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Do descaramento

por João Campos, em 09.01.17

des·ca·ra·men·to 

substantivo masculino

  • 1. Falta de vergonha; desfaçatez.
  • 2. Impudência; desaforo.

"descaramento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

"descaramento", por Ricardo Salgado in Jornal de Negócios [em linha], 09-01-2017

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No Novo Banco a história do costume.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

Penso que fui das poucas pessoas a dizer (veja-se aqui e aqui) que a resolução do BES iria dar um buraco maior do que o próprio BES e que o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução nunca iria ser pago, sob pena de a banca em geral colapsar. Agora sabe-se que, em lugar dos 4,4 mil milhões gastos, apenas nos oferecem pelo Novo Banco uns módicos 750 milhões e ainda exigem garantias de 2,5 mil milhões. O pedido de garantias é muito avisado, sabendo-se dos riscos de litígios que a medida de resolução decretada pelo Banco de Portugal, com o Governo na praia, iria provocar. Mas, apesar disso, o preço é espantoso. Como bem escreve hoje João Quadros no Jornal de Negócios:

"750 milhões pelo Novo Banco? Aposto que a Remax fazia melhor que o Sérgio Monteiro. Não podemos vender o Novo Banco aos vistos gold? Ou aproveitar os balcões para fazer uns hostels?

Como se não bastasse, a proposta da Lone Star, segundo se diz, é em torno dos 750 milhões, mas a garantia pedida ao Estado é de 2,5 mil milhões de euros. Isto não é vender o Novo Banco, é pagar pelo dote da mais nova".

É por isso que agora surge a proposta mirabolante de nacionalizar o Novo Banco, tão ao agrado da extrema-esquerda. Devem estar milagrosamente esquecidos do que deu a nacionalização do BPN, onde o Estado estoirou 6.000 milhões para depois revender o banco nacionalizado por 40 milhões.

Os Bancos são negócios como quaisquer outros. Se não são viáveis, devem ser liquidados, com perdas para os credores e os grandes depositantes. Fazer os contribuintes suportar negócios inviáveis só serve para provocar a ruína do Estado. E antes de fazerem qualquer disparate, comecem mas é a olhar para os juros da nossa dívida.

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O incendiário.

por Luís Menezes Leitão, em 30.06.16

Na resolução do BES o Estado meteu 3,5 mil milhões de euros, que "emprestou" ao Fundo de Resolução, confiando em que o nosso pujante sistema bancário devolveria o dinheiro. Não só não devolveu nada, como agora o Novo Banco precisa de reforçar o capital em mais 1,4 mil milhões de euros. Como se isto não bastasse, surgiu entretanto a necessidade de resolução do BANIF que custou 3 mil milhões de euros. A isto há que acrescentar as necessidades de recapitalização da CGD que serão no mínimo de 5 mil milhões de euros. 

 

Perante este cenário claro, Schäuble fez uma declaração, que eu até acho simpática, a dizer que Portugal precisa de um novo resgate e que estaria em condições de o ter. A seguir lá lhe puxaram as orelhas, e voltou atrás dizendo que Portugal não vai precisar de qualquer resgate se cumprir as regras europeias que obrigam à consolidação orçamental e à redução do défice. Eu traduzo: Portugal não precisará de resgate se tiver condições para ter um orçamento equilibrado, o que manifestamente não vai ter.

 

Mas entretanto lá surgiu o inevitável João Galamba, a acusar Schäuble de ser incendiário, já que Portugal não precisaria de resgate algum. Só falta agora explicar onde é que vai o país buscar o dinheiro para recapitalizar os bancos. Vai continuar a endividar-se no mercado? Com a dívida que já temos, é a garantia que a breve trecho os mercados se fecham. Vai ligar as rotativas? Enquanto estiver no euro, isso não é possível. É por isso manifesto que o segundo resgate é a única solução. Por isso fariam melhor em ouvir Schäuble, em vez de continuar a viver num mundo de ilusão. Schäuble não pega fogo às finanças da Alemanha, que estão fortes e pujantes. O mesmo já não posso dizer do actual governo português.

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Arteirices

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.09.15

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"Aquilo que digo é aquilo que sempre disse - e que tive oportunidade de dizer na comissão de inquérito ao BES (Banco Espírito Santo): que os contribuintes não serão chamados a cobrir qualquer prejuízo com este processo. Isso cabe ao Fundo de Resolução."

 

"É verdade que há um banco público (CGD - Caixa Geral de Depósitos), que faz parte dos bancos do sistema, mas isso decorre da existência de um banco público, que é um banco igual aos outros em termos de direitos e obrigações para esta matéria. Em todas as outras questões, os contribuintes não serão chamados. E no caso da CGD é uma via indire[c]ta, que decorre do facto de o banco ser público." - Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças

 

A senhora ministra também pode dizer de dedo espetado que os alunos das universidades portuguesas não pagam propinas, que não têm que se preocupar com o seu valor porque quem paga não são eles, são os seus pais. Qualquer aluno, por muito cábula que seja, mesmo um jotinha, sabe que isso não é verdade. E se perder o ano, sendo um aluno e filho minimamente responsável, ficará envergonhado perante os pais. Porque sabe que o dinheiro dos seus pais, se não tiver sido roubado nem caído do céu, lhes custou a ganhar, saiu-lhes do pêlo para que as propinas fossem pagas e ele pudesse frequentar a universidade. E sabe que esperavam que ele também tivesse correspondido ao esforço que fizeram.

Por isso, declarações como as transcritas só são boas para serem aplaudidas nos comícios da Universidade de Verão. Lá é que a senhora ministra pode fazer dos outros parvos, ser aplaudida em cada frase que profere, dar a volta à praça e sair em ombros.

Na vida real não é assim. Directa ou indirectamente, o dinheiro vai sair do bolso de sempre. Umas vezes é pescado pela mão direita do contribuinte, de outras pela sua mão esquerda. Depende das legislaturas. Mas às vezes o dinheiro é-lhe retirado antes de entrar na conta bancária, antes de lhe chegar ao bolso, sem que lhe tenha sido perguntado se está disposto a pagar. E, às vezes, até depois do primeiro-ministro lhe ter dito que podia ficar tranquilo. É este o caso.

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Teremos, portanto, um Novo Bang

por Rui Rocha, em 12.08.15

Anbang vence corrida ao Novo Banco.

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Está a fazer um ano

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.08.15

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Em 4 de Agosto de 2014:

"Passos Coelho tinha dito que o Estado não seria obrigado a salvar o BES. Que não haveria dinheiro dos contribuintes lá metido, que seriam os privados a arcar com os prejuízos. Concluí, ingenuamente, que seriam os "capitalistas" a resolver o problema. Mas o que se vê, ao contrário do que foi afirmado e da mensagem que o governador Carlos Costa quis passar, é que estamos perante uma nacionalização encapotada do BES. Ainda que temporária será paga com o dinheiro que não saiu do bolso dos seus accionistas, que não saiu do bolso dos privados e cujos custos serão pagos, uma vez mais, pouco ou muito, com juros ou sem juros, por todos."

 

Em 3 de Agosto de 2015:

"Ofertas abaixo dos 4900 milhões "atrasam" venda do Novo Banco

Os três candidatos à compra da instituição bancária entregaram propostas bastante abaixo do valor injectado no banco

(...) Assim, qualquer proposta abaixo dos 4900 milhões traduzir-se-á numa perda a suportar pelo sistema, o que afectará a Caixa Geral de Depósitos com 30% do mercado, e, por essa via, os contribuintes. E ao terem de absorver “prejuízos”, os bancos degradam os resultados o que se reflectirá igualmente em menos receitas para o Estado. É a dimensão dos prejuízos que as autoridades procuram agora minimizar potenciando a venda. E, por isso, solicitaram ao Anbang, à Fosun e à Apollo, que até 7 de Agosto submetam ao BdP novas intenções vinculativas. Uma parte de valor será para encaixar pelo vendedor, outra destina-se a recapitalizar o NB, que necessita de nova injecção de fundos até 1500 milhões. Contas feitas (e incluindo o polémico aumento de capital de Junho de 2014, ainda com Ricardo Salgado no banco), com o apoio adicional a ser realizado, a instituição terá recebido nos últimos 14 meses, cerca de 7500 milhões de euros. (...) O Governo e o BdP têm vindo a ajustar as suas expectativas optimistas iniciais de que a transacção do Novo Banco se faria próximo dos 4900 milhões. O que os obrigou a colocar em cima da mesa uma quarta solução “não desejada”: a possibilidade de atrasar o fecho da operação até que as condições de mercado se tornem mais favoráveis. É a via que menos interessa a Pedro Passos Coelho e seria encarada como um falhanço." - Público

 

Espero que as contas finais apareçam antes das Legislativas de 4 de Outubro. Conviria deixar a casa limpa para que os próximos inquilinos não venham também dizer, quatro anos depois, que a culpa do que correu mal foi dos antecessores. 

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Quem é (ou, vá, era) amiguinho do BES?

por José António Abreu, em 28.03.15

Câmara Municipal de Lisboa permite que empresa ligada ao BES construa quase o dobro do que o dono anterior.

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Deve ser tempo de dizer basta

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.15

A culpa é de Carlos Costa. Também pode ter sido de Vítor Bento. Ou do Banco Central Europeu. Talvez dos bombeiros...; minha é que não foi. Ponto. Fui eu quem esteve à cabeceira da equipa do INEM. A controlar o soro e o cartão de ponto.

Enfim, depois de tudo o que aconteceu no BPN/SLN e na respectiva Comissão de Inquérito, e das criticas que aí foram feitas à supervisão do Banco de Portugal (em 2008, no auge do "socratismo", eu chamei-lhe "supervisão congolesa"), em especial por Nuno Melo (CDS/PP) e João Semedo (BE), não houve hipótese de modificar nada.

Estamos em 2015 e vê-se que durante sete anos, sete anos, porra, não foi um nem dois, ficou tudo na mesma. Os vícios são os mesmo de sempre. As explicações idem. O padrão é sempre o mesmo

E depois vem a gente que há décadas vegeta e mantém esta choldra em ponto-morto dizer que eu tenho asco. Tenho sim, tenho asco, muito asco. Tenho asco a quem politicamente é estruturalmente indecente. A gente politicamente desonesta. A gente que se alimenta do padrão para sobreviver e singrar. A gente que é ética e moralmente desestruturada (na minha perspectiva, é claro). À direita, à esquerda, em cima e em baixo.

(Quando me cansar de escrevê-lo, de dizê-lo, limitar-me-ei a articular com os maxilares doridos os movimentos que produziriam essas palavras. Como Marceau faria com o movimento, com o gesto. Ou como Herberto com as palavras. Em silêncio e às escuras para não incomodar os ouvidos e os olhos sensíveis da canalha)

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Não aprendem nem querem aprender

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.15

Aquilo que há um ano era veementemente negado tornou-se ao fim de doze meses numa inevitabilidade.

Podiam ter aprendido alguma coisa com as meias-verdades e as aldrabices dos que os antecederam, mas a partidarite e a cegueira política e ideológica eram de tal forma graves que preferiram aldrabar os portugueses enquanto lhes atiravam areia para os olhos. Uma coisa é dizer que não há custos, outra é escamoteá-los, negá-los, ridicularizá-los desde a primeira hora para por fim acabar a admitir uma "minimização" de custos do lado dos contribuintes.

Qualquer solução teria custos. A escolhida pode ter sido a menos gravosa para os contribuintes, mas ainda assim não valia a pena ter mentido de forma tão descarada dizendo que os contribuintes não iriam suportar quaisquer custos. Se outros não houvesse sempre haveria os sociais.

É esta tão flagrante falta de seriedade no exercício do poder, no exercício da actividade política, e que persiste há várias décadas, que torna tudo mais difícil neste país. Pior só mesmo vir agora dizer que se se for governo se vai pagar a toda a gente e mais alguma.

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Frases de 2015 (9)

por Pedro Correia, em 20.03.15

«Premiei um escroque da pior espécie.»

João Duque, sobre Ricardo Salgado

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O tableau de bord pifou

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.02.15

Tirando as partes gagas, que obviamente têm de ser contextualizadas perante os interlocutores externos, o rapaz esteve muito bem. À rasca mas bem. 

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Facto nacional de 2014

por Pedro Correia, em 03.01.15

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DERROCADA DO GRUPO ESPÍRITO SANTO

O facto nacional do ano - e talvez até da década - foi, para uma clara maioria de membros do DELITO DE OPINIÃO (15 em 26), a derrocada do Grupo Espírito Santo, que tinha Ricardo Salgado como figura de referência. Um facto que representou também o fim da última dinastia familiar na área financeira em Portugal.

Formalizada a 18 de Julho de 2014, a insolvência do GES - que foi notícia um pouco por todo o mundo - abalou não só a banca portuguesa mas também grande parte do tecido empresarial do País, na medida em que o Banco Espírito Santo era o maior financiador das pequenas e médias empresas portuguesas.

O "buraco" superior a mil milhões de euros detectado nas contas do Grupo - que em 2011 havia recusado um empréstimo posto à disposição da banca portuguesa no âmbito da assistência de emergência ao País - forçou a intervenção do Banco de Portugal, que dividiu os activos financeiros do GES em "banco mau" e "banco bom", dando este origem ao Novo Banco, entretanto posto à venda perante o aparente interesse de 17 potenciais compradores.

O caso deu origem a um megaprocesso judicial e a uma comissão parlamentar de inquérito que decorrerá pelo menos ao longo do primeiro trimestre de 2015 na Assembleia da República. Nunca os portugueses acompanharam com tanto interesse um caso ligado à alta finança - na certeza de nos dizer respeito um pouco a todos nós.

 

O segundo facto mais votado do ano, embora a larga distância do primeiro (quatro votos), foi a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que irá prolongar-se por 2015. Em terceiro lugar (três votos), a saída da troika e o fim do programa de assistência financeira externa a Portugal.

Houve ainda dois votos na justiça, sem especificação de casos, e votos isolados distribuídos pela mudança de secretário-geral no PS e o aparecimento do jornal digital Observador.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

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A parasitagem devia ser tributada

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.12.14

10862623_10204529016417037_6466921365339397911_o.jDuvido que algum dia os portugueses venham a perceber por que razão esta gente ainda está toda à solta e o processo dos submarinos continua em águas turvas, mas o que fica desta parte do depoimento de mais um dos senhores da família Espírito Santo foi o de que o 25 de Abril não aconteceu, o PREC nunca existiu, o 25 de Novembro foi uma gravação para uma novela que contou com a participação de alguns oficiais superiores do Exército português, o Estado de direito é uma pura ilusão e de vez em quando enfiam-se uns tipos mais desbocados e delirantes na prisão apenas para "inglês ver". Alguns safam-se como podem e chegam a secretários de Estado, ministros e primeiros-ministros, antes de se tornarem avençados das empresas do regime. Um ou outro mais manhoso recebe os dividendos e vai a "supremo magistrado da nação" com o ar mais sério deste mundo. Os restantes, os milhares que são miseravelmente pagos pelo que trabalham, que pagam impostos a tempo e horas, que não gozam de isenções nem planos especiais para escaparem às taxas gerais de tributação e assim pagarem menos, que depositam o seu salário, por vezes por imposição das entidades patronais, nos bancos que o regime acolhe e esta malta "gere", são os que são sempre chamados a pagar as crises, a apertar o cinto e a sustentar os parasitas.

Não há nenhum português que não gostasse de receber um milhão de euros para resolver os seus problemas, pagar as dívidas (os que as têm), liquidar o empréstimo do T2 ao banco ou fazer a viagem da sua vida, sem que para isso tivesse que fazer alguma coisa ou ter algo mais do que um simples apelido.

Se têm horror a investigar de forma competente e atempada, se a Justiça não passa de uma miragem longínqua num país de cidadãos medrosos e acomodados, se tremem perante um nome, só têm uma solução para compensar todos os portugueses honrados que trabalham para cumprir as suas obrigações: criarem um imposto sobre a parasitagem. À falta de melhores ideias para se acabar com esta pouca vergonha, sempre seria mais sério, mais justo e mais equilibrado do que a criminalização do enriquecimento ilícito com a inversão do ónus da prova. E este seria um caso flagrante. Porque agora já ninguém tem dúvidas que daquilo que os portugueses pagaram, e vão continuar a pagar, pelos submarinos, uma parte acabou nas contas dos parasitas do regime ou a financiar campanhas políticas. E isto é ética e moralmente inaceitável, ofensivo da consciência colectiva e viola os mais elementares padrões de decência, justiça e respeito pela comunidade. 

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Frases de 2014 (33)

por Pedro Correia, em 14.12.14

«O BES não faliu. O BES foi forçado a desaparecer.»

Ricardo Salgado

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 13.12.14

«Ricardo Salgado demorou muito tempo até falar mas ainda não se calara e já estava a ser desmentido pelo Banco de Portugal. Depois, foi destruído por José Maria Ricciardi. Depois, foi gozado por Pedro Queiroz Pereira. Depois, foi responsabilizado por Amílcar Morais Pires. Agora, será desmentido pelo contabilista e responsabilizado por Álvaro Sobrinho. O caso BES tornou-se o caso Ricardo Salgado.

A sequência televisionada de audições desta semana mostrou que este caso se vai deslindar entre três pessoas: Salgado, Ricciardi e Carlos Costa. Os demais são mais ou menos importantes, mas secundários. O sangue frio de Salgado foi liquidado pelo sangue quente de Ricciardi, que tirando não gostar de jornalistas que não o bajulem tem razão em quase tudo o que contou. E descredibilizou completamente a tese angelical de que Ricardo Salgado não sabia, não mandava e não fincava pé.»

Pedro Santos Guerreiro, no Expresso

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O leopardo, o gato e o gelo

por Pedro Correia, em 11.12.14

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Durante anos, que se prolongaram por décadas, Ricardo Salgado foi uma espécie de imperador absoluto da banca portuguesa, bafejado por uma poderosa lei não-escrita: a lei do silêncio. Chegou a ser o homem mais influente do País, mas sempre atrás do biombo, sem se expor ao desgaste das aparições quotidianas a que se sujeitam os decisores políticos.

Mandava, sem parecer que mandava.

 

Largos milhares de portugueses escutaram-no anteontem pela primeira vez na longa audição que protagonizou na comissão de inquérito ao caso BES na Assembleia da República. Conheciam-no de nome, de fotografia, de imagens fugazes dos ecrãs televisivos. Mas ignoravam quase tudo quanto à capacidade de expressão, ao domínio vocabular e às modulações de voz do homem que foi acumulando uma espiral de dívidas ocultas por detrás da aparente solidez do seu couraçado financeiro, afinal um gigante com pés de barro.

Pudemos escutá-lo durante dez horas graças aos canais televisivos de notícias, que desta vez desempenharam uma verdadeira missão de serviço público, pondo de lado as irrelevâncias do futebol. Mas o que escutámos, ao longo de todo esse tempo, não nos permitiu descortinar o rosto humano oculto sob a máscara que em momento algum Ricardo Salgado desafivelou.

 

Recebido com rara deferência no Parlamento, onde entrou por um acesso inusual, ao abrigo das indiscrições fotográficas, e poupado a perguntas verdadeiramente incómodas pela maioria dos deputados (destaco, como excepções, Mariana Mortágua, Miguel Tiago e Carlos Abreu Amorim), Salgado continuou a comportar-se como Dono Disto Tudo.

Sem nada esclarecer.

 

Terá ele dificuldade em «lidar maravilhosamente com a verdade", para utilizar a saborosa expressão ontem proferida pelo empresário Pedro Queiroz Pereira também na comissão de inquérito?

Alguns indícios apontam nessa direcção.

Afirmou, por exemplo, que o governador do Banco de Portugal nunca lhe terá dito que recusava a sua solução de continuidade para a comissão executiva do BES - e não tardou a ser desmentido pelos correios electrónicos entretanto divulgados por Carlos Costa. Sugeriu que o contabilista do GES estava desaparecido em parte incerta - e afinal Machado da Cruz já contactou o Parlamento, manifestando-se disponível para comparecer perante os deputados. Confessou ignorar que as reuniões do Conselho Superior do GES era gravadas e foi de imediato contraditado pelo primo: ouvido também na comissão de inquérito, José Maria Ricciardi não deixou lugar a dúvidas, afirmando que o gravador se encontrava bem visível na mesa das reuniões.

 

Sem nunca abandonar a pose esfíngica, aquele que - para usar outra metáfora de Queiroz Pereira - se encontrava há muito sentado sobre um "castelo de cartas" foi incapaz de desfazer por um instante a expressão de aço para emitir um pedido de desculpa aos pequenos e médios accionistas que nos últimos anos financiaram o grupo com as suas poupanças entretanto desencaminhadas para operações de alto risco cujo destino ainda hoje em parte se desconhece.

Salgado, com gelo ancestral no olhar e na voz, citou pausadamente um velho provérbio chinês: «O leopardo, quando morre, deixa a sua pele. O homem, quando morre, deixa a sua reputação.»

Mas talvez outro provérbio, também chinês, seja mais adequado às circunstâncias que agora enfrenta o antigo rei-sol da banca que viu o seu império ruir: «É difícil agarrar um gato preto num quarto às escuras. Especialmente quando o gato não está lá dentro.»

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Uma pequena frase

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.12.14

carlos-costa-c180mch-c8a4.jpg(Hugo Correia, Reuters)

 

A Comissão de Inquérito ao caso BES ainda agora começou a funcionar, mas pela passadeira de inocuidades e vaidades que por estes dias desfila em S. Bento, há pequenas notas que vão sendo respigadas, aqui e ali, que revelam muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar para se compreender por que razão se chegou até hoje da forma como chegámos. Não me refiro à intrigalhada familiar exposta em praça pública, reveladora do baixo nível, e que não é por razões de extracção social, de alguns dos seus membros, nem aos desmentidos que já começaram a aparecer, como foi aquele que o Banco de Portugal sentiu necessidade de fazer face ao depoimento prestado por Ricardo Salgado. Tudo isso é do domínio do cómico, do novelesco, e está de acordo com a forma como o País foi gerido politica, económica e financeiramente pelas suas "elites" nas últimas décadas. Com o tempo que o espectáculo vai durar muita coisa haverá para acompanhar e ir comentando no virar dos dias. Por agora, registo que os senhores deputados parecem ter aprendido a lição de anteriores comissões, percebendo que é do interesse de todos esclarecer devidamente o que se passou, retirando as ilações necessárias para uma correcção de práticas e modelos, enfim, esforçando-se por cumprirem bem o seu papel. Aqui será justo realçar o conhecimento e a preparação que a jovem deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, tem revelado.

Mas aquele que para mim foi o momento mais marcante até agora de tudo o que se passou, tem muito pouco de técnico. É mais do domínio do conhecimento da natureza humana, sendo importante para se perceber quem depõe, a forma como pensa e como age. E sobre isto recorde-se o momento em que Ricardo Salgado esclarece que tendo sido sugerido ao Banco de Portugal o nome "do Amílcar" [Morais Pires] para dirigir o BES, Carlos Costa lhe pede dois dias para pensar. De acordo com o relato de Ricardo Salgado, dois dias depois o senhor governador do Banco de Portugal telefona-lhe e diz-lhe: "Será quem o Sr. Presidente quiser".

Que um banqueiro afectado se refira a quem fora proposto lhe suceder em termos que não são aqueles em que se refere a outros membros da sua própria família que integravam a administração do BES, e a quem provavelmente conhece há mais tempo, ao fim e ao cabo vincando a diferença social e o modo de ascensão "do Amílcar", não é de estranhar. Amílcar Morais Pires fizera um percurso diferente, não era do meio, não exibia os mesmo pergaminhos. Era um homem da casa que trabalhava há muito na instituição, subira a pulso, conhecia os cantos e, digo eu, era suficientemente grato para fazer o que lhe mandassem.

Mas o que para mim é mais penoso é ver que da mesma forma altiva e sobranceira com que Ricardo Salgado se refere a Amílcar Morais Pires, verificamos que o governador do Banco Portugal exibe o respeitinho parolo e subserviente que é a marca de toda uma geração, de que com razão se queixava O'Neill e que quarenta anos depois do 25 de Abril continua a marcar os dias. Repare-se que, nas palavras de Ricardo Salgado, Carlos Costa não o trata pelo nome próprio, nem por "dr.", como é típico nos meios nacionais. Para Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, Ricardo Salgado era (é?) o "Sr. Presidente"! E, quer se queira quer não, foi desta forma que o regulador Banco de Portugal sempre se comportou em relação a quem manda nos bancos.

Fosse agora no caso do BES, ou tivesse sido no caso do BPN, do BPP ou do BCP, esta forma acanhada e subserviente de lidar com quem tem o poder do dinheiro, que neste pequena frase se revela, é afinal a mesma que se encontra no modo como, por exemplo, jornalistas falam com presidentes de clubes de futebol ou com políticos. Bem sei que alguns, de presidentes de juntas de freguesia a presidentes de filiais de empresas, tal como antes acontecia com alguns governadores civis, ficam de "trombas" (a culpa é de Mário Soares) quando os tratam pelo nome ou pelo convencional "dr.", em vez de a eles se dirigirem pelo título do cargo que ocupam. Porém, esse será um problema deles decorrente da sua errada percepção das coisas, da sua própria falta de noção do ridículo.

No país de Boliqueime, "Será quem o Sr. Presidente quiser" é uma frase que é também um espelho do modo como alguns exercem o poder. Mesmo que o "Sr. Presidente" seja um qualquer pantomineiro de boas famílias, que foge ao fisco e bate na mulher, ele será sempre o "Sr. Presidente". E é também um reflexo da susceptibilidade de alguns que exercem o poder numa sociedade democrática se deixarem influenciar por atavismos pouco consentâneos com as regras de uma república democrática em que os cidadãos são todos iguais perante a lei. É esta maneira de estar na vida, de uns serem "o Amílcar" ou a Irene do leite-creme e outros o "Sr. Presidente", é este estado de espírito, esta mentalidade, que nos separa e faz a diferença entre uma nação civilizada e uma sociedade moldada no preconceito e no paroquialismo, incapaz de sair de si para se elevar. Das coisas mais corriqueiras às que têm que ver com o nosso destino colectivo, como é a supervisão bancária e a forma como o Banco de Portugal exerce as funções que lhe foram legamente cometidas. "Será o que o Sr. Presidente quiser" é hoje a nossa imagem. No BES, na Presidência da República, em S. Bento, nos Tribunais, no Estádio do SLB ou do Dragão, na Junta de Freguesia da Mexilhoeira ou até no caso dos "vistos gold". Por aqui se vê o espelho da nossa desgraça. Da nossa miséria. E de como estão errados os modelos sociais e educacionais que se têm vindo a cultivar. Até nisto conseguimos falhar.

 

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Frases de 2014 (32)

por Pedro Correia, em 10.12.14

«Considero-me um verdadeiro trabalhador.»

Ricardo Salgado, ontem, na Assembleia da República

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A versão

por José António Abreu, em 10.12.14

Não obstante existir algum endividamento anterior, os problemas do Grupo Espírito Santo decorreram exclusivamente da crise financeira internacional de 2008, tendo a gestão tomado sempre as medidas mais adequadas e dispondo de uma solução que, indo sem dúvida resolvê-los, apenas má-fé alheia inviabilizou. Honestamente, custa-me perceber como podem os socialistas não empatizar com uma explicação destas.

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Dom

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.14

cavaco_silva_na_cimeira_ibero_americana_no_mexico1 (foto EPA)

A maior parte de nós não tem nenhum. Mas há quem o tenha. Alguns até conseguem ter vários. O caso do Presidente da República Cavaco Silva é do domínio do divino, tantos e tão variados são os seus dons. Afirmações feitas na Coreia do Sul, em 21 de Julho, são retomadas e clarificadas na Cidade do México, quase cinco meses depois, em 9 de Dezembro.

A oportunidade com que fala, a escolha dos momentos e a profundidade do que diz fazem dele um símbolo da extra-sensorialidade política. Que seria de nós sem ele?

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Os inocentes

por José António Abreu, em 09.12.14

Ricardo Salgado usou a táctica do costume: nada aconteceu em resultado das suas acções e tudo se teria resolvido se outras entidades (Banco de Portugal e governo) não lhe tivessem tirado o tapete (o primeiro exigindo a constituição de provisões para as «imparidades» e a saída da família das posições de controlo; o segundo recusando emprestar-lhe uns milhares de milhões de euros). Lembrou-me outros casos. O BPN. O BPP. O BCP. A PT. O PEC IV (ou o processo que a ele conduziu). E, na verdade, também o comportamento de muita gente anónima após acidentes de automóvel mas não vale a pena misturar universos; fiquemos pela «elite» do país. Caso após caso, nunca ninguém assume responsabilidades pela trampa produzida porque, obviamente, não aceita tê-la produzido. Caso após caso, tudo sucedeu em resultado de uma alteração abrupta de circunstâncias («o mundo mudou muito nos últimos quinze dias») e/ou de actos ilícitos de uma personagem menor (no caso do GES, o contabilista da parte não financeira). Mais importante: a solução existia, estava mesmo ali, preparadinha, reluzente, como um presente de Natal cuja abertura despoleta a exclamação sincera: «Uau, era mesmo isto!», e só não foi implementada porque alguém, por incompetência ou interesse, não deixou.

Enfim. Ricardo Salgado tem pelo menos uma vantagem sobre a maioria dos outros banqueiros envolvidos em casos de gestão ruinosa e em particular sobre Sócrates: parece menos arrogante e é incomensuravelmente menos histriónico. Para quem dispensa exibições alarves de testosterona (há um número significativo de criaturas a quem elas causam afogueamento e pernas bambas), sempre vale alguma coisa. De resto, a trampa é a mesma.

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Luta de classes na Comporta

por Pedro Correia, em 27.10.14

Manuel Pinho avança com processo judicial para exigir reforma antecipada que Ricardo Salgado lhe prometera. Em causa estão dois milhões de euros. Ex-ministro da Economia recebia um salário mensal bruto de 39 mil euros (14 meses por ano) como administrador de uma holding sem actividade, a BES África.

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Em causa própria

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.10.14

"Ao todo, 16 membros do Governo de Passos Coelho assistiram com particular atenção ao desmoronar do império Espírito Santo. Alguns têm contas acima de 100 mil euros no BES. Juntos, têm um milhão de euros em aplicações, fundos, carteiras, banca-seguros e títulos. Um exemplo da importância dos biombos é a decisão tomada em Conselho de Ministros em plena crise do BES: até onde se deveria proteger quem tinha poupanças no BES? Todos os depositantes ou só os que tinham menos de 100 mil euros, como estipula o novíssimo regulamento europeu? O Governo decidiu que tanto os pequenos como os grandes depositantes deveriam ficar a salvo". Editorial, Público, 27/10/2014

 

Juízes todos somos, uma vez ou outra, na vida. A começar quando julgamos aquilo que nos diz respeito. E nessas alturas somos juízes em causa própria. Com  transparência. Porque decidimos e assumimos o risco da decisão. Seja na escolha da profissão ou na escolha do cônjuge. A situação é diferente quando se decide uma intervenção num banco e há membros desse mesmo Governo que vai decidir a intervenção, e o respectivo modelo, que têm contas superiores a cem mil euros na instituição em risco. Aqui o risco corre por conta de terceiros, dos contribuintes, ou por outros que sejam chamados a entrar com a massa. No fim safar-se-ão todos. Os pequenos, os assim-assim e os grandes. Os que decidiram e estavam com o seu dinheiro em risco também. Alguém há-de ficar para pagar a factura. No escuro.

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O terror e a violação do dito sigilo

por José António Abreu, em 14.10.14

Haveria certamente muito a dizer mas, apesar de proletário, estou pouco informado sobre a sintaxe sindicalista (as centrais disponibilizarão cursos co-financiados?) e tenho de admitir que só entendo o terceiro ponto até à primeira vírgula.

 

(Clicando na imagem e seleccionando "outros tamanhos", pode aceder-se a uma versão maior.)

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Viagem à irrealidade quotidiana.

por Luís Menezes Leitão, em 14.10.14

Cavaco Silva devia estar em Belém, preocupado em arranjar uma solução que acabasse com o penoso espectáculo que todos os dias este Governo exibe. Agora, depois do caos criado na justiça e na educação, o Governo resolveu chamar parvos a todos os portugueses, prometendo uma baixa de impostos, a ser realizada pelo governo seguinte. Por muito menos que isto Sampaio terminou com o governo de Santana Lopes, que não tinha feito um décimo dos disparates deste. Mas Cavaco não liga nenhuma ao que se passa com o governo, preferindo deslocações ao interior, onde mostra triunfante os poucos exemplares que por milagre ainda lá resistem, depois de o Estado ter desaparecido do seu território. Fazendo mais uma dessas suas viagens de pesquisa, desta vez a Vale de Cambra, Cavaco resolveu puxar as orelhas ao Primeiro-Ministro e à Ministra das Finanças por terem confessado que os contribuintes afinal iriam suportar prejuízos com o Novo Banco. Para Cavaco, trata-se de uma coisa completamente errada. Não faz sentido dizer-se que "que pela via da redução dos lucros da CGD, os contribuintes podem vir a suportar custos pela resolução do BES". Lucros, Senhor Presidente? Por acaso já olhou para os custos da intervenção no BES? Se a CGD, para poder absorver o BPN, teve que realizar um aumento de capital, que o Estado subscreveu integralmente, como é que, apenas com os seus lucros, pode pagar as dívidas ao Fundo de Resolução? É melhor parar com as viagens ao interior bucólico e pacífico e olhar um pouco mais para o que de facto se passa no centro do furacão que atingiu o sistema financeiro.

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A história sempre se repete

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.10.14

fe0336f1-e299.jpg(a foto pertence ao Expresso e foi tirada daqui)

 

Gente séria tê-lo-ia admitido desde o princípio, tal como muitos atempadamente alertaram. 

É mais um "tecno-embrulho" que, de novo, não constava do pacote testamentário recebido dos antecessores. E volto a dizer que não estou a discutir a bondade da solução encontrada, nem se é melhor ou pior que a do BPN, apesar de sem rebuço admitir que em princípio será menos má. 

Em causa está, porque é isso que me preocupa no padrão comportamental dos dirigentes políticos, a actuação política em concreto de quem decidiu e as declarações que a suportaram, destinadas a atirar areia para os olhos dos contribuintes.

Se pode ser estabelecido um paralelo entre este caso e o BPN, para lá da inenarrável actuação do supervisor, ele encontrar-se-á na forma como em ambos os casos se assumiram riscos iludindo a opinião pública sobre os custos inerentes. Sem frontalidade, sem transparência, fazendo dos outros tolos. A começar pelo Presidente da República.

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Quem se quer bem sempre se encontra

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.10.14

(Luís Forra, Lusa, Expresso)

 

Há dias em que se discursa, outros em que se almoça, e alguns dão para tudo. Os  sais de frutos são dispensáveis, que cá a gente aguenta tudo e está habituada a que lhe comam as papas na cabeça.

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"Banco Espirito Santo rescue team heading Novo Banco quits"; "Portugal bank failure knocks recovery"

 

"Leadership team resigning from Portuguese 'good bank' born from troubled Banco Espirito Santo - (...) The government put up 4.9 billion euros ($6.4 billion) to prevent the bank's collapse, raising questions about how regulators were apparently hoodwinked"

 

"The Bank of Portugal on Sunday picked a new chief executive for Novo Banco, successor to Banco Espirito Santo (BES), following the embarrassing resignation of its three top managers appointed only two months ago"

 

"Bosses charged with rebuilding Portugal's BES bank quit after two months"

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Um bom começo para um final de gritos

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.09.14

Gostava que Cavaco Silva, Passos Coelho, a ministra das Finanças e o governador do Banco de Portugal viessem, com o mesmo à-vontade com que disseram aos portugueses que a solução encontrada para o BES era uma boa solução e que não se tratava de uma nacionalização, esclarecer quanto é já está a custar o pacote escolhido. Não só em infeliz publicidade, que é o que menos importa, mas em credibilidade, reputação e confiança no país, nas suas instituições e nos seus gestores. Basta abrir as páginas da imprensa internacional para se ver a dimensão do estrago causado e o preço que começou a ser pago. Porque se aquele foi um bom começo, com apenas dois meses que passaram, imaginem como vai ser o fim. Um filme de terror que vai ser pago, uma vez mais, por todos.

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Novo banco, história velha.

por Luís Menezes Leitão, em 13.09.14

 

Tinha escrito aqui que a solução encontrada para o BES era um desastre, devido aos inúmeros litígios judiciais que iria causar, podendo estender o colapso a toda a Banca, e que no fim, tal como no BPN, seriam os contribuintes a pagar a factura. Na altura, a minha posição foi criticada por inúmeros comentadores, que louvavam esta medida. Agora o desastre da solução encontrada está à vista com a administração do Novo Banco em debandada. É evidente que o Novo Banco não vale o dinheiro que o Estado lá colocou e que, por muita publicidade que todos os dias faça, a sua marca não tem qualquer valor num sector altamente competitivo. Por isso, ninguém sabe o que fazer. Se o mesmo fosse vendido hoje, será por tuta e meia, ficando o Estado a arder com a maior parte do dinheiro que lá colocou. Se for vendido mais tarde, corre o risco de ainda valer menos, saltando o Estado de administração em administração, deixando arrastar as coisas numa penosa decadência. Em qualquer dos casos serão sempre os contribuintes a pagar a factura. Na verdade, a solução Banco Bom-Banco Mau vale tanto como a história do Lobo Mau e do Capuchinho Vermelho, só servindo para adormecer as criancinhas. O problema é que os investidores não são criancinhas para acreditar piamente na pureza do Bom, agora que o que era Mau foi expulso. Por isso os resultados estão à vista. Pena é que haja tanta gente que prefere continuar a acreditar em contos de fadas, em lugar de ver a dura realidade à sua frente.

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Tudo do avesso

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.09.14

O que devia ser dito aos portugueseses pela Administração do Novo Banco, pelo Banco de Portugal ou pela ministra das Finanças é esclarecido pelo "companheiro" Marques Mendes no seu tempo de antena na SIC.

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Está a fazer um mês

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.14

"O que é que segue a seguir? Um reconhecimento de que o banco é inviável, e que tem que ir para a falência? Não, de todo não. Esse cenário está afastado. (...) Atenção que este banco já foi sujeito a quatro rondas sucessivas de testes."

 

"Falência, no teu entender, está fora de causa? Nem pensar, nem pensar. O que vai acontecer é uma recapitalização do banco. (...) Essa situação só se poria em caso de falência, o que não vai acontecer."

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Teoria do caos

por Rui Rocha, em 22.08.14

A tal coisa da borboleta que bate as asas e provoca um furacão nos nossos bolsos.

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De acordo com o Jornal de Notícias, a PSP de Ovar identificou duas mulheres, de 31 e 35 anos, que se faziam passar por videntes, por suspeita da prática do crime de burla. Na sequência de uma denúncia de uma alegada vítima, agentes policiais abordaram as duas mulheres e  uma das suspeitas deixou cair no chão um carrinho de linhas, um artigo que, segundo a PSP, é utilizado pelos autores deste tipo de crime para ludibriarem as vítimas e fazê-las crer que são videntes. As mulheres foram conduzidas à esquadra policial e, após revista, foram-lhes apreendidos três anéis, cinco brincos, uma medalha de um signo, um frasco de perfume, dois carrinhos de linhas, 11 dentes de alho, seis pontas de alecrim seco, uma caixa de palitos e cerca de um metro de papel higiénico. Pois no que me toca, digo que a existência de todo este material que foi apreendido me inspira uma certa confiança no trabalho destas videntes. Há em tudo isto uma preocupação genuína de respeito pelos cânones da actividade, uma nota de profissionalimo, uma dimensão quase deontológica. Confesso que Marques Mendes pareceria mais credível se se apresentasse aos Sábados com um carrinho de linhas, uma ponta de alecrim seco na lapela e um molho de alhos ao pescoço. E que estaria muito mais desconfiado se, em vez de um metro de papel higiénico, as suspeitas fossem portadoras de papel comercial do BES.

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A falta que faz um especialista

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.08.14

Com o Ministério das Finanças e o Banco de Portugal em silêncio, sabe-se lá porquê, com o Presidente da República ainda a pensar como vai justificar a actuação do supervisor depois das infelizes declarações que fez, e perante a catadupa de notícias sobre a actuação do Banco de Portugal, o empréstimo (a fundo perdido?) ao cair do pano que a SIC confirmou, a acta dada a conhecer por um escritório de advogados e os accionistas que se livraram do mau papel mesmo em cima do acontecimento, estou admirado com a ausência de Nuno Melo. Só com Marques Mendes a explicar as coisas os portugueses ficam sem o contraditório. Logo agora é que nos havia de acontecer uma coisa destas.

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Loucupletamento

por Rui Rocha, em 11.08.14

Se Granadeiro favoreceu realmente o BES, estamos perante um caso típico de Henriquecimento sem causa.

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Chuva em Braga e sol na Comporta

por Rui Rocha, em 10.08.14

 

Caríssimo S. Pedro,

 

Compreendo que com tanta diversidade de línguas, gentes e geografias não seja fácil que te mantenhas actualizado em matéria toponímica. Em todo o caso, gostaria de esclarecer que, apesar de Braga ser considerada como a cidade mais religiosa do país, com abundância de igrejas, padres e missinhas, não temos por aqui qualquer relação especial com os Espírito Santo. E se é até certo ponto compreensível que queiras fazer justiça com a própria meteorologia, castigando os infractores e não deixando tudo nas mãos dos nossos diligentes tribunais, parece-me que seria ponto de mandar chover e fazer descer a temperatura no local adequado. Isto é, o normal seria que houvesse sol em Braga e chuva na Comporta, se é que me entendes. E trovoada, raio e coriscos se tanto for justificado pela tua ira implacável. O que já não se admite é o contrário, como tem acontecido.

 

Despeço-me sem ressentimentos, pois que erros todos cometemos (veja-se, sem irmos mais longe e para nos mantermos em matéria bancária, o que aconteceu no Banco do Vaticano) e o mais importante é saber corrigi-los rapidamente.

 

Abraço,

 

RR

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Mais uma achega para os chicos

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.08.14

"This means that Portuguese taxpayers are providing the main backstop for the rescue of BES - precisely what euro-zone leaders wanted to avoid when they pledged in June 2012 to sever the pernicious links between the euro zone's vulnerable banks and sovereigns, often referred to as the "doom loop".

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Questões incómodas

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.08.14

"Note-se que com esta situação o Banco de Portugal (BdP) se arroga a capacidade de deliberação sobre fundos à guarda do Estado e obtidos por resgate governativo de má memória: uma situação que, no mínimo, é dúbia na sua legitimidade mas, no máximo,  pode ser mesmo ilegal .

Note-se igualmente que com esta abordagem o Estado chega-se à frente mas não se torna accionista, nem sequer obrigacionista ... na melhor das hipóteses torna-se um "para-obrigacionista" pois facilita dinheiros que não são seus (pelos quais tem pago bom dinheiro arrecadado de impostos) para serem colocados num Fundo (a lucro económico zero) que é institucionalmente enquadrado pelo BdP que resolve tornar-se empreendedor de fim-de-semana.
Note-se também que é um organismo não eleito (o BdP), e protegido por uma entidade externa que não responde perante ninguém (o Banco Central Europeu), que assume o telecomando de uma empresa privada (uma expropriação sem nacionalização) e impõe uma nova equipa de gestão (sem ter havido uma Assembleia Geral) numa instituição temporária ( que nem é dona do seu próprio nome ).
Note-se sobretudo que há limites para se sacudir a água do capote quando  a tutela do Fundo de Resolução está situada bem no centro nevrálgico do actual governo"
 

Volto a dizer que em causa não está a solução. Não é isso que aqui discuto. O que discuto e não aceito é a aldrabice. Se não a aceitei antes não vou passar a aceitá-la agora porque passou a dar jeito ou porque vem de uns cavalheiros com bons fatos. Mas ainda bem que em Portugal também há quem não durma à sombra da propaganda da máquina do Governo.

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Uma fraude que só serve para enganar os portugueses que querem

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.08.14

"That makes the BES rescue a fudged hybrid of bail-in (where investors foot the bill) and bail-out (where taxpayers do). Portugal’s assertion that the rescue comes at no cost to taxpayers is highly questionable: a total of €4.9 billion is being injected into Novo Banco from Portugal’s bank-resolution fund. Though all lenders contribute to this kitty, the fund has been bolstered by a €4.4 billion government loan, using EU and IMF money left over from Portugal’s sovereign bail-out in 2011." - The Economist

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Tipologia dos assentos

por Rui Rocha, em 09.08.14

Com a coisa do banco bom e do banco mau convém que não nos desviemos do essencial. O único banco adequado a uma situação desta natureza é um mocho: aquele onde se devem sentar os administradores, compadres, auditores e revisores que se conluiaram para provocar um dos maiores escândalos financeiros da nossa história.

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A Santíssima Trindade

por Rui Rocha, em 09.08.14

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Frases de 2014 (19)

por Pedro Correia, em 07.08.14

«Estou convencido de que não havia melhor solução do que a encontrada para o BES.»

Carlos Zorrinho, ex-líder parlamentar e actual eurodeputado do PS

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Uma de bacias hidrográficas

por Rui Rocha, em 07.08.14

Rioforte? Fechem a Comporta.

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Ante-escuta do segredo

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.08.14

Na segunda-feira nascerá um novo banco, com o mesmo nome, mas uma nova dire[c]ção. Tudo o que é lixo estará de fora bem como todos os esqueletos".

 

 O André Macedo é que já o topou.

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A debandada.

por Luís Menezes Leitão, em 07.08.14

 

Estava escrito nas estrelas que a "solução" encontrada para o BES iria provocar uma debandada geral dos investidores da banca portuguesa. Na verdade, já toda a gente percebeu o óbvio: Se o Fundo de Resolução reclamar dos restantes bancos o dinheiro que o Estado meteu no BES, a banca pura e simplesmente afunda. E depois da experiência do BES nenhum investidor vai querer apostar um cêntimo que seja em acções dos bancos portugueses. Na verdade, se há coisa que o país não pode fazer é pôr-se a experimentar soluções ainda não implementadas e que não têm condições para o ser na presente fase. Um Fundo de Resolução capitalizado, pronto a acudir ao salvamento dos Bancos, é capaz de ser uma boa ideia. Um Fundo de Resolução sem fundos, que precisa de pedir dinheiro emprestado ao Estado, e que ele diz que vai pedir depois à restante banca, não passa de uma anedota. Estas coisas não se gizam na praia, entre dois mergulhos. Com isto corremos o risco de ficarmos conhecido como o aprendiz de feiticeiro.

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O assombro do inexplicável

por Rui Rocha, em 06.08.14

William Topaz McGonagall ficou conhecido, ao que parece com razoável justiça, como o pior poeta de sempre da língua inglesa. A dimensão do talento de McGonagall percebe-se melhor se tomarmos um exemplo da sua vasta obra:

Beautiful Railway Bridge of the Silv’ry Tay!
Alas! I am very sorry to say
That ninety lives have been taken away
On the last Sabbath day of 1879,
Which will be remember’d for a very long time.

 

Pelo visto, na tragédia em que McGonagall se inspirou, morreram, na realidade, 75 pessoas. Mas, na verdade, isso não importa. Já se sabe que a veia não se deixa conformar pelos estreitos caminhos dos factos e que o poeta deve dar vazão à sua urgência criadora. De acordo com crónicas credíveis, a inspiração levou McGonagall a incontáveis momentos de apoteose junto de um público que aproveitava invariavelmente as suas récitas para dar destino aos excessos de stock de ovos, tomates e vegetais diversos. A sua fama correu célere pelas colinas verdejantes da Escócia e a sua fama precedeu-o em incontáveis ocasiões. Informado da morte de Tennyson, McGonagall decidiu dirigir-se ao castelo de Balmoral para propor-se como poet laureate, tendo sido informado de que a Rainha se encontrava ausente sem previsão de regresso. Numa das suas obras mais notáveis, Poetic Gems, Mcgonagall deixou para a posteridade a confissão de que o momento mais assombroso da sua vida foi aquele em que descobriu o seu incomensurável talento poético. O mesmo assombro, a mesma vertigem da descoberta, terá experimentado o ministro Pires de Lima perante o inexplicável desastre financeiro do BES e da PT. Esperemos que, face à míngua de tomates que enfrentamos, e ao contrário do que aconteceu a McGonagall, Pires de Lima possa ainda ser reconhecido como poeta oficial da República Portuguesa.

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Isto com a troika nacional está imparável

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.08.14

Ao ler este editorial do New York Times, depois de tudo o que tem saído por estes dias nas páginas da imprensa estrangeira, que tanto jeito deu a Passos Coelho e Paulo Portas quando se tratou de "enterrar" Sócrates e Teixeira dos Santos por causa da má reputação internacional do país, a tal ponto que foram escritos comunicados em inglês pelo PSD para explicar a situação então vivida, é uma dor de alma ver o estado putrefacto a que conduziram um regime já de si muito desacreditado.

Ainda nos havemos de lembrar por muitos e bons anos da troika dos três cês: Cavaco, Coelho e Costa. Razão tinha o Honório Mau, quer dizer, Novo, enquanto um certo camarada dormia na forma à espera de ser primeiro-ministro.

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Profetas da nossa terra (48)

por Pedro Correia, em 06.08.14

«Os portugueses podem confiar no Banco Espírito Santo.»

Cavaco Silva, 21 de Julho de 2014

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A tempestade perfeita em férias.

por Luís Menezes Leitão, em 06.08.14

 

Como não podia deixar de ser, houve imediatamente uma série de comentadores que cantaram loas e hossanas à intervenção do Estado no BES. Uma análise mais atenta tornaria, porém, evidente que a solução arranjada pelo Banco de Portugal, e depois aprovada pelo Conselho de Ministros reunido na praia, tem mais buracos do que o próprio buraco do BES. Neste momento, os primeiros sacrificados, os outros bancos, já se começaram a mexer. Cá para fora saiu que propuseram aumentar a sua contribuição para o Fundo de Resolução, mas a realidade é outra. Os bancos querem substituir a contribuição extraordinária de 133 milhões que lhes pediram por um empréstimo de 635 milhões. A razão parece óbvia. Os bancos não querem abrir o precedente de uma contribuição extraordinária para o Fundo, sabendo que depois lhes irão pedir o restante. Um simples empréstimo parece melhor no balanço dos bancos, já que compromete o Fundo com a sua futura restituição, e permite dizer cá para fora que o Estado até está a comprometer-se menos, quando afinal os bancos ficam seus credores.

 

Este é o principal problema da salvação de bancos na zona Euro. É que o dinheiro que vai para um lado fica a faltar no outro. Na crise de 2008 os EUA colocaram 800 mil milhões de dólares para salvar os bancos americanos, mas o Estado americano pode imprimir dólares e desde então não parou de fazê-lo. Na zona Euro, com a impossibilidade de os Estados ligarem as rotativas, a salvação dos bancos é um jogo de soma zero. O dinheiro que vai para os bancos, ou fica a faltar no orçamento de Estado, ou vai ficar a faltar nos outros bancos. Ora, como estes nos últimos tempos só têm declarado prejuízos, se lhes for pedido que entrem com o dinheiro que o Estado meteu no Fundo, provavelmente ficarão tão mal como o BES ficou. O Fundo de Resolução pode acabar assim por funcionar por repartir o buraco do BES por toda a Banca. Resta saber se ela aguenta. Estão em causa 4.900 milhões de euros. Para se perceber a dimensão desse valor, faça-se o exercício de o converter em segundos. Um milhão de segundos são 12 dias, mas mil milhões de segundos já são 32 anos. 4.900 milhões de segundos são 156 anos.

 

Claro que há previsões optimistas que dizem que o Novo Banco pode ser vendido até ao fim do ano por esse valor. Devo dizer que isso me parece um sonho de uma noite de Verão. O BES valia na sexta-feira passada em bolsa cerca de 12 cêntimos por acção. Já perdeu a marca, que só por si valia 640 milhões, e com isso um investimento publicitário constante de há décadas. Alguma vez o anódino Novo Banco pode valer 4.900 milhões para um comprador? Só se aparecer Jesus Cristo e fizer um novo milagre da multiplicação dos pães, neste caso dos euros. Acrescentemos a isto a infinidade de lítigios judiciais que vão surgir contra o Novo Banco e mesmo contra o próprio Estado, como já se anuncia. É preciso não esquecer que a segurança do BES tinha sido garantida há menos de duas semanas pelo Governador do Banco de Portugal, pelo Primeiro-Ministro e pelo próprio Presidente da República. Não me parece muito fácil que o Estado consiga depois disto lavar as mãos como Pilatos dos prejuízos dos accionistas que ele próprio decidiu lançar às feras.

 

Angela Merkel, que pode ter muitos defeitos mas não é parva, já avisou que o caso do BES evidencia as fragilidades na zona Euro. Na verdade, o caso do BES constitui uma tempestade perfeita que atingiu Portugal. E enquanto isso o Primeiro-Ministro mantém-se tranquilamente de férias na praia. Mas, para falar a verdade, nem se tem notado a sua falta.

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