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A pequena maçã e as decisões de consumo

por José António Abreu, em 25.09.12

Mais uma vez, a Apple enfrenta tumultos numa das unidades da Foxconn que produz os seus iGadgets. Os trabalhadores chineses, transportados aos milhares de uma fábrica para outra consoante as necessidades, alojados em dormitórios, vigiados em permanência, enfrentam as piores condições de trabalho por alturas do lançamento de novos produtos Apple. Porquê? Porque, apesar de muitas outras marcas também produzirem na Foxconn, a política de secretismo e de lançamento em força da Apple obriga a que todas as peças para os novos produtos sejam produzidas em elevadas quantidades, quase em cima do lançamento. Há uns meses, revelando insuperável consciência social (digna, afinal, desse anjo chamado Steve Jobs que, nos tempos de desenvolvimento do Macintosh, perante o cansaço dos trabalhadores, mandou distribuir t-shirts com a frase Working 90 Hours a Week and Loving It), a Apple assegurou que os erros do passado seriam corrigidos e que nenhum trabalhador chinês teria de trabalhar mais de 60 horas por semana. Com as encomendas do novo iPhone precisando de ser satisfeitas, é duvidoso que mesmo tão simpático valor esteja a ser cumprido. E isso traz-me ao ponto mais importante: no Ocidente teme-se que os direitos sociais desapareçam, que um destes dias as condições de trabalho sejam parecidas com as existentes na China. E, todavia, europeus e americanos fazem filas para comprarem produtos fabricados nestas condições em vez de, deixando de os comprar, forçarem mudanças nas condições de trabalho na China. Não basta boicotar uma marca? Basta, se a marca for bem escolhida. Torna-se, aliás, curioso pensar que, há cerca de duas dezenas de anos, os consumidores ocidentais obrigaram a Nike a melhorar as condições de trabalho nas suas fábricas do Extremo Oriente. Hoje, esses mesmos consumidores e os seus descendentes parecem pouco preocupados com tais detalhes: exigindo os direitos sociais que foram adquirindo, querem também (talvez ainda mais) usufruir dos produtos da moda, fabricados por gente para quem esses direitos são uma miragem. Na Europa, como na América do Norte, parecemos hoje mais ocos, mais – sim, vou usar o termo – cigarras. Liderando o trajecto à frente de outros conglomerados (que no fim de contas gosta de se dizer vanguardista), a Apple agradece.

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Dentada na maçã

por José António Abreu, em 02.01.12

A imagem da Apple como empresa «boa» e de Steve Jobs como personificação do empresário/gestor ideal confunde-me há anos. E confunde-me ainda mais a aparente simpatia da esquerda por uma e outro. Não se trata apenas do facto dos produtos serem caros e operarem em sistemas tão ou mais fechados que os da concorrência (desde logo, que os da «maléfica» Microsoft). Não se trata somente do mau génio de Jobs que, noutra empresa qualquer, o teria transformado num «patrão» prepotente. Não é também apenas o modo como, sempre que tiveram oportunidade (de novo, numa estratégia igualzinha à da Microsoft dos velhos tempos), Jobs e a Apple impuseram pela força da quota de mercado as regras que melhor lhes convinham (vide distribuição de receitas no iTunes). Tudo isto já seria suficiente, com outra empresa, com outro gestor. Mas há também os factores mencionados neste texto de Rui Passos Rocha, n'A Douta Ignorância. Por alguma razão, o conceito de exploração capitalista não se aplica à maçã.

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