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Memória da Graça

por Luís Naves, em 19.06.17

Estão a arder alguns lugares onde passei parte da minha infância: ocorrem-me as primeiras memórias, a minha avó, a minha mãe. A primeira vez em que percebi o tamanho do mundo estava na orla de um imenso pinhal (era imenso porque eu devia ter uns três ou quatro anos), e os troncos erguiam-se como se fossem pilares de uma catedral cujo tecto filtrava a luz em pequenos fios oblíquos; e o solo, repleto de fetos, tinha um ligeiro declive que me fascinou intensamente. Lembro-me do cheiro da terra e do perfume único dos pinheiros e de uma voz ao fundo, muito ao fundo, para lá de uma barreira em que terminava a floresta e se alongava uma vastidão ignorada, onde se propagavam as vozes estranhas e fantasmagóricas de não sei quem, numa língua desconhecida e com os seus dramas próprios. O pinhal ficava ao lado da casa da minha avó, nos confins da aldeia onde ela era professora primária e, um pouco afastada, talvez a dois ou três quilómetros, ficava a aldeia da Graça, que por estes dias esteve na rota do fogo e onde anos depois estudei, com pouco êxito, a catequese. Ainda hoje confundo algumas das rezas fundamentais, que nunca penetraram completamente neste meu crânio duro e mau, talvez por culpa do padre Aníbal, a quem a minha avó chamava sarcasticamente o padre animal. Lembro-me da luz pura e dos campos fragmentados, lembro-me da estrada em macadame e da pobreza, lembro-me das casas em pedra, dos currais, do porco Príncipe Perfeito que nós, as crianças, torturávamos com alegria; lembro-me dos campos lavrados, do milho alto, mas não tenho memória do calor extremo. Eram tempos mais amenos, parece-me, a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela e se pedia linha à telefonista; lembro-me de tudo isso e muito mais, da sujidade e da água, das estrelas no céu e da lua cheia em que passeavam astronautas, lembro-me do foguetão que fizemos com pólvora e em cuja explosão pereceram duas baratas; lembro-me do peru voador e dos miúdos camponeses, da escola e do meu fascínio pelas letras escritas a giz no quadro negro; estas aldeias tinham muitas histórias, da velha que matava galinhas com o olhar, do regresso dos franceses, do escândalo que foi a minha tia a bronzear-se ao sol em biquíni, as invejas e as guerras por terra e água, o bailarico e o vinho, as velhas de negro, as vidas duras e secas, o ocasional fogo ao longe, mas isso já era mais raro que o resto, que era a vida de então, existência entretanto extinta e lembrada apenas em imagens fugitivas que se vão perdendo. Sim, não havia as temperaturas de hoje, não havia as calamidades florestais de hoje, aquele mundo desapareceu mesmo, como certamente há muito tempo se terá esfumado mais aquele chão de floresta à beira da estrada e ao lado da casa agora em ruínas, o gigantesco pinhal em que pela primeira vez pressenti a dimensão do mundo.

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Exemplo de ser português

por Luís Naves, em 07.06.17

Li na imprensa que um homem foi detido e levado a tribunal por furtar um saco de morangos no valor de 2,5 euros. Isto aconteceu no mesmo país onde se reclamam inocentes todos os banqueiros que estoiraram com bancos inteiros e ainda governantes que se governaram em contas bancárias de milhões que não estavam em seu nome, sem falar nos gestores cujas empresas têm lucros garantidos à custa do bolso de todos, mediante leis devidamente fabricadas para o efeito, pois esfolar legalmente um país inteiro não é crime.

Este é o mesmo país onde vão presos ladrões de morangos e ficam à solta os benfeitores que nos roubem a valer; um país que se habituou aos grandes ladrões a quem chama doutores, mas que não tolera o pequeno furto de morangos feito por amadores; boa pátria para quem a desfruta, mas de mão pesada para quem cobiçar fruta, ou neste caso, o fruto acessório agregado, o que a botânica diz que um morango é.

Pois neste país tudo pode ser, no fundo, acessório agregado, se visto do ponto de vista das elites que nos sacam, retirando as partes carnudas do corpo da nação sem que isso constitua furto ou delito, o mesmo não se dizendo para quem de repente, saltando uma simples vedação, levar um saco com morangos que, sendo propriedade privada, merece exemplar repressão, enfim, para dar o exemplo sem explicar os porquês. O exemplo de quem pode mandar e o exemplo de quem deve obedecer, de quem tem e de quem deve. Um exemplo, enfim, de ser português.

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Supremacia

por Luís Naves, em 02.06.17

Donald Trump decidiu retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre alterações climáticas e segundo uma das críticas mais comuns, o presidente americano está a abdicar da hegemonia da superpotência e a dar de barato à China a supremacia mundial. As pessoas estiveram mesmo muito distraídas durante a campanha: Trump cumpriu uma das promessas centrais que fez aos americanos e esta administração será isolacionista, ou seja, o presidente quer mesmo reduzir a exposição do seu país aos assuntos globais, escolhendo apenas as lutas que lhe interessam e não entrando em todas. Isto é uma estratégia, não é um efeito secundário.

Um dos maiores problemas dos impérios do passado foi a sobre-extensão, ou seja, o envolvimento em demasiados conflitos ao mesmo tempo, com a respectiva dispersão de recursos e constante aumento dos custos imperiais. Provavelmente, Trump ponderou uma divisão de tarefas com a Rússia, mas este prolongamento de Ialta é hoje politicamente impossível, pois os democratas no Congresso entram em histeria com tudo o que envolva Moscovo, o que certamente terá efeitos para além desta administração.

É preciso reler O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. A China não estará interessada em ter um papel global e os europeus parecem ter entrado em pânico com os primeiros sinais do isolacionismo, que foi sempre uma das tendências da política americana, embora raramente dominante na Casa Branca. A saída do acordo de Paris é um erro que deve ser criticado pelo efeito desastroso que pode ter na segurança de centenas de milhões de futuras vítimas de secas e tempestades. A América também se arrisca a perder a liderança no abandono da economia do carbono, mas a tese da loucura não é satisfatória: as promessas de Trump foram no sentido de aumentar o isolamento dos EUA, reduzir a extensão imperial e manter alianças suficientes para garantir a supremacia. Ao mesmo tempo que abandona acordos multilaterais, a Casa Branca reforça o investimento nas forças armadas. E tudo isto foi a votos.

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Grandes ilusões e memória curta

por Luís Naves, em 29.05.17

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Durante setenta anos, a Europa Ocidental esteve sob protecção americana, com o evidente resultado de um prolongado período de paz e prosperidade. Esta aliança resistiu a todas as administrações, a várias crises (Suez, Berlim, Cuba, Kosovo), mas a chanceler Angela Merkel parece acreditar que é altura de tentar outra coisa: ela disse ontem que “os tempos em que podíamos confiar totalmente em outros [países] acabaram”, numa referência ao Reino Unido e aos EUA, aqueles por quererem abandonar a UE, estes por não cederem às posições europeias em matéria de globalização, financiamento da NATO e alterações climáticas.

O que a chanceler sugeriu, e que entretanto foi suavizado, corresponde à aparente subversão da ordem mundial definida em Ialta pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial, devendo os europeus definir no futuro o seu destino. Essa conferência ainda não foi revogada e os vencedores são os mesmos (a Rússia é a herdeira legal da URSS). Para mais, a chanceler falou em nome dos ‘europeus’, não usando a expressão ‘nós, os alemães’. Ao considerar que já não se pode contar, como antes, com os aliados ingleses e americanos, assumindo-se como suposta ‘líder europeia‘, Merkel repetia uma ideia que faz o seu caminho na eurocracia: os principais obstáculos ao futuro da Europa são as nações que a compõem; se queremos mais integração e segurança, temos de vencer os nacionalismos.

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente numa separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães; a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, mais o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão; a Turquia não conta.

Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os derrotados num conjunto onde os vencedores seriam sempre dominantes. Não se percebe se a tese de Merkel é pacifista, mas há nas declarações um óbvio cálculo eleitoral de conquista de votos à esquerda. No seu partido, isto deve ser controverso, mas o mais incompreensível é o entusiasmo da esquerda europeia, talvez por causa do anti-americanismo. Na UE, os partidos de esquerda estão a dividir-se em relação à ortodoxia comunitária, os radicais a recusarem o europeísmo e a corrente social-democrata a trair os trabalhadores que foram sempre a sua base social, aplaudindo cada nova vitória dos conservadores ou dos social-liberais, enfim das forças pró-globalização. Para quem toma decisões, grandes fatias do eleitorado deixaram de contar.

Neste contexto, a ambição de levar a União Europeia para um caminho estratégico autónomo é mais um passo na direcção do beco sem saída. Podemos não gostar de Trump, mas abandonar uma aliança com os Estados Unidos que correu bem durante setenta anos, em troca de uma aventura que nem aos alemães convém, só pode ser uma grande ilusão ou um erro monumental.

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Camilo e a mesa

por Luís Naves, em 20.05.17

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Este post do Pedro Correia sobre o humor e a gastronomia na literatura suscita algumas observações, sobretudo em relação ao caso de Camilo Castelo Branco. Parece evidente que Camilo tinha um terrível humor sarcástico, mas não acho tão óbvio que se interessasse grandemente por gastronomia. Os exemplos em que o autor se refere a comida podem dar para um volume, mas isso deve-se mais à vastidão da obra do que a um interesse particular. Dos quase 200 títulos de Camilo (talvez mais de 150 volumes) não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam, saber pormenores de higiene ou qual o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Claro que há referências a gastronomia, mas julgo que têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema) ou a comida não merece descrição especial, a ponto de não reconhecermos variantes regionais.

O modo de fazer está ausente e Camilo é um provinciano que desconfia das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor, aqui narrador, não acredita nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance (um dos meus favoritos na parte que conheço da obra de Camilo), a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, quase doentio, e intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos de excertos da obra de Camilo onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Há também citações sobre fome, mas julgo que Camilo estava longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, à hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

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A paisagem política francesa mudou na primeira volta das eleições presidenciais, com a compressão dos dois maiores partidos (socialista e republicano, ou gaulista) que dominaram durante meio século um sistema quase perfeito de alternância. Quando um estava no poder, o outro chefiava a oposição. Desta vez, foram ambos afastados da segunda volta, o que corresponde a uma situação inédita.

 

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O eleitorado está agora dividido em quatro grandes blocos, todos semelhantes: a esquerda, o centro, a direita e a extrema-direita, tendo passado à segunda volta os representantes do segundo e do quarto. Marine Le Pen é a candidata da ruptura e do protesto, mas também da oposição ao consenso europeu; Emmanuel Macron representa a ortodoxia europeia e concorre prometendo reformas de inspiração liberal. Independentemente do vencedor, a França está agora mais à direita e o presidente terá dificuldade em reunir uma maioria nas legislativas, que se realizam um mês depois da segunda volta. Para já, os dois partidos derrotados vão aconselhar o voto em Macron, mas não têm grande interesse em que ele consiga uma maioria demasiado expressiva, apenas a suficiente.

 

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O discurso de Le Pen já não é propriamente de extrema-direita, mas populista: a candidata da Frente Nacional apoderou-se dos temas preciosos da esquerda radical, nomeadamente contestando o liberalismo financeiro e os seus efeitos no encerramento de indústrias e na destruição de empregos. Ela diz-se a candidata do povo e a sua mensagem será simples: o adversário é um privilegiado e ex-banqueiro; o modelo económico liberal, associado à globalização descontrolada, está na base do declínio da França e da pobreza crescente de muitos eleitores, sem perspectivas de emprego ou de progresso social num dos países mais ricos do mundo. A intenção é conseguir que a esquerda se abstenha, mas Le Pen terá de atrair o voto da direita (difícil) e não pode abandonar o tradicional discurso nacionalista do seu partido. Sem grandes hipóteses de vencer o rival, a candidata tentará tornar-se a líder da oposição em França, levando a FN a maior partido.

 

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Emmanuel Macron é o quase inevitável vencedor, mas já cometeu o erro de fazer um discurso de vitória na primeira volta que mais parecia o discurso de vitória na segunda volta. Macron representa a última chance de se fazerem as reformas de que o país necessita, mas não terá tarefa fácil, devido à falta de experiência e à ausência de máquina política: o seu movimento é uma espécie de ‘albergue espanhol‘ que deverá incluir socialistas, centristas e republicanos. Quando for eleito, Macron vai reforçar o eixo Paris-Berlim, garantindo à partida a hostilidade da Frente Nacional e dos partidos esquerdistas que resultarem da insurreição protagonizada pelo quarto classificado na primeira volta, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu estilhaçar o PS. As duas rebeliões (à direita e à esquerda) vão comprimir ainda mais o bloco central que se está a formar em torno do provável novo presidente.

 

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Estas eleições revelaram a enorme desconfiança dos franceses em relação à Europa, da ordem de 45% do eleitorado, e o profundo descontentamento de franjas importantes da população. Estas pessoas, pertencentes ao que antes se chamavam 'as classes trabalhadoras', sentem-se inseguras e desprezadas; já não falam a mesma linguagem das elites e da classe média, grupos que parecem viver numa bolha de esplendor indiferente à sorte destes perdedores. A clivagem atingiu patamares alarmantes e promete reaparecer em futuras votações, mas também na discussão política (uma paixão francesa) ou ainda em protestos de rua. Poderá ainda agravar-se o clima de insegurança que resulte de eventuais atentados terroristas. O sistema político está paralisado e não favorece um processo coerente de reformas. Estamos provavelmente a assistir ao estertor da Vª República, que foi criada para estadistas da dimensão do general De Gaulle, mas que não poderá suportar um quarto episódio consecutivo de um presidente fraco no Eliseu.

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O futuro da esquerda

por Luís Naves, em 19.04.17

Torna-se cada vez mais evidente a divisão central da esquerda: de um lado, está o governo, que defende e diz aplicar a ortodoxia europeia; do outro, Bloco e PCP, que suportam o governo e que, embora calados no essencial, são ideologicamente contrários a essa ortodoxia. O problema não é um exclusivo nacional e pode ser encontrado, em todo o seu esplendor, nas eleições presidenciais francesas. Segundo as sondagens, o voto socialista divide-se ali em três interpretações sobre o cumprimento de metas europeias de despesa pública, dívida e reformas estruturais. Muitos dos eleitores socialistas que em 2012 deram a vitória a François Hollande deverão votar em Emmanuel Macron, defensor do Tratado Orçamental. O candidato oficial do PS francês, Benoit Hamon, que quer regras europeias mais suaves, aparece entretanto nas sondagens com uma votação residual que poderá resultar em forte humilhação para o partido. Outra parte substancial do eleitorado socialista irá para o candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon, um populista que contesta as regras de Bruxelas e surgiu nesta campanha a criticar as elites. A primeira volta das eleições francesas pode ser o modelo do futuro da esquerda portuguesa (veja-se como Hamon tentou fazer a ‘geringonça‘ e não conseguiu convencer Mélenchon a desistir). Na política caseira, não será possível manter por muito mais tempo a ficção de que se é contra a ortodoxia europeia, enquanto se elogia o rigor dos orçamentos e o cumprimento dessas regras. A narrativa de que vão lá bater o pé aos europeus é patética e a extrema-esquerda pode escolher o momento em que assumirá a sua oposição a uma política que considera ser a verdadeira calamidade. A táctica é efémera e muda conforme as oportunidades: se o governo de Costa falhar como fracassou Hollande, não terá desculpas, e o PS enfrentará uma ameaça existencial que pode ser semelhante à de um partido, o PS francês, que sempre imitou.

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Uma crise sistémica é mais ou menos isto...

por Luís Naves, em 17.04.17

A aparente falência do sistema após a crise de 2008 está a deixar marcas na política e criou no eleitorado um sentimento de profunda desilusão, até de cinismo, em relação à qualidade das suas elites. O fenómeno é visível em vários países e não tardará a chegar a Portugal. O facto é que, nos últimos vinte anos, os poderosos mentiram de várias maneiras: os banqueiros assaltaram os bancos, os partidos dedicaram-se à intriga, o bom empresário era aquele que despedia, os intelectuais escreveram sempre as mesmas coisas inócuas e prudentes, as leis não foram iguais para todos e a opinião do povo foi ignorada ou desprezada, conforme fosse conveniente para os rituais democráticos das consultas regulares. A vaga de populismo que resulta deste vapor acumulado começa agora a alarmar as oligarquias. Em França, somadas as intenções de voto dos candidatos presidenciais que defendem a ruptura, encontramos a extraordinária proporção de 45%. Os restantes candidatos prometem, no mínimo, fazer reformas. É certo que as sondagens devem ser interpretadas com cautela, já que 36% dos eleitores que vão votar decidirão à boca das urnas, mas isso apenas indica que o voto de protesto pode ser pior do que se imagina. É cada dia mais óbvio que estamos a viver uma mudança sem paralelo, pelo menos no tempo de uma geração: vemos o apagamento dos partidos tradicionais, a contestação radical do modelo económico triunfante nos anos 80 e do multiculturalismo que há 40 anos domina todo o pensamento, a ponto de se ter tornado uma ideologia fraca, mesmo assim quase indiscutível, que criou a sua própria linguagem repleta de reticências e de eufemismo.

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Corrida a quatro

por Luís Naves, em 06.04.17

Faltam três semanas para a primeira volta das presidenciais francesas e, tendo em conta a elevada proporção de indecisos, as sondagens devem ser lidas com um grão de sal (no mínimo), mas o facto é que dizem todas mais ou menos o mesmo: o jogo não está decidido e há uma mudança na recta final. Os debates na televisão podem ter sido importantes, pelo menos no caso de Jean-Luc Mélenchon, candidato radical de esquerda, e de François Fillon, de centro-direita, que parecem ter beneficiado nos confrontos. Ambos estão a subir nas sondagens, embora ainda na zona de exclusão da segunda volta.

Tudo indica que existe uma relação entre o voto em Mélenchon e o voto no candidato socialista, Benoit Hamon. Quando um sobe, o outro desce na proporção equivalente. Se olharmos para os inquéritos, verificamos que a soma dos dois é consistente, em torno dos 25 ou 26% das intenções de voto. Sendo assim, um socialista que considere o seu candidato derrotado, tenderá a votar útil, ou seja, no candidato mais semelhante ao seu. Mélenchon tem, assim, boas hipóteses de atingir 22-23%.

O mesmo raciocínio pode ser usado para François Fillon e Emmanuel Macron. O republicano e o centrista disputam a votação moderada, sobretudo na direita, já que Macron parece ter a preferência dos partidos centristas, que são pequenos, e dos socialistas moderados (o PS está dividido). Durante semanas, Macron atraiu o voto de republicanos desiludidos por causa do escândalo dos empregos fictícios, mas o facto é que este eleitorado não ficou convencido e não haverá voto útil. A soma dos dois candidatos é consistente, em torno de 42-43%, sendo admissível que a coisa se divida em duas metades, algo como 21%, ou um pouco mais.

O terceiro bloco de votos escolhe Marine Le Pen e desceu ligeiramente por causa dos debates, mas este eleitorado está mais do que convencido. A candidata terá, na pior das hipóteses, 22 ou 23%. Tendo em conta as margens de erro, a admitir a transferência de votos no eleitorado de esquerda e a recuperação por Fillon dos republicanos que Macron não convenceu, é fácil admitir que qualquer um destes quatro candidatos pode seguir para a segunda volta, incluindo-se aqui o filme de terror de um eventual duelo entre Mélenchon e Le Pen, que daria à França a certeza absoluta de eleger um péssimo presidente.

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Muita areia para a nossa camioneta

por Luís Naves, em 07.03.17

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Ontem à noite, ouvi o comentador Miguel Sousa Tavares fazer um duro ataque à Hungria de Viktor Orbán. O jornalista falava sobre a discussão do futuro da Europa e, sem motivo óbvio, começou a desancar nos húngaros, misturando alhos com bugalhos. Não vou citar entre aspas, mas a ideia era mais ou menos esta: a Hungria não cumpre os valores europeus, logo, coloca-se a questão: o que é que estamos a fazer numa Europa que mantém gente desta?

Em relação à discussão sobre o futuro da Europa, ainda não ouvi um único membro das elites intelectuais ou políticas a dizer com clareza o que deve Portugal defender. Miguel Sousa Tavares também parece não ter uma única ideia sobre isso, limitando-se a repetir a beatice nunca definida dos “valores europeus”. Afinal, o que são estes valores europeus? O que distingue a Europa do resto? Bem, a Europa não seria o que é se não tivesse cristianismo, capitalismo, a ideia do primado da lei, a diversidade, o racionalismo, separação de poderes e resistência militante à unificação política ou às tiranias. Ora, os países de Visegrado, que estão a ser tão vilipendiados, apresentam um plano baseado em alguns destes valores, nomeadamente a resistência ao federalismo, devolução de poderes aos parlamentos nacionais e criação de uma união de nações que permita manter o mercado único. Isso corresponde mais ou menos ao cenário dois do Livro Branco, que Bruxelas, obedecendo a Berlim, recusa à partida.

Podia tentar explicar aqui que a Alemanha quer mais federalismo, que a França (dos partidos tradicionais) parece defender uma tese de Europa a várias velocidades, que Portugal não tem opinião que se veja, que cresce a fractura entre pequenos e grandes, com a Polónia excluída da reunião de Versalhes e a juntar-se aos primeiros, até a liderar a rebelião. A Polónia, aliás, tem um governo conservador, católico, e o cristianismo é um dos valores europeus que pretende incluir na discussão, algo que franceses e alemães recusam. A equação sobre o futuro da Europa tem muitas incógnitas que complicam os cálculos nacionais: o papel da Rússia e a evolução da mini-Guerra Fria, o futuro da NATO e o aumento dos orçamentos militares, a velocidade a que as economias estão a sair da crise, a eventual não-sobrevivência da zona euro, os vários cenários de Brexit, a forma como os movimentos populistas podem moldar as decisões.

A reacção fácil a estas complicações é dizer que não queremos saber nada disto e que os eleitores estão errados em todo o lado. Falar destas coisas em Portugal começa a ser inútil, pois no comentário oficial dos meios de comunicação vai triunfando o velho preceito português de que a Europa é demasiado complicada para nós. O melhor é seguirmos o caminho das ilusões ultramontanas, arranjando uma desculpa qualquer, dizendo mal dos vizinhos, a bater no peito e a gritar que somos os maiores e, claro, antigos onde os outros são novos, que não nos aborreçam com assuntos.

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Europa, Europa

por Luís Naves, em 03.03.17

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A Comissão Europeia (o seu presidente, Jean-Claude Juncker) publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. É um relatório muito relevante e recomendo a sua leitura. Infelizmente, os dirigentes que levaram a Europa a uma situação periclitante são os mesmos que querem agora controlar o debate sobre o que deve acontecer dentro de nove anos, questão que seria conveniente deixar para a próxima geração de políticos.

No documento do presidente da Comissão são incluídos cinco cenários de futuro: um de continuidade (como se fosse possível); outro de recuo para o mercado único (defendido pelos britânicos, está excluído pelo Brexit); o terceiro, de avanço mais rápido para uma vanguarda de países (possível); o quarto, visando a definição de ambições e o reforço da integração nesse núcleo central de problemas; o quinto, claramente federalista, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, que lhe dará mais poder, do qual se pode recuar para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública. Os outros dois cenários estão lá só para decoração.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, o resultado é fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE manterá o exclusivo dos acordos comerciais e terá normas europeias nas áreas onde estas ainda não existam (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência comum para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento da UE será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

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Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 21.02.17

 

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Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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A Carochinha e o João Ratão

por Luís Naves, em 24.01.17

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Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Ao mesmo tempo, o líder chinês, que comanda o Partido Comunista, é um generoso defensor das liberdades. Estas histórias da carochinha são defendidas pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

Talvez seja possível uma explicação alternativa da realidade: os eleitores estão a votar contra as elites que falharam durante a crise e estas tendem a defender o statu quo. Os eleitores têm memória, concordam com tarifas sobre carros importados do México porque esses veículos são fabricados por multinacionais que receberam subsídios para evitar a bancarrota, mas que usaram o dinheiro para despedir milhares de trabalhadores e transplantar as fábricas para o México. A administração Obama salvou bancos do colapso, mas ninguém salvou do colapso milhões de devedores americanos que perderam as suas casas e empregos, que conseguiram trabalho precário e com salários inferiores (com sorte, pois há sempre um ilegal que aceita metade do preço e que remédio tem ele, pois se levantar cabelo é denunciado e recambiado). Na Europa, aconteceu algo de semelhante: a finança foi salva, as dívidas dos Estados aliviadas, mas ninguém perdoou um tostão aos brancos pouco qualificados, que viram com alarme a crise migratória, pois os refugiados nunca são instalados em bairros de ricos.

É isto que explica a insurreição do eleitorado e a substituição das elites, mas esse processo é tratado na Imprensa como se fosse o início da Terceira Guerra Mundial. Nas eleições europeias que se aproximam haverá dois tipos de candidatos: liberais dos partidos centristas e críticos do liberalismo, de esquerda e direita. Nesse aspecto, Trump tem semelhanças com Bernie Sanders, que se tivesse ganho as eleições estaria a acabar com os mesmos tratados comerciais, sob o estrondoso aplauso dos meios de comunicação que arrasam o presidente proteccionista e isolacionista de direita.

Em 2017, nas eleições europeias, haverá cordões sanitários para impedir a vitória das formações de extrema-direita, mas as democracias não podem eternamente recusar-se a ouvir as razões de queixa dos perdedores do sistema, ou então devem retirar-lhes o direito de voto. Em Portugal, claro, onde a política é original (ou atrasada no tempo, não sei), o cordão sanitário, aqui chamado geringonça, já serviu para impedir o centro-direita de governar, para aplauso unânime dos que não estão a ver o filme.

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Demagogos e populistas

por Luís Naves, em 13.12.16

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A ascensão dos populismos escapou a muitos autores e, pelo menos aqui na parvónia, surgem agora opiniões que demonstram perplexidade em relação às recentes votações no Reino Unido, EUA, Itália ou Áustria, como se a demagogia fosse um fenómeno desconhecido ou inédito nos países democráticos. Daí a importância deste texto de Rui Ramos, que tenta ir um pouco mais fundo na análise das mudanças em curso.

Não correram no passado rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror aos homens-fortes e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites fracas, que falharam em tudo na última década, querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação? Os comentadores acham que não é preciso mudar nada, mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política?

Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores: pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade. Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.

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Westworld e a complexidade

por Luís Naves, em 06.12.16

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A série Westworld, cuja primeira temporada terminou ontem, não é apenas um clássico da televisão, mas uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Na televisão do futuro, existirá um antes e um depois de Westworld, pois atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver: não haverá duas opiniões iguais sobre os episódios da primeira temporada, nem será dada por duas pessoas diferentes a mesma importância a informações que, pelo menos na aparência, nos foram proporcionadas como verdadeiras. Nunca uma série de televisão tentou ir tão longe na liberdade concedida a interpretações da história, enigmas narrativos ou ambiguidade das personagens.

A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, destino, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro. Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram claramente que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma extremamente cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, (Dolores deixava sempre cair a lata de conserva nas mesmas circunstâncias), com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio.

Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passámos a funcionar como os turistas, estávamos a ver o que acontecia a máquinas programadas, e não tínhamos a mesma sensação de horror pela violência que lhes caía em cima. A nudez dos robôs nunca foi erotismo, mas vulnerabilidade. Na prática, os autores da série conseguiram manipular os espectadores criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, que já transformou pessoas cultas em nazis homicidas, aderimos facilmente à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas. Não haja dúvida: estivemos do lado das pessoas, apesar da ganância e maldade que estas manifestaram.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade que define o humano, a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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A revolta do rebanho

por Luís Naves, em 29.11.16

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Um pouco por todo o Ocidente, alastram fenómenos de protesto eleitoral que podíamos definir como ‘voto puta-que-os-pariu’. Em consequência, no prazo de um ano, a Europa será um lugar muito diferente, com novas lideranças na maioria dos países, porventura à excepção da Alemanha, que foi o país que menos sofreu na pele os efeitos da grande recessão de 2008. Na União Europeia, está em curso uma revolução política ou, no mínimo, uma grande transformação nas maquinarias da sociedade.

 

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Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. Os intelectuais excederam-se no duplo critério das suas interpretações da realidade: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiaram os feitos de Fidel acharia tolerável viver mais do que uma semana em Cuba.

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias.

Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com o tempo do fascismo e comunismo, e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados que desembarcarem amanhã nas nossas costas.

 

2

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados quando votam nos movimentos ‘puta-que-os-pariu’ e vão continuar a votar em formas de protesto semelhantes, pelo menos enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança que têm em relação ao futuro.

As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não queira discutir racionalmente o sismo social em curso ou os erros que foram cometidos no ciclo político que agora encerra. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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As deportações de Obama

por Luís Naves, em 15.11.16

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O presidente eleito dos Estados Unidos anunciou numa entrevista que ia deportar dois a três milhões de imigrantes ilegais e logo se ouviram na imprensa nacional as inevitáveis comparações com o fascismo dos anos 30. Ninguém fez uma simples pesquisa sobre a realidade, pois poderia concluir facilmente que durante a administração Obama foram deportados 2,5 milhões de imigrantes ilegais. A notícia é que Trump pretende acelerar as deportações, aumentar o número anual em qualquer coisa como um terço, para poder atingir o valor prometido, mas não fará nada de original.

As comparações com os anos 30 são absurdas e, no fundo, uma forma de banalizar o horror do totalitarismo. Os números da Grande Depressão não têm semelhança com os da Grande Recessão de 2008. Passados oito anos desde o início do processo, o desemprego na América é agora de 4,9%; em 1938, era de quase 20%. Em todos os indicadores, as duas histórias são incomparáveis. No plano político, nem se fala: na nossa realidade não há milhões de veteranos sobreviventes das trincheiras da I Guerra Mundial nem rancores de vencidos, não há nacionalismo histérico nem recuo drástico do comércio mundial. A destruição e morte de vários regimes democráticos nos anos 30 não tem explicação fácil, mas nessa época as máquinas de propaganda fascista e comunista prometiam futuros brilhantes que, hoje em dia, poderão no máximo convencer franjas lunáticas.

É caso para nos interrogarmos para que serve esta narrativa, ensaiada a propósito da vitória de Trump, de que vem aí um novo fascismo e se prepara uma perigosa vaga populista na Europa? Populismo, aliás, que nunca é definido, pois a palavra serve apenas para rótulo. Segundo parece, os líderes sentem que o chão lhes está a fugir debaixo dos pés, que o poderoso descontentamento das classes médias implica mudanças na governação e que eles não estão em condições de proporcionar essa mudança. O liberalismo falhou na economia e a esquerda ficou refém da cultura politicamente correcta dominante nas academias, nunca tendo compreendido as reservas que o seu eleitorado de trabalhadores colocava às políticas de imigração ilimitada.

Vem aí uma vaga de votações em partidos conservadores e nacionalistas, também de populistas que vieram da extrema-direita, mas que não são iguais aos primeiros, como nos querem fazer crer. Façam o favor de dar alguma atenção aos discursos de Theresa May. O processo de erosão dos partidos tradicionais do centro já se verifica há vários anos, deverá agora acelerar, pois a fórmula de vitória de Trump está ao alcance de muitos grupos europeus.

Isto devia ser mais ou menos claro, mas ouvir o ministro português dos Negócios Estrangeiros dizer que os valores europeus não são compatíveis com deportações em massa só pode causar perplexidade. Onde estavam os protestos da diplomacia portuguesa em relação às deportações de Obama? E que dizer do acordo entre UE e Turquia, que prevê a devolução de refugiados à procedência? O ministro discordou? 

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Publique-se a lenda

por Luís Naves, em 06.11.16

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A lenda é mais ou menos esta, de facto. Não vou comentar todas as coisas de que discordo no texto de Filipe Roque, mas lembro apenas que a mitologia dos conservadores húngaros se baseia na revolução de 1956 e, portanto, a amálgama feita pelo autor contém indícios de uma história mal contada. Sei que é inútil, mas também não posso deixar de insistir num ponto que abala a confortável narrativa de estarmos perante um poder autoritário na Hungria: o partido dominante, Fidesz, é conservador e democrata-cristão, europeísta, com um líder carismático (excelente orador político), que venceu as últimas oito eleições realizadas no País, algumas de forma arrasadora: todas as três europeias (2004, 2009 e 2014); as locais (2006, 2010 e 2014); e as parlamentares de 2010 e 2014, a primeira destas com maioria constitucional.

Como se pode perceber neste comunicado, a narrativa do texto de Filipe Roque sobre o perigo que o fecho de um jornal representa para a liberdade de imprensa passa ao lado de factos importantes (leiam a versão inglesa do comunicado, que está logo abaixo da versão húngara). O jornal Népszbadság perdeu 74% da circulação em dez anos e já só vendia à volta de 30 mil exemplares diários quando a sua produção foi suspensa; repare-se que os proprietários austríacos admitem o regresso do título. Na realidade, o jornal perdera grande parte dos seus melhores jornalistas e também o apoio do próprio Partido Socialista (MSZP, na oposição). No início da década de 2000, o Népszabadság vendera mais de 200 mil exemplares diários.

A decisão da empresa austríaca que adquiriu o grupo não tem, desta forma, qualquer relação com uma suposta intenção governamental de “silenciar os canais de comunicação independentes”. Tratou-se de uma decisão empresarial, pois o jornal acumulara um prejuízo de 5 mil milhões de forint (16 milhões de euros); o grupo manterá os seus 12 jornais regionais e mais de 1100 trabalhadores; esses jornais regionais são responsáveis por três quartos do negócio (receitas de 80 milhões de euros). Repare-se ainda como a compra é recente e como o novo grupo austro-húngaro terá a sede no edifício do defunto jornal, edifício certamente valioso. Convém não esquecer que, em 1956, o Népszbadság era o órgão oficial do partido único que sufocou a rebelião popular húngara. A imagem em cima mostra a destruição de exemplares da publicação durante a revolta. Em democracia, perdeu os seus leitores e os seus melhores jornalistas, mas por culpa própria. É sempre uma pena que um jornal morra (e neste caso, o encerramento final, sendo provável, nem é garantido), mas os jornais dependem dos leitores e não podem vender gato por lebre ou deixar que os factos sejam ignorados por causa de uma linda história.

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Grandes mudanças

por Luís Naves, em 30.10.16

O nosso mundo é dominado por dois fenómenos que correm em paralelo, a ruptura e a dessacralização. Vemos a tendência da ruptura em notícias diárias sobre rebeliões populistas nas democracias, em delirantes projectos para criar regimes teocráticos ou ainda nas cenas caóticas envolvendo migrações em massa: no fundo, as sociedades contemporâneas não têm soluções para as ‘selvas’, para o ocasional demagogo ou para os delírios homicidas dos fanáticos. Todos estes exemplos estão ligados a mundos em extinção, que não têm resposta para o que aí vem.

A dessacralização é menos óbvia, mas está presente na linguagem politicamente correcta que cada vez mais trava as discussões, está também presente na forma algo estranha como instituições conservadoras acompanham os tempos (tentando adiar o seu declínio) surpreendendo os próprios críticos com a ousadia das inovações. Os papas da literatura, para citar um exemplo recente, guardiães do templo, atribuíram em dois anos consecutivos o Prémio Nobel da Literatura a um trovador e a uma repórter, dois excelentes exemplos da cultura popular.

Pode ser menos evidente, mas esta cultura popular vive dias revolucionários, a dessacralização garante-lhe um lugar proeminente na linha do tempo, para além de existir uma nova e agressiva corrida à criação de impérios que vão dominar ainda mais o seu futuro. Por razões tecnológicas, não haverá sobrevivência para quem não tiver massa crítica. O que se aplica, aliás, ao jornalismo ou à literatura: acabou a era dos autores obscuros que vendiam meia dúzia de exemplares e iam ganhando lentamente a fama; hoje, sem garantir escala, ninguém é publicado. Assim será com a televisão, com o cinema. Os países ocuparão pequenos nichos de exotismo. Isto aplica-se a todas as elites que dominaram o passado, até nas descobertas científicas, que dependem do dinheiro para experiências complexas.

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Tudo baralhado outra vez

por Luís Naves, em 29.10.16

Vivemos numa época dominada pela ideia imprecisa de que ninguém controla os acontecimentos. As eleições americanas, onde a oligarquia parece ter perdido o pé, é um bom exemplo deste triunfo da imprevisibilidade. O caminho que parecia fácil para a vitória de Hillary Clinton transformou-se ontem num gigantesco ponto de interrogação. O anúncio de que o FBI investiga novos e-mails do servidor particular que a candidata manteve enquanto secretária de Estado fez cair a bolsa de Nova Iorque e desencadeou um clima de pânico entre as elites políticas. A nove dias das eleições presidenciais, a democracia americana mergulhou de novo na irrealidade. Já não bastavam os sinais de chapelada eleitoral, a retórica delirante, a argumentação absurda, as manipulações mediáticas; na recta final da corrida surge um escândalo que ameaça mudar a opção de muitos americanos que iam votar de forma relutante na candidata e agora talvez não lhe concedam o benefício da dúvida.

Ninguém em seu perfeito juízo pode dizer como é que isto acaba, uma coisa é certa: seja quem for o vencedor das eleições, sabemos que o próximo presidente dos EUA será uma criatura detestada por mais de metade do país, talvez o mais isolado presidente da história americana, com grandes hipóteses de nem sequer concluir o primeiro mandato. A insurreição eleitoral que Trump cavalgou é mais funda do que parece, tem a ver com um poderoso descontentamento em relação às elites, mas não ultrapassa um terço da população. Se vencesse por causa da abstenção, Trump teria a hostilidade dos outros dois terços da América. Em condições normais, os democratas deviam ganhar com facilidade, mas foi escolhida uma candidata com demasiados esqueletos no armário, que defraudou eleitores entusiasmados com a rebelião populista de Bernie Sanders. Se sobreviver aos próximos dias, Clinton terá a presidência, mas sem direito a estado de graça, pois é perseguida por escândalos e já perdeu de vez a benevolência dos compatriotas.

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Uma pedra no bolso

por Luís Naves, em 13.09.16

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O jornalismo político português está de tal forma habituado à mentira dos políticos que reagiu com uma pedra no bolso a um momento de sinceridade do ministro das Finanças, criticando o facto de Mário Centeno aceitar uma pergunta sobre o eventual segundo resgate ao país. Claro que evitar este segundo resgate é a prioridade do ministro, sendo evidente que este cenário nunca deixou de existir. Centeno limitou-se a dizer a verdade e não tem culpa dos títulos utilizados.

É bem mais preocupante para o país esta entrevista do ministro das finanças finlandês, Petteri Orpo, com criticas às instituições europeias por não haver sanções a Portugal. As duas entrevistas estão relacionadas. As sanções resultam do incumprimento das metas do défice, fracasso que no caso português é grave devido ao montante da dívida pública. Sem a disciplina das sanções, o euro não tem credibilidade. Além disso, Portugal já recusou medidas adicionais recomendadas pelos parceiros europeus, alegando que conseguirá atingir a meta de 2,5% de défice orçamental em 2016.

Se o Governo de António Costa conseguir uma execução orçamental brilhante, atingindo os objectivos europeus, cumprindo promessas eleitorais e o acordo com os partidos de esquerda, então a sua estratégia funcionou e o país evita um pedido de ajuda. Afinal, havia alternativa.

O falhanço atira-nos de cabeça na direcção do segundo resgate: as contas públicas ficavam mais longe do valor negociado para 2017, haveria exigência de medidas adicionais (cortes na despesa e impostos), provável conflito com a UE, sanções automáticas, desconfiança dos mercados, fim das compras do BCE, taxas de juro a subir, incapacidade de Portugal se financiar, degradação da notação da dívida, aflição nos bancos, num ciclo capaz de se auto-alimentar como uma bola de neve. Os partidos de esquerda não poderiam aceitar cortes de 2017 a que se somava a parcela da diferença, no orçamento anterior, entre metas e realidade. Contas erradas darão um primeiro trimestre de 2017 infernal, à semelhança do que aconteceu em 2011, mas esta nova crise teria um péssimo contexto, com o avanço de partidos de protesto em toda a Europa. Se o défice for muito superior a 2,5%, game over, pode ser necessário pedir ajuda externa.

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A sedução populista

por Luís Naves, em 04.09.16

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A CDU da chanceler Angela Merkel sofreu uma pesada derrota no Estado de Mecklenburgo-Pomerânia, ficando atrás da AfD, Alternativa para a Alemanha, partido populista e anti-imigração que nas últimas eleições federais, em 2013, ficara abaixo do limiar de 5%. Independentemente dos aspectos da política interna deste pequeno Estado alemão, a votação terá leituras complexas e sugere que a questão das migrações se tornou politicamente tóxica.

Os democratas-cristãos estão em plena hemorragia de votos, como se pode ver neste gráfico, onde são aparentes as transferências directas da CDU para a AfD. No último ano, o partido de Merkel perdeu sete a oito pontos percentuais, andando agora pelos 33%; a AfD ganhou algo de semelhante e estará acima de 10%. A maior incógnita é saber em que ponto do declínio eleitoral os barões da CDU-CSU decidem livrar-se da líder ou se esperam até às eleições federais de Outubro do próximo ano.

 

Os líderes que não escutam os eleitores estão condenados a perder eleições. A rebelião populista que alastra nas democracias ocidentais tem muitas formas, mas elementos comuns: estes eleitores desconfiam dos banqueiros, dos meios de comunicação e dos políticos, recusam novos acordos de liberalização do comércio, são vagamente anti-americanos, gostam de líderes carismáticos de língua afiada, detestam a conversa da abrangência, têm urticária às burocracias não eleitas, querem travar a imigração, sobretudo a de muçulmanos. Como mostrou o Brexit, a resposta das elites não tem sido eficaz. Apesar de serem diabolizados, estes movimentos de protesto continuam a cavalgar a onda de descontentamento gerada pela crise de 2008.

A insegurança económica é hoje fortíssima nos países ocidentais e os perdedores da globalização recusam aceitar a política do costume. Objectivamente, a vida das pessoas mais pobres piorou: nos bairros degradados há má convivência, nas fábricas mecanizadas menos empregos. O terrorismo causa alta insegurança, os ricos enriqueceram e vivem em condomínios fechados, a classe média perdeu as ilusões e os trabalhadores são sensíveis à ideia de que os seus rendimentos estagnaram por causa da imigração em massa. As elites fracassaram. Onde havia empresários paternalistas que cuidavam dos seus trabalhadores, agora há gestores cuja capacidade é medida em função do número de colaboradores despedidos. A imprensa esqueceu-se de servir os leitores e não faz qualquer esforço para compreender o descontentamento popular, não perdendo uma oportunidade para definir estes votantes como xenófobos e de extrema-direita. Os intelectuais parecem ter desistido de descodificar o mundo, têm medo de dizer o que pensam e adoptaram linguagem politicamente correcta, que nada explica. Os políticos talvez não tenham verdadeiras soluções ou não avaliam a poderosa sedução destas ideias.

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Não basta inventar rótulos

por Luís Naves, em 02.09.16

Políticos sem argumentos novos começam a usar o rótulo de ‘populismo‘ para atacar as ideias dos adversários. Como está mal definida, sendo repetida em múltiplas situações, esta acusação tenta formar uma amálgama de tudo o que vai desde extrema-direita ultra-nacionalista até às propostas mais lunáticas da extrema-esquerda. Enfim, ao tentar apanhar tudo, a palavra acaba por não definir coisa alguma.

As propostas populistas podem ser consideradas reacções ao fracasso do também mal definido neo-liberalismo que dominou as útimas três décadas. O Brexit foi evidente consequência do movimento populista, mas Donald Trump será um exemplo ainda mais certeiro. Que padrões encontramos? Os seguintes: violento discurso anti-elites; defesa dos perdedores da globalização; nacionalismo nostálgico de um passado mítico; a ideia de que a comunidade precisa de regressar às suas raízes perdidas; contestação do capitalismo ou, no mínimo, da ganância das grandes empresas sem rosto; recusa de mais poderes para organizações inter-governamentais não eleitas; rejeição da imigração em massa, devido ao efeito negativo no rendimento dos mais pobres, mas também devido à insegurança gerada pelo terrorismo islamita.

A grande crise foi provocada pelo fracasso das elites e pelo esgotamento de um modelo de globalização económica que não trouxe benefícios para vastos grupos da população. Por isso, nas sociedades industrializadas, será difícil para um político ganhar eleições sem adoptar algumas destas interpretações da realidade. Os elitistas e pragmáticos que defendem o statu quo terão dificuldade em encontrar argumentos contra a plataforma populista. Em resumo, se insistirem na rejeição pura e simples desta rebelião, os partidos tradicionais não poderão adoptar a sua parte lúcida. Essa estratégia separa-os irremediavelmente do eleitorado, na certeza de que uma alternativa ocupará o vazio. Aliás, isso já acontece: os partidos extremistas estão a tomar conta do descontentamento popular, assumem-se como os seus campeões e continuam a subir nas intenções de voto, perante a surdez e a impotência dos partidos tradicionais democratas-cristãos, liberais e social-democratas, que não conseguem mudar de discurso.

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Comparações superficiais

por Luís Naves, em 01.09.16

O PSD quer regressar ao poder usando este tipo de argumentação? Mais vale ir tirando o cavalinho da chuva. A comparação feita pelo ex-ministro Poiares Maduro mistura alhos com bugalhos: a Grécia está sob resgate e tem um governo com ‘populistas’ não apenas da esquerda, mas que incluem um partido de direita nacionalista. Essa geringonça grega cumpre um programa de ajustamento negociado com as instituições europeias. Qual é a diferença entre um governo de centro-direita (aquele a que pertenceu o ex-ministro Poiares Maduro) e um governo ‘populista de esquerda-direita’, quando ambos cumprem com rigor um programa de ajustamento impopular imposto pela mesma troika? A diferença é nula.

A comparação do governo Costa com os casos da Polónia e Hungria pode parecer muito inteligente, mas também é enganadora. Na Europa Central não há geringonças, mas governos nacionalistas estáveis que tentam negociar uma nova relação com a Europa, após uma transição difícil que prejudicou as classes trabalhadoras, deixando ali um lastro de descontentamento que nenhuma análise pode ignorar.

O chamado ‘populismo húngaro’ venceu todas as eleições desde 2008 (europeias, regionais, etc.), incluindo duas legislativas, uma delas com maioria qualificada que permitiu ao partido no poder (Fidesz, conservador) alterar a Constituição. Os ‘populistas húngaros’ talvez mereçam essa designação por fazerem parte do partido popular europeu onde milita o PSD do ex-ministro Poiares Maduro. São populares? Sem dúvida. São populistas? Aceita-se. São comparáveis com a geringonça portuguesa? Quase consigo ouvir as gargalhadas que essa ideia provoca em Budapeste.

Em abono da verdade, há uma semelhança com o ex-governo do próprio Poiares Maduro: os ‘populistas húngaros’ também herdaram uma bancarrota socialista e um programa do FMI, só que mudaram o destinatário da factura, dos contribuintes, trabalhadores e pensionistas para os bancos e rendas excessivas. Foi ‘populista’? Sem dúvida. O resultado é que conseguiram pôr a economia a crescer quase 3% anualmente, reduziram o desemprego de 15% para os actuais 5%, conseguiram investimento externo em larga escala, aumento das exportações, redução de impostos, mantendo inflação baixa, alta qualidade do ensino público gratuito e a universalidade do sistema nacional de saúde. Já saíram do procedimento por défice excessivo e dão-se inclusivamente ao luxo de pagar mais devagarinho a sua dívida pública, para não atingirem tão depressa o nível de 60% do PIB que os obrigaria a entrar na zona euro. Houve ainda um brinde que contrasta com a estratégia da nossa paróquia: a banca era dominada a 90% por instituições estrangeiras, agora é 50% húngara. Nada mau para ‘populistas de direita’. Se Costa fizesse o mesmo...

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A tragédia espanhola

por Luís Naves, em 18.07.16

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Dias de confusão

Era sábado, 18 de Julho de 1936, há 80 anos. As notícias, ainda confusas, começaram a surgir através das agências, indicando que decorria uma sublevação das tropas espanholas em Marrocos. Os jornais levaram vários dias a compreender o que verdadeiramente se passava. Começou assim, pelo menos do ponto de vista da opinião pública portuguesa, uma das mais brutais guerras civis europeias, que duraria três anos. A república espanhola já esperava um golpe das direitas, essa foi mesmo a notícia principal do Diário de Lisboa no dia 16. Era uma questão de tempo antes de haver uma rebelião, mas ninguém se prepara para um conflito prolongado e a guerra civil só foi possível porque o golpe falhou e, de súbito, a Espanha estava dividida em duas zonas, com dois exércitos (enfim, eram três zonas, porque o lado rebelde ocupava dois territórios sem continuidade). Nenhum lado se podia render.

Ao longo da primeira metade do ano de 1936 (o ano da morte de Ricardo Reis), a agitação em Espanha tinha sido tremenda. A 13 de Julho fora assassinado em Madrid um deputado monárquico, Calvo Sotelo, cuja família se refugiou em Portugal, recebida em Lisboa no meio de grande emoção. A figura de maior destaque na estação do Rossio, quando os exilados foram esperar a viúva do deputado e os seus quatro filhos, era indiscutivelmente o general Sanjurjo, infeliz exemplo do homem certo no sítio errado e no momento errado. A liderança da rebelião devia ter sido dele, mas à frente do golpe estavam outros generais, nomeadamente um relativamente desconhecido, Francisco Franco.

Soube-se mais tarde que o Exército Espanhol de Marrocos não teria atravessado o estreito de Gibraltar sem ajuda de uma ponte aérea da aviação da Alemanha nazi e também se sabe hoje que alguns aviões alemães fizeram escala para reabastecimento em território português. Salazar tinha de saber disto: no fundo, ajudou a salvar a rebelião, que esteve à beira de soçobrar naqueles primeiros dias frenéticos, marcados por fuzilamentos sumários dos militares apanhados no lado errado.

 

Acidente em Cascais

A 20 de Julho, Portugal foi palco de um dos episódios cruciais da Guerra Civil de Espanha. O general Sanjurjo, (ao centro na imagem), que vivia exilado no Estoril e era facilmente a figura militar mais prestigiada do lado rebelde, morreu num acidente de aviação que a imprensa portuguesa narrou em reportagens detalhadas. O general tentava chegar a Burgos e embarcou num pequeno avião que, à descolagem, não terá conseguido evitar as árvores no topo da pista de má qualidade, na actual quinta da marinha, em Cascais. O avião caiu, aparentemente por perder a hélice, e o piloto foi projectado da cabina, tendo ficado apenas com ferimentos ligeiros.

O general não teve tanta sorte: ia na parte de trás e levava uma pesada mala (com a farda), que impedia a sua movimentação naquele espaço exíguo. Testemunhas disseram que o avião pareceu levar demasiado peso e não conseguiu, por muito pouco, evitar as árvores, no entanto houve testemunhos contraditórios que não coincidem com esta história plausível, nos quais não se menciona o choque com o arvoredo, mas súbita perda de altitude. Estava um dia esplêndido. O voo para Burgos não apresentava dificuldade e a máquina voara anteriormente sem problemas. O piloto era um dos melhores, mas nunca se apurou se houve erro humano.

O facto é que Sanjurjo não conseguiu sair a tempo do aparelho, ou ficou preso pela mala ou teria ficado contundido na queda, não se sabe. Houve um incêndio, as pessoas que se tinham despedido do general não conseguiram correr a tempo para apagar as chamas. Enfim, Sanjurjo morreu carbonizado.

O Governo português teve dificuldade em demonstrar às autoridades de Madrid que desconhecia em absoluto aquele voo clandestino. O embaraço foi minimizado pela violência das notícias que chegavam de Espanha. Na altura, os rebeldes conspiravam em Lisboa, mas os republicanos tinham a sua presença. Aliás, muitos espanhóis estavam aqui de férias e ficaram retidos durante semanas, antes de conseguirem regressar à respectiva zona. Também havia muitos refugiados que não se metiam em política.

Ao longo da guerra civil de Espanha, Portugal manteria uma relação ambígua com os dois lados do perigoso conflito. Há um exemplo menos famoso dessa ambiguidade: no final do Verão, as autoridades não impediram que se instalassem cerca de mil refugiados num campo do lado de cá da fronteira, nos arredores de Barrancos. Fugiam da brutalidade (das forças marroquinas)  da coluna que acabaria por executar um massacre em Badajoz. No caso de Barrancos, foram todos salvos, transportados de comboio para Lisboa e depois por barco para território republicano, numa altura em que o conflito já era uma matança sem quartel. Houve na altura umas pequenas notícias sobre este episódio, mas foi tudo discreto. Recentemente, foi publicado um livro que conta a história deste campo de refugiados na Herdade da Coitadinha, Contra as Ordens de Salazar, de Pedro Prostes da Fonseca, ajudando a dar maior visibilidade a um tema cuja divulgação tem sido sobretudo académica.

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Anti-europeísmo primário

por Luís Naves, em 14.07.16

Em bombardeamento diário, está a ser criado um clima anti-europeu, com ajuda preciosa do Bloco de Esquerda. Ontem, na TVI 24, a líder do BE, Catarina Martins, voltou a falar em referendo, mas o texto bem estudado patinou quando lhe perguntaram o que aconteceria se a resposta dos eleitores fosse ‘sim‘. Catarina Martins chutou para canto. Na realidade, a resposta seria simples: se Portugal decidisse abandonar a moeda única, as poupanças eram destruídas em poucos dias, os bancos rebentavam, haveria inflação e as dívidas passavam a ser incobráveis, incluindo as hipotecas das nossas habitações. Se Portugal saísse da UE, perdia acesso ao mercado único ou deixava de participar na legislação, perdia os fundos comunitários e tornava-se um país subdesenvolvido.

O referendo é um tigre de papel, mas o BE ganha com esta táctica e sonha com um cenário de vitória do PS e de maioria de esquerda que dispense os comunistas na futura coligação de poder.

Esta entrevista da deputada Mariana Mortágua à revista Sábado pisa na mesma tecla de anti-europeísmo primário: “A União Europeia está a passos da desintegração, está em degradação profunda. Quase em putrefacção”. Será isto apenas desejo confessado, entusiasmo juvenil ou os bloquistas começam a delirar com a própria retórica? As palavras soam bonito, mas a imagem transmitida é falsa. A UE não está em putrefacção nem vai desaparecer na próxima esquina. Um voto em referendo contra o Tratado Orçamental obrigava o País a sair da união. Os Tratados ratificados não se negoceiam em posições de fraqueza, dizer o contrário é ingenuidade ou, então, a intenção desta conversa é outra.

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O que pensam os alemães

por Luís Naves, em 08.07.16

Descontando a inaturável condescendência no tom, este artigo da revista Der Spiegel (em inglês) permite compreender a visão dos governantes alemães em relação ao futuro da Europa depois do Brexit. O autor do texto, Christoph Schult, considera que a saída do Reino Unido apresenta oportunidades para os restantes parceiros e também acredita que haverá “más notícias vindas do Reino Unido”, permitindo acabar com qualquer possível efeito dominó de saídas. Em resumo: não se espere benevolência no divórcio.

Segundo esta visão alemã, o Reino Unido deixa de poder bloquear avanços de integração económica, o que levará a zona euro a um “governo económico”, com um “ministro das Finanças” capaz de controlar “um orçamento independente”. Não percebo a que se refere o autor nesta palavra ‘independente’, mas a ideia de haver cada vez maior controlo sobre os orçamentos nacionais explica a mudança que ocorreu nas últimas semanas em relação às sanções. É provável que os dirigentes europeus decidam agora aplicar os Tratados em todo o seu esplendor, sendo esta uma possível consequência imediata do Brexit. Portugal e Espanha são os países em procedimento por défice excessivo que não conseguiram corrigir os desvios orçamentais, são também os primeiros a cair sob a alçada do maior rigor. A ideia está explícita neste artigo de El País (repare-se na citação entre aspas do comissário português Carlos Moedas, que não encontrei na nossa imprensa; e complete-se a leitura com este texto, que também explica o mecanismo e actualiza a informação).

Regressando a Der Spiegel, é curioso o que se escreve sobre os avanços da integração em política externa e de segurança: quartel-general unificado para missões militares da UE, decisões por maioria na política externa, uma verdadeira força de controlo das fronteiras, além de política comum de asilo, insinua-se também a possibilidade de criar mais sistemas de cooperação reforçada.

Sem o Reino Unido, o equilíbrio de poder muda na União Europeia. A Alemanha vive obcecada com o medo do seu isolamento e tudo fará para reforçar a ligação a França, Itália e Polónia, as três potências com quem tem maior proximidade geográfica e ligações económicas. Não será tarefa fácil: é preciso que Marine Le Pen não vença as presidenciais francesas da Primavera, que o sistema financeiro italiano não entre em colapso e que o grupo de Visegrad liderado pela Polónia modere a sua rebelião em relação ao que fazer na crise migratória. O próximo ano será frenético: Berlim tentará juntar as alianças de que não prescinde, será dura no divórcio com os ingleses e vai acelerar a reparação da zona euro, onde perdem o lugar todos os países que se recusem a cumprir as regras do clube.

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Crónica demasiado pessoal sobre o velho Tempo

por Luís Naves, em 06.07.16

A morte de um jornal não tem a gravidade de uma morte humana, mas é à sua maneira um grande abalo na vida das pessoas e na memória das sociedades. Lembro-me daquelas semanas sombrias, quando O Tempo fechou. Talvez fosse inevitável, mas nunca soube a verdadeira razão do declínio a que assisti. É daquelas coisas que não se esquecem: só se falava do outro jornal que também fechara portas por esses dias, o Diário de Lisboa, e o encerramento de O Tempo era um notícia envergonhada e minúscula, como se tivesse falecido aquele familiar embaraçoso cujo nome não devia ser mencionado. Era ainda um jovem irreflectido, mas julgo que recebi a minha primeira grande lição sobre os dois pesos e duas medidas que regem a política.

Quando entrei em O Tempo, dois anos antes, em 1987, já na rampa inclinada, a redacção era um lugar estranho, juntando jornalistas com ideias diversas, de várias gerações e diferentes pancadas. Não havia facções definidas, nem rivalidades, nem me recordo que houvesse as maldades que depois encontrei em outros ambientes, pelo contrário, existia uma espécie de alegria ingénua e contagiosa. O director e proprietário, Nuno Rocha, era um homem elegante e alto, de sorriso fácil, charmoso e simpático, que tratava toda a gente da mesma maneira. Acho que gostou de uns textos que escrevi à experiência (obrigado, Fernando Sousa, pela oportunidade) e decidiu contratar-me. Entrei na mesma semana em que começou a sua brilhante carreira de jornalista o Pedro Camacho, mas ao contrário desse meu outro amigo, julgo que fui um erro de avaliação de Nuno Rocha, que viu em mim um talento inexistente.

 

A minha vida teria sido diferente

Se não tivesse entrado naquela altura na redacção de O Tempo, tudo para mim teria sido diferente. Em reportagem para o jornal conheci o amor da minha vida, pode parecer pedante ou piroso, mas é a pura verdade: sou um caso raro desse género de acontecimento e tratou-se de circunstância pouco profissional, pois o jornalista não se deve envolver demasiado no assunto que observa, embora não acredite no distanciamento ou no jornalismo que se demite de também sentir o mundo. Como já disse, fui um erro de casting.

Os outros jornalistas daquela redacção anacrónica ensinaram-me quase tudo o que aprendi na profissão que pratiquei durante 25 anos e certamente tentaram transmitir-me muito do que nunca cheguei a entender dela. Eram repórteres experientes e sabiam da minha falta de jeito, mas o Nuno Rocha talvez não se tenha dado conta: na praxe do caloiro (juro, isto é verdade) enviaram-me em reportagem à sede da NATO, em Bruxelas, e escrevi duas páginas de banalidades que encantaram o director. Nessa viagem, só havia craques enviados por outros jornais (lembro-me do Afonso Camões e do Miguel Gaspar); o Fragoso Mendes, do DN, perguntou-me há quanto tempo era jornalista e eu, parvo, disse a verdade, desde a semana passada, e o Fragoso, filosófico: ‘Está tudo doido’. Talvez a loucura possa ser explicada; como a redacção era pequena, escrevíamos sobre tudo e mais alguma coisa. Que melhor escola podia existir?

 

Vítima do Cavaquismo que defendera

Pedro Correia conta nesta belíssima crónica como era a redacção de O Tempo no início dos anos 80 e escreve um belo texto de memória sobre Nuno Rocha, que faleceu ontem, aos 83 anos. Também é muito justa esta evocação assinada por João Cândido da Silva: reconheço imediatamente o retrato de um jornalista que marcou toda uma época. Mas eu tive menos sorte; assisti aos dois últimos anos, de declínio e morte de O Tempo.

 

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As omissões da questão

por Luís Naves, em 05.07.16

Não me lembro de assistir a uma operação de desinformação tão generalizada como a que rodeia a questão das possíveis sanções europeias a Portugal. Os comentadores, analistas, políticos e jornalistas repetem à exaustão as ideias de que as eventuais sanções são uma tremenda injustiça, são ilegais e, a acontecerem, serão culpa do anterior Governo de Passos Coelho, o principal responsável pelo défice de 3,2% que justifica a severidade.

Estas análises têm uma omissão básica. Ao obter um défice orçamental de 3,2%, Portugal continuou sujeito ao chamado procedimento por défice excessivo, que implica a vigilância das contas públicas pelas instituições europeias. Aqui, deixo o  link para um gráfico (em inglês) que explica este complexo mecanismo. Os países envolvidos devem aplicar medidas que conduzam à redução de qualquer desvio orçamental. Este é o problema: os europeus afirmam que há incumprimento, que ele se manterá este ano, as autoridades portuguesas recusam medidas adicionais de correcção do desvio, dizem que cumprem os 2,2%, repetem que não há plano B.

O Tratado Orçamental, que Portugal negociou e ratificou, prevê sanções em caso de não cumprimento de determinadas metas de défice e de redução da dívida. A Comissão Europeia tem a função de impor o cumprimento dos Tratados e recomendar sanções se um determinado país se desviar da trajectória negociada. O Eurogrupo, organismo que reúne os ministros das Finanças da zona euro, pode tomar a decisão política de impor a um país medidas de rectificação*. Se este recusar, aplicam-se os restantes mecanismos do procedimento por défice excessivo, incluindo sanções previstas nos Tratados, que são decididas pelo Conselho Ecofin e aplicadas, seguindo a lei, pela Comissão.

Há vários países em procedimento de défice excessivo, mas só Portugal e Espanha estão na lista das sanções, pois só estes dois se desviaram do rumo de redução que os próprios tinham negociado, no caso português devido a nova estratégia orçamental, no caso espanhol por ter havido um Governo de gestão durante seis meses.

Infelizmente, entre nós, o debate só vê sanções e está a ser tomado pela demagogia. Nos comentários de jornais e televisão, a direita é acusada de crime de traição à Pátria. Também se está a instalar o mito conveniente de que estas decisões são contra o “projecto europeu”, expressão onde cabe tudo e o seu contrário.

 

*O Eurogrupo é um organismo informal cujas decisões são sempre ratificadas pelo Conselho Ecofin de ministros das Finanças da UE. Há o argumento de que o Eurogrupo não existe: o facto é que os mesmos ministros da zona euro têm maioria no Ecofin, que as decisões do primeiro são aceites pelo segundo, com força de lei. Também não colhe o argumento de que as decisões são tomadas por burocratas: simplesmente, não é verdade, todos os ministros são eleitos e representam os respectivos Estados. A decisão não é da Comissão.

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O baixo valor das ambições

por Luís Naves, em 27.06.16

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A rebelião de bárbaros que alastra nos países ocidentais contra as elites políticas não devia surpreender tanto, o que verdadeiramente espanta é que esse mal-estar não seja maior. A crise de 2008 atingiu a vida de milhões de pessoas e foi provocada por erros que ainda não encontraram os seus culpados. Os super-ricos enriqueceram, fugiram aos impostos e estacionaram sem problemas o seu dinheiro em paraísos fiscais. A classe média pagou com língua de palmo: salários mais baixos em termos relativos, aumentos de impostos, serviços públicos degradados. As classes inferiores das sociedades industrializadas consideram-se as mais atingidas, pois enfrentam uma ameaça de extinção semelhante à do fim do Jurássico. Os seus postos de trabalho estão a desaparecer e acreditam que a nova classe de imigrantes deprime ainda mais os salários*.

Como se explica que vários países europeus se tenham endividado em silêncio, durante anos, não cumprindo de forma flagrante as regras da zona monetária a que pertenciam? Sabemos agora como foi o caso português: gastámos fortunas em auto-estradas de que não precisávamos, foram criados interesses especiais que beneficiavam de rendas milionárias quase eternas, os bancos arruinaram-se em negócios de regime e as empresas campeãs nacionais foram estoiradas em aventuras megalómanas. Tudo isto nos foi cuidadosamente escondido em sucessivas eleições onde votámos ingenuamente nos partidos responsáveis.

É menos flagrante, mas na Europa rica instalou-se a mesma sensação de declínio e queda. Os eleitores estão zangados. Muitos deles foram despedidos por serem velhos, não concluíram as suas carreiras e sabem que não vão ter direito a pensões decentes. E pagaram as pensões da geração anterior, com regras vantajosas que não será possível manter. Despedir um pouco antes do final da carreira, eis a melhor forma de resolver o problema das pensões futuras.

Muitos destes eleitores ficarão sem trabalho devido aos avanços tecnológicos e será muito pior com a inteligência artificial. Muitos destes eleitores não terão emprego porque o Estado já não emprega como antigamente. Muitos destes eleitores estão zangados com os resgates pagos com os seus impostos e com os custos crescentes de serviços que, no passado, eram gratuitos. Sobretudo, as pessoas tentam imaginar a sociedade futura e só encontram a parede das ameaças: dos mercados que não elegem, das dívidas que não fizeram, do emprego que será extinto amanhã, do salário que não sobe, dos impostos que nunca descem, dos cortes que não acabam, da mudança que nunca chega. “O valor de um homem é apenas tão elevado como o valor das suas ambições”, escreveu outrora o imperador romano Marco Aurélio. Talvez a frase se aplique à política de hoje e à menoridade aparente da ambição nas nossas sociedades e no nosso tempo.

 

*A questão é controversa: muitos trabalhadores olham para a vaga de imigração com desconfiança e votam de acordo com essa preocupação. Acreditam que os migrantes lhes estejam a tirar o trabalho. Não há provas de que isto seja assim, mas os defensores da imigração afirmam por seu lado que haverá vantagens económicas na vaga migratória, admitindo indirectamente o efeito potencial de depreciação de salários, pois continua a existir desemprego elevado em alguns dos países que estão a receber esses migrantes. Ou seja, a imigração vai ocupar postos de trabalho que estavam vazios por serem muito mal pagos, nem os desempregados locais os queriam por aquele salário, que se manterá assim sempre muito baixo.

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No fim ganha a Alemanha

por Luís Naves, em 26.06.16

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Há uma hipocrisia sísmica nas sociedades contemporâneas, que em Portugal atinge um valor especialmente elevado na escala de Richter. Os políticos habituaram-se a ignorar com impunidade a vontade dos eleitores, mas passam o tempo a reclamar que é preciso escutar mais o povo. Os meios de comunicação destacam-se pela superficialidade e perderam a capacidade crítica, preferem o sensacionalismo e a histeria. Assim, a decisão dos eleitores britânicos de saírem da União Europeia não devia ser tão surpreendente e não admira que a cobertura do Brexit seja marcada por intervenções de tom apocalíptico.

As pessoas deixaram de acreditar em tantas promessas falhadas e catástrofes não concretizadas, preferem que os políticos as deixem em paz, o que abre caminho ao primeiro demagogo com língua de prata. Os cidadãos informados querem mudança e têm tido apenas desilusões. A opinião pública sente-se enganada e isso não é um fenómeno local. Dou apenas alguns exemplos: o presidente francês que prometia mudar o Tratado Constitucional foi o mesmo que aprovou leis laborais de direita, ou reformas estruturais, como agora se diz; o Syriza que ia partir a loiça meteu a viola no saco e é hoje um banal partido social-democrata que pratica a austeridade; a chanceler alemã que queria aceitar todos os refugiados envia-os agora para trás. Mas podia citar outros exemplos (em Portugal, Espanha) sobre a forma como os políticos em funções têm escondido a realidade, inventando fábulas convenientes que os levam ao poder, sabendo à partida que não poderão cumprir as promessas que fazem. Boris Johnson é apenas a mais recente aquisição deste pacote de vendedores de banha da cobra, (como é que ele vai descalçar a bota e evitar a saída a sério?) Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, acha que seria boa estratégia Portugal ameaçar Bruxelas com a realização de um referendo sobre a UE*. Talvez seja útil que alguns partidos de protesto e políticos demagogos consigam chegar ao poder: poderão mostrar como é que se faz e os eleitores vão fartar-se rapidamente deles. Infelizmente, isto só não é viável por causa dos estragos que fariam.

A política europeia actual é como aquele jogo táctico que vimos ontem na TV: tudo muito apertadinho e defensivo, antecipado por conversas intermináveis e o anúncio histérico de coisas sensacionais que depois se revelam uma sensaboria pegada. O que é verdadeiramente decisivo nunca se vê com clareza e aquilo que se vê é sempre elogiado pelos comentadores. Depois, surgem os peritos e explicam tudo tintim por tintim (por cada hora de futebol, há dez de explicação). Os orgulhosos vão mais cedo para casa. Isto é sobretudo para tácticos e para cínicos, exige paciência e jogo de cintura, golo no primeiro remate. A Europa continua, estejam descansados, embora seja cada vez mais complicada e sem margem de manobra. Os políticos vão continuar a vender ilusões e a culpar a sorte pelos maus resultados. Os meios de comunicação continuarão no plano inclinado da futilidade. Ah, e não resisto ao lugar comum: no fim ganha a Alemanha.

 

*A afirmação de Catarina Martins é delirante. Como mostrou o Brexit, o problema de um referendo está na possibilidade de haver uma resposta prejudicial. Portugal não tem qualquer condição para sair da UE sem cair num empobrecimento que seria sempre rápido. Como é que se pagavam os salários e pensões? Não somos uma potência como o Reino Unido, que exporta para todo o mundo, e somos muito mais pobres do que os ingleses. A afirmação pode ser radical, mas também pode ser um exemplo de bazófia lusitana: vamos lá e fazemos ameaças, pregamos um grande susto. Só que a chantagem e o bluff têm sempre o perigo do outro lado não se importar muito. A resposta mais provável seria 'querem fazer referendo? força lá com isso'

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O criador controla a sua criação

por Luís Naves, em 25.06.16

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Nas televisões nacionais, o Brexit parecia o fim do mundo. Mudávamos de canal, para estações estrangeiras, e havia um tom de seriedade e preocupação, mas sem histerias: a vida continuava. Os nossos jornais e redes sociais transbordam de catastrofismo ou de indignação. Lemos comentários a celebrar o fim inevitável da UE, essa coisa horrível que acabou com as nossas vidas e encontramos toneladas de textos sobre uma Europa que nunca existiu nem vai existir.

Em Portugal, à esquerda, cresce um discurso que retrata a UE como a tropa de choque do capitalismo e do poder financeiro, promotora da destruição económica, do empobrecimento geral e de políticas que os povos rejeitam. Esta tese delirante sustenta que o voto britânico representou a recusa do neo-liberalismo ou das barreiras à imigração. A Europa será a partir de agora obrigada a reformar-se num sentido que a fará mais solidária, terminando todos os muros e a asfixia da austeridade. Há outra versão: a União Europeia é um pesadelo burocrático que não serve para nada. Quem não obedecer, leva. Os países deixaram de mandar na máquina. O criador perdeu o controlo do monstro e ele anda pelas aldeias a assustar criancinhas.

Estas duas lendas ignoram os benefícios que o País obteve ao longo dos últimos 30 anos. Portugal nunca na sua História enriqueceu tão depressa, nunca se modernizou tão rapidamente. Recebemos uma montanha de dinheiro, transformámos a economia, há justiça, liberdade e segurança, a sociedade mudou em todos os sentidos. Hoje, exportamos facilmente para um mercado de 500 milhões de consumidores, circulamos sem limitações por um espaço geográfico gigantesco, temos investimento externo como nunca antes vimos, para não falar na adopção de leis modernas e da necessidade fundamental da estabilidade política. Sem Europa, o País seria muito mais pobre. O fim da UE representaria a destruição de centenas de milhares de empregos, a falência de milhares de empresas, o regresso ao caos político e ao endividamento crónico. E, apesar de tudo isto ser tão evidente, parece que uma parte do País deseja regressar aos tempos da Primeira República e outra parte aos tempos do orgulhosamente sós.

A UE tem deficiências? Claro que tem. O Brexit mostra algumas dessas falhas, obriga a pensar sobre as reformas de que a organização carece. Como escreve Luís Menezes Leitão, em post anterior, os países defendem os seus interesses nacionais. É por isso que a política europeia converge para o mínimo denominador comum, insuficiente para alguns desses interesses, excessivo para outros. Ao contrário do que afirma Marine Le Pen ou do que pensa Pacheco Pereira, a Europa é uma construção democrática controlada pelas suas nações e pelos seus eleitores. Os benefícios da UE são evidentes: paz, prosperidade e liberdade. E os críticos evitam sempre mencionar as obrigações das alianças e até chegam a confundir saídas com permanências. Humilhados e ofendidos? É exactamente o inverso: somos mais livres, mais ricos e estamos mais seguros.

 

Em outros blogues foram publicados excelentes textos que nos ajudam a reflectir sobre um assunto tão complexo. Destaco estes: Francisco Seixas da Costa aponta para a necessidade de haver prudência na atitude portuguesa perante as alterações ao projecto europeu; João Miranda escreve com ironia sobre o mesmo tema; um texto lúcido de Luís Rocha, a explicar o carácter liberal da UE; ainda este alerta de Carlos Guimarães Pinto, com a evolução das dívidas públicas e o que isso sugere sobre o que aí vem; finalmente, dois textos bem pensados em Quarta República, de Suzana Toscano e Margarida Corrêa de Aguiar.

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Os extremistas cavalgam o descontentamento e querem o fim da Europa, mas o seu triunfo é improvável. Nigel Farage, a figura mais tóxica da política britânica, foi um dos vencedores do referendo. O efeito dominó de consultas populares é uma possibilidade, mas isso implicaria o triunfo generalizado dos populistas e radicais. A exigência de fazer referendo em outros países parte de formações de extrema-direita e de partidos populistas mais preocupados com o seu crescimento eleitoral: vão ganhar em todo o lado? É evidente que não. Como refere Pedro Correia, no post anterior, a Europa não pode sobreviver governada por Marine Le Pen, Pablo Iglesias, Frauke Petri, Gábor Vona, Beppe Grillo, Geert Wilders, Norbert Hofer, mas quem quereria viver num local assim? A única verdadeira ameaça existencial para a UE será a vitória de Marine Le Pen nas presidenciais francesas da Primavera.

2

A saída do Reino Unido da UE é um processo de negociação que se adivinha difícil para os britânicos e levará talvez meia dúzia de anos (no mínimo, dois). É provável que haja uma crise financeira imediata e efeitos a curto prazo no investimento, na banca, no crescimento e no emprego, isto dos dois lados do Canal da Mancha. Pode até haver recessão, mas por agora não há alterações legislativas de fundo. A experiência de saída é inédita e terá efeitos visíveis: se esses efeitos forem insignificantes, então a saída de mais um país não constitui uma catástrofe; se forem acentuados, o exemplo britânico dirá aos outros países “não façam o mesmo”.

3

Os eleitores britânicos votaram por dois motivos, medo da imigração descontrolada e recuperação da soberania perdida. Isto sugere que os europeus deviam endurecer as políticas de imigração e tentar fazer reformas de devolução de poderes aos parlamentos nacionais. No fundo, em ambos os casos, as opções são limitadas. A primeira situação depende do acordo com a Turquia e não há muitos poderes que possam ser devolvidos.

4

Alguns autores, como é caso de Luís Menezes Leitão, em post anterior, explicam que a Europa tem o problema de ser uma construção de burocratas sem ligação aos eleitores ou respeito pela democracia. Na minha leitura, a UE é uma organização supranacional controlada pelos Estados que nela participam. As decisões mais importantes são tomadas pelo Conselho Europeu, órgão constituído apenas por líderes eleitos, que defendem interesses nacionais, também interesses colectivos, e que por isso respondem perante os seus eleitores.

5

A UE está a construir um mercado único gigantesco e há um elemento que os defensores da saída britânica não explicaram: como é possível que o Reino Unido continue a ter acesso total a esse mercado sem pagar a sua quota e mantendo a influência legislativa? A prazo, Londres perderá poder financeiro, terá de retirar os seus funcionários de Bruxelas e acabará por ter influência limitada nas decisões. Em relação ao défice democrático, também não há soluções mágicas: eleger o Presidente da Comissão? Criar um Senado? Dar mais poderes ao Parlamento Europeu? Tudo isto retira influência aos Estados.

6

Os eleitores ingleses convenceram-se de que o seu parlamento perdia poderes. Todos os países adoptam legislação europeia e os parlamentos têm um papel cada vez menor na definição das leis nacionais, sobretudo na área económica. Será que o parlamento britânico pode recuperar a influência perdida? Se o fizer, a legislação britânica divergirá profundamente da europeia, mas isso terá um custo, a perda progressiva de acesso ao mercado único europeu. Sem convergência legislativa, as empresas terão relutância em investir, o comércio com o resto da Europa será mais complicado, haverá menos empregos com ligação ao outro lado da Mancha. Este processo será lento, mas num único sentido. O Reino Unido fica mais independente, mas terá de procurar a sua prosperidade em mercados de outras paragens.

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A Europa tem um problema imediato para resolver: as deficiências da moeda única. Há um conflito entre países em torno do cumprimento do Tratado Orçamental, do reforço da União Bancária e da definição de elementos de união política. Este último ponto significa reforço dos poderes do Eurogrupo (que não é uma estrutura tecnocrática, antes envolve ministros das finanças eleitos, que respondem perante os seus eleitores). Terá de haver escolhas imediatas: o TO é para ser cumprido? Os países deixam definitivamente de usar a banca para gerir interesses do momento, como se faz em Portugal? O Eurogrupo vai ter mais poder? Há alterações dos Tratados na área da moeda única? Os países que não se aguentam na zona euro saem dela?

8

O Reino Unido está fora da zona euro, mas a discussão anterior é mais fácil sem os ingleses, sobretudo na parte da banca. Também é mais fácil resolver a segunda crise, Schengen, que é neste momento a grande fonte de irritação dos eleitores europeus, por causa das migrações descontroladas do ano passado. É natural que haja alterações na posição da Alemanha e concessões do Grupo de Visegrad, mas esta negociação é difícil e os países de leste mostram grande ressentimento em relação à condescendência com que foram tratados no passado. A saída dos britânicos também torna mais fácil o fim das sanções à Rússia.

9

Imaginemos por um momento a Europa sem a UE. O mercado único entraria rapidamente em colapso, a livre circulação seria improvável e os países ricos recusariam pagar fundos estruturais aos pobres. A política agrícola comum seria extinta e muitos agricultores iriam imediatamente à falência. Para além da perturbação de todo o comércio, talvez não fosse possível assegurar a alimentação dos europeus. Haveria conflitos cada vez mais graves em torno de comida, direitos de pescas, energia, além de conflitos industriais, limitações à exportação de certos produtos, desemprego em massa, juros impossíveis, preços exorbitantes. Progressivamente, estes conflitos alastravam a questões étnicas e surgiam movimentos de libertação, culpabilização das minorias, fragmentação de países, o regresso lento aos velhos mecanismos do equilíbrio de poder. Seria mais um suicídio europeu: fronteiras fechadas, todos mais pobres, os loucos a tomar conta do asilo. Em resumo: é impensável.

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A saída da periferia é uma coisa, outra bem diferente é o colapso desta aliança de nações. Sem União Europeia, que se baseia na definição de cedências de soberania, os países europeus serão irrelevantes a nível global. Separada da Alemanha, a França terá a sua independência ameaçada; separada da França, a Alemanha estará isolada. O interesse vital destes países é que a UE continue. Sem os ingleses na equação, serão reforçados os laços que unem o eixo Paris-Berlim. As regras do clube vão ser mais restritivas no núcleo duro e mais flexíveis na periferia. É humano, quando um exército se encontra em perigo, cerra fileiras e sacrifica as unidades que estão mais afastadas do campo de batalha e não podem ser ajudadas. Daqui a alguns anos, a UE será provavelmente uma construção a várias velocidades, com uma vanguarda de países muito integrados, uma periferia de países mais pobres e algumas nações associadas, entre elas a Inglaterra.

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Uma opinião relevante

por Luís Naves, em 21.06.16

Este é sem dúvida um dos textos portugueses mais lúcidos que encontrei sobre o referendo britânico. Deve ser lido e relido. Dizendo modestamente que não está a fazer uma análise profunda sobre o tema, Francisco Seixas da Costa elabora na realidade um resumo intelectualmente exemplar do que pode ser o ponto de vista nacional sobre o acontecimento.

No referendo britânico, as sondagens sugerem empate entre os dois lados e a votação de quinta-feira pode decidir-se por uma quantidade minúscula de votos. Tudo isto parece ser demasiado à tangente para nos tranquilizar e, qualquer que seja o resultado, a história não ficará por aqui. Se o Brexit vencer por pequena margem, a negociação de saída, que levará anos, proporciona oportunidades de recuo. Se o Remain vencer por um punhado de votos, será uma questão de tempo até que regressem as dúvidas.

No texto de Seixas da Costa, o ponto que considero mais importante (e preocupante) é o sétimo, onde o autor menciona a eventual “refundação” europeia, com “purga do euro”. Portugal teria dificuldades em acompanhar esse desenvolvimento, que parece ser uma possibilidade independente do resultado do referendo. A vitória da permanência não vai desmobilizar os críticos da Europa, dentro e fora do Reino Unido, e as elites políticas sentem forte pressão para solucionar os problemas do projecto.

Sem a UE, a Europa seria um local muito mais caótico e perigoso, mas assim não entende uma franja crescente da opinião pública, cujo descontentamento é genuíno. Mesmo em Portugal, País que teve grandes vantagens com a integração, o eurocepticismo começa lentamente a tomar conta dos debates.

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A engrenagem da insatisfação

por Luís Naves, em 20.06.16

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A crise teve um efeito devastador na insatisfação dos eleitores. Nas sucessivas eleições, começa a ser evidente que o eleitorado tem dificuldade na escolha e está indignado com as maquinarias políticas e os privilégios das elites. Nos Estados Unidos, os partidos tradicionais foram assaltados por rebeliões. O sistema da máquina republicana foi derrotado pela insurreição de Donald Trump e as elites democratas quase soçobraram aos ataques de um populista de esquerda, Bernie Sanders. Na Europa, estamos a assistir a votações com divisões ao meio, entre desafios populistas e sistema tradicional: nas presidenciais austríacas, o candidato da extrema-direita perdeu por 30 mil votos; em Espanha, que vota no domingo, o Podemos de Pablo Iglesias poderá obter um resultado que lhe permitirá formar governo; os populistas estão à beira de vencer a câmara de Roma; e quem ganhar o referendo britânico terá um punhado de votos a mais, insuficiente para o lado que sair derrotado.

Os eleitores andam zangados com a política do costume, mas não querem aventuras, pelo menos não as desejam com convicção. Isso é claro no caso britânico, onde a votação não será sobre a UE, mas sobre questões emocionais de identidade. As pessoas defendem mudanças, mas não querem revoluções. Os políticos tornaram-se irritantes e deixou de existir a alternância de antigamente, pois os chefes da oposição moderada têm agora a mesma carga negativa. O centro entrou em declínio. As pessoas sentem que é necessário fazer alguma coisa, mas ninguém sabe exactamente o quê, embora a ameaça dos partidos extremistas (à direita e à esquerda) não seja a solução mais viável, pois estes sectores não passam habitualmente de um quarto a um terço do eleitorado.

Os defensores do statu quo e os políticos experientes começam a ter dificuldades em ganhar eleições: a ligação ao poder tornou-se uma desvantagem. Emerge assim um padrão preocupante na Europa contemporânea: os empobrecidos querem rupturas, os jovens votam ao contrário dos idosos, as mulheres são ligeiramente mais à esquerda que os homens, há fragmentação do eleitorado em grupos complexos e homogéneos. Parece que a sociedade se transforma progressivamente numa auto-estrada com maior número de faixas. Na mais rápida, circulam os beneficiários da nova economia, mas há faixas para funcionários públicos, eleitorados rurais e urbanos, com velocidades diferentes para cada classe social, aliás, velocidades cada vez mais diferentes, a ponto de ser difícil ou quase impossível mudar de faixa. Na zona que devia ser apenas a mais lenta, o trânsito tornou-se infernal e passou a circular-se em contramão. Ali, as coisas estão em declínio e as pessoas sentem-se excluídas, sem emprego ou voz activa. Por isso, cada vez mais os descontentes desprezam as elites que os governam, mostrando sinais de certa raiva, sabendo que, para eles, isto começa a não ter saída.

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Os excluídos

por Luís Naves, em 18.06.16

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As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e refugiam-se nos territórios da imaginação e do irreal. Tornou-se fácil detectar informação incompleta ou distorcida, mas também é trivial encontrarmos informação manipulada ou falsa. Nas democracias avançadas, a política tornou-se crispada e as divisões da sociedade estão à mostra. Tudo piorou com a crise financeira, que estilhaçou o equilíbrio da classe média e proporcionou a explosão da retórica populista, segundo a qual a opinião pública não deve confiar na informação disponível. Assim, na actual década, cresceu o fosso entre cosmopolitas e conservadores, entre defensores e críticos da imigração, entre globalistas e tradicionalistas. Hoje, contesta-se a livre circulação de dinheiro e o poder das elites. Muitos defendem a fragmentação da sociedade em condomínios privados, em oposição aos que querem impor determinados modelos obrigatórios de liberdade. Há ainda quem queira limitar o direito de opinião e nota-se o aumento da intolerância nas críticas a teses adversárias, o triunfo da linguagem politicamente correcta ou o uso e abuso do duplo critério na análise de qualquer assunto.

A política contemporânea parece impotente para combater o descontentamento: os poderosos mentiram-nos e escaparam com impunidade, a escada social é uma fantasia, a mudança é uma impostura, ganham sempre os fortes. E, apesar de tudo, a insatisfação popular tem limites: não destruam o nosso conforto mínimo, não mexam nos nossos melhores entretenimentos e não afectem o nosso futuro na velhice. Nessas condições, haverá desconfiança sem violência; as rupturas serão, no máximo, reversíveis e hesitantes.

As pessoas desconfiam cada vez mais daquilo que lêem e algumas delas vivem nas franjas de uma sociedade que as abandona ou ignora. Uma legião de excluídos habita em universos paralelos onde não se aplica a lei da realidade. Enfim, toda a gente terá porventura pensamentos com pequenas doses homeopáticas de universo paralelo, daí não viria mal ao mundo, mas alguns desgraçados habitam nos abismos da paranóia, cercados de hostilidade, no círculo vicioso das ilusões auto-alimentadas.

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Argumentos sobre a eventualidade de Brexit

por Luís Naves, em 15.06.16

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Na opinião nacional há duas teses em relação à eventualidade do referendo britânico decidir a saída da UE. Uma delas é evidente neste texto de Sérgio Figueiredo, no DN: a Europa deve agir com dureza em relação ao Reino Unido. No lodo oposto, estão posições como a de Pedro Braz Teixeira, autor que admite a suspensão da reciprocidade para suavizar os termos da saída. As sondagens indicam que o referendo pode ser decidido por um punhado de votos, ou seja, se vencerem os defensores da UE, o problema vai colocar-se de novo dentro de poucos anos; se o Reino Unido sair por escassa diferença e isso se revelar um problema, é natural que no próximo ciclo político surja novo impulso para o regresso.

Ambos os autores dão como garantida a calamidade em caso de Brexit. Sérgio Figueiredo culpa o egoísmo dos britânicos, Braz Teixeira atribui a culpa aos excessos da integração e afirma que a UE não cumpriu o desígnio original, “garantir a paz na Europa e conter a Alemanha”, quando foi exactamente isso que a UE conseguiu. Em relação à segunda parte da frase, como não há maneira de testar o que seria a Alemanha sem UE, convém olhar para o registo histórico: o desequilíbrio veio sempre da Alemanha demasiado forte ou demasiado fraca; a actual situação é a mais favorável de sempre no equilíbrio de poder, a Alemanha não tem potências hostis nas fronteiras e não hostiliza nenhum vizinho.

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O Brexit será sobretudo perigoso se não for respeitado o voto popular. Se os ingleses querem sair, então isso deve acontecer, como dizem os Tratados: haverá uma complexa negociação de cinco ou seis anos para acautelar os interesses de todas as partes. Não será o fim do mundo, mas o início de um processo, com efeitos negativos potenciais a curto e médio prazo: desvalorização da libra, quebra do investimento e comércio, trapalhadas legais, nervosismo nos mercados, taxas de juro negativas para a dívida alemã. Negociar é um exercício de soberania, exige maturidade democrática.

O grande argumento da dureza negocial é um não-argumento: devemos ser duros com os ingleses para impedir outras saídas, matando à nascença qualquer veleidade de descontentamento. É uma ideia que infantiliza os eleitores, que estão exactamente fartos de políticos que os subestimam. Se franceses ou alemães quiserem sair, isso será o fim da organização, mas continua a ser uma escolha legítima (por improvável que seja). A decisão pertence ao eleitorado e ninguém tem o direito de exercer chantagem. É absurdo o erro de prejudicar uma negociação de saída só para assustar eleitores descontentes com os erros habituais dos políticos.

 

 

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Andamos muito distraídos

por Luís Naves, em 10.06.16

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Instalou-se entre nós a narrativa de que vivemos numa espécie de oásis, à margem das grandes complicações europeias. A obsessão pelo futebol contribui para nos distrair um pouco mais, como é evidente na indiferença com que recebemos as notícias recentes de Espanha. Aqui, no Delito, Diogo Noivo tem escrito sobre o tema, mas destaco este texto, que, a meu ver, toca no nervo das transformações europeias: os populistas  engolem o centro, não apenas em Espanha, mas em vários países. Os radicais (à esquerda e direita) só estão preocupados com a tomada do poder e é pena que este texto não tenha sido mais lido e citado.

A descoberta da flexibilidade ideológica permite ao Podemos mudanças de rumo e de táctica que, neste caso, colocaram esta força, aliada aos comunistas, no limiar dos 25%, à frente dos socialistas. Se houver governo de esquerda, o PSOE será a força menor da coligação; se os socialistas se aliarem à direita ou viabilizarem um governo do PP, o Podemos estará na oposição, a chefiar a esquerda e a esperar a sua próxima oportunidade. Com o centro esquerda cortado às postas, os populistas poderão “assaltar o céu”, como dizem.

Na direita, em países como Áustria e França, está a ocorrer um fenómeno semelhante. Os partidos da extrema-direita deslocaram-se para o centro, suavizando a sua retórica mais tóxica e parecendo aceitáveis para a classe média. Na Áustria, foi ultrapassado esse patamar transformador e os radicais são agora maiores do que o centro. Em França, os socialistas estão em dificuldades para manter a liderança da esquerda e os republicanos são desafiados à direita. Os populistas de extrema-direita avançam na Finlândia, na Holanda, na Suécia e na Dinamarca. Os de esquerda instalam-se na Grécia, Espanha, Itália. Prepara-se a hecatombe do centro nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2019.

A gerigonça portuguesa parece um mecanismo de oásis, mas pode ser a antecipação destes problemas. Há quem coloque no mesmo saco os três partidos que apoiam o governo de António Costa e some as intenções de voto (dá o extraordinário número de 53%) sem acrescentar que dois desses partidos estão fora do governo e que, em caso de falhanço da aliança táctica, o PS corre o risco de perder muitos votos. É mais lógico somar BE e PC, o que dá 18% nas sondagens, ou seja, não estamos longe do resultado atribuído à coligação Podemos e IU em Espanha (25%). Se isto bater outra vez na parede, o cenário espanhol é mais do que possível entre nós, é altamente provável.

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Nos textos de opinião escorrem elogios ao poder, de súbito desapareceram os incompetentes, só há craques no governo e tudo corre às mil maravilhas. As crises são lá fora, em países onde se passam horrores (nem queremos falar disso, de tão horrível). Por aqui, deixou de haver desempregados, ninguém os menciona, terão todos arranjado emprego, como aliás regressaram muitos dos 500 mil que tinham emigrado, pois agora só se fala em 250 mil. A nossa crise acabou, há retoma tímida, é oficial, no que concordam jornalistas e intelectuais que muito justamente nos convenceram de que não houve bancarrota, mas uma calamidade inútil, imposta de fora, receita de engenharia social aplicada pelo governo da troika, anti-patriótico e cínico, que professava certa cartilha ideológica.

Sim, a crise acabou e não regressa, é um facto, podemos ignorar os poderes não-eleitos de Bruxelas, começar a rasgar os Tratados e aprovar moções parlamentares exigindo à Comissão que não aplique medidas previstas em textos ratificados pela mesma assembleia que assim vota contra si própria. Que fazer, se mesmo assim houver sanções? Francamente, não se deve pensar nisso: como em muitos outros tempos de negação, o mal vem de fora, eles não nos compreendem, sejam os burocratas, as agências de notação e os estupores dos mercados.

Os jornalistas fazem reportagem nas redes sociais e citam-se uns aos outros. A palavra crise saiu do dicionário. O partido no poder fez um congresso que, se fosse a direita, teria sido descrito como reunião albanesa, de negação da realidade, com fracturas internas à mostra; se fosse a direita, o líder estaria por um fio e as suas intervenções tinham sido patéticas; mas não era a direita, disseram-se coisas relevantes, foi um portento de organização e o partido vai no bom caminho, arrastando consigo uma nação agradecida.

Tudo começa a fazer sentido: vamos receber milhares de refugiados sírios (eles não querem vir, ainda não chegaram e de qualquer forma não ficam) mas protestamos contra a invasão de turistas que nos incomodam nos passeios, com o seu trote encantado e bolsas recheadas, e que nos interrompem o conforto, fazendo aumentar as rendas na cidade. Os turistas invadem os restaurantes, onde deixou de haver lugar para nós? Ocorrem cenas tumultuosas em inglês nas tabernas? Por isso, é justo que se baixe o imposto, para que os restaurantes fiquem suportáveis. Nos jornais, há muitas crónicas de como isto se tornou outra vez respirável, já não há notícias negativas, conflitos ou problemas. A geringonça é como os tuk-tuk, tornou-se parte da paisagem e avança por todo o lado, lá com os seus solavancos. Deixou de haver fome ou choro nos aeroportos, entrámos no tempo da esperança e da utopia, não importa a Europa ou a força da gravidade, deslizamos vagamente num sono hipnótico.

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O enigma alemão

por Luís Naves, em 04.06.16

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Um líder alemão que chegasse ao poder em 2005 e projectasse o futuro do seu país para 2020 veria algumas perspectivas desoladoras e outras sombrias: declínio demográfico e envelhecimento rápido da sociedade, complacência em casa e incertezas no flanco leste, a Europa pouco interessada em aceitar a liderança de Berlim ou o reforço da integração, problemas de competitividade no horizonte, um país com dificuldades em abrir as portas à globalização ou ao multiculturalismo. Em 2020, a Alemanha teria dependência energética de tecnologias idosas e perigosas, taxas de crescimento medíocres, sistema político instável, comunidades fechadas, em resumo, seria uma bolha em declínio.

Não sei se estes elementos conduziram a actuação de Angela Merkel, mas muito do que ela decidiu na política interna, na crise financeira, nas dívidas soberanas, no caso da guerra na Ucrânia ou na recente crise migratória pode ter partido de cálculos de médio e longo prazo baseados nestes problemas. A chanceler tem sido pouco compreensível para os seus contemporâneos. Que Europa está a construir? Este é o grande enigma.

O facto é que a Alemanha, pela primeira vez, não tem qualquer potência hostil na sua fronteira. Os políticos não se cansam de dizer que pertencem à primeira geração de alemães nascida em paz e que vai morrer em paz. A Alemanha não aumenta mais depressa o orçamento militar porque iria alarmar todos os vizinhos, caso pagasse em defesa a percentagem do PIB pedida pela NATO. A Alemanha tinha um problema demográfico e aceitou em poucos meses mais de um milhão de imigrantes e refugiados; Merkel não parece ter dúvidas em elevar a fasquia dos muçulmanos no seu país, dos mais de 5% que existiam em 2009 (segundo estimativas consideradas fiáveis) para um valor muito mais elevado que, em 2020, pode facilmente ser superior a 10% da população, admitindo que o fluxo migratório é travado amanhã, o que é improvável, pois a Turquia exige a abolição de vistos para impedir a passagem dos migrantes, o que resulta em mais imigração turca.

 

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A chanceler Merkel governa por consensos, reage sem pressa, é elitista e detesta populismos, faz alianças que prejudicam os partidos com quem se alia, tem amigos em governos europeus que deixa cair sem pestanejar, impõe aos aliados medidas que sabe serem politicamente impossíveis, parece ter entre as suas preocupações a ideia de que a Alemanha precisa de ser mais forte, mas apenas se conseguir nesse processo expiar as suas culpas históricas. Merkel não suporta desafios e tende a esmagá-los sem remorsos, prefere negociar no sussurro dos gabinetes e tem uma imagem pública de austeridade na forma, de ambiguidade na palavra, de ausência de humor, em contraste com o que se diz que ela é em pessoa.

A Alemanha que Merkel imaginou para 2020 é uma potência global, com população em crescimento, mão-de-obra qualificada, tecnologicamente inovadora, no topo da pirâmide de poder mundial. Isso implica uma Europa alemã que terá menos parecenças com Roma imperial e mais com a Grécia clássica; talvez seja uma gigantesca Suíça ou um mercado de vinho que passa a ser de cerveja, com muita variedade, mas de um produto tão simples que parece uniforme quando vamos além do rótulo. A Alemanha ficará rodeada de potências próximas: França, Itália e Polónia, acompanhadas por um punhado de pequenos países com direitos razoáveis, além de vários protectorados. As periferias do núcleo duro não serão importantes, a estabilidade representará o essencial, a NATO terá papel secundário, a rivalidade com a Rússia tornar-se-á intermitente, marcada por episódios regulares de abrandamento. Os Estados terão menos importância, as regiões serão a base da integração acelerada, sob liderança alemã: discreta, burocrática e pacifista.

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O verdadeiro pesadelo não é o Brexit

por Luís Naves, em 01.06.16

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A publicação de sondagens que apontam para a possibilidade de Brexit sugere que a opinião pública britânica não se convenceu dos efeitos catastróficos da eventual saída do Reino Unido da União Europeia. Os defensores da permanência afirmam que o país tem muito a perder e que os efeitos na UE também seriam devastadores. É provável que tenham razão, mas não convenceram o eleitorado e o resultado do referendo é imprevisível. A possível saída britânica implica a reacção defensiva das potências da UE, que tenderiam a acelerar a sua integração. A Alemanha defenderia a criação de um núcleo duro que os países periféricos teriam ainda mais dificuldade em acompanhar. O Brexit é uma evidente ameaça para países como Portugal ou Grécia, que estão em situação frágil, mas não constitui um problema existencial para a União Europeia. Esta quererá encontrar uma solução a várias velocidades, com periferias menos ligadas a Bruxelas, talvez o avanço para uma espécie de confederação central.

A verdadeira crise existencial não será na eventual saída do Reino Unido, mas na próxima eleição presidencial francesa, na Primavera de 2017. Se as sondagens de Brexit forem confirmadas, a opção inglesa implica instabilidade económica que dará novos argumentos aos partidos extremistas em crescimento. A França é o verdadeiro ponto fraco da equação. A Frente Nacional de Marine Le Pen, excluída do sistema político, tem condições para aproveitar as várias crises simultâneas e pode facilmente ficar à frente na primeira volta das presidenciais. Se o seu adversário na segunda volta for um candidato republicano, como por exemplo Alain Juppé, o próximo presidente francês será um centrista capaz de se entender com a Alemanha. Juppé tem todas as condições para ser um óptimo presidente da França. A questão parece bem diferente se o adversário for um Bernie Sanders francês: Marine Le Pen pode vencer na segunda volta, engolindo parte do eleitorado republicano e centrista. A presidente Le Pen vai demolir o euro, contestar as políticas sobre refugiados e de integração dos muçulmanos e cumprirá a promessa de mudar o sistema político francês, de forma a que a FN não seja mais afastada do poder. A sua relação com a Alemanha será péssima e o eixo Paris-Berlim estará em perigo.

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Ilusão de óptica

por Luís Naves, em 23.05.16

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Escrevo antes de ser conhecido o resultado das presidenciais austríacas, mas o candidato da extrema-direita, Norbert Hofer, tem ligeira vantagem antes da decisiva contagem dos votos por correspondência, que será feita hoje. Na rádio pública, de manhã, ouvi o historiador Rui Ramos a falar sobre o tema, fazendo uma amálgama de nacionalistas e defendendo a tese de que a eventual vitória de Hofer confirma a tendência já visível em outros países. Para o autor, Hungria, Polónia ou Áustria fazem parte do mesmo movimento populista-nacionalista*.

A explicação nacionalista para este empate eleitoral é um mito confortável, que nos impede de perceber o carácter inédito da possível vitória de Hofer. Seria a primeira vez que um candidato da extrema-direita vencia uma eleição na Europa a nível nacional. Hofer já é notícia: mesmo que perca, o que é mais provável, esteve demasiado perto de vencer. A extrema-direita finlandesa (Partidos dos Finlandeses) ficou em segundo lugar e está na coligação de governo; o Partido Popular dinamarquês ficou em segundo e apoia o governo; há exemplos de partidos de extrema-direita com 10, 12, 15% dos votos, mas até agora nenhum deles venceu eleições nacionais.

Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. A identidade entre os dois é um erro de análise.

Felizes por não compreenderem isto, os média portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos.

A extrema-direita europeia (por exemplo, AfD alemã, DPP dinamarquês, FN francesa, Partido da Liberdade austríaco ou Partido Popular suíço) contesta a política de imigração e o multiculturalismo, baseia a ascensão eleitoral na péssima integração das comunidades muçulmanas, mas até agora não chegou ao poder em nenhum destes países. Se Hofer vencer, será a primeira vez que a extrema-direita ganha uma eleição importante e qualquer analogia com o leste é pura ilusão de óptica.

 

Actualização: Hofer foi derrotado pelo candidato da esquerda, Alexander Van der Bellen, eleito presidente da Áustria por 34 mil votos. Nunca um candidato de extrema-direita esteve tão perto de ser eleito num país europeu. A coligação do Governo, um bloco central entre cristãos-democratas e social-democratas, terá dificuldade em sobreviver até ao final de 2018, quando termina a legislatura. A extrema-direita conseguiu metade dos votos e o Partido da Liberdade, FPO, a que pertence Hofer, tem condições para vencer legislativas antecipadas. Aliás, quanto mais tempo se mantiver este bloco central fragilizado, com um primeiro-ministro não eleito, mais hipóteses a extrema-direita terá de vencer.  

 

*É outra conversa, mas não deixa de ser curioso perguntar se Angela Merkel e François Hollande não são nacionalistas? Não defendem primeiro os interesses dos seus países? Há nacionalismo bom e mau, forte e fraco? Onde está a fronteira? Aliás, de que nacionalismo se fala aqui, ou estamos a confundir o conceito com defesa da soberania? O referendo do Brexit é bom, mas se a Hungria referendar as quotas obrigatórias de refugiados, isso já é mau?

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Atolados

por Luís Naves, em 14.05.16

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O post de José António Abreu, mais abaixo, é claro: os números começam a ser alarmantes e não vão melhorar, pois a balança externa piorou, as exportações estão em queda e o investimento diminuiu. O crescimento do primeiro trimestre foi inferior ao esperado, apenas 0,8%, o que indica abrandamento. É só um trimestre, mas o conjunto mostra uma tendência preocupante. Perderam-se 48 mil empregos em três meses, mais de 500 por dia, e se o indicador subiu em termos homólogos, os números sugerem um repentino e severo efeito social, pois estão a ser destruídos empregos por conta própria e pouco qualificados, de trabalhadores que terão dificuldade em regressar ao mercado laboral.

Portugal parece um sonâmbulo que se junta a outra hipnotizado, a Grécia, e as taxas de juro mostram que está por um fio a frágil credibilidade que levou anos a construir. Embora esteja preso a compromissos que não pode cumprir sem entrar em conflito com os credores europeus, o Governo aumenta a despesa pública e tenta cobrir essas verbas com aumentos de impostos. A almofada que herdou já se esvaiu e o debate político continua a ignorar os problemas na base desta crise, que dura desde 2009.

Os credores vão exigir cortes na despesa e, nesse contexto, o acordo entre partidos de esquerda não tem viabilidade. A crise rebentará provavelmente na altura em que for discutido o próximo orçamento, quando o País não pode ir para eleições, pois ficaria paralisado durante meses. E como é que será aprovado um orçamento com cortes na despesa impostos pelo Eurogrupo?

Isto vai correr mal, só não sabemos exactamente quando. O PS formou um governo minoritário que tem de fazer reformas difíceis e tomar decisões inevitáveis, mais apropriadas a um bloco central. António Costa deseja eleições, para formar um Executivo estável com o PSD, que possa ser ele a liderar, aposta que prejudica os partidos da esquerda que o apoiam. Aliás, no futuro (e tal como aconteceu em Espanha com Podemos e IU), comunistas e bloquistas terão de se entender. Enfim, não há acordo que resista à contradição dos interesses do PS e dos outros dois partidos, mas sobretudo não há acordo que resista à necessidade de cortes na despesa pública. Basta ler os comentários revolucionários que se multiplicam nas redes sociais para perceber como tudo isto criou uma crispação lírica na sociedade portuguesa, que lembra (em escala menor) outros tempos. As sondagens, neste caso, também são inúteis, pois referem-se a um cenário que não existirá em eleições: após a queda do Governo e a discussão dos seus motivos, as intenções de voto serão muito diferentes.

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O regresso do fascismo

por Luís Naves, em 12.05.16

 

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A esquerda intelectual insiste na tese de que os problemas europeus se devem ao crescimento de forças fascistas, explícita neste texto de Rui Tavares, no Público. A ideia surge sob formas menos sofisticadas em muitos comentários e até informação que passa por noticiário. Os tais fascistas são os suspeitos do costume, chefes de governos de leste ou líderes partidários de democracias estabelecidas, misturando-se conservadores e populistas, extrema-direita e uma legião internacional que inclui islâmicos otomanos e nostálgicos da ditadura militar brasileira.

Esta amálgama tem um problema de base: no fundo, trata-se de mais uma tese negacionista, pois se alguns destes dirigentes são fascistas, então, pensarão os distraídos, o verdadeiro fascismo não foi assim tão grave. Na lista de Tavares há políticos que aceitam resultados eleitorais, estão habituados à oposição, gostam de ir a votos, não usam uniformes, não defendem a ideia de partido único, expansões coloniais ou genocídios. Um dos exemplos apontados ganhou (se não me engano) treze eleições consecutivas, no poder e na oposição; outro é católico.

O autor mistura coisas diferentes, para concluir “que o fascismo está aí de novo, com novos nomes e caras”. Na sua opinião, há forças demagógicas e autoritárias que apostam no “colapso da democracia” e do projecto europeu, pervertendo o “jogo democrático” e promovendo interesses “que são os do poder, do egoísmo e do ódio”. Concordo no que respeita ao eventual fim do projecto europeu: será uma calamidade, mas julgo que a maneira mais rápida de destruir a Europa é conseguir diabolizar as escolhas legítimas do eleitorado ou criar patamares de correcção política. A União Europeia é uma aliança de nações e a soberania nacional está na sua base, muito mais do que ideias de moralidade sobre a latitude dessa soberania.

 

 

 

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Desta vez é diferente

por Luís Naves, em 11.05.16

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Lendo jornais antigos descobrem-se pérolas de jornalismo provinciano, com títulos sobre organizações europeias em crise, dizendo que tudo ameaçava ruir por razões comerciais obscuras. Compreende o leitor contemporâneo que estes alarmes permitiam desviar a atenção das loucuras nacionais e eram escritas por jornalistas que não compreendiam a importância do projecto europeu para os países que o integravam. O facto é que as crises europeias são hoje diferentes das antigas. Escrevi, aqui e em outros locais, sobre os problemas da Europa e fui geralmente optimista. Confesso que em Setembro do ano passado mudei de perspectiva: desta vez, as divisões são mais sérias.

As intenções da Alemanha deixaram de ser claras e parece que Berlim hesita entre a construção de um núcleo duro dominado pelos alemães e a manutenção de uma Europa alargada que não controla totalmente. O euro não pode ser mantido por todos os países, mas também não pode acabar sem criar devastação económica. A crise migratória ameaça estilhaçar as sociedades europeias, mas também não é possível abandonar os refugiados sírios e deixá-los morrer às mãos dos facínoras. Para mais, há choques frontais entre soberania e solidariedade, entre os intelectuais e os seus leitores. A Rússia tenta explorar as fraquezas, as reformas económicas parecem impossíveis, os partidos extremistas continuam a crescer, o terrorismo islâmico anda à solta e a ansiedade dos trabalhadores em relação ao futuro do emprego é óbvia. As elites parecem baratas tontas e inventam metáforas assustadoras (quando os pneus da bicicleta não têm ar, o viajante não deve pendurar-se em cima dela).

Sobre isto, paira a inesperada incógnita americana. Donald Trump mais parece um pesadelo no meio do desastre. O seu isolacionismo representaria uma hecatombe para a Europa (a coisa mais suave que ele diz sobre o tema é que se a Alemanha quer protecção, então que a pague, o que significa aumentar verbas da defesa e, se é permitido o corolário, com um presidente Trump, ser membro da NATO implica pagar as quotas (pelo menos 2% do PIB). Isto muda tudo, não é assim?

Trump dificilmente vencerá Hillary Clinton, mas o isolacionismo é forte também do lado democrata, onde o candidato Bernie Sanders tem uma retórica populista em vários temas semelhante à de Trump, nomeadamente na maneira como a América deve ver o mundo, as suas alianças, o comércio livre e a circulação global dos capitais. Uma América fechada sobre si própria (basta Sanders influenciar as promessas de Hillary) representará uma Europa amedrontada, com tendência para cada um tratar de si. O genial filme de Howard Hawks Rio Bravo pode ser interpretado como uma descrição da complexa relação entre dois poderes, a Europa e América: John Wayne, o forte, e Dean Martin, que atravessa um período difícil. Era assim nos anos 50, mas podemos imaginar a sequência da história (há um conto de Mega Ferreira que o faz). Na minha versão, a personagem de Martin parou de beber, conseguiu prosperar como ajudante de xerife, chegou a ter influência na cidade, recuperou a reputação de pistoleiro, mas caiu recentemente em grande dúvida existencial, sem saber o que fazer da vida, a personalidade sob ameaça de fragmentação. E, francamente, John Wayne pode ser substituído em breve por um xerife falador, que promete uma nova política anti-índios mais alucinada, sem qualquer benefício para o equilíbrio do oeste selvagem.

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23 APDG, cena de rua, sketches of portuguese life,

 

Querido diário: 1 de Agosto de 2016
Os britânicos votaram a favor do Brexit e as negociações de saída estão complicadas. O Eurogrupo entrou em ruptura com a Grécia e o governo grego foi incapaz de impor medidas adicionais de austeridade, sendo inevitável o incumprimento, eleições antecipadas e saída do euro. A Grécia está por estas semanas a ser pressionada por uma nova vaga de refugiados, dezenas de milhares, que a Turquia deixa passar de forma cínica, na sequência do fracasso do acordo com a União Europeia: sem facilidades nos vistos e sem o dinheiro prometido, Erdogan perdeu a paciência e responde assim às críticas dos líderes europeus, abrindo a torneira dos campos e ameaçando largar três milhões de pessoas em direcção à Europa.
A Itália também enfrenta uma inesperada vaga de migrantes vindos do norte de África, sobretudo da Líbia, com a melhoria do tempo a permitir perigosas travessias do Mediterrâneo. Os rumores de problemas na banca italiana estão a provocar perturbações. Apesar de ser Agosto, os mercados andam nervosos. A Áustria está a ser muito criticada, por eleger um presidente de extrema-direita, e a Polónia (imitando a Hungria) anunciou um referendo sobre quotas obrigatórias de refugiados, parecendo imune às ameaças de expulsão. A Comissão Europeia concretizou as suas propostas de impor multas a países de menor dimensão, começando a retirar fundos comunitários, usando pretextos como a não solidariedade, isto num clima em que cada um ergue barreiras físicas na fronteira, para impedir a passagem dos migrantes. Ah, já me esquecia: a Espanha não consegue formar governo, a segunda votação foi igual à primeira.
Num único país, Portugal, tudo vai bem, com a geringonça a carburar, maravilhosamente oleada por uma liderança visionária e apoiada por uma imprensa disciplinada. Num único oásis europeu há discussões relevantes sobre futebol, liberalismo, cartões de cidadão, inaugurações, como bater o pé à Europa, austeridade substituída por restrições, coisas a sério, nada provincianas.

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Aumentam as incertezas

por Luís Naves, em 07.05.16

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As sondagens indicam que o eleitorado britânico está profundamente dividido sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pelo que o resultado do referendo de 23 de Junho é uma perfeita incógnita. Os defensores da saída tentam resistir à ideia central da campanha a favor da permanência, dizendo que o adversário agita papões e não haverá nenhuma calamidade económica se o eleitorado escolher sair. Para já, parecem ter conseguido inverter a tendência que se verificava a favor do ‘sim’, que chegou a ter uma dezena de pontos percentuais de vantagem: agora, as sondagens apontam para um empate entre as duas forças ou mesmo ligeira vantagem do ‘não’.

O Reino Unido terá provavelmente muito a perder com o Brexit: influência internacional, dificuldades no acesso ao mercado único, negócios na sua praça financeira e até a unidade britânica, pois o ‘não’ estimulará os defensores da separação escocesa. As vantagens são pouco claras, mas os defensores do Brexit contestam sobretudo os poderes não eleitos da burocracia comunitária. No fundo, dizem em volta alta aquilo que em outros países se começa a murmurar em voz baixa: o projecto comunitário está a entrar em domínios de soberania nacional onde era suposto não possuir poderes. As excepções negociadas por Londres não parecem suficientes para os políticos que se opõem à UE, embora muitos tenham a ilusão de que poderão, depois do Brexit, negociar um entendimento que lhes permita manter o filet mignon do acesso ao mercado único sem nenhum dos ossos associados, nomeadamente a complexa harmonização legislativa comunitária.

O próximo mês será de alta ansiedade. Às incertezas do Brexit junta-se uma nova fase da crise na Grécia, que estará de novo no limiar da saída da zona euro. As dificuldades gregas, onde o Governo do Syriza caminha sobre o fio da navalha (tem uma frágil maioria parlamentar), mostram que a crise financeira ficou por resolver. A própria União Europeia enfrenta uma crise existencial, consequência dos incompreensíveis erros que Berlim cometeu na crise dos refugiados. Era evidente que a Europa não podia receber 1,5 milhões de pessoas em poucos meses e que não poderá receber outro tanto este ano. Os países vão ser obrigados a fechar as fronteiras ou, se o não fizerem, terão de receber uma quantidade de migrantes impossível de gerir. A Alemanha apostou numa política moralista que visava expiar pecados do passado e criou uma fractura europeia que promete ser difícil de reparar. Em cada país afectado, engrossam as forças demagógicas, populistas ou extremistas. Isto é só o começo.

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Pesada factura

por Luís Naves, em 26.04.16

Tendo em conta o resultado da primeira volta das presidenciais austríacas, a crise dos refugiados promete fazer muitas vítimas na política europeia. O vencedor da votação foi Norbert Hofer, com 36%, candidato apoiado pelo maior partido de extrema-direita (FPO) e que cavalgou o descontentamento popular com as hesitações governamentais na questão migratória. O seu adversário na segunda volta será um independente apoiado pelos Verdes, Alexander van der Bellen, que conseguiu 20%. A grande coligação de governo, semelhante à alemã (social-democratas e democratas-cristãos), foi humilhada: juntos, os candidatos do SPO e OVP somaram uns meros 22%.

Um sismo político já tinha atingido a Eslováquia a 5 de Março. A campanha das legislativas foi dominada pela questão dos refugiados, mas apesar de ser contra quotas europeias, o primeiro-ministro Robert Fico esteve perto de ser derrubado, por não ter uma posição suficientemente radical contra Bruxelas. O maior partido de centro-esquerda perdeu 18 pontos percentuais e foi forçado a organizar uma coligação instável. Uma formação tóxica de extrema-direita teve 8%. Somado este voto ao dos ultra-nacionalistas e populistas, o eleitorado eurocéptico representa um quarto do total e um dos três partidos anti-europeus entrou no executivo.

A irritação popular é evidente. Muitos eleitores pensam que não foram respeitadas as suas opiniões na crise dos refugiados, como não têm sido respeitadas as suas opiniões em relação aos efeitos negativos da globalização. Os populistas estão a avançar em cada nova sondagem ou eleição e assistimos ao aparecimento de figuras radicais. Infelizmente, em Portugal continua a pensar-se que estes países já não são democracias, basta ler as lamentáveis fantasias que se escrevem sobre Hungria ou Polónia, numa discussão que usa apenas argumentos de moralidade, que é a melhor maneira de encerrar qualquer debate logo de início. A Europa Central sentiu a crise de refugiados como nós não sentimos. Os eleitores austríacos concordaram com a tese de que a entrada súbita de dezenas de milhares de migrantes será uma catástrofe social, pois não há maneira de integrar tanta gente, “meio mundo” na propaganda de Hofer. As elites ignoraram os avisos, quiseram pôr-se do “lado certo da história” e, perante uma realidade em descontrolo, fizeram emendas piores que o soneto. Agora, chega a factura política e continuaremos a ler belas análises sobre como ignorar o óbvio “erro” dos eleitores.

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Se dependesse deste tipo de argumento, a direita estava tramada. Soma-se o número de pensões (como se fosse o número de pensionistas) com o de desempregados, funcionários públicos e cronistas políticos, chega-se ao número de seis milhões e conclui-se que Portugal depende do Estado e quem depende do Estado vota à esquerda, enquanto quem não tiver nada a ver com o Estado, se quiser defender os interesses pessoais, votará à direita. Considera-se que as pessoas não têm famílias, casam dentro do seu sector social e não têm pais pensionistas. O delírio e a lógica da batata vai por ali fora, a começar no título do artigo, O Partido do Estado (como se houvesse algum partido exterior, a flutuar no limbo).

Há só seis milhões de pessoas que dependem do Estado? O número até parece pequeno, pois as empresas privadas têm esgotos, precisam de estradas, escoam os produtos pela ferrovia; os ricos vão a São Carlos e alguns trabalhadores dessas empresas não-estatais até podem ter os filhos na escola pública, precisam por vezes de ir ao hospital e a polícia faz frequentes rusgas lá no bairro para os livrar da droga. E já ninguém dispensa iluminação pública à porta, abastecimento de água camarária, até lá na barraca têm disso.

Sem mais ironias. A separação de Estado e não-Estado como se fossem esferas antagónicas não é uma leitura neo-liberal, mas neo-realista. O articulista não entendeu o problema: o Estado cresceu demasiado depressa e não há economia para o sustentar com crescimento a tal ritmo, pelo que é preciso reformar o próprio Estado e essas reformas são difíceis de fazer, pois afectam os interesses de quem depende de serviços que mais ninguém faz. E, em certos casos, toda a gente pode depender desses serviços.

Mas a parte mais irritante do artigo de João Miguel Tavares é a presunção de que um desempregado, por estar desempregado, vota à esquerda, ou a ideia peregrina de que um funcionário público, se quiser defender os seus interesses de classe, deve votar à esquerda e será um “herói” se votar à direita. Isto é escrito por um autor que certamente usa serviços do Estado e exige ser bem tratado, na sua qualidade de cidadão com plenos direitos, incluindo o de escrever imbecilidades. Levando este tipo de raciocínio ao seu corolário lógico, todos os médicos, juízes, professores, pensionistas, militares, polícias, desempregados e respectivos periquitos votam à esquerda ou devem fazê-lo se quiserem manter os seus direitos e postos de trabalho (como se alguém, excepto o autor, quisesse alterar isso). Portanto, serão heróis se votarem nos partidos da direita. Do outro lado, estão os 3,8 milhões de empregados do sector privado, cujo interesse de classe está em votar contra a esquerda. Presumo que serão ‘traidores’ os que votarem a favor. Enfim, a insistir neste tipo de argumentação alucinada, a direita não irá longe, o que talvez explique que este cronista seja tão elogiado e citado.

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A queda

por Luís Naves, em 18.04.16

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Depois da estrondosa derrota na câmara dos deputados, Dilma Rousseff terá escassas hipóteses de impedir o processo de destituição; mesmo que consiga manter-se no poder, a presidente brasileira não tem condições para governar até ao fim do mandato. Estranho ‘golpe’: três em cada quatro deputados votaram a favor da saída de Dilma. A coligação que apoiava a presidente está desfeita e o descontentamento popular não permitiria mais dois anos e meio de pântano. O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.

Na imprensa brasileira escreve-se que Dilma e o PT cometeram erros tremendos, sobretudo ao longo do último ano e na campanha do segundo mandato (com vitória por pequena margem); a presidente hostilizou dirigentes dos partidos que a apoiavam, foi arrogante e queimou pontes, mas acima de tudo cometeu erros que acentuaram a recessão: o Brasil deverá perder 8% a 10% do PIB, o desemprego aumenta depressa, espera-se a recuperação apenas em 2018. Em Portugal, vemos notícias muito editadas, onde os apoiantes de Dilma parecem sempre melhor do que “as tias” que querem a destituição. Trata-se de uma fantasia, claro. O descontentamento popular é evidente, como foi óbvia a influência das manifestações de rua na escolha de muitos deputados. Se o avanço do processo fosse contra o desejo do povo, não tinha acontecido.

O PT está metido até ao pescoço num escândalo de corrupção sem precedentes e tentou obstruir a investigação judicial. Este partido também tentou criar um regime clientelar que se notou nas divisões da votação por estados: nos partidos hesitantes, os deputados das regiões ricas votavam contra Dilma e os das regiões pobres a favor. O país está dividido entre Norte e Sul. Na câmara, notavam-se as classes sociais, a questão racial, o voto evangélico contra Dilma, as fracturas partidárias, o caciquismo e o desespero dos deputados do PT. A crispação política parece ter ultrapassado um nível perigoso e as elites brasileiras não parecem à altura da crise. O sistema presidencial dificulta a válvula de escape de eleições antecipadas, o sistema eleitoral permite eleger deputados (geralmente chefes políticos locais) por algumas centenas de votos, o vice-presidente Michel Temer é também impopular, acusado de golpista pelos derrotados, os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.

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