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Síndrome de Stendhal e tal

por Bandeira, em 27.01.17

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de... Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam 'nervos'; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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Konstantin Bessmertny

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.11.16

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"Descendente da terceira geração de colonos que, em 1907, se mudaram para o Extremo Oriente vindos das zonas ocidental e central do Império Russo", em 1992 desembarcou em Macau. Vinha de Vladivostok, onde estudara na Academia Estatal de Artes do Extremo Oriente e cumprira o serviço militar, do qual fora desmobilizado um ano após o anúncio da "Perestroika". Acabaria por se radicar no antigo território sob administração portuguesa, montou o seu atelier, instalou-se com a família e cresceria até se tornar no artista ímpar que hoje é. Ao dizê-lo sei que estou a tornar mais difícil para mim próprio a aquisição das suas obras, mas o seu talento exige que lhe seja dada a dimensão que merece.

Tive a sorte de conhecê-lo em meados da década de noventa do século passado e de um dia ficar com uma das suas telas, desde logo apaixonado pelo seu traço, pela sua cor e pela criatividade que constitui uma das suas imagens de marca e faz com que não me canse de lhe apreciar o trabalho e invejar a maestria. Mas, para além disso, o pintor é um homem livre, um homem de cultura e de carácter, qualidades que muito lhe aprecio. Sou, portanto, suspeito e pouco isento ao escrever estas linhas, o que confesso em nada me perturba porque considero que a qualidade da sua obra fará dele, seguramente, um dos mais incontornáveis pintores contemporâneos.

O trabalho multifacetado que desenvolveu ao longo dos anos está desde ontem em exposição no Museu de Arte de Macau e merece ser conhecido e divulgado. Bem sei que Konstantin está presente no Museu do Oriente (Lisboa), no Museu de Arte de Macau, que esteve na 52.ª edição da Bienal de Veneza, em representação de Macau, e que os seus trabalhos também podem ser apreciados no Museu de Arte de Cantão, em Hong Kong, em Xangai ou no Hotel Mandarim Oriental (Macau), entre outros locais, mas o que a exposição Ad Lib traz de novo é o facto de apresentar um retrato biográfico do autor e reunir um conjunto de 34 obras recentes que incluem pinturas, esculturas, instalações e vídeos, numa espécie de viagem pelo seu riquíssimo universo.

Como o próprio escreveu, as técnicas, os temas e os estilos que utiliza são muito diversos, "indo de projectos à produção de filmes", pelo que nunca foi fácil juntá-los sob um título único. Fácil ou difícil, confesso que não é coisa que me preocupe porque aquilo que é verdadeiramente importante é conhecer a obra de alguém cuja influência muito provavelmente só as próximas gerações estarão em condições de avaliar devidamente.

Recomendo, pois, a quem puder fazê-lo, que até 28 de Maio de 2017 demande o Museu de Arte de Macau e aprecie obras que, sendo um verdadeiro deleite para os olhos, nos questionam e nos obrigam a reflectir. E, já agora, quando lá forem não se esqueçam de obter um exemplar, se entretanto não esgotar, do surpreendente catálogo editado pelo Instituto Cultural e pelo Museu de Arte de Macau, e por cujo resultado foram responsáveis Oscar Ho, Don Cohn, António Conceição Júnior, Yao Jingming, Romi Lamba, Kristoffer Luczak, Mário Costa, Chan Hin Io, Gala Bessmertnaia, Max Bessmertnyi e Ricky Wong. Absolutamente a não perder.

 

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Lenine, o protótipo do ditador do século XX, tinha autores e compositores favoritos mas era um materialista demasiado rigoroso para se preocupar muito com a arte. Tinha pouca paciência para a avant-garde e uma vez irritou-se quando futuristas pintaram as árvores dos jardins Aleksandrovsky com as cores do Primeiro de Maio. Considerava a música um placebo burguês que escondia os sofrimentos da humanidade. Em conversa com Maxim Gorky, elogiou o poder de Beethoven, mas acrescentou: «Não posso ouvir música com muita frequência. Afecta os nervos, faz sentir vontade de dizer coisas estupidamente simpáticas e de afagar a cabeça das pessoas que conseguiram criar tamanha beleza, mesmo vivendo neste inferno.»

Alex Ross, The Rest is Noise: Listening to the Twentieth Century.

Edição Picador. Tradução minha.

 

(E agora dêem-me licença; vou assistir aos concertos das Noites Ritual, nos jardins do Palácio de Cristal.)

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O céu a seu dono

por Ana Vidal, em 23.07.16

"O Mike, como o tratam todos os que fazem parte desta história, morreu antes de pintar aquele teto, que projetou. Pintaram-no muitos por ele, como terá acontecido na Capela Sistina. Hoje, aquele é "o céu do Mike", que faz de Santa Isabel uma igreja a céu aberto, prodigiosamente pintado. A abóbada - aqueles agora 800 m2 pintados a 20 metros do chão - está terminada. Atrás do sacrário, está a maquete, essa sim ainda pintada por Biberstein."

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Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 27.05.16

 

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Costureiras, quadro de Querubim Lapa (1949)

 

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens"

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (95 anos), Albert Bertelsen (94 anos), Júlio Pomar (90 anos), Leon Kossoff (89 anos), Manuel Cargaleiro (89 anos), João Abel Manta (87 anos), Arnulf Rainer (86 anos), Jasper Johns (86 anos), Nikias Skapinakis (85 anos) e Frank Auerbach (85 anos).

 

Lembrei-me disto há dias, ao saber que o grande Querubim Lapa se despediu de nós, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

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Sem a loucura o que é o homem?

por Pedro Correia, em 19.05.16

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Por vezes alguns dos aspectos mais secundários de um quadro são os que o tornam mais significativo. Acontece isso no célebre O Grito, de Edvard Munch (1893), peça essencial da iconografia do nosso tempo. Vi pela primeira vez esta tela densa e misteriosa ainda criança, reproduzida num selo norueguês que me fascinou. Norge, lia-se nesse selo branco e azul, como atestado de proveniência. Mirei-o e remirei-o incessantemente, sem nada saber da arte de Munch nem da sua existência atribulada. Fascinou-me ao primeiro olhar: jamais vira – jamais vi – os abismos da mente humana captados de forma tão verosímil pelos caprichos de um pincel lançado numa espécie de liturgia do expressonismo. Há vida neste quadro. Vida transtornada, transfigurada, trepassada por uma dilacerante angústia existencial, indescritível por palavras.
Só vendo se percebe.

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De há cem anos para cá, multiplicaram-se as teorias sobre a origem deste ‘grito’ tão singular. Houve quem mencionasse a hipótese de um ataque de pânico que o artista transportaria para a sua tela, falou-se em ansiedade e neurose. Houve até quem arriscasse que tudo se terá devido às frequentes libações alcoólicas de Munch. Não faltaram as teses psicanalíticas, aludindo à sucessão de dramas na infância do pintor, que ficou órfão de mãe muito cedo e viu a irmã mais velha desaparecer de forma trágica.
Filho de médico, o artista noruguês (1863-1944) habituou-se a acompanhar o pai, em criança, a diversas visitas domiciliárias que lhe causariam um permanente assombro perante os abismos da doença e o rasto inevitável da morte.
É o próprio Munch que nos ajuda a desvendar o que terá ocorrido naquele fim de tarde de 1892 numa rua de Cristiânia [a actual Oslo]: “Caminhava com dois amigos. O sol, vermelho-sangue, descia no horizonte – e senti-me invadido por um sopro de tristeza. Parei, num cansaço de morte. Sobre o fiorde negro-azulado e a cidade caíam línguas de fogo. Os meus amigos prosseguiram – eu fiquei, tremendo de medo. Senti um grito infinito através da natureza. Senti como se conseguisse de facto escutar esse grito.”
Não tardou a fazer um esboço daquele que viria a tornar-se um dos quadros mais célebres de todos os tempos, cheio de linhas irregulares e convulsivas: terra, água e céu parecem atingidas pela mesma vaga demencial de sangue e fogo. A paleta de Munch é única. E a sua visão sombria da existência também. No rosto da figura principal – de algum modo um símbolo do mundo contemporâneo – estampa-se a “imagem primária do medo”, como acentuou o britânico Iain Zaczek, autor da obra The Collins Big Book of Art and Masterworks.

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Regresso ao princípio para acentuar um daqueles pormenores que fazem toda a diferença nos melhores quadros: as duas figuras de cartola que caminham impávidas na direcção oposta à da personagem principal. Elas – e só elas – nos elucidam de que tudo quanto ali vemos se passa apenas na mente perturbada do autor, estabelecendo um evidente contraste entre o que este imagina por sugestão de um pôr-de-sol e a realidade objectiva daquele plácido fim de tarde na capital norueguesa.
“Só podia ter sido pintado por um louco”, escreveu Munch, a lápis, numa das cópias deste quadro que lhe deu projecção universal. Um seu contemporâneo português, Fernando Pessoa, bem poderia responder-lhe nestes versos antológicos, adaptáveis a todas as estações da vida: “Sem a loucura o que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”

 

Outro quadro: Auto-Retrato com Cigarro, de Munch (1895). Tal como O Grito, pertence à colecção do Museu Munch, em Oslo.

 

Texto reeditado, assinalando a sua inclusão em Encontros, manual de Português do 11º ano da Porto Editora, elaborado pelas professoras Noémia Jorge, Cecília Aguiar e Inês Ribeiros, com revisão científica de Maria Antónia Coutinho - certificado para o ano lectivo 2016/17. Nas páginas 296-297, incluindo reprodução (não integral) do texto, questionário e ficha de leitura. Com menção expressa ao DELITO DE OPINIÃO, que agradeço.

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Vhils (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.03.16

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Num dia como este o seu trabalho ainda ressalta mais. Em Hong Kong, no Terraço do Cais 4, ali nas traseiras da Hong Kong Station e com Kowloon ao fundo. Inaugurou hoje às 19h e vai estar por aqui até dia 4 de Abril, com o apoio da HOCA Foundation. Os créditos das fotos pertencem ao António Trindade (CESL-ASIA), que me autorizou a partilhá-las com os leitores do Delito de Opinião.

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Vhils

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.03.16

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"Portuguese artist transforms Hong Kong tram into ‘Debris’ for a moving art experience". Mais notícias aqui

 

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Assemble vencem o Prémio Turner

por Tiago Mota Saraiva, em 08.12.15

 

Os assemble venceram o mais prestigiado (prémio de arquitectura) prémio de artes visuais* atribuído no Reino Unido. Os assemble, tal como tantos outros colectivos e ateliers que actuam pela Europa fora, demonstram a mais valia de um colectivo de arquitectura não ser um castelo de arquitectos, de que a arquitectura não é alheia às condições objectivas da realidade que a rodeia e que não é um acto apolítico.

Este prémio é uma forte machadada no muro que protege os zeladores de uma arquitectura conservadora e desligada da sociedade que, em Portugal, ainda encontra muitos fiéis.
 
A ler, no the guardian:
 

* conforme notado pelos leitores

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Ainda em tempo

por José Navarro de Andrade, em 06.07.15

Dados os recentes acontecimentos, ou "evoluções", como dramatizam os observadores, não consigo deixar de recordar esta fulminante, premonitória e já clássica, "Natureza Morta" de Sam Taylor Wood, em exposição na Tate Modern.

 

 

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A instalação...

por Helena Sacadura Cabral, em 13.06.15

Disseram-lhe que tinha de ir ver. Que era uma instalação belíssima. Manuela, que ambicionava ser uma mulher culta, foi. Não viu nada. Apenas uns ferros no meio de uma sala, que deviam ter ficado ali para serem arrumados. Saiu.

Mas voltou atrás para pedir ao empregado do museu que lhe dissesse onde estava a instalação. E o empregado apontou-lhe o monte de ferros no meio da sala. Ela educadamente agradeceu e sorriu. Estava mais culta...

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O estado da arte da Arte?

por Ana Lima, em 13.05.15

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 Cartoon

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A Europa rendida ao medo (3)

por Pedro Correia, em 28.01.15

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Museu londrino Victoria & Albert retira da sua galeria on line um poster da autoria de um artista iraniano representando o profeta Maomé. "A imagem foi removida do nosso banco de dados por motivos de segurança", justifica uma porta-voz do museu.

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A paixão segundo María

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.14

1347092384_0.jpgHá muito que é uma arte. Como disciplina da dança, do culto da estética, do movimento, da cor, da forma, o Flamengo, cujas origens remontarão a algures entres os séculos VII e IX, não precisa de promoção. A sedução pela forma e pela simplicidade são um testemunho da sua extraordinária capacidade para expor a carne, a sua volúpia e acomodação ao espectáculo. A Andaluzia é a sua pele, a sua energia, a afirmação da auto-regeneração que o mantém, e a nós, seus modestos amantes em permanente conúbio, numa saudável mancebia, que nos faz ser parte de todo o seu esplendor. A guitarra mostra-lhe o caminho, orienta-lhe os gestos, dá-lhe graça, numa estranha efemeridade que se prolonga no tempo, eternizando-se na memória depois das luzes se apagarem. Seja num poema de Lorca, na guitarra de Lucia, num filme de Saura, nas Bodas de Sangre do inesquecível Antonio Gadès e da salerosa Cristina Hoyos, o Flamenco como arte conseguiu ser sempre mais do que uma arte porque se tornou na recriação da vida. O que Pagés conseguiu com Utopia está para lá da arte, da própria recriação da vida. Na voluptuosidade das formas niemeyerianas, servido por um naipe de bailarinos e músicos de altíssimo calibre, majestosamente enquadrados pela voz de Ana Ramón e Juan de Mairena, nos quadros de Maria Pagès ele torna-se na recriação da própria arte, elevando a música a mais do que um excepcional sapateado. Não o tinha visto antes. Vi-o hoje. E o que vi foi o tablao andaluz despojado de superlativos para exportação. A arte em forma de gente numa inesgotável manifestação da Criação servida pelos seus servos. A paixão segundo María. A Pagés. Uma espécie de extensão de Deus em forma de mulher, servida como prenda num Natal que, força dos desígnios desse mesmo Deus, se tornou mais triste, infinitamente sombrio e cada vez mais distante. Até quando?

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Legado

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.10.14

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 Até 31/12/2014, na Signum Living Store, uma pequena mostra da arte de um dos mais geniais artistas da Lusofonia. Seria interessante saber quantas obras dele, e do seu irmão Carlos, já foram adquiridas por museus nacionais.

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Privilégios

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.10.14

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"As imagens que as fotografias de António Conceição Júnior nos propõem parecem ser uma resposta a essa inquietação metafísica relacionada com a dimensão cósmica do ser humano, dos seus territórios naturais e artificiais, o repositório dos seus deveres e das suas vaidades. Caso se tratasse de uma genérica inquietação, próxima do conceito budista de dukkha (geralmente traduzido - mal - como sofrimento, mas que estará mais perto de ansiedade, insatisfação), ondularíamos na ordem da cura. Felizmente essa inquietação transmuta-se, na e pela arte, em interrogações nómadas, em afirmação territorial, no desempenho de uma absoluta liberdade." - Carlos Morais José

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Doze obras-primas dos museus de França (12)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.07.14

Um pintor de cabeleira azul segurando a paleta na mão esquerda enquanto o modelo posa. Em rigor, este modelo nunca terá posado, bastando ao pintor a sua proximidade, a sua presença. O modelo era Jacqueline Roque, a última mulher do pintor. Picasso (1881-1973) cruzou-se com aquela com quem viria a casar-se em 1961 por altura do falecimento de Matisse. Quando este morreu Picasso terá dito que dele recebia em testamento os seus modelos, as "odaliscas". Quando casou com Jacqueline o corpo já não tinha a vitalidade e a força da juventude, pelo que o olhar e o pincel do pintor tornam-se nos substitutos da relação carnal. Entre o final de 1962 e 1963 dedicou a Jacqueline uma série de pinturas, entre as quais Le peintre et son modèle dans l'atelier (1963). Nesta fase, Picasso usa pinceladas largas, as cores são mais imprecisas e as formas simplificadas. A este propósito acabaria por confessar um dia: "levei toda a minha vida para saber desenhar como uma criança".  

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Doze obras-primas dos museus de França (11)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.07.14

Tal como acontece como muitos outros grandes senhores da arte, Fernand Léger (1881-1955) fez de tudo um pouco. Ao longo da sua vida foi decorador, ceramista, autor de vitrais, escultor, desenhador, ilustrador e até cartoonista. Parte da sua obra relativa ao período entre 1902 e 1908 foi destruída pelo próprio, sendo que terá sido a partir desse anos e na sequência de uma retrospectiva dedicada a Cézanne, que teve lugar em 1907, que começou a ser decisivamente influenciado por este, para depois se aproximar do cubismo de Picasso e Braque. A procura do equilíbrio entre as formas, as linhas e as cores passou a ser uma constante. As suas formas geométricas ganham autonomia e dinamismo no espaço que lhes é destinado. Isso é particularmente visível num tema caro aos impressionistas e que se impôs na obra de vários artistas do seu tempo. O circo surge como um precursor dos grandes espectáculos de massas. Favorecido pela revolução industrial aparece de uma forma ou de outra nas obras de Degas, de Toulouse-Lautrec, de Picasso, Matisse, Seurat e outros. O circo, como Léger, explicou, foi o acontecimento da sua infância e permitiu-lhe, bem como aos seus contemporâneos, estudar o ritmo, o movimento e a cor. Chagall diria que o circo preenchia as suas horas nocturnas, ocupando o centro do seu quarto, de onde passou para as telas. O Circo Médrano (1918) é um reflexo de tudo isso e da influência que teve nessa geração de pintores, do envolvimento das formas e da cor, em especial da dinâmica do movimento em pequenos fragmentos de um espectáculo popular e moderno. Posteriormente, Léger, que em 1940 se exilou em Nova Iorque, onde vem a descobrir o circo Barnum no Madison Square Garden, com todas as suas pistas e espectáculos em simultâneo, dedicaria mais algumas telas à temática do circo (La danseuse bleue, 1930, Le jongleur et les acrobates, 1943 e Les acrobates en gris, 1942-44). No entanto, o Circo Médrano, uma metáfora da vida, ficaria como uma das suas obras de referência, a que não faltam o trapezista, o palhaço, o cão amestrado ou as bancadas.

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Doze obras-primas dos museus de França (10)

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.07.14

 

Apresentado como Still life with a magnolia, esta obra de Henri Matisse (1869-1954) foi pintada em 1941, fazendo parte da colecção do Centro Pompidou. O uso livre da cor como caminho para a expressão da arte está aqui bem presente. A criação da arte através da cor recorrendo a formas simples e lineares que a realçassem. Figura de proa do fauvismo, grande precursor da arte moderna, considerado por alguns o mais francês de todos os pintores do século XX, teria influência decisiva no movimento de pintores abstraccionistas norte-americanos das décadas de cinquenta e sessenta. Mais do que um desenho, a cor seria uma libertação, de certa forma dando corpo a uma ideia que muitos anos depois Picasso retomaria numa outra perspectiva: "é preciso ver toda a vida como quando se era uma criança".  

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Doze obras-primas dos museus de França (9)

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.07.14

A apreensão do instante, a mulher amada levada pelo sonho, pelo silêncio e a melancolia, numa cena de profunda tranquilidade. Pierre Bonnard (1867-1947) deixou-nos aqui a "fotografia" de Marthe Bonnard, que nascera Boursin e depois se tornou Marthe de Méligny antes de acabar Bonnard, e por quem o pintor se apaixonou depois de a ter conhecido em circunstâncias pouco usuais. Pierre salvou Marthe de um acidente de autocarro e rapidamente se perdeu de amores pela mulher que se tornaria a sua musa e com quem casaria em 1925. O quadro, datado deste mesmo ano, faz parte de um conjunto de cerca de mil outros onde ela aparece, alguns deles nus verdadeiramente impressionantes ainda este ano expostos em L’Annonciade, Museu de Saint-Tropez, numa mostra dedicada aos nus que terminou no passado mês de Junho. Para se perceber a influência de Marthe na obra de Pierre Bonnard convém ter presente que o artista pintou cerca de quatro mil telas. Inserido por alguns já no movimento pós-impressionista, Bonard fez parte do chamado grupo de artistas experimentalistas, conhecido por Nabis, palavra derivada do hebraico "nebiim" que significava "profetas". Admiradores de Gauguin, o grupo incluía os nomes de Maurice Denis, Paul Sérusier, Paul Ranson, Édouard Vuillard e Ker Xavier Roussel. Bonnard tornar-se-ia mais tarde no líder do grupo dos intimistas. O corpete vermelho, conhecido como Le corsage rouge, é considerado um dos expoentes da sua versátil obra. O artista pinta a realidade como a sente, já não como ela surge aos seus olhos.   

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Doze obras-primas dos museus de França (8)

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.07.14

Este quadro resulta de uma encomenda ao pintor Charles Le Brun (1619-1690) pelo retratado, que o declarou "o maior pintor de França do século XVII". Nunca um pintor gozou de tamanha resplandecência na história de França. Louis XIV, Roi de France et de Navarre, é a imagem de "L´État c´est moi". O pai morrera em 1643 quando o jovem príncipe tinha apenas 5 anos. Após a morte de Luís XIII foi sua mãe, Ana de Áustria, quem apoiada pelo antigo ministro do Rei, o célebre Cardeal Mazarin, assumiu a regência até que o novo soberano atingisse a maioridade real aos 13 anos. O monarca tinha nesta altura 23 anos. O quadro faz parte da vontade de afirmação do soberano e nele ressalta a armadura com a flor-de-lis e o cordão azul da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo. A imagem do rei pretende transmitir a marca de um chefe respeitado, corajoso e grandioso, de um homem senhor de si que quer afirmar o seu poder perante os súbditos. O quadro que integra a Colecção do Château de Versailles, por depósito do Museu do Louvre, estará em Macau até 7 de Setembro.

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Doze obras-primas dos museus de França (7)

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.07.14

O ar livre, o jardim, as pessoas tal como elas são em cenas do quotidiano. Tal como Monet, Degas, Sisley ou Pissarro, Auguste Renoir (1841-1919), foi um dos pintores inseridos na corrente do impressionismo. Sendo senhor de uma técnica que combinava o que aprendera no seu anterior ofício de porcelanista com os ensinamentos impressionistas dos seus contemporâneos e os técnicas tradicionais de utilização das tintas, o quadro Le balançoire (1876) é um pedaço da realidade do seu tempo. A imagem aqui reproduzida não permite apreciar a efusão da cor pela tela, o traço rápido do pincel, o branco majestoso do vestido, os rostos límpidos e serenos, os raios de sol que atravessam a copa das árvores e deixam o chão pintalgado. A paz, a serenidade e a tranquilidade libertam-se da tela para nos invadirem e transmitirem uma imensa sensação de doçura, tão bem expressa na imagem da menina junto à árvore.

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Doze obras-primas dos museus de França (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.14

Quatro anos depois de ter chegado a Paris, o grande mestre do impressionismo Claude Monet pintou La Rue de Montorgueil à Paris, Fête du 30 Juin de 1878. "Aqui, o ponto de vista e a técnica adoptados pelo pintor são notáveis. No eixo da rua e em altura, representa a totalidade do espectáculo. O alinhamento das fachadas e das bandeiras cria uma perspectiva que guia o olhar ao longe. Para representar a multidão, o céu ou as bandeiras, o pintor aplica sobre a tela diversas pequenas pinceladas de cor. Não existe qualquer linha a formar os contornos ou os detalhes. De perto, tudo parece desintegrado. Mas, observados ao longe, a cor e o contraste recompõem perfeitamente uma impressão da realidade". A rua, como escreveu o pintor, "estava negra de gente" e ele viu uma varanda, a que subiu para pintar.

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Doze obras-primas dos museus de França (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.14

Esea quadro de Adolph Ulrick Wertmüller (1751-1811), que faz parte da Colecção do Château de Versailles, está datado de 1788. É considerado um dos mais belos quadros de Marie-Antoinette, Rainha de França, nos seus 33 anos. Apesar de no meu conceito estético e de beleza o modelo ficar muito a desejar, os detalhes do rosto e os olhos, dizem os entendidos, terão sido captados na perfeição, deles emanando todo o seu charme. Mas como o que interessa é a qualidade da obra e o prodígio do traço, da cor e da luz, registe-se que a senhora é apresentada envergando uma jaqueta própria para montar a cavalo de tipo inglês e um chapéu à crioula, sinais do seu interesse pela moda e pelo luxo, que a tornaria tão impopular numa altura em que o seu povo vivia na miséria. Seria executada cinco anos depois.

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Doze obras-primas dos museus de França (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.07.14

Recortado na luz e na sombra, a imagem do apóstolo que só acreditou na ressurreição de Cristo quando lhe tocou na carne, regista o Santo como uma pessoa normal, rodeada pela sobriedade, como um homem cuja vida é igual à dos outros. Pintado por volta de 1663, São Tomás com uma lança é um produto da arte de Georges de La Tour, que viveu entre 1593 e 1652. O quadro faz parte da sua série de pinturas dedicadas aos apóstolos. Tem a particularidade de estar assinado e ter no canto superior direito uma inscrição em latim dando conta de que foi o próprio quem o pintou. A lança é um atributo tradicional da figura de S. Tomás, mas neste caso evocará a sua morte na Índia, segundo reza a lenda em Mylapore (Chennai), no estado de Tamil Nadu. Na sua mão esquerda estão os Evangelhos, essenciais para a divulgação da palavra de Deus.   

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Doze obras-primas dos museus de França (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.14

Este é um quadro que impressiona pelo pormenor do desenho e a intensidade das sombras nas vestes do retratado. Trata-se do Retrato de Francisco I, Rei de França, quadro pintado por volta de 1530 da autoria de Jean Clouet (1480-1540). Famoso por ter sido um amante da arte e um dos mecenas do seu tempo,o rei foi pintado no Castelo de Fontainebleau. Vestido à italiana, sem os atributos da função, o quadro reúne a precisão do realismo flamengo com a influência dos pintores italianos da Renascença. Ao peito, o colar da Ordem de S. Miguel, da qual era o grande mestre, é de um rigor inexcedível.

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Doze obras-primas dos museus de França (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.06.14

A paixão entre um homem e uma mulher foi sempre motivo de inspiração para qualquer artista. Da poesia à música, passando pela literatura e a pintura. O Ferrolho, de Jean Honoré Fragonard (1732-1806), é mais um desses exemplos. Pintado por volta de 1777, depois de uma segunda viagem a Itália e do rompimento do pintor com Madame du Barry, a amante favorita de Luís XV, esta tela retrata uma cena de paixão e reflecte as influências e a admiração que o artista terá tido pelos mestres do Barroco (Rubens) e da Escola Holandesa (Rembrandt), inaugurando um novo estilo. As cores, em tons pastel, típicas do Rococó, apresentam-se neste quadro como uma ponte entre as cores fortes do Barroco e o período neoclássico. Para alguns tratar-se-ia de uma resposta a Viens, a favor de quem o pintor perdeu o apoio de Madame du Barry. O quadro é atravessado por uma linha imaginária que liga o ferrolho à maçã, não se percebendo se a cena antecede ou sucede ao encontro entre os amantes. Se por um lado se fica com a sensação de que o ferrolho está a ser corrido, por outro verifica-se que as almofadas estão em desalinho. Um quadro que há muitos anos não via e que voltou a impressionar-me pela cor e a luz que o atravessam.   

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Doze obras-primas dos museus de França (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.06.14

Da autoria de Fraçois Boucher, pintor que viveu entre 1703 e 1770, "Diana saindo do banho" foi pintado em 1742 e mostra a deusa, depois de uma caçada e de um banho retemperador, a preparar-se para se arranjar enquanto segura um colar de pérolas. A seu lado uma ninfa que a ajuda. O quadro é todo ele um hino à feminilidade e à beleza da mulher, sendo Diana apresentada em toda a sua graça e sensualidade, em comunhão com a natureza. A luz vem toda da esquerda e a profundidade do azul faz realçar ainda mais a frescura e brancura da pele da deusa e o verde da vegetação. Ao seu lado, no chão, os troféus da caçada.

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arte

por Patrícia Reis, em 16.06.14

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Paula Rego meets Jesus

por Rui Rocha, em 24.05.14

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Um festival da diplomacia cultural dirigido aos sentidos

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.05.14

Em 1993, o Consulado Geral de França em Hong Kong e Macau deu início a um conjunto de iniciativas que se têm vindo a repetir anualmente e são actualmente conhecidas como "O Maio Francês". Em rigor, Le French May é bem mais do que um simples festival porque não só não se esgota em Maio como consegue prolongar-se por todo o mês de Junho, com extensão, num caso pelo menos, até Setembro, congregando exposições, cinema, música e gastronomia. Este ano terá lugar a vigésima segunda edição e o que aí vem é um verdadeiro festim para os sentidos, celebrando os 50 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre a França e a China.

Deixo aqui para os leitores do DO uma pequena ideia dos eventos, mas gostaria em especial de sublinhar a exposição de doze obras primas da pintura mundial, que estará patente no Museu de Arte de Macau, e que justificou o maior seguro alguma vez feito por estas bandas, isto é, qualquer coisa como o equivalente a € 300.000.000,00 (trezentos milhões de euros). Entre as obras que estarão à vista de quem nisso tiver interesses sublinho Le Balançoire, de Renoir, Le Verrou, de Fragonard, o retrato de Francisco I, de Clouet, e Pintor e Modelo em Estúdio, de Pablo Picasso. As obras virão directamente para Macau do Museu D'Orsay, do Louvre, de Versailles e do Centro Pompidou. 

 

Para quem é apreciador de Rameau, tantas vezes esquecido e aqui há uns anos justamente homenageado no CCB, num programa da Festa da Música, destaco  Le Concert d'Astrée com Emmanuelle Haïm, a soprano Katherine Watson e o tenor Anders Dhalin. Por ser uma das minhas obras favoritas, espero que seja possível escutar Rondeau des Indes Galantes. Mas também virão Philippe Jaroussky & The Venice Baroque Orchestra, Roland Dyens, O Fausto, de Gonot, numa co-produção da Ópera de Nice Côte d’Azur, da Ópera de Avignon e do Théâtre de Saint-Étienne, dirigida por Paul-Emile Fourny, Sons d'Auvergne pela Filarmónica de Hong Kong e a mezzo-soprano Clara Mouriz.

Muito mais haveria a dizer, como haverá depois a contar, mas convém que para os lados da Gomes Teixeira e das Necessidades se reflectisse também sobre se não fará mais sentido uma ofensiva da nossa diplomacia cultural, em larga escala, que atrás dela levará a diplomacia económica, do que andar a vender apartamentos com títulos de residência acoplados, a preços inflacionados e sem verdadeira criação de riqueza.

De qualquer modo, deixando estas considerações para outra altura, se o leitor está a começar a planear as suas férias de Verão, tem uma deslocação prevista para estas bandas ou está simplesmente indeciso, talvez não fosse mau começar a pensar na hipótese de aproveitar a viagem e gozar os prazeres de Le French May. Ao contrário de outras saídas, em que o risco é nosso e a gestão por conta dos outros, esta seria uma saída limpinha. Pode ter a certeza de que tudo aquilo que puder ler, ver, ouvir e degustar por estes lados, nunca ninguém lhe poderá tirar.

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De todas as discussões possíveis, política, futebol, costumes, há uma e uma só de que qualquer tipo sensato foge como Jorge Jesus das regras gramaticais elementares. Trata-se, já adivinharam, de qualquer tentativa de estabelecer critérios que permitam decidir se determinada produção ou objecto é ou não uma obra de arte. Mas há momentos em que é preciso arriscar. E não é todos os dias que um objecto de discussão deste calado dá à costa. Costa, o presidente da edilidade lisboeta, como Gepeto dentro da barriga da baleia, já teve oportunidade de se pronunciar afirmando que esta é uma oportunidade única de viajar dentro de uma obra de arte. Aconselha todavia a prudência que avancemos um pouco mais devagar, que os cacilheiros não se fizeram para grandes velocidades. Ora vejamos. Um cacilheiro, este cacilheiro, dificilmente poderia ser considerado uma obra de arte no sentido clássico. Mas as coisas evoluem e devemos a nós próprios a obrigação de não nos tornarmos uns completos botas de elástico. Arejemos pois mesmo os cantos mais recônditos das nossas mentes. E admitamos o passo seguinte.  O de saber se este cacilheiro tem os requisitos mínimos que parece serem exigidos às obras de arte nos nossos dias (notaram por certo a elegância com que evito os termos moderna ou contemporânea e outras designações do mesmo calibre). Este cacilheiro cumpre, isso é certo, a regra da transversalidade dos suportes: qualquer coisa serve para fazer arte, desde atacadores de sapatos até cafeteiras. Por outro lado, responde também ao imperativo da diluição dos significados inteligíveis. Na verdade, caríssimos, hoje em dia um bom indício de que estamos perante uma obra de arte resulta de existir um catálogo, um guia, uma tabuleta, um jornalista, um Presidente de Câmara vá, que nos diga que aquilo é de facto uma obra de arte, conclusão a que não chegaríamos simplesmente olhando para ela. Em decorrência, verifica-se também a tendência nihilista que toda a produção artística contemp... (raios, quase que caía) deve apresentar: é desejável que o objecto não se possa enquadrar em nenhuma referência sólida ou padrão estético. Da mesma maneira, este cacilheiro cumpre integralmente o desígnio da obliteração da busca do belo que contaminava a arte clássica. Ainda assim, e apesar de todos estes indicadores apontarem para estarmos perante uma obra de arte no sentido modern... (irra, que foi quase), o certo é que lhe falta ainda qualquer coisa. Falta-lhe, como poderei dizer, o sentido do efémero que por estes dias é absolutamente indispensável. Isto é, este cacilheiro não é ainda uma obra de arte, mas pode bem vir a sê-lo. Basta torná-lo perecível. Para que este cacilheiro possa ser considerado um objecto inquestionavelmente artístico é preciso afundá-lo.

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Crucificações

por José Navarro de Andrade, em 18.04.14

Marc Chagal, "Golgotha", 1912 

Fragment of a Crucifixion.jpg

 Francis Bacon, "Fragment of a crucifixion", 1950 


 Léon Ferrari, "Western-Christian Civilization", 1965 


 Chris Burden, "Trans fixed", 1974 


Hughie O'Donoghue, "Blue crucifixion", 1993-2002


 Bernard Pras, "Christ", 2002


Andrés Garcia Ibanez, "El Cristo de la Muerte", 2003



David Mach, "Die harder", 2010

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A família inventada

por Ana Lima, em 25.03.14

 

Quantas de nós, ao longo da vida, não ouvimos já perguntas do género: "Então, quando é que te casas?" Ou a variante: "Então quando é que te casas novamente?" E a questão eterna: "Então quando é que resolves ter um bebé?"

Apesar de as expectativas acerca do papel da mulher na sociedade terem vindo a sofrer alterações ao longo do tempo, ainda se assume, com frequência, que a realização plena das aspirações femininas se prende com a vida familiar estável à volta de um casamento "feliz" e dos filhos que dele resultarem.

Cansada de ouvir as tais perguntas, a artista Suzanne Heintz resolveu brincar com o assunto e criar, artificialmente, uma família que responda ao estereótipo da mulher feliz americana. Para tal, comprou dois manequins que interpretam, nas fotografias encenadas, o marido e a filha “perfeitos”.

O projecto "Life once removed" (que podem acompanhar aqui) inclui fotografias do quotidiano, dos momentos festivos, de férias familiares.

Pelo humor que demonstra e pelo seu significado parece-me um trabalho muito interessante. Claro que uma interpretação mais psicanalítica da obra poderá dar-lhe uma outra perspectiva. Mas fico-me apenas pela ideia e pela sua concretização que, só por si, já têm uma grande força.

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A vida é um romance

por José Navarro de Andrade, em 03.03.14

 

O pior vem sempre depois, quando os epígonos radicalizam as ideias do mestre, procurando afirmar-se entre si nessa tresleitura. Foi o caso do noveau roman que acabou estilhaçado às mãos dos desconstrutores do discurso, desvitalizando-o irremediavelmente até se transformar na peça de museu que é hoje.

Com o noveau roman caminhou Alain Resnais no início e se os seus filmes sobreviveram ao despautério tal se deve à sua crença na narrativa. Uma narrativa que se vai pensando, à maneira kantiana, não é forçosamente uma narrativa que vai estiolando. E a prova ficou nos magníficos “Hiroshima mon amour” (com argumento de Margueritte Duras) ou em “L’Anée dernière à Marienbad" (com Robbe-Grillet). Estes filmes mantêm hoje uma doce frescura porque, tal como Resnais mostrou depois, acreditam no cinema.

E o dínamo desta crença terá sido a ironia (amável, não a jocosa), o que vem demonstrado em “Providence” (1977), em que a vaga e acintosa memória de um velho recapitula a sua vida, e em “Mon Oncle d’Amerique” (1980), que passa ao cinema os enredos da psicologia evolucionista de Henri Laborit. Em ambos os filmes o que sucede verdadeiramente é o nosso prazer em sermos enganados por uma narrativa, como se fossemos uns pobres James Stewart atrás da Kim Novak de "Vertigo".

Bastariam estas delicadas e muito prazenteiras filigranas para acalentar Alain Resnais na memória. Vai uma aposta como daqui a 50 anos ainda estará vivo?  

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A espantosa longevidade dos pintores

por Pedro Correia, em 12.12.13

Nadir Afonso numa das suas exposições

 

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens"

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (93 anos), Albert Bertelsen (92 anos), Júlio Pomar (87 anos), Leon Kossoff (87 anos), Manuel Cargaleiro (86 anos), João Abel Manta (85 anos), Carlos Calvet (85 anos), Arnulf Rainer (84 anos), Jasper Jones (83 anos), Nikias Skapinakis (82 anos) e Frank Auerbach (82 anos).

 

Lembrei-me disto ontem ao saber que o grande Nadir Afonso se despediu de nós, aos 93 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele levou muito tempo a tornar-se jovem. Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

 

  Avenida dos Aliados, Porto (1943), de Nadir Afonso

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Um chinelo no palácio

por José Navarro de Andrade, em 16.04.13

Maurizio Cattelan

Takashi Myrakami

 

Nunca se chega tarde a uma exposição que ainda tem as portas abertas. Façamos, então, bicha para entrar no Palácio da Ajuda, a ver o que por lá fez Joana Vasconcelos (JV).

E o que ela faz parece desagradar em partes iguais a pólos contrários. Os mais recuados que ao fim de quase um século de transfiguração ainda vêem a arte como um gesto virtuoso e idealista (consumado na deliciosa expressão “isto até uma criança fazia”) e os “vanguardistas” que olham para a rutilância e a “facilidade” (é só aspas…) de JV, enfim o seu apelo não-crítico ou pseudo-crítico, de sobrolho franzido e dedo denunciador. Em ambos os casos, em vez de se ficarem pelo singelo e humilde gosto/não gosto, que é sempre a melhor e mais silenciosa maneira de fruir as coisas, os irascíveis despejam razões quase sempre pouco racionais e análises quase sempre repletas de meras opiniões judicativas, para exibirem o seu desapego, dir-se-ia desassossego, face ao trabalho de JV.

Para todos os efeitos, é um crédito mínimo de JV o de reconhecidamente integrar e ser um expoente de uma fileira de artistas contemporâneas que levaram à risca o conceito de uma arte “popular e de massas”. Desígnio que foi tão querido ao neo-realismo (com um lastro diametralmente oposto, convenhamos) e tão magistralmente executada por Andy Warhol, o mestre supremo da ambiguidade que até à morte deixou por decidir se era um génio ou um imbecil, de tal modo tudo nele resultava impenetrável – um “idiot savant”, em conclusão.

Longe vão os tempos em que André Breton cunhou com o nome de Salvador Dali o anagrama “avida dollars”, estigmatizando o seu comercialismo e a sua indiferença às grandes causas do século, num gesto se calhar ultrapassado e desmentido pelo tempo, mas que o establishment da crítica Benjaminiana ainda hoje teme reconsiderar. Indiretamente essa desforra será perpetrada pelos trabalhos de JV, de Damien Hirst, de Maurizio Cattelan (o “provocador gratuito” que respondeu à encomenda da Bolsa de Milão esculpindo um punho com o dedo do meio levantado) ou de Takashi Murakami, que fez com as suas figuras ao estilo “manga” uma linha de produção estética, capaz de curto-circuitar a ideia de raridade em arte.

Não deixa de ser assinalável que no curto período de um século Portugal tenha saído da sua histórica irrelevância artística (salvo as raríssimas excepções que confirmam a regra) com os nomes de Amadeo Souza Cardoso, Vieira da Silva, Paula Rego e agora JV, a única do lote que (ainda) não é estrangeirada.

Sigamos para bingo.

 

 

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Como sempre foi

por José Navarro de Andrade, em 27.03.13

Karl Theodore acumulava títulos, tanto como nos seus celeiros se amontoava o trigo, oiro da terra. Kurfürst Karl Theodor von der Pfalz e Kurfürst von Bayern, o que trocado por miúdos leigos e lusos dir-se-á Duque da Baviera e Grande Eleitor do Palatinado do Reno – um dos mais notáveis Príncipes-Eleitores do Sacro Império Romano.

De tanto potencial e poder resultou uma figura por demais dada às artes – patrono das de palco, das ornamentais e das filosóficas, famoso amigo de Voltaire – e a essoutras artes da caça, tanto da grossa do bosque como da fina e feminil de salão. Descreviam-no portanto como um diletante, sem vontade política, preguiçoso e egoísta, rodeado de bastardos, tão prolíficos que deles nem tinha vagar para decorar os nomes.

Em 1763 a pintora Anna Dorothea Therbusch, píncaro do Rococó germânico, e que esplêndido de volutas e panejamentos ele foi, talvez sem igual, fixou a imortalidade de Karl Theodore a óleo, preservado hoje no museu de Mannheim.

Vem este portento a propósito de uma comparação. 13 anos antes o preciso Thomas Gainsborough havia retratato Mr. and Mrs. Andrews. O casal encosta-se a um canto da tela para que a maior área pictórica registe a extensão dos seus domínios. O Cavalheiro confirma o seu poderio com espingarda e cão, símbolos do ócio senhorial, e para que não restassem dúvidas, encosta-se sobranceiramente com displicência e de perna traçada, ao cadeirão onde posa a sua hirta Senhora.

 

 Robert Andrews era parte da gentry rural inglesa, o que não coibiu seu pai de ter ampliado a fortuna com generosos juros de empréstimos financeiros e no comércio com as colónias, para o qual dispunha de uma frota naval. Em 1748 Robert desposou Frances Mary Carter que trouxe no dote as propriedades de Aubrey, à frente das quais ambos posam. O pai de Frances, também ele era um industrial têxtil que prudentemente converteria o capital em terras.

Duas Europas em contraste tão exposto que o podemos ver explicado em dois quadros. Uma Europa até hoje pouco alterada desde esta segunda metade do séc. XVIII, no dealbar do Iluminismo e das Revoluções .

E Portugal?

Portugal na mesma, como se pode atestar no pobríssimo retrato de D. Lourenço de Lencastre, Marquês de Minas e Conde do Prado pelo casamento, muita grandeza porém muito paroquial, oiros brasileiros mas benzeduras de vilão. Obra do sofrível Vieira Lusitano, a mão direita de Lourenço será igual à de Karl, a fazer um gesto que sublinha o óbvio poderio, mas na esquerda, em vez da arma de fogo em descanso blasée de Andrews, olhem-na toda pimpona de canos para o ar. Ao peito, nem os arminhos teutónicos ou a casaca mercantil do inglês; ao baú dos avoengos há-de ter ido vasculhar a armadura negra de pretéritos heroísmos, reclamados como seus por mera infusão sanguínea.

Já éramos tão poucochinhos naqueles dias.  

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Vida e arte

por José António Abreu, em 04.03.13

Procurar resposta à velha questão de saber se a arte reflecte a vida ou a vida imita a arte é pouco menos que inútil. No fundo, talvez seja apenas necessário aceitar dois pontos de contacto entre vida e arte:

- Ambas têm o significado que se quiser atribuir-lhes.

- Em ambas é frequentemente preferível não o procurar.

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Brevíssima resenha de Portugal (aprox. 1973-2013)

por José Navarro de Andrade, em 09.01.13

Alfredo Cunha 

 

 Alfredo Cunha


Nuno Calvet, 1984


Augusto Alves da Silva, "Ferrari", 1999  

 

Manuel Roberto, 2004  

 

Lara Jacinto, 2012

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Então não se está mesmo a ver?

por José Navarro de Andrade, em 29.11.12

Jackson Pollock, "Number 8", 1949

 

A arte contemporânea é difícil.

Talvez esta dificuldade tenha começado a sério com Jackson Pollock cujo trabalho consistia resumidamente em atirar com pinceladas de tinta contra a tela e deixar que ela escorresse. Para complicar vieram críticos dizer que se tratava de gestualismo, elaborando teses sobre as maravilhas dos resultados. E mais bizarro ainda, os seus quadros começaram a valer milhões e são disputados por todos os museus.

Perante isto uma pessoa tende a pensar três coisas: 1) que também eu sou capaz de fazer isto; 2) o que quer isto dizer? (porque as coisas nunca são o que são e só somos espertos se percebermos o que está por detrás delas); 3) que é evidente haver um sistema, mais ou menos perverso, feito de galeristas, colecionadores, críticos, museus e leiloeiros, que promove e consagra uns artistas e ignora outros, quando parece não haver qualquer distinção entre os “bons” e os “maus”.

A arte contemporânea é difícil porque só de olhar para ela não conseguimos discriminar o génio da impostura. E quando chegamos ao capítulo das “instalações” ou das “performances” a confusão aumenta desmesuradamente. Por exemplo, a não ser pelo nome dos envolvidos (artistas e patrocinadores) ou pelo volume dos recursos disponíveis, como haveremos de diferenciar qualitativamente isto (aplausos) disto (vaias)?

Por isso a maior dificuldade da arte contemporânea foi posta do lado do espectador não do artista. Até porque, como se sabe, o bom-gosto foi a coisa mais bem repartida pela humanidade, pois cada um está muito satisfeito com a parte que lhe coube. Como evitar a tentação da chacota? Como pode alguém não se indignar pela maneira como “eles” gastam o nosso dinheiro nestas coisas? Como não ver que tudo não passa de um bando de parasitas e oportunistas? Como não ter a certeza que estes gajos andam a gozar connosco?

Há uma forma de tentar resolver o problema só que é talvez tão difícil como a arte contemporânea:

Deixar-se intrigar, o que implica não ficar muito agarradinho às certezas adquiridas; procurar cultivar-se, o que obriga a ver, ler, discutir, ouvir, interrogar – uma trabalheira; suspender o juízo, duvidar dele, até que saiba um pouco mais.

E ainda assim a arte contemporânea continua a ser muito difícil.

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Ars mortis II

por José Navarro de Andrade, em 01.11.12

Um retrato é a forma de perpetuar a presença de uma pessoa - é, em si, um desafio à morte.

Bem pode ter sido este o pressuposto de Walter Schels e de Beatte Lakota, (ele fotógrafo, ela editora da secção de ciência da Der Spiegel) ao organizarem em 2008 a exposição “Noch mal leben” (“Viver novamente”). Era propósito fotografar de cada pessoa um momento terminal em vida, e um primeiro momento após a morte, e colocar os dois instantes frente a frente. Frágil e dificílima proposta, que poderia ser subvertida pelo pudor e pela elegância, ambos grandes inimigos da verdade, tanto ou mais do que a crueza, porque esta, ao menos, procura o excesso e não as balizas da moral.

O resultado foi, no mínimo eloquente no seu delicado silêncio, e dele dir-se-ia que resulta uma afirmação capaz de pôr em causa um dos mais graves conceitos da nossa civilização: um rosto humano preserva toda a sua dignidade, mesmo depois de ter sido abandonado pela alma.

  

Beate Taube, 44 anos

1ª foto: 16.01.04 ; morte: 10.03.04

 Heiner Schmitz, 52 anos

1ª foto: 19.11.03 ; morte: 14.12.03

 

Jannik Boehmfeld, 6 anos

1ªfoto: 10.01.04 ; morte: 11.01.04

2_14_2.jpg 

Michael Lauermann, 56 anos

1ª foto: 11.01.03 ; morte: 14.01.03

 

 

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Ars Mortis

por José Navarro de Andrade, em 31.10.12

Excluímos a morte dos nossos cálculos existenciais como se ela fosse um acidente. Tratando-se de uma inconveniência e um imponderável, incómoda aos negócios correntes que todos os dias temos que levar adiante, ganhámos-lhe nojo e passámos a considerar como obscena a sua exposição. Isto é uma atitude eminentemente europeia, quase sem equivalente noutras culturas. Uma explicação apressada e duvidosa para isto, como o são todas de índole psico-socio-históricas, poderia recordar o facto de o Velho Continente ter promovido durante o séc.XX, um par de guerras e de regimes que dizimaram cerca de 100 milhões de seres humanos e que esses fantasmas ainda hoje nos estigmatizam.

Mas nem sempre foi assim.

O nascimento da fotografia, entre as várias maravilhas que proporcionou, contou-se a de ter tornado acessível a toda a gente algo que até então estava reservado aos aristocratas – o retrato. Quando só preocupava a linhagem, o retrato era uma necessidade exclusiva de quem tinha uma genealogia a defender, mais os direitos e os haveres que ela entregava. Mas quando começou a surgir a ideia de família – essa invenção burguesa – todos os entes se tornavam queridos aos descendentes e constituíam a sua memória particular. Mas o retrato mantinha a sua aura, como um acto cerimonioso, dispendioso, logo parcimonioso. Por isso, muitas vezes recorreu-se a ele literalmente in extremis. Foram então voga os retratos fotográfico post-mortem em que os cadáveres do familiares acabados de falecer, quase sempre inopinadamente, eram postos em pose com os restantes membros da família para um derradeiro memento.

Abaixo, fica uma colecção destes instantâneos, que às almas afligidas de hoje poderão parecer um pouco tétricos, mas que um espírito aberto verá neles ternura, apego e uma ponta de antecipadas saudades.

 

 

 
 

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Aula de culinária

por José Navarro de Andrade, em 27.10.12

Pega-se em 1/3 da magnífica aura do grande dueto:

Gilbert_and_George_normal.jpg 

 Gilbert & George

 

Toma-se como estilo 2/3 da platitude deste senhor:

Alex Katz, "Edith and Rudy", 1957 

 

Tempera-se com opção ideológica:

 

Ratifica-se com esta referência:

David Hockney, "Mr. and mrs. Clark and Percy", 1970-1971 

 

Et voilá! Está feito o pastiche.

 

Sara & André, "Encontro de Sara com André", 2012

 

Serve-se polvilhado com jargão de Adorno em pedaços:

"Os artistas que integram a exposição trabalham a inacessibilidade da própria dupla enquanto retrato-fenómeno de uma vanguarda improvável ou impossível."

 

Infelizmente café requentado perde o sabor.

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Bom gosto

por José Navarro de Andrade, em 12.10.12

 

Hoje em dia não há arte capaz de chocar as consciências, é uma afirmação sempre proferida com um lágrima de saudades pelos tempos do urinol de Duchamp, das latas de sopa de Warhol ou dos nús disformes de Freud – estes bem recentes, por sinal.

Damien Hirst é um dos mais controversos artistas plásticos contemporâneos, mas precisamente por isso acusam-no de ser exímio em provocações gratuitas (o que quer que esta expressão signifique), além de uma nefasta reiteração do “avida dollars”. Claro que para o provocado a provocação foi sempre perpetrada pelos piores motivos, até porque não há ninguém à face da terra que não se julgue detentor do mais refinado bom-gosto. E assim andamos.

Vem isto a propósito da iminente inauguração de uma enorme estátua de Hirst, com o grandiloquente título de “Verity”, na cidadezinha balnear inglesa (um oxímoro) de Ilfracombe em Devon. O critico do liberalíssimo The Guardian é taxativo: “The giant bronze woman holding up a sword in Devon not only resembles the art of totalitarian dictators, it is helping Hirst destroy British art.” O habitualmente circunspecto Daily Mail não resiste ao trocadilho: “Some call it the Angel of the West; others deride it as the Belly of the South.” E para que não houvesse dúvidas, foi recordada a sentença lançada em Abril passado pelo perito Julian Spalding do “The Independent”: "His work isn't worth a cent, not because it isn't great art, good art or even bad art, but because it isn't art at all,"

Este coro de ultrajados faz em tudo lembrar aquele que se levantou - o escândalo que foi! - quando em 1973 se descerrou em Lagos a estátua de D. Sebastião da autoria de João Cutileiro.

Disto só é possível retirar uma certeza: nunca se sabe o que o tempo faz à arte (e ao gosto).

 

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Formas de arte

por José Navarro de Andrade, em 10.10.12

Byron Browne, 1952

Francis Bacon, 1969

Julio Pomar, 1992

Rineke Dijkstra, 2000

Eric Fischl, "Corrida in Ronda n. 3", 2008

 Ena Swansea, 2010

 

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Acabou-se (o Verão) (só) (por enquanto...)

por José Navarro de Andrade, em 21.09.12
Caro Niederer, "Waiting for return", 2007
 

Richard Misrach, "Sem título 1132-04 [flippers], 2004

Bertien van Mannen, "Praia no lago Baikal", 1993

 Lisa Ruyter, 2007

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Fiat Lutz

por José Navarro de Andrade, em 06.08.12

Lutz Bacher, 2012

 

Gosto mesmo muito desta recente instalação de Lutz Bacher, à mostra durante a primavera nova-iorquina.

É como ir sem sair de casa. É como trazer a praia para dentro do lar doce lar, sem as bichas da ponte para a Caparica ou a falta de reserva no Gigi.

Faça férias cá dentro - é como digo.

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Realismo paralelo

por José António Abreu, em 05.08.12

Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade.

Pastel sobre papel Hahnemühle Velour.

(Obra informalmente conhecida como Pandora.)

 

«Podemos começar já pela questão do prémio…»

«Como preferir.»

«Ficou satisfeito?»

«Seria hipocrisia dizer que me é indiferente. Mas não é fundamental. Não pinto para receber prémios.»

«Então por que o faz?»

«Porque sinto que tenho de o fazer. Porque tenho uma visão a transmitir.»

«Uma visão no mínimo polémica.»

«Espero bem que sim. É bom que a arte incomode.»

«Há mesmo quem acuse o que faz de não passar de um truque.»

«Inveja. Repare: toda a arte parte de uma visão do mundo. E a minha visão é diferente. É natural que haja quem não goste. Quem não consiga perceber.»

«A sua visão parte do facto de ser daltónico…»

«Sim, mas vai muito para além disso.»

«E de colorir o que pinta com cores aleatórias.»

«Não, não, não, não! Aleatórias, não. Eu pinto como imagino. Acrescento à realidade incompleta que me chega os elementos que lhe imagino adequados. E repare que não distingo a cor das tintas que uso. É um trabalho cem por cento mental, de nuances, da interpretação da adequação das possibilidades disponíveis à realidade desconhecida. Se bem que não devêssemos chamar-lhe realidade. É apenas a forma como a maioria das pessoas vê. Não é a realidade para um cão ou para um gato, por exemplo...»

«Não distingue mesmo qualquer cor?»

«Não. Tenho o que se chama 'visão acromática'. É uma condição bastante rara.»

«Parece quase orgulhoso disso.»

«Não devemos envergonhar-nos das diferenças. Devemos potenciá-las. Costumo dizer, correndo talvez o risco da imagem excessivamente doce, que a minha vida é como um sonho que vou colorindo com as cores adequadas a cada momento.»

«É uma ideia interessante. Mas não acha que é demasiado fácil delinear uma cena (e muitos dizem que o faz de modo básico) e depois colori-la com cores que parecem aleatórias? Céu verde, água vermelha, erva roxa... Não é quase como aqueles livros para crianças?»

«Já vi esses livros. Alguns têm muito potencial. Mas é totalmente diferente. As crianças subvertem o sentido das figuras quando lhes acrescentam cores diferentes daquelas que têm na realidade. A minha intenção, embora aceitando o lado polémico do que faço, não é subverter. É criar uma realidade minha, que faz sentido para mim e que, na minha cabeça, é a realidade.»

«É por isso que insiste em chamar-lhe ‘realismo alternativo’?»

«Realismo paralelo.»

«Peço desculpa. Realismo paralelo.»

«Porque não a vejo como uma alternativa. É um mundo paralelo. A alternativa é a monocromia.»

«Criou até uma associação com o nome 'Realismo Paralelo'.»

«Não fui apenas eu. Mas é verdade que fui um dos principais impulsionadores do projecto e desempenho actualmente o cargo de presidente.»

«A associação tem membros com outras, er, características, não apenas daltónicos...»

«Com certeza. Há imensas pessoas que, podendo até nem ter consciência disso, são realistas paralelos. Criam a sua própria realidade.»

«Políticos, por exemplo?»

«Desculpe?»

«Era uma tentativa de humor.»

«Ah. O humor é uma forma de evitar encarar as inseguranças. Nenhum verdadeiro artista se pode permitir fazê-lo.»

«Não há humor no seu trabalho?»

«Depende do ponto de vista. Quando um quadro está completo, a interpretação – e, portanto, as inseguranças – são as de quem observa. Mas o artista tem de as enfrentar enquanto o cria. E esse é um processo doloroso. O humor é uma saída demasiado fácil.»

«Não acha que há humor na sua obra 'Jardim do Éden - A Descoberta da Gravidade'?»

«Presumo que possa lá ser encontrado algum humor.»

«Não era sua intenção criá-lo?»

«O quadro é uma sobreposição espaço-temporal de vários mitos da ciência e da religião. Coloca questões. As respostas são livres.»

«Sabe que desde o filme Avatar lhe chamam 'Pandora'?»

«Prefiro não falar disso.»

«Muito bem. Voltemos à questão do que é ser realista paralelo, de que nos desviámos com a minha infeliz piada sobre os políticos. Será que podia explicar um pouco melhor em que se baseia o conceito?»

«Já lhe disse: na possibilidade de criar uma realidade paralela. Verdadeiramente paralela. Que nasça de características verdadeiramente diferentes das da maioria. Repare: quando um surdo compõe música, o resultado tem de ser diferente do que seria se fosse uma pessoa com audição a criá-la. Ele está a gerar algo paralelo à realidade da maioria das pessoas. Embora, claro, essa música, ou um quadro meu, entre na realidade das pessoas ditas normais e acabe portanto por fazer parte dela.»

«Hmmm, sim. Beethoven era um ‘realista paralelo’?»

«Beethoven perdeu a capacidade para ouvir mas não deixou de ser influenciado por ela. A sua obra reflecte esse facto. A nona sinfonia mantém muitos elementos do Beethoven com audição. Apenas é mais ruidosa.»

«Hmmm, estou a ver. É, de facto, uma visão polémica. Há, aliás, quem o acuse de radicalismo; de ostracizar tudo o que não encaixa na sua forma de encarar as questões.»

«De modo nenhum. Eu não ostracizo. Eu sou ostracizado. Mas não pode esperar que eu aprecie críticas de gente que não tem obra feita, ou que produz obras que nada trazem de novo.»

«Como é que sabe, se não as vê na sua plenitude?»

«É verdade, mas não preciso de ver as cores para perceber que nada têm de novo. Torna-se imediatamente óbvio que (usando um dos exemplos que deu há pouco) o céu é azul, como tem sido quase sempre ao longo dos séculos. Eu crio um céu diferente.»

«Cria até vários. Há pinturas suas com céus das mais variadas cores.»

«Com certeza. Na realidade paralela, o céu tem que combinar com todos os restantes elementos. Repare: você diz-me que o céu é azul e a erva é verde, certo? É essa a combinação que as pessoas conhecem e que tem sido pintada ao longo dos séculos. Muito bem, faz sentido, apesar de ser monótona. Mas se eu crio um céu castanho, não posso combiná-lo com erva verde. Seria ficar por uma realidade enviesada e não paralela. A cor da erva deve reflectir a cor do céu.»

«Mas a cor do céu também não é sempre a mesma, nas suas obras…»

«Evidentemente. Porque o céu está na minha cabeça. Ou, para ser mais preciso, a realidade cromática do céu está na minha cabeça. E a minha cabeça pode decidir atribuir-lhe uma cor por dia. É isto que me distingue das pessoas, enfim, não queria chamar-lhes ‘normais’ mas serve como ideia. Eu vejo realidades onde elas vêem apenas uma realidade.»

«Algumas pessoas poderiam dizer que há uma definição médica para isso.»

«Por favor. Está aqui para entrevistar-me ou para insultar-me?»

«Peço desculpa. Mas, nessa linha, quantas mais, enfim, digamos ‘deficiências’, tiver uma pessoa, melhor artista será.»

«Melhor artista poderá ser. Em teoria. Na prática, as características diferenciadoras a que chama deficiências só são úteis se a) não forem tão excessivas que prejudiquem a qualidade da obra e b) o artista as utilizar de forma adequada. Deixe-me dar-lhe um exemplo: é difícil para uma pessoa sem braços pintar quadros (alínea a); e, infelizmente, quando resolve essa questão usando a boca ou os pés, tende a desperdiçar todo o potencial em cartões de Natal sem qualquer interesse artístico (alínea b).»

«Sim, estou a ver. E é sempre o público que define quem tem qualidade?»

«O público, não diria. Pelo menos, o grande público. É muito difícil dizer quem define. Mas as coisas acabam por se impor.»

«Também por causa da polémica…»

«A polémica é já um reflexo da qualidade. Da capacidade de provocar emoções.»

«E talvez também dos apoios que alguns artistas recebem e outros não. O que diz às pessoas que contestam os subsídios públicos que tem recebido?»

«É mesquinho e ridículo. Eu não vejo a cor do dinheiro. É-me indiferente se é público, se privado. Para mim, é todo… cor-de-rosa.»

«Cor-de-rosa?»

«Por exemplo. Foi a cor que me pareceu mais adequada. Mas também pode ser cor-de-laranja. Ou azul. Ou vermelho. Ou até, como dizem que ele é, verde. A minha arte baseia-se precisamente nisso: na infinidade de possibilidades. As coisas mudam e eu adapto-me. O que me interessa é a Arte. Com maiúscula»

«Com certeza. O prémio vai mudar alguma coisa na sua vida?»

«Nada. Apenas dar-me um pouco mais de exposição. Talvez possibilitar-me vender mais algumas obras.»

«O que até poderá permitir-lhe dispensar os tais subsídios públicos…»

«Pensar assim é um erro. Os subsídios artísticos devem ser dados não somente em função das necessidades (repare que toda a gente considera ter algo a exprimir e, portanto, achar-se-ia com direito a subsídios) mas em função da obra, do valor acrescentado para o acervo cultural do país.»

«Mas isso deixaria de fora os jovens, pouco conhecidos.»

«Não se forem bons.»

«Voltamos então à questão de saber quem define o valor da obra…»

«Para a atribuição de subsídios, o Estado tem que chamar a si a questão, claro. E depois, porque é preciso que ela seja tomada por quem perceba do assunto, delegá-la.»

«Em quem?»

«Em valores firmados.»

«Mas isso não cria uma espécie de clube restrito e conservador, que decide muitas vezes em função do interesse e dos gostos dos seus membros, e que só apoia jovens com gostos similares ou, enfim, com cunhas?»

«É por interpretações como essas que o grande público tem uma visão distorcida do mundo dos criadores de Arte. O mundo da Arte não funciona dessa forma, não se baseia nessas realidades mesquinhas…»

«Baseia-se em realidades paralelas? É isso que lhe confere autoridade para falar em nome do ‘mundo da Arte’?»

«A verdadeira Arte é sempre paralela. E fiquemo-nos por aqui.»

«Porque aceitou fazer parte do júri do prémio do próximo ano?»

«Convidaram-me e achei que não podia recusar. A Arte também é interacção, cooperação, amizade, apreço.»

«Mas como poderá avaliar obras alheias sem lhes conhecer a cor?»

«De forma muito mais livre e descomprometida. Mas pensei que esta entrevista era sobre a minha obra…»

«E é, claro. Está a trabalhar em alguma coisa nova?»

«Sempre. E posso garantir-lhe que vai ser uma surpresa.»

«Diferente da série anterior, então, com os legumes com cores trocadas?»

«Não estavam ‘trocadas’. Receio que não tenha percebido nada do que lhe estive a dizer.»

«Peço desculpa. Mas o próximo projecto não vai ter nada a ver com isso, então?»

«Não. Terminei a série dos legumes. Um artista não pode repetir-se.»

«E não pode dar-nos uma pista?»

«Bom, só uma: fruta.»

«Fruta com cores, er, paralelas?»

«Fruta ainda nas árvores. Uma coisa mais campestre. Talvez sendo apanhada por pessoas de todas as cores (a Arte deve recusar a xenofobia e incentivar a igualdade). Mas já estou a falar demais…»

«Ficamos ansiosos.»

«Obrigado.»

«Terminámos. Agradeço-lhe imenso ter-me concedido a entrevista.»

«De nada. Estou sempre disponível. Já agora, vai para o centro?»

«Vou.»

«Dá-me boleia?»

«Claro. Tenho o carro mesmo aqui à porta. Nem queria acreditar na sorte…»

«Aqui costuma haver lugares. É o vermelho?»

«É. Espere lá: como percebeu a cor do carro?»

«Prática.»

«Mas isso não elimina tudo o que me esteve a dizer? Se afinal reconhece as cores…»

«Reconheço-as porque sou um ser inteligente, capaz de estabelecer associações. Ao longo dos anos fui aprendendo que certas tonalidades correspondem a certas cores. Mas eu não vejo essas cores. Eu não sei o que significa 'vermelho'. É apenas uma palavra. A minha visão do Mundo, fisiologicamente alterada como lhe expliquei, não inclui o verdadeiro vermelho. Mas também faz com tudo me seja possível, incluindo o realismo mais básico que acaba por ser essencial para sobreviver no mundo prosaico do dia-a-dia. Posso assim chamar 'vermelho' ao que me dizem ser vermelho. Foi o que acabei de fazer e isso não invalida o que lhe estive a tentar explicar. No limite, porque sou livre de fazer as correspondências entre cores e terminologia que bem entender, posso dizer que, quando pinto um céu que sei ser azul, de vermelho, estou na verdade a pintá-lo de azul. Do meu azul. A Arte é uma expressão pessoal, e na verdadeira Arte tudo é possível desde que exista capacidade, visão e ousadia. É, na realidade – qualquer que ela seja –, muito simples.»

«Er... pois, deve ser. Vamos, então.»

 

(Republicado com ligeiras alterações.)

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Um jardim que ninguém quer

por Ana Vidal, em 14.06.12

 

Durante trinta e quatro anos detentor do pouco edificante título de "maior lixeira a céu aberto da América", o Jardim do Gramacho vai finalmente ser encerrado. E fá-lo mesmo a tempo de não envergonhar os brasileiros no Rio+20, a conferência internacional sobre o ambiente que este ano se realiza no Rio de Janeiro - exactamente a cidade onde se situa este mal amado "jardim" - marcada já para o próximo dia 20 de Junho.

 

Mas até numa lixeira pode nascer a arte. Este estranho e especialíssimo cosmos, policiado apenas por temíveis urubus, onde uma população residente de "catadores" e suas famílias disputa diariamente o seu tóxico habitat com todo o género de indesejável bicharada, foi o cenário inspirador para várias obras do artista plástico Vik Muniz*, a que ele chamou "Lixo Extraordinário". Usando os residentes do Gramacho como modelos no seu cenário natural, Vik fotografou monumentais composições que depois expôs em vários países (em Lisboa a exposição esteve por vários meses no CCB). O originalíssimo trabalho, que alia a arte à consciência social através da denúncia de uma situação pungente, despertou enorme curiosidade e foi muito premiado. Dessa obra ficou, como registo, um documentário que vale a pena ver. Aqui fica o trailer, mas todo o documentário pode ser visto na net.

 

* Vik Muniz é conhecido por usar nas suas obras materiais pouco utilizados habitualmente nas artes plásticas: alimentos (compotas, café, chocolate), material reciclado, desperdício de papel, brinquedos, peças informáticas obsoletas, etc. Com tudo isto compõe figuras de grandes dimensões, que depois fotografa para deixar delas um registo para a posteridade. As obras, essas, são naturalmente efémeras.

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