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Grande galo

por Pedro Correia, em 30.08.17

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Ontem:

PAN quer impedir "morte do galo" em Seia

«Estas pessoas são chamadas uma a uma, tendo na sua posse um pau com o qual é suposto desferirem pauladas sucessivas até que o galo morra. O galo é consecutivamente agredido com o pau, agonizando lentamente fruto dos ferimentos, até que alguém finalmente o consiga matar. Quem conseguir por fim matar o galo ganha-o como prémio.»

Excerto de comunicado do partido animalista, insurgindo-se contra as festas do Santíssimo Sacramento, em Várzea de Meruge, no concelho de Seia, e anunciando denúncias ao Ministério Público, à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária e à Câmara Municipal de Seia

 

Hoje:

Aldeia desmente PAN sobre "morte ao galo"

«Américo Brito, membro da comissão de festas da aldeia, desmente categoricamente. Confrontado pelo JN, explicou que, apesar do nome, o jogo é praticado única e exclusivamente por crianças que tentam acertar num ovo. "Quem conseguir parti-lo leva o galo vivo para a família", precisou. (...) O presidente da Câmara de Seia recebeu a carta do PAN mas desconhece a tradição nela referenciada. Já fui às festas e nunca presenciei semelhante coisa", afiançou o autarca.»

Notícia publicada na edição de hoje do Jornal de Notícias

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O PAN em serviços mínimos

por Pedro Correia, em 22.06.17

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Apetece-me perguntar: vale a pena termos um partido pleonasticamente intitulado Pessoas-Animais-Natureza? Um partido que nesta semana que se segue à morte confirmada de 64 pessoas, de milhares de animais e de um número incalculável de árvores nos dramáticos incêndios de Pedrógão Grande (entretanto alastrados a concelhos vizinhos, como Góis, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Ansião, Alvaiázere, Pampilhosa da Serra, Arganil, Penela, Sertã e Ferreira do Zêzere) devia ocupar-se e preocupar-se com particular atenção destas matérias.

Devia, mas não o faz. Consultando o sítio oficial do PAN na internet deparamos só com 32 palavrinhas sobre os dramáticos acontecimentos que enlutaram o País e estão a emocionar a Europa. Estas, que passo a transcrever: «Partilhamos os nossos sentimentos com todas as vítimas, amig@s e familiares, lembrando também os milhares de animais de companhia, de pecuária e selvagens, tal como o património ecológico que desapareceu nesta catástrofe.»

 

Nem um sussurro mais.

Neste seu sítio, o “Partido dos Animais” coloca a tragédia de Pedrógão no mesmo plano gráfico da notícia “PAN concorre pela primeira vez em Cascais nas autárquicas” (aqui num texto com 11 parágrafos) e preocupa-se em promover um “São João vegetariano”, marcado para amanhã no Porto.

Enfim, quase nada. É chocante verificar que uma força partidária tão apostada em promover e enaltecer os valores da natureza se limite numa situação destas a cumprir serviços mínimos, exprimindo sucintas condolências em duas linhas de comunicado. Sem um assomo de indignação nem um arremedo de perplexidade. Pior: sem a exigência pública de um apuramento rigoroso e exaustivo de todas as responsabilidades, doa a quem doer.

 

Mais chocante ainda por contrastar com vigorosas posições assumidas pelo mesmo partido. Há uns anos, por exemplo, quando espalhou pelo País cartazes exigindo o fim daquilo a que chamavam "barbárie dos circos". E num passado muito recente, ao insurgir-se contra a "cegueira ideológica" dos EUA na saída do Acordo de Paris ou quando dirigiu à ONU uma denúncia perante os "novos incumprimentos" de Espanha em relação à central de Almaraz.

Não sei se Donald Trump e Mariano Rajoy ficaram a par destas ruidosas proclamações do pleonástico PAN. Eu confesso-me muito decepcionado com a inesperada apatia do partido naturo-animalista perante o maior incêndio de sempre em Portugal, já registado como o 11.º mais mortífero ocorrido em todo o mundo desde 1900.

Em política, o silêncio também é uma forma de comunicação. Neste caso, o resignado e silencioso conformismo do PAN pesa como chumbo. E deve envergonhar muitos dos seus militantes.

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Grandes animais

por Pedro Correia, em 28.04.17

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Nestas coisas nunca sei o que me choca mais: se aqueles que são capazes, aos milhares, de subscrever um abaixo-assinado contra o abate de um rottweiler que segundo fonte policial deixou  praticamente desfigurada uma criança de quatro anos na via pública (faltando saber se os mesmos ou outros militantes animalistas já se mobilizam em defesa de um arraçado de Serra da Estrela que arrancou uma orelha a outra criança, esta de nove anos), se aqueles que são capazes de desejar a morte de um menino de seis anos só porque teve a desdita de confessar que gostaria de ser toureiro.

Que uns e outros são grandes animais, não me restam dúvidas. Acrescento que, ao contrário do que os visados possam supor, isto não constitui um elogio.

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Animais de estimação

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.17

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Nunca tive animais de estimação. Nem mesmo cães, esses que se consideram os melhores amigos do homem. Mas os telejornais de ontem não só deram conhecimento de que essa amizade por vezes se torna raiva, como lembraram o longo historial da série de acidentes havidos recentemente por investidas de cães contra adultos crianças.

Nada sei da psicologia dos canídeos. Apenas lembro que a minha querida amiga Madalena Fragoso, foi gravemente ferida por uma cão que estimava há já vários anos. E o dela não era de uma raça potencialmente assassina.
Agora que temos um deputado que defende a natureza e os animais talvez fosse ajuizado pedir-lhe que se ocupe de propor legislação que presida à defesa não só destes últimos, mas, sobretudo, à defesa daqueles que, sem qualquer responsabilidade, se vêem num hospital, em consequência deste tipo de agressões, que se está a tornar cada vez mais frequente.

 

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Os talibãs e a tentação da carne

por Pedro Correia, em 28.03.17

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 Um touro desenhado por Picasso

 

Sinto uma aversão inata a todo o tipo de extremismos. Por mais em voga que estejam. Isto inclui o extremismo animalista, povoado de fanáticos com vocação para policiar comportamentos alheios. Não tenho a menor dúvida: hoje invadem ruedos e cercam ganadarias, exigindo a abolição imediata das touradas. Amanhã assaltarão instalações agro-pecuárias reivindicando o fim do abate de aves e gado. Depois de amanhã patrulharão restaurantes para impedir os incautos de consumir iscas ou bifanas.

As minhas últimas dúvidas dissiparam-se ao ler há dias, numa revista feminina, a exaltada proclamação de uma activista vegan contra os agricultores que se atrevem a colher leite em vacarias e ovos em capoeiras. Eis a tese marxista da luta de classes aplicada à relação entre o homem, as vacas e as galinhas. “Os animais trabalham indevidamente para servir os seres humanos”, escandalizava-se esta animalista, insurgindo-se contra o “stress e o sofrimento dos animais quando estão em fila para o sacrifício” em aviários e matadouros.

 

Se pudessem, no seu incansável proselitismo, estes devotos da rúcula e do agrião decretavam o consumo exclusivo de produtos macrobióticos. Aboliriam rodízios e encerrariam churrasqueiras. Proibiriam a extracção de mel das colmeias para não beliscar o labor das abelhas. A matança de porcos, frangos e coelhos seria rigorosamente interdita. No limite, todas estas espécies – só existentes pelo seu valor alimentício e, portanto, comercial – extinguir-se-iam, para deleite destes supostos defensores dos direitos dos animais. Antes vê-los desaparecidos de vez do que em “sofrimento potencial".

Como mandam as cartilhas, tudo isto ocorre em nome de autoproclamados princípios éticos, levando as falanges animalistas mais extremas a entrincheirar-se sem um esgar de hesitação contra os bípedes no milenar confronto entre homens e bestas. A exemplo daquela talibã “antitaurina” que nas redes sociais em Espanha desejou a morte imediata de um rapazinho doente de cancro só porque o miúdo teve a desdita de confessar que quando fosse grande queria ser toureiro.

“Devias morrer já”, assanhou-se a meiga patrulheira, acusando o menino de querer “matar herbívoros inocentes”.

 

Quem é capaz disto é capaz de tudo. Capaz inclusive de exigir a extracção compulsiva dos dentes caninos à população humana para evitar a proliferação do pecado entre quase todos nós, aqueles que continuamos a ceder à tentação da carne.

Já estivemos mais longe.

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Os malucos das vacas voadoras

por Rui Rocha, em 11.01.17

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Pois olha, não sei

por Rui Rocha, em 22.12.16

Ou o gajo está a chamar filho ao cão ou passou a usar o plural majestático em substituição da 3ª pessoa do singular.

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O saber não ocupa lugar

por Pedro Correia, em 19.11.16

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 20.10.16

«Lisboa vai ter a sua primeira creche para cães»

Notícia do Público, com destaque na primeira página

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O meu Rosebud era um canguru

por Pedro Correia, em 18.09.16
 

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Sempre gostei de séries com animais. A minha infância esteve cheia delas. Lembro-me: havia um golfinho chamado Flipper, um leão chamado Daktari, um cavalo negro chamado Fúria, até um urso pardo chamado Gentle Giant.
Mas, entre as séries que a RTP exibia nas tardes de fim de semana, nenhuma me seduziu tanto como esta - produzida entre 1966 e 1968 pela CTVA australiana - que tinha um canguru como personagem principal. Chamava-se Skippy, este marsupial que seguia o jovem dono como se fosse um cão. Foi quanto bastou para sentir uma vontade enorme de ter também um bicho destes. O problema é que cangurus livres como o vento só existem na Austrália - talvez por isso os do Jardim Zoológico de Lisboa nunca me despertaram interesse.
Se não podiam vir eles cá, fui eu lá. Um dia, nos arredores de Darwin, já a cidade cedera lugar à savana, aconteceu um momento mágico: um canguru veio ao meu encontro. Livre e solto como o vento. Lá estava ele - o "meu" Skippy. Demorou-se só o tempo necessário para lhe disparar uma fotografia e logo me virou as costas, indo à sua vida. Mas bastou este momento para justificar a minha primeira deslocação à Austrália.
Ainda hoje penso naquele momento mágico. E logo me vêm à memória os versos do tema musical da série: "Skippy, Skippy, Skippy the bush kangaroo / Skippy, Skippy, Skippy a good friend true."
Desconfio que não preciso de procurar mais: o meu Rosebud é mesmo este.

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Os passarinhos também têm céu

por Pedro Correia, em 20.08.16

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O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Manuel Bandeira (1940)

 

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O chocante silêncio do PAN

por Pedro Correia, em 18.08.16

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 Imagem do incêndio no concelho de Arouca, a 12 de Agosto (foto Estela Silva/Lusa)

 

Existe em Portugal um partido chamado Pessoas-Animais-Natureza (PAN), já com representação na Assembleia da República.

Um partido que se proclama, portanto, defensor da flora e da fauna.

Os fogos, como sabemos, destroem a riqueza ambiental, reduzindo a cinzas o nosso património ambiental e agrícola. E conduzem à morte um número incalculável de vegetais e animais.

 

Acabo de visitar a página oficial do PAN e fiquei decepcionado: o partido parece ter entrado em férias a 2 de Agosto, dia em que dá nota da "quadragésima quinta reunião" da sua Comissão Política Nacional, ocorrida a 30 de Julho.

Nem uma palavra depois disso.

Nem uma palavra, portanto, sobre a tragédia dos fogos ocorrida desde então em Portugal.

O partido amigo da natureza não registou o facto de haver já ardido no nosso país 118 mil hectares de terreno, o que corresponde a 54% do total ocorrido este ano em toda a União Europeia.

O PAN, que há poucas semanas se mostrou tão preocupado com a "gestão ética da população dos pombos nas cidades", seja lá o que isso for, nem uma palavra sussurrou até agora sobre os fogos neste trágico Verão em que "já se bateu o recorde de área contínua ardida acima do Mondego".

E demonstra uma inaceitável indiferença perante o sucedido, por exemplo, na ilha da Madeira: as chamas devastaram 22% do concelho do Funchal.

 

É inaceitável este silêncio do partido ambientalista perante a acção criminosa dos incendiários. Sobretudo por contrastar com o seu recente frenesim mediático, quando o PAN apresentou uma iniciativa legislativa que pretendia eliminar da paisagem rural o tradicional burro a puxar a carroça ou o boi a puxar o arado e pôr fim às charretes sob o extraordinário argumento de que os turistas norte-americanos que nos visitam ficam "chocados" com tais coisas.

Chocado fiquei eu com esta apatia estival do PAN.

Lá mais para o Outono, quando o cair da folha os despertar da letargia, talvez os seus dirigentes que tanto se preocupam com a opinião dos americanos percebam enfim que o País ardeu enquanto estiveram a banhos.

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"socialismo do século XXI" não se limita a lesar pessoas, que buscam em desespero na vizinha Colômbia ou no fronteiro Brasil os alimentos básicos que deixaram de encontrar no seu país: também já condena os animais à morte. A começar por dezenas de bichos do jardim zoológico de Caracas, que vão morrendo de desnutrição e fome.

Tavez seja excessivo esperar reacções do  Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, amigos e aliados do chavismo-madurismo em Portugal. Mas aguardo pelo menos um enérgico protesto do PAN, tão preocupado com os preços das rações para animais por cá enquanto aves, coelhos, tapires e porcos do Vietname vão morrendo no zoo da capital venezuelana e tigres e leões se alimentam ali de mangas e abóboras - enquanto há.

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A vaca e o porco

por Alexandre Guerra, em 23.05.16

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Animals (1977) 

Ao ver a vaca voadora de António Costa veio à memória o célebre episódio que ocorreu em finais de 1976, quando um piloto de um avião comercial nos arredores de Londres terá reportado à torre de controlo que estaria a ver um "porco a voar". A história ganhou contornos de mito urbano, mas a sua origem pouco tem de mitológica e remete-nos para um balão de nove metros cheio de hélio em forma de porco e que ficaria imortalizado na capa do álbum Animals (1977) dos Pink Floyd concebida pelo genial Storm Thorgerson. Mas ao contrário da vaca fofinha de Costa, que não se conseguiu livrar da mão controladora do poder instalado, o Mr. Pig (como se lê num dos cartazes da banda), que devia ficar preso e a pairar sobre a Central Eléctrica de Battersea (já desactivada), localizada junto ao Rio Tamisa, mostrou toda a sua "teimosia" e libertou-se da sua amarra logo na primeira sessão fotográfica e lá foi ele a voar livremente pelos céus de Londres (esta ideia de "libertação não deixa de ser irónica, se tivermos em consideração que este porco foi inspirado pela famosa obra de Orwell, "Animal Farm"). O porco acabaria por ir parar a Kent e terminaria aí a sua aventura, sendo recuperado por um agricultor local que se mostrou irritado porque o suíno terá assustado as suas vacas, que lá estavam tranquilamente com as patas bem assentes na chão, que é onde, aliás, devem estar. 

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Sobre os direitos dos animais

por Teresa Ribeiro, em 19.05.16

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Acho justa a classificação, face à lei, dos animais como "seres sensíveis", por duas razões: porque são, indiscutivelmente, seres e porque a experiência já me deu suficientes provas de que sentem.

A acrimónia que as iniciativas do PAN tem provocado espanta-me. Não falo dos caçadores e dos aficionados, pois esses, naturalmente, vêem a instituição de medidas de protecção animal como uma caixa de pandora que a prazo poderá ameaçar rituais que os apaixonam. Mas sei de muita gente que não se encaixa nesse perfil e mesmo assim trepa às paredes quando se fala de "direitos dos animais". Desde logo argumentam que os animais não são sujeito de Direito, logo não podem ter direitos. Entrincheiram-se nesta lógica e daqui não saem esquecendo que uma das principais funções da lei é criar fundamentos de justiça e contribuir para a civilidade num Estado de Direito.

Quem como eu tem acesso regular a informação sobre o que aparece em clínicas veterinárias e associações de proteção animal, só pode congratular-se com estas iniciativas, porque entendo que o sadismo, mesmo o que é exercido sobre animais, deve ser punido. Quem não quiser fazer como a avestruz veja no google, de preferência com o estômago vazio, o que acontece a alguns "animais de estimação".

As leis servem para, à falta de melhor, nos civilizar. Já li que "a sensibilidade não se decreta por lei". Nada mais falso. As leis também educam, porque criam massa crítica, e sobretudo funcionam como aceleradores de bons costumes, que o digam as mulheres que num passado recente nem sequer podiam votar ou abrir uma empresa.

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Fábula onde os animais não falam

por Inês Pedrosa, em 08.05.16

Primeiro ouvi o carro a subir a ladeira, aceleração no máximo: que não se duvidasse da potência de quem o conduzia. Depois o choque: bem feita, pensei. Em seguida, o ruído da marcha-atrás e o arranque veloz. Então ocorreu-me que o meu carro estava estacionado mesmo ali, de onde viera o ruído do choque, e saltei do sofá onde estava tranquilamente absorvida pelas reflexões de Milan Kundera sobre a falta de sentido das acções humanas. Encontrei a traseira do meu pobre automóvel, que me serve sem sobressaltos desde 2003, desfeita. Da besta que o esmagou, só os traços das rodas no asfalto. O cão dos vizinhos sabe quem é, fartou-se de ladrar, mas infelizmente não fala. A GNR veio com rapidez, dois agentes muito simpáticos; anotada a ocorrência, prometeram uma volta nos arredores dos bares das aldeias próximas, procurando o responsável. Mas não o encontraram: os cobardes safam-se quase sempre, no mundo de Kundera como no nosso. Passei anos a rejeitar as redes sociais por causa da infestação de ratos humanos. A certa altura, descobri que um jornalista que eu mal conhecia estava zangado comigo por causa de comentários que alguém lhe dirigira num blogue, fazendo-se passar por mim. Descobri também duas páginas de facebook feitas por um alter-ego meu, totalmente desconhecido e tonto. Acabei por aderir ao Twitter, e agora aceitei o gentil convite que o Delito de Opinião me endereçou. Haverá sempre cobardes infames: tanto podem atacar no mundo virtual como no mais remansoso e real recanto rural. Mas não nos vencerão.

Inês Pedrosa

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Mundo cão

por Rui Rocha, em 12.12.15
Está em discussão no Parlamento a criminalização do abandono de idosos, com pena de prisão até 2 anos. O PCP e o Bloco votaram contra. Entretanto, o abandono de animais de companhia foi criminalizado em 2014, sendo punido com pena de prisão até 6 meses. Para este efeito, de acordo com a Lei 69/2014, entende-se por animal de companhia qualquer animal detido ou destinado a ser detido por seres humanos, designadamente no seu lar, para seu entretenimento e companhia.  Isto é, em Portugal, hoje, o abandono de um hamster ou de um canário é crime, mas o da avó ou do avô não. E ainda que a legislação agora discutida seja aprovada, o abandono de animais de companhia continuará a ser crime em qualquer circunstância e o de pessoas de idade apenas o será se o abandono ocorrer em hospitais. Isto é, e salvo se forem abandonados em hospitais, os idosos não estarão mais protegidos mesmo com a nova legislação do que os animais para fins de exploração agrícola, pecuária ou agroindustrial (vacas ou ovelhas, por exemplo) que foram excluídos do âmbito de protecção da Lei 69/2014. Vivemos, de facto, num mundo cão.

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Liberdade para a águia Vitória

por Pedro Correia, em 05.11.15

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É sempre bom saber que o DELITO DE OPINIÃO contribui para despertar a opinião pública mais esclarecida.

Liberdade para a águia Vitória, já!

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Circos, touradas e águia Vitória

por Pedro Correia, em 28.10.15

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Leio que o PAN (vulgo, Partidos dos Animais) quer pôr imediato fim à humilhante exibição de animais em cativeiro para gáudio de multidões ululantes com instintos primários à solta.

Acho muito bem.

Por isso venho associar-me sem reservas a esta meritória acção do jovem partido em defesa dos direitos dos animais. Além do fim das touradas e dos espectáculos com animais em circos, além da defesa acérrima dos gansos que as bestas humanas transformam em nojento foie gras, é fundamental terminar com a escandalosa, degradante e reiterada violação dos direitos de imagem e personalidade do mais conhecido animal com penas existente em Portugal.

Liberdade para a águia Vitória. Já!

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Frases de 2015 (50)

por Pedro Correia, em 24.10.15

«Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa que está em coma.»

André Silva, líder do PAN, em entrevista ao Expresso

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E, já agora, mais uma coisinha

por Rui Rocha, em 03.08.15

Cecil? Jericó? Quem caraças anda a escolher os nomes dos leões?!?!?!

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Cecil

por Helena Sacadura Cabral, em 03.08.15

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Quando a morte de um leão numa caçada se torna objecto de importância maior do que que o drama vivido pelas pessoas que tentam atravessar as águas para buscar terra livre, é porque algo, neste mundo, está muito pior do que se consiga imaginar.

Não duvido que a morte de Cecil, o símbolo felino do Zimbabwe, se revista de aspectos muitíssimo lamentáveis. Mas, confesso - e que me perdoem os defensores dos direitos dos animais -, a sorte dos que fogem do inferno africano ainda continua a preocupar-me muito mais.

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Amores perfeitos

por Teresa Ribeiro, em 14.02.15

 

 

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Já me tenho perguntado se farei parte do número de pessoas que gostam mais de animais do que de gente. É que há provas que me incriminam. Já chorei muito mais pela perda de um gato do que por vários parentes próximos que se finaram. E o pior é que quando penso nisso não sinto culpa, apenas perplexidade.

Enquanto escrevo estas linhas olho para o Boogie, o meu erro de casting, que se aninhou, esfíngico, a dois palmos de mim. No deve e haver dos afectos, este está claramente em vantagem. Nunca o verguei. É demasiado selvagem para se render a afagos e latas de whiskas. Da sua estirpe rafeira constam muitos sobreviventes, não duvido. Trinca espinhas que resistiram à fome, ao frio e à crueldade humana com todas as ganas. E lá estou eu a justificar-lhe a agressividade opondo-o aos da minha espécie, que tenho sempre mais dificuldade em desculpar. Vai-se a ver e é isto. O amor que reservo para os humanos é mais exigente.

Tem dias em que me apetece atirar o meu hóspede pela janela, porque é um sacana de um gato impossível de domar, interesseiro, egoísta, altivo e arisco. Mas depois penso que é apenas um animal bravio que nunca há-de perceber nada de nada. Até de uma criança pequena se espera mais entendimento.

Os animais não compreendem nada de nada, estão a milhas da nossa complexidade. Podia até ser um monstro que este estúpido gato não perceberia. Talvez o maior conforto que os animais nos dão seja esse: são incapazes de nos julgar e até os mais ariscos nos aceitam tal como somos.

Amar nestas condições é tão fácil, que não resisto. Duvido que quando este gato me morrer fique lavada em lágrimas, como já me aconteceu com outros animais que tive, mas sei que vou sentir-lhe a falta, porque faz bem beneficiar desta aceitação sem restrições. Se a isto ele juntasse o amor irracional e portanto sem limites, de que tantos bichos são capazes - e não falo só de cães e gatos, mas de seres tão bizarros como cágados, tão minúsculos como passarinhos - levar-me-ia ao tapete e mais uma vez a perguntar-me se porventura gosto mais de animais do que de pessoas.

Mas a pergunta, bem vistas as coisas, não é esta. A pergunta é: "Gosto mais de amar animais ou pessoas?". A resposta, que não é linear, leva-me à verdadeira questão de fundo: "É mais fácil amar animais ou pessoas?"

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

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Família alargada

por Pedro Correia, em 29.12.14

I

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 II

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 III

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Prioridades

por João André, em 19.11.14

No início de Novembro a contabilidade de mulheres assassinadas este ano pelos parceiros estava em 32. Isto só as mulheres assassinadas, sem contar com crianças e idosos e sem contabilizar as agressões. Uma das macabras personagens andou uns tempos fugido e até passou a herói popular.

 

Um cão morre de fome - maus tratos, portanto - e dá em revolta popular.

 

Faz sentido. Com humanos destes mais vale apoiar os cães.

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Quatro patas sim, duas patas não

por Pedro Correia, em 09.10.14

Certos defensores dos animais esgotam as limitadas doses de compaixão nos quadrúpedes enquanto proclamam: "Há humanos que deviam ser abatidos!" São sujeitos sensíveis, ma non troppo.

Vale a pena ler, aliás, esta caixa de comentários na íntegra.

Encontra-se lá de tudo um pouco: desde a donzela que garante aos quatro ventos ser incapaz de auxiliar um ser humano com doença contagiosa ("porque tenho animais e não os ia sujeitar a isso") até aos apologistas do suicídio obrigatório e compulsivo. Passando por alguém que assegura: "Tenho uma cadela e posso dizer-lhe que gosto mais dela [do] que [de] muita gente até da minha família!" E pelo fulano que grita: "Eutanasiemos o indivíduo." Espero ao menos que tenha sido vacinado contra a raiva...

Já chegámos a este ponto em matéria de inversão de valores. Mas não tenhamos dúvidas: isto está muito longe de terminar aqui.

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Dia Mundial do Animal

por Joana Nave, em 04.10.14

Os animais trazem felicidade às nossas vidas. Adoptem, cuidem, mimem e sejam felizes!

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A ética na pós-modernidade

por Rui Rocha, em 23.08.14

Pamela Anderson recusa banho gelado porque na investigação para a cura da ELA são realizados estudos experimentais com animais.

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Amor é isto

por Teresa Ribeiro, em 14.08.14

www.noticiasaominuto.com/mundo/262660/porque-os-ursos-tambem-morrem-de-desgosto?utm_source=vision&utm_medium=email&utm_campaign=daily

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Um gato à chuva

por Pedro Correia, em 29.12.13

 Dia de Natal, 2013 (foto minha)

 

"Ha perduto qualque cosa, Signora?" 

"There was a cat", said the American girl.

"A cat?"

"Si, il gatto."

"A cat?", the maid laughed. "A cat in the rain?"

"Yes, –" she said, "under the table." Then, "Oh, I wanted it so much. I wanted a kitty."

 

Hemingway, Cat in the Rain

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Macacos me mordam

por Rui Rocha, em 12.12.13

Diz uma lenda que um Deus, desses que proviam a algum povo primitivo, terá recebido um dia, em audiência, uma delegação de macacos. Traziam-lhe uma única reivindicação: queriam tornar-se homens. Viu-se assim o Deus em apertos pois, não querendo desagradar à macacada, também não via com bons olhos um tal desenlace. Conservador seria, pois que estava ainda preso a uma visão do mundo em que aos macacos correspondia o seu galho. E é possível até que existisse, que sabemos nós, uma cláusula de exclusividade da condição de humanidade, assinada pelo punho do próprio Deus, assegurada em contrapartida de todas as penas, provações, angústias e privações que em geral calham ao Homem pela tão simples razão de ser humano. Foi assim que o Deus, incómodo na cadeira, acabou por mandar a simiesca representação, é um dizer, pentear os outros macacos. Não com estas palavras, claro está, para não ferir susceptibilidades. Já então, nesses começos deste nosso mundo, a questão dos sentimentos dos animais era tratada com pinças. Até porque eram tempos em que eles próprios falavam, verbalizando quanto lhes fosse na alma, que já então a tinham e bem sabemos que é assim  porque entretanto não a perderam. Foi deste modo que o Deus, entalado como estava, prometeu aos macacos que estes se tornariam homens (e mulheres se fossem macacos fêmeas pois que, por esse então, as únicas questões fracturantes incluídas na agenda mediática diziam respeito ao divergir das placas tectónicas) logo que, passada a noite que já se avizinhava, raiassem os primeiros afagos de sol sobre aquela parte do planeta que, por direito próprio e natural, era também dos macacos. E assim foram os ditos à vida deles. Com o rabo entre as pernas, não porque a reunião lhes tivesse corrido mal, bem pelo contrário, mas porque era esse o lugar onde lhes era naturalmente mais confortável tê-lo. O certo é que assim que o Deus tirou os macacos de debaixo do nariz (tirá-los de dentro é coisa de homens, imprópria  da condição divina) pegou na trouxa onde guardava os prodígios, que eram basicamente trovoadas, aguaceiros e acentuado arrefecimento nocturno, e foi ganhar a vida para outras paragens estabelecendo-se, ao que se sabe, junto de uma tribo que vivia por alturas do local onde hoje é Roma. O certo é que os macacos, que mal pregaram olho, viram ao nascer do dia toda a sua ilusão defraudada. E começaram em guinchos angustiados e desesperados urros. Coisa que, por esse único e exacto motivo, ainda hoje fazem, tal como podemos comprovar, à falta de melhor, no zoológico mais próximo ou em qualquer filme do Tarzan. Ora, pelo que leio, têm por estes dias os juízes do Supremo Tribunal de Nova Iorque a oportunidade de, com uma só decisão, reporem a Justiça, substituindo-se ao Deus incumpridor e a Darwin. Basta para tal que reconheçam a um chimpanzé, representado pelo seu advogado, o direito de ser considerado pessoa jurídica. Isto é, ali onde o tal Deus não foi sequer capaz de escrever direito por linhas tortas, pode o bom Tribunal estabelecer uma linha recta entre o chimpazé, a ética e o fundamento ontológico. Se for assim, os macacos poderão finamente substituir os ontens que guincham e urram por manhãs em que cantam. Trata-se, se virmos bem, de um pequeno passo para a humanidade e de uma patada de gigante para os macacos. Temo, todavia, que os motivos para festejar sejam efémeros. Se está demonstrado que um macaco com um teclado acabará mais tarde ou mais cedo por escrever uma obra de Shakespeare, nada impede que um outro, mais peludo, descubra um dia, tal como Kant, os pressupostos tortuosos da culpa e da obrigação. A pessoa jurídica macaco, então já unanimemente reconhecida nos códigos legais, deixará de ser um mero portador de direitos para passar a ser também, tal como os homens e as mulheres, sujeito (por oportuníssima contraposição a objecto) a deveres e punições. Ora, ou me engano muito ou isso poderá significar, mais cedo do que tarde, o fim da macacada.

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 22.10.13

"Os cães também são pessoas"

Notícia do Expresso

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O animal de companhia

por Rui Rocha, em 08.09.13

Sempre me pareceu forçado o argumento de acordo com o qual o cão é o melhor amigo do Homem. Digo que alguma dúvida sobre o ponto sempre deveria resultar da velha regra prática jornalística que estabelece que só serão notícias situações em que o homem ou a mulher mordem o cão. E isto só pode dever-se à circunstância de mordidelas caninas em humanos serem relativamente frequentes e absolutamente excepcionais aquelas em que um ser humano espeta os caninos nos canídeos. Por outro lado, os que apregoam que os cães são melhores que os humanos esquecem algumas considerações essenciais. Tal proclamação é feita por aqueles que levam o cão a passear. Acompanham o cão ao veterinário. Partilham a casa com o cão e, não poucas vezes, o quarto de cama. Limpam a merda do cão. Catam as pulgas do cão. Compram refeições gourmet para o cão. Preocupam-se com o equilíbrio nutricional da alimentação do cão. Fazem festinhas ao cão porque os afectos, a estabilidade emocional e a auto-confiança do animal também são importantes. Mens sana in corpore sano dizia-se em latim embora talvez não se soubesse então que a máxima teria aplicação aos emissores de latidos. Ora, sejamos razoáveis. Compreende-se bem que, em geral, os cães que são objeto de tal deferência e desvelo correspondam dando a patinha. Pudera! Experimentassem os adoradores de cães dispensar a mesma atenção e cuidado à generalidade dos humanos, proporcionando-lhes casa, alimentação, roupa lavada e carinho e logo veriam que seriam igualmente correspondidos com meia-dúzia de afáveis lambidelas e olhares reconhecidos. Leva-nos isto a outra falácia argumentativa dos adoradores de animais. A que refere que a humanidade de alguém se mede pelo modo como trata a canzoada e demais membros da criação não humana. Isto é, fulano e sicrano podem ser gente da pior espécie (e a pior espécie é, como sabemos, a humana) que ainda assim atingirão o nível avançado de humanismo extremo se proporcionarem três refeições diárias de whiskas premium e corte de unhas semanal ao felino que decidiram ter em cativeiro no apartamento em que partilham duas assoalhadas. Escrevi há dias que o conceito de animal de companhia já conheceu épocas mais gloriosas e que lhe sucederia o do Homem como companhia do animal. Não podia estar mais certo. Basta ler o regulamento da Maratona do Cão promovida pelo Continente para percebermos que já aterrámos nesse admirável mundo novo. De acordo com o ponto 1.2, designar-se-á de participante o elemento canino – cão - e como acompanhante(s) a(s) pessoa(s) designada(s) para participar nas provas de Corrida e na Caminhada Canina. Espero, sinceramente, que no final da prova vão todos dar banho ao cão.

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Caninamente

por José Navarro de Andrade, em 08.08.13

O mastim que supostamente trucidou uma criança (o prudente advérbio de modo deve-se ao facto de a magistrada não ter dado como provada uma relação de causa e efeito entre as dentadas do pitbull e a morte da vítima) foi entregue no princípio deste mês, assim deliberou o tribunal, à guarda da Associação Animal.

A Sra. D. Rita Silva, responsável por esta organização, tendo todos os motivos para celebrar semelhante decisão, deu largas à sua filosofia:

“Vamos chamá-lo Mandela, porque tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas”.

"A ANIMAL dá SEMPRE nomes de humanos ou de outros animais aos animais que resgata. Fá-lo SEMPRE como uma homenagem."

“Desconfiamos que pode ter problemas de saúde. Depois, não excluímos o recurso a um comportamentalista animal e a uma especialista em recuperação de animais agressores.”

No contexto destas afirmações não surpreende que a senhora tenha afirmado, seriamente e sem angústias existenciais, que um cão possa ter consciência da injustiça do seu encarceramento, quem sabe se expressando com articulados uivos e latidos as suas razões. Dar ao bicho nome de gente é simbólico, ou seja, revela uma ideologia. Já dada como garantida a formidável divisão de toda a fauna terrestre entre animais sencientes e não-sencientes, anulando, assim, a vetusta distinção entre racionais e irracionais, está claro que chegou o momento de proceder à humanização de certos mamíferos, nomeadamente aqueles que foram domesticados ou, talvez em melhor concordância com o pensamento de Rita Silva, que nos domesticaram.   

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Regresso do almoço. Cruzo-me com uma mulher que traz um cão pela trela. Fico com a certeza de não pertencer à fatia de humanos que anda a prestar mais atenção aos animais do que a outros humanos. De tal modo que nem me lembro da raça do cão. Se é que não era um gato.

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Era uma vez uma menina que tinha uma capa vermelha e tal e coiso. Como a mãe estava doente e desempregada e não tinha apoios sociais nem dinheiro para a refeição, a menina foi buscar o almoço a casa da avó que vivia na floresta. No caminho encontrou um lobo que lhe perguntou onde ia e conversa para trás e para a frente e chegou a casa da avó e comeu-a. Quando o capuchinho vermelho chegou a casa da avozinha, apercebeu-se que esta tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu é para te comer, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo, quando apareceram três utilizadores do Facebook que o impediram de levar a sua intenção por diante: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento das condições económicas e das oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição em que, para além de outros aspectos relevantes, argumentaram que os animais não têm maldade e que coitadinhos. E confundiram ainda de forma absolutamente involuntária situações de maus tratos a animais, que ninguém defende, com outras de diversa fauna e natureza. A petição teve milhares de subscritores. Dias depois, nasceu uma outra petição que pediu a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e a actividades diversas de ocupação dos tempos livres que incluem, entre outras, corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e graças à excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre por enforcar um coelho, safou-se. Entretanto, teve uma depressão profunda da qual nunca recuperou completamente, tornou-se vegetariano e decidiu passar o resto dos seus dias afastado do mundo, numa reserva de ursos situada no norte do Quebeque. 

 

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Não se esqueça, disse-me uma vez, que o amor pelos animais não acontece naturalmente aos humanos se não se predispuserem a prestar-lhes atenção e a aceitar o amor que eles têm por nós. É como o amor de Deus, inteiro e desinteressado, e por essa razão tanto mais difícil de perceber e abraçar, um amor sem negócio, sem contrapartida, sem condições.

Também ele não soubera o que eram os animais até muito tarde e, tal como sucede a todos os que os descobrem, tratara-se de uma verdadeira conversão, como aquela que se exprime na parábola de S. Paulo na estrada de Damasco: de súbito acende-se dentro de nós uma claridade que nunca mais é possível apagar. Há muita gente que não gosta de animais nem de pessoas, o que é compreensível; há gente que gosta de animais mas não de pessoas, o que é lógico; mas não há ninguém que não goste de animais e goste de pessoas, esta última hipótese não pode verificar-se, porque quem não consegue experimentar o amor sem causa não pode encontrar em parte alguma causa bastante para o amor.

Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012. Edições Tinta-da-China.

 

Trata-se de uma obra de ficção e o ponto de vista inicial é de uma personagem com posições frequentemente discutíveis. Mas, goste-se ou não, considere-se ou não preocupante que muita gente pareça defender mais os direitos dos animais do que os de outras pessoas, ache-se ou não que o ser humano, tendo forçado tantas espécies de animais à domesticação e ao cruzamento forçado para que o ajudassem a melhorar as suas condições de vida, tem uma responsabilidade perante eles e não devia hoje, num mundo ocidental em que a máquina os substituiu, estar tão predisposto a ignorar-lhes as conveniências, abandonando-os ou permitindo o seu abate assim que se tornam incómodos, não deixa de ser verdade: talvez mais do que gostar-se dos animais porque o cinema e a literatura os 'antropomorfizaram', gosta-se deles pelo motivo quase diametralmente oposto: porque não são parecidos com os humanos; não traem nem magoam de propósito e, pelo menos no caso dos cães, tendem a reforçar as posições dos humanos com que se relacionam em vez de as criticarem (ainda que saibamos ter errado, é óptimo obter apoio incondicional). Numa sociedade em que as pessoas, parecendo comunicar cada vez mais, se encontram cada vez mais fechadas em si mesmas, numa sociedade onde a cada dia se renova o paradoxo de que a exposição dos detalhes mais íntimos não equivale a exorcizar os medos nem as inseguranças, antes a renová-los e fortalecê-los, numa sociedade de interesses e frieza, à qual a crise económica veio acrescentar ainda mais dúvidas e temores, os outros humanos não inspiram confiança. Podem ter segundas intenções. Podem – e certamente irão – mudar. Os animais, não – ou não com maldade. A maldade é exclusivamente humana.

 


O livro, acerca do qual, tendo lido pouco mais de metade hoje de manhã, ainda não possuo uma opinião definitiva, está deliciosamente bem escrito. Em – sucede com praticamente todos os autores de língua portuguesa que vale a pena ler – português pré-Acordo.

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Da obscenidade

por Rui Rocha, em 03.02.13

 

Pelo visto, não se trata já dos efeitos da antropomorfização  nascida com os filmes de Walt Disney. Nem da extensão da tese do bom selvagem aos animais. O que está em causa já não é só perguntar se há gatos siameses maus e responder sempre que não, coitadinhos. Ou ter de aturar uma legião de padres américos que se dedicam a pastorear as almas das lagartixas. Ou os que sabem de cor o nome do Zico para o qual pedem uma segunda oportunidade e não perderam um segundo a dar um nome à criança que morreu com o crânio esmagado. Estamos, ao que parece, um passo à frente. No sentido do abismo. Agora, a luta não é apenas a da igualdade de direitos entre animais e humanos. É, mais do que isso, a da admissão da prevalência do direito à sobrevivência de um animal doméstico sobre o de um qualquer ser humano. Isto é, os animais, ou pelo menos certos animais (o que para o caso tanto vale) um passo à frente e os humanos, ou pelo menos certos humanos (para o caso tanto vale) um passo atrás, quando se posicionam numa escolha fundamental de vida ou de morte. Há perguntas de onde não se regressa. Porque mesmo uma resposta negativa transporta sempre um efeito de legitimação da hipótese formulada, mais que não seja enquanto tal. E em caso algum devemos ser cúmplices da obscenidade.

 

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Homem lobo do homem

por José Navarro de Andrade, em 11.01.13

Yang Zhengzhong, "Família feliz", 1995

 

Uma das novidades que poderemos considerar filosóficas do novo século é a nascente ordem natural que se começou formar nalgum senso comum.

Durante milénios havia uma linha na natureza que separava o animal racional (ou espiritual) do animal irracional ou instintivo. O ponto desta separação seria a Consciência – de si, do seu estatuto, da sua diferença e distinção face à Natureza. Nem valerá a pena dilucidar aqui esta coisa da “consciência” dada a abundância de tratados que versam sobre o tema só nos últimos 4.000 anos.

Esta fronteira está ser criticada e tem vindo a ser removida para outra região. Segundo os adeptos das teorias de Peter Singer (não resisto ao mau gosto de chamar a atenção para as suas dissertações sobre o infanticídio), satélites e discípulos, o “especismo” é um erro, ou seja, a discriminação entre animais segundo uma hierarquia de espécies não deve ocorrer porque, na sua particular interpretação darwiniana, se todos os organismos físicos estão num continuum natural, então também deve haver um continuum ético entre eles.

Deste modo a fronteira deve ser traçada entre, por uma parte, os animais “sencientes”, aqueles que estão biologicamente aptos a experimentar prazer e dor e os restantes, noutra parte. Na prática isto significa que entre ti, leitor, e o teu gato há uma identidade que não existe entre o teu gato e o carapau que ambos comeram ao almoço. A nivelação entre animais sencientes, tomados como um todo, procede de uma clara opção filosófica em que se dá primazia à esfera da ética sobre todos os outros campos do saber.

E é aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.

Usando outro caso concreto:

O Zico não teve culpa do seu acto, pelo que não deve ser abatido, reclamam os defensores de uma amnistia para o cão que atacou uma criança. Este argumento é fatal precisamente para quem o profere. Se o conceito de culpa não é imputável a um cão, quer dizer que a ética humana não cobre essa situação que entre os humanos seria clara. Ou seja, não há um continuum ético. Mais: se querem dar uma “segunda oportunidade” ao cão, que não a reivindicou (julgo) e não a reconhecerá (presumo que a um cão será estranho o conceito de mortalidade), o que estão a fazer é do mais radical etnocentrismo, pois pretendem impor os ditames éticos intrínsecos a uma espécie sobre outra.

Seria mais sensato exigirem que o cão fosse julgado por um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda; pelo menos assim combater-se-ia coerentemente o especismo entre animais sencientes.

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Homens e bichos

por Pedro Correia, em 11.01.13

 

Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão "cultural" dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz - algo que soa a um inaceitável primitivismo.

Alarga-se o conceito rousseauniano do "bom selvagem" aos animais, que imaginamos imunes à contaminação do mal. E desembocamos nisto: 30 mil almas sensíveis em defesa de um enternecedor ão-ão que se limitou a "atacar" um bebé de ano e meio (o verbo "atacar" funciona aqui como eufemismo para iludir os factos) e ao qual deve ser concedida uma "segunda oportunidade" (tese quase obscena neste caso, pois cão que mata uma vez pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem. Aliás, se o conceito de "reabilitação social" vigora para os seres humanos, porque não haveremos de lhe atribuir uma interpretação extensiva, colando-o às feras?

A propósito desta história com um final tão infeliz, interrogo-me: se o pitbull de Beja fosse poupado ao abate por um inesperado indulto, que espécie de futuro dono poderia dar guarida, sem o menor sobressalto de consciência, a um cão que levou uma criança à morte?
Apetece dizer-lhes que se vão catar. Não às bestas, mas aos bípedes.

 

Alterei o texto inicial, no penúltimo parágrafo, e actualizei o número dos peticionários

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O que é que se segue? Um relatório do Instituto de Reinserção Social conduzido por uma técnica extremosa que conclua pela mais que provável hipótese de ressocialização? Uma análise sociológica que detalhe exaustivamente a relação irrefutável de causalidade entre o comportamento e a pobreza ou a percepção de desigualdade? Um estudo profundo conduzido pelo Eurostat para determinar o índice de Gini específico da população em que o indivíduo está inserido? Uma tese sobre a discriminação e a exclusão social? Um fórum sobre a globalização e os seus efeitos nocivos? Um workshop para rastrear os efeitos da frustração de expectativas promovido por um Observatório qualquer? Um parecer de uma Comissão sobre a responsabilidade da vítima? Ora abóborasTenham vergonha. Que se abata de imediato o estupor do bicho, tal como prevê a lei. E que, a propósito, se reveja o enquadramento jurídico no sentido da proibição total de detenção de raças como pitbull e bull terrier e da penalização severa de quem violar tal disposição. Quem quer conviver com bestas tem o seu habitat natural na selva.

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Bisontes

por José António Abreu, em 16.09.12
Num dos canais National Geographic uns quantos bisontes macho residentes no Parque Nacional de Yellowstone esforçavam-se por conquistar o coração das fêmeas e afastar a concorrência. Segundo parece, os bisontes macho insinuam-se junto das companheiras de manada («insinuar» talvez seja um verbo demasiado subtil para descrever a atitude dos bisontes mas não resisto a deixar cinco ou seis das oito pessoas e três quartos que ainda estão a ler este post, depois de perceberem que não tem a ver com política, tentando imaginar um bisonte a insinuar-se) através de exibições de porte e dotes vocais (o júri do Ídolos seria implacável), rebolando-se na lama e trotando atrás delas para onde quer que elas se desloquem (de modo um tudo-nada demasiado insistente, if you ask me, em especial se as bisontes fêmea modernas tiveram pontos de contacto com as humanas modernas). Quanto à segunda parte da questão (afastar a concorrência), tratam dela raspando o solo com as patas anteriores, urrando ameaçadoramente (não notei grande diferença para as canções de engate) e dedicando-se a lutas de cabeça contra cabeça. Estas, deixem-me que vos escreva, constituem um espectáculo impressionante, digno de um documentário da National Geographic (que, afinal de contas, era o que aquilo era). Não obstante, segundo o narrador, os bisontes tentarem evitar o confronto físico, cerca de um terço tem ossos partidos em resultado de combates. O que não surpreende quando se vêem dois mastodontes de novecentos quilos cada chocando de cabeça um contra o outro. Repetidamente. Ah, mas o prémio compensa, não? Hummmm, exactamente qual é o prémio? O que é que eles ganham no final de todo este esforço? Preparados? Aqui vai: quinze segundos de prazer. A sério, não é uma figura de estilo: quinze segundos – um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze – é a duração do acto sexual que eles tanto ambicionam. Penso já ter lido que alguns humanos macho também não duram mais do que isso. Mas convenhamos que poucos andam às cabeçadas uns aos outros por causa de fêmeas (ok, alguns também andam mas a maioria fá-lo por amor a Jorge Nuno Pinto da Costa ou a Luís Filipe Vieira). Seja como for, estava eu a olhar para o ecrã com um sorriso entre o espanto e a comiseração, pensando que as fêmeas, quando finalmente desistem de se fazer de difíceis, só podem achar que a montanha pariu um rato (agora é uma figura de estilo) e que, diabos, quinze segundos de prazer (quinze, ok?) não valem tamanho esforço e risco (no mínimo, um bisonte faz sexo com uma dor de cabeça mais intensa do que a de uma humana tentando evitar fazer sexo, no máximo com um traumatismo craniano fatal) quando me apercebi de que, para um bisonte macho, vivendo com escassos métodos alternativos de obtenção de prazer (a paisagem é bonita mas ao fim de um certo tempo deixa de ser novidade e não há televisão, nem livros, nem cinema, nem música, nem blogues, nem Facebook, nem nenhuma daquelas substâncias a que os humanos recorrem para tentarem esquecer como a sua vida, ainda que repleta dessas coisas todas, é deprimente), aqueles quinze segundos representarão muito mais do que um exemplar mediano de homo sapiens está capacitado para entender. Repare-se num detalhe a que pouca gente presta atenção: um bisonte, como a maioria dos restantes animais, nem sequer consegue masturbar-se.

Esta imagem desaparecerá dentro de

quinze segundos. Catorze. Treze. Doze...

 

 (Republicado com alterações. Fotografias pilhadas aqui e aqui.)

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Dos cães e dos homens

por José Gomes André, em 27.08.12

Por estes dias multiplicam-se notícias de pessoas atacadas violentamente por cães. O tema é polémico. Quem invoca o problema é prontamente criticado por insensibilidade ("coitadinhos dos cães") e aversão primária a animais ("tu não gostas de animais, não percebes!"), ou então bombardeado pelos habituais clichés (do tipo "não há cães perigosos, só donos perigosos"). É o politicamente correcto no seu melhor, a impedir um debate sem "cortinas de fumo", e cuja expressão máxima ocorre diariamente no espaço público: apesar dos enquadramentos legais (que obrigam ao uso de trela e de açaime em determinados casos), milhares de pessoas continuam a passear os seus cães na rua sem trela, sem controlo, sem cuidado - ou seja, autenticamente à margem da lei.

 

Por mais que custe aos "amigos dos animais", a verdade é que estes últimos podem iniciar acções violentas sem motivo aparente, tornando-os um perigo permanente para quem com eles se cruze. E uma vez que os animais não podem ser responsabilizados, são os seus donos os culpados por esta ameaça ao bem-estar público. Vejo aliás, com frequência, a satisfação quase mórbida com que muita gente passeia os seus cães sem trela, à espera de encontrar um olhar atemorizado ou um transeunte que pára a marcha ou muda de passeio com medo. Mas ai de quem se atreva a criticar a irresponsabilidade do dono (só explicável por uma qualquer insegurança freudiana): é de imediato adjectivado de medricas ou "insensível". E se por acaso o cão tem um ataque de raiva, ainda somos nós os culpados - "porque mostrámos medo". Afinal de contas, dizem, "ele nunca fez mal a ninguém"...

 

Considero esta forma de intimidação absolutamente inaceitável. Pouco importa se mostrei medo ou não mostrei, se o cão costuma ser calmo ou não. O comportamento de um animal escapa a padrões seguros de racionalidade - e não lhe podendo imputar a responsabilidade de um acto nocivo, não lhe posso igualmente atribuir o direito de limitar a minha liberdade de movimento e acção. Entendam-me: reconheço o direito de qualquer pessoa ter animais, dentro dos quadros legais previstos. Mas essa pessoa não pode usar o seu animal para cercear o meu direito a andar tranquilamente na rua, sem temer que acabe no hospital desfigurado ou com uma perna desfeita por causa de um cão que não é da minha responsabilidade.

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Guerrilha

por Teresa Ribeiro, em 04.12.11

 

 

Pelo som que lhe chegou aos ouvidos ainda entorpecidos pelo sono, percebeu que o gato estava mais uma vez no cimo do móvel, a ameaçar as suas estatuetas da Indonésia. Estupor! - chispa ao levantar-se do sofá direita a ele. O bicho baixa o dorso em atitude defensiva e imobiliza-se fitando-a fixamente. Sai daí! - grita-lhe. Ele não se mexe. Tentar agarrá-lo não é opção, pois na precipitação da fuga poderia derrubar uma das peças. Enquanto medita nisto mantém os olhos fixos nos dele em expressão de ameaça. O bichano sustenta-lhe o olhar. Sai daí! - berra-lhe com rancor. As íris verdes assistem, impávidas, ao espectáculo. Sai, filho da mãe! Só as orelhas se movem, rodando na base, como um radar.

Irada, dá mais um passo na direcção do móvel e o gato, ao sentir ameaçada a distância confortável que os separa, põe-se em guarda, recuando ligeiramente as patas traseiras. Uma das peças quase cai. Ela sua. O ódio transporta-a para cenários de suplício: gato a explodir, gato picado, gato esfolado. Mas a razão aconselha-a a mudar de estratégia. Faz-se desinteressada, senta-se em frente à televisão e espera. Daí a poucos minutos sente-o saltar para o chão. Aproxima-se, cheira-a e depois afasta-se indolentemente deixando-a, ainda crispada, a vê-lo desaparecer de rabo alçado na direcção da cozinha.

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Sábado de Verão: praia e um hotdog

por João Carvalho, em 24.07.10

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