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Em defesa do bloco central

por Teresa Ribeiro, em 12.06.15

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A noiva não poderia ir de flor de laranjeira, porque perdeu a virgindade há quatro anos, mas levaria um bouquet de rosas, senhores. E se prometesse fazer com elas um milagre como a santa, teríamos assegurado o pão. Caso o par decidisse afinal não privatizar as águas, ficaríamos, na pior das hipóteses, a pão e água.

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E agora, PS?

por Pedro Correia, em 03.12.14

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Mário Soares (com Salgado Zenha e Manuel Serra) no I Congresso do PS, em 1974

 

Já não há paciência para o uso e abuso de certos chavões na política portuguesa. Um deles - que escuto desde miúdo, há 40 anos - é a necessidade de "virar o PS à esquerda".

Isto encerra dois equívocos.

Primeiro: desautoriza a identidade dos socialistas como força política de esquerda, por sinal aquela que é desde sempre a mais votada neste segmento.

Segundo: pretende arrastar o PS para fora do eixo governativo, tornando-o um partido inútil.

 

A verdade é que, em quatro décadas de democracia, os socialistas sempre governaram ao centro - ou não governaram de todo. Todas as cisões "pela esquerda" ocorridas no partido - desde a primeira, com Manuel Serra, logo após o congresso inaugural, em 1974 - não conduziram a lugar algum.

Mário Soares sabia disto como ninguém: nas duas ocasiões em que chefiou o Governo, nas décadas de 70 e 80, concretizou este objectivo aliando-se à direita - primeiro com o CDS, depois com o PSD.

António Guterres, que nunca obteve maioria no Parlamento, viu os seus orçamentos viabilizados não pela esquerda mas pelo centro-direita, alternadamente, com Manuel Monteiro ou Marcelo Rebelo de Sousa.

E José Sócrates, fiel à letra e ao espírito do Tratado Orçamental, nunca deixou de ser um dos políticos predilectos de Angela Merkel - facto que alguns dos seus mais abnegados discípulos tentam fazer esquecer por estes dias. De resto, na segunda legislatura sob o seu comando, o ex-primeiro-ministro socialista só conseguiu governar porque o PSD, com Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho, lhe viabilizou dois orçamentos do Estado.

A auto-intitulada "verdadeira esquerda" fechou-lhe a porta com o estribilho de sempre: o PS "pratica políticas de direita" .

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Francisco Assis: o rei vai nu

 

Esquecer tudo isto é ignorar deliberadamente a contínua obstrução que as forças colocadas à esquerda dos socialistas sempre fizeram à acção governativa do PS, erigido em permanente adversário principal. Não deixa de ser irónico, portanto, que Francisco Assis seja agora o maior alvo das críticas internas no partido que acaba de sufragar a orientação política de António Costa por um voto quase unânime.

Qual é o seu delito de opinião?

Defender, como prioridade para o PS, aquilo que Soares sempre praticou: o bloco central revisitado. Algo que alguns actuais expoentes da "ala esquerda" do PS, como Ferro Rodrigues - e outros, como Vera JardimVítor Ramalho ou o ex-presidente Jorge Sampaio -, defenderam no passado.

Assis - dotado de visão estratégica - revelou para já o mérito de ter sido o único socialista de primeiro plano a anunciar que o rei vai nu. Por outras palavras, a dizer algo óbvio mas que agora quase todos recusam reconhecer: que a "viragem à esquerda" levará o PS a esbarrar contra a parede.

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Ética é ter dinheiro nos bolsos

por Pedro Correia, em 21.11.14

Acreditei desde o início que a subvenção vitalícia aos políticos - ontem reposta de forma inqualificável por iniciativa conjunta de  dois deputados que já foram ministros,  um do PS (José Lello) e outro do PSD  (Couto dos Santos) - seria chumbada na votação final do Orçamento do Estado para 2015.

Um cenário de viabilização desta medida seria imoral num País que faz tão duros sacrifícios há tempo demasiado. Seria, na verdade, um  insulto a todos os portugueses.

Não foi preciso esperar tanto: a proposta acabou por ser retirada ainda durante o debate na especialidade.

Entretanto, creio ter inegável interesse jornalístico conhecermos a lista completa dos 318 beneficiários desta putatitva medida, que custaria ao erário público - isto é, a todos nós - a módica quantia de sete milhões de euros por ano. Talvez dela constem personalidades que adoram fazer proclamações retóricas sobre a necessidade de impregnar a política de referenciais éticos. Podiam ter renunciado à subvenção, mas não o fizeram. Fiéis àquela máxima de autor anónimo: "Ética, para mim, é ter dinheiro nos bolsos."

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O Bloco Central de interesses.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.14

Esta votação demonstra já o que se perspectiva para o próximo governo. Efectivamente, apeado António José Seguro, o PS de António Costa está inteiramente vocacionado para um governo de bloco central, juntamente com o PSD, apostado em satisfazer os interesses do costume, especialmente os dos políticos. Os funcionários públicos perderam até 10% dos seus salários e tanto Passos Coelho como António Costa só os prometem devolver nas calendas gregas. Mas entretanto repõem aos seus amigos uma imoral subvenção vitalícia, obtida ao fim de 12 anos de "trabalho" no parlamento. São estes privilégios dos políticos que os sacrifícios dos cidadãos pagam. Tenham vergonha.

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À atenção de Mário Soares

por Pedro Correia, em 15.05.14

O ex-líder socialista espanhol Felipe González, que foi presidente do Governo entre 1982 e 1996, admite que venha a ser formado um executivo de bloco central em Madrid. Tendo em atenção não interesses partidários de qualquer espécie mas apenas o interesse de Espanha.

"Não está demonstrado que a dispersão do voto, que é legítima, ajude a solucionar os grandes problemas do país", declarou González, apontando o precedente da Alemanha, onde conservadores e sociais-democratas governam em coligação desde as legislativas do ano passado.

"Devem fazer [uma coligação] se o país necessitar", observou o ex-chefe do Governo, referindo-se ao Partido Popular e ao Partido Socialista Operário Espanhol.

Um bom conselho que não deverá deixar de ser partilhado por Mário Soares, precursor em Portugal de coligações entre o PS e o CDS, por um lado, e entre o PS e o PSD, por outro.

 

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Há poucos dias, uns tantos comentadores advertiam por aí que António José Seguro seria incapaz de estabelecer um acordo -- qualquer acordo -- com o Governo por estar condicionado pela bancada parlamentar do seu partido, em grande parte dominada pelos seus adversários internos. O secretário-geral do PS não tardou a desmentir esses comentadores, que umas vezes se limitam a sublinhar o óbvio e outras confundem os próprios desejos com a realidade, ao estabelecer o primeiro acordo da legislatura com Passos Coelho.

De uma só vez, Seguro marca pontos em vários tabuleiros.

Desde logo, mostrou ao grupo parlamentar quem é que manda no PS: sejam quais forem os estados de alma reinantes na bancada, os deputados socialistas terão de aprovar este acordo.

Depois, surgiu como salvador das pequenas e médias empresas -- que asseguram 75% dos postos de trabalho em Portugal -- ao levar Passos a aceitar uma taxa intermédia no IRC. Graças a este acordo, 400 mil empresas terão menos carga fiscal em 2014: não podiam receber melhor notícia.

Demonstrou, além disso, habilidade para usar os meios de informação de modo a obter o maior impacto possível no preciso momento em que o debate parlamentar da semana passada estava a ser transmitido em directo pelos canais televisivos. Aquele gesto de pegar no telefone e dialogar com o primeiro-ministro em pleno hemiciclo demonstra instinto mediático, sem o qual não existe eficácia real na acção política.

Mas o fundamental em tudo isto é a imagem de moderação que Seguro transmite aos portugueses. Separando o PS da esquerda radical, que serve para subtrair e não para somar. Mostrando, em suma, uma atitude responsável no plano institucional, própria de um líder político que está pronto para governar. E, mais que isso, que quer governar estabelecendo pontes em vez de cortar vias de diálogo.

Estamos, provavelmente, perante o primeiro passo do próximo ciclo político em Portugal. Há longos percursos que começam por muito menos.

 

Foto Lusa/José Sena Goulão

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Moda Outono/Inverno em Berlim

por Pedro Correia, em 17.10.13

Alemanha volta a ser governada com Bloco Central: um contributo para antecipar o guião político de Cavaco Silva em 2014.

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As coisas são o que são

por Pedro Correia, em 15.07.13

Quem defende eleições legislativas antecipadas como solução para a crise disponibiliza-se, no fundo, a escancarar as portas de um novo bloco central. Os números aí estão, à consideração do Bloco de Esquerda e do PCP.

 

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Trinta Anos e Oito Dias Depois

por Ana Cláudia Vicente, em 03.07.13

«Sem estabilidade e continuidade governativa não é possível disciplinar e aumentar a produção nacional, acumular a riqueza necessária ao investimento privado ou público, pôr termo aos elevados défices do Orçamento Geral do Estado e das Contas com o exterior; sem estabilidade e continuidade governativa não é possível extinguir ou sequer reduzir o endividamento externo, combater a inflação e o desemprego, proporcionar aos portugueses habitação, ir em auxílio dos reformados, dos pensionistas, dos doentes, dos inválidos e dos deficientes, tornar mais promissor o futuro dos jovens, etc; enfim, sem a estabilidade e a continuidade governativa não é possível elevar o nível de vida do povo português»

 

Carlos Alberto da Mota Pinto (1936-1985)

[Discurso de tomada de posse como Vice-Presidente do IX Governo Constitucional, conhecido por 'Bloco Central', 24 de Junho de '83]

 

Há outros, mas tem-me ocorrido Mota Pinto, homem que detinha já uma carreira académica sólida quando iniciou actividade política. Foi cooptado pelo PPD logo na sua fundação, tornou-se líder parlamentar durante a Constituinte. Desentendeu-se e reentendeu-se com o partido algumas vezes ao longo dos anos, foi ministro, primeiro-ministro. Impressiona-me particularmente o ter aceite, depois de disso, a vice-presidência de um governo de coligação com o PS, em circunstâncias tão adversas como as que acompanharam a intervenção do FMI.

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O menor de todos os males

por José Maria Gui Pimentel, em 07.10.12

Confesso que mudei de opinião recentemente – como não sou político, posso felizmente admiti-lo à boca cheia. Se antes pensava que um governo de bloco central não era uma solução desejável, era até mau para a democracia, agora penso justamente o contrário.

 

O tipo de medidas que o governo tem que tomar serão inevitavelmente impopulares. Tão impopulares que ameaçam, e estão a ter esse efeito, deixar o governo sozinho, abandonado não só pelo PS, que também assinou o memorando, mas também pelos próprios partidos que o sustentam.

 

Passos e Gaspar, mal ou bem, estão-se mesmo “nas tintas para as eleições”. Estão genuinamente determinados em fazer cumprir o seu programa e pouco importados com as consequências colaterais. Já os partidos que sustentam o governo estão verdadeiramente aterrorizados, principalmente o PSD (visto que o CDS poderá até, em última análise, sair beneficiado). O PSD extra-governo olha para um futuro não muito distante e rapidamente percebe que um falhanço do governo, e sobretudo a tomada de medidas como a da TSU, poderão apagar o PSD do mapa já nas próximas eleições. Já o PS de Seguro está numa encruzilhada, da qual se vai tentando desenvencilhar. Preso ao memorando, vai procurando escapes para se indignar, aproveitando o facto de o acordo estabelecer os fins, mas não (ou nem sempre) os meios, sendo estes por conseguinte criticáveis (embora fazê-lo sem apresentar alternativas seja mais difícil). A TSU foi, neste quadro, como água no deserto para um Seguro sedento, na medida em que, pela primeira vez, o governo deu um passo além-memorando. Temos, portanto, um quadro em que ao barulho inevitável dos partidos da extrema-esquerda se junta o burburinho cada vez mais ensurdecedor do CDS, do PSD e do PS, com cada vez mais vozes destes partidos – históricas ou não históricas – a virem a terreno mostrar o seu afastamento do governo. Este resultado tem causas relativamente evidentes: o PS está na oposição, e por isso tem todos os incentivos para sublinhar as suas diferenças face ao governo, por mais constrangido que esteja; o PSD, por seu lado, tem cada vez mais incentivos para não ficar quieto, não só como resposta ao PS, mas também porque vê o seu governo trilhar caminhos altamente perigosos para o futuro do partido.

 

A única solução para evitar o fim que se adivinha, dentro da esfera da democracia, é um bloco central. Claro que esta opção teria sido impossível em 2011, porque Sócrates nunca a aceitaria (embora Cavaco pudesse ter intervindo mais vigorosamente no pós-eleições, depois da demissão de Sócrates). Agora, porém, numa altura em que se confirmou que o caminho traçado é mais difícil do que os mais optimistas previam, com o governo a ter que tomar medidas que os eleitores já não entendem ter sido sufragadas, é do interesse de todos os partidos do “arco do poder” optar por esta solução. A sua recusa poderá implicar uma queda do governo e subsequentes novas eleições, em que figurarão um PSD em pedaços e um PS sem capacidade para explicar aos eleitores como fará diferente dos últimos governos. Embora, mesmo nestas condições, possa vir a sair, à tangente, um derradeiro governo moderado, haveria um enorme risco de que os eleitores, e com toda a legitimidade, entregassem o poder a quem, para todos os efeitos, ainda não lhes falhou. 

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Amado faz xeque a Sócrates

por Pedro Correia, em 13.11.10

 

 

Escassas horas após o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, ter feito um apelo à necessidade de todos os responsáveis da vida pública portuguesa enviarem uma "mensagem positiva" aos mercados internacionais, um dos seus colegas de Governo, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, proclama em entrevista ao Expresso que o País pode "sair da zona euro" se não houver uma profunda remodelação do Executivo com a formação imediata de uma "grande coligação", à moda austríaca. Uma descolagem clara de Luís Amado, em rota de colisão com o primeiro-ministro, que o coloca desde já à cabeça dos candidatos a liderar um suposto governo de "salvação nacional". "O País precisa de uma coligação já", declara o ministro, sem rodeios de qualquer espécie, tornando nula a mensagem anterior que Sócrates emitira pela boca de Silva Pereira.

A partir de agora nada ficará na mesma. O bloco central que tem vindo a ser defendido dia após dia, alternadamente, por personalidades da área do PS e do PSD, vai ganhando corpo. Ainda há poucas horas pudemos ouvir também o ex-ministro socialista Correia de Campos, agora deputado no Parlamento Europeu, afirmar na RTP N: "Temos necessidade de uma política bipartidária que nos permita sair da crise."

Sem necessidade de proferir uma palavra em público, Cavaco Silva vê o terreno aplainado neste cerco duplo que outros lançam para afastar José Sócrates por um lado e travar Passos Coelho por outro. Vivemos tempos interessantes. Apesar da crise. Ou antes: por causa dela.

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Olhem que não, olhem que não

por Pedro Correia, em 12.11.10

 

Como na altura assinalei, o discurso apaziguador de Manuela Ferreira Leite no recente debate do orçamento serviu de mote àqueles que querem apear José Sócrates sem abrirem caminho a Passos Coelho. O primeiro-ministro elogiou o discurso de Ferreira Leite, não percebendo que o futuro bloco central que muitos pretendem, no PS e no PSD, não o inclui a ele. Pacheco Pereira, ainda confinado ao papel de intérprete da ex-ministra das Finanças, deixou tudo mais claro na emissão de ontem da Quadratura do Círculo. "É necessário encontrar uma solução de estabilidade política até às próximas eleições para que as medidas do orçamento sejam aplicadas", declarou este antigo combatente contra o bloco central, recém-convertido aos consensos do centrão, a pretexto da "emergência" financeira.

Claro que essas eleições devem decorrer o mais tarde possível, sustenta Pacheco, com idêntica clareza: "É um crime, nesta altura, estar a pensar em eleições." Até porque "o País precisa de um certo abaixamento da conflitualidade política."

Invoca-se, para o efeito, o "interesse nacional". Mas o que está em causa é despejar Sócrates impedindo em simultâneo que Pedro Passos Coelho ascenda à chefia do Governo. Em óbvia sintonia com o Presidente da República, outro antigo combatente da guerra ao bloco central que hoje sonha ver transportado para Portugal o governo de 'grande coligação' existente na Áustria, a que daria a sua bênção iluminada e providencial. Sem Sócrates e também sem Passos.

Quadratura do círculo? Olhem que não, olhem que não.

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Parceiros para o tango, ao centro

por Pedro Correia, em 09.11.10

Eu bem dizia. Aí estão os primeiros apelos oriundos das fileiras socialistas à formação de um bloco central, com esta ou outra designação. Em declarações à TVI, ontem à noite, Vítor Ramalho falou da "necessidade de um acordo estratégico, a médio prazo", entre o PS e o PSD. Diluindo as fronteiras entre governo e oposição. E, em entrevista ao Diário Económico, António Vitorino - uma das raras personalidades com pensamento estratégico no partido de José Sócrates - deixa bem clara a sua posição, na mesma linha. Dizendo isto: "Neste momento o País tem de encontrar a capacidade de se unir e convergir numa plataforma comum para responder aos problemas." E mais isto: "O Governo vai ter de dialogar e dar passos para estabelecer pontes com o maior partido da oposição. (...) O PC e o BE não têm préstimo nem relevância governativa, as suas posturas políticas tornam-nos marginais em relação a qualquer solução de governo. Isso obriga o PS a ter o PSD como único interlocutor para uma estratégia deste género."

No PSD não falta igualmente quem pense desta forma, como o recente discurso parlamentar de Manuela Ferreira Leite deixou transparecer. Em pano de fundo, enquanto avalista supremo desta fórmula política, figura o Presidente da República. Aqueles sociais-democratas que já fazem cálculos eleitorais para 2011 prevendo que Cavaco Silva dissolverá o Parlamento podem esperar sentados...

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Os saudosistas do bloco central

por Pedro Correia, em 07.11.10

A "apreensão" que provocou em certas almas sensíveis o mais recente debate na Assembleia da República - marcado por declarações muito contundentes, como é de regra num parlamento - prenuncia uma alteração de ciclo político. Que incluirá apelos reiterados à formação de um bloco central, semelhante ao que vigorou na primeira metade da década de 80. Mais transparentes por bandas do PS - a pretexto de que a crise financeira exige "estabilidade política". Mais encapotados por bandas da oposição interna do PSD - que aposta na manutenção em funções do actual governo até que seja possível derrubar Passos Coelho. Uma vez mais, o tacticismo e o cálculo político de curto prazo vão preponderar. Buscam-se consensos recorrendo a bons argumentos, mas pelos piores motivos.

A vida política portuguesa precisa de modelos alternativos claros, à esquerda e à direita, e não de novas aglutinações ao centro que copiam o pior rotativismo do século XIX em que aliados e adversários mal se diferenciavam. E que teve o triste destino que bem sabemos.

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"Arejar um pouco a malquerença"

por Pedro Correia, em 30.10.10

«Até que ponto as batalhas verbais em torno do orçamento não servem também apenas para “arejar um pouco a malquerença”, antes de tudo ficar como estava?»

Escrito aqui há uma semana, com a devida vénia a Norman Mailer, criador da saborosa expressão. Confirmado agora, pelos motivos que sabemos.

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Jogar para o empate na política

por Pedro Correia, em 10.07.10

 

Aos poucos, a ideia vai fazendo caminho. Diversos socialistas saem a terreiro em defesa aberta de um governo de bloco central. Não sei se falaram com o acordo tácito de José Sócrates, cada vez mais sem margem de manobra política, mas a verdade é que neste momento nada podia dar mais jeito ao antigo "animal feroz", que descobriu as virtudes do diálogo ao fim de cinco anos de poder arrogante, em que depreciou sistematicamente os adversários, à esquerda e à direita.

Proença de Carvalho, em rápida aceleração para a órbita socialista, critica o Presidente da República por não promover uma coligação entre o PS e o PSD. "Ambos os líderes dos partidos deviam empenhar-se em criar um governo forte, com um programa reformista, que estivesse à altura das dificuldades que estamos a passar", diz à Rádio Renascença o advogado do primeiro-ministro.

Miranda Calha, membro do Secretariado socialista, declara em entrevista à edição de ontem do Sol [sem link]: "É importante que haja um suporte mais alargado para a governação. Não ponho de parte a necessidade de se chegar a um entendimento desse género [que] tanto pode ser [com] o PSD como com outro partido qualquer."

Já no ano passado Jorge Sampaio deixara claro em entrevista ao Diário Económico: "Pode ser necessária uma coligação. O bloco central político é uma possibilidade." Raciocínio reiterado há dias pelo ex-Presidente da República, desta vez em entrevista à SIC Notícias: "É difícil para o Governo sustentar o que tem feito. É preciso resistir e avançar. E se a nova liderança do PSD está disponível, cale a pena reunirem."

Outro antigo líder do partido, Ferro Rodrigues, que em 2009 aconselhara o PS a "virar-se para o PSD", reitera agora esta tese, também ao Sol [sem link]: "Há neste momento acordos pontuais [entre o PS e o PSD]. Espero que possam desenvolver-se num sentido mais permanente."

São declarações entrecruzadas que apontam um caminho. Perigoso para o PSD. O que menos falta a Portugal são técnicos de bancada a preconizar que se jogue para o empate. Mas a política, tal como o futebol, não é bem sucedida com empates: esse foi o equívoco que fez Carlos Queiroz sair da África do Sul pela esquerda baixa. Vendo-se afundar nas sondagens, Sócrates até se dispôs já a oferecer a pasta dos Negócios Estrangeiros a Paulo Portas. Que teve o bom senso de recusar. Nenhuma coligação será possível com este primeiro-ministro que fez de todas as negociações políticas uma arma de arremesso permanente contra os adversários. Talvez por isso, segundo o Expresso de hoje, Francisco Assis se perfile já entre os candidatos à sua sucessão: é o velho instinto de sobrevivência do PS a funcionar.

 

ADENDA: Extraordinário. Também o deputado Vera Jardim, ex-ministro da Justiça, surge agora a defender, em entrevista à Antena 1, um "acordo de governação" entre PS, PSD e CDS, adiantando que Sócrates "está disponível para esta solução". Já não me resta a menor dúvida que o primeiro-ministro é a "fonte inspiradora" desta súbita conversação de tantos socialistas à tese do bloco central.

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Happy together

por Pedro Correia, em 01.02.10

 

Alguns comentadores da blogosfera afectos ao PSD não escondem a sua decepção pelo facto de o partido ter viabilizado o Orçamento de Estado para 2010 apresentado pelo ministro Teixeira dos Santos, que está definitivamente desprestigiado. Nenhuma conta que o titular da pasta das Finanças apresentou até agora foi confirmada pelos factos e ninguém imagina que alguma operação de aritmética que emane do seu gabinete do Terreiro do Paço passe a bater certo a partir de agora. Apesar disso, o presidente da bancada parlamentar laranja não teve a mínima dúvida em considerar que seria "uma leviandade e uma falta de maturidade" a mera hipótese de os sociais-democratas poderem votar contra o mais decisivo instrumento da acção governativa. Uma réplica evidente àqueles que, como José Pacheco Pereira, andaram desde Outubro a pregar no deserto, bradando que "não é sadio considerar que pode ser objecto de negociações o núcleo fundamental que diferencia o PS e o PSD."

Motivo de espanto? Nenhum. Lembremos factos: durante a campanha eleitoral, cabeças de lista sociais-democratas, como João de Deus Pinheiro e Couto dos Santos, admitiram a formação de um novo bloco central, enquanto Paulo Mota Pinto não excluía esta hipótese. Mas lembremos mais: a própria Manuela Ferreira Leite, antes de ser líder do PSD, subscreveu o núcleo central da governação socialista. Elogiou a reforma da segurança social feita por Vieira da Silva. Aplaudiu a concertação orçamental conduzida por Teixeira dos Santos. Defendeu a celebração de pactos PS-PSD para a justiça, segurança interna e leis eleitorais. Considerou "absolutamente essencial"  a reforma da rede hospitalar iniciada por Correia de Campos, condenando a "reacção emotiva" do PSD, ao contrário até de muitos socialistas. E destacou a "coragem" de Maria de Lurdes Rodrigues por levar a cabo a sua política educativa.

Era com esta líder que alguns, no PSD, sonhavam ganhar eleições. É com esta deputada, e alguns outros, que Sócrates está a construir a sua nova maioria no Parlamento.

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Um PS de série B

por Pedro Correia, em 20.11.09

 

No plenário da Assembleia da República, o PSD fez hoje tábua rasa do seu programa eleitoral, que previa a suspensão do processo de avaliação dos professores, e deu a mão ao Governo, demarcando-se da restante oposição. Lamento ter razão numa matéria para a qual, durante meses, fui alertando os meus colegas da blogosfera que andaram profundamente iludidos com a retórica da actual direcção social-democrata, mais vocacionada para ser uma espécie de PS de série B do que uma verdadeira alternativa aos socialistas.

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Legislativas (49)

por Pedro Correia, em 28.09.09

  

 

CONTA CORRENTE

 

Há quem prefira fazer "prognósticos" depois do jogo. Eu nestas coisas sou muito antiquado: prefiro fazê-los antes.

Foi assim que fiz. Aqui. E também aqui. E ainda aqui, aqui e aqui.

 

Sobre a nova maioria que se desenha no Parlamento, eis desde já o meu palpite.

 

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União de facto pior que gripe

por João Carvalho, em 31.08.09

O candidato recém-aliciado do PS Miguel Vale de Almeida dá hoje explicações no lugar do costume por causa de «alguma confusão noticiosa sobre o que disse ontem no Campus da JS em Santa Cruz». Ninguém sabe se foi a imprensa que não o compreendeu, se foi ele que não se fez explicar. Mas fez questão de deixar agora mais claro que «reduzir» o que quis dizer «a uma questão politiqueira entre o PS e o BE é coisa que não» lhe «interessa nem motiva». Designadamente, «porque bem mais importante é denunciar o projecto reaccionário do PSD».

Em suma: Vale de Almeida ainda não está no segredo dos deuses. Mas há-de estar. Mais tarde. Ou tarde de mais. Quando os seus novos amigos começarem a viver em união de facto com os tais «reaccionários». O Bloco Central ainda vai ser pior do que a gripe A.

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Legislativas (22)

por Pedro Correia, em 30.08.09

 

MAIS UMAS DOCES ACHEGAS PARA O BLOCO CENTRAL

 

Pina Moura, ex-ministro socialista, elogia o programa do PSD. Paulo Mota Pinto, vice-presidente de Manuela Ferreira Leite, não exclui uma coligação com o PS. A futura política de alianças vai fazendo o seu caminho, entrevista a entrevista. Simplex. Jamais digas jamais.

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Uma dúvida

por Paulo Gorjão, em 30.08.09

O que farão os apoiantes de Manuela Ferreira Leite, que andam por aí a dizer de José Sócrates e do PS o que Maomé não disse do toucinho, se a líder do PSD aceitar fazer parte ou liderar um governo de Bloco Central? Nesse mesmo dia demitem-se do PSD (ou assumem a ruptura, no caso dos independentes), ou é apenas mais um sapo -- a juntar a outros -- que engolirão em nome do acesso ao poder, a bem de Portugal, claro?

P.S. -- Sobre o Bloco Central, mais algumas notas aqui.

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Legislativas (21)

por Pedro Correia, em 27.08.09

 

 

O BLOCO CENTRAL REVISITADO

 

Sejamos claros. O que está essencialmente em jogo, na campanha para as legislativas, é a política de alianças pós-eleitoral. É um tema incómodo, do qual os líderes políticos fugirão a dar respostas claras - comprometendo assim, ainda mais, a relação de confiança e de transparência com os eleitores.

Mas podemos trabalhar no campo das hipóteses. E aqui as alternativas são mais claras do que parecem: ou a votação no CDS é suficiente para possibilitar uma aliança eleitoral, qualquer que seja, ou PS e PSD estão condenados a entender-se – com estes ou outros líderes. Não foi por acaso que na sua recente visita à Áustria o Presidente da República elogiou a 'grande coligação' lá existente, espécie de reedição do bloco central que por cá tivemos na década de 80: é nessa direcção que convergem já os estados-maiores dos dois principais partidos. Também não é por acaso que, como sublinha o Paulo Gorjão, no próprio dia da apresentação do tardio programa eleitoral do PSD, um dos seus principais candidatos, João de Deus Pinheiro, defende em entrevista ao i uma coligação com os socialistas. É a resposta simétrica às recentes declarações de Ferro Rodrigues ao Expresso que apontavam na mesma direcção. Deus Pinheiro, sublinhe-se, não é um novato na política: é um homem da estrita confiança simultânea de Cavaco Silva, de quem foi ministro, e de Manuela Ferreira Leite, que o designou como cabeça de lista às legislativas por Braga.

É esta a solução que está a desenhar-se no horizonte enquanto há quem pretenda atirar poeira aos olhos dos eleitores, fingindo cavar trincheiras só para dar algum colorido à campanha. Pura ilusão de óptica, como Ferro Rodrigues e Deus Pinheiro já perceberam. O cenário pós-27 de Setembro já está montado. E tem pontes entre os supostos rivais, não tem trincheiras.

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