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Este filme acaba sempre mal

por Pedro Correia, em 19.01.18

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 Woody Allen, de 82 anos, durante a rodagem de A Rainy Day in New York, ainda por estrear

 

 

«O maior dos tormentos humanos é ser julgado sem lei.»

Camus

 

Nos dias que correm há novas "bruxas de Salem" lançadas às fogueiras mediáticas. A certos actores, como James Franco e Aziz Ansari, de nada valeu surgirem na recente cerimónia de distribuição dos Globos de Ouro vestidos de negro e emblema anti-assédio na lapela: também eles já estão a ser queimados.

O primeiro passou a engrossar a lista dos molestadores, com ou sem aspas, mal recebeu o Globo de Ouro para melhor actor em cinema. Já nem compareceu na noite da atribuição dos prémios da Crítica de Los Angeles, apesar de ter sido novamente designado melhor intérprete masculino pelo seu desempenho em Um Desastre de Artista.

Ansari, recém-galardoado como melhor actor televisivo pelo seu desempenho na série Master of None, não tardou também a ser alvo de acusações por parte de alguém que a acoberto do anonimato o apontou a dedo perante o mundo inteiro, alegando que com ele teve a "pior experiência alguma vez ocorrida com um homem".

Como tantos outros, passou de bestial a besta num abrir e fechar de olhos. Mas desta vez a sensação de injustiça foi tão manifesta que o caso está a dividir até algum feminismo mais radical.

 

Como não há coincidências, uma das enteadas de Woody Allen surgiu entretanto em directo na televisão revelando  "pormenores chocantes" do comportamento do cineasta, que se apressou a  desmentir as acusações sobre  alegados factos supostamente ocorridos há um quarto de século e então investigados não apenas pela imprensa mas pelas próprias autoridades, que ilibaram o realizador de qualquer suspeita.

De nada valeu o firme desmentido: a acusação soou muito mais alto. E logo um conjunto de actrizes e actores se apressou a confessar em público um enorme pecado, seguido do acto de contrição: trabalharam com o realizador mas juram não entrar em novos filmes dele per saecula saeculorum

Um desfile que tende a aumentar. Por enquanto integra Mira Sorvino, Ellen Page, Greta Gerwig, Colin Firth, Rebecca Hall, Thimotée Chalamet, Griffin Newman. A primeira, que deve o estrelato (e um Óscar) a Allen, fez publicar uma carta aberta em que se confessa "horrivelmente arrependida" de ter sido dirigida por ele em Poderosa Afrodite. Os três últimos anunciaram que entregarão a movimentos anti-assédio os salários recebidos pela participação no mais recente filme de Allen, A Rainy Day in New York, ainda por estrear.

Apenas Alec Baldwin se atreveu a sair em defesa do cineasta galardoado em 1978 com o Óscar de melhor realizador pelo seu filme Annie Hall - um dos mais subtis e ternos retratos de mulher que o cinema nos proporcionou. Louvo a coragem do actor: pelo rumo que as coisas levam, é um candidato ao desemprego em Hollywood, onde as opiniões politicamente incorrectas são alvo de duras punições.

 

O que mais me choca neste incessante caudal de tochas incendiárias não é o facto de todos os dias provocar novas vítimas, numa espécie de "maccartismo sexual", como alguém já lhe chamou com muito acerto. O mais chocante é verificar que a presunção da inocência que reivindicamos para as restantes actividade ilícitas das sociedades contemporâneas estar ausente de todas as imputações de assédio sexual. Como bem alertou a insuspeita Margaret Atwood, o que lhe valeu um indignado coro de críticas.

Os novos empestados ardem na fogueira sem lhes ser reconhecido o exercício do contraditório. Ou, se o fazem, ninguém os escuta. Porque estão condenados à partida. E não há recurso da sentença.

Já vimos este filme. Noutras épocas e sob outras alegações. Acaba sempre mal, como sabemos.

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Contra as novas censuras

por Pedro Correia, em 18.01.18

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 Mulher nua deitada de bruços (1917), de Egon Schiele

 

«Vamos queimar os livros de Sade? Vamos qualificar Leonardo da Vinci como artista pedófilo e apagar os seus quadros? Retirar Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me sem voz e inquieta-me perante o futuro das nossas sociedades.»

 

Catherine Deneuve, em carta publicada no Libération

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O video da semana mostra uma mulher que percorre as ruas de Nova Iorque durante 10 horas. A jovem mulher é abordada constantemente. Como a Fernanda Câncio sublinha, o que o vídeo evidencia é o carácter repetitivo, importunador, exasperante do "piropo". Mostra como sair à rua é, para qualquer mulher, um estado de alerta permanente, o de quem sabe que a qualquer momento pode ser abordada por um estranho com ofertas de sexo e sujeita a apreciações, mais ou menos alarves, sobre o seu aspeto. Esta parece ser uma descrição objectiva dos factos. Seria, portanto, de esperar que a partir deles se gerasse um amplo movimento de condenação das atitudes retratadas no video. E que essa condenação fosse consensual nos sectores à esquerda do espectro político, que reivindicam para si o património histórico da promoção dos direitos das mulheres. Surpreendentemente, nomeadamente nos EUA, é da própria esquerda que chegam vozes que questionam as conclusões aparentemente óbvias que resultam do video. O problema, ao que parece, reside no facto de a protagonista ser uma mulher branca. E de as abordagens filmadas serem quase sempre protagonizadas por homens de raça negra. Não tardaram vozes como a de Kristin Iverson que denuncia no video uma clara intenção de defender e proteger "a mulher branca inocente", isto é, a "estrutura social de poder existente". Rapidamente o argumento foi mais longe. E logo surgiu quem afirmasse que o video tem claros propósitos racistas. Dion Rabouin di-lo com todas as letras: há uma clara intenção de passar a ideia de que as mulheres brancas não estão a salvo de "sex-crazed black and brown men". Na escalada de argumentos, Aura Bogado refere um viés intencional no video: as filmagens teriam sido feitas deliberadamente em bairros em que os residentes são maioritariamente negros com o objectivo de perpetuar o mito de que estes são os responsáveis por todos os aspectos negativos da humanidade e que é preciso salvar a mulher branca. A solução seria, ao que parece, filmar um novo video com um elenco universal, em que a protagonista seria "a black trans woman". Mas houve quem fosse ainda mais longe. Emily Gould justifica as abordagens como sendo uma forma de grupos marginalizados ajustarem contas com quem (a estrutura social de poder branca existente) os condena a estarem à margem. As ondas de choque foram de tal forma intensas que o grupo Hollaback que promoveu a divulgação do video já veio a público reconhecer que este pode ter ferido a susceptibilidade de alguns sectores mais sensíveis. Como refere Charles Cooke na ampla resenha que faz sobre o assunto, o que subjaz à incomodidade provocada pelo video nestes sectores é a ideia, também tão cara da esquerda, de que os autores das abordagens são meras vítimas das circunstâncias e que foram forçados, pelas suas condições, a importunar uma mulher branca inocente. O problema é que a injustiça não se apresenta, na realidade, em silos estanques e segmentados. As camadas de injustiça sobrepõem-se, interpenetram-se e multiplicam-se. E essa esquerda que se esqueceu das grandes ideias gerais como a igualdade e cedeu ao apelo da apropriação da injustiça minoria a minoria, caso a caso, perdeu-se no seu próprio labirinto. Daí que lhe falte critério quando é confrontada com escolhas definitivas: radicalismo islâmico ou direito das mulheres. Radicalismo islâmico ou direito à orientação sexual? Direitos das mulheres (sejam elas brancas, baixas, altas ou negras) ou paternalismo para determinados comportamentos?

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