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Por terras khmers (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.16

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A minha viagem podia ter terminado esta manhã. O que me levara ao Camboja e há tantos anos me predispunha a fazer a mala e partir constituía um capítulo encerrado. Tratava-se agora de fazer a gestão dos dias. Não iria sair por Phnom Penh. Voltaria a Siem Reap. Não fazia sentido ficar ali.

20161222_173521.jpgNo tempo que me faltava fui então visitar a parte do Palácio Real que se encontra aberta ao público. O Rei Norodom Sihamoni, ex-embaixador da UNESCO, divulgador cultural junto da embaixada em Paris e instrutor de dança clássica, que frequentou a escola primária e secundária na Checoslováquia e depois estudou dança, música e teatro no Conservatório Nacional de Praga e na Academia de Arte Musical desta cidade, subiu ao trono em 2004, depois da abdicação do seu Pai, e continua a nele residir. Vale sempre a pena uma visita à sala do trono, cujo chão é em prata, metal abundante na região; um passeio pelos jardins, apreciando os frescos nas paredes e já à saída as salas com as liteiras reais (tenho dúvidas que o termo liteira seja o mais apropriado) e com a recriação das cerimónias de ascensão ao trono. O Museu Nacional é também interessante, mas quem vem de Siam Reap, esteve antes em Angkor Wat e no Museu D'Angkor, a sensação é a de que se está a passar de um Château Petrus para um honesto Cabernet chileno.  

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Ainda tive oportunidade de deambular pela cidade sem destino, subir a Wat Phnom, o ponto mais alto da cidade, conhecer a história do seu fundador, ir à Biblioteca Nacional, apreciar as belíssimas estações dos correios e fazer uma refeição na varanda do F.C.C. de que vos falei anteriormente. 

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A experiência foi desagradável. O profissionalismo e requinte do F.C.C. em Siem Reap têm muito pouco a ver com aquela espécie de tasca existente em Phnom Penh, com mesas de tampo de pedra para turistas que vão jantar de calções e chinelam pelo estabelecimento fora, em que é preciso solicitar o guardanapo, insistir que não é o de papel, mandar de volta o arroz branco para ser substituído pelas batatas fritas que haviam sido pedidas, enquanto o bife esfria, e dizer que os talheres da entrada que ajudaram a deglutir os camarões e as lulas não são os adequados para a carne. Local de encontro de viajantes e aventureiros, o F.C.C. de Siem Reap é bem mais calmo, tem outra clientela, apesar de praticar os mesmos preços (as ementas são iguais), e também outro requinte, resultando do aproveitamento da antiga mansão do governador francês. Os dois valem bem uma visita, quanto mais não seja pelo simbolismo. 

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Fui igualmente visitar a galeria de Vann Nath, o último sobrevivente da S-21, aberta ao lado de um restaurante da sua família, o Kith Heng, no n.º 169 da Rua 33-B. A história da sua vida dava para vários livros e filmes. Artista plástico, portanto um tipo que pensava pela sua cabeça e por isso persona non grata da canalha, foi um dos que foi mandado para a S-21. Aguardava pela sua hora quando se lembraram que os seus dotes podiam ser úteis ao partido. Mandado chamar obrigaram-no a fazer pinturas. Vann Nath contou depois que sabia que se o que fizesse não agradasse seria enviado para os killing fields, mas teve a sorte do responsável gostar do que ele pintou. Os seus quadros são retratos pungentes da sua história e de tudo aquilo a que assistiu. Entre outros títulos, é Chevalier da L'Ordre des Arts et des Lettres desde 2004 e em 2007 recebeu o Human Rights Award pela sua coragem enquanto artista face à perseguição política. 

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Phonm Penh ficara para trás. Regressado a Siem Reap tratei de organizar um final de férias interiormente mais calmo. A solução foi fazer um passeio em Kompong Pluk, um daqueles lugares que não existe. Trata-se de uma aldeia situada num braço do Grande Lago (Tonle Sap) e com acesso directo a este, toda construída sobre estacas, com escola primária e secundária, uma igreja, templos budistas, construções com uma altura de cerca de oito metros por causa das cheias do Mekong durante a época da chuvas. O percurso é feito a partir de um canal rodeado de pântanos e pejado de pequenas embarcações, que atravessa a aldeia até uma zona de mangal, onde a quem se deixa enganar, depois daquilo que pagou para o transporte e para a viagem de barco (40 USD), ainda lhe pedem para mudar para uma embarcação tradicional, a remos, sem quaisquer condições onde um tipo tem de ir de joelhos ou sentado numa esteira, não se podendo mexer para não desequilibrar aquela espécie de chata estreita e comprida. Há para lá um local de comes e bebes e uma espécie de maioral que fala inglês nessa plataforma onde estão pintados uns símbolos da ONU e da UNESCO, mas que suspeito serem uma aldrabice. Como eu protestasse por me quererem fazer mudar de embarcação e pagar mais qualquer coisa para a "comunidade" e tivesse dito que já tinha pagado tudo o que houvesse a pagar e que não pagava mais nada para ir até ao lago assistir ao famoso pôr-do-sol, rapidamente voltámos a embarcar na embarcação que nos trouxera, com o mesmo rapaz e seguimos o nosso caminho. 

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A calmaria, a paz, a luminosidade reflectida nas águas vastas do lago, com uma superfície de 2.500 km2 que pode multiplicar-se por dez na época das chuvas, vale bem a visita. No local há muitos pássaros e até pequenas gaiolas para criação de crocodilos, uma das poucas indústrias da região. Quem quiser também pode ir visitar as quintas, tal como na Tailândia onde se faz a sua criação, ou dar passeios de elefante. 

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No final da visita a Kompong Pluk reencontrámos o nosso motorista de Siem Reap, um homem de 53 anos precocemente envelhecido, único sobrevivente de uma família de 11 exterminada pelos Khmer Rouge. Falou-me da sua vida durante o tempo de Pol Pot, do seu recrutamento para a organização juvenil da terra e, depois do fim da guerra, da sua reconversão à indústria turística. Primeiro com um tuk-tuk, nos últimos anos com um carrinha Toyota. Mostrou ser um homem conformado com a sua sorte. Casara, tinha dois filhos a estudar na universidade que não acreditavam no que ele lhes contava sobre os tempos de Pol Pot. Explicou-me que os programas escolares omitem esse período e as novas gerações desconhecem a verdade. Sugeri-lhe que levasse os filhos à S-21, ficou de pensar no assunto e na melhor forma de os convencer. Mostrou-se agradecido pela visita que tínhamos feito porque se não fossem os estrangeiros eles não sobreviviam. Referiu conseguir fazer cerca de 100 USD por mês e que partir de meados do mês já era difícil aguentar-se. Nunca teve 1000 USD no banco e disse-me que os jovens querem partir para Singapura, Canadá, EUA. Poucos regressam. A corrupção continua a ser muito grande e descrente virou-se para mim perguntando-me como poderia se diferente se o primeiro-ministro Hun Sen era um ex-Khmer Rouge e as eleições eram chapeladas sistemáticas em que faltava a luz e as urnas contendo os votos eram trocadas durante a noite.

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Os últimos dias serviram para descontraidamente passear por Siem Reap, falar com as pessoas, senti-las e de certo modo agradecer-lhes tudo o que me deram nos dias que por lá passei. Duvido que na vida que me resta lhes consiga pagar o que recebi em afabilidade, calor humano e experiência de vida. Talvez um dia regresse para ir aos locais onde não fui; quem sabe se para passar uns dias tranquilos nas ilhas do golfo, ao largo de Sihanoukville.

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Quando há poucos dias parti em direcção ao Aeroporto Internacional de Siem Reap, para empreender a viagem de regresso, voltei a sentir a emoção. Como se ali sempre tivesse vivido e passado com aquela gente o que eles viveram. Como se fosse um deles.

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Do avião vi a cidade partir. Também ela me deixou partir mais sereno. Inconformado, é certo, seguramente mais adulto. E mais dorido vi o Mekong perder-se nos seus meandros. Lembrei-me então de uma frase de Hemingway, mas que já vi dizerem ter sido apropriada por Ursula K. Le Guin e que diz o seguinte: "It is good to have an end to journey toward; but it is the journey that matters, in the end". 

É isso mesmo. Seja de quem for a autoria da frase. Isso também não é importante. Bom Ano para todos vós.

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(P.S. Se puderem vejam isto: https://www.youtube.com/watch?v=tpaDOkI4VzQ)

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Por terras khmers (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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A noite passada, antes de me deitar, aproveitei para ler alguns jornais locais e pôr-me em dia com as notícias. Quando chego a qualquer local, um dos meus primeiros gestos é tentar obter a imprensa. Há hotéis que logo pela manhã deixam os jornais à porta dos quartos e se há coisa que goste de sentir é o seu cheiro a novo e a tintas frescas ao começar o dia. Tem sido assim desde que me conheço.

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O Khmer Times, The Cambodia Daily e o Phnom Penh Post têm edições coloridas em língua inglesa. Fico a saber que oficiais superiores das Reais Forças Armadas do Camboja* intimidaram a Tailândia a cessar os disparos junto à fronteira sobre os cambojanos que pretendem atravessá-la a salto à procura de trabalho e melhores condições de vida. A Assembleia Nacional pode vir a interrogar, a pedido da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, o ministro do Interior, Sar Kheng, pelo assassinato do analista político Kem Ley. O assassino de uma major das Forças Armadas, com 21 anos e estudante da Real Universidade de Phnom Penh, que inicialmente estava sujeito a uma moldura penal máxima de 15 anos, foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o juiz-presidente do Tribunal Municipal de Phnom Penh “reverted the charge (...) and sentenced Mr. Kimmheng to life imprisionment, without explaining his decision” (The Cambodia Daily, 22/12/2016). O Partido Popular do Camboja (PPP), liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, reunido em congresso em Koh Pich, “outlined a program of social reforms”, num pacote de políticas que, entre outras coisas, envolve o controlo dos preços dos produtos agrícolas, a distribuição de terras ao abrigo de concessões sociais, ajudas aos pobres, desburocratização da obtenção de certidões de nascimento, de casamento e de óbito e de identificação, preços controlados na electricidade e o aumento do salário mínimo para 1 milhão de Riéis (250 USD). As eleições comunais são no próximo ano. Hun Sen foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979/1986 e depois entre 1987/1990. É primeiro-ministro desde 1996. Foi segundo primeiro-ministro até ao golpe de 1997 e desde 1998 é primeiro-ministro. Estamos no final de 2016 e o senhor vai no quinto mandato. Por aqui fica tudo explicado sobre a oportunidade das medidas anunciadas.

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Tomado o pequeno-almoço, ao ar livre e à beira de uma piscina, fomos ter com o condutor de tuk-tuk com quem tínhamos combinado o dia. Era outro. Disse que o irmão não podia ir e lhe tinha telefonado a pedir que fosse ter connosco. Seguimos na mesma.

O dia foi reservado para ir, finalmente, ao que ficou tristemente conhecido como os “killing fields”. O seu nome oficial é Choeung Ek e foi tudo menos uma prisão normal. Está a 7,5 km de Phnom Penh, contados a partir dos limites da parte sul da capital. O percurso é todo ele um suplício que atravessa um mar de pó, percorrendo zonas comerciais à beira da estrada com ofertas de massagens de 60 minutos por 9 USD, lojas de bugigangas, de ferro velho, cantinas e hostels miseráveis. Sempre com muito lixo largado à beira da estrada, atirado para os campos e em riachos. De repente uma curva para a esquerda e continuamos por um caminho de terra batida entre hortas e esgotos onde nalguns pontos mal cabem dois carros. Por fim lá chegámos, debaixo de um imenso e longínquo céu de um azul profundo, com um sol escaldante e uma humidade elevada. Uma estufa.

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Entre 1975 e 1979 cerca de 17.000 homens, mulheres e crianças foram presos e torturados na S-21, código de uma escola na capital que se chamou Tuol Svay Prey High School. Em 1975 foi tomada pelos homens da segurança de Pol Pot e redenominada "Security Prison 21". Da S-21, prisão secreta do regime, saíam depois os camiões com os presos de olhos vendados, entre as 20 e as 21 horas, que iam até Choeung Ek, uma das 196 prisões do regime de Pol Pot. Dali, da S-21, só sete dos que lá entraram saíram com vida, escapando milagrosamente à morte, sendo libertados depois da queda dos Khmer Rouge. Também lá ficaram nove estrangeiros incluindo um navegador neo-zelandês, Kerry Hamill, e o seu amigo canadiano, Stuart Glass, que tiveram o azar de entrar em águas do Camboja quando o primeiro realizava o seu sonho de dar a volta ao mundo num veleiro.

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Choeung Ek é um local de um silêncio aterrador. Com entrada por um terreiro que está agora ladeado de casas, um estacionamento para carros, motas e tuk-tuks e tascos incaracterísticos. Ainda hoje está murado e com arame farpado. Só depois dos vietnamitas entrarem e expulsarem os khmer rouge é que foi possível saber o que aconteceu. Em 1980 foram exumados 8985 cadáveres, muitos ainda com as mãos atadas e as vendas no que foram os seus olhos. As valas comuns estão umas a seguir às outras, devidamente assinaladas.

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Tal como os nazis, os khmer rouge mantinham registos meticulosos dos seus crimes pelo que é possível saber com rigor o que aconteceu. As fotografias são imensas e hoje o fotógrafo principal, Nhem En, vive descansadamente com a família no norte do país, onde ainda sonha, de acordo com o que me foi transmitido, vir a ser governador provincial. Na S-21 foi inclusivamente criado um centro de documentação com o apoio da Universidade de Yale para investigar e documentar os crimes daquela canalha. Em 1997 esse centro deu lugar a uma organização independente que desde então tem traduzido e compilado documentos, mapeado as valas comuns e procedido à preservação dos espaços para que a memória, que não é só a deles mas também a nossa, não se perca.

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A visita é toda ela feita em silêncio. Um silêncio muito diferente daquele que vivi na beleza de Angkor Wat e que aqui é apenas cortado pelos comentários do magnífico guia-áudio que me foi entregue. Há guias-áudio em múltiplas línguas, com excepção do português, para acompanharem os visitantes ao longo das várias estações do percurso, numa espécie de Via Sacra. A locução é rigorosa, cristalina, irrepreensível. Os factos e os depoimentos são-nos atirados sem filtro. Por vezes ouve-se apenas a música que era tocada num volume altíssimo nos altifalantes de Choeung Ek na altura das execuções, para assim se abafarem os gritos das vítimas, os tiros e o ruído daquelas.

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Há bancos à sombra das árvores e arbustos, onde as pessoas são convidadas a sentarem-se para ouvirem o guia-áudio. A maioria dos que lá encontrei eram jovens, estudantes, muitos ocidentais, alguns asiáticos. E havia viajantes, como eu, que queriam saber um pouco mais do que aquilo que vem nos livros. Existe no local, logo após o início do percurso que está devidamente demarcado, um pavilhão com fotografias e múltiplas explicações onde é passado um documentário com as imagens do que se encontrou quando em 1979 se tornou possível entrar e sair dali. Porque para se perceber o que ali aconteceu e a forma como aquele inferno era gerido impõe-se a compreensão da cadeia de comando estabelecida pela liderança khmer rouge.

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No seu topo, além de Pol Pot, figuravam Nuon Chea, Ta Mok, Son Sen e Khiev Sam Pan. Como muitos saberão, Pol Pot, o líder máximo, era filho de um rico agricultor khmer, Penh Saloth, que tinha mais de 12 hectares de terra. Nascera com o nome de Saloth Sar, em Kompong Thom. Uma irmã era consorte real, o irmão Song era oficial do protocolo real, e ele foi enviado pelos pais para viver com estes e ali ser educado. Frequentou uma escola básica da elite católica e aos 23 anos recebeu uma bolsa do governo francês e foi estudar para Paris onde se juntou ao Partido Comunista Francês. Depois de reprovar em três anos consecutivos, casar-se-ia com Khieu Ponnary, a primeira mulher cambojana a obter um baccalauréat, regressando ambos ao seu país em 1956. Mentiroso compulsivo, até no dia do casamento mentiu quanto à sua idade, dizendo que tinha 21 anos em vez de 28. Nunca admitiu o seu nome verdadeiro e a sua biografia oficial, publicada em 1977, diz que era agricultor, omitindo os anos passados no Palácio Real, em Phnom Penh, e a passagem por França. Por aqui se vê a qualidade da besta. 

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O regime estava organizado em termos tais que a última ordem seria sempre dada pelo “Irmão n.º 1”. Tudo o que fosse feito tinha a sua aprovação, ainda que escasseiem as ordens escritas. Son Sen era o encarregado da Segurança Nacional e da Defesa e o sinistro Duch, que aparece no julgamento com uma camisa da Ralph Lauren, o comandante da S-21. Foram estes, depois de Pol Pot, os responsáveis pelo genocídio. Sobre isto existem provas escritas. Os documentos eram todos enviados para a sede do partido e vistos por Son Sen, havendo imensos memorandos com anotações e “confissões” dos prisioneiros, muitas vezes a tinta vermelha. Obtidas as instruções do Comité Central era produzida a lista dos que seriam executados. Residentes nas cidades, escritores, jornalistas, professores, estudantes, ninguém escapava. 

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Penso que sobre isto não vale a pena dizer mais nada. A informação é abundante e só escapou porque na fuga a canalha não teve tempo para destruir as provas. A média diária de executados era variável e podia ir de algumas dezenas a centenas. Duas a três vezes por mês lá saíam os camiões cheios de prisioneiros da S-21. Não levavam gado. Transportavam seres humanos de todas as idades. E estes não morriam com gás. Aquela gente era mais refinada. Estiletes pelo crânio, machados, bebés e crianças agarrados pelos pés e atirados contra uma árvore, homens de joelhos que depois eram agredidos com barras de ferro no pescoço até começarem a sangrar (...), tudo era possível. A seguir aos choques eléctricos na S-21, às celas minúsculas, aos vasos de barro cheios água onde lhes mergulhavam a cabeça enquanto aguardavam pelas “confissões”, às barras de ferro onde lhes enfiavam os tornozelos, seguia-se a viagem para Cheoung Ek. Os químicos que lá foram encontrados costumavam ser usados para regar as vítimas, muitas ainda vivas e em profunda agonia, desfazê-las e evitar os cheiros, por vezes inevitáveis quando os ventos sopravam mais fortes. Kong San, um ex-soldado da divisão 703, que cultivava arroz nas redondezas, testemunhou que quando sentia o cheiro pensava que era o de cachorros mortos. Terminadas as execuções procedia-se à confirmação das vítimas para se ter a certeza de que ninguém ficara vivo.

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Choeung Ek não era, nesses tempos miseráveis em que noutros locais desse mundo a Humanidade ainda vai insistindo, uma brincadeira de crianças. Também não é na actualidade um passeio turístico. Não é lugar para turistas que vão à procura de sol, bebidas exóticas e ansiosos para se atafulharem de imitações rafeiras das marcas famosas que chineses e angolanos ricos disputam na Avenida da Liberdade. Choeung Ek é uma viagem ao que de mais inaudito existe na alma humana. Uma viagem às nossas entranhas sem bilhete de volta. Mais de trinta volvidos continua a não ser um local para pessoas sensíveis. Proporcionalmente, e em termos de barbarismo, o que aqueles filhos da puta fizeram ao seu povo, a gente de carne e osso, a seres humanos como nós, suplantou em muito o que aconteceu com os nazis ou o que se sabe dos períodos mais negros do estalinismo. E tudo aconteceu tão perto de nós. Há tão pouco tempo. E quando nós, portugueses, discutíamos salários, nacionalizações, a reforma agrária, líamos a Gaiola Aberta e víamos o Último Tango em Paris. Como se este fosse outro mundo.

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Antes de me retirar fui ao stupa (pagode) que ali foi erigido para honrar a memória das vítimas. Deixei lá um ramo de flores brancas e amarelas. Alguém entregou-me uns pivetes que se juntaram a outros e que por lá ficaram a arder. Fi-lo quase maquinalmente, absolutamente horrorizado, destroçado na minha condição de homem. Com uma angústia que não sei descrever.

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O regresso ao tuk-tuk e o caminho de volta pareceram-me intermináveis. Emocionei-me protegido pelos óculos de sol. Fui olhando para a passagem sem nada ver. Sem saber o que dizer a quem estava ao meu lado, sem saber o que pensar. Uma vez mais o silêncio. Um silêncio dilacerante. Sempre o silêncio até chegar a Phnom Penh e o nosso motorista nos largar à porta da S-21. Podia tê-lo evitado. Não o fiz. Sentia que era preciso cumprir a última fase do caminho. Por respeito para com todos aqueles que por ali passaram. Por respeito para comigo. Percorri as quatro alas em silêncio. Subi e desci aquelas escadas frias, feias, despidas. Entrei nas celas, vi os instrumentos de tortura, as caixas que garantiam as descargas junto às camas dos reclusos. Vi milhares de fotografias e li os testemunhos. Até vi nas paredes o arrependimento tardio dos suecos que num momento em que regime precisou fizeram de idiotas úteis da sua propaganda para o Ocidente promovendo as virtudes que aquela canalha desprovida de princípios e de valores nunca teve. Sempre em silêncio. De que outra forma poderia ser? Daqui para a frente não escrevo mais nada. Imaginem uma página em branco onde está lá tudo. Tudo o que não consigam imaginar, mas que vos deixe nauseados, moribundos. Não há palavras que o descrevam. Poupo-vos ao relato de tudo o que encontrei na S-21. A minha parceira não aguentou mais. Preferiu descansar de tanta violência e aguardar-me no jardim, enquanto lia e escrevia uns postais. Para ela já não havia mais nada para ver. Tinha visto tudo. Eu nunca vira nada assim e ainda não estou certo de ter visto o que vi. 

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Quando no final desse dia cheguei ao meu hotel e me despedi do nosso prestável motorista sentia-me sem forças. Como se tivesse levado uma sova de proporções épicas. Transpirado, nojento, senti-me imundo. Dei umas braçadas na piscina do hotel, tomei um duche como que desejando desinfectar-me, purificar-me, perdoar-me pelo que não fiz. Absolutamente destroçado pelo que vi, esmagado pelo asco, pela dimensão do sofrimento daquela gente. Senti vergonha e nojo da minha espécie. Não sei como algum dia sairei daqui. Sei que após esse dia 22 de Dezembro não sou o mesmo. E também não sei que sentido se há-de atribuir ao Natal depois da viagem que fiz. Pode ser que um dia alguém me explique. Presentes? Caixas de Multibanco exauridas? Presépios? Reis Magos? Sacos a abarrotar de compras? Pinheiros enfeitados com luzinhas coloridas a piscar? As crianças merecem-nos. Têm direito ao sonho. Mas nós? Nós, nós ainda estamos tão longe do Natal... 

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Ninguém volta a ser o mesmo depois de passar por ali. De ouvir e de ver aqueles registos. Não há olhos que cheguem para tanta escuridão. Não há lágrimas que nos sustentem. Não há nada que fique de pé. Não há nada que resista. Nada.

Nunca mais vai ser Natal. Tenho a certeza. Espero um dia ser perdoado. Por quem é que eu já não sei.

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[* - Antigamente escrevia-se Cambodja. Foi assim que aprendi. Os brasileiros ainda o fazem. Há especialistas que dizem que se pode grafar das duas maneiras. Contudo, de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e o meu velho prontuário aparece sem o "d", pelo que daqui para a frente assim será.]

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Por terras khmers (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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Se viajar é também uma arte e um prazer, há algumas regras que devem ser seguidas para se extrair o máximo da jornada. Paul Theroux, um reconhecido escritor de viagens, escreveu um dia que há três regras básicas para o viajante – aquele que não sabe para onde vai, ao contrário do turista que não sabe onde esteve – e que se resumem a viajar por terra sempre que possível, de preferência sozinho e tomando notas. Como não gosto de voar e só o faço por obrigação sabia que não iria de avião para Phnom Penh. Contudo, estava indeciso sobre a melhor forma de seguir caminho, se de barco, descendo o Mekong até à capital, se fazê-lo por estrada.

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Descer o rio teria sempre o aliciante de poder tirar boas fotografias, mas revelava-se uma opção pouco gratificante porque me iria afastar das pessoas, da estrada, do contacto com a terra e com os campos ao longo do caminho. As referências sobre as embarcações que fazem esse percurso não eram as melhores, nem em termos de salubridade nem de segurança. Por estrada, as alternativas eram várias mas acabámos por fazer essa parte da viagem num dos autocarros da Giant Ibis, uma excelente companhia, com um registo impecável em termos de segurança, um site na Internet e que que providencia o transporte dos seus passageiros dos hotéis para os terminais. Os veículos da Hyundai que utiliza são relativamente novos. Tem um serviço de bordo melhor do que algumas companhias aéreas a que tenho recorrido, bons motoristas, pessoal atencioso e, inclusivamente, distribui logo pela manhã uns magníficos brioches e os nossos conhecidos caracóis com passas, acompanhados de uma garrafa de água. Os autocarros têm wi-fi, ar-condicionado, são limpos e cómodos. Por 15 USD iria fazer o percurso de 340 km entre as duas cidades, sabendo que iria ter três paragens pelo caminho, uma delas para o almoço. 

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A escolha foi acertada. Vi uma paisagem diferente daquela que conhecera na região de Siem Reap e Angkor Wat e pude ir apreciando as estradas, o casario, as dezenas e dezenas de escolas, vendo o movimento das pessoas e veículos, os pais à espera dos mais novos, os mais velhos seguindo a pé ou de bicicleta, alguns de mota. A estrada nacional está em muito bom estado e o percurso, que acaba por durar cerca de 6 horas e 30 minutos, faz-se bastante bem.

20161221_173137.jpgAo longo do caminho também aproveitei para ler mais alguma coisa, dando particular atenção ao livro de Ben Kiernan ("The Pol Pot Regime – Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-1979"), de leitura obrigatória para quem quer saber alguma coisa sobre o que ali se passou quando em Portugal se defendia a democracia e a liberdade na Alameda. Ao mesmo tempo ia observando as pessoas, recordando trechos do filme de Joffé e pensando na cidade que iria encontrar.

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O corrupio de pessoas, motociclos, tuk-tuks, carros, bicicletas e autocarros de turismo carregados de chineses e coreanos aumentava à medida que nos aproximávamos de Phnom Penh. A confusão nas ruas à beira dos cruzamentos era grande e rapidamente compreendi que a cidade ocupava uma área bastante extensa e tinha uma população muito substancial. Mais tarde esclareceram-me que deve andar pelos dois milhões de almas. 

thumb_P1080020_1024.jpgAo chegar a Phnom Penh dirigi-me de imediato ao meu hotel, situado mesmo junto ao Palácio Real e ao Museu Nacional, próximo do Boulevard do Príncipe Sihanouk (Preah Sihanouk Blv.) e na zona onde até 1975 ficava a Embaixada dos EUA. Foi só o tempo de largar a bagagem, refrescar-me e começar a palmilhar a cidade. 

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Visitar o Palácio ou o Museu nesse dia estava fora de questão, visto que fecham cedo (17 horas), pelo que agendei essas visitas para mais tarde e tirei partido da localização do hotel para conhecer as ruas adjacentes, dar um rápido passeio pela marginal junto ao rio, e fazer a pé todo o percurso desde ali até ao Monumento da Independência. De caminho vi dezenas de estudantes e candidatos a monges, da Universidade Budista de Phnom Penh, vi as novas embaixadas altamente protegidas e fui olhando para os rostos, tentando perscrutar nos sorrisos que me cruzavam o que teria sido a sua vida há algumas décadas.

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De novo me voltaram à cabeça as cenas da película de Roland Joffé, em especial as das filmagens no interior da embaixada e da chegada dos Khmer Rouge às suas portas. Embora o filme tivesse sido rodado na Tailândia, as casas, as ruas e a arborização que nele aparecem correspondem na perfeição ao que encontrei em Phnom Penh.  

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A cidade tem uma localização privilegiada junto ao rio, espraiando-se já pela outra margem, de onde se pode ver um excelente pôr-do-sol sobre os telhados do Palácio Real. Os problemas do lixo, da higiene urbana e dos cheiros, de que me apercebera em Siem Reap, tinham aqui continuação. Existe um conjunto de edifícios de arquitectura colonial, muitos deles degradados ao lado de outros excelentemente preservados, que conjuntamente com as esplanadas, numerosos cafés e muitos e bons hotéis e restaurantes dão-lhe um toque ocidental e mediterrânico. A luz durante os dias em que ali estive foi imensa, em especial durante as manhãs, o que me trouxe um misto de satisfação e saudade pela inigualável e penetrante luz das manhãs do meu país. 

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O contraste entre alguns muito ricos, os ricos e os pobres é visível, notando-se que os mais abastados têm traços étnicos chineses. Estes e os de origem vietnamita eram os principais habitantes da cidade e foram os primeiros a ser dizimados e expulsos para o campo, como a maioria da população das cidades, obrigada a trabalhos forçados e de "reeducação" pela cegueira resultante de uma amálgama de extremismo ideológico, racismo e xenofobia que aniquilou etnias e classes urbanas, acusando-as de traição em resultado da contaminação provocada pelas influências estrangeiras. Apesar da cidade estar a crescer, ainda não atingiu o ritmo de desenvolvimento do vizinho Vietname. O novo Casino Naga tem atraído um conjunto de investidores e jogadores chineses e de outras regiões da Ásia, como Singapura e Coreia do Sul, pelo que é natural que nos próximos anos a cidade dê um salto. Deverá ser essa a razão para a Rolls Royce já ter um representante e expositor na cidade.

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A população aprecia os jardins, gosta de ficar na cavaqueira, fumando e bebendo, nos passeios, vendo-se imensas crianças. Crianças e jovens, pois que praticamente não se vêem velhos. Alegres, correndo de um lado para o outro atrás das suas bolas, envergando camisolas contrafeitas de clubes de futebol europeus e até da nossa Selecção Nacional, emulando Cristiano Ronaldo nos seus toques de bola. 

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Durante os dias em que andei por Phnom Penh conheci mais alguns restaurantes. Gostei bastante do La Pergola, no hotel The Plantation, onde pernoitei. Um óasis confortável no centro da cidade, que recomendo vivamente, decorado com gosto, com um bar de tapas no rés-do-chão, um ambiente cosmopolita, de gente simples mas que se vê ter mundo e maneiras pela maneira como come, como fala, como se comporta perante os empregados e pela educação com que lida com os outros com que se cruza. Esses são os primeiros sinais de civilização de um homem. 

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Estive também no afamado Chinese House, do qual não fiquei com saudades. Pena que um local diferente e bem decorado, popular entre os expatriados, tenha uma cozinha com uma confecção tão má e tão pretensiosa. Caro para a qualidade. Mau para se amesendar. Salva-se o bar do rés-do-chão, por sinal às moscas na noite em que lá fomos. 

Amanhã será um novo dia. Não sei o que irei encontrar, embora me tenha vindo a preparar para tal. Veremos se depois do que vi e li não ficarei demasiado maltratado.  

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Por terras khmers (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.16

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O desenvolvimento de Angkor ficou a dever-se ao génio do Rei Jayavarman II (790-835) que inicialmente estabeleceu a capital em Roluos, depois mudada para as montanhas Kulen. Até então a história dos khmers era uma história de pequenos estados independentes, por vezes transformados em impérios, mas sempre durante períodos relativamente curtos. Consta que desde o período neolítico a região foi ocupada devido à fertilidade dos solos em redor do chamado Grande Lago, da riqueza piscícola e abundância de água, mas foi a partir de 1908 e das descobertas da Escola de Arqueólogos Franceses do Extremo-Oriente, em particular de Jean Commaille, que escreveu em 1912 o primeiro guia de Angkor, que se tornou conhecida. O que hoje se vê é apenas uma pequena amostra do que existiria, sabendo-se das inscrições nos relevos dos templos que, por vezes, as construções se atrasavam durante anos devido à ausência de fundos para serem concluídas. 

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Não vou aqui descrever em detalhe o que por ali vi, importa talvez dizer que quem quiser explorar a região de Angkor e visitar os templos, declarada Património da Humanidade desde 1992, após a celebração dos Acordos de Paris, tem primeiro de munir-se de um bilhete, cujo preço varia entre os 20 USD, para um dia, e 40 USD, para três dias, sendo possível obter passes de uma semana. Convém que quem lá for não se iluda e não se arme em chico-esperto, resolvendo começar a circular livremente por toda aquela vasta área para poupar no custo do bilhete, confiando na sorte, porque na estrada e à entrada das zonas onde estão os principais templos é feito o controlo dos bilhetes pela Polícia do Turismo, bilhetes que depois são frequentes vezes pedidos para verificação da identidade do titular e confirmação de que a foto dele constante, tirada na hora, corresponde ao visitante que se apresenta. O controlo é amigável e simpático para os viajantes sem deixar de ser rigoroso para os infractores que sejam apanhados sem bilhete.

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Depois de três dias passados nesta região, onde aproveitei para observar os fabulosos frescos, respirar todo aquele verde e visitar o Museu Nacional D'Angkor, reservando para outra ocasião o centro dos Artisans Angkor e as oficinas dos ceramistas, comecei a aperceber-me do grau de destruição e rapina provocado quer pelo regime de Pol Pot, e após a queda deste, em 1979, quer pela ocupação vietnamita que se lhe seguiu. Muitas das figuras das belíssimas apsaras (ninfas), que representam na perfeição a generosa e enigmática beleza da mulher cambodjana, das cabeças de esculturas centenárias, das divindades, serpentes e leões foram mutiladas, decepadas, desfiguradas. Galerias inteiras foram destruídas, provavelmente para estarem hoje a ornamentar casas e jardins fora do Cambodja. Algumas peças foram entretanto recuperadas depois de terem aparecido ao fim de muitos anos em leilões e exposições por esse mundo fora, mostrando a importância da cooperação internacional na defesa do património cultural que a todos pertence.

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Antes de rumar ao Sul ainda ensaiei uma primeira aproximação ao que foram os anos de guerra e genocídio, primeiro com a ditadura do direitista Lon Nol, que alegadamente chegou ao poder através de um golpe apoiado pela CIA e os EUA, acusação que alguns dizem ter falta de provas e que foi rejeitada por Kissinger, para quem os EUA terão sido apanhados de surpresa, e depois com o infame regime de Pol Pot.

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Quanto a Lon Nol é duvidoso que não tivesse obtido prévio apoio dos EUA atenta a forma como as coisas aconteceram, a começar pelas manifestações promovidas pelo próprio governo para justificar o golpe militar e o suporte que os EUA deram de imediato ao novo poder. Muito resumidamente, o que aconteceu foi que na sequência de uma votação na Assembleia Nacional cambodjana, Lon Nol derrubou a monarquia e atirou o Príncipe Norodom Sihanouk para o exílio. Invocando poderes extraordinários, aquele que era ao tempo primeiro-ministro, tomou o poder, proclamou a República Khmer e substituiu uma monarquia clientelar e corrupta, que abrira o porto de Shianoukville aos vietcongs, pela instauração de uma férrea ditadura, igualmente corrupta, dirigida por um nacionalista místico e chauvinista que queria ser tratado por “Black Papa” devido à cor da sua pele, o que segundo o próprio faria dele um verdadeiro khmer. O golpe conduziu a uma intervenção directa na Guerra do Vietname e à perda de mais umas centenas de milhares de vidas entre cambodjanos, com particular incidência sobre as comunidades dos etnicamente de origem vietnamita, inocentes ou culpados, que viviam no Norte, e que iam sendo atirados ao Mekong à medida que eram eliminados na tentativa de conter o avanço comunista.

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Fui então visitar o denominado “War Museum” que se encontra instalado na Região Militar de Siem Reap, a poucos quilómetros da cidade. Recebido à entrada pelo seu responsável, com o tradicional traje negro dos antigos guerrilheiros khmer, perguntou-me se precisava de guia, tendo eu retorquido que não. O que eu já sabia dispensava-o de me esclarecer sobre aquilo que ali estava patente. Material militar desactivado, tanques, granadas, lança-roquetes, morteiros, praticamente todos os modelos de metralhadoras ligeiras, com destaque para as AK-47, pistolas dos mais diversos fabricantes e modelos, incluindo israelistas, até um helicóptero e um velho Mig russo usados em combate, dispensavam explicações adicionais por parte de qualquer guia. De um lado e do outro vários barracões com fotografias, memórias dos conflitos, registo de tragédias pessoais e colectivas e um vasto conjunto de todos os tipos de minas que se encarregaram de ceifar, e que continuam a ceifar, centenas de milhares de vidas, de toda a espécie de gente, novos e velhos, homens e mulheres, gente inocente. Tudo ali exposto em fotografias, cartazes, relatos biográficos e relatórios para que a memória não se perca por falta de informação. Para todos e a começar pelos jovens locais, para que se possam aperceber do que foi o passado, do preço da paz e do drama do seu povo.

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Existe também um museu dedicado às minas a 25 km de Siem Reap. Não estava nos meus planos lá ir até porque a guerra contra as minas continua no presente, não faz parte do passado. Há ainda vastas áreas minadas, admitindo-se que haja cerca de seis milhões de minas (este número não é engano) espalhadas pelo país. Há minas colocadas pelos vietnamitas durante a ocupação, usando mão-de-obra forçada local, ao longo dos 700 km da fronteira com a Tailândia. Há minas colocadas pelos Khmer Rouge nas florestas, a partir do momento em que foram afastados do poder para protegerem os locais onde se refugiaram, e há minas colocadas pelos governo nacional para proteger cidades, vilas e aldeias e as suas próprias posições. São por isso frequentes os avisos de perigo, incluindo em caminhos aprazíveis pelas florestas e nalgumas zonas das províncias de Banteay Meanchey e Oddar Meanchey, por exemplo, num país que tem o mais alto número de amputados devido às minas. A média de amputados mensal é actualmente de cerca de 15, num total superior a 40000, agravando-se a situação na época das chuvas, em especial nas zonas rurais, onde os mais atingidos são os desgraçados dos agricultores.

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À sombra das árvores, com os pássaros e mosquitos por companhia, com um guia nos seus trinta anos que mostrava nos olhos e no rosto, para um pequeno grupo de turistas que nos seguia, os pergaminhos da sua história pessoal e a do seu pai, mais uma vítima dos Khmer Rouge, todo aquele material exposto tornou-se inofensivo. Está ali a memória da sua infância e da sua juventude, se é que de tal se poderá falar. Longo e doloroso foi o caminho que o trouxe até àquele cemitério. O que para trás ficou será sempre irrecuperável. Em vidas e em sofrimento. Não há preço para isto.

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Por terras khmers (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.16

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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Por terras khmers (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.16

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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