Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um gigantesco passo à retaguarda

por Pedro Correia, em 07.11.15

CominternIV[1].jpg

 

A insurreição marxista-leninista de 7 de Novembro de 1917 - faz hoje 98 anos - deu início à União Soviética, o Estado totalitário de mais longa duração do século XX, que só implodiu a 31 de Dezembro de 1991, e a um regime político que viria a ser exportado para toda a Europa Oriental, responsável pela tortura e morte de largos milhões de seres humanos.

Foi um regime sanguinário, como ninguém com um mínimo de seriedade intelectual ignora. Mesmo assim ainda surgem defensores ocasionais do totalitarismo soviético, como ficou evidente na última edição do Avante!

Decorridas estas décadas, o jornal oficial do PCP persiste em omitir todo o rasto criminoso da URSS, celebrando o "exaltante exemplo" da tirania comunista e as "conquistas alcançadas" pelos czares vermelhos que esmagaram durante décadas os direitos mais elementares, não só no interior das fronteiras soviéticas como nos países vizinhos que tutelavam com blindados e baionetas, ao abrigo da doutrina da "soberania limitada". 

 

Black%20prisoner%20hands[1].jpg

 

Para assinalar a efeméride, deixo aqui o registo de algumas "conquistas alcançadas" pela chamada Revolução de Outubro:

- Terror Vermelho (1918-1922), promovido pela Tcheca, a brutal polícia política criada pela "ditadura do proletariado" leninista. Entre 50 mil e 140 mil vítimas mortais comprovadas (havendo historiadores que admitem a existência de meio milhão de mortos) neste período.
- Colectivização forçada de propriedades (1928-1940), que incluiu deportações gigantescas de populações rurais e fez a produção agrícola e pecuária regredir três décadas. Cerca de 25 milhões de pessoas foram desalojadas, metade das quais morreram.
- Genocídio ucraniano (1932-1933). Campanha desencadeada por Estaline para esmagar a resistência nacionalista na Ucrânia. Mais de cinco mil intelectuais foram assassinados ou deportados para a Sibéria. A esmagadora maioria da população rural, que viu terrenos e animais confiscados, foi condenada à fome. Objectivo: "eliminar inimigos de classe" através da colectivização forçada. Estimativa do número de mortos: 14 milhões.
- Grande Purga (1936-38). Durante este período, a polícia política deteve 1,548.366 pessoas - das quais 681.692 foram executadas. Média de mil execuções por dia (dados oficiais soviéticos), a partir de confissões obtidas através de tortura. Grande parte da elite dirigente, tanto ao nível do partido único como das forças armadas, foi dizimada neste período, ao abrigo do artigo 58º do Código Penal soviético, sobre "crimes contra-revolucionários".
- Gulag, os campos de concentração criados pelo estalinismo (1928-1953). Pelo menos 14 milhões de pessoas estiveram internadas neste vasto arquipélago prisional durante o quarto de século que assinalou o apogeu do terror estalinista. Pelo menos 1,6 milhões - vítimas de fome, doença e tortura - morreram nestes campos.
- Massacre de Katyn (Maio de 1940). Quase cinco mil oficiais polacos foram assassinados pelos soviéticos no período em que Moscovo se aliara à Alemanha de Hitler para a partilha da Polónia. Os oficiais, que eram prisioneiros de guerra, foram assassinados com tiros na nuca e enterrados na floresta de Katyn. Só após a queda do comunismo Moscovo admitiu a existência deste massacre.

 

Stalin-lenin[1].jpg

 

De resto, os próprios comunistas foram os primeiros a experimentar as delícias do "socialismo real" - começando por Trotsky, herói da revolução de 1917, assassinado em Agosto de 1940 por um agente estalinista no México.
Dos 1966 delegados ao Congresso do PCUS de 1934, 1108 foram presos e em larga parte executados nas vastas purgas que culminaram nos Processos de Moscovo (1936-38). O mesmo sucedeu a 98 dos 139 membros do Comité Central.
Estaline mandou executar, nesses anos negros, 5 mil oficiais com patente acima de major, 13 dos 15 generais de cinco estrelas e três dos cinco marechais do Exército Vermelho.
No total, cerca de dois terços dos quadros do PCUS foram liquidados pelo terror estalinista. Incluindo algumas das maiores figuras de referência do regime comunista.
Menciono apenas algumas:
- Lev Kamenev. Figura cimeira da revolução de 1917, presidente do Comité de Moscovo e vice-presidente soviético (segunda figura do regime, após Lenine). Executado em Agosto de 1936.
- Grígori Zinoviev. Um dos sete membros originais da Comissão Política do PCUS em 1917. Responsável pela defesa de Petrogrado na guerra civil, presidente da Internacional Comunista (1919-1926). Executado em Agosto de 1936.
- Nikolai Muralov. Um dos mais destacados combatentes da revolução, herói da guerra civil, comandante militar de Moscovo, inspector-geral do Exército Vermelho. Executado em 1937.
- Nikolai Bukarine. Jornalista, um dos colaboradores mais próximos de Lenine, organizador do levantamento bolchevista em Moscovo, criador da Nova Política Económica leninista, redactor-chefe do Pravda. Executado em Março de 1938.
- Alexei Rikov. Ministro do Interior após a revolução. Na sequência da morte de Lenine ascendeu a presidente do Conselho de Comissários do Povo (equivalente a PM). Executado em Março de 1938.
- Vladimir Antonov-Ovsinko. Jornalista e militar, liderou o assalto ao Palácio de Inverno - um dos marcos da revolução. Chefe do Departamento Político do Conselho Militar Revolucionário. Cônsul-geral soviético em Barcelona durante a guerra civil de Espanha. Executado em Fevereiro de 1939.
- Cristian Rakovski. Presidente do Soviete da Ucrânia e Presidente desta república soviética (1918-1923). Embaixador soviético em Londres e Paris. Executado em Setembro de 1941.
- Olga Kameneva. Irmã de Trotsky e esposa de Kamenev. Foi uma das mulheres que mais se distinguiram na revolução. Responsável pela nacionalização do teatro soviético, que ficou sob a tutela ideológica do partido. Executada em Setembro de 1941.

 

Conclusão: com tanta idolatria póstuma a um dos mais tenebrosos sistemas políticos que o mundo já conheceu, o jornal oficial do PCP, desmentindo o nome que ostenta em título, acaba de dar mais um gigantesco passo à retaguarda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Belo exemplo de "esquerda unida"

por Pedro Correia, em 16.10.15

"No final de uma reunião entre delegações do PCP e do PS, o Secretário-geral do PCP, na sua declaração, que deve ser lida e entendida na sua totalidade, expressou a posição do PCP face à situação decorrente dos resultados eleitorais. Deixou claro que apresentará na Assembleia da República uma moção de rejeição ao programa de um eventual governo PSD/CDS, caso venha a ser concretizado, para interromper a acção destruidora deste Governo. Afirmou o objectivo de nos batermos por uma política que responda às aspirações dos trabalhadores e do povo, o que não é fácil, considerando que o programa do PS não responde à aspiração da ruptura com a política de direita.»

Do editorial do Avante! (15 de Outubro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os saudosistas do muro

por Pedro Correia, em 10.11.14

599130[1].jpg

O Muro da Vergonha caiu, mas o PCP continua a defendê-lo sem vergonha nem um pingo de pudor um quarto de século depois. Contra todas as evidências mais gritantes, contra a vontade dos povos, contra o próprio "sentido da História" (mostrando assim ignorar a vulgata marxista sobre materialismo dialéctico).

Se os jornalistas parlamentares não andassem tão ocupados a registar diariamente as mesmas imagens e os mesmos sons, na contínua febre dos "directos" que na maioria das vezes não têm relevância noticiosa alguma, talvez um deles, fazendo algo diferente, se lembrasse de questionar os deputados do PCP sobre a nota oficial do partido reproduzida na última edição do Avante! e à qual o Rui Rocha já fez referência aqui.

Teria seguramente interesse jornalístico saber, por exemplo, se à renovação etária da bancada comunista, agora integralmente composta por deputados muito jovens, corresponde também um arejamento de ideias ou - pelo contrário - persiste o anquilosamento em dogmas há muito remetidos para o caixote do lixo da História (se me permitem usar o jargão marxista).

Nada melhor, para isso, do que exercer o elementar direito à pergunta. Questionando os jovens deputados do PCP - começando pelo simpático líder parlamentar - se subscrevem as palavras oficiais de doce nostalgia pela desaparecida República "Democrática" Alemã, único estado do mundo contemporâneo que mandou erguer uma muralha destinada a impedir a saída dos cidadãos, confinados à condição de prisioneiros no seu próprio país.

Subscreverão eles a entusiástica defesa póstuma da RDA, consubstanciada no elogio rasgado às "realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores" e do próprio muro, que segundo a saudosista nota inserida no Avante!, contrariando todas as evidências históricas, tinha simples "carácter defensivo" e constituiu um "incontestável acto de segurança e soberania"?

Eis uma questão interessante que eu bem gostaria de ver respondida por João Oliveira, Jorge Machado, Miguel Tiago, Bruno Dias, Paula Santos, Carla Cruz, João Ramos, Diana Ferreira, Paulo Sá, David Costa e Rita Rato.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se a culpa fosse das vítimas

por Pedro Correia, em 05.06.12

 

Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.

"Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados", garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava "horrorizado" por estas atrocidades e diversas capitais - incluindo Washington, Paris e Londres - expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. "Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia", relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.

Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! "O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas", tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.

Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os "povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente". Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A mentira é a verdade

por Pedro Correia, em 15.02.12

 

Depois da Líbia, onde foram os primeiros, os últimos e os mais ardentes defensores da ditadura de Kadhafi, os comunistas portugueses acorrem agora em defesa da ditadura de Assad na Síria. Contra as mais gritantes evidências, contra todos os sinais de alerta de organizações respeitadas e prestigiadas como a Amnistia Internacional e o Observatório de Direitos Humanos, contra as imagens chocantes que nos têm chegado de Homs, a cidade-mártir, e de outros pontos da Síria, o PCP mantém-se fiel à sua prática internacionalista muito peculiar de se solidarizar não com os povos oprimidos mas com os regimes que oprimem esses povos. Em sintonia com a China e a Rússia, como nos saudosos tempos da Guerra Fria, como se ainda houvesse Muro de Berlim e Pacto de Varsóvia, o órgão central do PCP tem-se distinguido pelo ardor na defesa de Bachar al-Assad, tal como já defendera o pai deste, Hafez Assad: os comunistas adoram a monarquia hereditária se esta for "republicana" e "socialista".

«Síria desmonta campanha imperialista.» Foi este o título estampado na primeira página do Avante! para destacar uma "notícia" centrada na versão dos acontecimentos fornecida pelo ministério do Interior sírio. Nada mais chocante, nada mais manipulador, nada mais indiferente ao sofrimento de um povo. Imaginem, no Portugal dos últimos anos de Salazar, um jornal estrangeiro a noticiar o que aqui se passava dando voz ao ministro Gonçalves Rapazote, que tutelava a PIDE...

Também na última edição, o jornal comunista congratula-se com o veto russo e chinês à condenação da ditadura síria no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Transferindo para as vítimas o ónus da culpa pelo banho de sangue perpetrado pelo regime de Damasco, à margem de toda a legalidade internacional, numa escala de repressão sem precedentes no país. Como se o PCP não soubesse que há mais de dez meses a polícia e o exército, actuando como esbirros de Assad, vêm procedendo sistematicamente ao massacre da população civil. No total terão já morrido cerca de sete mil sírios. Apenas porque reclamam liberdade e o respeito pelos mais elementares direitos humanos.

Leio estas "notícias" no Avante! e vem-me inevitavelmente à memória aquele mote totalitário inspirado no 1984 de Orwell: «A mentira é a verdade». Lembrem-se das atrocidades cometidas contra os civis de Homs e Damasco -- ou os de Misrata e Bengazi -- cada vez que ouvirem o PCP, de lágrima compungida, falar em populações que sofrem.

Imagem: saudações fascistas em louvor do ditador sírio,

de que o 'Avante!' tanto gosta

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nós te idolatramos, ó Pai dos Povos

por Pedro Correia, em 05.05.11

 

«O sistema político construído após a revolução russa de 1917, que deu origem à União Soviética e inspirou milhões de pessoas por todo o mundo, é a forma de democracia mais avançada que a humanidade já conheceu.»

Alguém adivinha de onde extraí esta frase tão tocante? Pois: só podia mesmo ser daqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Avante, por Assad e Castro!

por Pedro Correia, em 23.04.11

A ditadura síria, acossada por gigantescas manifestações de rua, manda disparar contra o próprio povo. O morticínio ocorre até durante a realização de funerais. O mundo inteiro protesta contra esta barbaridade. O mundo inteiro? Não. Em Portugal, o Avante! defende a despótica dinastia Assad, revelando aos seus leitores que os EUA "financiam a oposição síria" e as autoridades de Damasco "negam responsabilidades nas vítimas" (sic). Nem o Omo lava mais branco...

Mas que outra coisa seria de esperar de um jornal capaz de enaltecer, pela pena de um dos principais dirigentes do PCP, o "admirável processo de democracia participativa" em Cuba?

 

ADENDA. Um artigo esclarecedor no El País: Siria se hunde en la represión sangrienta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Solidários com o 'camarada' Kadhafi

por Pedro Correia, em 18.03.11

 

No Avante!, a receita do costume, que remonta aos tempos da Guerra Fria: há os ditadores bons, que são os "nossos", e os ditadores maus, que são todos os outros. Na perspectiva do órgão oficial do PCP, o milionário Muammar Kadhafi, no poder há 42 anos, é o ditador "bom". Ou antes: é o "pretenso" ditador, injustamente acusado de "supostas violações" e da "alegada repressão" de direitos humanos. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, garante supremo da legalidade internacional, impôs esta noite, com o respaldo da Liga Árabe, uma zona de exclusão aérea destinada a impedir o ditador de massacrar o seu próprio povo. Russos e chineses, em sintonia com a administração Obama e as chancelarias de Paris e Londres, viabilizaram esta resolução em Nova Iorque. Não importa: o Avante! continua a mobilizar-se em defesa de Kadhafi. Com esta extraordinária argumentação: no Magrebe e no Médio Oriente decorre um grande levantamento popular contra as ditaduras, excepto no caso da Líbia, onde a situação é inversa. Aqui, pelo contrário, existe um "cerco imperialista" a que Kadhafi - qual Che Guevara do Magrebe - resiste com heroísmo e a solidariedade do PCP.

Esta vocação do órgão oficial dos comunistas portugueses em defender alguns dos piores canalhas da cena política internacional deslustra todas as proclamações antiditatoriais que o partido liderado por Jerónimo de Sousa possa fazer noutros quadrantes. O que acharão deste descarado apoio à ditadura líbia nas colunas do Avante! alguns comunistas com presença regular nos ecrãs televisivos, nas colunas de jornais e na blogosfera, como Octávio Teixeira, António Filipe, Rui Sá, Vítor Dias, Carlos Carvalhas, António Vilarigues, Honório Novo e Ruben de Carvalho?

Autoria e outros dados (tags, etc)

A duplicidade moral do PCP

por Pedro Correia, em 11.03.11

Devia haver limites para o cinismo político e a duplicidade moral na forma como os partidos portugueses analisam os acontecimentos internacionais. Mas na perspectiva do PCP, pelos vistos, não há. Na Soeiro Pereira Gomes continua a prevalecer a regra maquiavélica: há que pôr de lado qualquer escrúpulo de consciência no apoio aberto aos tiranos de estimação. Sabendo do que a casa gasta, mesmo assim foi com espanto que li na edição do Avante desta semana a defesa despudorada da ditadura líbia em duas páginas dedicadas ao noticiário internacional. Enumerando as revoltas que se registam no mundo árabe, o jornal oficial dos comunistas portugueses assinala as «movimentações de massas» que «alastram» por todo o Magrebe e Médio Oriente, «de Marrocos a Omã, contra os regimes políticos vigentes e por melhores condições de vida». Mencionam-se estes países: Argélia, Bahrein, Marrocos, Iémen, Omã, Koweit, Arábia Saudita, Iraque e Egipto.

E a Líbia? Pois aqui é ao contrário. Títulos desta mesma edição do Avante: «Não à agressão imperialista na Líbia»; «Líbia cercada pelo imperialismo»; «Ingerência comprovada»; «Comissário demarca-se de posição sobre Líbia». O semanário do PCP vibra com as revoltas árabes em toda a parte menos no país do coronel Kadhafi, à revelia de quase toda a comunidade internacional. Garante que a oposição ao ditador líbio é instrumentalizada pela CIA, indigna-se por ver «as afirmações de Kadhafi continuamente deturpadas» nos órgãos de informação ocidentais e alerta na primeira página: «A NATO procedeu a exercícios militares no Mediterrâneo».

Atente-se nesta linguagem colaboracionista com o déspota de Trípoli: «A ONU decidiu também expulsar a Líbia do Conselho dos Direitos Humanos da Organização, medida baseada nas supostas violações dos direitos humanos cometidas pelas tropas leais a Kadhafi durante a alegada repressão de pretensas manifestações de massas, cuja existência não foi possível provar com clareza.» (Sublinhados meus).

 

Ponho de parte esta prosa repugnante, que por algum resquício de pudor surge sem assinatura no jornal do PCP, e abro a edição internacional do Independent. A manchete, assinada por Kim Sengupta, enviado especial do jornal britânico a Ras Lanuf, submetida a raides da aviação de Kadhafi, diz quase tudo: «Why won't the world help us?'». E releio a análise de Lluis Bassets publicada quarta-feira no El País, significativamente intitulada «Contra Kadhafi, guerra justa». Destaco isto:

«A Gadafi está intentando derrocarle su pueblo. Con las manos desnudas. Sin más armas que las que pueden apresar al ejército y hasta ahora sin ayuda internacional alguna. Al contrario, hay suficientes datos para sospechar que el déspota tiene todavía canales de auxilio financiero e incluso político en las capitales occidentales. Hay ya numerosas víctimas civiles, fruto de la represión de las manifestaciones primero y ahora de la guerra civil desigual que ha desencadenado. Una intervención internacional, del tipo que fuere, no sería en ningún caso una guerra preventiva, sino un caso evidente de la obligación de proteger consagrada por Naciones Unidas.»

Poderia recomendar este texto excepcional ao jornal dos comunistas portugueses, assumidamente pró-líbio. Mas não vale a pena: vigora ali a mentalidade da Guerra Fria e a veneração ilimitada aos ditadores de esquerda. Cometa Kadhafi as atrocidades que cometer, será sempre ali enaltecido. Que outra coisa seria de esperar de um partido e de um jornal capazes de elogiar o carcereiro da Coreia do Norte, Kim Jong-il?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Prosa de general birmanês

por Pedro Correia, em 19.11.10

 

No Avante!, nada de novo. Na sua mais recente edição, o órgão central dos comunistas surge em defesa dos direitos humanos no Sara Ocidental - e muito bem - mas páginas adiante lá vem a habitual condescendência com as ditaduras "amigas", desta vez num texto abjecto do misógino de serviço, Correia da Fonseca, sobre a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. "Imagino que deve ser terrível para uma mulher, para mais senhora de boa disponibilidade financeira, não poder sair de casa para ir às compras no hipermercado mais próximo", assinala o escriba comunista. Reduzindo a privação da liberdade da oposicionista birmanesa durante duas décadas a uma laracha machista de péssimo gosto.

Qualquer membro da junta militar de Rangum seria capaz de dar à estampa um escarro destes. Por momentos imaginei até Correia da Fonseca com divisas de general. Birmanês.

 

Ler também:

A Ana Matos Pires, a Joana Lopes, o João Tunes e o José Simões.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estaline e Kim Jong-il

por Pedro Correia, em 08.11.10

Na última edição do Avante!, o neo-estalinismo continua em grande. A pretexto da próxima cimeira da NATO que se realiza em Lisboa, o jornal do PCP salienta que desde a sua criação, em 1949, esta organização «apontava o seu fogo à União Soviética, cujo prestígio no mundo era imparável por ter sido a grande responsável pela vitória sobre o nazifascismo na II Guerra Mundial». Típica linguagem da Guerra Fria: o "órgão central" dos comunistas portugueses parece estar pelo menos há 25 anos parado no tempo, como se Tchernenko ainda fosse o ditador de turno na Moscovo soviética. Por um resquício de pudor, o nome de Estaline não é impresso nesta edição do jornal, mas a glorificação do estalinismo está lá, intacta, na referência ao "imparável prestígio no mundo" da URSS em 1949, então gerida com mão de ferro por Estaline, um dos maiores criminosos da História.

Ao melhor estilo estalinista, o Avante! omite, aliás, que durante dois anos, entre 1939 e 1941, a União Soviética foi aliada de Hitler e Mussolini durante a II Guerra Mundial e só rompeu com o nazismo quando os tanques de Berlim já invadiam o seu território.

 

O neo-estalinismo do jornal é também muito nítido no noticiário internacional. Repare-se nesta notícia: «A rejeição do convite para conversações por parte da Coreia do Sul é uma expressão de ignorância sobre a actualidade e um acto de traição para com todos os coreanos, considerou Pyongyang. De acordo com informações veiculadas pela agência de notícias norte-coreana, o governo da República Popular Democrática da Coreia convidou o vizinho do Sul para conversações. O objectivo era o estabelecimento de um acordo militar, mas Seul terá rejeitado "persistindo no enfrentamento e na guerra", disse fonte oficial à KCNA.»

Que vemos aqui?

A defesa aberta e declarada do regime neo-estalinista da Coreia do Norte, o mais repressivo do mundo, que o Avante! - só mesmo ele - apresenta aos seus leitores como amante do diálogo, da concórdia e da paz. Assim se distorce deliberadamente a verdade dos factos, rasurando a fotografia.

Essa mesma página é encimada com a seguinte notícia: «Por aumentos salariais e contra a retirada de direitos / Trabalhadores voltaram aos protestos nas Honduras».

Alguém imagina uma manifestação de protesto de trabalhadores por aumentos salariais na Coreia do Norte "Popular e Democrática", como tão carinhosamente lhe chama o órgão neo-estalinista do PCP?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ainda o Avante!

por João Carvalho, em 15.09.10

Escapou-me que o camarada Francisco Lopes apresentava há dias a sua candidatura às Presidenciais. Conforme anunciou o Avante!, foi na sexta-feira à tarde, «no Hotel Altis». Estou escandalizado. Não teria sido mais próprio na Pensão Central?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Mais papistas que o Papa

por Pedro Correia, em 15.09.10

Pressionado pela comunidade internacional, e sob a mediação da Igreja Católica, o Governo cubano libertou 52 presos políticos que estavam detidos desde a 'Primavera negra' de 2003. O Avante!, mais papista que o Papa, aproveitou a ocasião para insultar esses cidadãos cubanos que conheceram os cárceres da ditadura castrista. Chama-lhes "mercenários", que foram "pagos a peso de ouro pelos EUA". E garante aos seus leitores que não são presos de consciência, como diz a Amnistia Internacional: são pessoas que "receberam de países estrangeiros (os EUA) fundos e materiais para conspirar contra o Estado cubano".

Com este fraseado e esta terminologia, o jornal oficial do PCP desacredita a própria luta dos seus militantes contra a ditadura salazarista. O Diário da Manhã é que costumava transformar os presos de consciência em "mercenários" ao serviço do estrangeiro, negando os relatórios de organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional. Muitos comunistas portugueses certamente coram de vergonha ao lerem hoje o Avante!.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Será que o 'Avante' noticiará isto?

por Pedro Correia, em 09.09.10

 

Fidel Castro, surpreendendo muito boa gente, acaba de reconhecer que o "modelo cubano" não é exportável, pois nem em Cuba funciona. "El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros", declarou o histórico dirigente comunista, ainda hoje idolatrado por uma certa esquerda, ao jornalista Jeffrey Goldberg, já aqui citado pela Ana Margarida.

Fidel já antes surpreendera ao reconhecer os erros cometidos pelo regime cubano nas décadas de 60 e 70, quando perseguiu os homossexuais. "Sí, fueron momentos de una gran injusticia, una gran injusticia!, la haya hecho quien sea. Si la hicimos nosotros, nosotros...", reconheceu, em entrevista ao jornal mexicano La Jornada, o ditador cubano, que em 1963 chegou a considerar a homossexualidade uma "degenerescência".

Apetece perguntar: será que o Avante!, sempre tão atento a todas as declarações de Castro, também transcreverá estas nas próximas edições? Por mim, não tenho ilusões: certamente o director do jornal, José Casanova, dará ordens para omitir por completo o assunto no jornal oficial dos comunistas portugueses, incapazes de lidar com tanta heterodoxia. Vai uma aposta?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vale a pena ler o 'Avante!'

por Pedro Correia, em 13.07.10

I

Carvalho quê?

Querem saber o que realmente pensa o PCP? Esqueçam o que dizem deputados cordatos e engravatados, como António Filipe ou Honório Novo. O melhor mesmo é pegar no Avante!

A mais recente edição do "órgão central do Partido Comunista Português" tem data da passada quinta-feira, 8 de Julho. Manchete: "Hoje é dia de luta! (no Avante!, ao contrário do que sucede em certos blogues, os pontos de exclamação são muito apreciados). E "dia de luta" porquê? A CGTP promoveu na quinta-feira uma "jornada nacional contra o desemprego e a precariedade". O tema ocupa a metade superior da capa e também toda a página 5 desta edição.

Com tanto destaque a uma iniciativa da CGTP, pensar-se-ia que o secretário-geral desta organização, Manuel Carvalho da Silva, estaria em foco. Puro engano. O nome de Carvalho da Silva não é sequer mencionado neste Avante!, o que diz muito sobre a forma como a direcção do partido de que é militante de base o avalia.

Pelo contrário, o nome de Arménio Carlos - o membro da Comissão Executiva da CGTP que Jerónimo de Sousa e os seus pares gostariam de ver como líder da central sindical é mencionado oito vezes. Não há coincidências, como dizia a outra.

 

II

Ó tempo volta para trás

No capítulo internacional, como sempre o Avante! honra as melhores tradições do PCP. Abre a sua secção dedicada a temas estrangeiros com uma notícia que deve ter enchido de alegria os camaradas saudosos dos bons velhos tempos da Cortina de Ferro: "Partido Comunista renasce na Roménia". Tendo o cuidado de lembrar que "o golpe de Estado que derrubou o regime socialista (o Avante! ainda chama 'regime socialista' à feroz ditadura do casal Ceausescu) restaurou o capitalismo e provocou um verdadeiro genocídio social". E chora-se, pela enésima vez, a queda do bloco soviético: "O novo poder tentacular do capital, que imergiu após a queda da URSS, tende a reduzir os trabalhadores a meros instrumentos para os seus desígnios de opressão global", lê-se em prosa assinada por Domingos Lobo.

 

III

Irão sim, Obama não

Albano Nunes, o eterno responsável pelo sector internacional do partido, mostra-se preocupado com a "escalada contra o Irão e a RPD da Coreia [do Norte]", revelando assim quais os modelos que servem de referência ao PCP. A monarquia vermelha e os aiatolás.

O Irão dos enforcamentos e das lapidações é, aliás, uma autêntica obsessão para o Avante! Que dedica uma das suas cabeças de página às "provas apresentadas" pelo Governo de Teerão sobre o suposto "sequestro" de um cientista iraniano pela CIA.

Na permanente dicotomia entre anjos e demónios que molda o imaginário dos comunistas, se o Irão é bom, quem será o mau? Obviamente, o inquilino da Casa Branca. Henrique Custódio, analista do jornal, descobre com inegável argúcia que Barack Obama e George W. Bush são "farinha do mesmo saco". De resto, lê-se numa 'breve', os EUA são tão tirânicos que "invadiram" Porto Rico em 1989, ocupando desde então este país independente. Maldito imperialismo.

 

IV

China: porreiro, pá

Mas talvez o texto mais notável desta edição seja uma pequena notícia sobre a China, país governado desde 1949 pelo partido único, o comunista - força política "irmã" do PCP. A China onde os trabalhadores laboram em regime de virtual escravatura, sem direitos de espécie alguma, incluindo o da greve e o do livre associativismo sindical, é apresentada pelo jornal oficial dos comunistas portugueses como um caso exemplar.

"Face à luta dos trabalhadores na China Governo aumenta salários mínimos", titula o Avante! Marcando distâncias face ao regime chinês? Nada disso: os protestos surgiram "contra construtoras automóveis japonesas e depois do primeiro-ministro, Wen Jiabao, ter exigido publicamente melhores condições para os trabalhadores chineses". Porreiro, pá.

Moral da história: na China o camarada primeiro-ministro funciona como delegado sindical, preocupado com as condições de vida dos trabalhadores nas horríveis empresas nipónicas (e só nestas). Se vivesse em Portugal, Wen Jiabao pertenceria à Comissão Executiva da CGTP. E talvez visse até o seu nome impresso oito vezes, como o camarada Arménio Carlos, futuro sucessor do outro. Daquele cujo nome não convém escrever. Eu próprio já me esqueci de quem se trata.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D