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Cinemanias

por José Navarro de Andrade, em 21.04.16

O autorismo em cinema é conceito tão operacional e contemporâneo como a tecnologia usada para levar o homem à Lua. E, no entanto, persiste, como as pulgas no pêlo do cão. Agora deu-lhes - hossanas nos céus! - para esgravatar a boçalidade esteroidal de Verhoeven à cata de um "auteur" Força rapazes que ainda haveis de descobrir "diferância" em Harlan e rizomas em Pudovkin.

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Saul Bellow

por Patrícia Reis, em 11.06.15

Ontem, Saul Bellow, autor canadiano, vencedor de um Nobel da Literatura, teria feito 100 anos. Escreveu vários livros, muitos traduzidos em português. Para quem não leu, fica a dica e uma citação:

"Eu quero dizer-te, não te cases com o sofrimento. Algumas pessoas fazem-no. Casam-se com ele, dormem e comem juntos, como marido e mulher. Se se deixam levar pela alegria acham que é adultério."

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Excertos (20)

por Patrícia Reis, em 03.03.15

«Quando me dirigia para o autocarro, uma mulher de 30 anos magros e trigueiros, deteve‑me com esta pergunta, perto do Café Biarritz:
– Sabe‑me dizer onde fica a rua Alexandre Ferreira?
– No Lumiar, minha senhora.
– Mas disseram‑me que era aqui, em Alvalade.
– Não, não é.
Teimou, renitente:
– Mas disseram‑me que…
Como percebi que não estava disposta a acreditar em mim, com cara de mau informador, resolvi empregar um argumento decisivo:
– É que eu sou filho de Alexandre Ferreira.
– Oh! Que coincidência!... – exclamou a mulher, pasmada.
Acreditou logo, claro. E à despedida apertámos as mãos – ela vagamente vaidosa de conhecer o filho do nome de uma rua.»
José Gomes Ferreira, Dias Comuns VII - RASTO CINZENTO (11 de Junho)

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Vasco Graça Moura

por Patrícia Reis, em 03.01.15

A Isabel já o disse, mas não faz mal reafirmar: a falta que faz. Hoje faria anos. Resta-nos o que nos deixou.

 

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

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Excerto (18)

por Patrícia Reis, em 31.12.14

« Avançámos até ao fim da avenida e continuámos pela cidade velha. Demorei a encontrar a saída. À medida que avançava, o carro mergulhava num dédalo de ruas estreitas e sentidos únicos, onde cada opção parecia conduzir a um interior mais profundo, a uma rua ainda mais apertada, a um lugar mais distante de qualquer princípio de organização. O rapaz olhava alternadamente para mim e para as ruas que diante de nós se iam contraindo, com os muros cada vez mais colados às rodas do carro. Via-me prosseguir pelos empedrados, hesitar nos cruzamentos, continuar nos sentidos obrigatórios. Fixava o fim da rua, parecendo duvidar que o carro aí coubesse, voltava-se para mim. De um lado e do outro, paredes brancas, janelas com grades, portas fechadas. Levantava-se no banco e espreitava para trás, como se suspeitasse que a única saída viável fosse meter a marcha atrás e refazer, invertido, o percurso que ali nos conduzira. Metro a metro, centímetro a centímetro. Refazer o caminho, refazendo as dúvidas e as hesitações, e assumindo o erro de ter pretendido optar onde não havia opção. Tarde ou cedo acabaríamos numa rua barrada por um muro caiado. Continuámos ainda durante mais vinte minutos. Um percurso circular. Reconhecia as ruas, os edifícios, os empedrados. Por fim, ele sugeriu que deveríamos parar e perguntar a alguém. Respondi-lhe que não perguntava.
«Nunca.»
Acenou com a cabeça. Talvez compreendesse. Acelerei. Minutos depois acabámos por desembocar junto do rio, não muito longe da ponte romana. Nenhum de nós disse nada. Contornámos os bairros antigos e apanhámos as avenidas novas. Duas faixas em cada sentido.»

H.G. Cancela, Impunidade, Relógio d' Água, um grande livro de que a crítica não quis saber

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Excerto (17)

por Patrícia Reis, em 16.12.14

 "O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não estou a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta." (p.87)

 

Maria Manuel Viana, Teoria dos Limites, Teodolito

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Excerto (16)

por Patrícia Reis, em 01.10.14

Natália

Cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela professora Isabel da terceira classe era amarrado à volta dos olhos de uma menina, a cabra-cega, que ficava acocorada no centro de uma roda.

 

Cabra-cega, donde vens?

Venho da serra.

Que me trazes?

Trago bolinhos de canela.

Dá-me um!

Não dou.

Gulosa, gulosa, gulosa...

 

Era isto que repetia, incessantemente, o coro formado pelas crianças, numa lengalenga impiedosa, renovada até à exaustão, que acabava por fazer surgir as lágrimas, apenas ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

Rute Coelho, Gostas do que Vês?

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Excerto 15

por Patrícia Reis, em 30.09.14

De madrugada ainda levantar-se, descer para a cozinha e enregar o trabalho reacendendo lume no fogão, lavar a louça que ficou da véspera, com sobejos de comida, em monte sobre a pia (durante o inverno a água gela, corta os osso da gente, faz doer às vezes até pelo braço acima – deve ser reumático – mesmo ao cotovelo) e só depois sair para o quintal em que os pardais já cantam sobre o carrapateiro, filhar da vassoura e, com ela, varrer a capoeira e aos bichos dar farelos e mais reção avondo (de manhã as capoeiras têm sempre um certo cheiro azedo como alguns quartos de homem) e também ao pintassilgo mudar a água para beber, pôr a tina do banho, dar-lhe ou alpista ou uma folha de alface ou atão ambas, retirar o papel que, ao fundo da gaiola, se enche de cagadelas dia a dia e de casca de alpista, voltar depois ao quarto, lá em cima, a fim de pentear-se, pintar-se se ele a espera, pôr arrelicas e se aparelhar do casaco comprido, cinzento e desbotado, meter a carteira na algibeira, descer de novo a escada em caracol para a cozinha

 

Almeida Faria, Paixão

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Excerto 14

por Patrícia Reis, em 23.09.14


"O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. Uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta."

 

Maria Manuel Viana, A teoria dos limites

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Excerto (13)

por Patrícia Reis, em 13.09.14

"É exactamente porque não há solidão que dizes que há solidão. Imagina que eras o único homem no universo. Imagina que nascias de uma árvore, ou antes, porque eu quero pôr a hipótese de que não há árvores, nem astros, nem nada com que te confrontes: supõe que o universo é só o vazio e que tu nascias no meio desse vazio, sem nada para te confrontares. Como dizeres «eu estou sozinho»? Para pensares em «eu» e em «sozinho» tinhas de pensar em «tu» e em «companhia». Só há solidão «porque» vivemos com os outros..."

 

Vergílio Ferreira, in 'Estrela Polar'

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Excerto (12)

por Patrícia Reis, em 10.09.14

"Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo:

no seu corpo e fora dele, na cama e no varão da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; cancelando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude; atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma capacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir"

 

 

"Alguma esperança & Leite materno" de Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas, Sextante Editora

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H.G.Cancela

por Patrícia Reis, em 07.09.14

H.G.Cancela, blog contra mundum, escreve sobre a Literatura:

" Persiste à nossa volta o erro de confundir os livros com a literatura. De confundir o suporte com o discurso. Nem a literatura é redutível ao livro, nem o livro se esgota na literatura.
No livro não cabem nem o som nem a memória íntima das palavras, o timbre que ecoa na consciência como correlato de uma voz que ultrapassa a possibilidade de qualquer fixação gráfica. Na literatura mal cabe a multiplicidade de registos nos quais o livro se desdobra.
Importa acreditar mais na literatura do que no livro. Na voz, no ritmo, no fio de consciência que se faz mundo. Importa acreditar mais nas palavras do que em qualquer suporte. Acreditar que literatura é uma forma de compreensão. Não uma explicação, uma compreensão. Interior e voluntariamente condicionada pelas suas próprias opções. Exigente e sem compromissos que não sejam o da sua estrita legibilidade."

 

Já leram os livros deste senhor? Se a resposta for não, lamento informar, mas estão atrasados:) Boa semana

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Excertos (11)

por Patrícia Reis, em 06.09.14

«Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer, aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser preciso como chaperon, aos domingos, era certo e sabido no Estrêla- Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné, repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático, chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada», e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar ao dia-a-dia onde não era poderoso nem herói. Nem sequer adulto, sim um garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos».

 

J. Rentes de Carvalho in Ernestina

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Excerto (10)

por Patrícia Reis, em 02.09.14

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Excerto (9)

por Patrícia Reis, em 30.08.14

 "Os porcos são um autêntico mistério, é o que é, disse. O que é que uma pessoa consegue saber sobre um porco? Não muito. Ando a guardar porcos desde os meus tempos de catraio e nunca consegui chegar a percebê-los muito bem. E não tenho dúvidas que outros como eu tiveram a mesma experiência. Um porco é um porco. Pura e simplesmente. E é mais ou menos tudo que se pode o se pode dizer sobre ele. E são espertos, não penses que não. Espertos comó diabo. E não te deixes enganar por um que não tenha a pata fendida, porque esse é tão endiabrado comós outros.
Acho que os porcos são porcos e pronto, comentou Holme."

 

Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy.

Excerto de um diálogo inesquecível entre um porqueiro e o Culla Holme.

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Excerto (8)

por Patrícia Reis, em 26.08.14

"Todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo.
Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós."

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe

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Excerto (7)

por Patrícia Reis, em 25.08.14

Desgastava-o uma necessidade de estar sempre em dois lugares ao mesmo tempo: no seu corpo e fora dele, na cama e no varão
da cortina, na veia e no cilindro, com um olho atrás da pala e outro
olhando a pala, tentando sair deste estado de observação através
de um estado de inconsciência, mas sendo depois forçado a ob-
servar as franjas da inconsciência e tornar visíveis as trevas; can-
celando todo o esforço, mas estragando a apatia com inquietude;
atraído por trocadilhos mas repelido pelo vírus da ambiguidade;
inclinado a dividir frases ao meio, articulando-as com a reserva de
um «mas», mas desejando desenrolar a sua língua recolhida como
a de um geco e apanhar a mosca avistada à distância com uma ca-
pacidade resoluta; desesperado por escapar à autossubversão da
ironia e dizer o que verdadeiramente queria dizer, sendo que o que
verdadeiramente queria dizer só a ironia o poderia transmitir

 

Edward St Aubyn in "Alguma esperança & Leite materno", tradução de Daniel Jonas, Sextante

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Excerto (5)

por Patrícia Reis, em 20.08.14

“A Perturbação, mas também o deslumbramento estremecido que me tomam ao ler cada um deles, deve-se não sei se à acutilante lucidez a que o seu pensamento conduz, agudizando-se em mim a consciência da minha atroz condição com um futuro eternamente adiado, se à aproximação já dos ventos de revolta que a Lua inevitavelmente arrasta consigo. Tendo como meta abrir no mundo portas e janelas de claridade, desse modo destruindo o antigo estado de negrume onde se encontram firmadas as raízes dos nossos antepassados.”

 

Maria Teresa Horta, “As Luzes de Leonor”

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Excertos (6)

por Patrícia Reis, em 20.08.14

A imprecisão sempre me irritou.
- Sim, mas eu disse-lhe que não fiz outra coisa senão pensar em si - respondi. Não me disse que pensou em mim.
Decorreu um instante. Por fim ela respondeu:
- Disse-lhe que pensei em tudo.
- Não deu pormenores.
- É que tudo é tão estranho, foi tão estanho...estou tão perturbada...Claro que pensei em si...
O meu coração bateu com força. Precisava de pormenores. O que me emociona são os pormenores, não as generalidades.

 

Ernesto Sabato in O Túnel,

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Excerto (3)

por Patrícia Reis, em 15.08.14

 

I

 

Da cabra-cega

 

O meu espelho tem os olhos fechados desde criança.

 

Durante o intervalo, no pátio da escola primária, brincava-se a um jogo que sempre detestei: um lenço vermelho emprestado pela Professora Isabel da terceira classe, era amarrado à volta dos olhos da cabra-cega-A vítima que ficava acocorada, com os olhos escondidos pelo tecido, no centro de uma roda de mãos das outras crianças.

 

 «Cabra-cega, donde vens?»

 

«Venho da Serra.»

 

 «O que me trazes?»

 

«Trago bolinhos de canela.»

 

 «Dá-me um!»

 

«Não dou.»

 

“Gulosa, gulosa, gulosa...”

Repetia, incessante, o coro formado pelas crianças, numa lenga-lenga impiedosa renovada até à exaustão das lágrimas que acabavam por surgir ocultas pelo lenço vermelho da professora Isabel.

 

A Cabra-Cega levantava-se.

Se agarrasse alguém, todos se calavam. O pátio ficava mudo, os corpos pequenos permaneciam, por instantes, apenas por instantes, imóveis. Depois a Cabra-Cega para se libertar da sua condição precisava de adivinhar quem tinha conseguido aprisionar com as suas mãos miudinhas. Apalpando com os dedos, entre risos e cócega lá tentava adivinhar quem era o apanhado. Se acertasse, a venda mudaria de olhos.

 

Gostas do que vês?, Rute Coelho

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Excerto sem númeração

por Patrícia Reis, em 12.08.14
Excerto do livro, As casas de Mirandela, Dóris Graça Dias, 1991
"Ela, quando o vir caminhando pela longa varanda, na sua direcção, encostar-se-á à parede (que fica entre a porta da cozinha e um espaço aberto, onde dois tanques servem momentos de lavar roupa) com as mãos atrás das costas para sentir o frio da pedra e, quando ele estiver a distância suficiente para a ouvir, perguntar-lhe-á:
– Como te chamas?
Ele parará de imediato. Estenderá a mão direita para o suporte de ferro do estendal e abandonará o corpo num desenhar de ângulo agudo em relação ao chão. O braço esquerdo pendendo. Livre. Dir-lhe-á o nome. Ficará à espera, desatento, que ela lhe diga o seu. Ela não lho dirá, antes perguntará:
– Quantos anos tens?
Ele endireitar-se-á encostando o frágil corpo ao ferro no mesmo instante em que o envolverá com o braço direito. Estenderá a mão esquerda, mostrando-lhe quatro dedos abertos e dirá:
– Est... quatro!
Ela, precipitadamente, dirá:
– Sou mais velha que tu um ano...
Esclarecerá:
– Tenho cinco!
Ele olhá-la-á desinteressado.
Mais tarde, quando passarem horas na invenção de jogos, ele, repetidas vezes afirmará:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
E ela, repetidas vezes o contrariará nessa inversão do tempo. Dir-lhe-á a impossibilidade dessa ultrapassagem. Dessa mentira. Julgá-lo-á tonto, despropositado. Depois, reconsiderará. Esperará o ano que a ele falta, para entender, como ela entende, essa incapacidade temporal e então dir-lhe-á:
– Agora, eu tenho seis anos e tu cinco: continuo a ter...
Ele interromper-lhe-á a frase e, no mesmo tom dos quatro anos, dirá:
– Um dia, hei-de ser mais velho que tu!
Será nessa altura, nessa idade que ela conhecerá, pela primeira vez, desejo de bater.
Não o fará. Recorrerá ao quarto. À sua irmã."

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Excerto (4)

por Patrícia Reis, em 05.08.14

A FÁBULA

 

O antigo embaixador estava vestido de seda e, por estranho que pareça, o caminho que iria conduzir aos memoráveis teve início no copo de uísque escocês que andava nas suas mãos. Igual líquido circulava pelos copos daqueles que o acompanhavam, e talvez por isso mesmo as gargalhadas que soaram no amplo salão da casa tenham sido tão desabridas, quando o anfitrião disse para aquele que lhe estava mais próximo – «Afilhado, agora que uns quantos mercadores estão empenhados em demonstrar que a Terra é plana, não faltará quem venha dizer que a história é redonda. Estão a ver como se constrói uma bela impostura? A Terra lisa como um guardanapo, a história sem uma ponta por onde se lhe pegue como se fosse uma esfera. E agora, tu, Bob? Como é que vais desfazer um embuste tão bem montado?»

Os vários homens que o acompanhavam desmancharam‐se de riso. Depois é que chamaram a portuguesa para que se risse também. Ela abandonou o canto onde se encontrava e foi inte‐ grar o grupo que se divertia em torno do anfitrião, mas em breve, naquela divisão apenas iriam permanecer o homem vestido de seda, o afilhado Robert Peterson e ela, ou melhor, eu mesma. Então o silêncio ali dentro, em contraste com a alegria que se propagava pelas outras divisões da casa, criou um intervalo demasiado prolongado entre nós, até que o padrinho, com um aceno amigável, me chamou para junto da grande janela. Lá fora, uns fiapos brancos tinham começado a voar com umas horas de atraso em relação à previsão da meteorologia, e o antigo embai‐ xador achava interessante que eu assistisse à sua chegada. Ele disse – «Venha até aqui, Miss Machado, venha ver o que está a cair do céu sobre o nosso jardim.» Eu fui e ali ficámos os três junto do vidro, tocados de encantamento e melancolia.

Mas essa fina contemplação diante do prenúncio da neve não durou um instante. O padrinho logo se desprendeu daquele clima de fascínio e perguntou ao Bob, como se a neve não exis‐ tisse e eu ali não estivesse – «A propósito, afilhado, o que decidiu ela sobre o assunto que te propus?» E aí, ambos começaram a trocar impressões sobre o calendário das futuras deslocações aos países do deserto, lá onde, passados seis meses, a guerra conti‐ nuava sem pausa nem fim à vista. A partida estava marcada, a escala encerrada. Renitente, o padrinho insistiu – «Não te esque‐ ças que ela pode muito bem ser substituída nessa missão. Milha‐ res de jovens repórteres da sua idade estão neste momento a caminho dos desertos para falarem com as viúvas dos mártires. O que vai ela lá procurar que outras não o possam fazer em seu lugar?» Padrinho e afilhado falavam em inglês e de novo aquele she era eu. Até que o homem vestido de seda iniciou uma longa exposição sobre o vício de reportar batalhas.

Sentámo‐nos.

O anfitrião falava com o copo na mão, rodando‐o, como se fosse um adorno, e eu pensava que aquele líquido bem poderia não ser uísque mas água pintada. Falava lentamente, dirigindo‐se a Bob Peterson, uma longa exposição sobre o vício de cobrir con‐ flitos armados, vício que se pegara ao afilhado Bob, e provavel‐ mente a todos aqueles que lhe passavam pelas mãos, incluindo ela, a rapariga que ali estava. Muito desgostoso com o facto, o padrinho começou a expor a sua teoria a propósito desse triste vício, que sempre incluía calendários em sobressalto, urgên‐ cias inadiáveis e repórteres imprescindíveis. Estivéssemos nós, porém, bem descansados que assunto para cobrirmos nunca nos faltaria ao longo de toda a vida, e quanto a carnificinas e viúvas, onde quer que fosse, e quando quer que fosse, para infelicidade de todos, sempre as teríamos. Era, precisamente, para contra‐ balançar a permanente lei da recidiva que valia a pena escolher da sua espiral os momentos de intervalo que de onde em onde sempre iam surgindo. Dizia o diplomata, e no meio dessa fala, metodicamente monótona, como se escutá‐la por si só consti‐ tuísse uma prova, acabou por se me dirigir em português – «Miss Machado, já aqui disse ao meu afilhado que nem sempre a histó‐ ria é um pesadelo de que em vão tentamos acordar para regressar ao ponto de partida. Olhe que por vezes, embora escassas vezes, a história também é um sonho agradável, e tão apaziguante pode ele ser que vale a pena uma pessoa ao acordar tentar por todos os meios guardar‐lhe a imagem para que não se esvaia. Sejamos práticos. Quando acontece despertarmos a meio de um desses sonhos, o que devemos fazer é manter‐nos em estado de alerta, guardando o momento de excepção, prolongando‐o na memória de forma excepcional também. Tenho ou não tenho razão?»

E virando‐se para Bob, dirigiu‐se‐lhe em inglês – «Eu já te disse, afilhado, é preciso não baixar os braços. Para começar, sugiro‐te uma sequência de cinco ou seis episódios, como aquelas séries dos bons velhos tempos, quando tu eras um rapaz genial e o que produzias resultava ainda melhor do que planeavas. Alguma coisa que se chamasse A História em Vigília, ou uma outra designação semelhante. Um primeiro número, exemplar, e para esse início inaugural sugiro Miss Machado. A rapariga a abrir a série com o caso do seu país, aquele caso extraordinário que ocorreu na sua pátria, já lá vão vinte e cinco anos ou mais. O tempo sempre a pas‐ sar, cada vez mais rápido, cada vez mais rápido, o tempo sempre a abrir, não é mesmo assim, Bob? Aceita o conselho que te dou. Ela deveria ir lá, quanto antes, recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa. Envia‐a para lá, afilhado, envia‐a antes que seja tarde. Sugiro que a série se designe por A História Acordada.» E o antigo embaixador elevou o copo à altura dos olhos e fez uma longa saúde, como se alguém no interior daquele salão fosse ter um filho.

 

Lídia Jorge, Os Memoráveis

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Excertos (2)

por Patrícia Reis, em 30.07.14

1

  

A primeira vez que a vi, a Ginga olhava o mar. Vestia ricos panos, e estava ornada de belas jóias de ouro ao pescoço, e de  sonoras malungas de prata e de cobre nos braços e calcanhares. Era uma mulher pequena, escorrida de carnes, e no geral sem muita existência, não fosse pelo aparato com que trajava, e pela larga corte de mucamas e de homens de armas a abraçá-la. 

 

Foi isto no Reino do Sonho, ou Soyo, talvez na mesma praia que lá pelos finais do século XV viu entrar Diogo Cão e os doze frades franciscanos que com ele seguiam, ao encontro do Mani-Soyo – o Senhor do Sonho. A mesma praia em que o Mani-Soyo se lavou com a água do baptismo, sendo seguido por muitos outros fidalgos da sua corte. Assim, cumpriu nosso senhor Jesus Cristo a sua entrada nesta Etiópia ocidental, desenganando o pai das trevas. Ao menos, na época, eu assim o cria.

 

Na manhã em que pela primeira vez vi a Ginga, fazia um mar liso e leve e tão cheio de luz que parecia que dentro dele um outro sol se levantava. Dizem os marinheiros que um mar assim está sob o domínio de Galena, uma das nereidas, ou sereias, cujo nome, em grego, tem por significado calmaria luminosa, a calmaria do mar inundado de sol.

 

Aquela luz, crescendo das águas, permanece na minha lembrança, tão viva quanto as primeiras palavras que troquei com a Ginga.

 

Indagou-me a Ginga, após as exaustivas frases e gestos de cortesia em que o gentio desta região é pródigo, bem mais do que na mais caprichosa corte europeia, se eu achava haver no mundo portas capazes de trancar os caminhos do mar. Antes que eu encontrasse resposta a tão esquiva questão, ela própria contestou, dizendo que não, que não lhe parecia possível aferrolhar as praias.

 

Nos dias antigos, acrescentou, os africanos olhavam para o mar e o que viam era o fim. O mar era uma parede, não uma estrada. Agora os africanos olham para o mar e vêem um trilho aberto aos portugueses, mas interdito para eles.

 

José Eduardo Agualusa, A Rainha Ginga

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Excertos (1)

por Patrícia Reis, em 29.07.14

"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. Quantos são hoje? Nunca sei às que ando, confundo tudo, perco-me sempre, os dias, as horas, às vezes cumprimento pessoas que não conheço, há uma semana ou isso entrei num antiquário, sentei-me a uma mesa D. João V e quando a senhora da loja veio, de uns armários franceses ou lá o que era, pedi-lhe que me servisse um uísque. Uma senhora com mais pulseiras que tu e anéis caros, de maquilhagem a lutar com a idade e a perder. Ficou a olhar para mim de cara ao lado. Depois perguntou-me se eu estava bêbado e depois começou a medir a distância entre ela e a porta a fim de chamar por socorro. Numa das paredes paisagens emolduradas a talha, o retrato de uma viscondessa decotada, estampas de cavalos com legendas em francês. A viscondessa usava um anel no indicador rechonchudo e tinha cara de jantar bicos de rouxinol todos os dias, servindo-se dos talheres como se cada dedo fosse um mindinho, desses que a gente enrola para beber o café. A minha irmã, pelo menos, enrola. Eu sou mais para o género de o esticar, tipo antena. Educações. Tu não enrolas nem esticas, deixas a mão inerte na minha. Não te apetece apertar-me, não tens vontade de ser terna? Gostava que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo. Segundo a minha irmã sou só parvo. A propósito de tudo e de nada"

 

(Migalhas de António Lobo Antunes)

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