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Uma longa apologia da apolitização pessoal

por João André, em 02.04.14

Ultimamente tenho tido trabalho em excesso e pouco tempo para escrever. Confesso: costumo escrever em pausas do trabalho, quando preciso de me desligar das minhas tarefas por uns minutos mas manter o cérebro a funcionar. Chegando a noite tento desligar-me completamente do trabalho. Leio, vejo um filme ou outro, faço desporto, leio umas notícias, ouço música, brinco no computador, passo tempo com amigos... Tenho também os meus momentos em que prefiro desligar o cérebro. Escolho livros muito simples, vejo (ou leio sobre) desporto, escolho filmes ou séries intelectualmente pouco estimulantes. E, peça essencial, evito ler jornais - especialmente a opinião - e blogues portugueses sobre política.

 

A razão é simples: Portugal vive neste momento um debate excessivamente carregado e ideologicamente marcado, mas pouco inteligente. Os debates são marcados por exercícios retóricos mas pouca reflexão. Há lugar para os mortais à rectaguarda e piruetas argumentativas. O spin de tudo o que se diz está na ordem do dia. Nesse aspecto Sócrates seria refrescante se não fosse o facto de eu ter pouca paciência para ele.

 

Os debates vivem um momento em que tudo o que for arma de arremesso é imediatamente utilizado. No passado a pessoa defendeu outra coisa, não importa se noutras circunstâncias ou se mudou de ideia?, usemos de imediato estas contradições ou flip-flop. A pessoa poderá ter um interesse pessoal, mesmo que apenas de passagem, na posição que defende? Sai um ataque ad hominem para a mesa dois. A pessoa defende uma posição de centro-(escrever aqui direita ou esquerda)? Ai Jesus que é um extremista.

 

Basicamente, a retórica portuguesa vive da lógica do espantalho: usa-se uma posição da pessoa a atacar para extremar o ponto de vista e agitar os medos de quem leia. Pessoalmente vejo isto como mais marcante na direita - liderada por um governo que aponta qualquer opção por abrandar a austeridade como convite ao despesismo - mas não faltam arautos na esquerda. Num lado ou noutro falta quem pense a política num contexto moderno e dê opções ideológicas aos (e)leitores.

 

Isto não é fenómeno português. Nos EUA terá começado com iniciativas concertadas por parte da direita conservadora, que apontou baterias à esquerda americana (que eu vejo como ideologicamente semelhante ao centro-direita europeu) numa acção concertada para extremar debates e atiçar paixões. A esquerda americana tentou seguir-lhe o caminho mas, coo sempre, de forma desastrada, extremando o discurso mas sem lhe emprestar valores ideológicos que o sustentem. Este caminho terá ajudado fortemente ao crescimento do fenómeno do Tea Party, o qual acabou a prejudicar mais a direita do que a ajudar. Na Europa a Economist comparou recentemente o PVV holandês, a FN francesa e o UKIP britânico ao Tea Party,  mostrando como um discurso simples, populista (embora extremista) e com bases ideológicas simples (mesmo que pouco convictas) pode ir destruindo a base de apoio dos partidos tradicionais.

 

Em Portugal, à falta de partidos semelhantes (o mais próximo seria o BE, mas que tem tentado ser sério, mesmo que pouco interessado no governo), o PSD e o PS têm acabado por assumir esses papéis. No PSD a facção coelhista (à falta de melhor termo) tomou o partido contra os poderes tradicionais. Baseou-se num apoio online que foi produzindo campanhas difamatórias constantes contra opositores internos e externos. Os seus apoiantes (ou funcionários, nos casos em que são pagos - a dinheiro ou em favores) foram abrindo fogo contra tudo o que se foi mexendo, argumentando que as posições atacadas são de extremistas ou de partes interessadas, ao mesmo tempo que defendiam posições elas próprias extremas.

 

O PS, por seu lado, reservou para si o papel do copiador desastrado, de quem não percebe toda a organização por trás dos ataques e copia-lhes apenas a forma, sem perceber os objectivos. Escolheu uma cabeça oca para líder, colocou uns quantos personagens a escrever em blogues e assim avança, sem qualquer estratégia. Com um CDS/PP cuja única estratégia é a da lapa sem ideologia agarrada ao poder, e uma esquerda que por um lado quer ser poder mas não mobiliza e por outro só quer o poder por via revolucionária, o resultado é um país de eleitores sem escolha e sem força. Apolitizado e anti-política que vai votando pouco e por inércia naqueles que soam mais barulhentos e sólidos.

 

Quando leio posts como o do Rui, tenho que discordar. Penso que ele não entendeu realmente as críticas a Hollande. A subida da FN deve-se de facto ao PSF ter deixado de ser de esquerda. Mais, deve-se ao total esvaziamento ideológico do PSF. Quando um partido de centro-esquerda abandona as suas bandeiras, o vácuo que se gera será ocupado por outros. No passado era-o por outros partidos socialistas ou comunistas. Hoje, com o trabalho de fundo que tem feito, a insistência numa mensagem simples e sólida mesmo que falsa, o FN é o partido que preenche o espaço deixado vazio.

 

Compreendo no entanto a argumentação do Rui. A confusão que este novo mundo do combate político sem ideologia tem provocado ao PS (e ao centro-esquerda pela Europa em geral) faz-nos pensar que é por causa do extremismo do discurso que a esquerda tem perdido o rumo. Não o é. O extremismo é apenas forma, não é conteúdo e, os eleitores quando informados devidamente, optam sempre pelo conteúdo. Num mundo que tem sido sistematicamente esvaziado de ideologia por uma direita tecnocrática (foi pelo lado da direita, mas pdoeria perfeitamente ter sido pelo lado da esquerda), a falta de conteúdo da esquerda perde perante o baixo conteúdo da direita.

 

Tal esvaziamento tira entusiasmo ao discurso e combate políticos. Deixa de ser um frente a frente entre opositores ideológicos mas simplesmente um combate de histrionismos onde o mínimo de bases sólidas vence. A população em geral, exausta pelas dificuldades financeiras - vindas de trás ou causadas por este governo - e pelo barulho de fundo desliga. Vai depois à urna - se não chover ou não estiver sol - e vota na mensagem que soar mais lógica. Depois volta ao sofá e liga a sua telenovela ou jogo de futebol, espera pelo beijo de Mauro a Márcia ou pelo golo de Ronaldo aos boches e reza para que o dinheiro chegue ao fim do mês.

 

E agora, após esta longa reflexão (que vale o que vale) tento fechar o círculo. Este cansaço extravaza fronteiras e atinge até aqueles que, não expostos ao ruído de fundo nem à (mesma) austeridade, tentam seguir o que se passa no país. É o meu caso. O cansaço começa a sobrecarregar-me e a impedir-me de seguir os desenvolvimentos. Com umas eleições aproximar-se, o barulho só terá tendência a aumentar. Por isso aviso que escreverei, sempre que o puder evitar, sobre outros assuntos que não política nacional. É uma demissão consciente das responsabilidades que sobre mim pesam enquanto cidadão (ou bloguer, se quisermos assim argumentar). Escreverei talvez sobre vida, viagens, desporto, televisão, cinema ou outros. Sobre política não. Os ataques que sofro nas caixas de comentários são também a mais. Não tenho a válvula de escape da discussão entre amigos com uma cerveja à frente. Não mata, mas mói.

 

Fica então a minha declaração de intenções: tentarei sempre que possível não escrever sobre política nacional. Se ceder à tentação, peço que me desculpem. Se a argumentação falhar será sempre porque a frustração se me terá sobreposto à lógica e à reflexão cuidada. Pelo meio tentarei compensar isso com mais posts sobre futebol. Afinal de contas aproxima-se um mundial e o ópio, se não resolve os problemas do povo, pelo menos ajuda a esquecê-los por um pouco.

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Esmiuçando

por jpt, em 15.11.13

Está o Pedro Correia muito  incomodado, sinto que até ofendido, com a minha reacção à entrevista à "Visão" de Fernando Moreira de Sá. Paralelamente, e até reforçando a pertinência do seu incómodo, alguns comentários ao meu postal demonstram-me que as minhas razões (e as irrazões) não foram ali competentemente explicitadas. São estes os dois motivos para que regresse às desagradáveis declarações (que o entrevistado já referiu como correctamente editadas):

 

a) Moreira de Sá lembra que vários blogs se empenharam nas campanhas de Passos Coelho, algo que vários comentadores aqui referem. O que deixa entender que depreenderam do que eu escrevi que essa actividade política no bloguismo me é uma questão a refutar ou a injuriar. Penso exactamente o contrário: a democracia faz-se com partidos e com políticos, neles não se esgota mas não os pode repudiar. Como tal é perfeitamente legítimo e absolutamente desejável que se tomem posições públicas, em favor ou desfavor de políticos e/ou partidos. In-blog ou fora dos blogs [Já agora nas últimas eleições também eu anunciei o meu sentido de voto, primeiro aqui, depois aqui. E se então optei pelo tom jocoso isso em nada diminuia a minha vontade eleitoral]. Prefiro que essas opiniões sejam assinadas, frontais e muito me desagrada o anonimato. Em particular o bloguista, seja nos comentários como, e muito em especial, em postais. Por isso, por exemplo, nos blogs muito lidos de pendor socratista tanto distingo entre o esconso Câmara Corporativa ou o democrático Jugular. Pois numa sociedade democrática não deve haver motivos para o anonimato da expressão política. E se os houver então que se combatam.

 

Face a isto o facto de se referir que houve um conjunto de blogs (entre os quais o Delito de Opinião também é citado) que se juntaram ao esforço eleitoral de Passos Coelho não me é problema, é ou foi característica. Saudável. E para mais porque foi tudo explícito, qualquer leitor o compreenderia.

 

b) Foi neste âmbito de esforço bloguista que o Pedro Correia foi referido na desengraçada entrevista, explicitamente afirmado como presente de "cara descoberta". Algo que não é surpresa para quem, como eu, o lê há anos. E leio-o com tamanho agrado que me desvaneci com os convites que me fez para participar nos blogs que coordena. Ou seja, nem considero o bloguismo politicamente empenhado como algo negativo nem considero que as referências que ali foram feitas ao Pedro Correia o possam beliscar, minimamente que seja.

 

Mas esta é a minha ideia e a minha sensação. Que posso defender ou explicar, mas não  posso impor. Assim sendo se o Pedro Correia se sentiu melindrado com a minha formulação só o posso constatar, e aceitar como legítima a sua recepção do texto. Como é ela inversa à minha ideia tenho que admitir que deriva da incompetência com que expus, de uma verve poluída pelo que costumamos referir, pejorativamente, como o "indignismo de sofá", a irreflexão que faz brotar textos desarranjados, e tantas vezes descabidos. E dizer que lamento a mágoa causada, refuto qualquer hipotética mácula que possa ter provocado, e que lhe (te) peço que esqueça(s) a culpa do autor do texto.

 

c) A verdadeira questão, isso que me indignou e me indigna, é completamente outra. E que julguei tão óbvia, descaradamente óbvia, que desnecessária de sublinhar, meu erro. É o facto, risonhamente anunciado por Moreira de Sá, de um conjunto de bloguistas terem associado a esse esforço de apoio eleitoral público um conjunto de más práticas, falsificação de identidades, manipulação de informações, poluição do debate público, factos ocorridos, diz ele, fundamentalmente no seio das redes sociais. E isso não é o bloguismo politicamente empenhado, é aldrabice, desonestidade. Se todo esse processo teve real influência eleitoral, como julga Moreira de Sá, ou se não o teve, é-me indiferente. Como me são indiferentes as causas que o levam a, agora, vir anunciar tais derivas. O que me choca, indigna, é a total desonestidade dessas práticas. Que eram políticas. 

 

O facto é que sobre essa trapalhada nem me passou pela cabeça que o Pedro Correia estivesse envolvido. Nem vale a pena explicar porquê, basta conhecê-lo. Por isso a total acrimónia que usei sobre o assunto no próprio Delito, que ele coordena. Pois o caso não tem a ver com ele. Repito, lamento que isso não tivesse ficado totalmente explícito no(s) texto(s) que dediquei ao assunto.

 

d) Sobre as assessorias governamentais. Sou adverso à partidarização da administração pública. Mas uma coisa é defender a autonomia do serviço público face ao poder político. Já outra coisa, diversa, é negar que os serviços governativos exigem o trabalho de gente de confiança política (e, também, pessoal). Ou seja, os gabinetes de incidência política exigem a cooptação de pessoal específico, que pode vir da função pública ou não. Fazendo essa cooptação com normalidade, sem despesismos ou nepotismos, mas também sem cedências à demagogia que refuta essa necessidade, no fundo uma deriva anti-democrática que refuta a legitimidade da actividade política e a sua especificidade.

 

Dito isto nada me choca, nada tenho contra, o facto de bloguistas (jornalistas ou outros) que trabalharam politicamente para a ascensão do novo governo tenham sido cooptados para o trabalho político desse mesmo governo. É normal, é democrático. O que me choca, radicalmente, é que aqueles que foram flibusteiros das redes sociais tenham sido cooptados para esse trabalho político. E isso é uma coisa completamente diferente. Foi contra isso que desembestei. E que desembestarei.

 

e) Finalmente, e apesar de julgar ter agora explicitado, até demoradamente, o que quis significar anteriormente, não posso apagar a ideia da mágoa causada no Pedro Correia pelo meu pouco burilado texto. Julgo que essa poluirá a convivência intra-bloguística, tão simpática ela é aqui no Delito de Opinião, de que ele é maestro. Assim sendo penso ser melhor, espero que sem zangas legadas, retirar-me do painel, mantendo-me adepto, leitor e comentador. A todos agradecendo  pelo convívio. Em particular ao Pedro Correia.

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O aldrabismo no poder

por jpt, em 14.11.13

A entrevista de Fernando Moreira de Sá à revista "Visão" (quem tiver interesse saiba que a reproduzi aqui) é um retrato nojento do país, do PSD, da escumalha que governa o país e dos jornalistas e/ou bloguistas que por aí andam e que se prestam a isso. Agora tantos deles identificados, e que entretanto ascenderam ao poder como assessores ou mesmo detentores de cargos governativos.

 

Mas ao mesmo tempo é uma benesse. Alegra-me por estar imigrado.

 

 

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