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Ide, ide, que hoje é sexta!

por Gui Abreu de Lima, em 23.11.12

 

Hoje gosta-se da tasquinha. De uma tasquinha asseada. Que tenha muitos petiscos. Gabarolas na ementa, no jarro de tinto, na factura generosa. É tudo bom. Tasca que é tasca deve ter comida simples mas apurada, vinho avulso de uma qualquer região – Aveiras no topo dos fornecedores, para azar dos alfacinhas – pão de lenha, sem manteiga, e azeitona, que tanto calha de ser verde como preta. Quem manda na tasca é a tasca. É o dono, é a mulher do dono, é a filha, é o rapaz, anafado e velado na camisola Ronaldo, que leva a tarde a empanturrar-se de Bolycaos e declina todo o petisco da mãe. Aqui não há patrão e as regras não se discutem, assim como os lucros, que nem dão azo a comentários, muito menos a invejas. Aqui entra de tudo, não há discriminação, selecção de freguesia. Quem quer fica, quem não quer vai andando. Numa tasca o jogo é limpo. Prognósticos ou reclamações só no fim da patuscada, longe da porta ou entre dentes.

 

Nesta cidade de oitos e oitentas, andam as tascas desanuviadas. E ao contrário dos congéneres ricos, que tanto se nos dá onde fiquem, a tasca tem que ter enquadramento. Tasca é coisa de rebuliço, é do povo morador, é do munícipe. Há-de ter balcão que ampare os cotovelos de quem não se dá sentado. Há-de estar num largo, na mais linda artéria da freguesia, há-de ter vista para muitos lados e portas escancaradas, há-de ter próxima a Paragem, a passadeira, as escadinhas. Há-de ter varandas por cima, roupa a secar, e no mínimo uma velha a coscuvilhar. Se é ribeirinha, tem de ver o rio ou pelo menos sentir-lhe o cheiro. Lisboa tem muitas tabernas, algumas famosas, outras só do bairro, para o bairro, com as suas horas de ponta, imperdíveis. Ao fim da tarde, desagua tudo ali. Tratam-se por tu, viram-se crescer, sabem quem morreu, quem não paga a renda e em Junho marcham juntos na Avenida. Sem o saberem, são uma família.


Era uma sexta estrelada ali na Praça da Armada. Os magalas da Marinha, em serviço no fim-de-semana, até se roíam de inveja. Só que os grumetes não podem largar a porta, nem que ao fundo vejam nítida a sua aldeia. No Beirão, entra-se e tanto se pode estar na Beira, como em Trás-os-Montes, como em qualquer bairro de Lisboa. O tecto baixo não perdoa e dissemina as pronúncias portuguesas. O avô diz come o caldo, o neto diz que antes prefere a chicha. Tás com a mosca? Tu-és-mes-mo-da-ha… Venham os carapaus, o arroz solto à moda de Bragança e o tal de Aveiras, tinto. O Sporting diz adeus à Taça. Agarra-te à cabeça, agarra. O balcão à cunha. Entra um tipo de roupão. Turco, raso, sem cor. Um boné verde e vermelho, as quinas de Portugal na testa. Os chinelos de fazenda, herdou-os. Tem os calcanhares de fora. Vem ao tabaco. Isso pensava ele. Que magnético balcão… Atracou. Perdido por cem... olha o Júlio! No Beirão, as janelas dão à Praça, à calçada inclinada, à buganvília do 31 da Armada, ao chafariz, ao parquinho dos miúdos, dos graúdos, altas noitadas, grandes futeboladas debaixo dos jacarandás.


Já ia no segundo, quando o “puto” meteu a cabeça. Paaiii. Pra casa Ruben! Dá um pires de tremoço e outra imperial. Paaiii. Arregalou os olhos e a sua versão em estado puro deu sebo às canelas. Apertou o cinto ao roupão, atravessou a sala e certificou-se. O miúdo já se tinha esgueirado. Voltou ao encosto, esvaziou devagar o prato e o copo, pagou, acendeu um cigarro e despediu-se directo ao Beco dos Contrabandistas. Ninguém estranhou a farpela. Que diabo, um homem pode muito bem estar em casa e ter necessidade de vir à rua. E porque raio há-de um homem vestir as calças se a tasca é ali ao lado e só vai ao tabaco? Seguem-lhe os passos o Avô e o neto já comido, a mascar a pastilha prometida. Já vais?! Tou agarrado com este… e hoje tá bera! Quem dita o horário são os fregueses. Saem uns, entram outros. De fora, dali, mães que metem o nariz a ver quem está enquanto fervem à conta dos seus Marcos, dos seus Rubens. O teu homem saiu agora. Eu sei. Oh… se sabem.

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