Conniff.

Em francês foi popularizada a partir de 1950 por Yvette Giraud e Eartha Kitt, com versos de Jacques Larue (1906-1961).

Roberto CarlosJulio IglesiasCaetano Veloso - entre tantos outros - também lhe deram voz.

Mas ainda hoje estou convencido de que nunca ninguém a cantou tão bem como a minha avó.

«Coimbra do choupal / Ainda és capital / Do amor em Portugal, ainda. / Coimbra onde uma vez / Com lágrimas se fez / A história dessa Inês tão linda.»

 

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As canções da minha vida (3)

por Pedro Correia, em 27.02.17

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C'EST SI BON

1948

 

Algumas canções acompanham-nos vida fora, etapa após etapa. Estão presentes quando precisamos delas. Ajudam-nos a encarar a vida com doçura, a desvendar-lhe a face mais prazenteira e sorridente.

Acontece com esta, minha parceira de tantas manhãs inundadas de sol. Segue-me desde a adolescência: julgo que a escutei pela primeira vez no meu ano de caloiro no liceu. Vivíamos muito longe de Portugal, numa cidade do antigo império colonial, sem televisão, onde os bailaricos eram um dos divertimentos mais assíduos, com música ao vivo improvisada a partir dos acordes das orquestras de Paul Mauriat e James Last escutadas no leitor de cassetes – novidade absoluta à época.

 

Foi numa dessas cassetes, em versão instrumental, que ouvi pela primeira vez C’ Est Si Bon. Ainda sem saber que as célebres nove primeiras notas deste tema musical haviam surgido por inspiração do acaso ao compositor Henri Betti (1917-2005), quando passeava nas emblemáticas arcadas da sua Nice natal num dia do Verão de 1947. Pianista habituado a acompanhar Maurice Chevalier nos anos da ocupação nazi em França, Betti não tardou a completar a partitura, pedindo de seguida ao seu amigo André Hornez (1905-89), exímio escritor de canções, que lhe improvisasse uma letra.

Assim surgiu um dos mais famosos marcos da canção francesa, então no auge pelas vozes de Edith Piaf, Charles Trenet e do jovem Yves Montand, entre tantos outros. Foi precisamente a Montand que Betti e Hornez remeteram a canção, inicialmente destinada a ser incluída no seu novo repertório, numa série de espectáculos no parisiense Théâtre de l’ Étoile, a partir de Outubro desse ano. Mas o cantor preferiu guardá-la e foi ultrapassado por outro intérprete: a estreia de C’est Si Bon ocorreu a 18 de Janeiro de 1948 na rádio e um mês depois em registo discográfico, com 2 minutos e 40 segundos de duração, na voz do malogrado Jean Marco acompanhado pela popular orquestra de Jacques Hélian.

Começava a ser um sucesso quando Montand enfim a gravou, em Maio. E ficou para sempre associado ao tema, que deu várias voltas ao mundo em diversos idiomas – incluindo o inglês, gravado por Louis Armstrong com a orquestra de Sy Oliver, em Junho de 1950, e o português, interpretado pela brasileira Rita Lee, com letra de Roberto de Carvalho (1988).

Uma das versões mais famosas teve como intérprete Dean Martin, no seu álbum French Style, datado de 1962.

 

C’ Est Si Bon, um foxtrop sensual e festivo, perdura como símbolo musical daqueles trinta anos gloriosos da Europa que se ergueu das cinzas da guerra e se reinventou com uma energia digna de causar inveja ao mundo.

Tempos irrepetíveis, em que todos os sonhos prometiam tornar-se realidade e em que não faltava quem acreditasse que nunca mais guerra alguma voltaria a obscurecer os dias.

 

«C'est si bon / De partir n'importe ou, / Bras dessus, bras dessous, / En chantant des chansons. / C'est si bon / De se dir' des mots doux, / Des petits rien du tout / Mais qui en disent long.»

 

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As canções da minha vida (2)

por Pedro Correia, em 23.02.17

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SUMMERTIME

1935

 

Já não me recordo qual foi a primeira vez que a ouvi. Mas sei bem que me prendeu para sempre. Com aquela toada dolente e melancólica - cantiga de embalar inspirada em espirituais negros, memória musical de uma América sulista ainda com ecos da escravatura.

É impossível ficar indiferente ao sortilégio desta canção composta pelo inigualável George Gershwin (1898-1937), talvez inspirado nas melopeias eslavas que a mãe Rosa, imigrante russa transplantada para Brooklyn, lhe entoava no berço.

Summertime é o mais inesquecível trecho da ópera Porgy and Bess que Gershwin, no auge da sua fama como compositor, estreou em Outubro de 1935 na Broadway. E a partir daí ganhou asas, adquirindo expressão própria: tornou-se um inconfundível standard de jazz, interpretado em mais de 25 mil versões oficialmente registadas ao longo de oito décadas de história da música norte-americana em múltiplas vozes - de Billie Holiday a Norah Jones, passando por Janis Joplin. Sem esquecer a notável versão dos Sheiks em Portugal (1965).

 

Stephen Sondheim elegeu-a como a mais bela canção de sempre - não apenas pela hipnótica partitura do judeu novaiorquino mas também pelos versos de DuBose Heyward (1885-1940), autor do romance Porgy (1925), no qual a ópera se inspirou, e do libretto de Porgy and Bess, em parceria com Ira Gershwin (1896-1983), irmão de George. Poema e pauta combinam na perfeição, sugerindo a languidez estival a que alude a palavra inicial. Precisamente a que dá origem ao título.

Holiday foi a primeira a gravá-la com sucesso, em Setembro de 1936. Mas ninguém a interpretou de forma tão calorosa e envolvente como Ella Fitzgerald, num dos melhores álbuns que a história discográfica já registou: Porgy and Bess, em dueto com Louis Armstrong, que também canta além de nos propiciar o luxurioso som do seu trompete.

Escuto uma vez e outra o CD - e é sempre como se fosse a primeira vez. São 4 minutos e 58 segundos de pura arte musical, gravados em Agosto de 1957. No ano seguinte Porgy and Bess saltaria enfim do teatro musicado e do disco para o cinema, com o filme homónimo de Otto Preminger interpretado por Sidney Poitier, Dorothy Dandridge, Sammy Davis Jr, Pearl Bailey e Diahann Carroll. Um elenco só negro, por imposição de Ira Gershwin, detentor dos direitos da obra. Anos antes recusara a ridícula sugestão de Harry Cohn, patrão da Columbia Pictures, de rodar o filme com Fred Astaire e Rita Hayworth maquilhados de afro-americanos.

 

Dou por mim inúmeras vezes a trautear Summertime. Seja para celebrar os dias estivais, seja para antecipá-los. Crente como Ruy Belo que "é triste no Outono concluir que era o Verão a única estação".

Conheço-me bem: é sempre bom sinal.

 

«Summertime / And the livin' is easy / Fish are jumpin' / And the cotton is high // Your daddy's rich / And your mamma's good lookin' / So hush little baby / Don't you cry // One of these mornings / You're going to rise up singing / Then you'll spread your wings / And you'll fly to the sky.»

 

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As canções da minha vida (1)

por Pedro Correia, em 22.02.17

Brel Lavalse[1].png

 

LA VALSE A MILLE TEMPS

1959

 

Escutei-a pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, quando comprei um “33 rotações” de Jacques Brel, que logo se tornou num dos álbuns que mais rodaram no meu gira-discos portátil, fiel companheiro desses anos de adolescência. Um álbum de 1972, simplesmente intitulado Jacques Brel. Mantenho-o bem preservado e ainda a ele regresso em momentos de indizível nostalgia.

La Valse a Mille Temps era o penúltimo tema dessa colectânea de grandes êxitos de Brel (1929-78), belga que se despediu demasiado cedo da vida mas deixou um rasto inapagável na música de raiz francófona. Vendeu 25 milhões de discos sem nunca atraiçoar os seus ideais artísticos. Compôs, escreveu e interpretou canções que são pequenos tesouros da narrativa musicada, cruzando a trova medieval de cariz romântico com a balada de protesto contra o conformismo burguês que sempre combateu.

 

O tema nasceu em 1959, quando Brel era cabeça de cartaz no Bobino, uma das mais famosas salas de espectáculos de Paris. Nesse ano prodigioso da sua carreira, concebeu também o inimitável e arrepiante Ne Me Quitte Pas. As duas canções integrariam o quarto LP do belga, surgido ainda em 1959. Com a valsa a abrir o álbum (cuja capa aqui reproduzo), justamente galardoado com o Prémio da Academia do Disco Francês.

Com 3 minutos e 48 segundos de duração na gravação original (de 14 de Setembro de 1959, com orquestra conduzida pelo maestro François Rauber), La Valse a Mille Temps começa como valsa lenta e bonançosa e vai rodando num crescendo cada vez mais acelerado e jubilatório até ao limite do impronunciável, ao jeito de um carrossel descomandado, ameaçando vencer o cantor pela exaustão. Não por acaso, poucos foram os que se atreveram a emular Brel nesta que é uma das suas mais extraordinárias interpretações. Um deles foi Carlos do Carmo, que em 1980 superou com distinção o desafio no mítico palco do Olympia, também na capital francesa. Do espectáculo sairia aquele que é talvez o seu melhor disco gravado ao vivo.

 

Só há pouco tempo me apercebi: esta é uma das canções que mais vezes me acompanham. Dou por mim a trauteá-la, a assobiá-la, no seu rodopiar festivo, como quando a escutei pela primeira vez naquelas manhãs de ilusória Primavera perpétua, quando o tempo parecia ter vocação para eternizar-se ao comando da voz de Brel soando a princípio quase infantil nesse compasso ternário de caixinha de música.

«Au premier temps de la valse / Toute seule tu souris déjà / Au premier temps de la valse / Je suis seul mais je t'aperçois / Et Paris qui bat la mesure / Paris qui mesure notre émoi / Et Paris qui bat la mesure / Me murmure, murmure tout bas...»

 

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Canções brasileiras: as dez mais

por Pedro Correia, em 11.06.11
Em tempos, o Duarte Calvão mencionou aqui um disco desse génio da música universal que foi Antonio Carlos Jobim - autor de partituras tão fabulosas como as de Cole Porter ou Irving Berlin. E adiantou que Lígia, de Jobim, é talvez a canção brasileira de que mais gosta. Acontece que é também um dos meus temas favoritos de todos os tempos. Tenho-o em várias gravações, incluindo num disco de Stan Getz - o inesquecível The Lyrical Stan Getz.
Muita gente não sabe que existem duas versões de Lígia. A original, de Jobim, e uma outra, a que prefiro, com versos acrescentados por Chico Buarque, acentuando a magoada ironia das palavras.
Mas se tivesse de eleger a "minha" canção favorita, entre as brasileiras, a escolha recaía no Samba da Bênção (Baden Powell/Vinicius de Moraes). É um tema que me tem acompanhado anos fora, nas mais diversas circunstâncias. Uma espécie de banda sonora da minha vida.
Além destas duas, deixo aqui as restantes oito canções que formam o "dez mais" dos meus gostos em música brasileira. Vão por ordem alfabética, pois é-me praticamente impossível ordená-las de outra forma:
- Chega de Saudade (Jobim/Vinicius), na voz inconfundível de João Gilberto, jovem de 80 anos completados ontem
- Eu Te Amo (Jobim/Chico Buarque)
- João e Maria (Chico Buarque)
- Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá)
- Pela Luz dos Olhos Teus (Vinicius)
- Romaria (Renato Teixeira), interpretada por Elis Regina
- Valsinha (Vinicius-Chico Buarque)
- Vambora (Adriana Calcanhotto)





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Aquarela

por Teresa Ribeiro, em 14.10.10

Tem algo de infantil esta melodia e no entanto não é uma canção para crianças, muito menos uma cantiga sobre a infância para consumo de adultos nostálgicos. Esta veste-nos de bibe e equipa-nos com material escolar logo que avança com a letra, numa simbiose perfeita, própria das canções de génio. Comovente sem ser lamechas, Aquarela (Toquinho/ Vinicius de Moraes) explica-nos a vida em poucos versos, apoiada no fraseado cristalino do violão de Toquinho:

 

"E o futuro é uma astronave
que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
muda a nossa vida
e depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe
conhecer ou ver
o que virá
o fim dela ninguém sabe
bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela
que um dia em fim...descolorirá"

 

Em cinco ou seis rectas Toquinho e Vinicius fazem-nos o desenho. Se nos remetem para a infância é para que nos possamos ver em perspectiva e acrescentar doses generosas de amor-próprio à consciência das nossas limitações. Aquarela é um tema que nos desampara e dá colo ao mesmo tempo, que vai até ao nervo mas com uma candura que nos desarma. Acordei hoje com ela. Bom dia!

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