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Os duendes alheios

por jpt, em 19.01.18

 

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas declarações. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do "importunar", que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública - difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole "javardista", que o "fazia-te isto e aquilo", "quem me dera aqueloutro" é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes.  E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas ("óh pai, o que tenho que ouvir às vezes", dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das "actualidades"). 

É esta a questão fundamental. E quem não a percebe vai por aí adiante, pensando-se moralista (e justiceiro), na ânsia da proibição. Do "rogaçar" de lábios, do ligeiro encosto. Do vernáculo. Da relação "incestuosa" [há gente que se considera no direito de escrever em público e que considera suspeito (bestial, de facto) o amor entre padrasto e enteada. Mas que acha normal o amor entre dois homens ou duas mulheres. Recuem lá 30 ou 40 anos e vejam lá como estas representações, que surgem tão pomposas e veementes, se inverteram]. Da promiscuidade (os nossos intelectuais da direita já estão a saudar o regresso da ética à sexualidade, como se tivesse estado ausente). E por aí adiante. Numa concepção de regulação da vida social que se alastra às mais díspares dimensões, como a de nos dizerem que temos que guiar a 30 km à hora porque é mais seguro. E de nos proibirem de comprar rissóis porque não são saudáveis. 

Lutar contra o assédio sexual, contra a violência masculina machista é fundamental. Mas não implica refutar a democracia. E é por isso que este assunto é tão querido aos anti-democratas. O estranho é que tantos democratas o não percebam, se esqueçam das fronteiras que têm que defender. Umas por cansaço, enjoo e até revanchismo contra os morcões. Outros e outras porque lá dentro, lá bem dentro, apesar deles-mesmo, alimentam o seu querido duende ditador. E nós não temos que sofrer o assédio desses malvados duendes. Tratem lá deles. Ou seja, inibam-nos. 

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Assédio? (2)

por jpt, em 19.01.18

O Pedro Correia escreveu aqui: "O mais chocante é verificar que a presunção da inocência que reivindicamos para as restantes actividade ilícitas das sociedades contemporâneas estar ausente de todas as imputações de assédio sexual. Como bem alertou a insuspeita Margaret Atwood, o que lhe valeu um indignado coro de críticas. Os novos empestados ardem na fogueira sem lhes ser reconhecido o exercício do contraditório. Ou, se o fazem, ninguém os escuta. Porque estão condenados à partida. E não há recurso da sentença. Já vimos este filme. Noutras épocas e sob outras alegações. Acaba sempre mal, como sabemos." O João André riposta "A verdade é que me estou nas tintas ...". Como somos co-bloguistas e o DO é um sítio plácido apago o postal abrasivo que me apeteceu escrever. Mas como não me estou nas tintas - de facto isto é uma questão civilizacional - proponho a leitura deste texto de Alexandra Lucas Coelho

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Assédio?

por jpt, em 15.01.18

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida - o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e ... demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados - o professor que não "lança" a nota, que "chumba" a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o "poder dos homens" mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores. 

Ponho este arrazoado por causa do que vem sendo para aqui (e não só) dito sobre o "assédio sexual". E sobre o "fundamentalismo". Abaixo leio que os homens têm que assediar as mulheres para que haja reprodução. É uma patetice iletrada. Não há nada de animal nisto: as gatas têm cio e "assediam" os gatos. Dizer isso é apenas ignorância, remeter a questão para a léria de que os homens precisam das parceiras para se reproduzir. O corolário dessa ignorância é a naturalização da poliginia e a imoralização da poliandria. O que nós estamos treinados (cada vez menos, diga-se) é que sejam os homens a cortejar as mulheres e não o oposto, a nós homens o explícito, a elas mulheres o implícito. São códigos, muito do seu tempo, e em desaparecimento. O assédio não é explicitação do desejo, nem corte amorosa. É poder exercido: físico, económico, patronal, cultural, psicológico. Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua,  não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado. E perora. E qualquer tipo que tenha aprendido que não se vai para a cama com uma mulher (algo) inconsciente - aquela miserável cena do "só mais um copo" à rapariga -, com o livre-arbítrio reduzido, só pode desprezar quem assim pensa.

Debater isto não implica qualquer fundamentalismo, não há "fundamentalismos inevitáveis", como Teresa Ribeiro defende. Há tempos escrevi aqui sobre o Spacey, que é inserível neste eixo. E este moralismo - de facto, a "contra-reforma" da revolução sexual de há décadas - instala-se a torto e a direito. Sob um ideal de justiça popular, que transformou este movimento num verdadeiro #you too. Isto não é um "fundamentalismo inevitável", é uma justiça  popular perfidamente moralista.  A leitura do documento das "100 europeias", por tantas energúmenas torpemente reduzido a um lamento da "velha" e "reaccionária" Deneuve - a "estrela" que deu a cara ao manifesto pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, encabeçado por Beauvoir, e agora tratada como uma machista misógina caduca - é exemplo disso. É o corolário do mero radicalismo, confusionista. Porque, no seu moralismo pacóvio, censor, retira a questão do poder do centro da questão. Não há nada inevitável (a não a ser a morte ... e os impostos). Muito menos o fundamentalismo. Recusar e combater o assédio sexual é uma obrigação. Mas o assédio não é "roubar um beijo" (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), "encostar suavemente a mama ao antebraço alheio" (idem) - isso é explicitação da disponibilidade. Gestos que nós, homens, estamos treinados a saudar positivamente, mesmo que desinteressados ("he pá, ainda mexo", comenta para si-mesma a tal carcaça bloguista cinquentona). Um âmbito de gestos que, porventura, muitas mulheres entendem como prenúncio de outra agressividade, treinadas (socializadas) que foram de outra forma, e assim tornando-os incómodos. 

E o que muita gente diz, e o tal "manifesto das 100" explicita, é que o assédio não é isso, não é a mais ou menos desbragada corte, o "incómodo" acusável pela "justiça popular". E as fundamentalistas (e os fundamentalistas também) que tudo confundem, para se fazerem soar, não merecendo levar com "panos encharcados" merecem, com toda a certeza, oposição. 

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Se alguém lhe oferecer flores...

por Inês Pedrosa, em 19.11.16

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... isso significa que essa pessoa gosta de si, quer sair consigo, eventualmente iniciar um namoro consigo. Se a oferta das flores vier de um cônjuge que habitualmente não lhe faz essas surpresas, pode ser um acto de má-consciência na sequência de uma infidelidade. 

Oferecer flores não é "assédio sexual" - a não ser que quem oferece seja chefe de quem recebe as flores e que as ditas venham acompanhadas de uma intimação para um encontro a sós. Nesse caso, e pressupondo que  não sente qualquer interesse romântico pelo/a dito/a chefe (porque não é crime desenvolver um interesse pessoal por um superior hierárquico), a pessoa que se sente intimada deve declarar de imediato e tranquilamente o seu repúdio pela proposta e afirmar que tomará medidas se essa aproximação indesejada continuar.

Qualificar toda e qualquer tentativa de aproximação como "assédio sexual" é grave, porque desvaloriza a realidade - tão torturante e criminosa - do assédio sexual, favorecendo a sua continuidade e o aumento de vítimas.

Querer "comer", sexualmente falando, outra pessoa, é aquilo a que se chama "desejo", e uma das grandes alegrias da existência.

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