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Do princípio ao fim (22)

por Isabel Mouzinho, em 14.10.16

Eu devia ter  mais ou menos dezassete anos e já não sei como aconteceu, nessa altura, ler l' Étranger pela primeira vez. Fi-lo sem saber bem que era Albert Camus, movida apenas pelo fascínio que a doce musicalidade da língua francesa exercia em mim  e, talvez, também, pela vontade de ler um livro de "gente crescida" nessa língua de que tanto gostava.

E o primeiro contacto com a obra, a estranheza que aquela leitura me causou, que era ao mesmo tempo incómodo e apego, foi para mim de uma importância determinante. Por isso nunca mais pude esquecer o seu início, tão forte quanto perturbador: Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.  Nem Meursault,  taciturno e enigmático, "estrangeiro" face ao mundo e a si mesmo, absolutamente bizarro na sua aparente indiferença.

Depois, quis conhecer outros livros e outros autores, escolhi estudar Literatura, e só meia dúzia de anos mais tarde percebi a importância de Camus e como esta era uma das obras fundamentais do século XX, de cujo incipit me voltei a lembrar muitas vezes, nas mais diversas circunstâncias.

Hoje, muitos anos depois, acho que não exagero ao considerar que esta leitura contribuiu também para aprofundar a paixão das palavras, que trago comigo desde sempre. E para perceber como elas são indispensáveis e essenciais à nossa existência, na sua relação com o silêncio, na distância que as separa do que dizem e também em tudo o que não conseguem dizer. E descobrir, ainda melhor, como  a leitura e a escrita podem ser um inefável e imenso prazer, como nos fazem descer ao mais fundo de nós e nos proporcionam o alargamento de olhares sobre o mundo, em muitas visões que se cruzam, se entrelaçam, se confundem e coexistem. 

Para além deste, muitos outros começos me marcaram; e tive ainda, além disso, a sorte  - que foi também privilégio - de ter a melhor de todas as professoras - Maria Alzira Seixo -  com quem aprendi que "a literatura não resgata o mundo, mas ajuda a compreendê-lo e a suportá-lo" e pode ser determinante na forma como lemos, como escrevemos, como pensamos e como vivemos.

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Penso rápido (10)

por Pedro Correia, em 27.06.14

Há cinco décadas, numa tertúlia parisiense, dois escritores que viriam a ser galardoados com o Prémio Nobel dialogavam animadamente. Um deles era Albert Camus, o outro Czeslaw Milosz. Falavam de livros e dos seus confrades das letras. Assunto dominante, nesse ano de 1954, eram os ataques que Simone de Beauvoir dirigira a Camus na sua obra Os Mandarins, então acabada de lançar nos escaparates. Milosz perguntou ao autor de A Peste por que motivo não replicava aos ataques. Camus respondeu: "Não vale a pena discutir com o esgoto."

Esta é uma regra que devemos seguir na vida: não discutir com o esgoto. Agora e sempre.

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Efeméride

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.01.14

 

 

Via World Literature Today: Your passport to great reading

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Camus sempre jovem aos cem anos

por Pedro Correia, em 06.11.13

 

"Tudo o que degrada a cultura encurta o caminho para a servidão"

Camus

 

Dizia há dias alguém, já não sei onde, que Albert Camus deixou de ser lido. É mais um disparate entre tantos outros que vamos vendo e ouvindo por aí. Nenhum autor francês do século XX marca tanto as gerações contemporâneas como o Nobel da Literatura de 1957. O Estrangeiro, obra-prima do romance, mantém-se como campeão de vendas da editora Gallimard, mais de 70 anos depois de ter surgido pela primeira vez nas livrarias. Traduzido em 56 línguas, com 180 mil exemplares impressos por ano só em França, é recordista nas edições de bolso, ultrapassando O Principezinho, de Saint-Exupéry. Grande publicações, como Le Monde e Le Point, lançaram por estes dias edições especiais integralmente dedicadas ao autor d' O Mito de Sísifo, falecido com apenas 46 anos, em 1960, num brutal acidente de automóvel.

Neste ano do centenário do seu nascimento -- que amanhã se assinala -- multiplicam-se as biografias, os ensaios e as teses sobre este homem que nasceu órfão de pai numa família muito pobre em Mondovi, na costa oriental da Argélia, e se manteve até ao fim da vida dividido, com o coração em África e a cabeça na Europa. Na sua perspectiva, as margens dos dois continentes -- banhadas pelo mesmo sol mediterrânico -- deviam funcionar como prolongamentos naturais e não como muros levantados em nome de ideologias alheias ao anseio de felicidade do ser humano.

Camus, esgotado? Muito longe disso. A tal ponto que continuam a ser impressos inéditos seus. Em Agosto, a descoberta de uma carta que enviara na década de 40 a Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir foi notícia destacada em França. A Gallimard acaba de lançar a correspondência que manteve entre 1944 e 1958 com Roger Martin du Gard, Nobel de 1937, na sequência do volume de 2007 que reunia a extensa comunicação epistolar entre o autor d' A Peste e o poeta René Char, o escritor com quem sentia maior afinidade, talvez pela vocação solar de ambos que os levou a tornarem-se vizinhos, a partir de 1958, numa aldeia da Provença.

 

O sol é uma presença constante na obra de Camus. Mersault, o anti-herói d' O Estrangeiro, mata "por causa do sol" sem deixar de se sentir "absurdamente feliz". Não por acaso, um romance terminado em Maio de 1940. No preciso momento em que a França sucumbia às hordas blindadas de Hitler. No preciso momento em que o absurdo irrompia da forma mais dramática nos labirintos do mundo, escrevendo em letras de sangue que não haveria desfecho aprazível para o destino humano.

Camus viu tudo, viveu tudo, foi um homem do seu tempo. Mas teve a lucidez suficiente de não embarcar nos equívocos da época em que lhe calhou viver. Tomou partido, rompeu sem ambiguidades com os falsos libertadores que traziam consigo novas grilhetas.

Chamou vítimas às vítimas, chamou carrascos aos carrascos. Não embarcou em indignações selectivas. Não se enganou no essencial.

 

Quando os tanques soviéticos esmagaram as revoltas operárias em Berlim-Leste (1953) e na Polónia (1956) apontou o dedo acusador aos ditadores sem rosto que oprimiam com requintes de cinismo as classes trabalhadoras em nome do futuro, "única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos".

Quando se erguiam guilhotinas em nome da "razão do Estado", proclamou a sua oposição tenaz à pena de morte. Como Tarrou, personagem d' A Peste, filho de um procurador que conduzira pessoas ao cadafalso e desde então decidira "recusar tudo o que, de perto ou longe, por boas ou más razões, faça morrer ou justifique que se faça morrer".

Quando os nacionalistas argelinos espalhavam o terror em nome do combate ao colonialismo, não hesitou em escandalizar a esquerda parisiense -- ele, que sempre se intitulou de esquerda e era um dos raros intelectuais franceses com origem proletária -- ao contestar essas acções de violência pseudo-revolucionária. Com uma frase que provocou ondas de indignação entre muitos dos seus contemporâneos: “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.”

Hoje, sabendo o que sabemos, qualquer de nós subscreve estas palavras. Porque uma luta deixa de ser justa no preciso instante em que faz derramar o sangue de inocentes.

 

Camus teve razão antes do tempo quando inverteu o axioma leninista, deixando claro que os fins não justificam os meios. Tornou-se assim uma das maiores referências morais do mundo saído dos escombros da II Guerra Mundial. Ainda os canhões não se haviam calado e já ele escrevia, num dos seus magníficos editoriais do jornal Combat, estas linhas de pendor profético que podem servir de mote a todas as gerações vindouras: "Seria perigoso recomeçar a viver com a ilusão de que a liberdade devida a um indivíduo lhe é concedida sem esforço nem dor. A liberdade merece-se e conquista-se."

Dramaturgo, romancista, filósofo, ensaísta, cronista, contista, editorialista, jornalista: foi excepcional nos mais diversos géneros literários. Na forma e no fundo, no tema e no estilo. Outros passaram de moda. Ele não: permanece imune à voragem do tempo que tem sepultado tantos ídolos de épocas passadas.

O Primeiro Homem, o romance incompleto que transportava na pasta, ainda em rascunho, quando o retiraram do veículo em que perdeu a vida, foi lançado em 1994 e aí percebeu-se como a sua popularidade se mantinha intacta: logo na primeira semana, mais de 50 mil exemplares escoaram-se das livrarias. Quantos escritores imaginariam conseguir um best seller três décadas e meia depois da morte?

 

Sim, continua a ter leitores. E a actualidade do seu pensamento -- tão ou mais notável como ensaísta do que como romancista -- é indiscutível. Na sua recusa intransigente do compromisso dos intelectuais com sistemas totalitários, na sua obstinada luta contra a violência como instrumento de acção política e na sua afirmação de que "todo o despotismo, mesmo provisório", deve ser rejeitado sem reticências.

"Para muitos, a sua obra é um farol. Uma dessas obras capazes de mudar uma vida", escrevia há dias François Busnel num editorial da revista Lire, prestando sentida homenagem ao desaparecido mais presente de que há memória nas letras francesas.

Milhões de leitores subscrevem certamente estas linhas.

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Leituras

por Pedro Correia, em 23.08.13

 

«A ideia de que todo o escritor escreve forçosamente sobre si mesmo e se retrata nos seus livros é uma das puerilidades que nos foram legadas pelo Romantismo (...) As obras de um homem retratam muitas vezes a história das suas nostalgias ou das suas tentações, quase nunca a sua própria história, sobretudo quando se pretendem autobiográficas. Nenhum homem ousou jamais pintar-se tal como é

Albert Camus, cit. por Marcello Duarte Mathias, in A Felicidade em Albert Camus, pp. 181/182

D. Quixote, 3ª edição, 2013

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Grandes romances (7)

por Pedro Correia, em 12.05.13

 

RATOS E HOMENS

A Peste, de Albert Camus

 

«Sinto mais solidariedade com os vencidos do que com os santos. Creio que não tenho gosto pelo heroísmo nem pela santidade. O que me interessa é ser um homem.»

(p. 184)

 

Há livros que podem ser lidos de várias formas, permitindo diversos níveis de interpretação - sem nunca perderem o fascínio que exercem sobre o leitor. É o caso deste perturbante romance de Albert Camus sobre uma cidade no norte de África - Orão, na então Argélia francesa - sitiada devido à peste.

Li-o pela primeira vez na adolescência, sem atender ao seu mais profundo significado metafórico, e pareceu-me um poderoso retrato da fragilidade humana confrontada com um mal supremo num mundo que deixou de merecer o interesse de Deus. É muito curta a distância que vai do homem como ser supremo da natureza ao homem vítima das mil contingências causadas por essa mesma natureza que sempre tentou dominar sem nunca o conseguir.

A peste, milenar símbolo do mal, surge aqui com um significado especial num século em que o ser humano, mais que nunca, supôs ser o do progresso irrevogável. Em 1900, houve inúmeros festejos por toda a Europa saudando o advento de uma nova era que se imaginava ser de paz perpétua, luzes universais e prosperidade galopante ao dispor de todos. As ilusões podem tornar-se perigosas - como a realidade rapidamente se encarregou de comprovar.

 

Ao reler este livro muitos anos depois, no entanto, o seu significado alegórico tornou-se-me ainda mais evidente. Quase desde as primeiras linhas, quando um médico residente na segunda maior cidade argelina - "cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins", plantada à beira do Mediterrâneo mas crescendo de costas voltadas para o mar - encontra um rato morto no patamar do edifício onde tem o consultório. Depois desse rato, surgem outros. Muitos outros. E em breve Orão estará fechada sobre si própria, de quarentena, transformada num pequeno universo concentracionário, com os seus habitantes a morrerem às centenas, aos milhares. Vítimas de uma doença atávica que todos consideravam já extinta.

O século XX, tempo de peste. Orão, símbolo da Paris ocupada pelos esbirros de Hitler entre 1940 e 1944. Os ratos, a tropa de choque nazi. As brigadas sanitárias que o Dr. Bernard Rieux organiza para combater o mal, num esforço claramente desproporcionado, um evidente paralelo com a resistência francesa ao invasor. O grande romance de Albert Camus - publicado em 1947 - libertava-se do seu significado literal, aos meus olhos de leitor já experiente, surgindo como uma assombrosa metáfora de um tempo de trevas e de um espaço submetido ao bacilo mortal do totalitarismo.

Camus, ele próprio membro da resistência e jornalista envolvido no combate quotidiano às forças ocupantes, nunca teve dúvidas sobre a missão que deve caber aos intelectuais nas encruzilhadas do mundo contemporâneo: a defesa intransigente da liberdade, sabendo que esta é inseparável da justiça. Nenhum sistema ideológico está autorizado a capturar a liberdade em nome de causas que a sufoquem nem a neutralizar a justiça a pretexto de bandeiras que a violentem.

 

De tudo isto nos fala A Peste (com antiga edição portuguesa dos Livros do Brasil e uma reimpressão surgida já em 2013, sob a mesma chancela, sempre com tradução de Ersílio Cardoso). Num estilo lento, pastoso, sublinhado pela voz quase neutra de um narrador omnisciente que confere um efeito de acrescida verosimilhança à narrativa enquanto desfilam personagens com entrada automática na galeria imortal das melhores ficções literárias de todos os tempos: Rieux, que se esgota em incessantes tentativas de cura de cidadãos anónimos mas é incapaz de salvar a mulher, vítima de outra doença implacável; o forasteiro Tarrou, que um dia descobriu com terror ser filho de um procurador que conduzira pessoas ao cadafalso e desde então decidira "recusar tudo o que, de perto ou longe, por boas ou más razões, faça morrer ou justifique que se faça morrer"; Grand, escritor falhado, eternamente em busca da expressão perfeita de um livro que nunca escreverá; o jovem jornalista Rambert, que procura evadir-se de Orão, dizendo não acreditar no heroísmo, mas que acaba envolvido na resistência; o padre Paneloux, que começa por justificar a peste como praga divina destinada a castigar os pecados humanos, com "esse clarão sublime de eternidade que jaz no fundo de todo o sofrimento", e termina a suplicar a Deus, numa inútil prece de joelhos, que evite a dolorosa agonia de uma criança inocente.

 

E no entanto, neste mundo eternamente desaguarnecido da misericórdia divina, Camus mobiliza todos os leitores para o inadiável dever da esperança: "É preciso fazer o necessário para deixar de ser um pestiferado e só isso nos pode fazer esquecer a paz ou, na sua falta, uma boa morte."

Romancista de ideias, habituado a teorizar sobre o absurdo da existência humana, este francês nascido na Argélia em 1913 e precocemente desaparecido num acidente de automóvel em Janeiro de 1960, pouco mais de dois anos após ter recebido o Nobel da Literatura, viu a sua reputação agigantar-se desde então, conquistando novas gerações de leitores em sucessivas reedições das suas obras de ficção, teatro e ensaio. O Primeiro Homem, o romance incompleto que transportava na pasta, ainda em rascunho, quando o retiraram dos escombros do veículo em que perdeu a vida, foi lançado em 1994 e aí percebeu-se como a sua popularidade se mantinha intacta: logo na primeira semana, mais de 50 mil exemplares escoaram-se das livrarias. Quantos escritores imaginariam conseguir um best seller três décadas e meia depois da morte?

Um êxito editorial que já tinha alcançado com A Peste: entre Junho e Setembro de 1947, venderam-se 52 mil cópias em três edições desta obra, galardoada nesse mesmo Verão com o Prémio da Crítica.

 

A identidade do narrador, só desvendada no final do livro, é um dos inúmeros aliciantes deste romance dividido em cinco capítulos, imitando os cinco actos das tragédias clássicas, e que alguns podem ler como um ensaio sobre ética. Não admira que tenha influenciado profundamente outros autores (há, por exemplo, um claro parentesco entre A Peste e o Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago).

Romance alegórico, sim. E romance profético também. Porque Orão viria a ser palco, na década posterior à publicação deste livro que a imortaliza, de algumas das maiores atrocidades cometidas durante a sangrenta guerra da Argélia.

A vida imitava a ficção, como tantas vezes sucede. Dando ainda mais relevância à lucidez das palavras finais d' A Peste, enquanto gritos de alegria incontida explodem de bairro em bairro. Camus sabia que "o bacilo não morre nem desaparece nunca" e que "viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz".

 

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Outros textos desta série:

O Velho e o Mar - Um homem destruído mas não vencido

O Poder e a Glória - Ler para crer

Mrs. Dalloway - Esplendor na relva

Santuário - Sombras profundas num Sul sem sol

Pais e Filhos - Voz do sangue, voz da terra

As Vinhas da Ira - Fazer das fraquezas força

 

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Leituras

por Pedro Correia, em 24.01.13

 

«Quando existe isolado, certo e seguro de si mesmo, implacável nas suas consequências, o desespero possui uma força imbatível.»

Albert Camus, Cartas a um Amigo Alemão (1945)

Livros do Brasil, Lisboa. Tradução: José Carlos González

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No silêncio, entre cadáveres

por Pedro Correia, em 05.04.12
Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores. Este texto, intitulado "O Testemunho da Liberdade", tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.
Passo a transcrever alguns trechos*:

"Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (...) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (...) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres."

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

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Grandes contos (3): Albert Camus

por Pedro Correia, em 26.02.11
Pode um conto ser deliberadamente político sem nunca parecer que o é? Pode. Albert Camus dá-nos um exemplo admirável numa das histórias incluídas na excelente colectânea de narrativas intitulada O Exílio e o Reino (1957). O conto a que me refiro, O Hóspede, é daqueles que nos perduram na memória graças à poderosa sugestão visual da escrita de Camus, na sua elegância sincopada. Uma espécie de “Hemingway revisitado por Kafka”, na definição algo irónica de Sartre, que nunca escondeu uma certa aversão pelo autor d'O Estrangeiro, um dos raros escritores franceses do século XX que jamais se deixaram seduzir por sistemas totalitários. É este, aliás, o cerne deste conto hipnótico, que nos fala da solidão, do silêncio, da violência surda, da incomunicabilidade – e também de política, oculta num admirável jogo de metáforas: afinal que papel resta aos intelectuais num mundo que volta a ser dominado por pulsões irracionais de toda a espécie?
O professor Daru – alter ego do autor – encarna este dilema, no quadro da cruel guerra da Argélia, nunca aqui nomeada expressamente mas subjacente do primeiro ao último parágrafo. Camus, francês nascido na Argélia, sabia bem o preço a pagar por aqueles que, como ele, não optaram por nenhum lugar em nenhuma trincheira do conflito.
Num momento em que a História caminha a passo cada vez mais acelerado, há uma estranha actualidade neste confronto de culturas simbolizado no professor francês com alma de apátrida que dá abrigo por uma noite, na sua escola abandonada, ao árabe suspeito de ter infringido a lei. Em pano de fundo, com toda a sua carga simbólica, a nua imensidão do planalto argelino, às portas do deserto, magistralmente descrita pelo autor: “Daru contemplou o céu, o planalto, e, para além, as terras quase invisíveis que se estendiam até ao mar. Nesse vasto país, que ele tanto amara, estava agora só, completamente só.” (Edição portuguesa dos Livros do Brasil, tradução de Cabral do Nascimento).
Não é na irreparável solidão desse deserto que vive o homem contemporâneo, entre as certezas que se desmoronam e um terror sem rosto incrustado no nosso inconsciente colectivo?

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Os fins não justificam os meios

por Pedro Correia, em 02.06.10

 

"Lamento as mortes, mas..." Bem gostaria eu de ver banidas estas adversativas do debate político, seja a propósito de que tema for. Acaba de acontecer como tentativa de atenuar as circunstâncias do desproporcionado ataque israelita a uma embarcação sob bandeira turca ao largo de Gaza que provocou dez mortos. Ainda há pouco assistimos à mesma proliferação de mas a propósito da violência urbana em Atenas que causou três vítimas mortais. Como se o combate à pobreza ou à exclusão desse uma espécie de caução ao homicídio, ainde que involuntário.

A morte de um único ser humano em caso algum pode constituir um pormenor de somenos, inteiramente descartável à medida de conveniências ideológicas ou considerações de facto. “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.” Palavras de Albert Camus, proferidas em 1957, quando as bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, semeavam o terror na Argélia. A luta anticolonial era justa? Só até ao ponto em que não fazia derramar o sangue de inocentes.

As palavras de Camus valeram-lhe inúmeras críticas. Mas o autor d' A Peste tinha razão: os fins não justificam os meios, a violência não é revolucionária, o assassínio é intolerável seja sob que pretexto for e revista as formas que revestir, a "sociedade nova" com que muitos sonham não pode ser erguida sob um amontoado de cadáveres. Para ser ainda mais directo: nenhum desígnio político justifica a perda de uma vida humana. Na Grécia ou em Gaza.

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A liberdade não existe sem esforço

por Pedro Correia, em 19.02.10

Albert Camus, uma das maiores referências morais do mundo do pós-guerra, deixou bem claro que a questão dos meios é fundamental na definição de qualquer objectivo político. Por esse motivo, entrou em ruptura com o marxismo clássico e com os seus expoentes da época, remando contra a maré dominante que glorificava o estalinismo. Para ele, a libertação do homem jamais poderia servir de pretexto para justificar um acto criminoso. As bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui eram tão imorais, sob este ponto de vista, como os campos de extermínio nazis.

Esta defesa intransigente do argumento moral, contra os pragmatismos de todos os matizes, contribui para a grande actualidade do pensamento de Camus - romancista, ensaísta, dramaturgo, polemista, repórter, colunista do jornal Combat, que iniciou a publicação clandestinamente na França ocupada pela tropa nazi e onde pela sua pena se publicaram editoriais inesquecíveis que constituem não só uma lição de jornalismo mas também uma lição de cidadania.

 

"Hoje, 21 de Agosto [de 1944], no momento em que surgimos, dá-se a libertação de Paris. Após 50 meses de ocupação, de lutos e de sacrifícios, Paris renasce com o sentimento de liberdade, apesar dos disparos que subitamente soam na esquina de uma rua. Mas seria perigoso recomeçar a viver com a ilusão de que a liberdade devida a um indivíduo lhe é concedida sem esforço nem dor. A liberdade merece-se e conquista-se", escreveu Camus no primeiro editorial já com a França livre, como recorda Jean Daniel, o mítico fundador da revista Le Nouvel Observateur, no seu livro Com Camus - Como Aprender a Resistir (Temas e Debates, 2009).

Daniel - um francês nascido na Argélia, como Camus - fala-nos nesta obra sobretudo do Camus jornalista: um homem de uma intransigência moral impressionante, que celebrava o jornalismo como "a mais bela profissão do mundo" mas se insurgia contra a "subserviência ao poder do dinheiro, a obsessão de agradar a qualquer preço, a mutilação da verdade sob um pretexto comercial ou ideológico, a lisonja dos piores instintos, o 'furo' sensacionalista e a vulgaridade tipográfica". Um homem que não hesitava em enaltecer o jornalismo como "literatura comprometida" recomendando aos jornalistas mais jovens que com ele trabalhavam que "tudo o que degrada na realidade a cultura encurta o caminho para a servidão". E prevenia: "É melhor sermos os segundos a dar uma informação verdadeira do que os primeiros a publicar uma falsa."

Como há dias assinalava José María Ridao nas páginas do El País, Camus é, sem dúvida, um dos nomes grandes da cultura do seu século: "Teve razão ao condenar o abjecto papel que a esquerda intelectual reservava à violência revolucionária." Por isso o rasto das suas ideias permanece vivo meio século depois da sua morte.

 

Com Camus - Como Aprender a Resistir, de Jean Daniel (Temas e Debates, 2009). 206 páginas.

Classificação: * * *

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Ipsis verbis

por Pedro Correia, em 04.01.10

"Um homem é mais um homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz."

Albert Camus, O Mito de Sísifo

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Meio século sem Camus

por Pedro Correia, em 03.01.10

 

Às vezes, basta um parágrafo - um simples parágrafo de abertura. Albert Camus, naquele que seria o seu romance de estreia, em 1942, conseguiu escrever esse parágrafo que fica a perdurar na memória de qualquer leitor: "Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.' Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

É assim o começo d' O Estrangeiro, um dos livros de ficção do século XX que melhor reflectem o desamparo do homem perante as encruzilhadas da existência: Camus, com apenas 29 anos, revelava-se desde logo como um dos grandes nomes da literatura universal, que a Academia de Estocolmo confirmaria em 1957, ao atribuir-lhe o Prémio Nobel. O Estrangeiro, traduzido para mais de 40 idiomas, é hoje o recordista absoluto de vendas em formato de bolso em França. E a actualidade do pensamento de Camus - tão ou mais notável como ensaísta do que como romancista - é indiscutível. Na sua recusa intransigente do compromisso dos intelectuais com sistemas totalitários, na sua obstinada luta contra a violência como instrumento de acção política e na sua afirmação de que "todo o despotismo, mesmo provisório", deve ser rejeitado. Na sua denúncia simultânea dos campos de extermínio nazis e dos gulags soviéticos. E também no modo inequívoco como se pronunciou, logo em Agosto de 1945, contra o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui: "Marx não recuou em 1870 perante o elogio da guerra, que ele pensava que deveria fazer progredir, pelas suas consequências, os movimentos de emancipação. Mas tratava-se de uma guerra relativamente económica e Marx raciocinava em função de uma espingarda com baioneta, que é uma arma de crianças. Hoje em dia, vocês e eu sabemos que as consequências de uma guerra atómica são inimagináveis e que falar da emancipação humana num mundo devastado por uma III Guerra Mundial é algo que se parece com uma provocação."

Ao princípio da tarde de 4 de Janeiro, faz amanhã 50 anos, o Facel-Véga em que Camus seguia, conduzido pelo seu editor e amigo Michel Gallimard, embatia inexplicavelmente contra um plátano situado na berma da estrada perto de Sens, quando fazia o trajecto entre a Provença e Paris. Numa recta, à luz do dia, com plena visibilidade. O escritor, cuspido do carro, teve morte instantânea. No interior do veículo estava o manuscrito do seu romance autobiográfico O Primeiro Homem, deixado inacabado mas publicado em 1994.

Mersault, o anti-herói d' O Estrangeiro - que mata "por causa do sol" e sobe ao cadafalso afirmando que "fora feliz e que o era ainda" -, não se importaria decerto de terminar assim os seus dias. De forma tanto mais absurda por ser tão trágica e tanto mais trágica por ser tão absurda.

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Os fins não justificam os meios

por Pedro Correia, em 13.12.09

 

Neste tempo onde as modas florescem e falecem a uma velocidade estonteante, poucos escritores assistem a uma glória póstuma semelhante à de Albert Camus. Quando faltam poucas semanas para ser assinalado o 50º aniversário da sua trágica morte, num brutal acidente rodoviário, anunciam-se novos lançamentos editoriais em Paris que se destinam a iluminar o legado do autor d’ A Peste: um vasto Dictionnaire sobre a sua obra, com 992 páginas; Les Derniers Jours de la Vie d’ Albert Camus, de José Lenzini, com a chancela da editora Actes Sud; e a biografia elaborada pela sua filha Catherine, para a editora Lafon, que promete imagens e documentos inéditos, sob o título Solitaire e Solidarie. Título perfeito que vem juntar-se a tantos outros dedicados ao vencedor do Nobel da Literatura de 1957, de quem Jean-Paul Sartre – que foi seu amigo antes do tão propalado corte de relações entre ambos, em 1952, por divergências políticas – chegou a censurar por escrever “demasiado bem”.
 
Militante comunista em 1934, na sua Argélia natal, de pai operário e mãe analfabeta, Camus rompeu com o marxismo ao tomar conhecimento dos crimes de Estaline. Ao contrário de Sartre, e remando contra os postulados de Marx, rejeitou o conceito de “violência progressista” insurgindo-se contra os totalitarismos de todos os matizes e o terrorismo como forma de acção política com o mesmo vigor com que, enquanto jovem jornalista, se indignara contra a exploração colonial nas páginas do Alger Républicain com uma série de reportagens na Cabília que deixaram rasto. Ficou célebre a sua declaração proferida em 1957 na Suécia, quando ali se deslocou para receber o Nobel: “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.” As bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, eram a seu ver tão injustificadas como os tiros mortais contra os dispersos soldados alemães que restavam em Paris após a Libertação, em Agosto de 1944. “Uma vez mais a Justiça tem de ser comprada com o sangue dos homens”, protestou num célebre editorial do Combat. Eis um tema recorrente na sua obra literária e jornalística: os fins não justificam os meios.
 
A memória deste homem que desconfiava de todos os poderes é hoje cortejada pelo poder político: o presidente Nicolas Sarkozy anunciou a intenção de transferir os seus restos mortais da aldeia de Loumarin, na Provença, para o Panteão – honra apenas concedida, na última década e meia, a André Malraux (1996) e Alexandre Dumas (2002). Proclama-se admirador da sua obra, a tal ponto que quis conhecer a praia de Tipaza, cenário de uma cena capital d'O Estrangeiro – um livro que não cessa de ser campeão de vendas – durante uma recente visita oficial à Argélia. E foi ao ponto de sublinhar: “Graças a Albert Camus, sinto a nostalgia, cada vez que venho à Argélia, de não ter nascido no norte de África.” Palavras que poderiam ser subscritas por milhares de admiradores do escritor.
Camus está na moda - o que não deixa de ser irónico, pois ele definia o intelectual como "um homem que sabe resistir à moda dos tempos". A explicação para isto pode ser encontrada no inesquecível obituário que Sartre lhe dedicou no France-Observateur, a 7 de Janeiro de 1960: "O seu humanismo teimoso, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate incerto contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela espontaneidade das suas recusas, reafirmava, no coração da nossa época, contra os maquiavelismos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do facto moral."

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