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O PAN em serviços mínimos

por Pedro Correia, em 22.06.17

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Apetece-me perguntar: vale a pena termos um partido pleonasticamente intitulado Pessoas-Animais-Natureza? Um partido que nesta semana que se segue à morte confirmada de 64 pessoas, de milhares de animais e de um número incalculável de árvores nos dramáticos incêndios de Pedrógão Grande (entretanto alastrados a concelhos vizinhos, como Góis, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Ansião, Alvaiázere, Pampilhosa da Serra, Arganil, Penela, Sertã e Ferreira do Zêzere) devia ocupar-se e preocupar-se com particular atenção destas matérias.

Devia, mas não o faz. Consultando o sítio oficial do PAN na internet deparamos só com 32 palavrinhas sobre os dramáticos acontecimentos que enlutaram o País e estão a emocionar a Europa. Estas, que passo a transcrever: «Partilhamos os nossos sentimentos com todas as vítimas, amig@s e familiares, lembrando também os milhares de animais de companhia, de pecuária e selvagens, tal como o património ecológico que desapareceu nesta catástrofe.»

 

Nem um sussurro mais.

Neste seu sítio, o “Partido dos Animais” coloca a tragédia de Pedrógão no mesmo plano gráfico da notícia “PAN concorre pela primeira vez em Cascais nas autárquicas” (aqui num texto com 11 parágrafos) e preocupa-se em promover um “São João vegetariano”, marcado para amanhã no Porto.

Enfim, quase nada. É chocante verificar que uma força partidária tão apostada em promover e enaltecer os valores da natureza se limite numa situação destas a cumprir serviços mínimos, exprimindo sucintas condolências em duas linhas de comunicado. Sem um assomo de indignação nem um arremedo de perplexidade. Pior: sem a exigência pública de um apuramento rigoroso e exaustivo de todas as responsabilidades, doa a quem doer.

 

Mais chocante ainda por contrastar com vigorosas posições assumidas pelo mesmo partido. Há uns anos, por exemplo, quando espalhou pelo País cartazes exigindo o fim daquilo a que chamavam "barbárie dos circos". E num passado muito recente, ao insurgir-se contra a "cegueira ideológica" dos EUA na saída do Acordo de Paris ou quando dirigiu à ONU uma denúncia perante os "novos incumprimentos" de Espanha em relação à central de Almaraz.

Não sei se Donald Trump e Mariano Rajoy ficaram a par destas ruidosas proclamações do pleonástico PAN. Eu confesso-me muito decepcionado com a inesperada apatia do partido naturo-animalista perante o maior incêndio de sempre em Portugal, já registado como o 11.º mais mortífero ocorrido em todo o mundo desde 1900.

Em política, o silêncio também é uma forma de comunicação. Neste caso, o resignado e silencioso conformismo do PAN pesa como chumbo. E deve envergonhar muitos dos seus militantes.

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Grandes animais

por Pedro Correia, em 28.04.17

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Nestas coisas nunca sei o que me choca mais: se aqueles que são capazes, aos milhares, de subscrever um abaixo-assinado contra o abate de um rottweiler que segundo fonte policial deixou  praticamente desfigurada uma criança de quatro anos na via pública (faltando saber se os mesmos ou outros militantes animalistas já se mobilizam em defesa de um arraçado de Serra da Estrela que arrancou uma orelha a outra criança, esta de nove anos), se aqueles que são capazes de desejar a morte de um menino de seis anos só porque teve a desdita de confessar que gostaria de ser toureiro.

Que uns e outros são grandes animais, não me restam dúvidas. Acrescento que, ao contrário do que os visados possam supor, isto não constitui um elogio.

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Animais de estimação

por Helena Sacadura Cabral, em 27.04.17

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Nunca tive animais de estimação. Nem mesmo cães, esses que se consideram os melhores amigos do homem. Mas os telejornais de ontem não só deram conhecimento de que essa amizade por vezes se torna raiva, como lembraram o longo historial da série de acidentes havidos recentemente por investidas de cães contra adultos crianças.

Nada sei da psicologia dos canídeos. Apenas lembro que a minha querida amiga Madalena Fragoso, foi gravemente ferida por uma cão que estimava há já vários anos. E o dela não era de uma raça potencialmente assassina.
Agora que temos um deputado que defende a natureza e os animais talvez fosse ajuizado pedir-lhe que se ocupe de propor legislação que presida à defesa não só destes últimos, mas, sobretudo, à defesa daqueles que, sem qualquer responsabilidade, se vêem num hospital, em consequência deste tipo de agressões, que se está a tornar cada vez mais frequente.

 

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Os talibãs e a tentação da carne

por Pedro Correia, em 28.03.17

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 Um touro desenhado por Picasso

 

Sinto uma aversão inata a todo o tipo de extremismos. Por mais em voga que estejam. Isto inclui o extremismo animalista, povoado de fanáticos com vocação para policiar comportamentos alheios. Não tenho a menor dúvida: hoje invadem ruedos e cercam ganadarias, exigindo a abolição imediata das touradas. Amanhã assaltarão instalações agro-pecuárias reivindicando o fim do abate de aves e gado. Depois de amanhã patrulharão restaurantes para impedir os incautos de consumir iscas ou bifanas.

As minhas últimas dúvidas dissiparam-se ao ler há dias, numa revista feminina, a exaltada proclamação de uma activista vegan contra os agricultores que se atrevem a colher leite em vacarias e ovos em capoeiras. Eis a tese marxista da luta de classes aplicada à relação entre o homem, as vacas e as galinhas. “Os animais trabalham indevidamente para servir os seres humanos”, escandalizava-se esta animalista, insurgindo-se contra o “stress e o sofrimento dos animais quando estão em fila para o sacrifício” em aviários e matadouros.

 

Se pudessem, no seu incansável proselitismo, estes devotos da rúcula e do agrião decretavam o consumo exclusivo de produtos macrobióticos. Aboliriam rodízios e encerrariam churrasqueiras. Proibiriam a extracção de mel das colmeias para não beliscar o labor das abelhas. A matança de porcos, frangos e coelhos seria rigorosamente interdita. No limite, todas estas espécies – só existentes pelo seu valor alimentício e, portanto, comercial – extinguir-se-iam, para deleite destes supostos defensores dos direitos dos animais. Antes vê-los desaparecidos de vez do que em “sofrimento potencial".

Como mandam as cartilhas, tudo isto ocorre em nome de autoproclamados princípios éticos, levando as falanges animalistas mais extremas a entrincheirar-se sem um esgar de hesitação contra os bípedes no milenar confronto entre homens e bestas. A exemplo daquela talibã “antitaurina” que nas redes sociais em Espanha desejou a morte imediata de um rapazinho doente de cancro só porque o miúdo teve a desdita de confessar que quando fosse grande queria ser toureiro.

“Devias morrer já”, assanhou-se a meiga patrulheira, acusando o menino de querer “matar herbívoros inocentes”.

 

Quem é capaz disto é capaz de tudo. Capaz inclusive de exigir a extracção compulsiva dos dentes caninos à população humana para evitar a proliferação do pecado entre quase todos nós, aqueles que continuamos a ceder à tentação da carne.

Já estivemos mais longe.

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Os malucos das vacas voadoras

por Rui Rocha, em 11.01.17

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Pois olha, não sei

por Rui Rocha, em 22.12.16

Ou o gajo está a chamar filho ao cão ou passou a usar o plural majestático em substituição da 3ª pessoa do singular.

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O saber não ocupa lugar

por Pedro Correia, em 19.11.16

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 20.10.16

«Lisboa vai ter a sua primeira creche para cães»

Notícia do Público, com destaque na primeira página

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O meu Rosebud era um canguru

por Pedro Correia, em 18.09.16
 

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Sempre gostei de séries com animais. A minha infância esteve cheia delas. Lembro-me: havia um golfinho chamado Flipper, um leão chamado Daktari, um cavalo negro chamado Fúria, até um urso pardo chamado Gentle Giant.
Mas, entre as séries que a RTP exibia nas tardes de fim de semana, nenhuma me seduziu tanto como esta - produzida entre 1966 e 1968 pela CTVA australiana - que tinha um canguru como personagem principal. Chamava-se Skippy, este marsupial que seguia o jovem dono como se fosse um cão. Foi quanto bastou para sentir uma vontade enorme de ter também um bicho destes. O problema é que cangurus livres como o vento só existem na Austrália - talvez por isso os do Jardim Zoológico de Lisboa nunca me despertaram interesse.
Se não podiam vir eles cá, fui eu lá. Um dia, nos arredores de Darwin, já a cidade cedera lugar à savana, aconteceu um momento mágico: um canguru veio ao meu encontro. Livre e solto como o vento. Lá estava ele - o "meu" Skippy. Demorou-se só o tempo necessário para lhe disparar uma fotografia e logo me virou as costas, indo à sua vida. Mas bastou este momento para justificar a minha primeira deslocação à Austrália.
Ainda hoje penso naquele momento mágico. E logo me vêm à memória os versos do tema musical da série: "Skippy, Skippy, Skippy the bush kangaroo / Skippy, Skippy, Skippy a good friend true."
Desconfio que não preciso de procurar mais: o meu Rosebud é mesmo este.

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Na verdadeira montanha

por António Manuel Venda, em 16.09.16

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Tarde na noite. Uma subida à verdadeira montanha da serra da minha imaginação. Três javalis e depois uma raposa passam apressados na parte alta que entra no nevoeiro. Ou nalguma nuvem contratada para meados de Setembro por ajuste directo pela Direcção Geral de Meteorologia e Desperdícios Tropicais. O dia dos javalis e da raposa, dia entre aspas, ainda é uma criança. Mais abaixo não há nada daquela direcção geral. Apenas um cão, de coleira e ar amigável. Aproxima-se do carro. Junto à minha porta, de vidro aberto, afago-lhe a cabeça. Já não vai para novo. Observa-me com um olhar de sabedoria. Depois afasta-se, sai da estrada e perde-se na vegetação junto de um sobreiro. Podia continuar... Eu. Refiro-me a mim. E ao texto. Escreveria um conto. Ou um pequeno romance. Mas não. Não quero parecer estúpido a esse ponto. Nem pretensioso.

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Protegido pelas flores

por António Manuel Venda, em 21.08.16

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Encontrei-o numa praia deserta, um gato pequenino mas de cabeça grande. Segurava uma amostra de rato na boca, sem grandes ideias de largá-la. Como agora. Lembro-me de na praia ter olhado de uma ponta à outra, em busca de alguma família com crianças que pudessem tê-lo perdido. Uma tentativa um bocado parva numa praia deserta, contudo uma tentativa. Lembro-me até de ter olhado em frente, para o mar que a partir daquela praia esconde todas as áfricas do mundo. E para trás, para a figura majestosa da serra dos dois dinossauros adormecidos. Nada. Nem sombra de pessoas.

Acabei por trazer o gato num pequeno saco de plástico, entre conchas, pequenos búzios e caracóis cor-de-rosa. Nunca largou a amostra de rato, nem no saco, nem em casa atrás de um livro da minha infância, primeiro, e depois junto de construções em barro feitas pelos meus filhos. Mudei-o depois para um recanto do jardim onde os cães dificilmente o descobrirão. E protegido por flores verdes, sempre as de melhor cor. Por causa do sol, e talvez da chuva daqui a um tempo, e das águias, e das rolas que são cada vez mais. Quem sabe até protegido das ventanias do começo da noite.

 

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Os passarinhos também têm céu

por Pedro Correia, em 20.08.16

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O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Manuel Bandeira (1940)

 

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O chocante silêncio do PAN

por Pedro Correia, em 18.08.16

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 Imagem do incêndio no concelho de Arouca, a 12 de Agosto (foto Estela Silva/Lusa)

 

Existe em Portugal um partido chamado Pessoas-Animais-Natureza (PAN), já com representação na Assembleia da República.

Um partido que se proclama, portanto, defensor da flora e da fauna.

Os fogos, como sabemos, destroem a riqueza ambiental, reduzindo a cinzas o nosso património ambiental e agrícola. E conduzem à morte um número incalculável de vegetais e animais.

 

Acabo de visitar a página oficial do PAN e fiquei decepcionado: o partido parece ter entrado em férias a 2 de Agosto, dia em que dá nota da "quadragésima quinta reunião" da sua Comissão Política Nacional, ocorrida a 30 de Julho.

Nem uma palavra depois disso.

Nem uma palavra, portanto, sobre a tragédia dos fogos ocorrida desde então em Portugal.

O partido amigo da natureza não registou o facto de haver já ardido no nosso país 118 mil hectares de terreno, o que corresponde a 54% do total ocorrido este ano em toda a União Europeia.

O PAN, que há poucas semanas se mostrou tão preocupado com a "gestão ética da população dos pombos nas cidades", seja lá o que isso for, nem uma palavra sussurrou até agora sobre os fogos neste trágico Verão em que "já se bateu o recorde de área contínua ardida acima do Mondego".

E demonstra uma inaceitável indiferença perante o sucedido, por exemplo, na ilha da Madeira: as chamas devastaram 22% do concelho do Funchal.

 

É inaceitável este silêncio do partido ambientalista perante a acção criminosa dos incendiários. Sobretudo por contrastar com o seu recente frenesim mediático, quando o PAN apresentou uma iniciativa legislativa que pretendia eliminar da paisagem rural o tradicional burro a puxar a carroça ou o boi a puxar o arado e pôr fim às charretes sob o extraordinário argumento de que os turistas norte-americanos que nos visitam ficam "chocados" com tais coisas.

Chocado fiquei eu com esta apatia estival do PAN.

Lá mais para o Outono, quando o cair da folha os despertar da letargia, talvez os seus dirigentes que tanto se preocupam com a opinião dos americanos percebam enfim que o País ardeu enquanto estiveram a banhos.

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"socialismo do século XXI" não se limita a lesar pessoas, que buscam em desespero na vizinha Colômbia ou no fronteiro Brasil os alimentos básicos que deixaram de encontrar no seu país: também já condena os animais à morte. A começar por dezenas de bichos do jardim zoológico de Caracas, que vão morrendo de desnutrição e fome.

Tavez seja excessivo esperar reacções do  Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, amigos e aliados do chavismo-madurismo em Portugal. Mas aguardo pelo menos um enérgico protesto do PAN, tão preocupado com os preços das rações para animais por cá enquanto aves, coelhos, tapires e porcos do Vietname vão morrendo no zoo da capital venezuelana e tigres e leões se alimentam ali de mangas e abóboras - enquanto há.

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Leaving home

por António Manuel Venda, em 03.06.16

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A vaca e o porco

por Alexandre Guerra, em 23.05.16

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Animals (1977) 

Ao ver a vaca voadora de António Costa veio à memória o célebre episódio que ocorreu em finais de 1976, quando um piloto de um avião comercial nos arredores de Londres terá reportado à torre de controlo que estaria a ver um "porco a voar". A história ganhou contornos de mito urbano, mas a sua origem pouco tem de mitológica e remete-nos para um balão de nove metros cheio de hélio em forma de porco e que ficaria imortalizado na capa do álbum Animals (1977) dos Pink Floyd concebida pelo genial Storm Thorgerson. Mas ao contrário da vaca fofinha de Costa, que não se conseguiu livrar da mão controladora do poder instalado, o Mr. Pig (como se lê num dos cartazes da banda), que devia ficar preso e a pairar sobre a Central Eléctrica de Battersea (já desactivada), localizada junto ao Rio Tamisa, mostrou toda a sua "teimosia" e libertou-se da sua amarra logo na primeira sessão fotográfica e lá foi ele a voar livremente pelos céus de Londres (esta ideia de "libertação não deixa de ser irónica, se tivermos em consideração que este porco foi inspirado pela famosa obra de Orwell, "Animal Farm"). O porco acabaria por ir parar a Kent e terminaria aí a sua aventura, sendo recuperado por um agricultor local que se mostrou irritado porque o suíno terá assustado as suas vacas, que lá estavam tranquilamente com as patas bem assentes na chão, que é onde, aliás, devem estar. 

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Sobre os direitos dos animais

por Teresa Ribeiro, em 19.05.16

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Acho justa a classificação, face à lei, dos animais como "seres sensíveis", por duas razões: porque são, indiscutivelmente, seres e porque a experiência já me deu suficientes provas de que sentem.

A acrimónia que as iniciativas do PAN tem provocado espanta-me. Não falo dos caçadores e dos aficionados, pois esses, naturalmente, vêem a instituição de medidas de protecção animal como uma caixa de pandora que a prazo poderá ameaçar rituais que os apaixonam. Mas sei de muita gente que não se encaixa nesse perfil e mesmo assim trepa às paredes quando se fala de "direitos dos animais". Desde logo argumentam que os animais não são sujeito de Direito, logo não podem ter direitos. Entrincheiram-se nesta lógica e daqui não saem esquecendo que uma das principais funções da lei é criar fundamentos de justiça e contribuir para a civilidade num Estado de Direito.

Quem como eu tem acesso regular a informação sobre o que aparece em clínicas veterinárias e associações de proteção animal, só pode congratular-se com estas iniciativas, porque entendo que o sadismo, mesmo o que é exercido sobre animais, deve ser punido. Quem não quiser fazer como a avestruz veja no google, de preferência com o estômago vazio, o que acontece a alguns "animais de estimação".

As leis servem para, à falta de melhor, nos civilizar. Já li que "a sensibilidade não se decreta por lei". Nada mais falso. As leis também educam, porque criam massa crítica, e sobretudo funcionam como aceleradores de bons costumes, que o digam as mulheres que num passado recente nem sequer podiam votar ou abrir uma empresa.

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Fábula onde os animais não falam

por Inês Pedrosa, em 08.05.16

Primeiro ouvi o carro a subir a ladeira, aceleração no máximo: que não se duvidasse da potência de quem o conduzia. Depois o choque: bem feita, pensei. Em seguida, o ruído da marcha-atrás e o arranque veloz. Então ocorreu-me que o meu carro estava estacionado mesmo ali, de onde viera o ruído do choque, e saltei do sofá onde estava tranquilamente absorvida pelas reflexões de Milan Kundera sobre a falta de sentido das acções humanas. Encontrei a traseira do meu pobre automóvel, que me serve sem sobressaltos desde 2003, desfeita. Da besta que o esmagou, só os traços das rodas no asfalto. O cão dos vizinhos sabe quem é, fartou-se de ladrar, mas infelizmente não fala. A GNR veio com rapidez, dois agentes muito simpáticos; anotada a ocorrência, prometeram uma volta nos arredores dos bares das aldeias próximas, procurando o responsável. Mas não o encontraram: os cobardes safam-se quase sempre, no mundo de Kundera como no nosso. Passei anos a rejeitar as redes sociais por causa da infestação de ratos humanos. A certa altura, descobri que um jornalista que eu mal conhecia estava zangado comigo por causa de comentários que alguém lhe dirigira num blogue, fazendo-se passar por mim. Descobri também duas páginas de facebook feitas por um alter-ego meu, totalmente desconhecido e tonto. Acabei por aderir ao Twitter, e agora aceitei o gentil convite que o Delito de Opinião me endereçou. Haverá sempre cobardes infames: tanto podem atacar no mundo virtual como no mais remansoso e real recanto rural. Mas não nos vencerão.

Inês Pedrosa

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Mundo cão

por Rui Rocha, em 12.12.15
Está em discussão no Parlamento a criminalização do abandono de idosos, com pena de prisão até 2 anos. O PCP e o Bloco votaram contra. Entretanto, o abandono de animais de companhia foi criminalizado em 2014, sendo punido com pena de prisão até 6 meses. Para este efeito, de acordo com a Lei 69/2014, entende-se por animal de companhia qualquer animal detido ou destinado a ser detido por seres humanos, designadamente no seu lar, para seu entretenimento e companhia.  Isto é, em Portugal, hoje, o abandono de um hamster ou de um canário é crime, mas o da avó ou do avô não. E ainda que a legislação agora discutida seja aprovada, o abandono de animais de companhia continuará a ser crime em qualquer circunstância e o de pessoas de idade apenas o será se o abandono ocorrer em hospitais. Isto é, e salvo se forem abandonados em hospitais, os idosos não estarão mais protegidos mesmo com a nova legislação do que os animais para fins de exploração agrícola, pecuária ou agroindustrial (vacas ou ovelhas, por exemplo) que foram excluídos do âmbito de protecção da Lei 69/2014. Vivemos, de facto, num mundo cão.

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Liberdade para a águia Vitória

por Pedro Correia, em 05.11.15

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É sempre bom saber que o DELITO DE OPINIÃO contribui para despertar a opinião pública mais esclarecida.

Liberdade para a águia Vitória, já!

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Circos, touradas e águia Vitória

por Pedro Correia, em 28.10.15

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Leio que o PAN (vulgo, Partidos dos Animais) quer pôr imediato fim à humilhante exibição de animais em cativeiro para gáudio de multidões ululantes com instintos primários à solta.

Acho muito bem.

Por isso venho associar-me sem reservas a esta meritória acção do jovem partido em defesa dos direitos dos animais. Além do fim das touradas e dos espectáculos com animais em circos, além da defesa acérrima dos gansos que as bestas humanas transformam em nojento foie gras, é fundamental terminar com a escandalosa, degradante e reiterada violação dos direitos de imagem e personalidade do mais conhecido animal com penas existente em Portugal.

Liberdade para a águia Vitória. Já!

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Frases de 2015 (50)

por Pedro Correia, em 24.10.15

«Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa que está em coma.»

André Silva, líder do PAN, em entrevista ao Expresso

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E, já agora, mais uma coisinha

por Rui Rocha, em 03.08.15

Cecil? Jericó? Quem caraças anda a escolher os nomes dos leões?!?!?!

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Cecil

por Helena Sacadura Cabral, em 03.08.15

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Quando a morte de um leão numa caçada se torna objecto de importância maior do que que o drama vivido pelas pessoas que tentam atravessar as águas para buscar terra livre, é porque algo, neste mundo, está muito pior do que se consiga imaginar.

Não duvido que a morte de Cecil, o símbolo felino do Zimbabwe, se revista de aspectos muitíssimo lamentáveis. Mas, confesso - e que me perdoem os defensores dos direitos dos animais -, a sorte dos que fogem do inferno africano ainda continua a preocupar-me muito mais.

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Na ribanceira

por António Manuel Venda, em 19.05.15

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O cão super-herói que até tem uma experiência relevante de frequência da Universidade de Évora (foto das cadeiras azuis) deixou-se ontem ludibriar por uma armadilha para os javalis. A noite já chegada e eu pelo caminho com a cadela sua companheira bem segura numa trela comprida (para ela não fugir, o que levaria a que andasse umas horas desaparecida). Ouvi o cão ganir por perto, quando o normal é ouvi-lo ladrar enquanto segue os cheiros dos escalavardos e dos javalis. Corri para o som dos ganidos com a cadela bem segura. Uma ribanceira, e o cão pendurado por uma das patas traseiras. Subi a custo – seria fácil sozinho, mas com a cadela tive de ter mais cuidado. Fomos os dois, porque não estive para perder tempo a procurar uma árvore em que conseguisse prendê-la. Era difícil estar na ribanceira a segurar o cão, que é bem pesado. Para conseguir usar as duas mãos, prendi a cadela a uma perna. Tentei libertar o cão do laço, mas os esforços para se libertar tinham feito apertar o nó de uma forma que me fazia ter dificuldade até para olhar. Mas ele estava calmo, por isso não devia ter a pata partida. Foi o que pensei, enquanto tentava desfazer o nó mesmo na ponta da pata, a uns dois centímetros das unhas. Só desfiz um bocado, a maior parte ficou. Eu costumo levar um pequeno machado, precisamente por causa dos javalis. Mas ontem não levei. Tinha no entanto o telemóvel. Ao fim de meia hora na ribanceira – eu, o cão calmo a perceber que não se devia mexer e a cadela meio agitada –, chegou o machado, e mais uma foice roçadeira, e uma tesoura de podar. A tesoura foi o melhor para cortar a armadilha, feita com um cabo de plástico bem duro e com metal lá dentro. Depois de cortar o cabo – coisa que não foi fácil –, deslizámos os três pela ribanceira. Já no caminho, cortei o resto de cabo que ainda apertava a ponta da pata do cão. Vi-o em menos de nada correr sem coxear. Uma corrida longa até perdê-lo dos meus olhos. Depois voltou, reapareceu do escuro, e tentou abraçar-me com um salto e as duas patas compridas, as da frente. Pareceu-me que quis primeiro ir ver se conseguia correr como antes. Vinha feliz.

 

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Amores perfeitos

por Teresa Ribeiro, em 14.02.15

 

 

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Já me tenho perguntado se farei parte do número de pessoas que gostam mais de animais do que de gente. É que há provas que me incriminam. Já chorei muito mais pela perda de um gato do que por vários parentes próximos que se finaram. E o pior é que quando penso nisso não sinto culpa, apenas perplexidade.

Enquanto escrevo estas linhas olho para o Boogie, o meu erro de casting, que se aninhou, esfíngico, a dois palmos de mim. No deve e haver dos afectos, este está claramente em vantagem. Nunca o verguei. É demasiado selvagem para se render a afagos e latas de whiskas. Da sua estirpe rafeira constam muitos sobreviventes, não duvido. Trinca espinhas que resistiram à fome, ao frio e à crueldade humana com todas as ganas. E lá estou eu a justificar-lhe a agressividade opondo-o aos da minha espécie, que tenho sempre mais dificuldade em desculpar. Vai-se a ver e é isto. O amor que reservo para os humanos é mais exigente.

Tem dias em que me apetece atirar o meu hóspede pela janela, porque é um sacana de um gato impossível de domar, interesseiro, egoísta, altivo e arisco. Mas depois penso que é apenas um animal bravio que nunca há-de perceber nada de nada. Até de uma criança pequena se espera mais entendimento.

Os animais não compreendem nada de nada, estão a milhas da nossa complexidade. Podia até ser um monstro que este estúpido gato não perceberia. Talvez o maior conforto que os animais nos dão seja esse: são incapazes de nos julgar e até os mais ariscos nos aceitam tal como somos.

Amar nestas condições é tão fácil, que não resisto. Duvido que quando este gato me morrer fique lavada em lágrimas, como já me aconteceu com outros animais que tive, mas sei que vou sentir-lhe a falta, porque faz bem beneficiar desta aceitação sem restrições. Se a isto ele juntasse o amor irracional e portanto sem limites, de que tantos bichos são capazes - e não falo só de cães e gatos, mas de seres tão bizarros como cágados, tão minúsculos como passarinhos - levar-me-ia ao tapete e mais uma vez a perguntar-me se porventura gosto mais de animais do que de pessoas.

Mas a pergunta, bem vistas as coisas, não é esta. A pergunta é: "Gosto mais de amar animais ou pessoas?". A resposta, que não é linear, leva-me à verdadeira questão de fundo: "É mais fácil amar animais ou pessoas?"

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Família alargada

por Pedro Correia, em 29.12.14

I

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 II

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 III

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Prioridades

por João André, em 19.11.14

No início de Novembro a contabilidade de mulheres assassinadas este ano pelos parceiros estava em 32. Isto só as mulheres assassinadas, sem contar com crianças e idosos e sem contabilizar as agressões. Uma das macabras personagens andou uns tempos fugido e até passou a herói popular.

 

Um cão morre de fome - maus tratos, portanto - e dá em revolta popular.

 

Faz sentido. Com humanos destes mais vale apoiar os cães.

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Quatro patas sim, duas patas não

por Pedro Correia, em 09.10.14

Certos defensores dos animais esgotam as limitadas doses de compaixão nos quadrúpedes enquanto proclamam: "Há humanos que deviam ser abatidos!" São sujeitos sensíveis, ma non troppo.

Vale a pena ler, aliás, esta caixa de comentários na íntegra.

Encontra-se lá de tudo um pouco: desde a donzela que garante aos quatro ventos ser incapaz de auxiliar um ser humano com doença contagiosa ("porque tenho animais e não os ia sujeitar a isso") até aos apologistas do suicídio obrigatório e compulsivo. Passando por alguém que assegura: "Tenho uma cadela e posso dizer-lhe que gosto mais dela [do] que [de] muita gente até da minha família!" E pelo fulano que grita: "Eutanasiemos o indivíduo." Espero ao menos que tenha sido vacinado contra a raiva...

Já chegámos a este ponto em matéria de inversão de valores. Mas não tenhamos dúvidas: isto está muito longe de terminar aqui.

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Dia Mundial do Animal

por Joana Nave, em 04.10.14

Os animais trazem felicidade às nossas vidas. Adoptem, cuidem, mimem e sejam felizes!

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A ética na pós-modernidade

por Rui Rocha, em 23.08.14

Pamela Anderson recusa banho gelado porque na investigação para a cura da ELA são realizados estudos experimentais com animais.

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O ouriço

por António Manuel Venda, em 16.08.14

Provavelmente ainda andam por lá a falar do tipo que ontem à noite desatou a correr, naquilo a que poderemos chamar um destino turístico dos que enchem até a maior parte das pessoas se abalroarem umas às outras. Estava lá de passagem, não como turista, que ao que parece nunca foi na vida. Correu mesmo muito - mais um doido, deve montes de gente ter pensado -, e no fim da corrida conseguiu dominar com o pé direito um ouriço-cacheiro que atravessava uma rua de vivendas de alto custo mas baixo gosto. O ouriço, convenientemente, enrolou-se, para não complicar o domínio de bola. Mas logo a seguir meteu as patas de fora e dirigiu-se para uma cerca de rede. Não conseguiu passar. O tipo que tinha corrido para ele passou rapidamente de jogador de campo a guarda-redes. Apanhou-o com dez mil cuidados, o ouriço de novo uma bola, levantou-o a mais de um metro de altura fazendo figas para que ele não pesasse muito por causa dos picos a atacarem as palmas das mãos, e depois deixou-o cair para o outro lado da cerca. A boa acção da noite. O ouriço lá seguiu o caminho dele, olhando de vez em quando para trás, ou a agradecer ou então, o mais certo, a ver se se tinha livrado daquele tipo estranho, tão diferente dos que falavam inglês, alemão, francês, ispanhuele e até português de Lisboa e arredores. O tipo era eu. Já o ouriço não sei. Era um ouriço, na volta um ouriço de Verão contratado por algum vogal da direcção do Turismo de Portugal nem imagino com que objectivos. Só sei que não era o meu ouriço, o que teve a gentileza de entrar nos meus «Contos Municipais» e de abdicar dos direitos de imagem ao aparecer na capa do livro. Há ouriços porreiros entre os ouriços-cacheiros (a rima não foi forçada, apenas aconteceu). O meu é um ouriço porreiro. O de ontem à noite também deve ser. Na volta são todos porreiros. Os ouriços-cacheiros. Já os ouriços-humanos duvido. O mesmo vale para os humanos-cacheiros. Para os humanos até sem mais nada. Nem eu sei se sou porreiro. Provavelmente sou. Mas há uns filhos da puta que juram a pés juntos que não. Nem será bem a pés juntos. É mais a patas juntas. Juram mesmo. Puta que os pariu...

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Amor é isto

por Teresa Ribeiro, em 14.08.14

www.noticiasaominuto.com/mundo/262660/porque-os-ursos-tambem-morrem-de-desgosto?utm_source=vision&utm_medium=email&utm_campaign=daily

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Pode-se ver toda a noite

por António Manuel Venda, em 03.04.14

 

Pode-se ver toda a noite mesmo com o escuro. Agora, pela janela. Lembro-me de que percebi no relógio do rádio do carro que eram 2:22 quando cheguei (os números iguais despertaram-me a curiosidade). E lembro-me de que ouvi o noticiário da uma quando conduzia a sair de Lisboa, perto do aeroporto. Há que tempos que não saía assim tarde do escritório, a ter de telefonar ao segurança para abrir o portão da garagem. Ele ainda me deu um bocado de conversa quando cheguei ao portão, talvez para me despertar, porque se percebia facilmente que os meus olhos estavam com tendência para fechar. Acho que no Marquês de Pombal já ia bem, na Avenida da República ainda melhor, e depois junto do aeroporto até reparei na existência de um hotel que desconhecia. Vim tranquilo. Se fosse de sexta para sábado, a umas horas destas, já sei que teria de soprar o balão em Pegões, em Vendas Novas e com sorte - perdão, com o azar todo - na rotunda das chaves de Montemor, junto ao árabe Rio Almansor que às vezes nem para ribeira serve. Mas não, à quarta os gê-ene-érres vão-se amalhar mais cedo, não sei se por alguma postura legal que tenham de seguir, se apenas por coincidência, por embirração ou para pouparem gasóleo. Acabei por entrar na estrada de terra. A que numas centenas de metros me levaria ao montado. As pedras dá para ir evitando, e algumas são bem perigosas, mas a lama e os buracos cheios de água não (evita-se um, aterra-se noutro). E ao fim de um quilómetro abrandei, na zona onde sei que os javalis atravessam. Nem sempre os vejo, mas esta noite vi. Sete ou oito, e apenas um era bem pequenino - seguia atrás com mais dificuldade e eu nem as pernas lhe consegui perceber; uma bola, era uma bola que se mexia, quase que poderia ser confundido com um ouriço-cacheiro assim tipo dos do basket, bem grande mas todo enrolado. Parei, tive de parara para passarem todos, e nessa altura lembrei-me que talvez viessem de algum dos cafés do Reguengo, de terem ido espreitar o Chelsea ou o Real Madrid. E que amanhã o mais certo será não falharem o Benfica, nem que seja por causa da flash interview do Jorge jesus, que deve fasciná-los - não sei se por igual se mais as fêmeas do que os machos, ou se mais o pequenino que quase dá para confundir com um ouriço-cacheiro. Não conto passar ali a seguir ao jogo amanhã, por isso não ficarei a saber das vidas deles, nem perguntarei quando parar no Reguengo. Quero lá saber por onde andam os javalis. Esta noite só serviram para me atrasar, mas gostei de ver o pequenino, e se não fosse o perigo de à mãe lhe dar alguma fúria teria saído do carro e tentado apanhá-lo. Juntava-o aqui ao ouriço-cacheiro que fotografei para o novo livro e à raposo que fica com olhos de luz quando à noite a apanho com o telemóvel. Foi melhor não sair do carro. E além disso tinha fome. Queria tanto chegar a casa. Sempre concentrado nas pedras, na lama e nos buracos cheios de água. Mas distraído com as luzes lá no ar por entre a ramagem dos sobreiros, as luzes das estrelas, e também as dos olhos das vacas, dos vitelos, dos dois ou três bois e das ginetas e dos outros gatos-bravos. Gostava mesmo de apanhar uma gineta, como tentei no outro dia e se calhar só não consegui porque estava de fato. Como hoje. E com os sapatos castanhos de que mais gosto, que um guru português há dias - estupidamente - classificou como «amaricados», quando eu fui falar numa coisa o melhor que sabia e tentando não dizer grandes asneiras. Os mesmos sapatos de hoje. A certa altura, lá ao fundo, junto ao portão ainda imaginado do monte - onde os máximos do carro ainda não chegavam, vi mais duas luzes. Pequeninas. Não me iludi, obviamente, com a ideia de que uma gineta esperasse por mim para se deixar apanhar. Sabia de que luzes se tratava. Quando os máximos lá chegaram ele levantou um pouco a cabeça. Talvez para confirmar se era mesmo eu. O Punkinho - pequeno punk, ou punk pequenino, assim se pode traduzir-lhe o nome, embora de punk nada tenha. Desde que horas me esperaria ali?, foi o que me perguntei. Eu que me tinha despedido dele de manhã, ainda cedo. Da mãe nem sinal, nem da irmã. Preferem o montado e só aparecem para comer ou quando lhes dá uma espécie de estranhas saudades que faz com que entrem em casa e se queiram amalhar por aqui. O barulho era, como escrevem por distração alguns dos melhores escritores, ensurdecedor. Os cães. Do lado de dentro do portão. Tal como o Punkinho, queriam jantar. Tal como eu, também. Abri-lhes o portão e sugeri-lhes que fossem caçar uma vaca - ou um boi, se tivessem coragem. Nada. Quiseram lá saber. Esperavam pela ração. Tal como o gato branco que espera por mim o lado e fora do portão e conhece melhor a Universidade de Évora (por causa do Hospital Veterinário) do que o relvas a Universidade Lusófona. Dei comida a todos (incluindo a mim, que fiquei para último). O gato já dorme na minha cadeira de escrever, atrás de mim, obrigando-me a ficar sentado na ponta, com a coluna mais direita. Deviam obrigar os políticos a terem cada um um gato assim na respectiva cadeira. Para que todos endireitassem a coluna. Podia ser de plástico. Um gato de plástico, para não ter de ser um gato verdadeiro a aturar gente assim. A Assunção Esteve talvez ainda não estivesse reformada se aos quarenta e um anos e não sei quantos meses já tivesse um gato desses na cadeira do tribunal, creio que o constitucional. De coluna direita teria dito que não fazia sentido a reforma; assim, sem o gato, foi a porcaria que se viu. Os cães ainda ladram agora. Sabem que falta as cascas das maçãs da minha sobremesa. Pelam-se por elas. Mas agora que esperem, mesmo que ladrem como loucos (cães loucos, entenda-se). Já lhas vou levar. E depois talvez os consiga convencer a irem caçar uma vaca. Ou um fantasma perdido na escuridão do montado - se usar lençol branco será fácil, quase que apostaria que está bem lixado, que os cães em menos de nada o poderão apanhar, mas o mais certo será aparecerem-me no monte apenas com o lençol e ainda por cima todo rasgado (é o mesmo com a roupa que cai do estendal). Daqui passo para o meu romance. Farei tempo a escrevê-lo até às oito para ir apanhar os meus filhos e levá-los às escolas. Quatro escolas diferentes. É normal que às vezes as confunda. O mundo, aliás, é todo ele uma enorme confusão, mesmo no silêncio da noite, depois de os cães terem as cascas das maçãs.

 

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Um gato à chuva

por Pedro Correia, em 29.12.13

 Dia de Natal, 2013 (foto minha)

 

"Ha perduto qualque cosa, Signora?" 

"There was a cat", said the American girl.

"A cat?"

"Si, il gatto."

"A cat?", the maid laughed. "A cat in the rain?"

"Yes, –" she said, "under the table." Then, "Oh, I wanted it so much. I wanted a kitty."

 

Hemingway, Cat in the Rain

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Blue eyes

por António Manuel Venda, em 15.12.13

 

Uma ferida curada no hospital veterinário da Universidade de Évora, com a obrigação de usar um colar e de não se meter em aventuras pelo montado aqui à volta. Mas acabou por meter-se. O Punkinho (traduzindo, punk pequenino) escapou-se um domingo ao fim da tarde e voltou passados três dias já sem colar, com mais feridas e o olho esquerdo transformado nem consigo dizer bem em quê. Uma luta com uma gineta, foi o que me disseram no hospital da universidade, a julgar pelas marcas das unhas à volta do olho e também lá dentro. O facto de ter tido o colar tê-lo-á impedido de defender-se como estava habituado a fazer, como fazia o pai antes de morrer, como ainda hoje faz a mãe, como faz também a irmã. Uma médica pessimista disse que o mais certo seria ele perder o olho, mas uma colega optimista disse que talvez não. Tratamentos e mais tratamentos. Quase dois meses. Pingos e pomadas pelo olho esquerdo adentro. Umas infusões manhosas pelas goelas abaixo. Um dia atrás do outro. Alguns dos pingos de quatro em quatro horas. Em dias de ida a Lisboa eu ia deixá-lo ao hospital, para não se perder o ritmo do tratamento. Uma coisa de espantar, o hospital veterinário da universidade. Sempre uma médica e mais uns seis ou sete alunos a ajudarem, uns a parecerem mais adiantados do que outros a julgar pelas fardas diferentes. Uns, quer dizer, umas, porque é quase só alunas. Espera-nos por certo um país de veterinárias... E mais uma coisa, as aulas, o Punkinho chegava a ir a aulas, do «senhor professor», como eu ouvia dizer. Pediam-me e eu deixava. Por causa das patologias, era bom para as aulas práticas, segundo me explicaram. Um dia voltou de uma aula com o pelo da barriga rapado e todo envergonhado. Uns exames internos, para os alunos (quer dizer, as alunas) perceberem. Tudo isto me parecia sempre aquelas séries parvas norte-americanas da moda passadas em hospitais, só que de pessoas. Mas o olho salvou-se. O gato surpreendente voltou a surpreender. Antes tinha estado fora sete anos, até voltar num fim de tarde de Inverno, de pêlo quase preto. Não sei por que países ou continentes terá andado. Mas era ele. Reconheci-o logo. O Punkinho, o pequeno punk que de punk pouco tem mas ficou com o nome assim porque foi o que lhe calhou em sorte. Agora está preparado para novos problemas. Vê tão bem do olho esquerdo como do direito. O olho esquerdo continua tão bonito como o direito. Os olhos azuis, «blue eyes», como um tipo espanhol que estudou comigo na Alemanha e inacreditavelmente dominava o inglês costumava cantar por lá às raparigas, até quando era atendido por uma numa loja. O Punkinho vai de certeza voltar ao montado. Sem colar. E tem de se defender, nem que lhe apareça um javali.

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Macacos me mordam

por Rui Rocha, em 12.12.13

Diz uma lenda que um Deus, desses que proviam a algum povo primitivo, terá recebido um dia, em audiência, uma delegação de macacos. Traziam-lhe uma única reivindicação: queriam tornar-se homens. Viu-se assim o Deus em apertos pois, não querendo desagradar à macacada, também não via com bons olhos um tal desenlace. Conservador seria, pois que estava ainda preso a uma visão do mundo em que aos macacos correspondia o seu galho. E é possível até que existisse, que sabemos nós, uma cláusula de exclusividade da condição de humanidade, assinada pelo punho do próprio Deus, assegurada em contrapartida de todas as penas, provações, angústias e privações que em geral calham ao Homem pela tão simples razão de ser humano. Foi assim que o Deus, incómodo na cadeira, acabou por mandar a simiesca representação, é um dizer, pentear os outros macacos. Não com estas palavras, claro está, para não ferir susceptibilidades. Já então, nesses começos deste nosso mundo, a questão dos sentimentos dos animais era tratada com pinças. Até porque eram tempos em que eles próprios falavam, verbalizando quanto lhes fosse na alma, que já então a tinham e bem sabemos que é assim  porque entretanto não a perderam. Foi deste modo que o Deus, entalado como estava, prometeu aos macacos que estes se tornariam homens (e mulheres se fossem macacos fêmeas pois que, por esse então, as únicas questões fracturantes incluídas na agenda mediática diziam respeito ao divergir das placas tectónicas) logo que, passada a noite que já se avizinhava, raiassem os primeiros afagos de sol sobre aquela parte do planeta que, por direito próprio e natural, era também dos macacos. E assim foram os ditos à vida deles. Com o rabo entre as pernas, não porque a reunião lhes tivesse corrido mal, bem pelo contrário, mas porque era esse o lugar onde lhes era naturalmente mais confortável tê-lo. O certo é que assim que o Deus tirou os macacos de debaixo do nariz (tirá-los de dentro é coisa de homens, imprópria  da condição divina) pegou na trouxa onde guardava os prodígios, que eram basicamente trovoadas, aguaceiros e acentuado arrefecimento nocturno, e foi ganhar a vida para outras paragens estabelecendo-se, ao que se sabe, junto de uma tribo que vivia por alturas do local onde hoje é Roma. O certo é que os macacos, que mal pregaram olho, viram ao nascer do dia toda a sua ilusão defraudada. E começaram em guinchos angustiados e desesperados urros. Coisa que, por esse único e exacto motivo, ainda hoje fazem, tal como podemos comprovar, à falta de melhor, no zoológico mais próximo ou em qualquer filme do Tarzan. Ora, pelo que leio, têm por estes dias os juízes do Supremo Tribunal de Nova Iorque a oportunidade de, com uma só decisão, reporem a Justiça, substituindo-se ao Deus incumpridor e a Darwin. Basta para tal que reconheçam a um chimpanzé, representado pelo seu advogado, o direito de ser considerado pessoa jurídica. Isto é, ali onde o tal Deus não foi sequer capaz de escrever direito por linhas tortas, pode o bom Tribunal estabelecer uma linha recta entre o chimpazé, a ética e o fundamento ontológico. Se for assim, os macacos poderão finamente substituir os ontens que guincham e urram por manhãs em que cantam. Trata-se, se virmos bem, de um pequeno passo para a humanidade e de uma patada de gigante para os macacos. Temo, todavia, que os motivos para festejar sejam efémeros. Se está demonstrado que um macaco com um teclado acabará mais tarde ou mais cedo por escrever uma obra de Shakespeare, nada impede que um outro, mais peludo, descubra um dia, tal como Kant, os pressupostos tortuosos da culpa e da obrigação. A pessoa jurídica macaco, então já unanimemente reconhecida nos códigos legais, deixará de ser um mero portador de direitos para passar a ser também, tal como os homens e as mulheres, sujeito (por oportuníssima contraposição a objecto) a deveres e punições. Ora, ou me engano muito ou isso poderá significar, mais cedo do que tarde, o fim da macacada.

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Coisas realmente importantes

por Pedro Correia, em 22.10.13

"Os cães também são pessoas"

Notícia do Expresso

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O animal de companhia

por Rui Rocha, em 08.09.13

Sempre me pareceu forçado o argumento de acordo com o qual o cão é o melhor amigo do Homem. Digo que alguma dúvida sobre o ponto sempre deveria resultar da velha regra prática jornalística que estabelece que só serão notícias situações em que o homem ou a mulher mordem o cão. E isto só pode dever-se à circunstância de mordidelas caninas em humanos serem relativamente frequentes e absolutamente excepcionais aquelas em que um ser humano espeta os caninos nos canídeos. Por outro lado, os que apregoam que os cães são melhores que os humanos esquecem algumas considerações essenciais. Tal proclamação é feita por aqueles que levam o cão a passear. Acompanham o cão ao veterinário. Partilham a casa com o cão e, não poucas vezes, o quarto de cama. Limpam a merda do cão. Catam as pulgas do cão. Compram refeições gourmet para o cão. Preocupam-se com o equilíbrio nutricional da alimentação do cão. Fazem festinhas ao cão porque os afectos, a estabilidade emocional e a auto-confiança do animal também são importantes. Mens sana in corpore sano dizia-se em latim embora talvez não se soubesse então que a máxima teria aplicação aos emissores de latidos. Ora, sejamos razoáveis. Compreende-se bem que, em geral, os cães que são objeto de tal deferência e desvelo correspondam dando a patinha. Pudera! Experimentassem os adoradores de cães dispensar a mesma atenção e cuidado à generalidade dos humanos, proporcionando-lhes casa, alimentação, roupa lavada e carinho e logo veriam que seriam igualmente correspondidos com meia-dúzia de afáveis lambidelas e olhares reconhecidos. Leva-nos isto a outra falácia argumentativa dos adoradores de animais. A que refere que a humanidade de alguém se mede pelo modo como trata a canzoada e demais membros da criação não humana. Isto é, fulano e sicrano podem ser gente da pior espécie (e a pior espécie é, como sabemos, a humana) que ainda assim atingirão o nível avançado de humanismo extremo se proporcionarem três refeições diárias de whiskas premium e corte de unhas semanal ao felino que decidiram ter em cativeiro no apartamento em que partilham duas assoalhadas. Escrevi há dias que o conceito de animal de companhia já conheceu épocas mais gloriosas e que lhe sucederia o do Homem como companhia do animal. Não podia estar mais certo. Basta ler o regulamento da Maratona do Cão promovida pelo Continente para percebermos que já aterrámos nesse admirável mundo novo. De acordo com o ponto 1.2, designar-se-á de participante o elemento canino – cão - e como acompanhante(s) a(s) pessoa(s) designada(s) para participar nas provas de Corrida e na Caminhada Canina. Espero, sinceramente, que no final da prova vão todos dar banho ao cão.

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Caninamente

por José Navarro de Andrade, em 08.08.13

O mastim que supostamente trucidou uma criança (o prudente advérbio de modo deve-se ao facto de a magistrada não ter dado como provada uma relação de causa e efeito entre as dentadas do pitbull e a morte da vítima) foi entregue no princípio deste mês, assim deliberou o tribunal, à guarda da Associação Animal.

A Sra. D. Rita Silva, responsável por esta organização, tendo todos os motivos para celebrar semelhante decisão, deu largas à sua filosofia:

“Vamos chamá-lo Mandela, porque tal como o líder sul-africano este cão também é um símbolo de liberdade. Esteve preso sete meses sem saber porquê, tal como Mandela esteve preso mais de duas décadas”.

"A ANIMAL dá SEMPRE nomes de humanos ou de outros animais aos animais que resgata. Fá-lo SEMPRE como uma homenagem."

“Desconfiamos que pode ter problemas de saúde. Depois, não excluímos o recurso a um comportamentalista animal e a uma especialista em recuperação de animais agressores.”

No contexto destas afirmações não surpreende que a senhora tenha afirmado, seriamente e sem angústias existenciais, que um cão possa ter consciência da injustiça do seu encarceramento, quem sabe se expressando com articulados uivos e latidos as suas razões. Dar ao bicho nome de gente é simbólico, ou seja, revela uma ideologia. Já dada como garantida a formidável divisão de toda a fauna terrestre entre animais sencientes e não-sencientes, anulando, assim, a vetusta distinção entre racionais e irracionais, está claro que chegou o momento de proceder à humanização de certos mamíferos, nomeadamente aqueles que foram domesticados ou, talvez em melhor concordância com o pensamento de Rita Silva, que nos domesticaram.   

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Políticos, esses animais

por António Manuel Venda, em 20.07.13

 

Conheci em tempos (creio que em 1998) um ex-presidente de câmara destronado à tangente nas eleições anteriores por uma candidata estreante. Tinha estado no cargo para cima de vinte anos, os últimos acumulando com a presidência da junta metropolitana da sua área. Numa das reuniões que tivemos estava também presente um ex-secretário de Estado – e futuro, embora na altura eu não soubesse –, ex esse que tinha para com o antigo autarca uma reverência que achei digna de espanto. Tratava-o inclusive por «senhor presidente», coisa que ainda me fez pensar se a certa altura não surgiria alguma retribuição do género «muito bem, senhor secretário de Estado». Isso, contudo, não aconteceu, e inclusive o homem derrotado pela estreante deixou-me a ideia de não ser muito dado a imitações. Aliás, se fôssemos a ligar à roupa, por exemplo, ele distinguia-se logo; era o único que não tinha gravata, como parecia ser moda no seu partido, e esse pormenor se calhar até me deixava mais mal a mim – e ao ex e futuro secretário de Estado – do que a ele, que parecia completamente à vontade. Teria dispensado o artefacto com a saída da câmara? Ou a dispensa seria algo já de muitos anos? Eu tinha-o visto poucas vezes, apenas na televisão e em jornais, e a verdade é que nunca tinha ligado à sua indumentária habitual. O que logo me vinha à cabeça ao ouvir o nome do homem não era a forma como se vestia, era antes uma expressão com que a ele se referiam: «um dinossauro do poder local».

Sempre associei a palavra «dinossauro» ao temível Tyrannosaurus Rex, o maior carnívoro terrestre de que até hoje foram encontrados vestígios. Segundo informam alguns compêndios, e também a Internet, era um bicho assustador, com uma cabeça que ultrapassava um metro de comprimento, e dispunha de meia centena de dentes bem afiados, alguns chegando aos vinte centímetros. Enfim, era uma autêntica máquina de matar e de retraçar. Na posse destas informações, claro que ao encontrar alguém a quem chamavam «dinossauro do poder», ainda que «local», compreende-se que eu não conseguisse evitar certos temores. Mas no caso não se justificaram, porque o ex-presidente de câmara revelou ser uma pessoa bastante afável.

Aliás, pensando melhor, talvez a questão nem tivesse a ver com o verbo justificar, porque ao falar-se de «dinossauros», não de toda a política mas apenas do «poder local», isso não obriga necessariamente a que seja no mau sentido. A expressão até costuma ser utilizada para melhor ilustrar o longo tempo que determinadas pessoas estão nos cargos, e algumas, sabemo-lo bem, estão desde a pré-história da democracia portuguesa, que decorreu lá pela segunda metade da década de 1970. O facto de alguém ser tratado por «dinossauro» não implica necessariamente comportamentos reprováveis, de caciquismo ou até de tendência para falcatruas e cambalachos, por exemplo. Os eleitores podem ter sido, digamos assim, obrigados a gostar da pessoa, mas também podem ter gostado livremente. Ou seja, a expressão «dinossauro do poder local» acaba em determinados casos – não sei se muitos se poucos – por traduzir-se num herbívoro e não no sanguinário Rex. Talvez seja mais o Brachiosaurus, um pachorrento gigante que passava a maior parte do dia a comer folhas de coníferas, que pelos vistos eram as suas árvores preferidas. Calcula-se que bastava duas toneladas de folhas por dia para o pôr de bom humor. A confirmar esta ideia, o meu encontro com aquele ex-autarca, um «dinossauro do poder local» que se revelou uma simpatia de pessoa.

Já para a política em geral não é tão comum o uso do termo «dinossauro». Aí vai-se mais pelas generalizações, chamando «animal» (nunca «bicho») a quem se considera como sendo um verdadeiro político. E faz-se isso sempre no bom sentido, ou seja, pressupondo que a pessoa em causa conhece o mundo da política e vive para ela – e dela, já agora, ainda que não ande lá apenas a tratar da sua vidinha. Enfim, respira política como os poetas respiram poesia, ou como os economistas respiram nem sei bem o quê (mas alguma coisa há-de ser). O «animal político», o verdadeiro, não o de peluche, obviamente, é visto assim. Honesto, com objectivos elevados, capaz de ver mais longe do que os outros, pensando globalmente, na comunidade e não apenas em si próprio. Às vezes faz-se confusão em relação a certos políticos, chamando-se-lhes erradamente «animais», pelas suas múltiplas artimanhas para singrarem na actividade, mas para esses tal terminologia não é adequada. São apenas «sobreviventes» e de cada um deles para usar o termo «animal» só se poderá dizer «é um grande animal», ou até «é uma besta» (ou, se quisermos especificar mesmo o animal, «é um porco», ou «é uma vaca», ou «uma cabra», no caso de se tratar de uma mulher). Nunca «é um animal político».

Outra variante que apareceu na política, ou entre os políticos, tem a ver com a crítica, que não implica necessariamente um julgamento negativo. Crítica é uma análise fundamentada, que pode ser boa ou má; os poderes do vulgo é que levaram o termo a suscitar uma certa carga negativa assim que é pronunciado. Talvez até por isso seja importante determo-nos nessa vertente, a dos aspectos negativos, porque afinal uma das características da política, provavelmente a primeira, é dizer mal. E, além disso, o lado positivo já foi sobejamente referido («é um dinossauro do poder local», «é um animal político»). Uma das manias que já notei na política, como auxiliar da actividade de dizer mal de adversários – e não raras vezes de companheiros –, é a da associação de adjectivos e substantivos nada inocentes a palavras como «político», «política» ou «politicamente» e a expressões como «em termos políticos» ou «politicamente falando», ou mesmo «numa perspectiva política». Entre outras. Veja-se os seguintes exemplos, com semelhanças ao que por vezes circula na comunicação social: «Politicamente cobarde»; «Em termos políticos, é uma fraude»; «Tem uma actuação política ignóbil»; «Não está a ser politicamente honesto»; «Trata-se, sem dúvida, de um camaleão, isto em termos políticos»; «Um autêntico assassino, politicamente falando»; «Um perigoso pirómano da política»; «Uma sanguessuga política»; «Tem ideias de uma pobreza política gritante»; «Numa perspectiva política, um ladrão»; «Politicamente irresponsável»; «De baixo carácter político»… E creio que basta. Já o «pára-quedista», o «prestidigitador», a «amélia» e o «tachista», por exemplo, não costumam requerer acompanhamento, assim como estranhamente não o tiveram «barata tonta», «mosca morta», «picareta falante» e «adiantado mental». Pelo contrário, «deserdado», «dependente» e «desempregado» tiveram («deserdado da política», «político-dependente», «desempregado da política»). E «boy» não teve, ao contrário do que julgo deveria acontecer com «boi», como adiante referirei.

A ajuda de termos ou expressões bastante simples permite dar a volta às coisas e usar o «assassino», o «ladrão», o «cobarde», a «sanguessuga» e outros. Curiosamente, os animais até não são utilizados de uma forma insistente por cá. No Brasil, por exemplo, imagino que seja bem diferente, mas dentro das nossas fronteiras nunca dei por coisas como «gato político» («rato» já ouvi, «rato da política»), «urso, em termos políticos», «politicamente, um boi» ou «cão político», embora já tenha ouvido referências a «rafeiro político», o que até é compreensível. Também não dei por «cobra», «serpente» ou «cascavel». Nem «abutre», nem «gavião», tudo «político». Esta falta de insistência, provavelmente, é apenas fruto do acaso, ou então não é nada disso e eu é que nunca prestei a devida atenção ao que por cá se vai dizendo e escrevendo. Com tantos bichos, sempre que surja a oportunidade, sabe-se lá se não vêm mesmo à baila. Nem que seja um de cada vez. O escaravelho, por exemplo, que para nós é um bicho repelente, embora no antigo Egipto tivesse um carácter sagrado (nos desenhos animados da série «Abelha Maia», lembro-me de que havia um que passava a vida a empurrar bolas de estrume de um lado para o outro). E a doninha, que não é nada bem vista, assim como o furão, que tirando alguns caçadores poucos adeptos consegue juntar. Aliás, o furão já foi utilizado por um programa de televisão, embora apenas para nome de um boneco inspirado num político.

Com o recurso aos artifícios linguísticos, parece que ninguém se ofende, ou pelo menos ninguém se mostra ofendido. Talvez seja até uma forma de evitar o avolumar de processos nos tribunais. Afinal, um dos problemas com que os políticos ainda não sabem como lidar, a par dos da saúde, da educação, da cultura, da economia, da segurança social, do ambiente, dos transportes, do desporto, do emprego, entre outros, é o da justiça. Distraído ou não, com tudo o que já ouvi, devo confessar que, além de mais bichos, espero por novos termos e novas expressões. Por exemplo, coisas tão portuguesas como «cabrão» ou «filho da puta», sempre a emparelharem com o arranjo da praxe – «O senhor, politicamente, é um grande cabrão»; «O senhor, em termos políticos, é um filho da puta, mas só em termos políticos, obviamente, porque a nível pessoal até o considero um bom amigo». A par do «assassino», do «pirómano» e da «sanguessuga», nada disto haveria de ficar muito deslocado. E depois ainda há aquela história das imunidades.

 

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A raposa de olhos de luz

por António Manuel Venda, em 13.07.13

 

A raposa que gosta da comida dos gatos. Os olhos de luz é defeito do fotógrafo. A pressa dá nisto.

 

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Apanha-me se puderes

por António Manuel Venda, em 14.06.13

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Regresso do almoço. Cruzo-me com uma mulher que traz um cão pela trela. Fico com a certeza de não pertencer à fatia de humanos que anda a prestar mais atenção aos animais do que a outros humanos. De tal modo que nem me lembro da raça do cão. Se é que não era um gato.

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Era uma vez uma menina que tinha uma capa vermelha e tal e coiso. Como a mãe estava doente e desempregada e não tinha apoios sociais nem dinheiro para a refeição, a menina foi buscar o almoço a casa da avó que vivia na floresta. No caminho encontrou um lobo que lhe perguntou onde ia e conversa para trás e para a frente e chegou a casa da avó e comeu-a. Quando o capuchinho vermelho chegou a casa da avozinha, apercebeu-se que esta tinha umas mãos, uns olhos e uma boca muito grandes. Fez-lhe aquelas perguntas todas e, quando chegou à da boca, o lobo respondeu é para te comer, saltou da cama, comeu a menina e adormeceu. Um soldado da GNR que passava por ali, entrou, viu o lobo a dormir e lembrou-se que este podia ter comido a avó. Preparava-se para cortar a barriga do lobo, quando apareceram três utilizadores do Facebook que o impediram de levar a sua intenção por diante: que não, que era preciso perceber se o lobo não teria justificação para proceder daquela maneira. Exigiram a elaboração de um relatório de integração social, um levantamento das condições económicas e das oportunidades de vida, uma análise exaustiva da infância do lobo e diversas outras perícias. Fizeram uma petição em que, para além de outros aspectos relevantes, argumentaram que os animais não têm maldade e que coitadinhos. E confundiram ainda de forma absolutamente involuntária situações de maus tratos a animais, que ninguém defende, com outras de diversa fauna e natureza. A petição teve milhares de subscritores. Dias depois, nasceu uma outra petição que pediu a punição do soldado da GNR pelo crime de maus tratos na forma tentada. Graças à intervenção dos três utilizadores do Facebook, o lobo passou a viver na casa da avozinha, tendo direito a quatro refeições quentes diárias, visita semanal do veterinário e a actividades diversas de ocupação dos tempos livres que incluem, entre outras, corte periódico de unhas. O soldado da GNR foi julgado e graças à excelente defesa de um advogado que uns anos antes ficara célebre por enforcar um coelho, safou-se. Entretanto, teve uma depressão profunda da qual nunca recuperou completamente, tornou-se vegetariano e decidiu passar o resto dos seus dias afastado do mundo, numa reserva de ursos situada no norte do Quebeque. 

 

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Não se esqueça, disse-me uma vez, que o amor pelos animais não acontece naturalmente aos humanos se não se predispuserem a prestar-lhes atenção e a aceitar o amor que eles têm por nós. É como o amor de Deus, inteiro e desinteressado, e por essa razão tanto mais difícil de perceber e abraçar, um amor sem negócio, sem contrapartida, sem condições.

Também ele não soubera o que eram os animais até muito tarde e, tal como sucede a todos os que os descobrem, tratara-se de uma verdadeira conversão, como aquela que se exprime na parábola de S. Paulo na estrada de Damasco: de súbito acende-se dentro de nós uma claridade que nunca mais é possível apagar. Há muita gente que não gosta de animais nem de pessoas, o que é compreensível; há gente que gosta de animais mas não de pessoas, o que é lógico; mas não há ninguém que não goste de animais e goste de pessoas, esta última hipótese não pode verificar-se, porque quem não consegue experimentar o amor sem causa não pode encontrar em parte alguma causa bastante para o amor.

Paulo Varela Gomes, O Verão de 2012. Edições Tinta-da-China.

 

Trata-se de uma obra de ficção e o ponto de vista inicial é de uma personagem com posições frequentemente discutíveis. Mas, goste-se ou não, considere-se ou não preocupante que muita gente pareça defender mais os direitos dos animais do que os de outras pessoas, ache-se ou não que o ser humano, tendo forçado tantas espécies de animais à domesticação e ao cruzamento forçado para que o ajudassem a melhorar as suas condições de vida, tem uma responsabilidade perante eles e não devia hoje, num mundo ocidental em que a máquina os substituiu, estar tão predisposto a ignorar-lhes as conveniências, abandonando-os ou permitindo o seu abate assim que se tornam incómodos, não deixa de ser verdade: talvez mais do que gostar-se dos animais porque o cinema e a literatura os 'antropomorfizaram', gosta-se deles pelo motivo quase diametralmente oposto: porque não são parecidos com os humanos; não traem nem magoam de propósito e, pelo menos no caso dos cães, tendem a reforçar as posições dos humanos com que se relacionam em vez de as criticarem (ainda que saibamos ter errado, é óptimo obter apoio incondicional). Numa sociedade em que as pessoas, parecendo comunicar cada vez mais, se encontram cada vez mais fechadas em si mesmas, numa sociedade onde a cada dia se renova o paradoxo de que a exposição dos detalhes mais íntimos não equivale a exorcizar os medos nem as inseguranças, antes a renová-los e fortalecê-los, numa sociedade de interesses e frieza, à qual a crise económica veio acrescentar ainda mais dúvidas e temores, os outros humanos não inspiram confiança. Podem ter segundas intenções. Podem – e certamente irão – mudar. Os animais, não – ou não com maldade. A maldade é exclusivamente humana.

 


O livro, acerca do qual, tendo lido pouco mais de metade hoje de manhã, ainda não possuo uma opinião definitiva, está deliciosamente bem escrito. Em – sucede com praticamente todos os autores de língua portuguesa que vale a pena ler – português pré-Acordo.

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