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Perdi-me no texto, nem pus parágrafos

por António Manuel Venda, em 20.02.14

Esta raposa de olhos de luz dá um bocado de despesa (comida dos gatos e dos cães), e nem é possível aproveitar-lhe a electricidade para substituir uma parte da que a EDP para cá manda e cobra àquele preço que todos conhecemos e a que creio se convencionou chamar «rendas excessivas». Mas eu gosto dela. Não me importo que como o que lhe apetecer, só não gostei quando uma vez tentou levar um saco inteiro que depois teve de deixar pelo caminho, num dos buracos da rede da vedação. Era tempo de chuva e a comida apodreceu. Depois veio o sol e ainda estragou mais o que já estava estragado. O cheio era tão mau que eu acabei por descobrir o saco e resolver o mistério do desaparecimento. E veio-me a ideia de que a raposa tentou levá-lo para os filhotes. Por isso ainda procurei encontrar a ninhada aí pelo montado, mas sem sucesso. Bem escondida estaria, se é que existia, para ficar fora do alcance das águias e sabe-se lá de que mais criaturas. Elas andam sempre a rondar por aqui, umas três ou quatro de cada vez, provavelmente na ilusão de que eu sou do Benfica (Meu Deus!!!) ou então desconhecendo um facto que um leitor um dia me apontou num comentário ao romance uma noite com o fogo: «Você é o único escritor que eu conheço que já queimou uma águia num livro.» Não fui eu, foi o incêndio de que fala o romance, mas eu é que levei com as culpas. O leitor era do Sporting, como eu sou, e percebi que a admiração dele por mim aumentou. Mas o episódio da águia, obviamente, não teve nada a ver com preferências por clubes. Tão-pouco o do escalavardo, o gato bravo da Serra de Monchique, que no romance morre da mesma maneira. Voltando à raposa, que por aqui se mostra a salvo dos horrores do fogo daquele romance, um fogo bem real que destruiu tanto daquela serra em 2004, depois de já o ter feito em 2003, acho que já consigo alguma confiança com ela. Sei que é a mesma que em tempos se aproximava apenas do portão para ficar em brincadeiras com os cães através das grades, consigo reconhecê-la, mas agora, à noite, aparece com olhos de luz. Acabei por escrever uma história com ela, a segunda do livro que continuará «O Sorriso Enigmático do Javali» e que já tem título, mesmo inacabado: «Uma Serpente de Luzes na Planície». Se eu fosse o Fernando Tordo e me tornasse emigrante nem que fosse por causa desse livro inacabado, amanhã teria aqui não sei quantos repórteres de carros todos sujos depois de palmilharem a estrada de terra cheia de lama depois das chuvas dos últimos dias. Haveriam de fazer bicha (perdão, fila) para me entrevistar por causa dessa novidade, e nos rodapés dos ecrãs apareceriam «últimas horas», directos do fim do mundo onde moro, a falar do livro anunciado e ainda por terminar, sabe-se lá quando. Quando der. E sabia-se lá em que país... Para o que eu emigrasse, claro. «Vai para aonde?» (a correcção do onde, que passa a aonde) é minha. E eu talvez lhes dissesse que ia para o Brasil, como o outro, por causa do que se faz à cultura neste país - e a verdade é que se faz muita merda. Enfim, perdi-me no texto. Se não me perdesse nos textos seria um escritor de sucesso, como alguns que todos conhecemos que nunca se perdem, que mantém tudo nem arrumadinho apesar dos erros. Eu ia a voltar a falar da raposa de olhos de luz. Acho que era para dizer que com a confiança que lhe ganhei qualquer dia, se for preciso, levo-a à universidade, quer dizer, ao hospital veterinário da universidade de Évora. Se me aparecer com alguma ferida, por exemplo. Meto-a na caixa dos cães e lá vamos os dois. Já fiz o mesmo a uma pequena águia, o mesmo, enfim, ajudá-la. Não sei o que lhe tinha acontecido, mas estava sem forças, mal se arrastava pelo chão. Dei-lhe apenas água e depois pensei que ficaria com ela. Mas ela ao fim de uma hora ou duas voou para bem longe. Se calhar é das que agora, grandes, passam aqui por cima do monte. Ou então o mundo deu tantas voltas que acabou por se transformar naquela águia (se é que é uma águia) que soltam no estádio do Benfica à custa de uns bocados de carne. No meu clube não dá para soltar um leão, embora talvez a um árbitro ou outro a coisa não fosse totalmente despropositada. E lá no norte, num outro clube grande, nem pensar em soltar o animal que escolheram. Não falo de um dragão, que isso não existe (embora haja um romance de há uns anos com um titulo muito bonito que diz que «daqui em diante só há dragões»), falo de um castor, o animal escolhido para o clube de Paços de Ferreira, creio que por causa dos móveis que lá fazem e da respectiva madeira. Já me perdi outra vez. Tinha qualquer coisa mais a dizer sobre a raposa de olhos de luz e o hospital veterinário da Universidade de Évora. Sobre o Fernando Tordo não (caramba, já chega). Perdi-me mesmo outra vez. A umas horas destas, depois de tantos textos das revistas da empresa sempre à minha frente, até não é de admirar.

 

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