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Há 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamentodo do regime agora encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda mantém. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso da Venezuela, por exemplo, onde se esperava indignação, temos silêncio. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas de uma ferida histórica que continua aberta.

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Irreverências

por João Pedro Pimenta, em 02.05.17

Passo na rua e reparo num cartaz, de cores e imagem gráfica fortes, anunciando nova edição do Desobedoc - Mostra de Cinema Insubmisso, um pequeno festival, ou uma mostra, como o título indica, patrocinada pelo Bloco de Esquerda. tudo ali nos remete para uma ideia de irreverência, de não acatamento das regras mais restritas, de resistência ao conformismo, ao status quo, à opinião dominante a que os cidadãos estão obrigados pelo modelo de sociedade opressiva em que vivemos.

 

Depois, por qualquer razão, fico a pensar em que ponto é que ficaram as propostas de criminalização do piropo e as acusações feitas pelo Bloco a Pedro Arroja e às suas declarações sobre as "esganiçadas", e a subsequente exigência de um pedido de desculpas à Porto Canal. Enfim, pensamentos que surgem do nada.

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Deadwater

por Rui Rocha, em 21.04.17

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Em Maio de 2016, Mariana Mortágua publicou um artigo no JN em que, a propósito do caso Luaty Beirão, comparava as situações de Angola e da Venezuela. No texto, a Venezuela é apresentada como uma realidade em que foram cometidos erros e em que a democracia se degradou. Aliás, esta abordagem não é original no Bloco de Esquerda. Quando Fidel Castro morreu, o discurso foi semelhante. Catarina Martins afirmou na altura que "os erros não podem apagar a homenagem ao grande revolucionário". Os erros eram, no caso de Fidel, presume-se, mais de 50 anos de poder sem realização de eleições, violação dos mais elementares direitos individuais, perseguição, tortura, miséria e morte. Coisa pouca, portanto. No caso do texto de Mortágua a ideia central era então a de que, apesar dos tais erros, as situações de Venezuela e Angola não eram comparáveis. E Mortágua concluía, numa súplica, dizendo que não lhe pedissem "para confundir o que não era confundível ou que compreendesse os que se indignavam com Caracas mas toleravam Luanda". Pois bem. Face aos recentes desenvolvimentos da situação na Venezuela, é tempo para Mariana Mortágua responder a uma pergunta. As situações de Angola e Venezuela já são comparáveis? Ou tem ainda de se afundar mais o país na miséria, de se assistir a uma violação mais brutal dos direitos e da legalidade constitucional? É preciso morrer mais gente (quanta?) para que se ouça uma palavra de Mariana Mortágua, de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, sobre a situação na Venezuela? É que parece evidente, Mariana Mortágua, que não nos podem pedir para compreender quem se indigna com Luanda (bem) mas tolera Caracas.

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O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.

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Pelo visto, a DBRS, por casualidade a única agência de rating que ainda resiste a colocar a credibilidade da dívida portuguesa abaixo de lixo três furos e permite, por consequência, que o Dr. Costa e os seus apaniguados entretenham os dias a amestrar vacas que juram poder fazer voar, fez saber que teme não poder continuar a dar asas à maluqueira se o Banco Novo for nacionalizado. Perguntada sobre o tema, a arguta Catarina Martins declarou, sem contemplações, que esta posição da DBRS (da DBRS, coitada, que nos tem aturado) sobre o Novo Banco é "uma chantagem europeia". O facto de a DBRS (a DBRS, coitada) ser uma agência sedeada em Toronto, no Ontário, em pleno Canadá, não deve, obviamente, ser suficiente para Catarina Martins se desviar um milímetro da teia bem urdida de interesses inconfessáveis e diabólicos que engendrou na sua notável cabecinha. Mas lá que adiciona uma nota picaresca a esta bem esgalhada teoria da conspiração, colocando-a ao nível daquela outra que sublinha que a pizza é redonda, parte-se em triângulos e é transportada em caixas quadradas, lá isso adiciona. Resta esperar, portanto, que o Dr. Louçã, essa espécie de Jorge Mendes da política que se dedica a identificar os talentos que integram o plantel do Bloco de Esquerda, esteja atento. E se o Dr. Louçã não tem dúvidas que Mariana Mortágua está destinada a ser Ministra das Finanças (tivesse a História algum sentido da ironia e caber-lhe-ia juntar os cacos deixados pela bancarrota a que o Dr. Costa alegremente nos conduz) pode bem ser que um dia venha revelar-nos que a lúcida Catarina Martins terá à sua espera, mais cedo ou mais tarde, um lugar de Presidente da Sociedade de Geografia.

 

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To BE or not to BE

por Rui Rocha, em 24.12.16

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Sem rei nem roque

por Diogo Noivo, em 30.11.16

O Chefe de Estado espanhol, Filipe VI, discursou no parlamento português. No final da intervenção, houve aplausos de todos os deputados, menos na bancada do PCP, onde os parlamentares apenas se levantaram em sinal de respeito institucional. Os comunistas cumpriram o mínimo olímpico. A jogar num campeonato diferente, os deputados do Bloco de Esquerda permaneceram sentados. Nem aplausos nem cortesia. Nada.
A peça da SIC que deu nota deste episódio fala em evolução bloquista. E explicou porquê: por ocasião da visita oficial do anterior monarca espanhol, Juan Carlos I, os bloquistas não apareceram no hemiciclo; desta vez estavam lá. A jornalista da SIC vê nisto uma evolução.
Há dias, Fidel Castro mereceu todos os encómios possíveis por parte do Bloco, que nada disse sobre a sucessão de estilo dinástico entre Fidel e o seu irmão Raúl. Hoje, um Chefe de Estado vinculado a uma constituição democrática, que goza de um respaldo popular muito superior ao da constituição portuguesa, recebeu o tratamento político-institucional que se dá a um ditador. Julgo que a maioria dos democratas verão nisto uma fonte de vergonha alheia e até de algum asco. Mas a SIC vê uma evolução. Parece-me que para os lados de Carnaxide também há gente a limpar os pés às cortinas.

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O anti-semitismo em Portugal.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.16

Julgava que no meu país as pessoas tinham respeito pelos outros e não alinhavam em discursos de ódio e em actos de intimidação. Mas parece que afinal há um partido, que está praticamente no governo, que considera normal apelar a um restaurante para que não participe num evento culinário internacional em Israel. E quando o restaurante decide apesar disso participar nesse evento, tem como resposta a vandalização do seu espaço, que esse partido qualifica apenas como acção directa. Isto porque o apelo anterior tinha sido uma "acção indirecta alimentada por cartas educadas a apelar para que Avillez não participasse". Já se fica assim a saber o que acontece a quem não se deixa intimidar por este tipo de "acção directa" que este partido apoia, a fazer lembrar outras "acções directas" de triste memória. E também ficamos a saber o tipo de partidos que António Costa colocou em Portugal como sustentáculo do seu governo. Porque não haja ilusões: a imagem que está acima não é muito diferente da que está abaixo.

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Coisas, pessoas, fronteiras

por José António Abreu, em 10.11.16

Ontem à noite, na SIC Notícias, Mariana Mortágua - estrela da «geringonça», ideóloga em formação - recusava comparações entre o proteccionismo do Bloco e o proteccionismo de Donald Trump. Explicava ela, com trejeitos de nojo, que Trump quer fechar fronteiras às pessoas enquanto o Bloco defende um mundo onde estas possam movimentar-se livremente. O proteccionismo do Bloco, a sua recusa da «globalização», aplica-se apenas à circulação de produtos e destina-se a proteger e a «dignificar» a produção local contra as «grandes multinacionais». Como de costume, a verve resulta ligeiramente encantatória - desde que não se reflicta muito sobre o assunto. Não parece ocorrer a Mortágua que várias das economias com maior crescimento nas últimas décadas, aquelas onde mais gente saiu da pobreza, dependem precisamente das exportações. Não parece ocorrer-lhe que fechar as fronteiras aos produtos originados nesses países (sejam de índole industrial, sejam de índole agrícola ou pecuária), representaria desemprego e regresso à pobreza. Não parece ocorrer-lhe que a pobreza reforçaria os fluxos de migração, nem que o excesso de imigração gera tensões sociais, custos para o erário público e fenómenos populistas como Trump, o Brexit ou Marine Le Pen. Ou então ela sabe-o perfeitamente - afinal, dizem-na inteligente - e, tal como os seus colegas do Bloco, é apenas muito mais revolucionária do que tenta parecer.

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Broca de esquerda

por Rui Rocha, em 27.09.16

De valor era a Uber mudar o nome para Cannabis só pelo gozo de ver o Bloco a opor-se à legalização.

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Mariana "Mouch" Mortágua

por João Campos, em 18.09.16

"(...) do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro."

 

Lendo esta frase fora de contexto, diria que talvez se tratasse de um trecho de uma hipotética tradução portuguesa de Atlas Shrugged - as palavras e a ideia que elas sugerem seriam facilmente proferidas por um dos vilões-caricatura que Ayn Rand usava para zurzir naquilo que percebia como "socialismo". Como se sabe, porém, a realidade tende a superar a ficção, e eis que afinal não foi um fictício Wesley Mouch mas sim a muito real Mariana Mortágua quem proferiu estas palavras, num comício (ou algo que lhe valha) do Partido Socialista. O que não deixa de ser um tanto ou quanto perturbador: qualquer pessoa que tenha lido Rand com um mínimo de atenção repara na inverosimilhança dos seus heróis, mas pelos vistos os vilões do Objectivismo não só não são implausíveis como ocupam posições de poder entre nós. Estamos bem arranjados.

(via O Insurgente)

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Newspeak na esquerda radical

por Diogo Noivo, em 10.06.16

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Sou do tempo em que o Bloco de Esquerda era um partido criativo e irreverente. Era um partido original. Mas tudo mudou. Agora imita o PCP. Quando nem no descaramento (o produto premium do Bloco) conseguem ser originais, mal vamos.

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O regime autoritário angolano condenou 17 pessoas por lerem e discutirem um livro. Por cá, após esta condenação, a ousada denúncia do passado revelou-se uma bravata pré-pubescente, agora posta na gaveta. Aliás, relendo o que escreveu o Rui Rocha aqui no DELITO, não é a primeira vez que, a respeito deste assunto, a coragem do Bloco de Esquerda fica em casa. Heróis sim, mas só na oposição. E as causas nobres que se habituem. 

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Ou este

por Rui Rocha, em 27.02.16

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Fica a sugestão

por Rui Rocha, em 27.02.16

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Palavras da salvação

por Rui Rocha, em 26.02.16

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Não, não, senhores Bispos

por Rui Rocha, em 26.02.16

Estão enganados. O cartaz do Bloco de Esquerda não ofende crentes nem não crentes só por o serem. Ofende a inteligência. De quem quer que a tenha. Por isso, melhor seria se guardassem a indignação para a utilizarem, por exemplo e para não irmos mais longe, contra instituições que promovem uma visão do mundo em que cabe às mulheres um papel de obediência e subordinação.

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Bingo

por José António Abreu, em 26.02.16

O governo e a sua maioria têm sido acusados de dar com uma mão e tirar com a outra, mas o que importa nessa ginástica não é quanto ganham as pessoas, mas que ganhem por vontade do poder político: o rendimento de cada cidadão não deve depender do seu esforço, mas da sua relação com o governo. O PS, PCP e BE nada têm contra quem ganha muito, desde que ganhe muito no Estado ou através do Estado. Banqueiros e empresários disponíveis para “parcerias” nunca terão dificuldades.

Rui Ramos, no Observador.

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Uma correcção, com as minhas desculpas

por José António Abreu, em 24.02.16

meu textozito sobre a transferência do pagamento de benefícios sociais para as empresas recebeu meia dúzia de críticas (e um destaque imerecido no Blasfémias). Inverosímil, escreveram alguns. Simplista, anexaram outros. Ainda que eu tenha procurado aspergi-lo com umas gotas de sarcasmo e que António Costa pareça estar mesmo disponível para fazer a EDP assegurar os custos da tarifa social, devo admitir que as críticas não são totalmente descabidas. Como se comprova em vários países-modelo do PCP, do Bloco e dos sectores que hoje dominam o PS, o trajecto mais habitual para a indigência económico-social passa antes por fixação administrativa de preços, prateleiras vazias e racionamento. 

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O início da era pós-impostos

por José António Abreu, em 22.02.16

O BE quer alargar a aplicação da tarifa social de energia, que neste momento beneficia cerca de 120 mil pessoas. A ideia é dar acesso automático à tarifa social a todos os beneficiários do abono de família do 1º e 2º escalões, complemento social de idosos, pensão social de invalidez ou de velhice, subsidio social de desemprego e rendimento social de inserção. O partido liderado por Catarina Martins propõe ainda que os custos desta tarifa passem a ser integralmente suportados pela EDP Produção, deixando de onerar o Estado em cerca de seis milhões de euros.

 

Há um momento na descida para a paralisia económica em que ao Estado já não basta cobrar impostos. A solução? Colocar empresas privadas a garantir o pagamento de benefícios sociais. Como a mentalidade da «verdadeira esquerda» (Bloco, PCP, actual PS) exclui o conceito de relação causa-efeito, fazê-lo não implica obrigar essas empresas a distribuir os custos da medida por todos os seus clientes ainda não suficientemente pobres para terem eles mesmos direito aos benefícios mas apenas diminuir-lhes o nível «obsceno» de lucros (é sabido: para a esquerda, uma empresa privada ou tem lucros obscenos ou gestão criminosa). Começa-se pela EDP, entidade fornecedora de um bem que muitos, consciente ou inconscientemente, acham que devia ser gratuito (ei, a electricidade é uma espécie de download, certo?) e que todos apreciam odiar. E abre-se caminho para ir mais longe. Para, sei lá, tornar obrigação do Continente, do Pingo Doce e do Lidl a distribuição mensal de cento e tal mil cabazes de compras; para tornar obrigação da Galp, da BP e da Repsol a oferta mensal do combustível correspondente a cento e tal mil depósitos; para tornar obrigação da McDonald's, da Pizza Hut e da H3 a entrega mensal de dez (ou talvez quinze) vezes cento e tal mil menus; para tornar obrigação da Fidelidade, da Tranquilidade e da Allianz a subscrição anual de cento e tal mil apólices de seguro; para tornar obrigação da MEO, da NOS e da Vodafone a disponibilização de cento e tal mil pacotes de telemóvel, televisão e internet (sem período de fidelização); para tornar obrigação da Zara, da Cortefiel e da H&M o fornecimento de cento e tal mil vales de trezentos euros em roupa e calçado (bastará por estação, que os beneficiários da medida não pertencem à esquerda-caviar); para tornar obrigação da Mota-Engil, da Teixeira Duarte e da Soares da Costa a construção e oferta de cento e tal mil habitações (mantenhamos os pés na terra e digamos em cinco anos). Ou, melhor ainda, por que não obrigar que todas as empresas privadas desviem cinco (e, mais tarde, dez) por cento da facturação para apoios que o Estado, gordo e deficitário (pudera), será cada vez mais incapaz de providenciar?

O maravilhoso país que emergirá de toda esta consciência social é, evidentemente, um país sem competitividade mas também sem empresas privadas. No fundo - e aqui se encontra afinal uma relação de causa-efeito bem delineada -, o sonho da esquerda.

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Ou era só garganta?

por Rui Rocha, em 14.02.16

Em 2011, a incansável Aiveca pronuciava-se, pelo Bloco de Esquerda, nos seguintes termos a propósito da venda de parte do capital da EDP à Three Gorges: "Estamos perante uma posição incompreensível e inaceitável, ainda mais grave porque se trata de uma empresa chinesa, de um país em que o regime ditatorial é efectivamente uma realidade". Sabe-se que a inesgotável Aiveca anda perto do limite devido às 40 horas de trabalho semanal na função pública, mas espera-se que consiga dispor de cinco minutinhos do seu tempo para se pronunciar sobre isto. A menos, claro, que entretanto a China tenha deixado de ser um regime ditatorial.

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Olá, Mariana; não, podes roçar o cotovelo à vontade

por José António Abreu, em 19.01.16

«É uma decisão que envergonha o Tribunal Constitucional, os deputados que a exigiram, que degrada a nossa democracia. Eu repudio esta decisão e não me conformarei com ela.»

«Envenenada, mesquinha, inconsistente, vergonhosa - a decisão do Tribunal Constitucional sobre as pensões dos titulares políticos.»

 

Durante os últimos anos manifestei desagrado por muitas decisões do Tribunal Constitucional, várias das quais relacionadas com «direitos adquiridos». Nessa linha, gostaria de o voltar a fazer a propósito da que garante subvenções vitalícias a governantes, deputados e - cof, cof - juízes do TC que tiveram a sorte de exercer os seus cargos antes de 2005. Mas estranho ver elementos do Bloco de Esquerda, para quem ainda há poucos meses a mais leve crítica à Constituição ou ao TC configurava um atentado à democracia, ao meu lado.

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Como se sabe, Luaty Beirão cumpriu há semanas um longo período de greve de fome. Na altura, a posição do Bloco de Esquerda e da porta-voz Catarina Martins foi inequívoca:

Catarina Martins afirmou ter transmitido a Passos Coelho a “grande preocupação” do Bloco com a situação do cidadão luso-angolano Luaty Beirão. “Este cidadão tem de ser protegido. Estão em causa direitos humanos, a liberdade de expressão e a vida de Luaty Beirão, que está em greve de fome porque está preso sem que se perceba porquê”, juntamente com outros jovens, declarou Catarina Martins aos jornalistas, acrescentando que “o único crime parece ser mesmo a liberdade de expressão”.

“O Estado português tem a obrigação de intervir junto do Estado angolano para proteger os direitos humanos e para proteger a vida de Luaty Beirão”, prosseguiu a porta-voz do Bloco.

Luaty Beirão decidiu iniciar hoje uma nova greve de fome. Catarina Martins tem agora uma excelente oportunidade de forçar a intervenção que defende do Estado português junto do governo a que o seu partido dá apoio parlamentar. É mesmo fundamental, por todos os motivos, que Catarina Martins não se cale. 

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Como se forma um governo (1).

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.15

O Bloco de Esquerda revela quatros dos temas sobre os quais chegou a acordo com PS e PCP, para a formação de um governo estável: aborto, adopção, exames do primeiro ciclo e a entrega de hospitais às misericórdias. Numa sessão pública do partido, ontem à noite, Catarina Martins revelou ainda que vai contestar o tratado orçamental e que se fosse governo nacionalizava as empresas que foram privatizadas.

 

Parece assim que as reuniões técnicas entre o PS e o Bloco de Esquerda chegaram a bom porto e temos finalmente um acordo de governo. Calculo que esse acordo deve estar expresso nos cadernos e nos papéis que se vêem em cima da mesa e que demonstram que houve um trabalho exaustivo de muitas horas, que levou a que tudo tivesse sido discutido e acordado ao pormenor, como se vê pelo brilhante resultado alcançado.

 

Havendo acordo sobre o aborto, a adopção, os exames do primeiro ciclo, e a entrega de hopitais às misericórdias estão obviamente preenchidas todas as condições para que o governo possa imediatamente tomar posse e governar em paz e estabilidade durante quatro anos. Quanto ao tratado orçamental e à nacionalização das empresas privatizadas, são obviamente questões menores, a discutir futuramente em sede de conselho de ministros, quando o Bloco de Esquerda apresentar as suas propostas. Relativamente ao euro e aos limites do défice e da dívida, trata-se de assuntos que nem sequer merecem qualquer discussão. O importante é acabar rapidamente com a austeridade, que tem destruído o país, e irá naturalmente surgir o orçamento expansionista, que todos desejam.

 

De facto, com tão magnífico acordo de governo, para que é que Cavaco Silva há-de indigitar Passos Coelho primeiro-ministro? É uma verdadeira perda de tempo, quando o país está impaciente para que comece o espectáculo anunciado. Venha o governo estável da maioria de esquerda e depressa. Parece-me que ainda nos vamos divertir muito com ele. 

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Com Garcia Pereira ocupado na elaboração da autocrítica, o mítico Arnaldo Matos faz prova de vida, atacando pela esquerda os «revisionistas» do PC e as «meninas oportunistas» do Bloco.

São momentos sublimes e inesquecíveis. Obrigado, António Costa.

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Das consequências não antecipadas

por José António Abreu, em 13.10.15

Parece que há quem tenha votado no PS convencido de que este nunca se uniria ao Bloco e ao PC. Algumas destas pessoas - Luís Aguiar-Conraria, por exemplo - têm vindo a mostrar desagrado pelo comportamento de António Costa. É de alguma utilidade que o façam mas não me peçam simpatia. Antes das eleições, Costa nunca terá afirmado taxativamente poder vir a formar governo em coligação com ou apoiado parlamentarmente pela esquerda (ainda por cima, depois de as perder). Mas, da Grécia às obras públicas, Costa disse tudo e o seu contrário sobre todos os assuntos. Costa rasgou um acordo que estabelecera de livre vontade com António José Seguro para correr com ele da liderança do partido. Costa rasgou um acordo (para a reforma do IRC) que o PS estabelecera de livre vontade com o governo. Costa recusou sempre fazer uma avaliação crítica dos governos socialistas chefiados por Sócrates. Costa apresentou-se como líder de confiança mas ameaçou rejeitar um orçamento antes de o conhecer. Costa distribuiu cordialidade e sorrisos quando em ambiente controlado e mostrou os dentes quando apanhado desprevenido.  Costa foi - é - o político de carreira que tantos acusaram Passos Coelho de ser (e se podem atribuir-se a Passos ideias liberais - muito mais do que práticas -, a Costa é impossível atribuir uma ideia que seja). Costa foi invariavelmente aquilo que os seus adversários disseram dele e apenas interesses próprios, ingenuidade atroz ou teimosia (nuns casos decorrente de «clubismo», noutros de uma recusa primária em avalizar a política da coligação) terá levado ainda tanta gente a votar num Partido Socialista liderado por ele. Vários dias antes das eleições, escrevi: Talvez a maior façanha de António Costa nesta campanha: ter cingido as opções de voto útil de qualquer pessoa sensata à que poderá evitar a chegada ao poder do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Muita gente optou afinal por não a excluir. Não me venham agora com lamentos.

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O grande mistério destas eleições…

por José Maria Gui Pimentel, em 05.10.15

…não foi a vitória da coligação, mas antes o resultado estrondoso do Bloco de Esquerda (BE).

 

Vejamos bem: o resultado de ontem – a escala da subida de votação – é muito difícil de explicar à luz do que se sabe e do que tem sido discutido. 

 

Sabe-se que a conjuntura dos últimos anos favorece partidos de protesto, mas isso já acontecia – e em maior grau – nas eleições europeias. E, sim, é verdade que Catarina Martins se revelou durante a campanha – num misto de firmeza, empatia e frescura idêntico ao que Jerónimo de Sousa trouxe ao PCP em 2004 – e é também verdade que a presença de Mariana Mortágua permitiu chamar ao Bloco os louros da prestação da deputada na comissão de inquérito ao caso BES/GES. Acresce a tudo isto que o PS fez uma campanha reconhecidamente fraca.

 

Mas estas explicações, conquanto relevantes, são insuficientes para explicar o resultado de ontem. Seriam provavelmente suficientes para explicar uma melhoria moderada do resultado eleitoral do Bloco, mas acho francamente pouco como causa para aquilo a que assistimos ontem: um crescimento de virtualmente 100% (10.2% vs 5.2% em 2011), levando o BE ao melhor resultado de sempre.

O Bloco era, relembre-se, um partido acossado no início da (pré-)campanha, com sondagens repetidamente desfavoráveis a sobreporem-se a resultados francamente maus nas eleições Europeias de 2014 e nas Legislativas de 2011. A isto somava-se uma liderança com dificuldade em afirmar-se. Saíra enfraquecido das eleições de 2011, num efeito que parecia dever-se, por um lado, à desatenção aos eleitores de esquerda não-marxista e, por outro, ao esgotamento das causas fracturantes capazes de cativar o seu eleitorado tipicamente urbano e jovem. Sofrera em 2012, como o Pedro lembra, a saída do líder carismático – que tinha sido capaz de lançar o único partido verdadeiramente novo desde o pós-25 de abril –, seguida da sua substituição por uma peregrina liderança bicéfala mal-sucedida. Como se isso não bastasse, alguns dos seus mais mediáticos membros – que, tudo indicava, eram bem queridos pelos eleitores – tinham não só deixado o partido, como também tomado a iniciativa de formar novas forças políticas, potenciais ‘canibalizadoras’ do voto no Bloco. Paralelamente, o PCP tivera 12.7% nas eleições europeias e parecia capitalizar o grosso do descontentamento da ‘esquerda-esquerda’.

 

Ainda há pouco mais de um ano, jornais e articulistas entretinham-se a analisar ‘crise do Bloco de Esquerda’, prevendo o seu declínio inevitável.

 

Em julho do ano passado, num Observador a querer ganhar espaço, João Marques de Almeida sentenciava:

<Para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda acabou. O partido ainda existe, não desaparecerá de um dia para o outro, mas o fim será penoso, e os ódios tribais causarão certamente vítimas.>

 

E prosseguia para explicar a origem da doença:

<O Bloco foi um fenómeno político de tempos de prosperidade. O seu eleitorado foi a burguesia urbana, intelectual e liberal nos costumes, que estava disposta a apoiar causas sociais quando tudo lhes corria bem. Os salários cresciam, as pensões e, para muitos, os subsídios do Estado estavam garantidos, e a vida corria sem sobressaltos de maior. Estavam disponíveis para umas campanhas a favor de causas fracturantes, o que de resto fazia muito bem ao ego de quem de identifica como moderno e progressista. Mas a última coisa que desejavam era grandes mudanças e muito menos revoluções. Um partido de líderes revolucionários tinha no essencial um eleitorado satisfeito com a sua vida. Tal como no caso do PSD, também o Bloco de Esquerda tem membros à direita dos líderes, e eleitores à direita do partido.>

Foi neste cenário que, mais recentemente, caiu sobre o Bloco aquela que aparentava ser a estucada final: o Syriza – partido ‘irmão’ e com um percurso semelhante – mostrou ao Mundo o que significa para um partido de extrema-esquerda ter de governar num ambiente fortemente condicionado e enfrentar a necessidade de fazer compromissos.

 

Partindo para estas eleições sob o espectro de uma profecia auto/realizável, com sondagens persistentemente desfavoráveis, o Bloco decidiu reincidir na estratégia que parecia condenada ao fracasso: colar-se à extrema-esquerda. À luz das sondagens e das eleições mais recentes, o resultado parecia certo: o Bloco, de uma assentada, entregava o centro ao PS e a esquerda ao PCP (entre o original e a cópia, qual tendemos a escolher?).

 

E, no entanto, o Bloco obteve os referidos 10% de votos.

 

Perante isto, sobram-me muitas questões contraditórias:

 

(i) Como conseguiu o Bloco, o partido que mais cavalgou a ‘onda Syriza’, imunizar-se face ao embate com a realidade do partido grego, profusamente utilizado pela direita durante a campanha? Como conseguiu segurar – ou até atrair – parte do centro?

(ii) Será que, ao contrário do que muito boa gente – eu incluído – pensava, o potencial do Bloco não gerar a ‘auto-determinação’ da ala esquerda do PS, mas antes sedimentar-se como partido de protesto? Esta é uma das conclusões possíveis da votação de ontem, em que o promissor Livre ficou aquém da eleição e o PTP-MAS com escassos 20 mil votos.

(iii) Será possível o Bloco ter atraído votantes do PS através de uma postura marcadamente de esquerda, quando um discurso demasiadamente longe do centro é precisamente um dos factores apontados como causa da derrota socialista?

(iv) Terá o Bloco efectivamente conseguido diferenciar-se do PCP, partido cujo discurso por vezes parece quase mimetizar? Por que não foi o PCP o escolhido por quem rejeita a austeridade?

(v) Ou terá antes, como indica a análise possível dos números, parte significativa da votação de ontem provindo da própria coligação (ie, de quem em 2011 votou PSD ou CDS)? E o que significa isso em termos da base eleitoral dos partidos?

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A revelação da campanha.

por Luís Menezes Leitão, em 15.09.15

 

Para mim, esta campanha tem sido absolutamente medíocre. Passos Coelho manifestamente não está em forma, obrigando Paulo Portas a assumir grande parte do esforço da campanha, o que tem feito de forma competente, mas sem rasgo. Já António Costa, depois de ter passado a pré-campanha a dar tiros no pé, conseguiu um suplemento de alma no debate com Passos Coelho, que desbaratou no dia seguinte na entrevista a Vítor Gonçalves, onde se demonstrou claramente, para grande irritação de Costa, que o PS pode ter feito as contas, mas as mesmas não batem certo. Já Jerónimo de Sousa é o que sempre foi, para o melhor e para o pior.

 

A grande surpresa desta campanha é, por isso, Catarina Martins. Concorde-se ou não com as suas propostas — e eu não concordo de todo — não há dúvida de que tem conseguido levar a água ao seu moinho, apresentando-se bem preparada, com um discurso coerente, tendo vencido todos os debates em que participou, com excepção daquele com Jerónimo de Sousa, onde intencionalmente jogou para o empate. Venceu Portas em toda a linha, venceu tangencialmente Passos Coelho, e arrasou António Costa no campo onde este se pretende agarrar a todo o custo: o seu próprio programa. Depois de António Costa acusar a direita de querer cortar 600 milhões nas pensões, ficará seguramente no ouvido dos pensionistas os 1600 milhões de perdas nas pensões, que Catarina Martins demonstrou estarem no programa do PS. 

 

O debate com António Costa era o mais importante para o Bloco de Esquerda, pois era aí que poderia estancar ou abrir a fuga dos  eleitores do Bloco para o voto útil no PS. A meu ver, Catarina Martins conseguiu estancar essa fuga, encostando Costa completamente à direita, quando ele é o líder mais à esquerda do PS desde sempre. Quer na segurança social, quer no despedimento conciliatório, Catarina Martins encostou António Costa às cordas da direita, terminando com uma estocada final decisiva, a perguntar se faria acordo com ela ou com Rui Rio ou Paulo Portas. Costa limitou-se em seguida a papaguear umas vaguidades, fugindo à questão, o que seguramente não será positivo para atrair o voto útil à esquerda.

 

Se se perguntasse qual era o líder partidário que tinha a situação mais difícil nestas eleições eu diria que era Catarina Martins. O Bloco tinha perdido o seu líder histórico, depois do abandono de Francisco Louçã, e a liderança bicéfala de João Semedo e Catarina Martins tinha sido um fracasso. O Bloco assistia a sucessivas cisões, que davam lugar a novos partidos, como o Livre, o MAS, ou o Agir, sendo que, mesmo dentro do próprio Bloco, a única forma de se porem de acordo foi atribuir a liderança a seis pessoas, ficando Catarina Martins como simples porta-voz. E o PS aproveitava esta divisão, chegando a convidar Rui Tavares, do Livre, para os seus congressos.

 

Hoje, os partidos que resultaram da cisão do Bloco estão reduzidos a fazer umas simples piruetas mediáticas, enquanto que o próprio Bloco, através de Catarina Martins, tem tido uma excelente prestação nesta campanha. Tenha o resultado eleitoral que tiver, a partir de agora o Bloco de Esquerda tem uma líder. O que, nos tempos que correm, não é coisa pequena.

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A estratégia de comunicação do Bloco de Esquerda.

por Luís Menezes Leitão, em 23.02.15

 

Há muito tempo que acho que a estratégia de comunicação do Bloco de Esquerda é um disparate gigantesco, o que talvez explique a facilidade com que esse partido multiplica as tendências, as cisões e até os seus líderes. A imagem que publico acima apareceu em 2004 em cartazes espalhados pelo país. Nessa altura tive ocasião de receber uns colegas americanos em visita a Portugal, que ficaram muito espantados em ver o seu presidente em cartazes por todo o lado e quiseram saber o que lá estava escrito. Quando lhes expliquei que se pretendia extrapolar a derrota de Aznar nas eleições espanholas de Março de 2004 para dizer que a seguir também seriam derrotados eleitoralmente Bush, Blair e Barroso, perguntaram-me logo perplexos o que ganhava um partido político português com esse tipo de mensagem política. A qual aliás se viria a revelar totalmente errada, pois Bush foi calmamente reeleito em 2004 e Blair foi reeleito para um terceiro mandato em 2005. O único que pelos vistos se impressionou com a mensagem do Bloco foi Durão Barroso, que poucos meses depois preferiu emigrar para um exílio dourado em Bruxelas a continuar à frente do governo português.

 

Talvez preocupado com o facto de os alemães que hoje visitam Portugal poderem ter a mesma reacção que os meus colegas americanos, o Bloco decidiu que um cartaz com Angela Merkel deveria obviamente estar escrito em alemão. Aqui denuncia-se correctamente os vários erros de alemão que o cartaz tem. Confesso que quando o vi tive dificuldade em perceber o texto, e parece-me que o problema está logo no próprio português. "Um governo mais alemão que o alemão" é uma frase que nem em português faz grande sentido, quando mais traduzida para alemão, colocando adjectivos em maiúsculas e omitindo a vírgula, essencial nas orações subordinadas. Mas em termos substanciais a comparação não tem qualquer sentido. Não é por obedecer ao Diktat de Angela Merkel que o governo português se torna mais alemão que o governo alemão. No resto da Europa e na própria Alemanha poderemos ser chamados de muitas coisas. Alemães não será seguramente uma delas. E é estranho que o Bloco de Esquerda não consiga ver isso.

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A aposta estúpida do PS e a aposta natural do BE

por José António Abreu, em 29.01.15

O desvelo dos socialistas nacionais para com a vitória do Syriza não configura apenas oportunismo mas também um erro monumental. Se a Grécia entrar em colapso ou tiver que recuar nas políticas anti-austeridade, nem os favores de que continua a gozar na comunicação social serão suficientes para disfarçar a perda de credibilidade de António Costa. (Ironia assinalável: a fuga de capitais dos bancos gregos mostra que existe por lá bastante gente menos crédula do que os socialistas portugueses.) Mas se o governo de Tsipras conseguir forçar uma mudança de rumo na União Europeia, então o PS tornar-se-á irrelevante porque outro partido apresenta uma relação com o Syriza e com as políticas que este defende muito mais antiga, forte e credível - e, ainda por cima, não está sobrecarregado com o peso da governação Sócrates nem com a imagem de abuso do poder para negócios pouco claros que hoje persegue os partidos do «arco governativo». O Bloco de Esquerda pode encontrar-se em processo de implosão mas, se o Syriza levar a Grécia a atingir aquilo a que Rui Ramos chama, muito adequadamente, «essa coisa curiosa: uma “independência” que depende inteiramente do dinheiro dos outros», até eu ponderarei seriamente votar nele.

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Sugestão para novo símbolo do Bloco de Esquerda

por José António Abreu, em 24.11.14

Hydra 002.jpgEmbora - e de forma a prevenir futuros desenvolvimentos - talvez seja preferível optarem pela versão com as sete cabeças bem visíveis.

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Que tal avançarem para a primeira liderança tricéfala?

por José António Abreu, em 23.11.14

Catarina Martins, João Semedo e Pedro Filipe Soares empatam na eleição de delegados para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda.

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Nasceu em Marrocos vitelo com duas cabeças.

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Newsflash: Bloco de Esquerda suaviza posição

por José António Abreu, em 17.06.13
Depois de meses a exigir a demissão do governo, exigiu hoje apenas a demissão do Ministro da Educação.

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O Bloco de Esquerda.

por Luís Menezes Leitão, em 21.08.12
 

 

Os tempos de crise que atravessamos podem bem conduzir a uma alteração radical no sistema partidário português, como já se verificou na Grécia e na Itália. É interessante por isso analisar o estado dos diversos partidos portugueses. Comecemos naturalmente pelo Bloco de Esquerda, face ao anúncio da saída de Francisco Louçã da sua liderança.

 

Para se perceber bem o Bloco de Esquerda é necessário recuar muito tempo, aos inúmeros partidos de extrema-esquerda surgidos após o 25 de Abril. Na altura tínhamos entre muitos outros a UDP, o MRPP, a LCI, o PRT, o PRP-BR, o PCP-ML, a AOC, o MES, o POUS, o PST, etc, etc. Estes partidos abrangiam todas as correntes comunistas possíveis e imaginárias, desde estalinistas, maoistas, trotskistas, albaneses e outros. Unia-nos, no entanto, um ponto comum que era um ódio profundo ao PCP, porventura até maior que o que tinham à direita. O PCP era designado por social-fascista e objecto de ataques sistemáticos. O PCP-ML pretendia assegurar pelo próprio nome que o PCP já não era marxista-leninista. E ficou célebre um slogan da AOC que dizia que cada deputado que elegesse era uma espinha na garganta de Cunhal.

 

Desses partidos o único que tinha peso eleitoral era a UDP que, devido à concentração dos seus votos em Lisboa, elegia sistematicamente um deputado, primeiro Acácio Barreiros e depois Mário Tomé. No parlamento a UDP prosseguia ataques sistemáticos ao PCP, que designava por "o partido dito comunista", suscitando imediatamente protestos do mesmo. A certa altura chegou a anunciar a criação de um partido comunista reconstruído, primeiro PCP(R) e depois PC(R).

 

A partir de 1978 surge, no entanto, o PSR, a partir de uma fusão da LCI com o PRT, com cariz trotskista. O PSR chama a atenção pela qualidade dos seus tempos de antena, que apresentavam ideias distintas da banalidade geral. Quando tenta uma frente eleitoral com a UDP os resultados são desastrosos, pelo que o partido continua a concorrer autonomamente, beneficiando do brilhantismo de Francisco Louçã que, no entanto, nunca era eleito.

 

Francisco Louçã tem um enorme defeito. É inegavelmente um dos mais bem preparados líderes partidários, com uma grande bagagem cultural e uma enorme capacidade dialéctica, forjada por muitos anos de debates desde a mais tenra juventude. Talvez por isso mesmo só o vi baquear uma única vez perante um líder da direita, num debate com Durão Barroso, que tem a vantagem de ter andado pelas mesmas lides. A sua inteligência torna-o, porém, frio e distante dos eleitores, pelo que não consegue ter grande sucesso eleitoral. Em 1991 esteve a um passo de ser eleito para o parlamento. Bastava para isso convencer 1/5 dos eleitores da aldeia de D. Maria, uma terreola nos arredores de Lisboa que boicotou as eleições por não ter água canalizada, a votar nele. Louçã bem se deslocou a D. Maria, prometendo a partir do Parlamento resolver o assunto. Os eleitores, porém, mantiveram o boicote, confirmando a eleição do último deputado do PSD, que naturalmente se esteve nas tintas para a água de D. Maria. Nas eleições presidenciais a que concorreu, Louçã pôde confirmar que o seu peso eleitoral é reduzido.

 

O sucesso eleitoral do Bloco deve-se, por isso, essencialmente a um homem: Miguel Portas, que era tão inteligente como Louçã mas muito mais caloroso com os eleitores. A partir de três pequenos partidos, já que juntou a Política XXI de dissidentes do PCP, às tradicionais UDP e PSR, conseguiu nas eleições europeias de 1999 apresentar um projecto eleitoral consistente, falhando por pouco a eleição para deputado europeu. A partir daí estava feito o mais difícil. Nas eleições legislativas que se seguiram o Bloco obteve dois deputados, levando Francisco Louçã e Luís Fazenda a conseguir os lugares de deputados que há tantos anos ambicionavam. E os dez anos seguintes foram de crescimento sucessivo para o Bloco que capitalizava com os descontentes da ala esquerda do PS sem, porém, entrar minimamente no eleitorado do PCP, que nunca esqueceu a inimizade desde sempre existente.

 

As eleições de 2011 mostraram, porém, que o voto útil à esquerda é mortal para o Bloco, que se viu reduzido a metade dos deputados em virtude da ameaça de uma vitória do centro-direita. Ficou assim demonstrada uma grande permeabilidade entre a ala esquerda do PS e o Bloco, a qual aliás teve tradução no Parlamento com os deputados do Bloco a aderir em peso à intenção manifestada pelos deputados da ala esquerda do PS de suscitar a inconstitucionalidade do corte dos subsídios. Como não podia deixar de ser, o PCP ficou de fora da iniciativa.

 

Louçã percebeu por isso que os seus eleitores e até os seus deputados não resistiriam a uma aproximação ao PS, pelo que preferiu sair, alegando a necessidade de renovação, ainda que contraditoriamente aponte como sucessor alguém ainda mais velho. Sugeriu até uma liderança bicéfala, talvez a única maneira de satisfazer as contradições existentes no Bloco, o que só servirá para acentuar as mesmas. O Bloco de Esquerda corre assim o risco de se evaporar nos próximos tempos. O exemplo do PRD leva a pensar que os partidos que tentam entrar no quadro partidário surgido no 25 de Abril podem ter sucesso a princípio, mas esse sucesso é efémero.

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