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Cadáver Esquisito (15)

por Laura Ramos, em 28.05.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS13. NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO, 14. A INSPECTORA SONHA COM UM ESQUELETO

15

ST. MARY MEAD E A BASE NACIONAL DE ADN

 

Hoje, dia 28 de Maio, José Augusto levantou-se cedo e preparou-se com esmero para a sua romagem anual. Dormira mais uma vez nos Candais, mas já viera munido da competente farpela e atavios de circunstância. Não deu grande conversa a ninguém. Entre todos, só Vivelinda e a dona da casa conheciam esta sua escapadela misteriosa, mas não lhe sabiam o destino. Em frente ao espelho do quarto de vestir do falecido, ajeitou o nó da gravata de riscas azuis, verificou os vincos das calças, meteu o relógio ao colete e por fim, com indizível gozo, cravou com cuidado o emblema na lapela de lealíssima alpaca, respirando fundo. Queria sair muito cedo, era o dia da memória. Os outros legionários aguardavam-no, ainda tinha muitas horas de viagem até Santa Comba e mais: queria ir buscar o Bentley sem dar nas vistas. O Bentley que a sua Stella lhe vendera.

Entretanto, a recuperar de uma curta noite de sonhos agitados, a inspectora espumava de frustração: pior do que um quarto espeluncoso era acordar sem poder dispor do sagrado direito a um café. O mundo era uma desordem sem cafeína... Enquanto tirava do seu fiel estojo de emergência o milagroso concealer da Bobbi Brown (um, dois, três pequenos toques e adeus olheiras) ouviu o ruído ronceiro de um aspirador e de um salto já estava à espreita, a meio do corredor da pensão. Viu-a logo, à escrava do lar, vestindo uma farda de duvidoso asseio. Chamou-a, e nada. Decidida, aproximou-se, desligou o indolente Hoover do tempo da guerra de 14 e disse-lhe, sem rodeios:

Bom dia! Preciso urgentemente de um café duplo. Pode ir buscar-mo? – desferiu, enquanto lhe metia no bolso uma nota de 5. Atarantada, a rapariga retorquiu: – É p’ra já! M… m… mas vai chegar morno! – Não faz mal, é mesmo assim que eu gosto! Enquanto a empregada galgava as escadas, ainda lhe disse: E que venha bem servido, ouviu?

Entrou no quarto poeirento e ouviu o telemóvel. Enfim, o mundo parecia estar a compor-se! O visor piscava: “Paulo a chamar, Paulo a chamar”. Pronto, está bem… nem que fosse o mundo a normalizar-se pela mão dos chefes (jamais perceberia como chegara ele a coordenador de equipas especiais.... só mesmo à força da lei das calças. Ou seria a lei do avental…?) Tinham-se despedido zangados.
Paulo… então? – Helena, minha inspectora de eleição! Como estás tu?Péssima! Vou regressar ao Ministério Público, estou farta disto…

– Calma, minha cara! Porquê tanto azedume?O meu sentido de missão não suporta tanto, e tu não me dês sermões, sabes? Estás onde? No jogging da marginal, com a tua querida? – Helena… eu vinha justamente dizer-te que bem perto daí tenho uns amigos que te vão receber nos próximos dias, podes largar isso. Vais até Alvito e é logo na povoação a seguir: Vila Nova da Baronia. Ah, e não te esqueças de jantar no 'Camões', ouviste? Uma tasca imperdível!

– Hum...

– Mas o mais importante é que tenho dados novos: as amostras do cadáver seguiram para a 'Base Nacional de ADN'. Em breve teremos respostas sobre a identidade da vítima.

Boa, Paulo! Uma luz de civilização, enfim!

Desligou, procurou na lista “INML” (Instituto Nacional de Medicina Legal, 239854230) e perguntou: Posso falar com o Prof. Tiago da Veiga? – Não está, minha senhora – E sabe a que horas posso ligar para o encontrar? – Ele está no Kosovo, só deverá regressar a Coimbra dentro de três dias, mas se quiser…
Não queria e desligou, indelicadamente. Preferiu telefonar-lhe:Tiago? Olá… Helena Portas! Bem, Helena Cunha, tu sabes. Vou ser rápida:

Podes dar prioridade aos resultados dos testes de ADN de um suspeito meu? Por favor!, senão dou em doida! Não é só uma questão de celeridade processual, é que nem imaginas: estou em plena vila das Mónicas, no meio de um deserto na planície, tenho uma família de cromos para interrogar que não encaixa em nenhum perfil psicológico e... pura e simplesmente não sou Miss Marple, percebes? Este St. Mary Mead português vai dar comigo em doida!

– Vou tratar disso, Helena. descansa. Quando nos vemos?

E eu sei lá, Tiago...  Estás mais por Lisboa do que eu, marca.

Fechou a pequena mala, prescindiu de puxar a asa telescópica para quê? e desceu:

Quanto devo? – Quarenta euros.

Abafou um riso.Olhe, pegue 41 e mande arranjar a máquina do café, faça uma quotização entre os seus hóspedes…

– Oh, também não temos cá mais ninguém: só o Sr. Sebastião Cosme (mas é segredo...) e o Senhor Fernando Justo Cusca, das Finanças…
E antes que me esqueça: deixaram uma carta para si, Inspectora. Aí tem.

Helena saiu, enfrentou o sol impenitente e o cheiro provocador dos jasmins a cobrir a sacada da pensão, toda em barras azuis. Estivesse ela em férias e...

Abriu a carta e leu, numa caligrafia encadeada e elegante, bem pouco ao gosto português, o seguinte:

– Não se deixe levar. Os medalhões não são iguais. Atente na palavra “memoriam” no verso da foto, e, se pegar numa lupa, na letra “O” do medalhão verdadeiro verá em pontilhado uma outra palavra: Cosmus.

 

(Este é o décimo quinto capítulo do nosso 'cadavre exquis', desenvolvido aqui. O próximo criador é o Luís M. Jorge.)

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Cadáver Esquisito (14)

por João Carvalho, em 21.05.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS13. NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

14

A INSPECTORA SONHA COM UM ESQUELETO

 

"Alguns deles sabem mais do que dizem." Enquanto pensava assim, Helena Portas deixava que os olhos voltassem a percorrer as paredes e o tecto do quarto minúsculo, iluminado pela lâmpada fraca do pequeno candeeiro de cabeceira. "Chega-se a inspectora com tanto trabalho e ainda a gente tem de sujeitar-se a ficar numa espelunca destas."

A espelunca alvo da queixa que Helena acabava de apresentar aos seus botões era a única pensão da aldeia, cuja vantagem consistia simplesmente em ficar situada nas proximidades das ruínas d' Os Freixos e de permitir que a inspectora se mantivesse perto dos envolvidos no caso.

Às tantas, os seus olhos já não passavam as imagens das paredes e do tecto ao cérebro, que estava cada vez mais ocupado com a tentativa de reunir elementos que fossem úteis para a investigação.

Helena insistia com os seus botões: "Alguns deles têm de saber mais do que dizem." Mas não podia queixar-se: Helena não lhes dera conta do mínimo que os deixaria enquadrar o crime que a levara à aldeia, o que gerara certamente desconforto entre eles. Por isso, era natural que também eles a recebessem com frieza e desconfiança. Tinham-lhe até dito qualquer coisa sobre o facto de lhes ter aparecido à frente sem qualquer mandato. "Que atrevimento, o deles." Mas estava visto que ia precisar de progredir com muito tacto, sem dúvida.

Pegou no telefone sobre a mesa-de-cabeceira. Nada. Estava mudo como as paredes e o tecto. Pousou-o, saiu do quarto, desceu os dois lanços de escada até ao balcão da entrada e dirigiu-se ao ensonado empregado.

— Queria um café no quarto, por favor.

— Café não é possível – respondeu o homem quase num bocejo. – A máquina está avariada.

— Podem levar-me um chá, então? – indagou Helena, contrariada.

— Está bem, minha senhora.

Novamente no quarto, a inspectora tentava reunir mentalmente o que sabia para mais tarde encaixar tudo com a lógica possível. O chá não era realmente o que queria, mas os goles pequenos na bebida que quase lhe queimava a boca estavam a despertar-lhe as celulazinhas cinzentas para relembrar os personagens com quem estivera nesse dia e aos quais iria seguramente dedicar toda a sua atenção por uns tempos. "Dois deles vão ter de me explicar muito bem o passado enevoado que procuram alegadamente disfarçar. Basicamente, dar-lhes-ei uma janela de oportunidade, mas eles terão de pôr a verdade em cima da mesa."

Helena sabia bem o que queria arrancar desses dois. "João Cosme foi cego e vai ser preciso saber o que aconteceu durante o incêndio d' Os Freixos para ele ter recuperado a visão sem mais nem menos nessa altura. Depois, há ainda aquela Valeriya, que se pensava ter morrido nas chamas e que agora está de regresso à vida sem que se perceba por onde andou. Correu à boca fechada na aldeia que ela costumava aparecer no bosque em noites de trovoada como uma alma penada, com uma caveira nas mãos. Uma caveira sorridente, imagine-se!"

Na cabeça da inspectora avolumava-se e adensava-se o turbilhão que lhe tomava os sentidos. "Alexander, o pianista que morrera, por exemplo: que saberão os outros dele? Alguém desconfiará que foi o homicida? Quem teriam sido os seus cúmplices?" O dia seguinte prometia ser duro e ia mesmo requerer grande tacto nas abordagens.

Tudo isto Helena desfiava pela noite adiante, até se recordar do pequeno segredo do professor José Augusto. "O homem faz uma vida recatada, quase humilde, mas esconde um velho e imaculado Bentley branco n' Os Freixos, por trás daquela torre sinistra. Quem saberá disto? Por que esconde ele o carro e como é que o tem?" Na Judiciária tinham-lhe dito, antes de partir, que havia de aparecer algures uma luxuosa limousine clássica que já pertencera a uma 'bifa' chamada Stella. "Deve ser esse, o carro misterioso."

Já deitada na cama, a inspectora decidira que, no dia seguinte, começaria a participar-lhes os dados mínimos que pudessem ajudá-la a tê-los na mão e a fazê-los abrir as bocas. E adormeceu para um sono irregular e agitado, com imagens que se confundiam e em que se destacava um cadáver esquisito. Por sinal, já mais esqueleto do que cadáver. Ainda por cima, um esqueleto com os olhos inflamados. Que sonho mais estranho. Um esqueleto com os olhos inflamados? Ninguém conseguiria dormir descansadamente com um pesadelo destes atravessado nos miolos, lá isso é certo.

De manhã, ainda cedo e já a pé, Helena parecia o Zorro. Ou um dos irmãos Metralha. Era das olheiras.

 

(Este é o décimo quarto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Laura Ramos.)

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Cadáver esquisito (13)

por José Navarro de Andrade, em 14.05.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS

13

NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

 

– Os meninos já se deitaram?

Vivelina enquanto vertia o chá da lua cheia, pálido e fumegante:

– Tudo nos conformes, o menino João Cosme com a bifa – detestava-a e não conseguia tratá-la de outro modo – a retemperar das agruras do dia. Que bem os oiço resfolegar como dois coelhos. O rapaz desde que abriu os olhos parece que os abriu todos à uma.

– Os coelhos não resfolegam – cortou seca a madrinha ao queimar a língua na borda da chávena. Ordinarices na minha casa é que não, santa paciência…

– O Eduardo, esse não ata nem desata, já ronca.

Pobre, pobre, Eduardo que não ata nem desata. À falta de melhor ideia, a madrinha apreciava repetir os ditos pícaros da Vivelina.

Jantar e frugal. De portadas cerradas. Tudo na cama nem que fosse até à hora do lobo – e depois era com cada qual, entregue ao que o destino lhe reservava. Assim determinou a velha senhora madrinha, já basta o que basta.

– E o professor?

– Ainda está na cama a ler. Derreado desde de manhã. Pudera.

A manhã fora um circo, qual telenovela mexicana em que, como toda a gente sabe, o interesse do espectador é acicatado por uma intriga trôpega, de passo trocado, às cabeçadas e aos esses.

A inspectora lívida com o repente do professor, ainda o corpo etéreo de Valeriya não tocara no chão e os circunstantes também eles de boca aberta, tão inédita fora a cólera que eriçou as suíças e congestionou as maças do rosto de um homem por demais habitual:

– Viu o que fez? A senhora ou diz ao que vem e que provas tem contra nós ou aqui só volta com mandato. Muitos telefonemas hão-de correr antes disso, esteja certa.

E lá abalou a inspectora pela esquerda baixa, apanhada em flagrante falta de prova de delito sem, no entanto, deixar de franzir o cenho anunciando ser este assunto agora pessoal.

João Cosme a desanuviar:

– Aqui está uma que sabe mais do que diz.

– Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. – Isto era o professor cada vez menos em anticiclone, abaixando a pressão sanguínea no rosto – rondam, vasculham, interrogam e depois não encontram nada que faça prova, é o costume. É da maneira que se acabou o telefone, vão pôr-se à escuta, tão certo como eu me chamar José Augusto.

Vivelina soltou uma gargalhada, débil, ainda lhe doíam os miolos, mas acintosa quanto baste.

E numa voz álgida, vinda doutras épocas, de velhas alianças e em tom semi-bíblico, o professor proferiu direito a ela:

– Դուք չեք կարող տեղադրել կրակ դուրս թքել.

Ao que Vivelina dobrou a cerviz como os meninos nunca a viram dobrar:

– Այո Ձեր պատիվ.

“Eh lá!” exclamaram os irmãos Cosme: João estupefacto, Eduardo arregalado.

– Tratem disto, andem – bateu a madrinha com a bengala no chão à moda dramática que em nova vira nos palcos de Paris, uns dramalhões de condes, marquesas e cocheiros embrulhados até ao último acto. Apontava para o persistente desmaio de Valeriya – vocês querem ver que…

 

De noite outra vez, outra vez a madrinha para Vivelina:

– E o que lhe fizeram?

– Jaz morta e arrefece. Deixaram-na amortalhada na cave.

– Ó deus, que mau gosto vir com ironias poéticas numa hora destas. Só você, mulher…

E subiu ao quarto, a deitar-se na cama longamente aquecida por José Augusto.

Ninguém tocara entretanto nas medalhas esquecidas sobre a mesa da cozinha.

 

(Este é o décimo terceiro capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do João Carvalho.)

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Cadáver esquisito (12)

por José Maria Gui Pimentel, em 07.05.12

1. UM LIVRO2. CA...... SARKIS G........N3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA7. O MEDALHÃO8. O SEGREDO9. LABIRINTOS10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA11. UMA VIAGEM

12

REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS 

 

— 1937… cinco anos antes, portanto – reflectiu Helena Portas durante uns segundos, e o sorriso que deixou escapar antecipou a pergunta que Valerya temia. Oiça – tornou a inspectora encarando a criada  A senhora nasceu em Portugal?

Valerya sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Tantos anos a aperfeiçoar a sua personagem, e de repente todos os seus pontos fracos começavam a sobressair. Mas que raio de ideia deixar o livro sobre a cama de João, indagava-se, embora não conseguisse, ainda, encontrar uma ligação entre esse acto e os eventos subsequentes, outra que não fosse a ligação ao seu passado escondido.

Porém, antes que a criada tivesse tempo de, em vão, procurar um meio de fintar a pergunta da inspectora, João Cosme, instintivamente, interveio para a salvar.

Nossa, cara – rugiu Cosme, deixando, como lhe acontecia frequentemente quando ficava nervoso, transpirar uma expressão absorvida numa qualquer telenovela brasileira. Senhora inspectora, com todo o respeito, julgo que antes das suas perguntas merecemos uma contextualização. Que assassínio está a investigar? E o que tem isso a ver com Os Freixos?

Helena Portas pareceu aperceber-se do modo desordenado como a conversa se havia desenrolado e decidiu aceder ao pedido.

Bom… Como dizia há pouco, foi encontrado um corpo, não longe daqui. O homem em causa parecia ser estrangeiro e estava estranhamente despojado de pertences, exceptuando dois pequenos objectos. O primeiro um papel amarfanhado onde se podia ler a direcção d’Os Freixos. Logicamente não conhecia a propriedade, mas conhecia o relato do incêndio, e numa terra pequena como esta não demorei muito a chegar a vossa casa.

Mas é o segundo objecto que mais me intriga – prosseguiu a inspectora Isto diz-vos alguma coisa? – inquiriu, enquanto arrancava do bolso um medalhão de São Rafael Arcanjo, em tudo idêntico ao que havia causado tanto sobressalto minutos antes.

Sem que ninguém tivesse tempo de responder, ouviu-se uma voz aguda.  

Meu Deus, nunca pensei voltar a ver esse medalhão em vida – lançou sorrindo a inefável madrinha de João Cosme, irrompendo silenciosamente pela cozinha. Valerya já não a ouviu, caída, de novo, desta feita no chão da cozinha.

 

(Este é o décimo segundo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Navarro de Andrade.)

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Cadáver esquisito (11)

por José Gomes André, em 30.04.12

1. UM LIVRO2. CA...... SARKIS G........N3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA7. O MEDALHÃO8. O SEGREDO9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA

11

UMA VIAGEM

 

Valerya não lhe respondeu. Um pesado silêncio preenchia a sala, entre rostos cabisbaixos e esgares de incómodo. João Cosme esboçou um leve sorriso. Também ele estava surpreendido com aquela estranha revelação, a de um livro com uma data escrita aparentemente dez anos antes da sua publicação. Mas a primeira – a única – resposta que lhe ocorreu para tão invulgar mistério era tão simples quanto divertida. Talvez aquele número rabiscado tivesse sido de facto escrito em 1942. Nada de tão anormal assim, para um homem que durante anos devorara H.G. Wells, Sprague de Camp e Michael Moorcock. Que passara infindáveis tardes imaginando-se para lá dos limites do tempo, capaz de superar as barreiras da física e de conhecer outras realidades, outros homens, outros mundos. Porventura recuar até à época em que os seus dias não eram ainda turvos e o crepúsculo não teimava invadir os seus pensamentos.

1937 – disse em voz baixa Valerya, rompendo o silêncio da sala e cortando abruptamente a intempestiva reflexão de João Cosme.

 

(Este é o décimo primeiro capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Maria Gui Pimentel.)

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Cadáver esquisito (10)

por José António Abreu, em 23.04.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO9. LABIRINTOS

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FRAGMENTOS DE HISTÓRIA

 

– Entre, por favor. Sente-se.

João Cosme puxou uma cadeira para a inspectora enquanto Eduardo continuava a tentar lembrar-se de onde é que a conhecia. Acabou por decidir que tinha de ser da televisão. Devia lembrar-lhe Catarina Furtado naquela série policial da RTP.

– A que devemos a sua presença? – perguntou. Estava satisfeito por ter chegado a uma conclusão e ligeiramente excitado pela descoberta de que também na vida real há mulheres-polícia atraentes.

Helena Portas ignorou a cadeira e olhou em volta, avaliando o grupo.

– Moram todos aqui? – perguntou.

– Não – respondeu o professor José Augusto. – Nem eu nem a menina Stella aqui residimos.

A inspectora pareceu hesitar. Eduardo insistiu:

– A que devemos a visita da Judiciária?

– Estamos a investigar um assassínio.

No silêncio que se seguiu, o ruído de Valerya pousando a cafeteira sobre o fogão pareceu excessivo.

– Quem é que foi morto? – perguntou Eduardo.

Mas Helena Portas observava as costas de Valerya. Quando falou, fez à pergunta de Eduardo o que fizera à cadeira de João Cosme – ignorou-a.

– Segundo creio, várias das pessoas aqui presentes têm ligações à propriedade conhecida por Os Freixos, não é verdade? Algumas até lá moravam na altura em que foi destruída por um incêndio…

O olhar de João Cosme cruzou-se com o de Eduardo. Perguntou, brusco: – E o que é que isso tem a ver com o assassinato? Descobriram lá algum cadáver? Toda a gente sabe que na altura...

– Toma café, senhora inspectora? – perguntou Valerya.

A intervenção pareceu sobressaltar Helena Portas. – Não, obrigada. – Voltou a prestar atenção a João Cosme: – Dizia…

Mas Stella antecipou-se a Cosme:

– Senhora inspectora, eu não tenho nada a ver com este assunto. Posso ir-me embora?

– Deixe-se estar. Talvez ainda possa ajudar.

– Não, eu...

– Deixe-se estar.

Stella fez beicinho mas remeteu-se ao silêncio. De súbito, a inspectora reparou no livro, pousado em cima da mesa.

– Posso? – Sem esperar resposta, pegou-lhe e abriu-o. Houve um lampejo de reconhecimento nos seus olhos. – De quem é este livro?

– Apareceu cá em casa – explicou João Cosme. – O professor diz que deve ter pertencido a Calouste Gulbenkian.

– Não sabem quem o trouxe?

– Não – respondeu Cosme, enquanto Valerya se voltava de novo para o fogão.

Helena Portas mordeu o lábio inferior, levando Eduardo a pensar que talvez não fosse por causa das parecenças com Catarina Furtado que ele julgava conhecê-la.

– Como deverão saber, Calouste Gulbenkian era arménio. Já ouviram falar no genocídio arménio, ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial?

Só o professor José Augusto reagiu de forma clara:

– Com certeza. Mas o que é isso tem a ver connosco?

– Talvez nada. Mas o corpo que descobrimos… enfim, parece ser estrangeiro. E há histórias dessa época muito interessantes. Por exemplo, sabiam que quando Ataturk subiu ao poder na Turquia, em 1922, o último sultão do império otomano, Mehmet Sexto, fugiu para Malta levando com ele uma rapariga de dezoito anos? Ele já tinha mais de sessenta. Fê-lo contra a vontade dela, contra a vontade do pai dela, que fora jardineiro no palácio, e contra a vontade do noivo dela, um capitão da marinha.

João Cosme estava impaciente. Repetiu a pergunta do professor:

– Mas o que é que isso tem a ver connosco?

Helena Portas esboçou um sorriso.

– Nada, certamente. É apenas uma história curiosa. – Voltou a baixar os olhos para o livro. – Como curiosa é esta data: 1942.

– Porquê? – admirou-se o professor José Augusto. – Foi o ano em que Gulbenkian chegou a Portugal.

– É verdade. Em que alegadamente ficou doente e teve de permanecer cá mais tempo do que o previsto.

– Alegadamente? – estranhou Eduardo.

Helena Portas ignorou-o.

– Não é tanto a data em si que é curiosa mas o facto de estar neste livro. A primeira edição de Wise Blood ocorreu na década de cinquenta. – Rodou, ficando de frente para as costas de Valerya. – Diga-me uma coisa, por favor: em que ano nasceu?

 

(Este é o décimo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Gomes André.)

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Cadáver esquisito (9)

por Ivone Mendes da Silva, em 16.04.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO

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LABIRINTOS

 

Um nome, dizem crenças antigas, pode ser novelo de feiticeira em que se aprisiona ou comanda uma vida, máscara e abrigo. Espelho até, diz-me como te chamas e dir-te-ei por onde irás.

Valeriya, subitamente trazida até à claridade mágica de um nome que há muito a não procurava, emergia grave, quase solene, do casulo nocturno a que fora arrancada para a inesperada metamorfose que as palavras de José Augusto tinham precipitado.

- Quem?! – repetiu João Cosme, olhando alternadamente para ela e para José Augusto que parecia agora uma criança que, desastradamente, fez cair com estrondo um pote de faiança no chão da cozinha.

- Desculpe… eu… não sei…

- Você é um bom homem, José Augusto – disse ela de voz já diferente – e um bom homem é difícil de encontrar.

Eduardo impacientou-se. Os títulos de Flannery O’Connor pareciam um código cujo entendimento lhe estava negado. Tomavam-no por simples, bem sabia e convinha-lhe, desde há muito, que assim o fosse. Os acontecimentos, todavia, tinham tomado o freio nos dentes e decidiu que não, não ficaria de fora. Wise Blood, também ele o tinha e era agora ou nunca. João Cosme que saísse sozinho daquele labirinto.

- Bem – tomou o medalhão de cima da mesa e olhou a fotografia esmaecida – um medalhão de São Rafael Arcanjo… encontros felizes, talvez… e este, como é que é mesmo… este Alexander, quem é? Valeriya?

Ela deu meia dúzia de passos em direcção à janela e parou. Ficou uns minutos em silêncio e virou-se, depois, para aquele grupo imóvel. Parecia uma fotografia antiga, daquelas em que ninguém sorri para a câmara num temor reverencial de que lhes levem a alma no clarão do flash.

- Sentem-se. Vou fazer café.

A azáfama habitual dos gestos dela transmutava-se numa coreografia lenta em direcção aos objectos,  as  mãos passavam sobre as coisas, estranhamente alongadas, mãos antigas vistas à renovada luz do dia que começava.

A campainha da porta tocou. Uma vez e outra.

- Stella, would you mind?

E Stella voltou, atarantada. Uma inspectora da Judiciária, pelo menos era o que tinha percebido.

- Para quê? Para quem?

Eduardo olhou a rapariga de andar eficaz que entrou na cozinha. Parecia-lhe familiar mas, naquele momento, até as coisas mais bizarras lhe pareceriam familiares.

Deu uns bons dias afáveis e mostrou a identificação:

- Portas. Helena Portas.

 

(Este é o nono capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do jaa.)

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Cadáver esquisito (8)

por Helena Sacadura Cabral, em 09.04.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO

8

O SEGREDO

 

João e Eduardo não sabiam que fazer a Vivelinda que, por mais que a abanassem, parecia não dar sinal de vida.

- Porra, será que morreu?

- É pá, não vês que respira?

- Traz vinagre ou amoníaco.

- E onde é que encontro isso?

- In the kitchen, just here, respondeu Stella ainda mal recomposta dos orgasmos que não chegara a ter, com a fuga inopinada de João Cosme.

 

O efeito do vinagre fez-se sentir. A pseudo morta começou a entreabrir as pálpebras. Mas a cor do rosto permanecia cal. Aos poucos e com a ajuda dos dois homens, conseguiu levantar-se e amparada sentar-se numa cadeira junto à mesa. Pediu um copo de água e olhou o medalhão que estava em cima dela, ainda aberto. Como foi possível o medalhão não ter ardido n´Os Freixos, perguntava a si própria, ainda zonza.

- Alexander, exclamou, quando lhe trouxeram a água.

- Quem é o Alexander? perguntou Cosme.

- Alexander, continuava ela.

Who is Alexander? questionava Stella, que ansiava recuperar Cosme para o trabalho inacabado.

- The pianist, exclamou Vivelinda, que deixou todos boquiabertos, perante a correcção do seu inglês.

- Where, where did you find the locket? Inquiria ela sem se dar conta da língua em que falava e do rebuliço que estava a causar.

- Alexander, the man I loved…and the killer…

 

José Augusto, que entretanto acordara, perguntou o que se passava. Eduardo apontou para o medalhão e de repente, viu-o lívido, balbuciar … Alexander?

- Também conhece o homem? ripostou Cosme.

-  Alexander, o assassino, murmurou.

-  Assassino de quem? perguntaram os outros em uníssono.

-  É uma longa história que só a Valeriya pode contar.

-  Quem?!

 

(Este é o oitavo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Ivone Costa.)

 

(Esta é a saga que será o próximo best seller da escrita a várias mãos!)

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Cadáver esquisito (7)

por Fernando Sousa, em 02.04.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA

7

O MEDALHÃO

 

Eduardo não pregou olho, atento ao relógio de ponteiros brilhantes e ao trinco da porta da rua, ruído que conhecia bem por motivos que não vêm agora para o caso.

À hora que se arrependia de não ter ido também aos Freixos, desesperava João com as instruções amorosas da bifa – to the left, to the left – e pela tardança que se fazia para as escavações das ruínas, donde lhe chegava agora um gemido de vem, vem, vem, a que, num salto, decidiu acudir; ao sinal luminoso da torre juntava-se o sonoro.

- Sorry, tenho de ir.

- What the fuck? – queixou-se Stella.

Por isso, quando ouviu o trinco, e logo a seguir outro, Eduardo saiu para o corredor e entrou sem bater no quarto de João, que obviamente não o esperava às 4 da manhã:

– FO-FO-DA-SE, PÁ! – soltou o recém-chegado.

– Shuuuuuu! Caaalma!

Valeu aos dois que o interesse de Eduardo em saber como tinham corrido as pazadas correspondia à ânsia de João em mostrar o espólio da noitada; há dias que era só torrões, uma chatice. Até tinham encontrado um clip.

– Olha – convidou, num tom de tensa expectativa, o cavador.

Despejando os bolsos tirou uma moeda de 5 escudos, uma chave ferrugenta, talvez de um cofre, e um medalhão de São Rafael Arcanjo, patrono dos cegos, dos viajantes e dos encontros felizes, que aberto nas costas mostrava um retrato desfigurado pela humidade.

– Tenho de mostrar isto a Vivelinda – disse João.

Tarde. À porta, acordada pelos pequenos ruídos e sussurros que as noites aumentam, a criada, desgrenhada e de camisa de noite, com os olhos esbugalhados postos no medalhão, levou a mão ao peito, deu um grito que arrepiou o solar e caiu como um saco.

 

(Este é o sétimo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Helena Sacadura Cabral.)

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Cadáver esquisito (6)

por Patrícia Reis, em 28.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS

6

TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA

 

João Cosme, por princípio, não gostava de fazer nada sozinho. A ideia aterrorizava-o desde miúdo, é certo. Coisas da cegueira, sim, um psiquiatra tinha explicado e dado o aval à sensação. Ter esse temor – a solidão – certificado por um médico, dava-lhe um certo conforto. Lembrou-se, de repente, de Vivelinda. Ela saberia o que fazer, mesmo sendo analfabeta. Era ela ou a imagem dela que lhe surgia quando o chão parecia estar incerto.

 

Cosme suspeitava de muito, sabia, porventura, pouco, mas acreditava que Vivelinda tinha um poder qualquer. Encarou Eduardo com uma certa frieza. Uma frieza de cabeça. Sim, podia ir sozinho, não fazia mal.

 

Mas primeiro haveria de tratar dos desejos de Stella, aquelas pernas à sua espera, ele a tactear, cego de outra natureza.

 

- Ó Lord! João, João, não me vejas, mas toca-me, sim, aí mesmo, um pouco mais à esquerda. To the left, to the left. 

 

Não olhando para a enorme cicatriz de Stella, ignorando essa pele enrugada, fruto de maus tratos ou má vida, Cosme não saberia dizer, aguardaria pelo momento do orgasmo – um ou dois, no caso dela. Sexo, puro e duro, no sossego da aldeia, sempre na esperança de que alguém possa ouvir e relatar, admitia interiormente, com um certo prazer. Isso, isso teria a sua graça. Sobretudo se o rumor chegasse aos ouvidos de Eduardo. Ele, um homossexual disfarçado. Lamentável, diria Vivelinda. O raio da mulher sempre presente, até nos pensamentos eróticos de João Cosme.

 

(Este é o sexto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do Fernando Sousa.)

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Cadáver esquisito (5)

por Bandeira, em 19.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS4. ESCAVAR

5

IN VINO VERITAS

 

João Cosme dedicou algum do seu tempo à leitura de Wise Blood. A história do cágado não lhe saía da ideia. “Se o sonso do Eduardo tiver a razão que assiste aos simples e aquilo que busco estiver mais perto do que eu pensava, o que há a fazer é parar e ficar atento ao que se passa à minha volta”, decidiu. Fechou o livro sem se preocupar em marcar a página. “Wise blood” era, para um dos personagens de O'Connor, o conceito algo irreligioso de que algumas pessoas nascem já equipadas com um instinto orientador do rumo da sua própria vida, sem necessidade de guia ou conselho, espiritual ou outro. Pareceu a João Cosme que a definição lhe assentava como uma lapa assenta na rocha. Não terminaria o livro. Se já antes se tinha em boa conta, estava agora seguro de que trazia em si, como um vinho centenário, todas as respostas para todas as perguntas do mundo. O que lhe faltava era o saca-rolhas; e o saca-rolhas só podia ser, dizia-lho a glândula pineal (ou outra parte do cérebro mais obscura ainda) a Vivelinda. A partir desse momento, os olhos antes cegos de João Cosme estariam atentos a todos os movimentos da criada.

Vivelinda deitara-se no seu esconso quarto das águas-furtadas. Tinha o hábito de gozar, logo após a azáfama do almoço, uma sesta de uma hora. Era o momento em que toda a gente, à excepção da madrinha de João Cosme (que há anos julgava tricotar um qualquer peça de roupa quando mais não fazia que agitar desajeitadamente as agulhas) estava fora de casa. Sem a sesta, talvez Vivelinda não aguentasse a carga: a sua não era uma vida fácil. Os dedos finos e compridos de pianista, dantes habituados à delicadeza dos pincéis, estavam agora calejados e embrutecidos pelo serviço de todos os dias. E depois, sentia a falta da algazarra das crianças. Como pudera João Cosme, uma delícia de menino quando cego, transformar-se no arrogante empedernido que passara a ser depois do milagre no incêndio d’Os Freixos? Depois de nisto reflectir, fechou Vivelinda os olhos e sonhou sobre o destino redentor que João iria dar ao livro que ela lhe deixara, furtiva, sobre a cama.

Ao jantar, como era seu hábito, Eduardo e João Cosme deitavam olhares furtivos à janela de portadas sempre abertas que dava para os lados da torre. Ambos tinham uma secreta esperança de que, por uma vez, nada sucedesse. E no entanto, pelas nove e meia, uma luz amarelada cintilou através de uma fresta da velha ruína. Recordando o fugaz episódio do pequeno-almoço, o professor José Augusto perorava sobre a visita que recentemente fizera a uma exposição sobre a vida e obra de Calouste Gulbenkian na fundação a que o mecenas arménio dera o nome e  muito mais. João Cosme olhou para Eduardo. Este devolveu-lhe o olhar. Uma estranha resolução, invulgar nele, cobria-lhe a face. Parecia dizer: “Não. Hoje vais sozinho”.

(Este é o quinto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Cláudia Köver.)

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Cadáver esquisito (4)

por António Manuel Venda, em 12.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS

4

ESCAVAR

 

Talvez chegassem ao outro lado do mundo sem encontrarem alguma coisa que os fizesse verdadeiramente sentir que valia a pena escavar. Isto costumava pensar Eduardo nos regressos d’Os Freixos, principalmente nas madrugadas em que recolhiam a casa sem nada que pudesse trazer-lhes algum progresso naquela busca desenhada sem regra nem esquadro na cabeça doida de João Cosme. Lembrava-se de uma história que tinha lido em tempos, de um homem que era muito senhor da sua vontade e que tinha encontrado um cágado pela primeira vez. Um cágado real, bicho que só conhecia dos livros, e ainda por cima um cágado estranhamente rápido, pois em menos de nada se tinha escapado para um buraco. O homem muito senhor da sua vontade tinha metido na cabeça que haveria de apanhá-lo, tanto que depois de uma tentativa mal sucedida com uma vara comprida tinha ido buscar uma pá. Também ele, como Eduardo, escavava. Escavava, escavava, e nada. Eduardo lembrava-se bem da história, principalmente durante a sua labuta nocturna n’Os Freixos, tentando seguir os ritmos despassarados de João Cosme. E lembrava-se de o homem ter ido parar ao outro lado do mundo, onde as pessoas andavam de cabeça para baixo; e do cágado, até lá, nem sinal. Tanto que tinha decidido voltar à sua cidade – o homem muito senhor da sua vontade, não Eduardo, que em vez da própria vontade seguia sempre a vontade de João Cosme, fosse lá ela qual fosse. Ao chegar à cidade, que era onde começava o buraco entretanto alargado com a pá, o homem deu de caras com a maior montanha da Europa, feita da terra que ele próprio tinha ido tirando primeiro para alargar o buraco e depois para avançar em busca do cágado. Como era muito senhor da sua vontade, e agora o que queria era tapar o buraco, meteu-se ao trabalho, sempre de pá na mão. E conseguiu remover a montanha para dentro do enorme buraco. Quando apanhou a última pazada de terra, precisamente a primeira que tinha tirado do buraco uns tempos antes, descobriu um pequeno volume que se mexia. Era o cágado.

Por isso, pensando na história do cágado e do homem muito senhor da sua vontade, um dia Eduardo decidiu falar dela a João Cosme.

– Uma história com um cágado! – admirou-se este – Alguma história da sabedoria popular?!

– Não, é de um escritor muito conhecido, e nem só como escritor – explicou-lhe Eduardo. – Chamava-se Almada Negreiros, já morreu...

– Isso eu sei, que morreu – disse João Cosme. – Só não sei para que nos serve a história.

Eduardo resumiu-a e João Cosme pareceu subitamente interessado.

– Achas que podemos andar a escavar para nada, que aquilo que queremos pode estar bem mais perto do que julgamos?

Eduardo pensou nos incómodos da terra debaixo das unhas, e, mais do que isso, pensou nos incómodos ainda maiores das dores nas costas. Ao fim de uns instantes de hesitação, acabou por responder que sim, com a voz sumida. Mesmo assim João Cosme percebeu.

 

(Este é o quarto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do Bandeira.)

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Cadáver esquisito (3)

por Ana Vidal, em 05.03.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N

3 

OLHOS

 

Ca...... Sarkis G........n. Que coisa estranha, pensou José Augusto quando João Cosme lhe espetou o livro em frente do nariz, com ar pomposo e sem mais explicações.

- Diga-me lá que nome pode ser este, professor. Se não formos nós os dois, duvido muito que alguém decifre o mistério, aqui neste fim de mundo.

Olhou a velha capa escalavrada, a assinatura semi-ilegível e depois a expressão intrigada do seu interlocutor, que mantinha a pose de cumplicidade intelectual sem se dar conta de que era tão ignorante como todos os que desprezava. O nome parecia-lhe óbvio: Calouste Sarkis Gulbenkian, o arménio-maravilha que em época de tormenta europeia se encantara com a placidez de Portugal, a ponto de eleger o país como seu herdeiro universal. O "senhor cinco por cento", ele mesmo, em assinatura manuscrita. O enigma não estava no nome, mas na presença do livro naquela casa. O professor sabia, por dolorosa experiência própria, que aquele bando de iletrados jamais se interessara por literatura. Mas não podia dizer isso ao seu anfitrião, por isso se limitou a olhá-lo e a dizer, maquinalmente:

- Este livro pertenceu a Calouste Gulbenkian e está assinado por ele. Hum... 1942, confere. Não há mistério nenhum. E agora tenho de ir, se me dá licença. Os meus alunos esperam-me.

Com a pressa não viu, ao sair, a expressão profundamente alterada do outro.

 

Vivelinda abafou uma gargalhada trocista ao lembrar-se da exigência do "patrãozinho João", como lhe chamava às vezes só para o provocar. Afinal tinha-o quase visto nascer, conhecia-o por dentro e por fora. Depois do horrível incêndio d'Os Freixos, fora com ele para a casa dos padrinhos naquela malfadada noite. Ela sabia todos os segredos da família, e não eram poucos. Nem leves. João não sabia, por exemplo, até que ponto ela conhecia bem a cama em que ele dormia agora, muito antes de ele se ter deitado nela pela primeira vez. Mas não se importava com a sua actual situação. Era assim mesmo que tinha de ser. Vivelinda, a analfabeta, nascera no exacto momento em que as chamas tinham devorado Valeriya Sarkis Kaprelian, a célebre pintora exilada. Agora era D. Linda, criada para todo o serviço. Todo mesmo, pensou, com um sorriso irónico. Üsküdar era pouco mais do que uma longínqua memória de tempos dourados.

 

Eduardo escondeu as mãos nos bolsos, envergonhado e inquieto, ao aperceber-se de que tinha ainda terra preta debaixo das unhas. A terra d'Os Freixos, maldita e hipnótica, que lhe consumia as noites de vigília em cada "expedição" com João Cosme. A peregrinação era certa sempre que se acendia o sinal nas ruínas da torre, mas o que iam lá fazer nenhum dos dois sabia ao certo. Escavavam, simplesmente, guiados por aquela voz que os assustava, em busca de um passado glorioso e trágico que teimava em esconder-se deles. De vez em quando eram recompensados com um ou outro objecto, que geralmente lhes trazia mais perguntas do que respostas. Não tinha sido o caso da véspera, tinham voltado uma vez mais de mãos a abanar. Quem sabia, calava. A madrinha de João, por exemplo. Uma velha enigmática, tão estranha como as roupas que vestia. E D. Linda, a empregada com porte de rainha... ah, essa sabia muito mais do que dizia, tinha a certeza! Tudo naquela casa era uma teia de mentiras, mas ele viciara-se no jogo e agora era já tarde para escapar. O seu próprio passado o empurrara um dia para ali, onde o esperava a busca desesperada por um passado alheio. Ou era o seu, afinal? Já não sabia nada, a não ser que os seus olhos mudavam de cor quando a noite caía, e que só naquela terra perdida no mapa encontraria a explicação desse fenómeno. Também João Cosme já fora cego e a partir daquela estranha noite passara a ver. Decididamente, alguma coisa os unia. E havia ainda Stella, a bela Stella. A bifa, como era conhecida na aldeia.

 

(Este é o terceiro capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do António Manuel Venda.)

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Cadáver Esquisito (2)

por Ana Cláudia Vicente, em 28.02.12

1. UM LIVRO

2

CA...... SARKIS G........N

 

Bastou a João Cosme um esfregar de olhos mais acordadiço para perceber que o livro havia de ser obra de bifes. Vamos e convenhamos: depois de uma mão cheia de filmes de estio na praça da vila, as garatujas da capa não exigiam um Detective Varatojo.

Já a aparição daquele volume ali, no seu quarto, o quarto do seu falecido padrinho, na exacta madrugada do regresso da "expedição"? Preocupante o suficiente para entender o quanto antes. Talvez começar por aquele resto de assinatura na folha de rosto: Ca...... Sarkis G........n?
Cosme ouviu os passos curtos e ainda ligeiros de Vivelinda em direcção à sala de refeições. O cheiro a pão fez parágrafo no seu ritual matinal de higiene, mais longo que o costume, dada a quantidade de lama terrosa que havia ficado por limpar.
Vivelinda! - chamou, com poucas maneiras.
Diz lá, João... - respondeu a sexagenária, em tom simétrico.
Qu'é lá?! - impôs ele.
Faz favor, menino Cosme... - fingiu a serviçal.
A madrinha e o professor José Augusto, já estão na casa de jantar? - inquiriu, por fim.
Não, menino, ainda só estás só tu e o Eduardo - despachou, empurrando o carrinho dos beberes.
Já não estamos nos Freixos, Vivelinda - resmoneou, deixando escapar o sotaque.
Pois não, João Cosme! - suspirou.
Bom dia, D. Linda - acenou, respeitoso, o outro inquilino.
Bom dia, sr. Eduardo - correspondeu, plácida.
 
(Este é o segundo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Vidal.)

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Cadáver Esquisito (1)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 20.02.12

1

UM LIVRO

 

Foi quando acordou que Cosme sentiu o livro pousado no lado onde nunca ninguém dormia. Os lençóis, de uma cor de terra enxuta de chuva, camuflavam a capa. Mas a presença de um objecto naquele espaço foi quanto bastou para que Cosme desse por ele. Agarrou-o com as duas mãos para ter a certeza do que encontrara. Ali estava, num quarto sem livros, numa casa quase sem livros e na cama de um ex-analfabeto, aquilo que viria a descobrir-se ser a edição inglesa do 'Wise Blood' da Flannery O'Connor.

Que o livro ali fora deixado a meio da noite foi conclusão imediata. Não que a coisa tivesse lógica mas todas as outras explicações, e Cosme calcou-as uma a uma com mãos de artesão, pareciam ainda mais absurdas. Não só aquele livro nunca tinha sido visto naquela casa, e muito menos naquela cama na noite anterior, como ninguém ali tinha estado, que ele tivesse percebido, que não fosse a Vivelinda, analfabeta de verdade.

O livro, que Cosme nem começou por tentar ler, tinha pois aparecido durante a noite. E tinha ficado ali, umas horas ou uns momentos, à espera de ser encontrado. O céu e o inferno em paz, pensou Cosme, quando imaginou o sono partilhado com um livro que não conhecia. E foi assim que tudo começou. Ou, se quisermos ver as coisas pelo outro lado, que o há, foi assim que tudo terminou.

 

(Este é o início do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Ana Cláudia Vicente.)

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