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Liberalidades

por Rui Rocha, em 28.01.17

O Expresso revela hoje, em 1ª página, que o ex-líder do Montepio é suspeito de receber 1,5 milhões de euros do construtor José Guilherme. Não percebo o motivo para tal destaque. Ricardo Salgado recebeu do mesmo José Guilherme 14 milhões de euros e o ilustre causídico Calvão da Silva, que serviu depois a Pátria como Ministro do último governo de Passos Coelho durante uns dias e uma inundação em Albufeira, teve oportunidade de esclarecer em parecer fundamentado que:

"O espírito de entreajuda e solidariedade é um princípio geral de uma sociedade e é natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo, sendo que não é a circunstância de ser administrador ou presidente executivo de um banco que o priva dessa liberdade fundamental. E se alguém decide dar dinheiro de presente (liberalidade) em reconhecimento desse conselho, como José Guilherme deu a Ricardo Salgado, isso não põe em causa a idoneidade de quem recebe".

Cá está. Uma situação em tudo semelhante. A única diferença é o montante. Salgado e Guilherme eram mais chegados. Ou Salgado dava melhores conselhos.

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No Novo Banco a história do costume.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

Penso que fui das poucas pessoas a dizer (veja-se aqui e aqui) que a resolução do BES iria dar um buraco maior do que o próprio BES e que o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução nunca iria ser pago, sob pena de a banca em geral colapsar. Agora sabe-se que, em lugar dos 4,4 mil milhões gastos, apenas nos oferecem pelo Novo Banco uns módicos 750 milhões e ainda exigem garantias de 2,5 mil milhões. O pedido de garantias é muito avisado, sabendo-se dos riscos de litígios que a medida de resolução decretada pelo Banco de Portugal, com o Governo na praia, iria provocar. Mas, apesar disso, o preço é espantoso. Como bem escreve hoje João Quadros no Jornal de Negócios:

"750 milhões pelo Novo Banco? Aposto que a Remax fazia melhor que o Sérgio Monteiro. Não podemos vender o Novo Banco aos vistos gold? Ou aproveitar os balcões para fazer uns hostels?

Como se não bastasse, a proposta da Lone Star, segundo se diz, é em torno dos 750 milhões, mas a garantia pedida ao Estado é de 2,5 mil milhões de euros. Isto não é vender o Novo Banco, é pagar pelo dote da mais nova".

É por isso que agora surge a proposta mirabolante de nacionalizar o Novo Banco, tão ao agrado da extrema-esquerda. Devem estar milagrosamente esquecidos do que deu a nacionalização do BPN, onde o Estado estoirou 6.000 milhões para depois revender o banco nacionalizado por 40 milhões.

Os Bancos são negócios como quaisquer outros. Se não são viáveis, devem ser liquidados, com perdas para os credores e os grandes depositantes. Fazer os contribuintes suportar negócios inviáveis só serve para provocar a ruína do Estado. E antes de fazerem qualquer disparate, comecem mas é a olhar para os juros da nossa dívida.

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Mas afinal o que é que o homem tem?!

por Helena Sacadura Cabral, em 08.11.16

A.jpegNão sou muito de me interessar pela vida alheia. Acho a minha muito mais interessante e chega-me perfeitamente. Acontece que a telenovela da CGD atingiu tais proporções, que hoje dei comigo a aventar que tipo de segredos esconderá a vida daquele Conselho de Administração, para se terem deixado extremar de tal modo as posições daqueles homens? Sim, porque nesta salgalhada não há elementos do género feminino.

Confesso-vos que comecei a seriar razões plausíveis que pudessem explicar a situação e não descortino nada que nos não tenha já acontecido. Por isso, se o Correio da Manhã ainda não descobriu, é porque se trata de algo que nem passa pela minha cabeça. Na qual, é sabido, se passa muita coisa. O resultado é que agora sou eu eu que, pela primeira vez, gostava de saber aquilo que António Domingues e os seus muchachos tanto tentam esconder!

Por onde é que anda o nosso prestigiado "jornalismo de investigação"? Porque será que estão tão caladinhos?! Mas afinal o que é que queles homens têm de tão especial ou tão grave que justififique esta luta intestina?

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Xoninhas

por Rui Rocha, em 07.11.16

Gajos que queriam pôr as pernas dos banqueiros alemães a tremer não conseguem sacar uma declaração de rendimentos ao António Domingues.

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Dinheiro em Caixa

por Rui Rocha, em 21.10.16

Muito curiosa a argumentação sobre os vencimentos na Caixa. Ah e tal que para gerir o banco público é necessário escolher os melhores e, por isso, as remunerações têm de estar em linha com as praticadas nos bancos privados. Certo. Já para chefiar o governo do país serve um borra-botas qualquer, disponível para ganhar 5 ou 6 mil euros mensais, a que nenhuma empresa privada confiaria sequer um par de mangas de alpaca.

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Um chairman para o Novo Banco.

por Luís Menezes Leitão, em 01.08.16

Sempre que oiço falar em administradores não executivos, lembro-me do filme Wall Street, uma verdadeiro ícone da década de 1980, como marco do capitalismo triunfante desses tempos, em que não se pedia ajudas estatais em caso algum. Nesse filme Gordon Gekko, um tubarão da alta finança, tinha acabado de comprar parte de uma empresa e nessa qualidade dirige-se à assembleia geral de accionistas. Na assembleia o presidente do conselho de administração pede aos restantes accionistas que não sigam as posições do novo accionista. A resposta dele é demolidora: "O seu conselho de administração tem 33 vice-presidentes e a empresa deu 110 milhões de prejuízo no ano passado. Tenho a certeza que grande parte dos prejuízos podem ser eliminados, eliminando a troca de papéis entre os 33 vice-presidentes. Os accionistas são os donos da empresa e eles é que vão decidir".

 

No caso do Novo Banco tivemos uma situação única a nível mundial com uma resolução decretada pelo Estado, tendo-se criado um "banco bom" com a ajuda de dinheiro emprestado ao Fundo de Resolução, que o Estado nos tentou convencer de que irá ser recuperado. Pois não só esse "banco bom" não pára de dar prejuízos, tendo até conseguido este ano que os mesmos subissem para mais de 362 milhões de euros, como agora descobriu a urgente necessidade de um "chairman", ou seja de um presidente não executivo. 

 

Falar em administradores não executivos é estabelecer uma contradictio in terminis. O que faz falta aos nossos bancos são accionistas a sério, que elejam administradores a sério. Deixar o Estado entrar neste negócio, ainda mais distribuindo administradores não executivos por todo o lado, só serve para destruir o dinheiro dos contribuintes. E este faz muita falta noutros lugares.

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Aldeia da roupa suja

por Rui Rocha, em 20.06.16

Não percebo. A valerem alguma coisa, as razões que Sócrates invoca no artigo de hoje (JN/TSF) são precisamente as que deveriam fazer que defendesse um Inquérito. Se nada fez de censurável, se nada teme, se não interveio, se não deu orientações, se não tem qualquer ligação com Vale do Lobo, se a iniciativa é desastrosa para os seus autores (PSD), se a gestão pública da Caixa é imaculada, então nada melhor que o Inquérito para deixar tudo em pratos limpos. Passe o truísmo, só é possível lavar roupa suja se esta não estiver muito limpa.

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Posto isto, antes que chegue a bola

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.06.16

1. Tenho apenas a dizer que embora não simpatize com o estilo que normalmente exibe, nem com algumas das suas posições, António Ribeiro Ferreira está cheio de razão a propósito daquilo que escreveu no jornal i. Por me parecer pertinente e considerar ser essa forma de actuação, há muitos anos, um dos cancros da democracia portuguesa, que só tem contribuído para o seu descrédito e para cavar ainda mais o fosso entre as pretensas "elites" e os cidadãos, entre os partidos e o eleitorado, abaixo transcrevo  aquilo que de relevante interessa sublinhar sobre a novela da Caixa Geral de Depósitos (CGD):

"Chegados aqui, interessa então perguntar aos muitos e diversificados defensores de uma CGD pública o que andaram a fazer os sucessivos governos e gestores do Estado nos últimos anos. De 2011 a 2015, a CGD acumulou prejuízos de dois mil milhões de euros, tem oito mil milhões de créditos em risco, não pagou ao Estado os empréstimos concedidos em 2012 e precisa de um aumento de capital de quatro mil milhões de euros. Esta realidade sinistra não é muito diferente do que se passou no BPN, BPP, BES, Banif e também no BCP de Jardim Gonçalves. A justiça portuguesa e o Banco de Portugal condenaram os gestores privados do BPN, do BPP, do BES e do BCP e os deputados da nação promoveram comissões de inquérito ao BPN, BES e Banif. Agora que estão em causa um banco público, governos e gestores do Estado, assiste-se a uma verdadeira lei do silêncio, uma omertà que envolve órgãos de soberania, partidos políticos e, claro, muitos empresários portugueses. Agora que os contribuintes e ac[c]ionistas do banco público vão pagar uma fa[c]tura superior à que o Estado pagou pelo BPN e Banif, o silêncio é total da esquerda à direita."

 

2. É evidente que aquilo que o primeiro-ministro fez, embora com uma outra roupagem, foi um novo convite aos professores portugueses para emigrarem. Para se safarem como puderem fora de portas, para se internacionalizarem, para se exportarem, que a Pátria está de rastos e continua sem poder acolhê-los. Porém, se há alguém que não tenha qualquer autoridade para criticar o que por ele foi dito é Passos Coelho. Se achava bem na altura que os portugueses emigrassem, deverá hoje continuar a pensar o mesmo. Já quem então criticou o que o ex-primeiro-ministro e seus acólitos disseram sobre o mesmo assunto, independentemente da forma e do tom, só pode ter agora, perante o que António Costa disse, um único discurso: voltar a repudiar o convite.

 

A coerência devia ser tratada como uma coisa séria. Na política, a coerência devia contar para mais alguma coisa do que para armar fogachos e alimentar a politiquice caseira.

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Até o Deutsche Bank já vê os riscos da política do BCE

por José António Abreu, em 13.06.16

Mas a resposta do BCE é extremar ainda mais esta política. Isto causa alocações de recursos erradas na economia real que ficam cada mais difíceis de reverter sem dores ainda maiores. Quem tem poupanças perde enquanto proprietários de acções e apartamentos rejubilam.

Pior, ao auto-nomear-se o salvador de último recurso da Eurozona («tudo o que seja necessário fazer»), o BCE permitiu aos políticos sentarem-se sobre as mãos no que respeita a reformas incentivadoras do crescimento e à necessária consolidação fiscal.

Por isto, a política do BCE ameaça o projecto europeu como um todo em nome da estabilidade financeira de curto-prazo. Quanto mais tempo esta política impedir a catarse necessária, mais contribuirá para o crescimento dos populismos e das forças extremistas.

(...)

Quando a redução das taxas de juro para níveis nunca vistos em vinte gerações falhou no estímulo à inflação e ao crescimento, o BCE embarcou num programa massivo de compra de dívida dos membros da Eurozona - o quantitative easing. Mas quem vendeu dívida soberana ao BCE não gastou nem investiu os lucros e o dinheiro acabou apenas de volta ao Banco Central.

Por isso o BCE seguiu até ao extremo lógico: impôs taxas negativas aos depósitos. Actualmente quase metade da dívida pública da Eurozona negoceia com rendimentos negativos. Ao mesmo tempo, o BCE assegura a solvência dos seus membros como comprador de último recurso - o chamado programa OMT.

(...)

Para além disso, os governos já não receiam que o falhanço na reforma das suas economias ou na redução da dívida faça subir o custo de pedir dinheiro emprestado. Na realidade, o nível total de endividamento na Eurozona tem crescido, com o reformado e reinterpretado Pacto de Estabilidade e Crescimento 3 tão desdentado como sempre. Diferenciais de risco praticamente desapareceram dos mercados de títulos do tesouro. Urgentes reformas nos campos do trabalho, da banca, da política, da educação e da governação foram adiadas ou deixadas cair. E as mãos-largas e o risco moral são jogos difíceis de abandonar. 

(...)

Enquanto é difícil provar que os aspectos positivos não são assim tão positivos (embora pareçam não ser), os efeitos negativos das políticas do BCE são mais visíveis. Por exemplo, empréstimos ultra-baratos providenciam suporte de vida para empresas que não seriam viáveis em condições mais normais. Isto levou a sobrecapacidade - para não mencionar deflação - em muitas indústrias europeias, com as receitas caindo em relação aos activos. No ano passado, 40% das empresas não tiveram aumentos de receitas. É irónico que muitos pensem que aumentos de produtividade podem ser despoletados através de taxas ainda mais baixas.

(...)

A mais longo prazo, as consequências negativas de taxas ultra-baixas e compra de títulos públicos surgem de uma falta de reformas económicas. Não era suposto ser desta maneira. Imediatamente após a crise, o contrato implícito era que os políticos reduziriam os níveis de dívida pública e implementariam as reformas estruturais necessárias enquanto o BCE lhes providenciaria tempo e dinheiro. 

(...)

Provavelmente com boas intenções, o BCE colocou-se numa posição em que as suas decisões são cada vez mais influenciadas pelos mercados.

(...)

Mario Draghi, o presidente do BCE, tem dito repetidamente que não pode tornar o cumprimento da sua missão dependente do facto de outros agentes (ou seja, os políticos) cumprirem a deles. Mas o mundo é o que é - ignorar as consequências mais vastas da política monetária conduziu à última crise.

 

Excertos de uma análise do Deutsche Bank (tradução minha, um pouco apressada mas espero que sem erros significativos). Três notas:

1. Há anos que Mario Draghi apela a reformas estruturais. Não apenas os políticos o ignoram como aproveitam a acção do BCE para as adiar. Entretanto, não obstante as taxas de juros reduzidas, o castelo de cartas da dívida pública vai aumentando de tamanho  (ver gráfico na página 7 do relatório) e a economia definha. Mergulhados numa convalescença eterna, os cidadãos viram-se para os populismos. Não creio que o plano fosse este.

2. Apesar de ter vindo a reduzir a exposição, o Deutsche Bank está «pendurado» numa montanha de produtos derivados. As medidas do BCE deveriam pois ser-lhe benéficas (e têm sido). Ainda assim, lança o alerta.

(Reconheça-se: há quem diga que terá problemas graves em qualquer dos cenários.)

3. Enquanto o Deutsche Bank se mostra preocupado, o Commerzbank pondera fazer bypass ao BCE.

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Vícios privados, públicas virtudes

por José António Abreu, em 09.06.16

Brada-se há quase uma década (o tempo voa, mesmo quando não nos divertimos) contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. Justificadamente, admita-se. Os erros de gestão foram gigantescos, quando não criminosos. Todavia, a irritação pareceu e parece dirigir-se apenas ao salvamento dos bancos privados. Pouca ou nenhuma comoção se detectou ou detecta na sequência dos aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos, igualmente realizados à custa dos contribuintes (como se sabe, o próximo é de 4 mil milhões de euros). Ora a CGD até constitui o banco-refúgio dos portugueses; imagine-se a situação em que estaria sem todos os depósitos que esse estatuto lhe proporcionou. Ainda assim, e ao contrário do que se passou no BPN, no BES e no BANIF, cenários de venda ou de resolução encontram-se afastados e os actos da gestão não irritam vivalma nem (cruz credo) constituem fundamento para inquérito parlamentar. Sem grande oposição, o governo propõe-se até subir os ordenados dos administradores.

Mas não espanta. Em 2011 como nos anos seguintes, também ninguém pareceu irritar-se com o salvamento da totalidade do sector público, tão mal gerido e tão falido como os bancos, pelos contribuintes. Fica evidente que a má gestão privada desagrada muito mais do que a má gestão pública - certamente porque a primeira é motivada pelo lucro enquanto a segunda (ouvem violinos?) decorre quase sempre de boas intenções. (Na verdade, nem sequer se trata de desagradar mais ou menos; imensa gente defende com entusiasmo a gestão pública ruinosa: basta ver o que se passa em torno da «geringonça».) E, claro, fica também (ainda mais) evidente a diferença no nível de respeito suscitado pelos trabalhadores de um e outro sector. Como já se viu com pessoal do têxtil, da construção civil ou da restauração, bancários de bancos privados atirados para o desemprego (muitos foram-no, outros estão a sê-lo) geram infinitamente menos empatia do que professores, enfermeiros ou maquinistas de comboio forçados a trabalhar com supressão de regalias e cortes moderados em salários globalmente simpáticos.

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Regresso à normalidade

por José António Abreu, em 30.12.15

Lentamente, os contornos do caso Banif vão ficando mais claros. O processo foi fechado antes de 1 de Janeiro de 2016, evitando as novas regras europeias para a resolução bancária, que forçam uma contribuição dos maiores depositantes e dos detentores de dívida sénior. Ao contrário do que sucedeu no Novo Banco, a venda do «banco bom» foi restringida a entidades com licença bancária, o que permitiu um excelente negócio ao Santander - e um péssimo negócio para os contribuintes. Para grande satisfação dos principais bancos, o Fundo de Resolução foi não apenas poupado a contributos desagradáveis (o que forçou o ministro das Finanças a declarações de veracidade questionável) mas capitalizado - ambas as coisas, mais uma vez, à custa dos contribuintes. Com a ajuda de uma comunicação social acéfala ou alinhada (não sei o que será pior), o ónus de toda a situação foi empurrado para o governo PSD-CDS.

Resta admitir mérito a quem o merece. A operação foi excelentemente montada e perfeitamente executada. Até já se percebe o apoio de Fernando Ulrich (quase sempre alinhado com o PSD) à formação de um governo liderado por António Costa: enquanto o PS é de confiança, a versão do PSD liderada por Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque demonstrara não saber respeitar os costumes e as hierarquias da República.

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Sobre os bancos

por José António Abreu, em 23.12.15

1. Encontram-se quase todos em situação frágil, por erros próprios (empréstimos a «amigos», péssimas avaliações de risco, crença no crescimento contínuo e infinito da economia, empréstimos para evitar perdas decorrentes de empréstimos anteriores) e por políticas dos bancos centrais e dos governos que lhes permitiram «jogar» com uma percentagem demasiado elevada dos recursos captados.

2. Políticos e cidadãos adoraram e incentivaram esse «jogo», que abriu as portas ao crédito barato; naturalmente, uns e outros têm detestado receber a factura.

3. Enquanto se indignam com as perdas dos bancos, os políticos continuam a clamar por crédito barato e os Bancos Centrais continuam a tentar inventá-lo.

4. Das duas, uma: ou se exige que, independentemente da conjuntura, os bancos subam rácios de solvabilidade - e então necessitam de dinheiro e o crédito à economia desce e alguns (como o BANIF) entram em colapso - ou não se exigem rácios mais elevados - e então aumenta-se o risco de, no próximo solavanco da economia, estarem tão frágeis que acabem necessitando de muito mais dinheiro.

5. Para os bancos - e para os contribuintes - dos países onde a correcção dos desequilíbrios orçamentais obrigou à implementação de políticas de austeridade seria preferível adiar a exigência de rácios mais elevados; compreensivelmente, as regras de concorrência impedem-no (lição para futuro: os bancos devem opor-se a políticas públicas arriscadas, não incentivá-las).

6. O crescimento da economia permitiria diminuir as perdas dos bancos mas, se feito (ainda mais) à base de dívida, traria (ainda mais) problemas a prazo.

7. À falta de capacidade dos accionistas, restam duas fontes de capitalização: o Estado (i.e., os contribuintes) e os depositantes.

8. Considerando as necessidades totais, as garantias associadas aos depósitos são garantias dos contribuintes (i.e., deixar falir - atitude mais correcta do ponto de vista do mercado - pode ficar mais caro).

9. Como se vê pelo dinheiro já injectado na Caixa Geral de Depósitos, não é por serem públicos que os bancos escapam aos problemas; o «saque» aos contribuintes passa é mais despercebido.

 

Três notas ainda sobre o caso específico do BANIF:

1. Convém lembrar que a competência para aplicar processos de resolução é do Banco de Portugal, não do governo. Para além disso, podem ter existido motivos válidos (eleitoralistas existiram certamente, como existem sempre, qualquer que seja o partido no poder) para o governo PSD-CDS ter adiado uma solução. Por exemplo, recear que dois processos em simultâneo (BANIF e Novo Banco) levassem à dispersão de potenciais compradores e fizessem descer os valores propostos. Por exemplo, esperar que a recuperação económica viesse a tempo de permitir uma melhoria na recuperação de créditos e na venda de património, tornando o banco mais atractivo para compradores privados. Por exemplo, procurar evitar a solução, bastante dura, defendida pela Comissão Europeia.  Ainda assim, é hoje claro que adiar foi um erro e que este não pode ser assacado apenas ao Banco de Portugal. O mínimo que Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque devem fazer é admiti-lo.

2. A solução do governo socialista pode ser a menos má mas é também a mais conveniente para o comprador. Tanto no processo do Novo Banco como no da TAP - vide processo cancelado em 2012 - o governo PSD-CDS privilegiou (assumindo riscos) a existência de condições para a obtenção de um preço minimamente justo. Sendo certo que a decisão do BCE de retirar o estatuto de contraparte ao BANIF precipitou os acontecimentos, a opacidade que envolve a escolha do Santander não é bom sinal. Seria também interessante descobrir se quem fez sair a notícia da TVI que despoletou primeiro a corrida aos depósitos e depois a decisão do BCE acabou por lucrar (financeira ou politicamente) com a forma como o processo decorreu. Nota para fãs de teorias de conspiração: o Santander detém uma participação na Prisa, que controla a TVI.

3. Tem piada (ei, cada um diverte-se como pode) assistir ao desconforto do Bloco de Esquerda e do PCP com a via escolhida pelo governo que apoiam e legitimam. A votação do orçamento rectificativo mostra bem como são incapazes de partilhar momentos e decisões difíceis.

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O meu BdP

por Helena Sacadura Cabral, em 22.12.15

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Cresci como economista no Banco de Portugal e o que hoje sei devo-o muito àquela instituição onde servi - e gosto de utilizar esta expressão - durante mais de 18 anos. Trabalhei com vários governadores, de Jacinto Nunes a Silva Lopes, destacando apenas estes porque foram aqueles que mais me marcaram. 

Tenho um enorme orgulho de por lá ter passado, num tempo difícil e com a primeira intervenção da troika. Felizmente já não estava na casa à época de Vítor Constâncio, que apenas conheci como colega.

Entristece-me ver o que se está agora a passar com o actual governador que apenas conheci num contacto informal, resultante de um pedido que lhe fiz para ser recebida. Fiquei, confesso, com óptima impressão sua, apesar de saber que o problema que lhe pus não iria ocupar a sua atenção. Mas eu cumpri com o que entendia devia fazer e ele fez o mesmo recebendo-me.
O Banco de Portugal foi uma instituição que deu ao país, talvez, dos melhores economistas que tivemos. Hoje parece ter um enquadramento diferente daquele que tinha no meu tempo.
Mas se quisermos perceber, de facto, o que se passou na Banca desde o caso BPN, então teremos que ouvir mais do que Carlos Costa. Teremos que ouvir também Constâncio porque os problemas, a meu ver, começaram ainda no seu tempo e ninguém melhor do que ele para os esclarecer. 
Uma instituição não se degrada apenas pela política de um governador. Degrada-se por muitas outras razões mais. E uma Comissão de Inquérito sobre o Banif terá todo o interesse em conhecer como é que tudo começou. E estar atenta à CGD e à sua evolução, porque também ela poderá explicar alguns pontos desta brisa que varreu a banca nacional. 
A Comissão de Inquérito se quiser levar por diante um trabalho exemplar tem que andar para trás e explicar aos cidadãos contribuintes o que encontrou, o que se fez no passado e as razões que levaram o governo a entender como melhor solução salvar os depositantes, mas sobrecarregar aqueles que pagam impostos.

 

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Alguma coisa tem de mudar

por Tiago Mota Saraiva, em 22.12.15
Em 2012, a troika obrigou o Estado português a criar um fundo de resolução a que todos os bancos podiam recorrer, com uma parte significativa do valor que ia emprestar. Como era previsível, este valor serviu ao BANIF para mais uns poucos anos de regabofe e, sobretudo, para conseguir que os principais accionistas fossem conseguindo diluir as suas responsabilidades no banco.
O Orçamento Rectificativo que a Assembleia da República votará amanhã, transforma a dívida do BANIF num custo para o erário público, sem responsabilização da troika (que obrigou o Estado a criá-lo) ou dos responsáveis do banco - administradores e accionistas. Mais, abre um precedente ao qual todos os bancos poderão recorrer.
O PCP faz muito bem em não aprovar este orçamento rectificativo. Espero, sinceramente, que BE e PEV também o façam.
 
 

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Quando formos a uma caixa levantar dinheiro e tivermos medo de ser assaltados, em vez de olhar para trás o melhor mesmo é olhar para dentro do Banco.

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Obrigado Dr. Luís Amado!

por Tiago Mota Saraiva, em 14.12.15

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Por ter feito com que todos e todas possamos ser accionistas de um banco privado comprando, no decorrer do dia de hoje, mil acções do BANIF pelo preço de um café.

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No pasa nada

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.12.15

Esteve bem Passos Coelho quando sugeriu Luís Amado para um cargo de representação na UE. Estas declarações, que comprovam a justiça da sugestão, devem por isso ser lidas à luz das notícias mais recentes. Com uma acção a valer 10% de um cêntimo não restam dúvidas quanto ao que aí vem. Espera-se que o salário dos administradores acompanhe a evolução em bolsa do valor das acções

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Banco de Fomento

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.10.15

Não é bonito quando os nossos amigos desconfiam das nossas intenções

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Previsões, leva-as o vento!

por Helena Sacadura Cabral, em 02.09.15

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O drama das previsões é a frequência com que elas falham... Mas, quando isso se passa no campo financeiro, os resultados podem ampliar-se muito para além do que se espera.

Decorrido um ano o Novo Banco ainda não foi vendido. Ou seja, os 4,9 mil milhões de euros que o Estado disponibilizou através do Fundo de Resolução – indexados ao défice – fazem com que o sonho dos 2,7% como meta, possa atingir mais do dobro.

Goradas as negociações com a Anbang seguem-se as negociações com a Fosum, que já entrou na Fidelidade e no Hospital da Luz.

Duas preocupações me surgem neste momento, se estas negociações não chegarem a bom termo. Uma, julgar que Maria Luís Albuquerque não poderá cumprir o défice. Outra, considerar que, em Portugal, a China se está a expandir demasiado, num período que me parece o menos propício para tal.

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O Multibanco é nosso

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.09.15

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Nas últimas décadas, com excepção da construção da democracia e de alguns pequenos nichos na ciência, no desporto, na literatura, na música ou no cinema, onde a criatividade e o génio lusíada se manifestam, devem ser poucas, muitas poucas, as obras verdadeiramente importantes que enquanto portugueses fomos capazes de construir e dar ao mundo. Temos alguns bons gestores, meia dúzia de empresários dignos do nome, muitos anónimos, mas raras são aquelas obras em que de facto se tenha deixado uma marca de perenidade de tal forma relevante que aqueles que, sabe-se lá porquê, têm sido os nossos modelos não hesitam admirar. A criação do Multibanco é uma dessas obras. E no momento em que passam trinta anos sobre o seu lançamento gostaria de aqui deixar uma nota de apreço a quem o concebeu e aos informáticos portugueses que têm afirmado internacionalmente a qualidade da nossa inovação, em especial no campo da segurança informática e no uso das novas tecnologias. Recordo-me de alguns amigos meus serem despertados a meio da noite por causa do sistema, dos dias e noites que perdiam a procurar as melhores soluções, a garantirem que tudo funcionaria na perfeição. Ao fim de trinta anos é mais do que justo homenagear essa gente, a maior parte desconhecidos para a generalidade dos portugueses, que além-fronteiras deixa muita gente extasiada - não há outra palavra - com a qualidade do seu trabalho. Gente que percorre o mundo a dar cursos, em Londres, em Nova Iorque, em muitos outros locais, sempre apresentando novas soluções, dando a conhecer as que têm, e contribuindo com o seu know-how para o progresso e para facilitar a vida das pessoas, que é aquilo para que as máquinas e a tecnologia devem servir.

Os portugueses que estão habituados a viajar e os que vivem fora do país não podem deixar de ter registado o avanço das nossas máquinas e a quantidade de operações que nelas se pode fazer em pouquíssimo tempo e com a máxima segurança por comparação com os equipamentos que prestam um serviço parecido noutros países. Parecido, digo eu, porque os nossos equipamentos são mais modernos, mais seguros e realizam mais tarefas. De levantamento de fundos a transferências e emissão de cheques, permitindo a realização de pagamentos da mais variada espécie, da electricidade a custas judiciais e impostos, sem esquecer a venda de bilhetes de comboio e para espectáculos musicais, quase que diria que ao Multibanco nem falar falta porque até há gravações a recordarem-nos o que temos de fazer para o cartão ou o dinheiro não ficarem esquecidos na máquina. Centros financeiros como Tóquio ou Hong Kong não têm máquinas ATM que proporcionem serviços com a qualidade dos nossos.

O Multibanco não é a panaceia para os nossos males, mas devia ser um exemplo de como em Portugal se podem fazer coisas bem feitas e úteis que a todos servem. Ganham as empresas, ganham os bancos, ganham os cidadãos. No dia em que Portugal, a sua administração pública, o seu governo, as suas instituições, funcionarem como o Multibanco e as nossas obrigações colectivas forem cumpridas com a mesma limpeza, economia, discrição e eficiência, poderemos dizer que o país funciona bem. Não sei se algum dia esse momento chegará, nem quando, porque também não sei ler nas estrelas e não acredito em novos messias. Menos ainda naqueles que temos por aí com a cara nos cartazes. De qualquer modo, entretanto, espero que não dêem cabo do Multibanco e que alguns banqueiros, para poderem continuar a circular em topos de gama alemães e a usar o cartão de crédito nos restaurantes do Guincho, não o queiram transformar em mais uma fonte de conflito à custa dos portugueses, novos e  velhos, estudantes ou reformados, trabalhadores ou desempregados, que nos centros urbanos e rurais, no litoral e no interior, dependem do Multibanco para o seu dia-a-dia e das máquinas milagrosas para tornarem os seus dias menos penosos e mais longos. 

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Semelhança e diferença

por José António Abreu, em 09.07.15

Afinal o governo grego também pretende salvar bancos com dinheiro público. Mas, justiça seja feita, há uma diferença: foi o próprio governo que os conduziu ao limiar da falência.

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Não é bem assim, menina nandinha

por Rui Rocha, em 28.06.15

CANCIO.jpgPor exemplos, os que já há uns tempos tinham perdido a confiança no sistema bancário não vão precisar de levantar nada.

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O que é que se segue?

por Rui Rocha, em 03.06.15

Incrível. Corrupção no futebol! A continuarmos assim, um dia destes ainda vamos ver bancos a enganarem clientes.

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Crise de liquidez na banca angolana

por José Maria Gui Pimentel, em 25.04.15

Tem sido pouco noticiada a restrição à transferência de capitais para fora de Angola. Não se trata de uma restrição oficial, mas é o que acaba por acontecer efectivamente: é hoje virtualmente impossível para um particular transferir dinheiro para fora de Angola pelas vias oficiais.

Tudo começou com a recente crise económica, provocada pela queda do preço do petróleo, e que se repercutiu na taxa de câmbio do kwanza, que já está perto dos 110 kwanzas/dólar. Sucede que esta é apenas a taxa oficial, fixada pelo banco central. No mercado paralelo, o dólar é vendido a 170-180 kwanzas, um valor muito superior. Ora, os bancos comerciais são obrigados a converter kwanzas em dólar a uma taxa em torno da oficial, e porventura será este o motivo para recusarem a transferência aos clientes: estariam a perder dinheiro. Por outro lado, a própria liquidez deverá estar bastante apertada, numa altura em que os mercados internacionais se fecham e o banco central deverá dosear a cedência de reservas, elas próprias depauperadas pela crise do petróleo.

Os próximos tempos serão, tudo indica, difíceis para quem confiou no 'sonho angolano'.

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Deve ser tempo de dizer basta

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.15

A culpa é de Carlos Costa. Também pode ter sido de Vítor Bento. Ou do Banco Central Europeu. Talvez dos bombeiros...; minha é que não foi. Ponto. Fui eu quem esteve à cabeceira da equipa do INEM. A controlar o soro e o cartão de ponto.

Enfim, depois de tudo o que aconteceu no BPN/SLN e na respectiva Comissão de Inquérito, e das criticas que aí foram feitas à supervisão do Banco de Portugal (em 2008, no auge do "socratismo", eu chamei-lhe "supervisão congolesa"), em especial por Nuno Melo (CDS/PP) e João Semedo (BE), não houve hipótese de modificar nada.

Estamos em 2015 e vê-se que durante sete anos, sete anos, porra, não foi um nem dois, ficou tudo na mesma. Os vícios são os mesmo de sempre. As explicações idem. O padrão é sempre o mesmo

E depois vem a gente que há décadas vegeta e mantém esta choldra em ponto-morto dizer que eu tenho asco. Tenho sim, tenho asco, muito asco. Tenho asco a quem politicamente é estruturalmente indecente. A gente politicamente desonesta. A gente que se alimenta do padrão para sobreviver e singrar. A gente que é ética e moralmente desestruturada (na minha perspectiva, é claro). À direita, à esquerda, em cima e em baixo.

(Quando me cansar de escrevê-lo, de dizê-lo, limitar-me-ei a articular com os maxilares doridos os movimentos que produziriam essas palavras. Como Marceau faria com o movimento, com o gesto. Ou como Herberto com as palavras. Em silêncio e às escuras para não incomodar os ouvidos e os olhos sensíveis da canalha)

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Coisas que me apoquentam

por João André, em 04.03.15

Há coisas que não entendo muito bem. Se um privado pedir dinheiro para comprar uma casa, ela é usada como garantia. Se não se puder pagar a dívida, o banco pode ir buscar a casa e, caso o seu valor tenha caído, o privado ainda continua a dever dinheiro. Coprar a casa é um investimento que pode correr mal, portanto.

 

Se uma empresa pedir dinheiro para expansão e a coisa correr mal, o banco não só pode pedir a execução dos bens para pagar a dívida como pode ainda perseguir os indivíduos da empresa para ser ressarcido do montante. O empréstimo é portanto um investimento que pode correr mal.

 

Se um país pedir dinheiro emprestado ("emitir dívida", no jargão engana-parvos) tem de o pagar de volta. Se a sua economia não crescer o suficiente para pagar essa dívida, fica com uma maior que anterior (pede dinheiro para pagar a dívida anterior). Pedir esse dinheiro é mais um investimento que pode correr mal.

 

Se um banco emprestar dinheiro a privados, a empresas ou a países, o dinheiro tem que regressar, seja por que via for (por dívida ad aeternum, reemissão de dívida, compensação por estados, etc). Ou seja, apesar de um banco emprestar dinheiro com a esperança de receber mais que aquele que emprestou - faz, por definição, um investimento - não partilha quase qualquer risco, este é eliminado por via da obrigação quase absoluta do endividado.

 

Não contesto que uma dívida deve ser paga (se não o for sofrem-se as consequências de se perder credibilidade, por exemplo). Mas, coisa que me apoquenta: sou só eu que tem a impressão que há aqui qualquer coisa que não bate certo?

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Vermelho em fundo branco

por Ana Lima, em 13.02.15

 

 

 

Uma perspectiva interessante:Swissleaks.jpg

 A explicação e outras informações aqui.

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Facto nacional de 2014

por Pedro Correia, em 03.01.15

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DERROCADA DO GRUPO ESPÍRITO SANTO

O facto nacional do ano - e talvez até da década - foi, para uma clara maioria de membros do DELITO DE OPINIÃO (15 em 26), a derrocada do Grupo Espírito Santo, que tinha Ricardo Salgado como figura de referência. Um facto que representou também o fim da última dinastia familiar na área financeira em Portugal.

Formalizada a 18 de Julho de 2014, a insolvência do GES - que foi notícia um pouco por todo o mundo - abalou não só a banca portuguesa mas também grande parte do tecido empresarial do País, na medida em que o Banco Espírito Santo era o maior financiador das pequenas e médias empresas portuguesas.

O "buraco" superior a mil milhões de euros detectado nas contas do Grupo - que em 2011 havia recusado um empréstimo posto à disposição da banca portuguesa no âmbito da assistência de emergência ao País - forçou a intervenção do Banco de Portugal, que dividiu os activos financeiros do GES em "banco mau" e "banco bom", dando este origem ao Novo Banco, entretanto posto à venda perante o aparente interesse de 17 potenciais compradores.

O caso deu origem a um megaprocesso judicial e a uma comissão parlamentar de inquérito que decorrerá pelo menos ao longo do primeiro trimestre de 2015 na Assembleia da República. Nunca os portugueses acompanharam com tanto interesse um caso ligado à alta finança - na certeza de nos dizer respeito um pouco a todos nós.

 

O segundo facto mais votado do ano, embora a larga distância do primeiro (quatro votos), foi a detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, que irá prolongar-se por 2015. Em terceiro lugar (três votos), a saída da troika e o fim do programa de assistência financeira externa a Portugal.

Houve ainda dois votos na justiça, sem especificação de casos, e votos isolados distribuídos pela mudança de secretário-geral no PS e o aparecimento do jornal digital Observador.

 

Facto nacional de 2010: crise financeira

Facto nacional de 2011: chegada da troika a Portugal

Facto nacional de 2013: crise política de Julho

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Os inocentes

por José António Abreu, em 09.12.14

Ricardo Salgado usou a táctica do costume: nada aconteceu em resultado das suas acções e tudo se teria resolvido se outras entidades (Banco de Portugal e governo) não lhe tivessem tirado o tapete (o primeiro exigindo a constituição de provisões para as «imparidades» e a saída da família das posições de controlo; o segundo recusando emprestar-lhe uns milhares de milhões de euros). Lembrou-me outros casos. O BPN. O BPP. O BCP. A PT. O PEC IV (ou o processo que a ele conduziu). E, na verdade, também o comportamento de muita gente anónima após acidentes de automóvel mas não vale a pena misturar universos; fiquemos pela «elite» do país. Caso após caso, nunca ninguém assume responsabilidades pela trampa produzida porque, obviamente, não aceita tê-la produzido. Caso após caso, tudo sucedeu em resultado de uma alteração abrupta de circunstâncias («o mundo mudou muito nos últimos quinze dias») e/ou de actos ilícitos de uma personagem menor (no caso do GES, o contabilista da parte não financeira). Mais importante: a solução existia, estava mesmo ali, preparadinha, reluzente, como um presente de Natal cuja abertura despoleta a exclamação sincera: «Uau, era mesmo isto!», e só não foi implementada porque alguém, por incompetência ou interesse, não deixou.

Enfim. Ricardo Salgado tem pelo menos uma vantagem sobre a maioria dos outros banqueiros envolvidos em casos de gestão ruinosa e em particular sobre Sócrates: parece menos arrogante e é incomensuravelmente menos histriónico. Para quem dispensa exibições alarves de testosterona (há um número significativo de criaturas a quem elas causam afogueamento e pernas bambas), sempre vale alguma coisa. De resto, a trampa é a mesma.

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Quem se quer bem sempre se encontra

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.10.14

(Luís Forra, Lusa, Expresso)

 

Há dias em que se discursa, outros em que se almoça, e alguns dão para tudo. Os  sais de frutos são dispensáveis, que cá a gente aguenta tudo e está habituada a que lhe comam as papas na cabeça.

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Tiro e queda

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.09.14

"Equipa de Vítor Bento de saída do Novo Banco" - Expresso

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Will Emerson: Jesus, Seth. Listen, if you really wanna do this with your life you have to believe you're necessary and you are. If people wanna live like this, in their cars and big fuckin' houses they can't even pay for, then you're necessary. The only reason that they all get to continue living like kings is cause we got our fingers on the scales in their favor. I take my hand off and then the whole world gets really fuckin' fair really fuckin' quickly and nobody actually wants that. They say they do but they don't. They want what we have to give them but they also wanna, you know, play innocent and pretend they have no idea where it came from. Well, thats more hypocrisy than I'm willing to swallow, so fuck 'em. Fuck normal people. You know, the funny thing is, tomorrow, if all of this goes tits up, they're gonna crucify us for being too reckless, but if we're wrong, and everything gets back on track? Well then, the same people are gonna laugh till they piss their pants cause we're gonna all look like the biggest pussies God ever let through the door.

 

Seth Bregman: Do you think we're gonna be wrong?

 

Will Emerson: [long pause] No, they're all fucked.

 

[Diálogo do filme Margin Call]

 

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Frases de 2014 (22)

por Pedro Correia, em 01.09.14

«A banca é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos banqueiros.»

Catarina Martins

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Profetas da nossa terra (49)

por Pedro Correia, em 12.08.14

«Hoje não carece de demonstração o sucesso da ambiciosa e inovadora estratégia empresarial que [João Rendeiro] vem prosseguindo em torno do Banco Privado Português.»

João Cravinho, Novembro de 2008

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Chuva em Braga e sol na Comporta

por Rui Rocha, em 10.08.14

 

Caríssimo S. Pedro,

 

Compreendo que com tanta diversidade de línguas, gentes e geografias não seja fácil que te mantenhas actualizado em matéria toponímica. Em todo o caso, gostaria de esclarecer que, apesar de Braga ser considerada como a cidade mais religiosa do país, com abundância de igrejas, padres e missinhas, não temos por aqui qualquer relação especial com os Espírito Santo. E se é até certo ponto compreensível que queiras fazer justiça com a própria meteorologia, castigando os infractores e não deixando tudo nas mãos dos nossos diligentes tribunais, parece-me que seria ponto de mandar chover e fazer descer a temperatura no local adequado. Isto é, o normal seria que houvesse sol em Braga e chuva na Comporta, se é que me entendes. E trovoada, raio e coriscos se tanto for justificado pela tua ira implacável. O que já não se admite é o contrário, como tem acontecido.

 

Despeço-me sem ressentimentos, pois que erros todos cometemos (veja-se, sem irmos mais longe e para nos mantermos em matéria bancária, o que aconteceu no Banco do Vaticano) e o mais importante é saber corrigi-los rapidamente.

 

Abraço,

 

RR

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Pobres accionistas.

por Luís Menezes Leitão, em 08.08.14

"Num relance, compreendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da Birmânia, medonha empresa em que cintilavam milhões, e para que os dois confederados da bolsa e da alcova, desde o começo do ano, pediam o nome, a influência, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, no enfado dos negócios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da Ásia. E agora o conde de Trèves assegurava ao meu pobre Príncipe que no Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negócio, perpassava um fulgor das Mil e Uma Noites. Mas sobretudo aquela escavação de esmeraldas convidava o espírito culto pela sua acção civilizadora. Era uma corrente de ideias ocidentais, invadindo, educando a Birmânia. Ele aceitara a direcção por patriotismo...

— De resto é um negócio de jóias, de arte, de progresso, que deve ser feito, num mundo superior, entre amigos...

E do outro lado o terrível Efraim, passando a mão curta e gorda sobre a bela barba, mais frisada e negra que a de um Rei Assírio, afiançava o triunfo da empresa pelas grossas forças que nela entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacinto franzia o nariz, enervado:

— Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que há esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Efraim:

— Esmeraldas! Está claro que há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

E eu admirava a grandeza daquela máxima…"

 

Eça de Queiroz, A cidade e as serras.

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Ó sr. Nuno Melo, não era isto que Constâncio dizia?

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.08.14

"Este tipo de situações são conhecidas apenas quando correm mal" - Maria Luís Albuquerque, ministra das Finanças sobre a actuação do Banco de Portugal no caso BES, depois das lições do caso BPN.


 

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Banco bom e Banco mau.

por Luís Menezes Leitão, em 04.08.14

O que foi anunciado ontem pelo Governador do Banco de Portugal, com o Primeiro-Ministro a banhos, constitui um verdadeiro filme de terror para toda a gente. À semelhança de 3 de Agosto de 1968, data em que Salazar caiu da cadeira, 3 de Agosto de 2014 pode muito bem ser o começo do dobre a finados do actual regime. Em primeiro lugar, parece absurdo considerar que os contribuintes não irão ser afectados por esta história. Na verdade, o tal Fundo de Resolução, que substituiria o Estado na recapitalização do Banco, não chega a ter 200 milhões de euros, pelo que só pedindo emprestado o dinheiro da troika se vai conseguir (re)capitalizar o banco bom em 4900 milhões. Dizem agora que depois pedirão o dinheiro aos restantes bancos, quer sob empréstimo, quer sob contribuição para o Fundo. Só que não acredito que haja quaisquer empréstimos e se o Fundo pedir o dinheiro aos restantes bancos arrisca-se a ter que os recapitalizar a seguir. Isto vai ser um círculo vicioso, que no fim o contribuinte acabará por pagar.

 

 

Em relação aos accionistas, a situação é absolutamente aterradora. Tinham investido num Banco, que até há dias as diversas autoridades garantiam estar absolutamente sólido, e agora são atirados um Banco mau, que corresponderá a uma espécie de Mr. Hyde da Banca, enquanto que o Banco Bom, o Dr. Jekyll, irá para outras paragens. Se alguém acha que depois disto há um único investidor que queira pôr um tostão que seja na Banca, está muito enganado. Mas em qualquer caso, prevê-se uma infinidade de processos judiciais, designadamente em torno dos activos que irão para um ou outro Banco.

 

Ao seu serviço: Dr. Jekyll.                        Ao seu serviço: Mr. Hyde.

 

Finalmente temos a situação dos depositantes, os que se visou proteger com esta operação. Não me parece que fiquem muito satisfeitos. Na verdade, o Banco em que tinham colocado as suas poupanças morreu ontem e o Novo Banco, nome que uma espantosa criatividade lhe atribuiu, precisará de ganhar credibilidade, o que nesta sociedade de mercado dificilmente um banco pertença do Fundo de Resolução conseguirá. No fundo, esse Banco, ou passa para os privados a curto prazo, ou estará brevemente envolvido no impasse que a experiência do BPN demonstra. Mas o BPN ainda tinha a vantagem de ter sido atribuído à CGD, uma instituição credível no sistema bancário nacional. Esta é uma solução absolutamente nova e as soluções novas geram desconfiança.

 

Porque se chama a isto um Banco mau? (Aqui podem lavar-se os erros dos Bancos). 

 

Poderia ter-se encontrado outra solução que não esta? Se calhar, não. O que não quer dizer que esta não esteja cheia de problemas e incógnitas. Uma coisa é certa: o mito da saída limpa do programa de ajustamento morreu ontem. E politicamente isso tem um impacto desastroso. 

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Como é que se costuma dizer?

por José António Abreu, em 31.07.14

Quem contrai dívidas de 400 mil euros em seu nome junto de um banco arranja um problema a si próprio se não as conseguir pagar. Quem contrai dívidas de 400 milhões de euros em seu nome junto de um banco arranja um problema ao banco se não as conseguir pagar.

É mais ou menos isto. Mas agora também:

Quem contrai dívidas de 4 mil milhões de euros em nome do banco que dirige arranja um problema ao banco, ao governo e aos contribuintes se não as conseguir pagar.

E ainda:

Quem contrai dívidas de 140 mil milhões de euros em nome do país que dirige arranja um problema aos governos seguintes, aos bancos e aos contribuintes se… não, peço desculpa, neste caso a culpa é dos credores e o problema deve ser-lhes remetido via recusa de pagamento total ou parcial – um processo indolor, como se sabe (vide Argentina há uma dúzia de anos e, de novo, na noite passada).

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De rastos

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.07.14

"Pasan los meses y el gobernador del Banco de Portugal, Carlos Costa, no mueve ficha. Espera que se vayan los inspectores de la UE, FMI y BCE que estaban supervisando el plan de rescate de Portugal y luego espera a junio a que el banco Espírito Santo cierre su ampliación de capital. Entonces llama a Salgado a su despacho para pedirle que se vaya del banco, él y todos los miembros de la familia. Salgado accede, pero le cuela como sustituto a su brazo derecho, Amílcar Moraes Pires. El desconcierto es total. ¿Cómo limpiar el banco con los mismos? Costa se acobarda, no se atreve a decir ni sí ni no y, en un comunicado bochornoso, afirma que son los accionistas quienes, el próximo 31 de julio, han de elegir a su dirección. Casi un mes de anarquía financiera alentada por el supervisor. Fernando Ulrich, presidente del banco BPI, lo resume: "Si querían construir la tormenta perfecta, no había mejor forma".

No era una tormenta, sino el diluvio. El desgobierno absoluto del BES, del Banco Central y de la economía del país. En siete días, el valor del banco cae un 41%. La desesperación llega a la misma familia, que tiene que vender las acciones para pagar el préstamo con que las había comprado. Pierden de su bolsillo 89 millones.

Costa tarda una semana en rectificar. Hay que salvar al BES; cortar ya con las relaciones obscenas entre el banco y las empresas de los Espírito Santo que durante años se peloteaban la deuda, cada vez más grande, extendiendo la metástasis por todos los rincones del grupo." - El Pais

 

Com uma imagem destas lá fora, será que o atento deputado jotinha, o tal que emite opiniões sem cerimónias, vai agora pedir uma comissão de inquérito à actuação do Banco de Portugal no caso BES?

 

P.S. Antes que venham os da praxe acusar-me de "socratista" e outros mimos do género, esclareço que quem agora pergunta teve em 2008 liberdade suficiente para escrever isto.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 24.07.14

A queda de um santo, do Pedro Santos Guerreiro.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.07.14

 

 

O Último Banqueiro, de Maria João Babo e Maria João Gago

Biografia

(edição Lua de Papel, 2014)

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Um festival

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.07.14

"Global stock markets hit by Portuguese banks concerns" - BBC News

 

"European makest fall as Portuguese bank woes revive 'darkest nightmares'- as it happened. Concerns over Portugal's Banco Espirito Santo have hit shares across Europe; Saxo Bank says "darkest nightmares about Europe" have returned" - The Guardian

 

"Portuguese bank fears hit markets after Banco Espirito Santo shares suspended" - City A.M.

 

"Portugal banking crisis sends tremors through Europe" - The Telegraph

 

"Equities hit by Portuguese bank worries"; "Asia markets hit by Portugal bank woes" - Financial Times

 

Desta vez não será fácil ao Governo acusar a oposição de antipatriotismo pelas notícias que colocam, de novo, a banca portuguesa no centro da imprensa internacional. Independentemente de aplaudir a recusa do primeiro-ministro em não financiar ainda mais o BES, é conveniente recordar de tempos a tempos que isto só chegou onde chegou porque o poder político conviveu demasiado com esse grupo bancário.

O BES é o espelho da falência do regime nos moldes em que este tem operado, o resultado da podridão de interesses do bloco central e do consenso a que o Presidente da República apela permanentemente como panaceia universal para os problemas dos portugueses. O consenso trouxe-nos, e ao BES, até aqui, pelo que agora será necessário haver quem corte a direito e malhe no ferro enquanto está quente, antes que o consenso o faça esfriar.

Não há quem na actual elite política e económica, sem esquecer os escritórios e as empresas dos mercenários ao serviço do poder, que tudo fazem desde que lhes paguem, não tivesse uma ligação qualquer ao BES, a uma empresa do universo desse grupo ou a um negócio onde aparecesse a sua longa mão.

Agora que todo esse império assente em pés de barro, imprensa cor-de-rosa e publicidade de gosto duvidoso paga a peso de ouro passa pelas dificuldades de um deprimente asilo familiar, ainda há quem tenha a latosa de vir dizer que é um abcesso. Dizer que o BES é um abcesso é uma outra forma de branquear os milhões que desapareceram nos bolsos de alguns. Os abcessos tratam-se em meia dúzia de dias e tudo segue como até antes da inflamação, com saúde. O BES é um caso de polícia dos mais graves, como se volta a ver pela repercussão internacional que tem, bem superior à do BPN. E como todos os casos de polícia deve ser investigado e julgado sem contemplações, sem panos quentes. E no fim, se for o caso, os responsáveis pelo que está a acontecer devem ir bater com os costados a Caxias ou a outro resort do género. Não por serem perseguidos políticos, mas por serem bandidos iguais aos outros.

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Nunca na história das tricas humanas tão poucos conseguiram convencer tantos a beneficiar tanto tão poucos.

 

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E andam preocupados com as aparições de um ex-governante fracassado

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.05.14

(Foto: Rui Gaudêncio, Público)

O líder do grupo está habituado a fazer recomendações à classe política, a dar opiniões sobre a forma como o país deve ser governado, sobre o descalabro das finanças públicas e o que podia ser feito para corrigir sucessivos défices. Para além disso, do seio do seu grupo, da sua escola, saíram muitos deputados, administradores de empresas participadas pelo Estado, membros do Governo, dirigentes dos partidos políticos. Quem o ouvisse e lesse as suas entrevistas e de outros dirigentes do grupo pensaria ser aquele o domínio da gestão exemplar, inatacável, e que os investidores e depositantes podiam estar sempre tranquilos. Agora, uma auditoria mostrou que "irregularidades materialmente relevantes" esconderam 1200 milhões de dívidas nas contas de 2012. Parte da dívida, diz a notícia, foi contraída por empresas do próprio grupo em situação económica difícil. E agora a holding do grupo está em situação de "falência técnica". Brilhante. De nada serviram os generosos benefícios fiscais que receberam, para criar riqueza, diziam eles, à custa de todos nós. Pois sim...

Registando que o líder do grupo foi o primeiro a assumir os erros, pergunto qual a autoridade que pessoas como ele têm para amanhã criticarem a forma como são geridas as contas públicas, os gastos na saúde e na educação dos portugueses ou os direitos sociais da generalidade das pessoas que trabalham, se nem em sua casa sabem gerir e controlar os gastos?

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Novos alquimistas: os bancos

por Rui Herbon, em 09.05.14

 

Os economistas só se lembram de Santa Bárbara quando troveja. E agora que estamos empapados até aos ossos toca a recuperar os certeiros estudos de Minsky e Kindleberg sobre a origem e desenvolvimento das crises financeiras, uma análise que foi convenientemente relegada para os sótãos da memória colectiva da profissão e que hoje retoma a sua relevância.

 

O fundamental não é o ciclo económico – produto de uma queda na rentabilidade marginal do capital – mas o financeiro, isto é, o fluxo de crédito que em excesso acaba por atolar a actividade económica. A evolução de um ciclo financeiro pernicioso é fácil de detectar: a exuberância de crédito volta-se invariavelmente para o sector imobiliário criando distorções de preços e desviando recursos e mão-de-obra para bolhas sectoriais que são insustentáveis a longo prazo.

 

É o sector bancário, mal regulado e pior supervisionado, que propicia e inicia essa abundância intoxicante através da sua capacidade de criar dinheiro sob o sistema de reservas fraccionárias. Na sua monografia sobre a criação de dinheiro no sistema económico moderno, o Banco de Inglaterra assinala que são os depósitos bancários, e não a moeda em circulação, os responsáveis por 97% da massa monetária; depósitos que particulares e empresas utilizamos diariamente debitando os nossos gastos e creditando os nossos rendimentos sem necessidade de manejar moeda. Meros registos bancários, como também o são os créditos concedidos que se constituem como depósitos a favor de, sem outro amparo além da obrigação de pagamento contraída pelo devedor.

 

Persiste a ideia primária de que são os depósitos dos clientes o que os bancos intermedeiam e transformam em crédito. Nada mais distante da realidade. É o banco, em função da sua avaliação do risco, que ao conceder um crédito cria depósitos, quer dizer, dinheiro efectivo a partir do nada. Levando o argumento ao extremo, um banco poderia conceder um crédito de um milhão de euros sem ter um cêntimo em depósitos, contando apenas com a promessa de pagamento do devedor. Se não puder ou não quiser recorrer ao mercado interbancário, poderá fazê-lo junto do seu Banco Central para obter a liquidez de que necessita financiando-se à módica taxa de 0.25%, com o fim de fazer face aos levantamentos que o beneficiário do crédito realize.

 

São portanto os bancos e não os governos que manejam em grande medida a máquina de criar dinheiro, ao conceder créditos e os depósitos resultantes mediante um simples registo bancário. São os novos alquimistas. Claudio Borio do Bank for International Settlements (o banco central dos bancos centrais, com sede em Basileia) assinala que é no apogeu da expansão do crédito que encontramos a origem das conseguintes crises bancárias, crises especialmente severas que com uma duração média de dez anos deixam o sector à beira do colapso e necessitado do resgate por parte dos estados. Um resgate inevitável se se quiser prevenir o colapso de toda a trama da actividade económica que depende dos serviços bancários para o seu funcionamento.

 

Essa primeira etapa, a do resgate, foi implementada na Europa com êxito. A hemorragia foi estancada. Agora entra em campo a segunda fase: reparar os balanços e implementar as reformas necessárias, especialmente as que afectam o ordenamento e o desenho do sistema bancário. Uma exigência que é amplamente aceite como a única maneira de não voltar a tropeçar pela enésima vez na mesma pedra.

 

Num artigo publicado pelo Financial Times recentemente, Strip private banks of their power to create money, o seu mais destacado colunista, Martin Wolf, declara-se a favor de devolver a gestão da massa monetária aos bancos centrais e acabar com a actual capacidade da banca para gerar poder aquisitivo sem contrapartida. Só os depósitos de clientes poderão ser intermediados como créditos a terceiros e esse será por sua vez o limite da criação de crédito, ou seja, defende uma banca com reservas de 100%.

 

Uma coisa é certa: continuar com as mesmas estruturas e esperar na próxima crise um resultado diferente é estúpido. Há que repensar a banca e as suas funções, num debate que deverá ser aberto, inovador e sem estridências políticas de ocasião.

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Não é cocó mas fez o gato

por Teresa Ribeiro, em 06.04.14

O BPN não é um caso político, mas um caso de polícia, afirma Marques Mendes, como se casos políticos não pudessem ser casos de polícia e vice-versa. Refere ainda que muita gente falhou nesta história, incluindo... políticos. O ex-presidente do PSD, sublinhe-se, emitiu esta opinião não como político, mas como comentador político.

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O apoio ao negócio dos colchões*

por João André, em 27.03.14

E temos agora a senhora presidente do conselho das finanças públicas a propor taxar levantamentos. Eu não sei se ria se chore, porque a ideia é tão disparatada que só posso imaginar que ela tenha bebido uns copos valentes antes de abrir a boca. É que, sejam lá quais forem os favoritismos, taxismos, carreirismos e outros ismos, Teodora Cardoso tem que ser uma pessoa minimente inteligente para chegar onde está. Por outro lado sabemos que a ideia deste governo é ir desmantelando o estado (depois de espremer o que pode para pagar aos patrões de "lá fora") e uma tal taxa ia garantir a proliferação absoluta do liberalismo económico com os bancos a desaparecerem do mapa ou a serem utilizados apenas no estrangeiro e o resto das compras a serem feitas em dinheiro ou até em géneros, quiçá com novas moedas inventadas (dará jeito para quando nos chutarem para fora do euro e o novo escudo desvalorizar zimbabuéniamente) ou mesmo com bitcoins ou lusocoins.

 

Estou certamente a ser injusto. Teodora Cardoso viu apenas uma grande oportunidade para uma área de negócio que tem sido escandalosamente negligenciada por todos os governos. O fabrico de colchões. Venha a taxa. Seremos todos colchoneros (também têm o hábito de sofrer e ser governados por loucos).

 

*1º da série (que nem sequer sabia vir a ser uma série).

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"Gorduras do Estado" (98)

por Pedro Correia, em 26.03.14

Presidente do Banco de Fomento vai ganhar mais de 13 mil euros

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